Carta da III Jornada de Agroecologia da Bahia

 jornada

 

Pelos caminhos da América, no centro do continente, marcham punhados de gente, com a vitória da mão.  Nos  mandam sonhos, cantigas, em nome da liberdade, com o fuzil da verdade, combatem firme o dragão.

Pelos caminhos da América há um índio tocando flauta, recusando a velha pauta, que o sistema lhe impôs. No violão um menino e um negro tocam tambores, Há sobre a mesa umas flores, pra festa que vem depois.                   Zé Vicente  – “Pelos Caminhos da América”

Eles e Elas, mas de mil e duzentas, chegaram de todas as partes chocalhando seus maracás, tocando seus tambores e atabaques, percutindo seus berimbaus e caxixis, dedilhando seus violões e soprando suas flautas e gaitas, dedilhando seus acordeons. Chegaram com ginga, com cores, com alegria, trouxeram suas sementes sagradas e seus saberes ancestrais e nos seus alforjes, sonhos e esperanças de um novo mundo possível para TOD@S.  O local do “Grande encontro” foi no assentamento Terra Vista no município de Arataca no sul da Bahia na primeira semana de dezembro de 2014, e teve como tema: “Sementes, ciência e tecnologia agroecológica, para mudar a realidade das comunidades no campo e na cidade”.

 Foram 05 dias (03 a 07/12) intensos de partilhas, reflexões, práticas, celebrações e uma mística que envolvia a tod@s. As oficinas temáticas e práticas, os mini-cursos, as mesas redondas, os momentos lúdicos, as conversas ao pé da fogueira e nos diversos “cantos” do assentamento. A feira troca-troca, nos banhos no Rio Aliança. Levaram-nos as seguintes constatações:

 – A certeza que a caminhada realizada desde a I Jornada no final de 2012, que consolidou a Teia de Agroecologia dos Povos da Cabruca e da Mata Atlântica, deve continuar. E a TEIA deve continuar atuando de forma permanente enquanto uma rede que reconstrói a solidariedade entre as comunidades tradicionais, movimentos do campo e da cidade, e deve continuar dando um sentido mais amplo à agroecologia, tão distorcida pelo excesso acadêmico e teórico e tão pouca prática. Devemos desconstruir o tecnicismo perigoso, para defender uma agroecologia que une os povos e saberes para garantir saúde para nossos alimentos, solos e águas, saúde para as nossas relações sociais, para nossa identidade cultural, espiritualidade e ancestralidade. E como vimos muito fortemente nesta III Jornada, nos comprometemos na luta pela preservação e garantia de nossas sementes – “Patrimônio genético dos povos e da humanidade”.

– Assim como na II Jornada, percebemos e reafirmamos o compromisso de que não temos como consolidar uma saúde de boa qualidade e diferenciada e autonomia, que representa na verdade novas formas de vida, política e militância, sem garantir nossos territórios e a vida de nosso povo e nossas lideranças.  A agroecologia então,  é também uma forma de enfrentamento desse sistema e a Teia se propõe a ter ações solidárias diretas de defesa de nossos povos. Assim, nossa luta segue o caminho irrestrito de defesa da garantia da terra e por uma soberania dos povos que sabemos que só pode ser feita a partir de nosso suor.

– Exigimos a democratização da terra rural e urbana, com reforma agrária de verdade e já, a desintruzão e regularizações imediatas das terras indígenas e quilombolas e a reforma do solo urbano. Repudiamos veemente os ataques dos ruralistas contra os direitos dos povos do campo duramente conquistados, ataques estes com a conivência do Estado Brasileiro. Dizemos NÂO as Propostas de Emendas Constitucionais-(PECs), Projetos de Leis-(PLs) e Portarias Ministeriais que atacam e tentam tirar direitos já conquistados. Todos esses instrumentos buscam inviabilizar e impedir o reconhecimento e a demarcação das terras dos povos tradicionais, reabrir e rever procedimentos de demarcação de terras indígenas já finalizados; e facilitar a invasão, exploração e mercantilização dos territórios sagrados dos povos das florestas e suas riquezas. Tudo isto contrários aos princípios que vimos nesta III Jornada. Portanto continuaremos numa luta constante contra todos estes instrumentos jurídicos e legislativos que tentam deslegitimar as lutas e retirar os direitos constitucionais destas populações.

– Recachamos as propostas do  REDD+ e os ‘serviços ambientais’, no contexto da ‘economia verde’,  e contrários aos princípios agroecológicos, e deve continuar sendo uma parte central da nossa luta contra o capitalismo e as indústrias extrativas. Reafirmamos o compromisso de nos organizarmos pela defesa dos nossos territórios, pela defesa das populações que vivem, dependem e são parte das florestas, pela defesa da autonomia sobre o controle de seus territórios, pela defesa da Mãe Terra. Basta de projetos extrativos, Não aos serviços ambientais, Lutar contra REDD+ também é combater o capitalismo! Não à criminalização dos povos que defendem seus territórios!  Queremos um basta imediato no processo de criminalização das lutas e das lideranças; Reafirmamos que “Lutar não é crime”.

– Exigimos que os governos municipais, estaduais e o governo federal cumpram com suas obrigações constitucionais e garantam os nossos direitos.  Que possamos ter políticas públicas de verdade que atendam as nossas necessidades e respeitem as nossas especificidades. Isto não é um favor é um direito.

– Invocamos a proteção dos nossos encantados, o seres de luz para continuarmos lutando contra os projetos de morte, que em nome de um tal de “progresso”, ou conhecidos como agronegócio e hidro negócios  atacam e agridem nossas comunidades, desrespeitam nossas identidades culturais, ferem a Mãe natureza e automaticamente ferem seus filhos. Lutaremos sempre por uma educação descolonial e libertadora que nos leve a concretizarmos o nosso Bem Viver.

