Os “bonsais da destruição climática”: em Campos, a motosserra parece ter virado instrumento de paisagismo

Em plena primavera e sob o agravamento da crise climática, árvores são mutiladas e abatidas, enquanto a arborização urbana de Campos dos Goytacazes parece estar sendo submetida a uma curiosa política de redução de copas, sombras e qualidade de vida


Quem circula pelas ruas de Campos dos Goytacazes pode estar testemunhando o surgimento de uma nova escola de paisagismo urbano. Nela, quanto menor a copa de uma árvore, melhor. Se os galhos forem eliminados quase completamente, melhor ainda. E, se a árvore for abatida de uma vez, talvez tenhamos atingido a perfeição estética pretendida pelos adeptos dessa modalidade bastante peculiar de gestão ambiental. Pelas imagens que registrei ontem na Beira Rio, parece que estamos diante de uma verdadeira epidemia de produção dos chamados “bonsais da destruição climática”, uma contribuição tipicamente campista à arte de transformar árvores de grande porte em monumentos à ausência de sombra.

Para quem não sabe, o bonsai é uma técnica de origem chinesa, posteriormente aperfeiçoada e difundida pelos japoneses, que consiste no cultivo de árvores em miniatura, mediante procedimentos cuidadosos de poda, condução de galhos, manejo das raízes e controle do crescimento. Trata-se de uma arte que exige conhecimento, paciência e respeito às características biológicas das espécies cultivadas. Entretanto, existe uma diferença fundamental entre cultivar um bonsai em um vaso e transformar árvores adultas das vias públicas em caricaturas de si mesmas. Enquanto o bonsai tradicional procura reproduzir, em escala reduzida, a beleza e a complexidade de uma árvore, o bonsai da destruição climática parece empenhado em eliminar justamente aquilo que torna uma árvore indispensável ao ambiente urbano: sua copa, sua sombra e sua capacidade de amenizar as temperaturas.

O problema seria apenas uma manifestação de mau gosto paisagístico se não estivéssemos vivendo um período de agravamento da crise climática global. Em cidades como Campos dos Goytacazes, onde as temperaturas elevadas já constituem uma característica marcante do clima local, a presença de árvores nas ruas, calçadas e praças deveria ser considerada uma infraestrutura ambiental estratégica. Afinal, as copas das árvores reduzem a incidência direta da radiação solar sobre o pavimento, contribuem para amenizar as temperaturas por meio da evapotranspiração, interceptam parte das águas das chuvas e oferecem abrigo para diferentes espécies da fauna urbana. Ao reduzir drasticamente essas copas, estamos eliminando serviços ambientais que não podem ser substituídos por canteiros ornamentais, vasos de concreto ou promessas de futuros plantios.

Mas existe outro aspecto particularmente curioso nessa aparente febre de transformação das árvores campistas em bonsais gigantes: a escolha do mês de outubro para a realização dessas intervenções. Em muitas situações, especialmente para espécies de clima temperado e árvores caducifólias, o período de menor atividade vegetativa, frequentemente situado entre maio e agosto no hemisfério sul, oferece condições mais adequadas para determinadas modalidades de poda. Entretanto, esse calendário não pode ser aplicado indiscriminadamente às espécies tropicais, pois a época correta depende da espécie, de seu ciclo fenológico, das condições climáticas e da finalidade da intervenção. Em Campos, onde predominam condições climáticas quentes, o manejo deveria respeitar essas particularidades. Ainda assim, realizar podas drásticas em plena primavera, quando muitas árvores apresentam intensa brotação e crescimento, levanta questionamentos adicionais sobre os critérios técnicos empregados.

