Brasil continua abrindo as portas para agrotóxicos rejeitados na Europa: dois atos do Ministério da Agricultura revelam a dimensão do problema

Publicações de 26 de outubro expõem a expansão do mercado brasileiro de agrotóxicos, a dependência de fabricantes estrangeiros e a permanência de ingredientes ativos sem aprovação para uso agrícola na União Europeia

Enquanto o debate público brasileiro se concentra nos resultados das eleições presidenciais, a máquina administrativa responsável pela regulamentação dos agrotóxicos continua funcionando. A edição de 26 de outubro de 2026 do Diário Oficial da União trouxe dois atos da Coordenação-Geral de Agrotóxicos e Afins, vinculada ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), que ajudam a compreender a dimensão de um problema estrutural: a continuidade da expansão do mercado brasileiro de substâncias químicas destinadas à agricultura, inclusive de ingredientes ativos que não possuem aprovação vigente para utilização fitossanitária na União Europeia.

Os Atos nº 65 e nº 66, relacionados a procedimentos de registro de agrotóxicos, oferecem um retrato revelador das prioridades que orientam a política brasileira para o setor. O primeiro apresenta 72 registros de produtos técnicos, enquanto o segundo reúne 27 pedidos de registro, sendo 25 referentes a produtos técnicos equivalentes e dois a produtos técnicos novos. Embora representem etapas administrativas distintas, os documentos demonstram a intensidade com que empresas nacionais e estrangeiras buscam ampliar sua participação no mercado brasileiro.

É importante observar que os 99 procedimentos identificados não representam 99 novos ingredientes ativos nem 99 produtos comerciais imediatamente disponíveis para aplicação nas lavouras. Há registros repetidos de uma mesma substância, pedidos ainda sujeitos à análise e produtos técnicos destinados à formulação de agrotóxicos. Essa distinção, entretanto, não diminui a relevância dos atos. Ao contrário, permite identificar como se organiza a ampliação da oferta de ingredientes ativos no país.

O que a Europa não aprova continua encontrando espaço no Brasil

Um dos aspectos mais preocupantes dos dois atos é a presença de substâncias que não possuem aprovação vigente para uso fitossanitário na União Europeia. No Ato nº 65 aparecem, entre outros, atrazina, clorotalonil, clotianidina, propiconazol, picoxistrobina, diuron, etiprole e ciproconazol. No Ato nº 66, a análise dos pedidos também identificou ciproconazol, espiromesifeno e espinetoram entre os ingredientes sem aprovação europeia vigente.

As razões para essas situações não são necessariamente iguais. Algumas substâncias tiveram suas aprovações não renovadas após avaliações regulatórias; outras deixaram de ser aprovadas em decorrência da retirada de pedidos pelas empresas interessadas. Há ainda ingredientes submetidos a restrições específicas de utilização. Por isso, seria incorreto tratar todas essas situações como se fossem proibições fundamentadas exatamente nos mesmos riscos.

Mas a diversidade dos procedimentos administrativos não elimina a contradição central: substâncias que não podem ser regularmente utilizadas como agrotóxicos na agricultura europeia continuam integrando processos de registro e comercialização no Brasil.

A atrazina é um exemplo emblemático. Esse herbicida deixou de ser aprovado na União Europeia em 2004, em meio a preocupações com a contaminação das águas subterrâneas. Mais de duas décadas depois, continua aparecendo em registros brasileiros, como demonstra o Ato nº 65.

O clorotalonil, fungicida cuja aprovação europeia não foi renovada em 2019, também está presente no documento. A clotianidina, inseticida neonicotinoide associado a preocupações com os impactos sobre abelhas e outros polinizadores, aparece em dois registros. Já o propiconazol e a picoxistrobina integram a relação de fungicidas que perderam aprovação para uso fitossanitário na União Europeia.

O caso do ciproconazol merece uma ressalva. A substância aparece nos dois atos, mas sua situação europeia não deve ser apresentada simplesmente como resultado de uma proibição decorrente de comprovação definitiva de danos. Sua aprovação deixou de vigorar após a retirada ou não continuidade do pedido de renovação. O resultado prático é a ausência de autorização fitossanitária vigente na União Europeia, mas a precisão sobre o procedimento regulatório é necessária para compreender o caso.

