Sob intensa pressão, Bolsonaro recua de decreto para privatização da UBS. Mas a pauta continua posta

bolsonaro 1Presidente Jair Bolsonaro durante cerimônia no Palácio do Planalto. Por ADRIANO MACHADO

Os veículos da mídia corporativa estão noticiando que o presidente Jair Bolsonaro acaba de anunciar que irá revogar o Decreto No.10.530 de 26 de outubro de 2020 em função da repercussão altamente negativa que o anúncio do início da privatização do Sistema Único de Saúde causou em diversos segmentos da sociedade brasileira.

Essa tática de recuar rapidamente após jogar um mega bomba em meio a uma pandemia letal em que a necessidade de uma sistema público de saúde ficou clara no mundo inteiro não deve servir para enganar ninguém.

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General Pazuello toma posse no ministério da Saúde ao lado do presidente Jair Bolsonaro.  Por Marcelo Camargo/Agência Brasil

A verdade é que ainda esta tarde o ministro da Fazenda, Paulo Guedes, havia jogado sobre as costas do general Eduardo Pazuello o custo político de haver demandado a implantação de uma medida de que se provou altamente impopular.

Mas a verdade é que o objetivo básico do decreto já foi alcançado pelo governo Bolsonaro. Esse objetivo era simplesmente colocar na pauta política a privatização de um sistema de saúde que está garantido pela Constituição Federal de 1988 como sendo universalmente gratuito.

Essa bomba semiótica se combina com outra lançada pelo indescritível Ricardo Barros (PP/PR), líder do governo Bolsonaro na Câmara de Deputados que na última segunda-feira (26/10) havia proposto a realização de uma assembleia nacional constituinte para escrever uma nova constituição federal, visto que a de 1988 seria uma “que só tem direitos” e que  “torna o Brasil ingovernável”. 

O centro de toda essas manobras aparentemente despropositadas é sedimentar a ideia de que precisamos ter uma profunda reforma do Estado que remova todos os direitos que estão garantidos na Constituição de 1988. Esse, aliás, é o projeto com o qual Jair Bolsonaro foi acolhido pelas elites financeiras e pelos latifundiários como o candidato que defenderia um processo de destruição das garantias sociais existentes no Brasil.

Por isso, antes de que alguém queira celebrar o último recuo de Jair Bolsonaro, é bom lembrar que todas essas aparentes sandices irão emergir com força logo após as eleições municipais. A profundidade e a ferocidade dos ataques que virão dependerão dos resultados das eleições, mas não apenas deles.

O governo Bolsonaro publica decreto para iniciar privatização do SUS em plena pandemia da COVID-19

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Em uma demonstração de que não há limite para a sanha privatizante comandada pela dupla Jair Bolsonaro e Paulo Guedes, o governo federal fez publicar o Decreto No.10.530 de 26 de outubro de 2020 cujo mote é privatizar um número indefinido das 44 mil unidades básicas de saúde (UBS) existentes no Brasil, sem que o Ministério da Saúde tivesse sido ouvido. E isso, em plena pandemia da COVID-19!

Em um primeiro momento há que se entender que a UBS cumprem um papel estratégico que é o de garantir a capilarização do atendimento nos serviços públicos de saúde, fazendo alcançar as populações mais pobres e muitas vezes localizadas nas regiões mais periféricas das cidades brasileiras e das suas regiões rurais.

A privatização das UBS seria um papel gigantesco na universalização dos serviços públicos, o que, na prática, deixará de fora uma parcela muita significativa da população brasileira de qualquer tipo de assistência médica. E isso, pasmem, em um contexto histórico em que nunca se teve tanto trabalhador desempregado no Brasil. 

A reação inicial a essa proposta absurda está vindo de todos os quadrantes sociais, especialmente de especialistas e de entidades de saúde, o que muitos lerão como uma inviabilização da proposta de privatização do SUS. Eu já diria que o governo Bolsonaro está, mais usando, a tática de estabelecer metas aparentemente absurdas para serem rejeitadas, ocultando o objetivo real que depois é vendido com mais palatável. 