É importante esclarecer que a poda, quando necessária e corretamente executada, constitui uma prática legítima de manejo da arborização urbana. Galhos comprometidos, interferências perigosas com redes elétricas e problemas estruturais efetivamente identificados podem justificar intervenções. Entretanto, existe uma distância considerável entre uma poda tecnicamente fundamentada e a eliminação indiscriminada de grandes porções da copa. Cortes excessivos podem produzir ferimentos extensos, favorecer a entrada de organismos causadores de doenças, estimular brotações estruturalmente frágeis e comprometer a estabilidade futura das árvores. Em determinadas situações, aquilo que é apresentado como uma medida preventiva de segurança pode acabar produzindo exatamente o contrário: árvores mais vulneráveis e potencialmente perigosas.

As fotografias que acompanham esta postagem, registradas em uma via pública de Campos dos Goytacazes, mostram árvores submetidas a intervenções severas, incluindo troncos praticamente desprovidos de copa e cortes recentes em galhos de grande porte. Não é possível determinar apenas pelas imagens quais justificativas técnicas foram apresentadas para cada intervenção, mas o resultado visual é suficientemente preocupante para exigir explicações. Afinal, quem está autorizando essas operações? Existem laudos individuais demonstrando sua necessidade? Quais profissionais estão definindo a intensidade das podas? E, sobretudo, existe algum planejamento municipal capaz de compatibilizar a segurança urbana com a preservação da cobertura arbórea?

Essas perguntas ganham ainda mais importância quando consideramos que pesquisas em andamento no Setor de Estudos sobre Sociedade e Meio Ambiente, do Laboratório de Estudos do Espaço Antrópico (LEEA), vinculado ao Centro de Ciências do Homem da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), já identificaram um quadro preocupante de remoção de árvores no bairro do Flamboyant. Os levantamentos iniciais apontam uma relação de aproximadamente 2,4 árvores removidas para cada muda plantada, além de uma distribuição espacial desigual dos novos plantios. Isso significa que o problema não parece estar restrito à poda de algumas árvores isoladas, mas pode representar uma dinâmica mais ampla de empobrecimento da infraestrutura verde da cidade.

E aqui chegamos ao aspecto mais contraditório dessa história. Enquanto cientistas e organismos internacionais alertam para a necessidade de ampliar a cobertura vegetal das cidades como uma das estratégias de adaptação às mudanças climáticas, em Campos parecem existir setores empenhados em percorrer o caminho inverso. Em vez de ampliar as áreas sombreadas, reduzimos as copas. Em vez de preservar árvores adultas, que levaram décadas para alcançar seu porte atual, permitimos sua mutilação ou remoção. Em vez de tratar a arborização urbana como patrimônio ambiental coletivo, ela parece continuar sendo considerada um obstáculo inconveniente, que pode ser eliminado sempre que surgir alguma dificuldade administrativa.

Talvez os defensores dessa modalidade de paisagismo estejam imaginando que, com menos folhas e galhos, as ruas ficarão mais limpas e os serviços de manutenção serão simplificados. O problema é que as árvores não existem nas cidades apenas para satisfazer preferências estéticas ou facilitar o trabalho das equipes de limpeza. Elas cumprem funções ambientais essenciais, especialmente em um contexto de aquecimento global. E quem paga o preço de sua eliminação são principalmente os pedestres, os ciclistas, os trabalhadores que passam longas horas expostos ao sol e os moradores que não dispõem de recursos para se proteger das temperaturas elevadas.
Por isso, seria interessante que a Prefeitura de Campos dos Goytacazes esclarecesse quais são os critérios técnicos que orientam as podas e os abates atualmente realizados, identificando os responsáveis pelos serviços, os laudos que os fundamentam e as medidas previstas para preservar ou recuperar a cobertura arbórea. A população tem o direito de saber se está diante de uma política de manejo ambiental cientificamente fundamentada ou simplesmente de mais um capítulo da tradicional preferência por soluções rápidas, visualmente impactantes e ambientalmente desastrosas.

Enquanto essas explicações não aparecem, proponho que as árvores mutiladas sejam reconhecidas como representantes de uma nova categoria do paisagismo urbano: os “bonsais da destruição climática”. Diferentemente dos verdadeiros bonsais, que resultam de uma relação cuidadosa entre seres humanos e árvores, esses exemplares são produzidos mediante a supressão de grande parte da estrutura vegetal que deveria ser preservada.

