A candidatura Boulos é o ocaso do PSOL

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Acompanho os caminhos e descaminhos do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) desde a sua criação em 2004. Ao longo dos anos dei aos candidatos do PSOL a maioria dos meus votos por ver neles elementos fundamerntais para ter no parlamento e nos governos de diferentes níveis gente comprometida com a luta política necessária para avançar os direitos da maioria pobre da nossa população.  

Ao contrário do que muitos pensam, nunca fui militante ou sequer filiado do PSOL. A razão para isto era e continua sendo simples: nunca vi no PSOL a capacidade de formulação para fazer avançar no Brasil um projeto de transformação estrutural que efetivamente armasse politicamente a classe operária, o campesinato e a juventude brasileira. É que perdido em escolhas identitárias, aproximações com artistas famosos e concessões para cooptar parlamentares saídos de várias agremiações (a começar pelo PT), o PSOL acabou se tornando uma espécie de “Viuva Porcina” da esquerda brasileira, aquela personagem da novela “Roque Santeiro” que deixou de ser, sem nunca ter sido [1].

Agora, premida pela necessidade de se viabilizar eleitoralmente e garantir as benesses facultadas financeiras apenas aos partidos que logram angariar mais votos nas eleições burguesas no Brasil, a maioria da direção do PSOL acaba sacrificando qualquer possibilidade de sair do papel de eterna Viuva Porcina em nome da candidatura do líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos, que está se filiando ao partido prioritariamente para viabilizar sua candidatura presidencial.

Ao fazer este movimento eleitoral, a maioria da direção do PSOL não apenas abandona a tarefa de  desenvolver uma linha política que arme o partido para além das questões identitárias particularistas, como também impõe uma subordinação da ação política do partido a alguém que efetivamente não participou de sua construção.  E como Guilherme Boulos não esconde sua admiração pelo ex-presidente Lula, há ainda o fato inescapável de que o PSOL efetivamente se ajusta a um papel de linha auxiliar do PT para um eventual segundo turno das eleições presidenciais de 2018.  É que na ocorrência de um segundo turno nas eleições presidenciais, a possibilidade de um dos participantes ser Boulos é bem próxima de zero, numa situação diametralmente oposta à uma eventual candidatura de Lula ou de algum “poste” indicado por ele.

Querendo ou não, o que a maioria da direção está fazendo é encerrar precocemente o ciclo de partido autônomo e democrático do PSOL em troca de viabilidade eleitoral. Como eleições no Brasil não passam de um teatro mal ensaiado, ao fazer esta opção a direção do PSOL está conscientemente aniquilando o partido enquanto um instrumento efetivo de luta da classe operária brasileira. Quando muito o PSOL será um canal por onde pautas identitárias, e por isso limitadas em seu alcance político, serão veiculadas. E isso no atual contexto histórico, convenhamos, é muito pouco ou quase nada.

Aos setores do PSOL que querem ir além das vitórias e derrotas eleitorais para investir na construção de um partido que seja efetivamente útil para a luta política em prol de transformações estruturais na sociedade brasileira, o caminho parece bem pedregoso. Ou se ajustam a uma candidatura alienígena ditada por interesses meramente eleitorais, ou poderão ter o mesmo destino que muitos já enfrentaram antes no PT.   Melhor que escolham o segundo caminho, pois talvez assim ainda possamos ter a oportunidade de começar a construir um partido que se oriente por valores universais e orientado pelo conteúdo de classe de suas ações.


[1] https://pt.wikipedia.org/wiki/Roque_Santeiro

 

 

Suicídio é Desistir. Greve de Fome é Resistir

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Foto: Colagem com fotos Lambert/Getty Images e O Globo

Por Ruben Rosenthal*

Não a conhecia. O nome dela era Lígia Maria Passinat, professora estadual aposentada. Morava em São Fidélis, estado do Rio de Janeiro. Estava com câncer, e no começo de dezembro, em desespero, desistiu de resistir e ateou fogo ao próprio corpo. Estava com os proventos atrasados há vários meses, da mesma forma que boa parte dos funcionários públicos ativos e aposentados do estado. A notícia foi publicada apenas nos blogues da resistência ao golpe.