A pergunta que permanece é por que o Brasil continua incorporando ao seu mercado ingredientes ativos que deixaram de atender às condições necessárias para sua utilização agrícola em outras jurisdições.

A indústria asiática fornece, as empresas brasileiras registram

Outro elemento que atravessa os dois atos é a presença expressiva de fabricantes estrangeiros, especialmente chineses e indianos, nas cadeias de fornecimento de ingredientes ativos destinados ao mercado brasileiro.

Entre as empresas identificadas no Ato nº 65 aparecem fabricantes como Ningxia Yifan Biotechnology, Shandong Weifang Rainbow Chemical, Anhui Guangxin Agrochemical, Hebei Veyong Bio-Chemical e Jiangsu Flag Chemical. Do lado brasileiro, empresas como Solagro Soluções Agrícolas, Rainbow Defensivos Agrícolas, Nortox, Cropchem e Agrolianza figuram como titulares de diferentes registros.

O Ato nº 66 reforça essa estrutura, com a presença de empresas como Rainbow, Biorisk, Lemma, Nortox, Solagro, Bioagri e Hemani entre os requerentes.

Esse padrão revela uma característica importante do modelo brasileiro: parte significativa do mercado é abastecida por ingredientes ativos fabricados no exterior, enquanto empresas instaladas no país atuam como titulares de registros, importadoras ou participantes das cadeias de formulação e distribuição.

Não se trata de afirmar que a origem chinesa ou indiana de uma substância seja, por si só, um indicador de perigo. O problema é a combinação entre dependência externa, ampliação da oferta de produtos químicos e diferenças nos padrões regulatórios adotados pelos países consumidores.

O Brasil, que possui uma das maiores agriculturas comerciais do planeta, continua ocupando uma posição estratégica para fabricantes internacionais de agrotóxicos. E essa posição precisa ser examinada também sob a perspectiva dos custos ambientais e sanitários associados ao modelo de produção agrícola predominante.

Os riscos ambientais não desaparecem com a multiplicação dos registros

A classificação ambiental dos produtos incluídos no Ato nº 65 acrescenta outra dimensão ao problema. O documento apresenta substâncias enquadradas nas Classes I, II, III e IV de periculosidade ambiental, incluindo produtos considerados altamente perigosos ou muito perigosos ao meio ambiente.

Entre os exemplos está o Lambda-Cyhalothrin Técnico CG, classificado na Classe I — Produto Altamente Perigoso ao Meio Ambiente. Essa classificação é particularmente relevante porque demonstra que a ampliação dos registros não envolve apenas produtos de baixo potencial de impacto ambiental.

No Ato nº 66, a presença de ingredientes como sulfoxaflor e fenazaquina também merece atenção. O sulfoxaflor possui restrições de utilização na União Europeia, enquanto a fenazaquina está submetida a condições regulatórias específicas. Portanto, mesmo quando uma substância mantém aprovação europeia, isso não significa que seu uso esteja autorizado sem limitações.

O problema se torna ainda mais complexo quando se considera que os impactos dos agrotóxicos não se restringem aos organismos que se pretende controlar. Dependendo das propriedades das substâncias, das condições de aplicação e dos níveis de exposição, podem ocorrer efeitos sobre organismos não alvo, recursos hídricos, solos e biodiversidade.

Além disso, a avaliação de cada ingrediente ativo isoladamente não resolve a questão dos impactos cumulativos e das exposições simultâneas a diferentes substâncias químicas. Esse é um desafio particularmente importante em regiões agrícolas caracterizadas pela utilização intensiva de agrotóxicos.

Quem fica com os lucros e quem assume os riscos?

A leitura conjunta dos Atos nº 65 e nº 66 permite formular uma questão que ultrapassa o campo estritamente regulatório. A expansão do mercado brasileiro de agrotóxicos está inserida em uma estrutura econômica na qual fabricantes internacionais, empresas registrantes, distribuidores e grandes produtores agrícolas ocupam posições diferentes das populações potencialmente expostas aos efeitos dessas substâncias.

Os benefícios econômicos da comercialização de agrotóxicos são apropriados pelas empresas que participam das cadeias produtivas e comerciais. Já os custos associados à contaminação ambiental, à exposição ocupacional e aos possíveis danos à saúde podem alcançar trabalhadores rurais, comunidades agrícolas e populações que não participam diretamente das decisões sobre sua utilização.