Em função dos riscos entranhados de que até parcela da dita oposição ao governo Bolsonaro aceite propostas que não sejam as mais aparentemente absurdas, não podemos deixar que esse ataque ao SUS fique sem resposta, como tem ficado a privatização da Petrobras, por exemplo. E é preciso ter claro que se um poderoso movimento de resistência não for criado por sindicatos, movimentos sociais e associações de moradores, a privatização do SUS ocorrerá. Tudo em nome do aumento do lucro das grandes instituições financeiras e aquela parcela de 1% dos brasileiros que vivem da especulação financeira.

Enquanto Paulo Guedes sonha em vender tudo, empresas privatizadas sinalizam para colapso iminente no transporte público do Rio de Janeiro

Depois de passar anos cobrando tarifas escorchantes e prestando serviços de qualidade duvidoso, SuperVia e Metro Rio ameaçam parar em agosto se não receberem apoio financeiro estatal

A cada dia que passa cresce a percepção de que o ministro da Fazenda Paulo Guedes ainda não entendeu que o sonho dourado que ele acalanta de privatizar estatais estratégicas, não obstante os anúncios bombásticos de que o governo Bolsonaro irá promover uma liquidação na bacia das almas no segundo semestre de 2020.

Mas os sinais de alerta não estão vindo apenas para as privatizações que se pretende fazer, mas as que já foram feitas em governos passados. Exemplo disso está ocorrendo nos serviços privatizados de transporte no estado do Rio de Janeiro, onde, por um lado, a Supervia está indicando que deverá interromper serviço de trens no Rio de Janeiro a partir de agosto e, por outro, o Metro Rio, que promete fazer a mesma coisa.

O problema poderá ser maior ainda se se confirmarem as  informações da Fetranspor de que as empresas de ônibus poderão seguir o mesmo caminho sob a alegação de que estão acumulando prejuízos milionários em função da diminuição do número de passageiros causada pelas medidas de isolamento impostas para controlar a pandemia da COVID-19.

Em comum, além da suposta crise financeira, o que as empresas de transporte que foram privatizadas estão demandando é o aporte de centenas de milhões de reais por parte dos governos estadual e federal, sob a alegação (a correta por sinal) de que o transporte público é um serviço essencial. A única coisa que estas empresas  estão esquecendo de informar é de quanto foi os lucros fabulosos que obtiveram antes da erupção da COVID-19.

Por essa situação em pleno andamento, e no caso do Rio de Janeiro inexistirem recursos em caixa para socorrer as empresas privatizadas, não será de se estranhar se nas próximas semanas o ministro da Fazenda, Paulo Guedes, tiver que fazer malabarismos extremos para dizer que vai mesmo vender estatais lucrativas para, pasmemos todos, socorrer empresas privatizadas a preço de banana no passado, e que agora ameaçam ir a pique.

No fundo o que está mesmo afundando é a lógica neoliberal de entregar setores estratégicos para empresas privatizadas sob a alegação de que isto irá melhorar a qualidade dos serviços prestados. É que ao primeiro sinal de que suas margens de lucro irão diminuir, essas empresas correm para demandar ainda mais dinheiro público. Assim, diria meu falecido pai, é mole.

No pico da pandemia, Wilson Witzel quer impor “privatização selvagem” do Estado a toque de caixa

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Durante a campanha eleitoral de 2018, o candidato Wilson Witzel falou em privatizar as universidades estaduais e depois negou. Agora Witzel mostra que a negação não era verdadeira

Quando meu avô paterno fez 90 anos e ninguém conseguia fazer uma fala em nome da numerosa família que estava em volta do bolo, minha falecida mãe surpreendeu a todos com uma fala que emocionou às lágrimas o velho imigrante que construiu uma jornada gloriosa ao longo de mais de oito décadas em terras paranaenses.  Minha arrematou a sua fala dizendo que os filhos, netos e bisnetos em volta do meu avô eram uma prova de o “fruto nunca cai longe do pé”.

Lembrei hoje dessa cena ao ler que o governador Wilson Witzel enviou ontem para a Assembleia Legislativa, e em regime de urgência, um projeto que retoma o modelo de privatização selvagem que começou a colocar o Brasil no buraco em que se encontra neste momento lá pelos idos de 1995.

Segundo nos informa a jornalista Paloma Savedra em matéria publicada pelo jornal “O DIA”, a proposta formulada pelo governador do Rio de Janeiro promoverá uma privatização ampla do estado, atingindo até as três universidades estaduais e a fundação de amparo à pesquisa do estado (a Faperj).