Vários outros suicídios de funcionários públicos e aposentados já teriam ocorrido nos últimos meses, passando despercebidos da população. Quantas outras mortes resultaram da falta de acesso a medicamentos e tratamento nos hospitais públicos, bem como da violência nas ruas, com o agravamento da crise econômica? Incluam-se ainda os despejos, corte de serviços básicos por falta de pagamento, endividamento, e inúmeras outras situações degradantes, que só quem está passando por elas é que pode descrever o pesadelo. Será necessário esperar por uma pesquisa em universidade estadual, se UERJ, UENF e UEZO não forem privatizadas antes, para se descobrir qual foi o saldo nefasto da política econômica do atual governo federal?

A ordem de comando vem de Brasília, enquanto nos governos estaduais estão os apoiadores, seja por fraqueza ou conivência. O ministro da fazenda manteve-se inflexível e insensível ao drama que os fluminenses atravessaram ao longo de 2017. Está sendo o Rio um laboratório para as experiências do ministro Meirelles, no intuito de determinar o limite da degradação econômica e social que o trabalhador brasileiro pode suportar antes de se rebelar? Os suicídios entram no relatório do experimento como danos colaterais?

Qual estado será a próxima bola da vez? A dívida dos estados com a União só faz crescer, apesar das dezenas de bilhões de reais que já foram pagos de amortização (J.C. Assis, GGN), como nos antigos contratos da Caixa Econômica, em que o mutuário, por mais que pagasse as prestações, continuava a dever mais que o preço do imóvel novo. Nós, cidadãos do Rio e do país, somos reféns das políticas de destruição da infraestrutura estatal de atendimento à saúde, educação, segurança e do patrimônio científico e cultural da nação. Tudo em prol de uma privatização que atende principalmente aos interesses do capital internacional. O empresário nacional se satisfaz com os ganhos a obter com as reformas econômicas encaminhadas por Meirelles. O papel que está sendo reservado ao país na economia global é o de ser celeiro agrícola do mundo e fornecedor de outras commodities, com o petróleo e minérios.

Alguém será responsabilizado criminalmente pelas decisões e omissões que resultaram em sofrimento e mortes no Rio de Janeiro? Bastariam as assinaturas do ministro e do Secretáriode Fazenda do Estado, Gustavo Barbosa, para garantir a entrada de recursos para pagamento de salários atrasados e aliviar os aspectos mais agudos da crise na saúde pública. Ao contrário, a opção foi de liberar verbas bilionárias para garantir a permanência de Temer na presidência  da república e a aprovação das reformas trabalhista e da previdência, em detrimento da massa de assalariados.

A justiça, cada vez mais cega, deveria ter impedido, no mínimo, o corte no fornecimento de luz e água devido às inadimplências, bem como não ter permitido que a crise no pagamento dos salários se arrastasse por tanto tempo. Caberia agora obrigar o Secretário Barbosa a pagar juros e correção monetária pelos atrasos. O sentimento atual dos servidores e aposentados é um misto de insatisfação, revolta e impotência pela situação de humilhação que está sendo imposta, e da incapacidade de se fazer reverter este quadro.

Os sindicatos estaduais não conseguiram se opor às condições impostas pelo ministro para que o Estado obtivesse empréstimo para pagar os salários atrasados. A atuação dos mesmos tem se pautado agora no apoio emergencial, oferecendo cestas básicas, empréstimos e apoio psicológico, sem dúvida muito necessários, mas a capacidade de combate está amortecida.

Pode ser que com a assinatura do empréstimo do Banco BNP Paribas, o pagamento dos salários atrasados seja plenamente efetivado, vindo a aliviar as tensões e, com isto, diminuir os protestos. Ou talvez não, pois mais surpresas desagradáveis podem vir em 2018. A questão da dívida pública continuará premente, pelo dreno infindável dos recursos financeiros que poderiam resolver a questão da crise na saúde.

Resta a esperança que nossos representantes eleitos façam mais que o uso da vibrante oratória, que contra uma maioria constituída principalmente por interesses escusos, pouco ou nenhum efeito surte. Estes representantes precisam liderar a resistência da população do Rio à política de desmanches ordenada por Brasília.

Em primeiro lugar, não podemos esquecer de Lígia Maria Passinat e daqueles que não conseguiram resistir às provações e privações. Para os que acreditam na imortalidade da alma, estendam suas preces neste final/início de ano para o repouso dos que viveram seus últimos momentos em tormento. Mas seria imperdoável que estas mortes fossem em vão; precisam abastecer o combustível da reação. Alguma forma eloquente de homenagem e denúncia deveria ser organizada pelos nossos parlamentares. E, a partir daí, eles precisariam adotar medidas mais efetivas de protesto para mobilizar a população anestesiada.

