Brasil- o inferno da pandemia

O coronavírus está se espalhando rapidamente no maior país da América Latina. O presidente Jair Bolsonaro ainda conta com a flexibilização: ele quer se distrair de acusações sérias contra ele. 

hospital de campanhaNovo hospital de campanha no Rio de Janeiro.  Foto: AFP / Carl de Souza

Por   Ramona Samuel und Tobias Käufer para o Berliner Zeitung

Rio de Janeiro: “O pior”, diz Fleury Johnson, “é que não podemos ajudar as pessoas da maneira que é realmente necessária.” O médico de 28 anos trabalha na UPA Mesquita, um centro médico inicial no Rio de Janeiro. A estação está localizada na Baixada Fluminense, o largo cinturão de bairros pobres que circundam a enorme cidade. Nenhum turista e nenhum estrangeiro chegam lá. Como se costuma dizer no Rio, o verdadeiro Brasil está lá em casa. Tudo é diferente lá do que nos bairros ricos de Ipanema ou Copacabana, onde os hospitais também são melhores.

Ao longo da parede de concreto da UPA, uma grade azul leva à única entrada para todos os pacientes. “24 horas de cuidados” está escrito na parede. Fleury Johnson está enfrentando o maior desafio de sua vida atualmente: o coronavírus chegou ao seu país de origem. E deve ser derrotado.

“Temos muitos pacientes que se pensa terem COVID-19”, diz Johnson. O que dificilmente pode ser feito: Existem poucos ventiladores para muitos pacientes que realmente precisam deles. E, acima de tudo, há muito poucos leitos de terapia intensiva, porque a enfermaria onde ele trabalha é, na verdade, apenas o primeiro ponto de contato dos pacientes. Mas para onde, com as muitas pessoas doentes? “Os pacientes permanecem simples. E não é possível encontrar um local gratuito nos hospitais. Não temos suporte suficiente. “

A situação na UPA é preocupante. Não é possível diferenciar aqui entre pacientes com sintomas semelhantes aos da gripe dos pacientes que vêm por causa de outras doenças. Muitos que querem obter ajuda aqui nem usam proteção bucal.  E o que faz com que o vírus possa se espalhar ainda mais.

O que a equipe médica da UPA Mesquita experimenta agora é comum em todo o Brasil: centros de saúde e hospitais estão sobrecarregados com o atendimento de pacientes com corona e desmoronam. As razões para isso são caseiras. “Existe uma política neste país que quer reduzir a saúde pública. Há um interesse em privatizar o sistema “, diz a médica Cristina Brito, 42 anos.” O que falta é que as pessoas e seu tratamento estejam no centro da política “.

Cristina Brito

A doutora Cristina Brito critica a política de saúde.  Foto: Cristina Brito

O sistema de saúde brasileiro estava em ruínas e cheio de corrupção antes de Jair Bolsonaro se tornar presidente e antes da pandemia de corona.

Antes da Copa do Mundo de 2014, várias centenas de milhares de pessoas em todo o país saíram às ruas para demonstrar investimentos em educação e saúde, em vez de em estádios da FIFA. Mas o curso já estava definido.

E piorou: o Brasil ficou impressionado com a organização da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos. O aumento esperado não se concretizou. Propagação da corrupção, caixas registradoras foram saqueadas. E a raiva contra a classe política cresceu. O que acabou levando à eleição do populista de direita Bolsonaro. E ele também colocou o lápis vermelho no setor de saúde.

O Brasil já registrou oficialmente mais de 240.000 infecções por coroa e quase 16.000 pessoas morreram. Em relação à população de quase 210 milhões de pessoas, esses são números comparáveis ​​- ainda. Porque nos últimos dias os números aumentaram rapidamente. Ninguém sabe se o Brasil está caminhando para um desastre ou se o topo da curva já foi atingido. E, acima de tudo, ninguém sabe quantas pessoas nos bairros pobres realmente morreram de Covid-19 e não foram incluídas nas estatísticas.

A situação na região amazônica também é dramática. Somente em Manaus, o número de mortes aumentou para mais de 2.000. E a desconfiança das estatísticas oficiais é grande. “Os números que conhecemos como movimento indígena são muito maiores do que aqueles que a autoridade oficial SESAI anuncia”, diz Sonia Guajajara na conversa por vídeo.

Guajajara é o coordenador da Associação dos Povos Indígenas Brasileiros e um dos ativistas mais destacados pelos direitos indígenas. A população indígena é exposta ao vírus sem proteção, as dificuldades para protegê-lo são imensas.