Trata-se de uma distribuição desigual de benefícios e riscos que precisa ocupar o centro do debate sobre o modelo agrícola brasileiro.

Nesse contexto, o conceito de violência lenta, desenvolvido pelo pesquisador Rob Nixon, oferece uma chave importante de interpretação. Diferentemente dos desastres ambientais que produzem imagens imediatas de destruição, a contaminação por substâncias químicas pode ocorrer de maneira gradual, dispersa e frequentemente pouco visível. Seus efeitos podem se acumular no tempo, enquanto os mecanismos responsáveis por sua produção permanecem distantes do cotidiano das populações atingidas.

Isso não significa atribuir automaticamente danos específicos aos produtos relacionados nos dois atos, mas reconhecer que a avaliação dos riscos precisa considerar processos de exposição prolongada e suas possíveis consequências sociais e ambientais.

O Brasil precisa discutir o modelo agrícola que sustenta essa expansão

Os Atos nº 65 e nº 66 demonstram que a política brasileira de agrotóxicos não pode ser compreendida apenas pela contagem de registros ou pela velocidade dos procedimentos administrativos. É necessário discutir quais ingredientes ativos estão sendo incorporados ao mercado, por que determinadas substâncias continuam sendo utilizadas no Brasil depois de perderem aprovação em outros países e quais mecanismos efetivamente protegem a saúde humana e o meio ambiente.

Também é preciso evitar uma interpretação simplista das diferenças entre os sistemas regulatórios. A ausência de aprovação europeia não significa necessariamente que uma substância tenha sido proibida após comprovação definitiva de danos. Entretanto, decisões de não renovação, restrições de uso e preocupações identificadas em avaliações científicas constituem informações relevantes que não deveriam ser ignoradas pelas autoridades brasileiras.

A comparação internacional não substitui a avaliação científica realizada no Brasil, mas deveria servir como instrumento de transparência e de aperfeiçoamento das decisões regulatórias.

A questão central é saber se o país está utilizando sua capacidade institucional para reduzir riscos ou se continua priorizando a ampliação da oferta de insumos químicos para atender às demandas de um modelo agrícola fortemente dependente de agrotóxicos.

Os dois atos publicados em 26 de outubro mostram que, enquanto parte do mundo restringe ou abandona determinados ingredientes ativos, o Brasil continua oferecendo espaço para sua circulação comercial. E, diante desse quadro, a pergunta mais importante não é quantos registros o Ministério da Agricultura consegue processar, mas quem se beneficia dessa expansão e quem poderá pagar sua conta ambiental e sanitária.

Afinal, quando os lucros são concentrados e os riscos potencialmente distribuídos por toda a sociedade, a discussão sobre agrotóxicos deixa de ser apenas uma questão de produtividade agrícola. Torna-se uma questão de saúde pública, justiça ambiental e escolha política sobre o futuro da agricultura brasileira.

Enquanto governo Trump se omite, Califórnia classifica herbicida Atrazina como cancerígena

Por Carey Gillam para “The New Lede”

Reguladores da Califórnia anunciaram na sexta-feira que pretendem classificar o herbicida atrazina, amplamente utilizado, como um carcinógeno conhecido, uma medida que contrasta com a opinião dos reguladores federais.

O Escritório de Avaliação de Riscos à Saúde Ambiental (OEHHA) da Agência de Proteção Ambiental da Califórnia informou que incluirá a atrazina na lista de substâncias “conhecidas pelo estado como causadoras de câncer, de acordo com uma disposição da Lei de Água Potável Segura e Fiscalização de Substâncias Tóxicas de 1986”, conhecida como Proposição 65.

A OEHHA afirmou que está dando às pessoas a oportunidade de comentar sobre o plano até 9 de novembro.

A ação do estado ocorre depois que a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC) classificou a atrazina — o segundo herbicida mais usado nos EUA, depois do glifosato — como “provavelmente cancerígena para humanos”, em novembro, após uma longa revisão de anos de estudos científicos.

A Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) rejeitou a classificação da IARC no ano passado, ridicularizando a equipe de cientistas do câncer e ecoando as críticas da Syngenta, fabricante da atrazina, ao afirmar que a IARC tem “um longo histórico de graves equívocos”.