Uma velha forma de luta, que a História já comprovou ter um imenso potencial mobilizador, capaz de colocar o opressor na defensiva, é a greve de fome. Os parlamentares representantes do Rio, incluindo deputados estaduais, federais e senadores, precisariam deixar suas respectivas zonas de conforto e entrar em greve de fome, com uma pauta objetiva, que deveria minimamente incluir: regularização do pagamento dos funcionários públicos e aposentados, verbas emergenciais para a saúde, auditoria e renegociação da dívida pública do estado do Rio com a União. Como esta última reinvindicação é de interesse também dos outros estados, os governadores e parlamentares que não forem coniventes com a politica do governo Temer, terão interesse em apoiá-la. O movimento poderá, então, tornar-se nacional.

Trata-se de um movimento que deve ser necessariamente supra-partidário. O local para o protesto pode ser o gabinete do parlamentar ou, melhor ainda, um salão comunal, onde poderão ocorrer adesões, sejam de mais parlamentares, de personalidades com conhecido envolvimento nas causas populares, de servidores públicos ou mesmo do cidadão que queira protestar contra as péssimas condições da saúde no estado. Se o protesto se iniciasse com o cidadão comum haveria o risco de inanição antes da notícia da greve de fome conseguir furar o bloqueio da imprensa golpista. O fundamental para aqueles que quiserem aderir à greve de fome é dispor de boa saúde, devendo haver no local infraestrutura adequada e acompanhamento médico permanente.

Com a greve e a mobilização que ela tem o potencial de trazer, se for adequadamente encaminhada, a corda vai esticar até o limite de ruptura, dando um cheque-mate no governo. Fora desta opção de resistência e luta, a alternativa seria ficar esperando por 2018, na expectativaincerta de se conseguir eleger um presidente comprometido com as causas populares. Mas, até lá, danos irreversíveis ao Rio e ao país já terão ocorrido, além de mais mortes que poderiam ser evitadas. Estamos atravessando um momento difícil da História do país que requer decisões difíceis.

Alguns cidadãos resolveram não esperar pela iniciativa de parlamentares ou personalidades, e estão tentando organizar um movimento coletivo de greve de fome, com início provável a partir de 10 de janeiro de 2018, defronte ao TRF-4, em Porto Alegre. A primeira demanda que consta da pauta é a absolvição de Lula, com o reconhecimento de sua honradez pelos juízes. São incluídas mais sete demandas, que, se alcançadas, representariam a completa redenção social do Brasil. Talvez os parlamentares da oposição que não sejam do PT hesitem em aderir a um protesto em prol de Lula. Mas o que está em questão não é Lula, o Homem, e sim Lula, o Mito que ele representa para um povo que precisa resgatar a dignidade e que acredita nele, queiram ou não seus detratores e os que não simpatizem com ele ou com o PT.

Sobre o recurso à greve de fome, vale recordar alguns exemplos da História contemporânea.  Ghandi dobrou com sua força de vontade o poder imperial da Inglaterra, então potência ocupante do subcontinente indiano. As sufragistas desafiaram o poder constituído do Reino Unido há cerca de cem anos, na luta pelo direito de voto nas eleições para o parlamento. Derrotas também ocorreram. Embora o uso da greve de fome seja um recurso legítimo e extremo a que uma pessoa pode recorrer na denúncia de situações de injustiça a que esteja sendo submetida, esta forma de protesto assume um nível de grandeza que transcende o ego, as falhas e fraquezas humanas quando é realizada em prol de terceiros, beirando o mítico, como no caso de Ghandi. E quando realizada por um coletivo de indivíduos, cada qual fazendo uso de seu livre arbítrio, o poder transformador aumenta de forma exponencial.

*Ruben Rosenthal é professor aposentado da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf)

FONTE: https://jornalggn.com.br/noticia/suicidio-e-desistir-greve-de-fome-e-resistir-por-ruben-rosenthal

Crônica de uma crise anunciada, breve resenha e reflexões

Finalmente estou tendo o tempo livre necessário para ler o livro “Crônica de uma crise anunciada: Crítica à economia política de Lula e Dilma” de autoria do economista  e professor livre-docente do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (IE/UNICAMP), Plínio Arruda de Sampaio Junior, e que foi lançada pela SG-Amarante Editorial [1].  A obra reúne uma coletânea de artigos escritos por Sampaio Jr a partir dos anos de 1990, e representa um esforço analítico não apenas sobre ao alinhamento da economia brasileira ao complexo econômico financeiro que domina a economia globalizada, mas também sobre o papel específico ocupado pelos governos dos presidentes Lula e Dilma à adesão do Brasil aos ditames das reformas neoliberais.