A autoridade competente SESAI deve finalmente tomar medidas para proteger a vida dos povos indígenas. “Precisamos de centros de saúde onde as pessoas são tratadas”, diz Guajajara. “E os hospitais também precisam ser construídos para fornecer serviços básicos aos povos indígenas. Especialmente na região amazônica, onde o sistema de saúde já entrou em colapso. “

Aliás, os povos indígenas do Brasil estão travando outra luta que quase foi esquecida. “Nesta crise, não devemos esquecer que o desmatamento está progredindo”, diz Guajajara. Madeireiros ilegais continuam a penetrar em territórios indígenas, trazendo o vírus com eles. Há também um sistema por trás disso, suspeita Guajajara. O desmatamento já existia sob outros governos. Mas Bolsonaro é contra os direitos humanos, contra os povos indígenas e contra a proteção ambiental. “Ele tem uma política destrutiva. Ele institucionalizou o genocídio no Brasil ”, diz Guajajara. No país, cresce o número de pessoas que suspeitam que o governo nacional não agiu para impedir a propagação da pandemia na Amazônia.

Novos fatos também devem ser criados à sombra da pandemia. Nesta semana, o Congresso decide sobre uma iniciativa legislativa chamada “MP da Grilagem” – liminar para a apropriação de terras. A lei, comenta a Sociedade para os Povos Ameaçados, fornece uma anistia para ocupação ilegal e desmatamento, mesmo de terras indígenas. Os ocupantes ilegais tornam-se proprietários legais.

“Se as regras entrarem em vigor como o poderoso lobby agrícola deseja, os conflitos fundiários surgirão em todo o Brasil. Territórios indígenas na Amazônia, por exemplo, também seriam afetados ”, temia Juliana Miyazaki, consultora da Sociedade de Povos Ameaçados. “Esta lei seria um convite para mais apropriação de terras, mais cortes e queimadas e mais violência contra os povos indígenas em suas áreas protegidas”.

De fato, a pandemia de coroa continua a polarizar o país. Agora existem dois campos. Há o presidente Bolsonaro, que há muito tempo subestimou e subestimou o perigo da pandemia e agora está em campanha pela abertura da vida social. E existem aqueles que lutam rigorosamente contra o vírus.

Às vezes, os campos se reúnem, como aconteceu recentemente durante uma manifestação em Brasília, quando os profissionais de saúde queriam chamar a atenção para as vítimas em suas próprias fileiras. Com cruzes de madeira pretas nas quais os nomes dos médicos e enfermeiros que sofrem de COVID-19 podiam ser lidos. Eles foram atacados, insultados e retratados como mentirosos pelos apoiadores de Bolsonaro. Houve brigas.

O campo de Bolsonaro, por outro lado, organizou carreatas que exigem um “retorno ao trabalho”. Os participantes foram insultados pelos transeuntes. A fenda que atravessa a sociedade está se aprofundando.

Jair Messias Bolsonaro, presidente, é responsável por esse desenvolvimento. Contra todos os conselhos dos médicos, ele continua se misturando com as pessoas, causando multidões e zombando dos meios de comunicação que reportam criticamente sobre a propagação do vírus. “Meu nome é Messias, mas não posso fazer milagres”, disse ele com um encolher de ombros recentemente, quando perguntado sobre a propagação do vírus.

Uma luta pelo poder ocorreu em seu próprio gabinete por causa dessa atitude casual. O ministro da Saúde, Luiz Mandetta, que usou critérios científicos para combater a pandemia e fez campanha pelo fechamento de contatos, perdeu a luta contra Bolsonaro, comprometido com a abertura da vida econômica. Menos de quatro semanas depois, o sucessor de Mandetta, Nelson Teich, desistiu exasperado. No meio da pandemia, há um caos na política de saúde.

“Não levarei meu povo à pobreza apenas para receber elogios da mídia”, disse Bolsonaro há algumas semanas, estabelecendo assim o caminho. Enquanto os governadores e prefeitos às vezes impõem restrições rígidas de saída e paralisam a vida econômica, Bolsonaro se apresenta como advogado de vendedores ambulantes e lojistas. Nesta semana, ele declarou academias, salões de beleza e cabeleireiros como sendo sistemicamente importantes, sabendo que todas essas instalações fazem parte do modo de vida brasileiro. Isso torna ainda mais difícil para os governadores implementar seu curso difícil.

Bolsonaro precisa dessa luta para se libertar de uma crise política doméstica. Nas últimas semanas, o presidente perdeu dois ministros populares, Mandetta e o ministro da Justiça, Sergio Moro, que haviam vinculado o potencial eleitoral tradicionalmente conservador.

Além disso, há uma disputa legalmente controversa sobre uma suposta interferência do presidente nos assuntos da Polícia Federal, que está investigando os filhos de Bolsonaro. Mais e mais políticos estão pedindo que Bolsonaro seja destituído do cargo. Mas isso também abriga o risco de que o presidente possa se apresentar como vítima. Com a “discussão de abertura” que ele iniciou, Bolsonaro tenta suprimir os problemas nas primeiras páginas. E seu ponto de vista está ganhando cada vez mais seguidores.

