Acre: estradas invisíveis avançam e colocam em risco unidades de conservação e terras indígenas

A expansão silenciosa dos ramais revela como a infraestrutura precária, impulsionada por políticas públicas ambíguas e ocupações informais, reconfigura o território amazônico ao mesmo tempo em que aprofunda o desmatamento e fragiliza áreas protegidas

Na Amazônia, onde rios sempre foram caminhos e fronteiras, a abertura de estradas representa mais do que infraestrutura: é a materialização de um projeto histórico de ocupação. Desde a expansão promovida durante o regime militar brasileiro, entre 1964 e 1985, a malha viária na região tem avançado como instrumento de integração territorial, mas também como vetor de profundas transformações sociais e ambientais. No Acre, esse processo ganha contornos particularmente reveladores ao expor a tensão permanente entre políticas públicas, dinâmicas econômicas e a fragilidade dos mecanismos de controle territorial.

O mais recente mapeamento da rede de estradas e ramais no estado mostra que, entre 1989 e 2025, foram identificados mais de 24 mil quilômetros de vias. Trata-se de um crescimento contínuo, com acelerações em momentos específicos — como em 2006, 2019, 2020 e 2025 — que coincidem com ciclos de expansão da fronteira agrícola e aumento do desmatamento. Esses números não apenas dimensionam a extensão física da rede, mas revelam a persistência de um modelo de ocupação que se apoia na abertura de caminhos precários, muitas vezes fora de qualquer planejamento institucional.

A distinção entre estradas oficiais e ramais é central para compreender essa dinâmica. Enquanto as primeiras são registradas e, ao menos formalmente, monitoradas por órgãos públicos, os ramais — vias de terra batida, frequentemente abertas sem autorização — constituem uma malha capilar que escapa à regulação. São essas estradas invisíveis nos mapas oficiais que frequentemente sustentam o avanço de atividades ilegais ou informais, conectando áreas remotas a circuitos econômicos mais amplos.

Os dados indicam que 35% da extensão dessas vias se concentram em projetos de assentamento, o que não surpreende diante da necessidade de garantir acesso à produção agrícola familiar. No entanto, essa concentração também levanta questões sobre o papel do próprio Estado: ao mesmo tempo em que promove a ocupação por meio da reforma agrária, cria as condições para a fragmentação florestal e a intensificação de pressões ambientais. Em seguida aparecem propriedades privadas e terras públicas, reforçando a ideia de que a expansão viária não é apenas um fenômeno marginal, mas parte integrante das formas contemporâneas de apropriação do território.

Particularmente preocupante é a presença crescente de estradas em unidades de conservação, que já concentram cerca de 12% da malha identificada. A partir de 2018, observa-se uma intensificação desse processo, com mais da metade das novas aberturas ocorrendo nos anos recentes. Em áreas como as reservas extrativistas Chico Mendes e Cazumbá-Iracema, a abertura de ramais sinaliza a emergência de novas frentes de ocupação, frequentemente associadas ao desmatamento. Aqui, a contradição se explicita: territórios criados para proteger a floresta tornam-se, gradualmente, permeáveis a dinâmicas que a degradam.

Nos municípios, o avanço também segue padrões definidos. Rio Branco, Sena Madureira e Feijó concentram boa parte da expansão recente, com centenas de quilômetros de novos ramais abertos apenas em 2025. Esses movimentos indicam não apenas crescimento local, mas a reorganização de fluxos econômicos e populacionais que reposicionam o estado dentro da lógica da fronteira amazônica. Em Sena Madureira, por exemplo, a abertura de um ramal de mais de 20 quilômetros dentro de uma unidade de conservação evidencia a fragilidade dos mecanismos de fiscalização.

Se nas terras indígenas a presença de estradas ainda é relativamente baixa, o que se observa é um cerco progressivo em seu entorno. Essa pressão indireta tende a produzir impactos duradouros, seja pela intensificação de conflitos, seja pela introdução de novas dinâmicas econômicas que afetam modos de vida tradicionais. A baixa incidência interna, portanto, não deve ser interpretada como ausência de ameaça, mas como um estágio de um processo mais amplo de pressão territorial.

Por fim, as conexões regionais ampliam a escala do problema. A identificação de dezenas de pontos de ligação com estados vizinhos e países como Bolívia e Peru revela que os ramais não são estruturas isoladas, mas parte de uma rede transfronteiriça que pode facilitar tanto a circulação de mercadorias quanto a expansão de atividades ilegais. Nesse contexto, a estrada deixa de ser apenas um traço no mapa e se torna um dispositivo estratégico na reconfiguração da Amazônia contemporânea.