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Esse movimento implica em uma retirada da presença estatal em áreas estratégicas do funcionamento da segunda economia da federação, justamente em um momento que se precisaria de uma ação concentrada do estado para alavancar uma economia que já se encontrava em franca decadência, antes mesmo da eclosão da pandemia causada pelo coronavírus. Witzel faz assim uma espécie de “Plano Marshall” às avessas, pois retira do estado a capacidade de agir de forma organizada e compreensiva para retirar a economia fluminense do buraco.

Ao buscar a privatização das universidades estaduais e da Faperj, Wilson Witzel também realiza um ataque fulminante na capacidade do Rio de Janeiro de se postar como uma liderança importante na formulação de soluções amplas para a presente pandemia. É que as universidades estaduais e a Faperj estão na linha de frente das ações que têm sido tomadas, com pouquíssimos suporte do governo estadual, para oferecer soluções amplas para o enfrentamento da pandemia.

O interessante é que, no mesmo período em que quer impor um modelo de privatização selvagem, o governador Wilson Witzel tem sido pego em situações pouco lustrosas em relação à realização de contratos para combater a pandemia da COVID-19.  Como tem sido meticulosamente levantado pelo jornalista Ruben Berta, editor do “Blog do Berta”, há uma outra epidemia grassando no Rio de Janeiro em meio da causada pelo coronavírus, envolvendo contratos duvidosos com valores para lá de salgados. Aparentemente, as preocupações do governador Wilson Witzel com a saúde financeira do estado do Rio de Janeiro são, no mínimo, seletivas.

Como em tantos outros casos que já vivi ao longo de mais de duas décadas em que sirvo ao povo do Rio de Janeiro como servidor público, esse ataque em regra às universidades e outros estatais terá de ser respondido de forma direta.  Os problemas causados pela pandemia em termos de aglomerações públicas não poderão excusa para inação política. Esse é um ataque não apenas a instituições públicas estratégicas, mas, principalmente, ao futuro do Rio de Janeiro. A hora de reagir a Wilson Witzel é agora, e a reação não poderá ser deixada para depois.

Mas voltando ao ditado do “fruto não cai longe do pé”, é preciso reconhecer que Wilson Witzel já havia aventado privatizar as universidades estaduais já na condição de candidato a governador. Entretanto, sob pressão da opinião pública, ele acabou recuando em seus discursos de campanha, negando que iria fazer a privatização que quer fazer agora. Pessoalmente nunca acreditei na negação de Witzel, e o envio deste pacote de privatização selvagem prova que eu estava certo, e os que acreditaram no governador estavam errados. 

Witzel diz que privatização resolverá problemas de saneamento: a população de Campos sabe muito bem que não

wilson-witzelO governador Wilson Witzel afirmou que os problemas nos serviços de água e esgoto só serão resolvidos com a privatização da Cedae.  Se vier a Campos dos Goytacazes e falar com a população irá saber que não

O governador Wilson Witzel (PSC) de faz alguns dias uma declaração para tentar justificar a sua ânsia em privatizar a Companhia Estadual de Águas e Esgotos do estado do Rio de Janeiro (Cedae). Segundo Witzel,  os “problemas no estado (do Rio de Janeiro) só serão resolvidos com a privatização da Cedae.

O governador Witzel deveria vir a Campos dos Goytacazes e conversar com a população que hoje paga por um dos serviços mais caros e ineficientes na coleta e tratamento de esgotos do Brasil. 

A razão do descontentamento é simples: por incontáveis ruas desta cidade, inclusive nas chamadas áreas nobres, esgota in natura brota a céu aberto, indicando a permanência de uma estrutura ultrapassada. Além disso, a tão decantada taxa de tratamento de esgotos, que melhora em cada propaganda, não está visualmente demonstrada na paisagem onde inexistem provas de que todos os níveis de tratamento efetivamente existem no município que hoje permite a exorbitante cobrança em que 100% da água consumida seja aplicada à coleta de esgotos.