Defensores da saúde pública e ambiental há muito tempo pedem a proibição da atrazina, não apenas devido a preocupações com o câncer, mas também devido a pesquisas que a associam a danos reprodutivos e ao desenvolvimento. A Califórnia incluiu a atrazina em sua lista de substâncias químicas “conhecidas pelo estado por causarem toxicidade reprodutiva” em 2016.

Uma pesquisa realizada pela própria Syngenta há mais de 20 anos mostrou altas taxas de câncer entre os trabalhadores de sua fábrica de agrotóxicos, um fato que a empresa não divulgou até ser obrigada por um processo judicial.

A atrazina é proibida em cerca de 60 outros países, incluindo toda a União Europeia, mas os agricultores dos EUA aplicam aproximadamente 70 milhões de libras do agrotóxico sem seus campos todos os anos, geralmente usando-o para cultivar milho, sorgo e cana-de-açúcar, de acordo com estimativas da EPA .

Além do câncer, evidências científicas associam a exposição à atrazina a defeitos congênitos, baixo peso ao nascer, disfunções hormonais e problemas no sistema imunológico. Um estudo de 2011 concluiu que a atrazina “causa efeitos graves na saúde humana”, que variam desde efeitos no sistema nervoso, sistema imunológico, rins, coração e fígado, até hormônios e enzimas.

Embora os trabalhadores agrícolas sejam considerados o principal grupo populacional exposto à atrazina, o produto químico é comumente levado das lavouras dos campos agrícolas para os cursos d’água e é um poluente recorrente no abastecimento de água potável para milhões de americanos.

Um estudo publicado no início desta semana pelo Centro para a Diversidade Biológica afirmou que uma estratégia da EPA para lidar com a contaminação por atrazina nos cursos d’água dos EUA provavelmente não terá impacto significativo na poluição generalizada da água por atrazina.

“ A Califórnia está, acertadamente, acompanhando as evidências científicas mais recentes que relacionam a atrazina ao câncer em humanos”, disse Nathan Donley, diretor de ciências da saúde ambiental do Centro.

“Apesar de ser proibida em mais de 60 países ao redor do mundo, ainda usamos tanta atrazina nos EUA que mais de um quarto de nossos rios e córregos estão contaminados com essa substância cancerígena. Devemos isso aos nossos filhos e a nós mesmos: banir a atrazina em todo o país de uma vez por todas”, disse ele.


Fonte: The New Lede

Os parques eólicos têm efeitos incertos na escala local

Os parques eólicos trazem benefícios econômicos de curto prazo para os municípios onde são instalados.  No entanto, a longo prazo, esses efeitos podem diminuir e até mesmo se tornar negativos

parques eólicosMuitos parques eólicos no Nordeste do Brasil estão localizados muito perto de residências e estão causando diversos problemas de saúde. Crédito da imagem: Felipe Correia/Kaosenlared 

[SÃO PAULO, SciDev.Net ] A instalação de parques eólicos para a produção de eletricidade pode ter um efeito positivo na economia dos municípios que os recebem, especialmente os mais pobres, com um aumento de aproximadamente 20% no seu Produto Interno Bruto (PIB) per capita.

Essa é a conclusão de um estudo publicado na revista The Electricity Journal , que analisou mais de 1.500 municípios do Nordeste brasileiro entre 2005 e 2021. No entanto, outros especialistas alertam que o impulso na economia local gerado por esses projetos pode ser temporário.

O Brasil é atualmente o quinto maior produtor mundial de energia eólica , com aproximadamente 36 gigawatts (GW) de capacidade instalada, concentrada principalmente no Nordeste, segundo reportagem do Valor Econômico, jornal brasileiro especializado em energia eólica. Em pouco mais de uma década, a capacidade instalada cresceu de quase zero para 31 GW.

Essa concentração e crescimento são amplamente explicados por suas condições naturais. O interior semiárido e os altos planaltos do nordeste geram ventos constantes, com fatores de capacidade superiores a 40%, entre os mais altos do mundo.

Mas não estava claro se a chegada desses parques melhorou a economia dos municípios que os receberam ou se simplesmente criou complexos de turbinas eólicas cuja eletricidade era exportada para outras cidades.

O estudo, conduzido por Fernando Antonio Ignacio González, pesquisador da Escola de Ciências Empresariais da Universidade Católica do Norte, no Chile, e do Conselho Nacional de Pesquisa Científica e Técnica, na Argentina, analisou 1.613 municípios da região. Destes, 41 receberam parques eólicos entre 2005 e 2021.