O médico Fleury Johnson, da UPA em Mesquita, não tem entendimento e, acima de tudo, não tem tempo para debates domésticos desse tipo. Ele não apenas combate a pandemia, mas também os problemas que o equipamento de proteção coloca para ele. É insuficiente e não oferece ajuda a ele como segurança suficiente. Johnson diz: “Todo dia que vou trabalhar, sei que o que acontece lá é muito pior do que o que aparece na mídia”.

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Este artigo foi originalmente publicado em alemão pelo “Berliner Zeitung” [Aqui!].

Padrão de difusão no RJ reforça o caráter multipolar do coronavírus

Aparecida de Goiânia registra segunda morte causada pelo novo ...

Ainda que se desconte o alto fato de subnotificação que marca a difusão do coronavírus no Rio de Janeiro, o mapa abaixo reforça algo que já se sabe sobre o caráter multipolar que caracteriza o seu espalhamento espacial.

disseminação covid rj

Com base na concentração do número de casos confirmados, identifiquei vários áreas polos (marcadas por cada um dos círculos com cores diferentes para identificar a região administrativa a que pertencem os municípios).

Se usarmos a “teoria dos lugares centrais” desenvolvida pelo geógrafo alemão Walter Christaller fica fácil entender porque determinados municípios estão servindo como pólos de difusão do coronavírus. É que ao assumir papéis centrais no processo de circulação de pessoas e por serem áreas mais dotadas de determinados serviços, estes municípios acabam sendo mais impactadas pela chegada e saída de pessoas. Daí a razão para que se transformem neste momento áreas focais, mas também irradiadoras, do coronavírus.

Um elemento que o mapa acima nos permite dizer é que o estado do Rio de Janeiro, apesar de possuir áreas mais “quentes” em termos do número de casos de infecção, está totalmente ocupado pelo coronavírus.  E as diferenças existentes na magnitude de casos confirmados se dá por suas características demográficas e de nível de atividade econômica. Entretanto, o fundamental é que o coronavírus está perfeitamente distribuído no território fluminense. E isto deveria ser respondido com um maior articulação entre as autoridades sanitárias, de modo a conter a percolação mais intensa do coronavírus, impedindo que se aumente o número de casos nos municípios com menor capacidade hospitalar instalada.

No caso de Campos dos Goytacazes, também não há nada de surpreendente no fato de que o município seja com o maior número de casos confirmados. Isto se dá por todas as características já apontadas acima. A confirmação de que Campos se tornou uma das áreas focais de disseminação do coronavírus é particularmente preocupante, pois em seu interior existem profundas diferenças sociais, o que poderá resultar em uma alta perda de vidas humanas nas áreas mais periféricas e desprovidas de serviços básicos de saúde, abastecimento de água e tratamento de esgotos. 

MPF e DPU recomendam que estado do RJ reforce medidas para conter disseminação de COVID-19

Documento recomenda medidas como ações de informação e fiscalização continuadas para o engajamento da população às regras de isolamento

COVID RJ

O Ministério Público Federal (MPF) e a Defensoria Pública da União (DPU) recomendaram ao governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSL), e ao secretário estadual de Saúde, Edmar Santos, que o estado adote uma série de medidas para conter a disseminação da COVID-19 e engajar a população nas medidas de isolamento social.A recomendação, enviada na quinta-feira (8) sugere que o uso de máscaras seja obrigatório em todo o estado e que o governo estadual adote medidas de informação continuada para aumentar o engajamento da população, inclusive com coletivas de imprensa pela SES/RJ sobre a importância das ações de isolamento. Também pede a fiscalização das medidas implementadas, no regular exercício do poder de polícia, observados os princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, eficiência e dignidade da pessoa humana.

O estado deve apresentar os critérios para identificar o esgotamento dos serviços de saúde e, caso identificado, deve fortalecer gradualmente as ações de isolamento, com base nos critérios definidos em documentação técnica e coleta de informações estratégicas em saúde.

O MPF e a DPU destacam a necessidade de que haja número suficiente de profissionais para atendimento aos doentes, bem como EPIs para os trabalhadores de saúde, testes laboratoriais para diagnósticos, leitos clínicos e leitos de UTI completos com respiradores em número pertinente para absorver o impacto do aumento de número de casos caso o isolamento seja flexibilizado.

O documento ainda pede a ampliação de testes para detecção da nova doença e a observância de orientações e normas da Organização Mundial da Saúde, Ministério da Saúde e Conselho Nacional e Estadual de Saúde referentes à retirada de distanciamento social para enfrentamento à covid-19.