Se a visita do governador Witzel for realizada em um dos pontos da chamada “periferia extrema”, a coisa vai ser ainda pior, pois não apenas faltam as estruturas de coleta e tratamento de esgotos, como em muitos casos o que chega no encanamento não é água, mas ar.  Nada que impeça a cobrança das contas pela concessionária que é muito boa de propaganda, mas não tão boa para prestar serviços de qualidade, mesmo em faça das contas salgadas que oferece aos seus consumidores tão cativos quanto incautos.

Se privatizar água e esgoto fosse mesmo a solução, cidades como Berlim (Alemanha), Paris (França) , Budapeste (Hungria, Bamako (Mali), Buenos Aires (Argentina), Maputo (Moçambique) e La Paz (Bolívia) não teriam decidido reestatizar seus sistemas de água e esgoto.

A verdade é que em quase 300 cidades do mundo, os governantes decidiram reverter o processo de privatização porque ficou demonstrado que o processo só encareceu os serviços e não trouxe as melhorias desejadas.  Mas para verificar isso, o governador Witzel apenas precisaria fazer uma pequena visita a Campos dos Goytacazes.  Se for por falta de convite, o governador Witzel pode se considerar, desde já, convidado.

Crise hídrica e segregação socioespecial em tempos de mudanças climáticas: o Rio de Janeiro como a vitrine do caos

Baía-de-Guanabara-1024x576-696x392Transformada em uma latrina a céu aberto, a Baía de Guanabara sintetiza os efeitos da extrema iniquidade social sobre a integridade dos sistemas hídricos no Rio de Janeiro

Quando cheguei no Rio de Janeiro no início de 1980 para iniciar meu período de graduação na UFRJ duas coisas me chamaram logo a atenção: a beleza cênica da cidade maravilhosa e a condição desastrosa dos rios que cortavam a cidade.  Em um dos meus trabalhos de curso escolhi coletar amostras de água no Rio Faria-Timbó para verificar o seu nível de contaminação por coliformes fecais. Ali descobri que mesmo durante períodos de chuvas intensas, o Faria-Timbó tinha virado literalmente uma latrina a céu aberto.  E apenas para uma referência temporal, essa pesquisa ocorreu no longínquo ano de 1985.

Passados quase quatro décadas, vozes responsáveis como a do ambientalista carioca Sérgio Ricardo emitem um velho alerta: os rios do estado do Rio de Janeiro estão à beira de um colapso hídrico. Para que se tenha ideia do tamanho do problema, este colapso colocaria em risco  o fornecimento de água para algo em torno de 8 milhões de pessoas, apenas na região metropolitana do Rio de Janeiro.

Mas como chegamos a esta situação catastrófica se ao longo dessas mesmas quatro décadas bilhões de dólares foram alocados em projetos nacionais e internacionais para despoluir os principais rios do Rio de Janeiro? Aliás, ainda na década de 1980 tivemos um megaprojeto financiado pelo governo japonês para permitir a despoluição da Baía de Guanabara. Depois disso, em 1995 veio o chamado Programa de Despoluição da Baía de Guanabara (PDBG) que consumiu algo em torno de R$ 6 bilhões até 2012.  Entretanto, o cumprimento das metas sempre ficou aquém dos acordos, e a Baía de Guanabara acabou se tornou uma espécie de cemitério de obras públicas inconclusas.

A explicação mais comum é de que todo esse dinheiro foi tragado pela corrupção, o que explica, mas não justifica.  A verdade é que a corrupção é apenas parte de uma explicação maior, onde o aprofundamento dos padrões de um modelo de segregação socioespacial baseado na extrema iniquidade tornou a questão do acesso a serviços de abastecimento de água e saneamento básico um elemento secundário no processo de atuação do Estado.

Se acrescentarmos a isso o avanço do processo de privatização dos serviços de água e esgoto mesmo em um ente estatal como é o caso da Companhia Estadual de Águas e Esgotos (CEDAE), o que temos é uma ação preferencial para garantir o lucro acima do interesse da população em geral.  Disso decorre o fato que a maioria das melhorias da rede de serviços acaba se concentrando nas áreas mais ricas, deixando os habitantes pobres das cidades sob condição de abandono completo.

Para piorar ainda mais a situação, a CEDAE é alvo preferencial para um processo de canibalização que visa facilitar sua privatização. Esta situação tem implicado na redução de custos e demissão de quadros especializados que vem degradando a capacidade da empresa de manter seus serviços em padrões minimamente aceitáveis de qualidade.

