Estudantes nas ruas: o que os protestos revelam sobre a crise de financiamento das universidades paulistas

Manifestações que chegam ao centro de São Paulo expõem o desafio da permanência estudantil, o esgotamento das negociações e a urgência de respostas estruturais para o futuro das universidades estaduais

Os protestos envolvendo estudantes das universidades estaduais paulistas (Unesp, Unicamp e USP) mostram que algo importante está em ebulição no ensino superior público brasileiro. Mais do que um episódio pontual, a mobilização revela tensões acumuladas ao longo de anos e que agora transbordam para o espaço público. Quando manifestações deixam os campi e ocupam o centro da cidade, o recado muda de escala: aquilo que antes parecia um debate interno passa a disputar a atenção da sociedade. Esse deslocamento é simbólico, pois lembra que a universidade pública não existe isolada — ela forma profissionais, produz conhecimento, impacta políticas públicas e ajuda a definir os rumos do país.

O cenário que levou às ruas foi sendo construído lentamente, em assembleias, reuniões e negociações que muitos estudantes consideram insuficientes. Em geral, protestos ganham intensidade quando se combinam sensação de esgotamento das vias institucionais, aumento da mobilização coletiva e a presença de forças de segurança diante das manifestações. Essa combinação tende a transformar reivindicações em crise política, deslocando o foco do debate para a tensão entre direito à manifestação e manutenção da ordem. Nesse processo, a pauta original corre o risco de ficar em segundo plano, mesmo quando foi justamente ela que motivou a mobilização.

No fundo, um dos temas que atravessa essas manifestações é a permanência estudantil. Nas últimas décadas, o acesso ao ensino superior público se ampliou, mas permanecer na universidade — especialmente em cidades com alto custo de vida — tornou-se um desafio crescente. Moradia, alimentação, transporte e condições mínimas de estudo passaram a ocupar o centro das reivindicações porque a democratização do acesso, sem políticas robustas de permanência, tende a se tornar incompleta. Entrar na universidade não garante que o estudante consiga concluir o curso em condições dignas, e essa percepção tem mobilizado cada vez mais jovens.

Episódios de confronto chamam atenção justamente porque tornam visível algo que muitas vezes permanece invisível no cotidiano universitário: o acúmulo de frustrações, expectativas e incertezas sobre o futuro. Independentemente das posições políticas envolvidas, protestos funcionam como sinais de alerta. Eles indicam que existem problemas estruturais que ainda aguardam respostas estruturais. Universidades públicas sempre foram espaços de debate, conflito e construção de projetos de futuro. Quando estudantes ocupam as ruas, estão dizendo, de forma clara e ruidosa, que sentem não estar sendo ouvidos — e ignorar esse sinal dificilmente fará com que a tensão desapareça.  Assim, a solução dificilmente será o uso da repressão policial para calar reivindicações justas. Pior ainda é a ação de parlamentares que agem mais como provocadores do que representantes eleitos do povo justamente para cobrar e fiscalizar as ações do poder executivo.

Revolta estudantil contra a guerra em Gaza agita principais universidades dos EUA, enquanto no Brasil persiste um silêncio sepulcral

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Estudantes da Harvard University pressionam pelo fim das relações da instituição com empresas ligada e fundos de investimentos ligados a Israel

Nas últimas semanas vem ocorrendo uma espetacular onda de ações estudantis nas principais universidades dos EUA contra a guerra promovida por Israel contra os palestinos na Faixa de Gaza. Tendo começado na Columbia University, essa revolta já alcançou 40 universidades, incluindo algumas bastante importantes como a Harvard University, a Yale University e a UCLA.

A principal demanda dos estudantes estadunidenses envolve a interrupção de investimentos das universidades em empresas ou fundos de investimento que tenham ligações com o estado de Israel. A alegação é que ao investir em empresas e fundos financeiros que estejam envolvidos no aporte de armas e dinheiro para apoiar a guerra promovida contra os palestinos em Gaza, as universidades se tornam parceiras do genocídio que está em curso na Palestina.

Uma primeira universidade que já se curvou às pressões estudantis foi a Brown University que é universidade privada de pesquisa da tradicional Ivy League, e que fica localizada na cidade Providence, estado de Rhode Island. Fundada em 1764, a Brown University é a sétima instituição de ensino superior mais antiga dos EUA. Após um forte movimento de ocupação dentro do seu campus,  o Conselho Corporativo da Brown University informou que votará uma proposta de desinvestimento nos interesses israelenses como forma de aplacar as demandas estudantis.

Mas a reação da maioria das reitorias, sob pressão dos Democratas e dos Republicanos, está sendo convocar forças policiais para agirem de forma violenta para remover acampamentos e estudantes do interior das universidades. No caso da Columbia University, epicentro da revolta, a reitoria decidiu suspender as aulas presenciais, além de punir com suspensão estudantes considerados como envolvidos diretamente nos protestos.

Um das consequências colaterais tem sido a chegada dos movimentos de protesto na Europa e na Austrália, a começar por França e Inglaterra, onde ações semelhantes aos dos estudantes dos EUA estão ocorrendo em universidades tradicionais como a University College of London e a Oxford University (ambas inglesas), e as tradicionalíssimas Sciences Po university e Sorbonnne University.

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Estudantes franceses protestam contra a guerra na Faixa de Gaza sob forte presença de contingentes policiais

Enquanto isso no Brasil…

Curiosamente no Brasil, a questão da Faixa de Gaza não tem despertado nem uma mísera fração da ebulição que está ocorrendo nos países do capitalismo central.  Quem fizer uma visita à página oficial da União Nacional dos Estudantes  (UNE) vai se deparar com notas até sobre a defesa de um trabalho de conclusão de curso sobre a junção entre RAP e a luta contra o racismo, mas nada sobre a agressão israelense que já matou mais de 34.000 palestinos (a maioria mulheres e crianças) na Faixa de Gaza.

O mesmo silêncio sobre a guerra em Gaza pode ser encontrado na página oficial da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), onde abundam notas sobre a luta pela revogação da chamado “Novo Ensino Médio”, mas nada sobre o conflito que agita as universidades dos países centrais.

Mesmo na Universidade Estadual do Norte Fluminense onde atuo em um centro que reúne estudantes de Ciências Sociais onde a guerra em Gaza já deveria ter rendido um mísero cartaz, nem isso aconteceu. Parece que todos, a começar pelos professores, estão anestesiados e indiferentes ao sofrimento dos palestinos.

A minha expectativa é que essa onda de revolta estudantil, como todo o resto, uma hora bata nas nossas praias e campi universitários.  É que, curiosamente, a mobilização que assola as principais universidades do capitalismo central tem a ver com questões que colocam em xeque o próprio funcionamento do sistema neoliberal que hoje se ampara em uma mescla de especulação financeira e fortalecimento da indústria de armas.