“O movimento do governo pelo recrudescimento das medidas de isolamento já está sendo anunciado. O foco da recomendação enviada foi, portanto, ressaltar os aspectos da rede de assistência à saúde e a falta de vagas já observada pela análise direta do sistema informatizado de leitos da Regulação (Sistema Plataforma-SMS), bem como ressaltar a necessidade da adoção de medidas fundamentais para o engajamento da população – como condição para o êxito do isolamento, em qualquer de suas modalidades – e de medidas eficazes de fiscalização, observados os princípios que regem a Administração Pública e o principio da dignidade da pessoa humana. O MPF e DPU entenderam também essencial uniformizar em todo território do estado do Rio de Janeiro a ordem pelo uso obrigatório de máscaras – outra medida recomendada”, destacam os procuradores da República e o defensor público federal que assinam a recomendação.

O documento, com prazo de resposta de 72 horas, lembra que 67% da população fluminense depende exclusivamente do SUS e que o estado do Rio de Janeiro registra aumento exponencial da contaminação, com adesão ao isolamento social de 46,2%, bem abaixo do índice de 70% considerado ideal para o achatamento da curva. Em 7/5, data da recomendação, o painel eletrônico da SES-RJ mostrava 13.295 casos confirmados ; 8.300 recuperados; 1.205 óbitos confirmados; 2.471 internações. Desse total de casos confirmados, 8.577 são no município do Rio de Janeiro.

Ação civil pública – Em outra frente de atuação, outras medidas estão sendo adotadas no processo judicial n. 5004268-19.2020.4.02.5101, em trâmite na 15a Vara Federal do Rio de Janeiro, para engajar a rede federal na rede de assistência da covid-19 e, desta forma, evitar desperdício da capacidade de assistência pública de saúde instalada.

Veja aqui a íntegra da recomendação.

Blog do Berta, uma leitura essencial para entender a natureza seletiva da crise financeira no Rio de Janeiro

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Apesar de não possuir uma listagem pública de veículos da mídia alternativa que eu acompanho regularmente, o fato é que existem excelentes jornalistas que optaram (ou foram optados por assim dizer) a criar seus próprios veículos para continuarem fazendo jornalismo de qualidade.  Por isso, leio regularmente vários blogs e portais que sinalizam essa mudança de paradigma para a produção de jornalismo investigativo qualificado.  Dentre alguns destes veículos cito o portal “Viu!“, o blog do jornalista Marcelo Auler, e, mais recentemente, o blog do jornalista Ruben Berta.

E quero me deter aqui me deter nas interessantíssimas apurações que o jornalista Ruben Berta vem realizando sobre gastos curiosos e vultosos (convenhamos que essa é uma estranha combinação) que estão sendo realizados pelo governo do estado do Rio de Janeiro à guisa de dotar as estruturas públicas estaduais de saúde das condições necessárias para combater a difusão e as inevitáveis consequências da pandemia da COVID-19.

blog do berta

Uma das matérias publicadas pelo jornalista Ruben Berta revelou que a Polícia Militar do Rio de Janeiro irá pagar R$ 2,3 milhões para que uma loja de materiais de construção forneça, sem licitação é preciso que se frise, forneça máscaras e aventais que, em tese, serão usados para combater os efeitos da COVID-19.

Em outra matéria apareceu algo ainda mais grave que foi a compra superfaturada de 100 mil frascos do antibiótico claritromicina que custando no mercado um preço médio de R$ 30,00, custou aos cofres estaduais a “bagatela” de R$ 120,00.

Uma investigação ainda mais reveladora feita por Ruben Berta se deu com a contratação de uma empresa investigada no Rio Grande do Sul para a construção, também sem licitação, dos chamados “hospitais de campanha” a um custo milionário.  Essa matéria acabou tendo repercussão na mídia corporativa, e explica porque até hoje a cidade de Campos dos Goytacazes ainda não viu a conclusão da unidade deste tipo que deverá operar no antigo terreno da concessionária Vasa.

O que me parece peculiar é que se não fosse pela ação diligente e robusta do ponto de vista jornalístico do jornalista Ruben Berta, não seria possível saber que o problema do estado do Rio de Janeiro continua não sendo falta de dinheiro, mas as formas pelas quais os recursos públicos são utilizados pelos governantes de plantão.

Mas agora que o Ruben Berta “tirou o gato do saco”, é fundamental que os servidores públicos estaduais e suas entidades de classe não caiam na ladainha de que não há dinheiro nos cofres estaduais para que se continue pagando salários em dia. A verdade é que todo aceno no sentido contrário parece apenas querer distrair a atenção de fatos que demonstram o contrário.

E se alguém ainda tiver dúvidas de que a crise financeira do Rio de Janeiro, sugiro a leitura das reportagens postadas pelo jornalista Ruben Berta em seu blog. Simples assim!