Assim, a atual crise de abastecimento que compromete pelo menos 46 bairros na cidade do Rio de Janeiro  e municípios da Baixada Fluminense que em vez de água “insípida, inodora e incolor” estão recebendo uma substância aquosa que não se adequa a estas condições, termina por implicar em um aprofundamento das diferenças sociais. Com isso, aparece mais uma vez o padrão dos ricos correndo para limpar os estoques de água de supermercados, enquanto os pobres sofrem com a falta do produto ou com os preços elevados que os estoques remanescentes alcançam.

agua turvaO copo do lado esquerdo contém a “água” sendo disponibilizada pela CEDAE

Em meio ao caos que vai crescendo há outro aspecto essencial que passa despercebido que são as transformações que estão ocorrendo nos padrões de pluviosidade por causa das mudanças climáticas. É que os novos padrões alternam períodos de seca extrema com períodos de chuvas intensas.  E é exatamente isso o que tem sido visto nos últimos anos no estado do Rio de Janeiro, e mesmo na atual estação chuvosa.

Esse nova normalidade disfuncional é que deverá caracterizar os próximos anos e décadas. Entretanto, raros são os governantes brasileiros que estão atentos a essas modificações climáticas, e menos ainda o que isso significará em termos de abastecimento de água para nossas cidades cada vez mais socialmente segregadas.  

Com isso, que ninguém se engane, estamos caminhando, caso modificações radicais não sejam feitas, para uma situação potencialmente distópica que deixará nossas cidades parecidas com o mundo de “Mad Max“.   Assim, a questão do acesso democrático à água deverá estar no centro dos debates acerca do futuro que se apresenta cada vez mais desafiador.

Privatização das universidades federais entra em marcha acelerada

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O ministro (ou seria antiministro?) da Educação, Abraham Weintraub, chamou ontem os reitores de universidades e institutos federais à Brasília para abrir o pacote de maldades conhecido como “Future-se”, e que objetivamente implica na privatização da educação superior pública brasileira.

Ainda que na aparência o projeto desenhado entre quatro paredes se destine a ampliar o investimento privado nas universidades e institutos, isso só ocorre porque Weintraub sabe que a reação a uma proposta abertamente privatizante seria acachapante e ele saber disso decidiu começar a privatização pelas beiradas, forçando a terceirização de serviços e a alienação de bens.  Com isso, certamente Weintraub espera começar a sua marcha de privatização sem ter que enfrentar logo de cara a fúria da sociedade.

Um aspecto que Weintraub injetou no seu projeto de privatização escondida é a a captação de recursos da iniciativa privada para supostamente incrementar o orçamento das universidades e institutos federais. A primeira coisa é que nos países desenvolvidos, esse montante é mantido baixo de forma proposital para impedir o sufocamento da liberdade criativa nas universidades, visto que as corporações privadas não se interessam por pesquisas de longo prazo, concentrando-se naquilo que pode gerar lucros imediatos. A segunda é que o Brasil possui um histórico baixíssimo de investimento de empresas em pesquisa, pois a maioria da tecnologia que é usada no país vem dos países desenvolvidos, o que acaba tornando desinteressante para elas o investimento na pesquisa nacional.

Um terceiro e importante aspecto é que o Brasil se encontra em meio a uma brutal recessão e muitas indústrias estão fechando as portas, processo esse que também está atingindo o setor de serviços. Assim, mesmo que houvesse o interesse em estabelecer parcerias com as universidades, o momento econômico torna isso objetivamente inviável.  E como é um homem do mercado financeiro, Weintraub sabe que quem tem muito dinheiro em um contexto tão negativo vai preferir colocar suas moedas na especulação financeira e não em educação pública superior.

A verdade é que a proposta do governo Bolsonaro é uma sinalização de que o processo de recolonização do Brasil que até recentemente era um debate relativamente teórico está passando para o plano do real. É que sem universidades fortes e capazes de produzir conhecimento autóctone não há desenvolvimento nacional. E essa condição é especialmente importante em um momento em que conhecimento científico se transformou em uma das commodities mais valiosas da economia capitalista. Nâo é por outra razão que a União Europeia está com um ambicioso plano de investimento em ciência e a China optou por investir de forma ainda mais intensa em seu desenvolvimento científico, que já não é pequeno.  O plano chinês visa desatrelar a economia chinesa da exportação de manufaturas e produtos industrializados em nome da produção de tecnologia avançada.