E assim, em uma cidade que deveria estar se preparando para enfrentar temperaturas cada vez mais elevadas, parece que estamos aperfeiçoando a arte de eliminar justamente aquilo que poderia nos oferecer algum alívio.
No ritmo em que as coisas caminham, talvez a próxima inovação do paisagismo campista seja substituir as árvores por postes de concreto. Afinal, estes não produzem folhas, não precisam de podas e, principalmente, não oferecem a inconveniência de fazer sombra.

Em Campos, o estranho caso de uma prefeitura em guerra contra árvores

No último domingo saudei a recriação da Secretaria Municipal de Meio Ambiente pelo prefeito Wladimir Garotinho. Achei, talvez em uma tola ilusão, que finalmente chegaríamos a um modelo de governabilidade minimamente ajustado às necessidades crescentes de adaptação ao processo de mudanças climáticas que assola o planeta neste momento.

Eis que hoje me chegaram imagens de podas drásticas realizadas em árvores existentes na sede da PMCG e, pasmemos todos, nos próprios da recriada Secretaria Municipal de Meio Ambiente ( ver imagens abaixo).

Àrvores completamente mutiladas no entorno da sede da Secretaria Municipal do Meio Ambiente

Árvores mutiladas por podas drásticas na sede da Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes

A explicação dada a quem ousou perguntar o porquê de podas tão drásticas que claramente comprometem a saúde das árvores mutiladas. A resposta seria o combate à famigerada “Erva de Passarinho” (que são plantas arbustivas hemiparasitas das famílias Loranthaceae e Santalaceae, pertencentes à Ordem das Santalales). Essas plantas são Nativa em todos os continentes do mundo, e parasitam diversas espécies de árvores de grande porte.

Pois bem, vejam abaixo uma das árvores que sofreram poda drástica na sede da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, e me digam se para fazer tamanha mutilação, já que as ervas de passarinho estavam localizadas em galhos inferiores e a poda foi para lá de drástica. Me parece claramente que não.

Árvore mostrada acima na Secretaria Municipal de Meio Ambiente antes de sofrer a poda drástica

A questão aqui é que existem soluções menos drásticas para a remoção das infestações de “Erva de Passarinho” que incluem a simples remoção manual ou apenas a retirada do galho infestado. A solução de podar toda a árvore não apenas é drástica, como vai muito além do que seria necessário, comprometendo a vida útil desses instrumentos fundamentais para a regulação climática urbana. Pelo jeito o que vale é o bordão “pode vir quente que estou fervendo”.

O pior é que se o governo municipal que deveria dar o exemplo no esforço de proteger o nosso limitado estoque de vegetação, o que dirá da população em geral?  Ao realizar essas podas drásticas, o que o governo municipal está dando é uma espécie de licença para podar drasticamente e do jeito que for. Eu digo isso porque se olhar atentamente as árvores podadas sequer a aplicação da calda bordalesa foi realizada, deixando as árvores em condições propiciais para a infestação por fungos e bactérias.  Tudo isso em nome de uma guerra às árvores em uma cidade em que chove pouco e as temperaturas médias são de um tropical “caliente”.

Finalmente, uma pergunta inocente: para onde é levada toda a madeira obtida com essas podas drásticas? É que eu lembro de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) assinado pelo prefeito Arnaldo Vianna junto ao Ministério Público Estadual para não apenas diminuir a prática das podas drásticas, mas também para impedir a comercialização da madeira obtida com elas. Aliás, depois de mais de 20 anos desde que aquele TAC foi assinado, eu me pergunto sobre quem acompanha o seu cumprimento.  Pelo jeito, ninguém.

A Enel e seu milhão de podas no estado do Rio de Janeiro: bom para quem?

A caixa postal deste blog recebe diariamente materiais preparados por empresas e agências de publicidade. Como parte disso, recebo frequentemente materiais preparados pela agência que cuida da imagem da concessionária de energia elétrica, a Enel.