 

No pico da pandemia, Wilson Witzel quer impor “privatização selvagem” do Estado a toque de caixa

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Durante a campanha eleitoral de 2018, o candidato Wilson Witzel falou em privatizar as universidades estaduais e depois negou. Agora Witzel mostra que a negação não era verdadeira

Quando meu avô paterno fez 90 anos e ninguém conseguia fazer uma fala em nome da numerosa família que estava em volta do bolo, minha falecida mãe surpreendeu a todos com uma fala que emocionou às lágrimas o velho imigrante que construiu uma jornada gloriosa ao longo de mais de oito décadas em terras paranaenses.  Minha arrematou a sua fala dizendo que os filhos, netos e bisnetos em volta do meu avô eram uma prova de o “fruto nunca cai longe do pé”.

Lembrei hoje dessa cena ao ler que o governador Wilson Witzel enviou ontem para a Assembleia Legislativa, e em regime de urgência, um projeto que retoma o modelo de privatização selvagem que começou a colocar o Brasil no buraco em que se encontra neste momento lá pelos idos de 1995.

Segundo nos informa a jornalista Paloma Savedra em matéria publicada pelo jornal “O DIA”, a proposta formulada pelo governador do Rio de Janeiro promoverá uma privatização ampla do estado, atingindo até as três universidades estaduais e a fundação de amparo à pesquisa do estado (a Faperj).

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Esse movimento implica em uma retirada da presença estatal em áreas estratégicas do funcionamento da segunda economia da federação, justamente em um momento que se precisaria de uma ação concentrada do estado para alavancar uma economia que já se encontrava em franca decadência, antes mesmo da eclosão da pandemia causada pelo coronavírus. Witzel faz assim uma espécie de “Plano Marshall” às avessas, pois retira do estado a capacidade de agir de forma organizada e compreensiva para retirar a economia fluminense do buraco.

Ao buscar a privatização das universidades estaduais e da Faperj, Wilson Witzel também realiza um ataque fulminante na capacidade do Rio de Janeiro de se postar como uma liderança importante na formulação de soluções amplas para a presente pandemia. É que as universidades estaduais e a Faperj estão na linha de frente das ações que têm sido tomadas, com pouquíssimos suporte do governo estadual, para oferecer soluções amplas para o enfrentamento da pandemia.

O interessante é que, no mesmo período em que quer impor um modelo de privatização selvagem, o governador Wilson Witzel tem sido pego em situações pouco lustrosas em relação à realização de contratos para combater a pandemia da COVID-19.  Como tem sido meticulosamente levantado pelo jornalista Ruben Berta, editor do “Blog do Berta”, há uma outra epidemia grassando no Rio de Janeiro em meio da causada pelo coronavírus, envolvendo contratos duvidosos com valores para lá de salgados. Aparentemente, as preocupações do governador Wilson Witzel com a saúde financeira do estado do Rio de Janeiro são, no mínimo, seletivas.

Como em tantos outros casos que já vivi ao longo de mais de duas décadas em que sirvo ao povo do Rio de Janeiro como servidor público, esse ataque em regra às universidades e outros estatais terá de ser respondido de forma direta.  Os problemas causados pela pandemia em termos de aglomerações públicas não poderão excusa para inação política. Esse é um ataque não apenas a instituições públicas estratégicas, mas, principalmente, ao futuro do Rio de Janeiro. A hora de reagir a Wilson Witzel é agora, e a reação não poderá ser deixada para depois.

Mas voltando ao ditado do “fruto não cai longe do pé”, é preciso reconhecer que Wilson Witzel já havia aventado privatizar as universidades estaduais já na condição de candidato a governador. Entretanto, sob pressão da opinião pública, ele acabou recuando em seus discursos de campanha, negando que iria fazer a privatização que quer fazer agora. Pessoalmente nunca acreditei na negação de Witzel, e o envio deste pacote de privatização selvagem prova que eu estava certo, e os que acreditaram no governador estavam errados. 

“O Itabapoanense” emite relatório sobre a COVID-19 nos municípios da Bacia do Rio Itabapoana

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Com o objetivo de facilitar o acesso às informações sobre a disseminação do coronavírus nos 18 municípios que fazem parte da Bacia do Itabapoana, publicamos hoje o segundo boletim semanal, com dados referentes ao dia 19 de abril (o boletim será publicado semanalmente, toda segunda-feira). 

Nesta semana, o número de casos confirmados quase triplicou em relação à semana passada, totalizando 62 casos, sendo Campos dos Goytacazes o município com o maior número de contaminados, 40 no total. Entre os municípios que confirmaram casos pela primeira vez na última semana, estão: Espera Feliz/MG, Bom Jesus do Norte/ES e Presidente Kennedy/ES. O número de mortes em decorrência da doença passou de 2 para 4, sendo as duas novas mortes confirmadas nos municípios de Presidente Kennedy/ES e São Francisco do Itabapoana/RJ.