Errarão de forma grave os reitores se aderirem ao “Future-se” (que já foi sabiamente rebatizado nas redes sociais como “Foda-se”) sem refletir com suas respectivas comunidades universitárias o real significado das propostas trazidas à baila, sem nenhuma discussão anterior, sobre o futuro não apenas de suas instituições, mas do Brasil como nação independente.  A hora não é de autoengano, mas de profunda mobilização contra o plano de desmanche das universidades e institutos federais que Abraham Weintraub e Jair Bolsonaro acabam de colocar em marcha.

Para quê e para quem Paulo Guedes quer economizar R$ 1 trilhão com a contrarreforma da Previdência?

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A quem e a quê serve  a contrarreforma da Previdência de Paulo Guedes?

O dublê de operador do mercado financeiro e minstro da Fazenda, Paulo Guedes, alardeia aos quatro ventos que sua proposta de contrarreforma da Previdência objetiva economizar R$ 1 trilhão em 10 anos

O que falta o Sr. Paulo Guedes dizer é para que ele quer economizar e quem se beneficiará com essa “economia” que sua contrarreforma alcançaria.

Essa são questões chaves, pois já se sabe que os mais pobres (especialmente as mulheres) serão os perdedores primários, perdas essas que se esprairão por estados e municípios, pois pensões e aposentadorias são ferramentas básicas de dinamização econômica.

Pela toada que andam as coisas, a dita capitalização que se tornará o principal cavalo de batalha dos esforços de Paulo Guedes porque o objetivo último desta contrareeforma é privatizar os recursos que os trabalhadores adquirem em função de décadas de labuta em ocupações nas quais muitos do que defendem este modelo de privatização de pensões e aposentadorias não aguentariam trabalhar um dia sequer.

E aí fica ainda mais necessário que os porta-vozes do governo Bolsonaro respondam de forma clara a quê e a quem serve essa contrarreforma.

Esqueçam de Bolsonaro e Mourão, o risco iminente se chama Paulo Guedes

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Uma estratégia bastante eficaz por parte da mídia corporativa e dos elaboradores da campanha da chapa Bolsonaro/Mourão tem sido ocultar de seus potenciais eleitores, o programa econômico que deverá ser executado pelo dublê de economista, banqueiro, dirigente do Instituto Millenium e articulista  de vários veículos de mídia de propriedade da Rede Globo, Paulo Guedes.

Manter Paulo Guedes como eminência parda é essencial para ocultar a face ainda mais medonha do que poderia ser um governo comandado pela dupla de ex-militares.  Como fundador do “think thank” ultraneoliberal Instituto Millenium, Guedes tem sido um dos responsáveis pela formulação das agendas que embalam a agenda privatizante que tem mirado fortemente nos direitos sociais e trabalhistas, de forma a facilitar a expropriação das riquezas nacionais.

Assim, quanto mais rapidamente se desvelar o papel de formulador e disseminador da ideologia ultraneoliberal que é disseminada de forma críptica pela chapa Bolsonaro/Mourão, melhor será para neutralizar o risco que ela representa.

Abaixo uma pequena biografia de Paula Guedes que deixa explícito qual tem sido o seu papel no avanço de políticas que retiram direitos sociais e trabalhistas, enquanto contribuem para o aprofundamento da condição dependente da economia brasileira.

Quem é Paulo Guedes?

Realizou a sua graduação na Faculdade de Economia da Universidade Federal de Minas Gerais e realizou o seu mestrado na Escola de Pós-Graduação em Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Em 1977, obteve um mestrado na Universidade de Chicago e em 1979 um Ph.D pela mesma instituição, que é considerada uma referência do pensamento econômico liberal . Também atuou como docente na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), na Fundação Getúlio Vargas (FGV) e no Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) no Rio de Janeiro. Foi diretor-técnico e sócio do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (IBMEC) na década de 1980, onde atuou por 16 anos, nessa instituição também foi professor na disciplina de macroeconomia.