Ainda que se possa encontrar tensões e contradições na narrativa oferecida pelo Sampaio Jr, é possível reconhecer que ele consegue atacar os principais cânones do sistema de idolatria que cerca a figura do ex-presidente Lula. O fato é que Sampaio Jr logra estabelecer uma série de argumentos que são bastante convincentes acerca da existência de uma linha de continuidade no ritmo das ditas reformas neoliberais que começam com Fernando Collor e chegam até o presidente “de facto” Michel Temer. Nessa construção, os governos de Lula e Dilma, mas principalmente o de Lula, apenas se diferenciam pelo estabelecimento de uma retórica distracionista que é muito útil para cooptar o PT, a CUT e movimentos sociais para uma visão apenas “melhorista” da realidade brasileira que é pautada pelo oferecimento de políticas sociais engendradas pelo Banco Mundial.

Afora esse viés teórico importante, é importante reconhecer que a coletânea de Sampaio Jr nos oferece, ainda que de forma subliminar, é um conjunto tarefas a serem cumpridas para que se abandone a linha de acomodação ao receituário Neoliberal em nome de uma ação estratégica que recoloque a classe trabalhadora brasileira como a principal protagonista da luta de classes no Brasil.  Entretanto, fica evidente que isso só será possível com a superação do tratamento quase messiânico que é dispensado à figura do ex-presidente Lula até por setores da esquerda que não está ligados ao PT. 

Uma pista de que as análise de Sampaio Jr. não estão tão longe o alvo foi dada recentemente pela classe trabalhadora argentina que, rompendo com a apatia da CGT e de segmentos expressivos do peronismo, foi capaz de realizar uma mobilização contra a reforma da previdência proposta pelo governo de Maurício Macri que criou ondas de choque no continente inteiro, as quais certamente terão fortes reverberações no Brasil logo no início de 2018 quando o governo Temer tentar impor aqui a sua versão do confisco previdenciário.

Finalmente, deixo a minha sugestão de leitura e estudo do que esta posto no livro de Sampaio Jr.  É que não venceremos a nuvem ideológica que nos cobre neste momento se não entendermos como a mesma tem sido usada para paralisar e imobilizar a classe trabalhadora brasileira. 


[1] http://www.sg-amarante.com.br/cronica/index.html

 

Uma imagem que mostra bem quem nos (des) governa

Recebi a imagem abaixo que mostra em que tipo de problemas estão metidos aqueles que foram ontem apoiar o ainda presidente “de facto”  Michel Temer em seu pronunciamento contra seu indiciador e seu indiciamento por crimes de corrupção pelo procurador geral da República, Rodrigo Janot.

folha comentada

A amplitude dos problemas a que cada um dos sleecionados na imagem revela muito bem o tipo de elite política que o Brasil possui no seu comando neste momento.   É que tendo derrubado uma presidente eleita sob a alegação de “pedaladas fiscais”, o que se vê quando o grupo é olhado de mais perto vai muito além de impropriedades na gestão de recursos públicos, muito além.

Mas não podemos ignorar que Michel Temer não chegou ao poder por obra de Deus como ele sugeriu, mas de uma complexa política de colaboração de classes, liderada pelo ex-presidente Lula e o PT.  Assim, não há como deixar de observar que qualquer ilusão de que num futuro governo Lula esta visão de aliança será abandonada é fútil. Mesmo porque até hoje não se viu uma reflexão crítica acerca das opções que foram feitas e que nos levaram à condição desastrosa em que nos encontramos neste momento.

Mais importante de que sonhar com a volta de um passado que não foi assim tão glorioso é construir estruturas organizativas que nos permitam ir além do que temos mostrado na patética imagem de Temer e os que ainda conseguem se mostrar em público ao seu lado.

A inação frente a esta tarefa urgente coloca o risco de vermos em 2018 outra eleição em que as políticas contra a classe trabalhadora e os mais pobres serão ungidas nas urnas, pois quando não há alternativa viável, o que se vê é a permanência do que existe.  Mesmo que isto seja representado pelo PMDB e seus aliados.