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É preciso ressaltar que alguns municípios ainda não adotaram a prática de emitir boletins diários sobre a situação da doença, o que dificulta a atualização da tabela acima. Além disso, como vem sendo amplamente divulgado pela mídia, o número de teste realizados no Brasil ainda está muito abaixo do necessário, dessa forma, os números aqui apresentados podem estar subnotificados.

Os dados apresentados aqui foram compilados a partir das informações divulgadas pelas secretarias estaduais de saúde do Rio de Janeiro, Espírito Santo e Minas Gerais, dos boletins diários emitidos pelas próprias prefeituras municipais e de notícias veiculadas por jornais da região.

O próximo boletim será publicado dia 27 de abril. Enquanto isso, durante esta semana, vamos publicar aqui no O Itabapoanense as principais medidas adotadas pelos municípios para conter a expansão da COVID-19.

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Este relatório sobre a evolução da COVID-19 na Bacia do Rio Itabapoana foi publicado inicialmente pelo Blog “O Itabapoanense” [Aqui!].

Mapa de densidade de casos confirmados de Covid-19 na cidade do Rio de Janeiro

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 O mapa abaixo foi divulgado no dia de hoje pelo gerente da Redes Fito, Jefferson Pereira, em sua página pessoal na rede social Facebook, e mostra a evolução da difusão do coronavírus no município do Rio de Janeiro.

corona rio 2mapa cidade do rio de janeiro

Mapas de difusão do coronavírus no município do Rio de Janeiro.

Segundo as análises disponibilizadas pelo Jefferson Ribeiro, as seguintes tendências estariam ocorrendo:

1- A Zona Sul ainda é a área que apresenta a maior densidade de casos confirmados.

2- A Barra da Tijuca possui uma densidade também elevada contudo devido a sua conformação espacial, o bairro  ainda se encontra isolado.

3- Há uma rampa de aumento da densidade de casos em direção a Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro, a começar pela região da Grande Tijuca (Tijuca, Vila Isabel, Maracanã, etc) . Esta é a área com maior poder aquisitivo dentro da Zona Norte,  mas o processo de difusão está se dirigindo para o bairro da Pavuna, passando por bairros como Méier, Madureira e outros.

4- Existem duas áreas de densidade relevante na Zona Oeste não litorânea, que se localizam nos bairros de Bangu e Campo Grande.

Por meio do mapeamento da densidade de casos confirmados por Km² na cidade , é possível  observar que a densificação de casos positivos começou a entrar em zonas com menos poder aquisitivo do município.

Em um primeiro momento da pandemia, a difusão dos casos ocorreu nas áreas mais nobres da cidade respondendo a maior concentração de pessoas com poder aquisitivo, que viajaram principalmente para a Europa. Os casos continuarão a se adensar nessas áreas que têm alta densidade populacional e de idosos.

Já no segundo momento, a difusão está se dando através da transmissão comunitária levando os casos para as outras áreas do município. Contudo, até o momento é possível notar que essa difusão está seguindo um padrão espacial que responde como a nível estadual, com uma hierarquia dos polos de centralidade do município, indo das áreas com maior centralidade para as com menor centralidade.

O avanço dos casos para a Zona Norte é preocupante, embora esperado, por conta desta região apresentar alta densidade populacional, alto percentual de idosos e grande contingente populacional vivendo em áreas sem infraestrutura e de baixa renda que já são acometidas por uma série de agravos à saúde das pessoas.

Em minha opinião, apesar da confirmação destas tendências só poderá ser constatada nas próximas duas semanas, os dados da dispersão do coronavírus na cidade do Rio de Janeiro que aparece neste mapa já possibilitam uma melhor organização dos aparatos de saúde e da distribuição de insumos nas diferentes zonas em que está dividido o município de Rio de Janeiro.

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O conteúdo desta postagem reflete em grande parte os apontamentos disponibilizados pelo gerente Redes, Jefferson Ribeiro, em sua página pessoal no Facebook.

Mapa mostra principais polos de difusão do coronavírus no Rio de Janeiro

O mapa abaixo é assinado pela Redes Fito (projeto desenvolvido pela Fundação Oswaldo Cruz para integrar pequenos agricultores, pesquisadores e a grande indústria para o desenvolvimento dos fitomedicamentos no Brasil) e pelo GeoSaúde (ligada à Escola Nacional de Saúde Pública), e mostra os polos de difusão da COVID-19 em partes do território do estado do Rio de Janeiro.

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Fonte: página pessoal de Jefferson Pereira na rede social Facebook

É preciso lembrar que este é um mapa dinâmico e que deverá se alterar de acordo com o registro oficial de dados de casos de contaminação. Entretanto, o que o mapa mostra neste momento é que existem 3 polos principais de difusão do coronavirus em território fluminense:

1- Região metropolitana capitaneada pela cidade do Rio que já se difundiu para a Região Serrana (Petrópolis, Teresópolis e Friburgo) indo na direção de Minas Gerais (Juiz de Fora) pela BR-040)

2-Segundo polo de difusão Vale do Paraíba capitaneado pela cidade de Volta Redonda difusão pelas cidades do vale e indo em direção a São Paulo pela Dutra.