A nota em questão aborda a realização de podas de árvores em cidades do estado do Rio de Janeiro entre 2023 e 2024. Segundo a nota que me foi enviada, neste período a Enel Distribuição Rio teria realizado cerca de um milhão podas preventivas de galhos e árvores em todas as 66 cidades da sua área de concessão. A ação, que faz parte do Plano de Ampliação e Confiabilidade do Fornecimento de Energia e Segurança da Rede Elétrica da empresa tem como objetivo declarado reduzir o impacto da vegetação na rede elétrica e reforçar a resiliência do sistema “diante dos crescentes desafios climáticos“.

Segundo dados da nota, só em 2024  teriam sido executadas 561.128 podas, número 41% maior do que o efetuado em 2023. Até o fim de 2025, a estimativa é de que a Enel Rio realizará 628 mil podas, um crescimento de 12% em relação a 2024.

PODA DRÁSTICA É CONSIDERADA INFRAÇÃO AMBIENTAL - AMAU - Associação de  Municípios do Alto Uruguai

Podas drásticas inviabilizam árvores e os serviços ambientais que elas oferecem

O que me preocupa é saber que na cidade de Campos dos Goytacazes, a Enel Rio efetuou 35.560 podas, um incremento de 172% em comparação com 2023! E por que a preocupação?  É que ontem mesmo pude assistir a uma série de podas realizadas na Rua Saldanha Marinho e elas tinham toda a característica do que se pode chamar de “drástica” que é aquela que chega ao ponto de inviabilizar a árvore tamanha é alteração de suas características físicas no pós-poda.

Além disso, é interessante notar que toda essa quantidade de podas está sendo realizada sem que haja o devido acompanhamento por parte de um órgão municipal. Quando observo que as podas estão sendo feitas em alguma rua de nossa cidade, o que se vê é apenas a presença de um caminhão da própria Enel que se encarrega de poda e da remoção do material retirado das árvores. Com isso, quem monitora se o tipo e a intensidade da poda feita é realmente necessária e adequada?

Por outro lado, quando a Enel fala dos crescentes desafios climáticos, o que fica evidente nas podas feitas é que o desafio da proteção climática dos cidadãos não é considerado. Se fosse assim, a primeira coisa que não se faria seria realizar podas no período mais quente do ano, quando qualquer sombra ajudaria a minimizar os efeitos drásticos da perda da proteção dada pelas poucas árvores que existem nas ruas campistas.

Por isso, há que se cobrar das prefeituras fluminenses que parem de deixar algo tão essencial na mão de uma empresa que claramente encara as árvores como um elemento de risco para os seus interesses privados. É que se a Enel continuar podando no ritmo que está, e sem nenhuma supervisão, não sobrará nenhuma árvore para nos proteger dos recordes de temperatura que estão e continuarão ocorrendo por causa das mudanças climáticas.

Ampla comanda, leve e faceira, o massacre da floresta urbana em Campos dos Goytacazes

Não bastasse o verão escaldante e sem chuvas para tornar a vida do campista num verdadeiro caldeirão, a concessionária Ampla continua massacrando a já depauperada floresta urbana que existe na cidade de Campos dos Goytacazes. Basta ter uma câmera na mão que fica fácil documentar a realização de podas drásticas como a mostrada na fotografia tirada esta manhã na Avenida 28 de Março!

ampla

Apesar de acompanhar o problema das podas drásticas em logradouros públicos na cidade de Campos desde meados de 1998, ainda fico impressionado com o fato desta prática lesiva aos nossos interesses coletivas continuar de forma descontrolada e, porque não, impune.

Cadê a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e o Ministério Público Estadual para exigir que a Ampla adote práticas ambientalmente responsáveis na hora de fazer podas que só são necessárias porque a empresa continua distribuindo energia elétrica de forma ultrapassada e sem respeitar o meio ambiente local?