Foi um dos fundadores do think tank brasileiro Instituto Millenium, também foi sócio-fundador do grupo financeiro BR Investimentos que se tornou parte da Bozano Investimento. Foi um dos quatro fundadores do Banco Pactual, criado em 1983, onde atuou como chefe executivo e chefe estrategista.[3]

Foi sócio-fundador e diretor executivo da JGP Gestão de Recursos, onde era um dos responsáveis pela supervisão da gestão do Fundo JGP Hedge e pela estratégia das operações. Desde 2009, é membro do conselho diretor da HSM Educação e, desde 2013, da GAEC Educação S.A. Também tornou-se membro do conselho diretor da Contax Participacoes S.A., da PDG Realty S.A Empreendimentos e Participações, da Abril Educação S.A. e da Localiza Rent a Car S.A.[5]

Foi colunista dos jornais O Globo e Folha de S. Paulo e das revistas Época e Exame, abordando temas ligados ao mercado de capitais e gestão de recursos. Atualmente, publica regularmente artigos no site do Instituto Millenium.

Em novembro de 2017, o nome de Paulo Guedes foi anunciado pelo pré-candidato a Presidência da República Jair Bolsonaro como a sua escolha como Ministro da Fazenda, na hipótese deste ser eleito para o cargo. O nome do economista foi bem recebido por parcela da mídia bem como por investidores e banqueiros por conta de seus posicionamentos liberais, com o índice da Bolsa de Valores tendo subido na ocasião do anúncio, embora o anúncio tenha sido visto também por parte da mídia e dos críticos do político como um subterfúgio do pré-candidato para contornar a imagem que tem de anti-liberal por conta de seu histórico de posicionamentos. O economista jamais foi filiado a partido político e a sua única atuação na política foi quando participou da elaboração do plano de governo do ex-ministro Guilherme Afif Domingos durante a campanha presidencial de 1989.

O economista, de posições liberais no campo econômico, tem sido defensor da privatização das estatais brasileiras, da reforma tributária e da reforma da previdência. Além disso, em sua coluna no jornal O Globo, Guedes tem sido crítico da política brasileira atual e tem destacado a Operação Lava Jato como referência no combate a corrupção

Partido “Novo” dos banqueiros quer privatizar a educação e cassar direitos dos seus trabalhadores

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O partido “Novo” é uma criação do “conselheiro” do Banco Itaú, João Amoedo que, coincidentemente, é também o candidato presidencial da agremiação [1].  A agenda política do “Novo”  não passa de uma versão “Personalité” do PSDB, pregando um avanço do processo de privatização dos bens públicos, incluindo a educação.

Em seu programa eleitoral, o “Novo” defende o modelo que está sendo aplicado parcialmente nos EUA onde “voucher” são concedidos para permitir que o estado pague pela educação em escolas privadas, desconsiderando que nos EUA este modelo é profundamente questionado.

Abaixo posto dos estratos da campanha eleitoral onde são misturadas a agenda privatizante com o ataque aos trabalhadores da educação (ver abaixo).

Mas se houvesse um mínimo de reciprocidade programática no “Novo (o que não existe), o partido deveria pregar uma reforma radical no sistema bancário nacional, de modo a diminuir a verdadeira rapina que as instituições brasileiras promovem contra seus correntistas (para entender melhor isso, ver o depoimento abaixo de Eduardo Moreira,  sócio-fundador da gestora de recursos Plural Capital e ex-sócio do Banco Pactual (hoje BTG Pactual).

Ouçam com atenção o que Eduardo Moreira diz e depois reflitam sobre o que realmente precisa ser feito no Brasil: privatizar a educação ou quebrar o monopólio dos grandes bancos sobre a economia nacional.

E, falando em BTG Pactual, uma pesquisa eleitoral feita pela instituição financeira dá destaque ao irmão em armas do mercado financeiro, o “conselheiro” do Itaú e dublê de candidato a presidente pelo “Novo” [2]. Alguém se surpreende?


[1] https://www.esmaelmorais.com.br/2013/08/conselheiro-do-itau-cria-partido-de-direita-pro-privatizacao-o-novo/

[2] https://www.esmaelmorais.com.br/2018/08/candidato-do-itau-e-destaque-em-pesquisa-feita-por-banco/