3- Polo na região Norte Fluminense capitaneada pela cidade de Campos difusão ainda incipiente e localizada (antigo polo de produção de cana e álcool mantém sua centralidade).

A partir da visualização deste mapa é possível ainda apontar que existem ainda dois polos secundários: um na Costa do sol com as cidades de Rio das Ostras e Macaé (região do petróleo), e o outro polo na Costa Verde capitaneado pela cidade de Angra dos Reis (turismo).  O que fica evidente neste mapa é que os três principais polos de difusão, regiões dotadas de centralidade tanto em relação a economia e serviços como de mobilidade no território fluminense.

Com base neste mapa, eu diria que tanto o governador Wilson Witzel como os prefeitos dos municípios que estão funcionando como polos de difusão deveria atuar com mais energia para conter quebras das regras de confinamento social, de modo a impedir que o processo de difusão continue de alastrando.

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As análises aqui colocadas são em maioria retiradas diretamente da postagem em que Jefferson Pereira difundiu o mapa dos polos de difusão do coronavírus em território fluminense.

Na surdina governo Witzel quer tirar recursos das universidades estaduais para suposta aplicação no combate ao coronavírus

cheque uerjSob argumento de financiar combate ao coronavírus, governo Witzel quer passar a tesoura no orçamento das universidades estaduais.

Além de não cumprir a lei no tocante ao pagamento dos duodécimos das universidades estaduais, o governo Witzel parece estar agora se movendo para retirar dinheiro dos orçamentos aprovados para estas instituições sob o argumento de financiar o combate ao coronavírus em território fluminense.

A situação assume contorno sérios, pois além de ferir o que foi aprovado pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) para garantir o funcionamento das universidades, esse movimento retiraria recursos fundamentais para pesquisas em andamento  não apenas sobre o COVID-19, mas também sobre outras doenças com contornos epidêmicos como são os casos da dengue, da zika e da chikungunya. 

Na verdade para ser coerente com seu discurso de compromisso de combater a disseminação exponencial do coronavírus, o governador Wilzon Witzel deveria já ter criado um gabinete de crise com os principais pesquisadores existentes em todas as instituições de pesquisa existentes no Rio de Janeiro para definir estratégias de contenção da difusão da COVID-19.

Fui informado que uma audiência especial  deverá ser realizada na próxima segunda-feira (13/04)  pela Comissão de Ciência e Tecnologia da Alerj, presidida pelo deputado Waldeck Carneiro (PT), para discutir mais essa grave ameaça sobre a saúde financeira das universidades estaduais do Rio de Janeiro.

Desde já é urgente que se enviem correspondências para o deputado Waldeck Carneiro (waldeckcarneiro@alerj.rj.gov.br) exigindo a publicização desse audiência e a tomada de uma posição firme contra essa intenção do governo Witzel que retirará recursos justamente das instituições que possuem a capacidade instalada de gerar as respostas científicas que a sociedade fluminense demanda neste momento.

Quando as gangues cuidam da sua saúde

rio de janeiro favelasEm muitas favelas do Rio de Janeiro (nesta imagem vê-se o Morro da Coroa), as condições de higiene são preocupantes. (Foto: Mauro Pimentel / AFP)

Por Christoph Gurk para o Süddeutsche Zeitung

Pelo menos quando o sol se põe, o bairro fica quieto, diz Lidiane. Ela prefere não ver seu sobrenome no jornal, nem mesmo na Alemanha distante, porque muita atenção pode ser perigosa onde ela mora.

O jovem de 29 anos é da Cidade de Deus, uma favela do Rio de Janeiro. Estima-se que 40.000 pessoas moram aqui em pequenas casas aninhadas. Em 2002, o bairro pobre ganhou fama mundial pelo filme de mesmo nome do diretor Fernando Meirelles, no final de semana passado, pelo menos infelizmente em todo o país, porque a Cidade de Deus registrou o primeiro caso oficial de infecção por corona em uma favela.

Desde então, a vida mudou, diz Lidiane. “As ruas estão vazias à noite”, diz ela, e assim que escurece, há um silêncio estranho. O jovem de 29 anos acredita que as pessoas têm medo do vírus, mas também dos traficantes de drogas que patrulham as ruas depois da noite para que ninguém viole o toque de recolher que eles impuseram.

A partir das 20h, ninguém pode estar na rua, então a facção que comanda o local determinou. Para que todos saibam, eles dirigiram pelas ruas com carros de alto-falante, diz Lidiane. Também haveria uma mensagem do WhatsApp, que supostamente veio da facção: “Queremos o melhor para a população”, afirmou. “Se o governo não acertar, o crime organizado tomará o assunto por conta própria”.