Utilizando métodos estatísticos, ele comparou a evolução econômica desses municípios antes e depois da instalação dos parques com a de 1.572 municípios que não os receberam.

O principal indicador foi o PIB per capita, ou seja, quanto a economia produz, em média, por habitante. Além disso, foram analisados ​​o valor gerado pelo setor de serviços, o emprego formal e as diferenças entre os municípios mais pobres e mais ricos.

Os resultados indicam que os parques aumentaram o PIB per capita em uma média de 20%: 29% nos municípios mais pobres em comparação com 13% nos mais ricos. Em termos absolutos — isto é, em reais per capita — ambos os grupos obtiveram ganhos semelhantes, entre R$ 3.200 e R$ 4.100 (aproximadamente US$ 615 e US$ 790).

Segundo González, embora a diferença absoluta entre um município pobre e um rico praticamente não se altere, esse valor tem um impacto muito maior numa economia cujo ponto de partida é mais baixo.

“Para um município do interior do Piauí, onde o Estado era praticamente o único empregador, essa renda extra significa passar de uma economia de subsistência para uma economia monetária, com comércio , emprego formal e arrecadação própria de impostos”, disse ele à SciDev.Net .

O pesquisador também identificou um aumento no emprego formal tanto em municípios pobres quanto ricos, porque os parques criam empregos durante sua construção e mantêm empregos permanentes em sua operação e manutenção.

Além disso, o valor agregado do setor de serviços aumentou 12,5%. “Esse número é importante porque o comércio, a hospedagem e a logística não são contabilizados em relação à geração de eletricidade. Se estão crescendo, é porque há atividade econômica real na região”, acrescenta.

Diante dessas descobertas, o especialista defende a instalação de parques eólicos em municípios carentes. “O pré-requisito, obviamente, é que haja vento. Mas se for possível combinar a instalação com uma região que tenha bons ventos e altos níveis de pobreza, melhor ainda”, destaca.

Efeitos temporários

Segundo Mariana Traldi, professora do Instituto Federal de São Paulo, que não participou do estudo, esses projetos geram empregos principalmente durante a construção dos parques, mas a contratação de trabalhadores locais é limitada e a arrecadação de impostos diminui após a conclusão das obras.

Ele explica ao SciDev.Net que, como os trabalhadores contratados para a construção vêm principalmente de outras regiões do país, isso aumenta momentaneamente a demanda por hospedagem, alimentação e outros serviços, ajudando a impulsionar a economia local.

“No entanto, uma vez concluídas as obras, as cidades se esvaziam e o emprego local se reduz aos serviços de segurança das turbinas eólicas e à produção de peças para os equipamentos em algumas fábricas localizadas nas proximidades”, acrescenta, com base em seus estudos .

A arrecadação de impostos segue uma dinâmica semelhante: aumenta durante a construção e pode alterar temporariamente o orçamento dos municípios, mas diminui assim que as obras são concluídas, retornando a níveis semelhantes aos registrados antes da instalação dos parques.

“Há relatos de proprietários de terras semianalfabetos que assinam contratos com suas impressões digitais e descobrem anos depois que os documentos incluem severas restrições ao uso de suas próprias terras e são válidos por muitos anos.”
Mariana Traldi, professora do Instituto Federal de São Paulo, Brasil

Segundo Traldi, para muitos proprietários de terras, tudo o que resta é a renda do arrendamento de suas terras para a instalação de turbinas eólicas. Mas, embora alguns ainda mantenham a propriedade formal de suas terras, eles têm pouco poder de decisão e recebem apenas uma pequena parcela da renda gerada.

“Há relatos de proprietários de terras semianalfabetos que assinam contratos com suas impressões digitais e descobrem anos depois que os documentos incluem severas restrições ao uso de suas próprias terras e são válidos por muitos anos”, diz ele.

Impactos ambientais e na saúde

Os impactos dos parques eólicos também podem ser ambientais , como a mortalidade de aves e morcegos que colidem com as pás das turbinas eólicas.

A geógrafa Adryane Gorayeb, da Universidade Federal do Ceará, que estuda os impactos desses projetos no estado há mais de 15 anos e também não participou do estudo do The Electricity Journal , explica que muitos parques foram instalados sem diálogo prévio com as comunidades ou estudos sobre seus possíveis efeitos nos territórios.