O que emerge desse panorama é menos uma narrativa de desenvolvimento e mais um retrato das ambiguidades do Estado e de seus instrumentos de intervenção. As estradas que prometem integração também abrem caminho para a degradação; os assentamentos que visam justiça social podem operar como vetores de pressão ambiental; e a ausência de regulação efetiva transforma a infraestrutura em um território de disputas. No Acre, como em grande parte da Amazônia, o avanço da malha viária não apenas acompanha a fronteira — ele a produz, redefine e, sobretudo, a expõe em suas contradições mais profundas.

Quem desejar baixar o arquivo contendo o relatório ” Expansão de estradas e ramais no Estado Acre -1989 a 2025″, basta clicar [Aqui! ].

Grupos locais e desenvolvimento genuíno

local development

Por Ranulfo Vidigal

Em cada pleito local, grupos de interesse se digladiam em torno do controle sobre o fundo público representado pelos ativos, receitas e gastos das prefeituras. No tempo presente devemos entender a cidade como espaço de manifestação cultural, artística e educacional do povo brasileiro em disputa cotidiana pelo uso do espaço público.

É sabido que a máxima de nossas elites consiste na mercantilização das necessidades humanas mediante a submissão do direito à moradia e demais equipamentos urbanos à especulação financeira lastreados no endividamento das famílias.

Na verdade, todo esse movimento pode ser sintetizado no princípio do crescimento desigual e combinado, que resulta no empobrecimento da camada trabalhadora e sua  periferização habitacional, através de um processo ordenado de exclusão social.

É observável também que o conjunto dos trabalhadores não só se encontra nas grandes cidades, como também segue cada vez mais se deslocando rumo aos centros urbanos.

Esta realidade se alicerça no alto nível de mecanização das forças produtivas vinculadas ao trabalho no campo e aos altos índices de concentração de terras, que fazem da agroindústria um setor altamente rentável sempre associado à especulação financeira, embora incapaz de fomentar os índices necessários de geração de bons empregos.

Buscando provocar o debate necessário sobre os destinos de nossas cidades, diante de uma acelerada escassez de recursos fiscais as alternativas se encontram na ordem do dia.

Tempos de escassez de recursos fiscais são perfeitamente adequados para unir economias de recursos, com geração de oportunidades locais. Dentre as responsabilidades do poder público municipal destacaria a Limpeza Urbana – (Coleta, aterros sanitários, varrição de vias e áreas públicas, jardinagem, limpeza de bueiros) – Um serviço contínuo, como na limpeza de uma casa.

O atual sistema de contratos é formatado a partir da lógica da otimização dos ganhos privados, por vezes ineficaz do ponto de vista do interesse público. Empresas são remuneradas por tonelagem de lixo recolhido, desestimulando políticas de redução e reciclagem de resíduos.

Em sistemas de varrição e limpeza de vias públicas, a mesma falta de lógica, com grandes grupos de trabalhadores limpando um único local, como uma força-tarefa de limpeza, em que muita gente aparece em uma avenida, só para mostrar serviço e depois desaparecer por meses. Isso é totalmente ineficaz, vide a sujeira nas vias, poucos dias após o mutirão e as enchentes provocadas por bocas de lobo entupidas.

Os contratos de coleta podem que estimular a reciclagem e a redução de resíduos, assim como os contratos de limpeza tem que ter caráter comunitário, em que pequenos grupos de trabalhadores, contratados por cooperativas, mediante, por exemplo, o Fortalecimento de Cooperativas de Catadores – fornecimento de carrinhos de coleta com design adaptado para a função, motorizados ou com bicicleta; organização de dias diferentes para coleta de recicláveis (vidro, papel, metal, orgânicos/compostagem); oferecimento de Galpões para organização e limpeza dos recicláveis; suporte na organização de cooperativas por territórios.

É possível alcançar um mínimo de 50% de reciclagem no período de quatro anos, via cooperativa de catadores e reduzindo custos com o pagamento aos caros contratos da Limpeza Urbana – que na capital do açúcar monta R$ 75 milhões por ano.

Outra alternativa desejável seria a instituição de capacitação ao empreendedor local para um programa de compras públicas direcionadas para cooperativas e empreendimentos de economia solidária, micro, pequenas empresas. É tão claro, que os orçamentos municipais podem ser grandes impulsionadores das economias locais e regionais. Campos dos Goytacazes, com orçamento anual de quase 2 bilhões dispões de recursos públicos que, se bem distribuídos, se multiplicam em bem estar, oportunidades produtivas e prosperidade.

As compras concentradas só têm eficiência em casos muito específicos, tornando-se muitas vezes em fonte de desvios e ineficiências. Simplesmente, tudo que puder ser comprado das cooperativas e pequenas e médias empresas assim devem ser feito.

Há tecnologia para acompanhamento de preços e qualidade, bem como meios ágeis para compras, que devem prever redução de estoques e pulverização nas compras, melhor ser atendido por vários fornecedores, com equivalência em preço e qualidade, que por um oligopólio concentrador de preços altos.

*Ranulfo Vidigal é economista, Mestre em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento pelo Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e Consultor.