Jeremy Corbyn e as lições que a esquerda brasileira deveria aprender

Britain's opposition Labour Party leader Jeremy Corbyn addresses revellers from the Pyramid Stage at Worthy Farm in Somerset during the Glastonbury Festival in Britain

Quem de nós imaginaria um político adentrando um festival de música para ocupar o palco principal, citar um poeta que morreu no início do Século XIX, e ainda ter seu nome cantado pela multidão? Provavelmente nenhum de nós seria capaz de imaginar isso no Brasil nos dias atuais, mas aconteceu ontem no Festival de Glastonbury  na Inglaterra (Aqui!), tendo como estrela principal o líder do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn.

Corbyn é um daqueles políticos que a mídia corporativa e seu próprio partido dizem que está fadado a fracassar por causa de ideias ultrapassadas como justiça social, distribuição da riqueza e fortalecimento do Estado em detrimento das políticas de privatização. Mas as piores acusações contra Corbyn incluem sua simpatia a organizações como  o IRA e o ETA, como ser pró-palestinos.

Mas contra todas as expectativas, Corbyn, que não chega a ser lá muito carismático, mobiliza a juventude e a classe trabalhadora inglesa, impondo derrotas ao Partido Conservador e aos setores de direito do seu próprio partido.

Em que pesem todas as limitações que Corbyn pode ter como membro de um partido completamente adaptado à ordem capitalista, é importante notar que sua ação está criando uma repercussão muito além do que ele próprio poderia esperar ao levantar bandeiras que fazem completamente sentido, mas que a própria esquerda brasileira, da qual o PT é o principal símbolo, se recusa a colocar na ordem do dia.

Com certeza é a principal lição que Jeremy Corbyn está dando à esquerda mundial. Resta saber se há entre nós alguém que tenha a mesma coragem que Corbyn vem demonstrando para avançar uma agenda que radicaliza o debate político e ameaça virar a mesa em prol dos trabalhadores.

Para resolver a crise que aí está, realizar eleições diretas para presidente é muito pouco

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O Brasil vive hoje o resultado de duas graves crises: a econômica e a política. Entre os resultados mais visíveis desta combinação estão os mais de 14 milhões de brasileiros desempregados que ainda têm de conviver com contra-reformas altamente impopulares que visam dificultar ainda mais o seu retorno ao mercado de trabalho.

Enquanto a crise se agrava, setores da burguesia se enfrentam para tentar escolher o melhor timoneiro presidencial para continuar com a agenda ultraneoliberal que Michel Temer abraçou e não tem mais condições de aplicar de forma eficiente. O resultado desse enfrentamento é a sucessão de proto candidatos biônicos que são lançados e removidos sem qualquer compromisso com a vontade da maioria da população.

Do lado do que se pode rotular de oposição, a situação também não é muito animadora. O Partido dos Trabalhadores (PT), principal partido da oposição e onde está abrigado o  maior líder político brasileiro, o ex-presidente brasileiro, oscila entre aceitar o jogo podre que a burguesia oferece dentro dos limites institucionais e partir para uma plataforma de mudanças controladas para que tudo acabe bem numa eleição em 2018. A mesma sina parece ser seguida pelos sindicatos e movimentos sociais ligados umbilicalmente ao PT ou simplesmente à Lula.

Já uma parte minoritária da esquerda apresenta uma plataforma mais avançada de descolamento das políticas neoliberais, mas oferece como limite a bandeira das “Diretas Já”,  pois falta a partidos como o PSOL não só a musculatura políticas para ir além, mas como também uma plataforma política que escape aos limites institucionais.

Pessoalmente simpatizo com a bandeira das “Diretas Já”, mas acho que sozinha ela serve apenas para que haja mais uma transição conservadora no Brasil cujo resultado será a devastação dos parcos direitos sociais e trabalhistas que vão restar após a débâcle que os anos de Dilma Rousseff e Michel Temer combinados resultou nas condições de vida da maioria da população.  É que ninguém pode esquecer que uma das razões pelas quais Dilma Rousseff caiu foi o abandono do seu programa eleitoral em prol das medidas formuladas e aplicadas por Joaquim Levy que mais pareciam ter sido gestadas pelo comitê de campanha do hoje desgraçado quase ex-senador tucano Aécio Neves.