O documento observa que algumas turbinas eólicas foram instaladas em terrenos anteriormente utilizados para agricultura e que continham lagoas para pesca e recreação. As obras de aterro e nivelamento do terreno causaram o ressecamento de algumas dessas lagoas, reduzindo o acesso da comunidade a áreas que antes eram de uso coletivo.

O pesquisador também alerta para os efeitos relacionados ao ruído das turbinas eólicas. Muitas foram instaladas a pouco mais de 100 metros das residências, gerando problemas como distúrbios do sono, estresse, ansiedade, dores de cabeça e sofrimento psicológico, o que, por sua vez, leva os moradores locais a fazer uso contínuo de medicamentos e a desenvolver doenças crônicas.

Gorayeb conclui que a instalação de parques pode ser uma estratégia para promover o desenvolvimento local, mas deve ser acompanhada pelo reconhecimento oficial dos territórios das populações marginalizadas, pelo cumprimento dos procedimentos previstos nos estudos de impacto ambiental e por um maior diálogo com as comunidades.


Fonte:  SciDev.Net

Estudo revela que agrotóxicos de uso corrente danificam o DNA das células intestinais humanas — mesmo em doses muito baixas

Por Sustainable Pulse

Cientistas do projeto SPRINT, na União Europeia, testaram dez agrotóxicos amplamente utilizados em fazendas europeias — incluindo o herbicida glifosato, diversos inseticidas e alguns fungicidas — para verificar se eles danificam o DNA em células intestinais humanas cultivadas em laboratório. Eles também testaram dois “coquetéis” realistas, feitos combinando vários desses agrotóxicos, já que, na vida real, as pessoas raramente são expostas a apenas um produto químico por vez.

Os resultados, revisados ​​por pares, comprovaram que a maioria dos agrotóxicos causou danos ao DNA, e alguns o fizeram em concentrações muito menores do que as relatadas anteriormente — em alguns casos, próximas aos níveis que os órgãos reguladores consideram atualmente “seguros” para exposição diária.

“As conclusões do projeto SPRINT destacaram a presença ubíqua e os efeitos tóxicos das misturas de agrotóxicos, mesmo em baixas doses”, afirmou o Dr. Daniele Mandrioli, Investigador Principal e Líder do Grupo de Trabalho de Toxicologia do SPRINT.

Por que este estudo foi realizado

Em todo o mundo, são aplicados agrotóxicos em plantações para afastar insetos, ervas daninhas e fungos. Como parte de um amplo projeto de pesquisa europeu chamado SPRINT, pesquisadores já haviam descoberto que resíduos de múltiplos agrotóxicos estão praticamente em todos os lugares nas regiões agrícolas — no solo, na água, nas plantações, na poeira doméstica e até mesmo no ar dentro das casas dos agricultores. O que não estava claro era se esses produtos químicos, sozinhos ou misturados, poderiam de fato prejudicar as células humanas nos níveis aos quais as pessoas estão realisticamente expostas.

Um importante sinal de alerta para o perigo a longo prazo de um produto químico é se ele é “genotóxico” — ou seja, se danifica ou altera o DNA. Danos ao DNA são uma das vias bem estabelecidas que podem levar ao câncer e outras doenças crônicas ao longo do tempo. Portanto, testar a genotoxicidade de agrotóxicos é uma etapa padrão e importante para determinar se eles são seguros para uso.

Como funciona o teste

Os pesquisadores utilizaram um teste laboratorial consagrado e reconhecido internacionalmente, chamado ensaio de micronúcleos . Eis a ideia básica, em termos simples:

  • Células intestinais humanas (de uma linhagem celular chamada Caco-2, comumente usada como modelo para o revestimento intestinal) foram cultivadas em placas de Petri e brevemente expostas a um agrotóxico.
  • Em seguida, as células foram deixadas dividir-se uma vez e, posteriormente, adicionou-se uma substância química que as impedia de se dividirem em duas células separadas (para que os cientistas pudessem ter certeza de que cada célula realmente tentou se dividir).
  • Ao microscópio, os técnicos procuravam minúsculos aglomerados extras de material genético fora do núcleo principal, chamados micronúcleos . Eles se formam quando os cromossomos de uma célula são danificados ou dispersos durante a divisão celular — são basicamente um sinal visível de que algo deu errado com o DNA.
  • Mais micronúcleos = mais danos ao DNA causados ​​pela substância testada.