– Percebemos a necessidade e nos comprometemos em aperfeiçoar a pratica da agroecologia nos nossos territórios, articulando os saberes ancestrais com os novos conhecimentos científicos, usado as novas tecnologias para o empoderamento popular, o manejo e uso da agroecologia e biodiversidade em SAF’s, inserção de SAF em ações de desenvolvimento centradas na agricultura familiar e nas diversas produções dos povos e comunidades tradicionais, planejamento da propriedade rural, permacultura, cacau orgânico e de qualidade, Ampliação dos nossos “bancos de sementes e viveiros de mudas”, caminhos sustentáveis e viáveis para todos, formação cultural para o fortalecimento de identidade, saberes ancestrais, soberania alimentar e saúde familiar entre muitos outros temas trabalhados nas diversas oficinas e reflexões coletivas.

– Nos comprometemos em continuar a nossa jornada unidos, partilhando os nossos “saberes”, construindo coletivamente nossos “sonhos”, protegendo as nossas sementes, organizando em mutirão as nossas lutas, exigindo com responsabilidade e de forma propositiva os nossos direitos, transformando os nossos espaços em territórios sagrados semeando “sementes de esperança” para colhermos “frutos de vida e plenitude”, retirando e impedindo o uso de “venenos e agrotóxicos” não só da terra, mas de nossa convivência para podermos saborear num futuro bem próximo um “chocolate amargo-doce”, resultado de uma corrente de diferentes elos unidos e entrelaçados por um único ideal: VIDA PLENA PARA TODAS AS CRIATURAS.

Como nos diz o eterno poeta Gozaguinha, na sua canção – Semente do amanhã:  “Nunca se entregue, nasça sempre com as manhãs/ Deixe a luz do sol brilhar no céu do seu olhar! /Fé na vida Fé no homem, fé no que virá! / nós podemos tudo, Nós podemos mais. VAMOS LÁ FAZER O QUE SERÁ.

 É preciso resistir para EXISTIR.

 Assentamento Terra Vista, 07 de dezembro de 2014.

Marina Silva e a Modernização Ecológica: uma mescla de OGMs, REDDs, banqueiros, latifundiários e outros quetais

Marina Silva virou a Geni da vez nas mãos de neopetistas e velhos tucanos, após tomar o lugar que era de direito seu na atual disputa presidencial. A verdade é que Eduardo Campos (tal como o é Aécio Neves) era, usando uma metáfora futebolística, o jogador reserva que, sabe-se lá porque, foi escalado no lugar do craque do time.  Mas a morte de Campos, acabou retificando esse desvirtuamento, e agora Marina causa o embaralho esperado, num jogo que se avizinhava chocho e modorrento.  Mas exatamente por ser o craque do time, Marina agora está sendo tratado a cotoveladas e bicões por todo mundo. O negócio é tão duro que até Reinaldo Azevedo anda dando uns carrinhos na direção da ex-seringueira.

Mas qual é o motivo de tanta irritação? Qual é mesmo a guinada política que Marina Silva nos oferece? Se alguém olhar toda a sua gestão de ministra de Meio de Ambiente do governo Lula ( e olha que ela foi ministra durante todo o primeiro mandato e metade do segundo), Marina simbolizou a adoção dos princípios da Modernização Ecológica cujo efeito final foi iniciar um profundo processo de desregulação ambiental que tornou o Brasil o que é hoje, um pasto onde as grandes corporações poluidoras pisoteiam a gosto. E isto tudo em nome de quê? Da criação de um modelo de crescimento econômico, onde as questões ambientais seriam mantidas essencialmente como externalidades, e eventualmente corrigíveis por mecanismos tecnológicos!  E se ela optou por sair, essa decisão não foi por um cansaço com o desmonte do sistema de proteção ambiental em que teve papel central, mas mais provavelmente por questiúnculas internas de qualquer governo.

Assim, não me surpreende que Marina Silva ande abraçando o uso de organismos geneticamente manipulados (os transgênicos) ou que defenda a adoção de mecanismos de mercado como o REDD (Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação florestal), ou mesmo o tal projeto de autonomia do Banco Central. Isso tudo faz parte de uma cartilha de preservação da forma específica com que o Capitalismo se estabeleceu no Brasil. Diante disso, até a amizade dela com a herdeira do Banco Itaí não me causa surpresa.  Afinal de contas, Marina Silva é muito coerente e está bastante antenada com os limites do atual modelo neopetista-tucano.

Agora, esperando ter deixado claro o meu entendimento do que Marina Silva realmente representa, creio que é preciso deixar claro que para mim suas propostas não representam nenhuma ruptura com o modelo estabelecido para gerir a economia brasileira desde que Fernando Collor entrou e saiu de forma meteórica da presidência da república. Não é à toa que Marina está cada vez mais cercada de banqueiros e latifundiários que, de fato, dirigirão a sua campanha presidencial.

O importante para mim é o que os partidos de esquerda vão fazer para capitalizar toda a confusão e desarranjo que a candidatura de Marina Silva está causando. Após cometerem o erro de não chegar a uma candidatura única das esquerdas, espero que pelo menos o PSOL, o PCB e o PSTU saibam ocupar um terreno comum para denunciar as candidaturas situacionistas. Com isso, talvez tenhamos uma chance mínima de aproveitar a ocasião das eleições para debater a resistência política para o que virá depois das eleições, seja qual for o candidato que as elites elejam. Afinal, a única coisa certa é que o futuro idealizado pelas forças políticas dominantes vão continuar nos empurrando o mesmo modelo degradador do ponto de vista ambiental e social. Simples assim.