Assim, para caminharmos para além do que a burguesia brasileira vai querer tolerar é preciso agregar outras bandeiras à das “Diretas Já”, incluindo a eleição de uma assembleia nacional constituinte, e isso apenas para começo de conversa. Do contrário, vai ser aquilo que o líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos, alcunhou de “mais do mesmo” (Aqui!).

O problema aqui é a esquerda, que eu chamo de “para além do PT”, precisa decidir arregaçar as mangas das camisas para ir onde está a maioria pobre do nosso povo e se conectar às suas demandas, mas também oferecer caminhos de saída que não impliquem apenas em reestabelecer um mínimo de condição de sobrevivência digna. Isso, depois da experiência com os anos de governos petistas, já está demonstrado que não é apenas insuficiente, mas sem qualquer saldo estrutural. Do contrário, o máximo que vamos conseguir são eleições diretas, o que será muito, mas muito pouco, para o tamanho da crise que aí está.

Lula e o segredo da esfinge da luta classes no Brasil

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Militei no Partido dos Trabalhadores (PT) de 1981 a 1990 e objetivamente passei esses anos todos utilizando o máximo da minha energia para a construção de um partido que permitisse elevar a consciência de classe da classe trabalhadora.  Quis o destino que eu passasse quase 7 anos fora do Brasil, e quando voltei em 1997 o partido que eu havia ajudado a construir tinha começado seu inexorável movimento pendular para a direita, tendo como seus timoneiros Lula e José Dirceu.

A minha decisão já no momento da volta foi de me afastar do PT e adotar uma posição de distanciamento da militância partidária, optando por usar o meu conhecimento na formação de jovens pesquisadores que olhassem a realidade brasileira com lentes críticas que eventualmente ajudariam a consolidar um processo de entendimento útil para a transformação da nossa abjeta realidade social.

Ao longo dos anos de dominância do PT e de seu projeto de conciliação de classes fui um crítico quase solitário das múltiplas mazelas da visão neodesenvolvimentista que foi aplicada para injetar centenas de bilhões de recursos públicos em projetos capitalistas que eram social e ambientalmente destrutivos, vide o caso lapidar do Porto do Açu.  A própria aproximação do ex-bilionário Eike Batista das hostes petistas foi para mim uma confirmação de que o PT está literalmente perdido no sentido de um projeto de transformação da sociedade brasileira. O PT é acima de tudo um partido da ordem social que seus dirigentes buscam preservar a todo custo, em que pesem os custos pesados que eles mesmos recebem das elites ingratas a quem tão bem servem.

Agora, convenhamos, apesar de todos esses elementos, seria um erro primário desconsiderar o alcance que a figura política de Lula ainda possui para milhões de  brasileiros pobres e, por isto mesmo, é tão grande a perseguição para que ele se ajuste ainda mais à defesa da ordem. Essa pressão que ora aparece na forma de pressões judiciais não é nova, mas assume todos de caricatura jurídica para garantir que Lula siga cumprindo seu papel de artífice da conciliação de classes.

Nesse quadro todo fica ainda mais evidente o despreparo e a inépcia dos chamados partidos da esquerda revolucionária para romper a bolha do petismo nos movimentos sociais e sindicatos. Eu pessoalmente associo essa incapacidade a uma falta de superação da crise causada pela implosão da URSS da qual a maioria da esquerda mundial ainda se ressente. Nesse sentido, a persistência do ônus da dominância stalinista na esquerda mundial surge no Brasil como um espectro que impede o florescimento de alternativas reais a Lula e ao PT. Para somar a isso há ainda a armadilha das multi identidades que foi imposta para fragmentar a classe operária, de forma a impedir que se possa superar a crise na organização mundial do proletariado. 

Tal situação impõe tarefas claras para o período imediato, na medida em que os ataques aos direitos dos trabalhadores somente tenderão a aumentar.  Mas para que haja uma solução de fato há que se superar a fragmentação na esquerda no interior dos estados nacionais e que se parta para a formação de algo que se assemelhe a um organização mundial.  Essa é a tarefa pendente desde que Josef Stalin domesticou a III Internacional ao seu projeto de “socialismo em um só pais”. Resta saber se haverá disposição para enfrentar essa tarefa hercúlea. 

Enquanto isso, querendo ou não, viveremos na dependência da disposição de Lula para minimizar os estragos que sua própria política de conciliação de classes vem causando aos trabalhadores brasileiros. Não deixa de ser um “catch 22”, mas é o que temos para o momento. E como dizia o coelho Pernalonga ao fim de cada um dos seus episódios… That´s all folks!