“Para servir de exemplo”

As facções que atuam em outras favelas da cidade veem a situação da mesma forma. Em favelas como Rocinha, Rio das Pedras ou Morro dos Prazeres, os líderes dessas facções impuseram toque de recolher, em alguns lugares as festas populares foram canceladas e, em outros lugares, as pessoas só podem sair às ruas em pares durante o dia, relatam os moradores. Se você for pego à noite,  você será usado como um exemplo.

Existem várias centenas de favelas no Rio, estima-se que dois milhões de pessoas moram aqui, ninguém sabe exatamente. Alguns locais são dominados por facções clássicas do tráfico de drogas, outros pelas chamadas milícias, que são compostas por criminosos locais e ex-policiais . O estado se retirou da grande maioria das favelas faz um longo tempo.

As facções do narcotráfico e as milícias estão no controle, não apenas sobre o tráfico de drogas, mas também sobre coisas mundanas, como a venda de canais ilegais de TV a cabo. Os comerciantes geralmente precisam deduzir o dinheiro da proteção, as empresas de transporte pagam pedágio. As leis brasileiras podem ter pouco significado em muitas favelas, mas as áreas pobres não são sem lei, muitas vezes existem regras e proibições claras, cujo cumprimento é monitorado pelas facções e punido com punições que são muitas vezes draconianas.

Bolsonaro ignora todos os avisos

Sob essa perspectiva, é apenas paradoxal à primeira vista que as facções de traficantes   estão fazendo o que o Estado brasileiro até agora deixou de fazer. Embora o Brasil tenha sido o primeiro país da América Latina a registrar a infecção pelo COVID-19, ainda não existe uma estratégia nacional contra o vírus. Pelo contrário: o presidente Jair Bolsonaro chamou Corona de “gripezinha”, ou seja, uma pequena gripe.  Bolsonaro ignorou todos os avisos e recomendações de seu próprio ministro da Saúde e instou o Brasil a voltar ao normal. Enquanto isso,  Bolsonaro fala do “maior desafio para nossa geração”.

O comportamento passado de Bolsonaro levou a uma disputa aberta com os governadores dos estados brasileiros, a maioria dos quais há muito ordenou medidas por conta própria. A maioria das escolas em todo o país está fechada, São Paulo e Rio de Janeiro estão em quarentena desde a semana passada, e o fato de as  facções que dominam os bairros pobres estarem ajudando a reforçar as restrições mostra o quão dramática é a situação.

Porque de políticos a traficantes ou chefes de  facções – todos sabem que isso quase inevitavelmente levará a uma catástrofe se o coronavírus se espalhar amplamente nas favelas. É uma ironia do destino que a doença tenha sido trazida de avião dos ricos para o Brasil, disse o professor Paulo Buss, do renomado centro de pesquisas da Fiocruz.

Extremamente densamente povoado

Enquanto os pacientes da classe alta mais abastada costumam receber cuidados saudáveis ​​em hospitais particulares depois de serem infectados na Europa antes de retornar a seus apartamentos com elevador e ar condicionado, as favelas geralmente carecem de atendimento médico adequado, nenhum sistema de esgoto ou água corrente. A lavagem regular das mãos, conforme exigido por todos os profissionais de saúde é quase impossível. Além disso, as favelas também costumam ser extremamente densamente povoadas, até 50.000 pessoas vivem em um quilômetro quadrado, grandes famílias geralmente sob o mesmo teto, divididas em duas ou três salas. Sob essas condições, o distanciamento social é impossível.

Lidiane divide um pequeno apartamento de dois quartos com os pais, avó, namorado e filha de dois anos. Ela mesma trabalha como faxineira, o pai como vendedor ambulante e a amiga faz todo o trabalho que pode conseguir. O dinheiro é escasso, principalmente porque a vida pública quase parou. E não há economia. “Não podemos ficar em casa”, disse Lidiane.

É assim que se sente a grande maioria das pessoas nas partes pobres do Brasil. Mais de um terço da força de trabalho no país não tem contrato de trabalho, nem segurança. O governo agora quer pagar 600 reais por mês aos milhões de pessoas que têm empregos informais, quase 100 euros, mas a maioria das pessoas ainda não recebeu o dinheiro.

Então as pessoas tentam se ajudar da melhor maneira possível. Associações de moradores e organizações de ajuda em várias favelas começaram a distribuir pacotes de sabão e alimentos. E com ela na vizinhança, diz Lidiane, alguns traficantes não apenas impuseram um toque de recolher, mas também tomaram outras medidas de precaução: eles ainda vendem drogas nas esquinas, mas, mais recentemente, usam máscaras faciais e luvas de borracha.

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Este artigo foi originalmente publicado em alemão pelo Süddeutsche Zeitung [Aqui! ].