A equipe também verificou se as doses utilizadas não estavam simplesmente matando um grande número de células (o que tornaria os resultados não confiáveis) — uma etapa fundamental de controle de qualidade exigida pelas diretrizes internacionais de testes.

O que eles testaram

Dez agrotóxicos foram testados individualmente, cada um em cinco doses que variaram de muito baixa (0,01 miligramas por litro) até uma dose alta (100 mg/L):

  • Inseticidas: lambda-cialotrina, cipermetrina, deltametrina, acetamiprida
  • Fungicidas: tebuconazol, ciprodinil, fluopiram, imazalil
  • Herbicida: glifosato
  • Sinergista/coformulante: butóxido de piperonila (um ingrediente adicionado a alguns inseticidas para melhorar a eficácia do princípio ativo)

Eles também testaram duas misturas realistas: uma combinação de 3 agrotóxicos (acetamiprida + glifosato + tebuconazol) e uma combinação de 8 agrotóxicos (adicionando cipermetrina, ciprodinil, deltametrina, lambda-cialotrina e butóxido de piperonila à mistura).

O que eles descobriram

A maioria dos agrotóxicos danificou o DNA. Nove das dez substâncias causaram um aumento significativo de micronúcleos em uma ou mais doses. Apenas o imazalil não pôde ser avaliado adequadamente, pois era muito tóxico para as células mesmo em baixas doses, o que tornou a medição do dano ao DNA não confiável.

O glifosato destacou-se como o mais prejudicial. Causou danos ao DNA em todas as doses testadas, incluindo a mais baixa (0,01 mg/L) — uma concentração bem abaixo dos níveis que demonstraram causar danos em outros tipos de células, como as sanguíneas. Na dose mais alta, o glifosato causou ainda mais danos ao DNA do que o composto químico de “controle positivo” (um composto já conhecido por ser altamente prejudicial, usado para confirmar o funcionamento correto do teste). Isso é notável, visto que a segurança do glifosato tem sido debatida publicamente há anos — a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer o classificou como um provável carcinógeno humano em 2015, uma conclusão contestada por alguns órgãos reguladores.

Alguns agrotóxicos causaram danos que não aumentaram de forma constante com a dose — a cipermetrina, o acetamiprido e o ciprodinil apresentaram danos em algumas doses (frequentemente as mais baixas), mas não em um padrão crescente constante. Os pesquisadores observam que esses resultados merecem confirmação em estudos de acompanhamento.

Três substâncias foram recentemente identificadas como prejudiciais, contradizendo suposições anteriores:

  • O butóxido de piperonila — um aditivo usado em muitos inseticidas piretroides — nunca havia demonstrado causar danos às células humanas, apesar de ser considerado não genotóxico.
  • Anteriormente, acreditava-se que o ciprodinil e a deltametrina não danificavam o DNA, com base em estudos mais antigos em células sanguíneas, mas demonstraram danos claros nessas células intestinais.

As misturas de agrotóxicos também causaram danos.  A mistura de três agrotóxicos causou danos significativos ao DNA mesmo na dose mais baixa, mais do que qualquer um de seus ingredientes isoladamente nessa dose — sugerindo que os efeitos individuais dos produtos químicos se somam.

Por que as baixas doses são importantes?

Uma característica fundamental deste estudo é que ele testou concentrações mais baixas do que a maioria das pesquisas anteriores — chegando perto dos níveis oficiais de “ingestão diária aceitável” (IDA), as doses que os órgãos reguladores consideram atualmente seguras para consumo ao longo da vida. A detecção de danos ao DNA nesses níveis ou próximos a eles é significativa, pois sugere que os limites de segurança atuais para algumas dessas substâncias químicas podem precisar ser revistos.

Esta pesquisa soma-se a um crescente conjunto de evidências de que agrotóxicos agrícolas comuns — incluindo alguns que há muito se supõem seguros do ponto de vista de danos ao DNA — podem prejudicar as células humanas em concentrações surpreendentemente baixas, às vezes próximas aos níveis de exposição atualmente permitidos.


Fonte: Sustainable Pulse

Livro sobre exposição humana a agrotóxicos é semifinalista do Prêmio Jabuti Acadêmico

Por Karen Moraes para o “Portal da Faculdade de Ciêncas Médicas”

A obra Exposição humana a agrotóxicos: problema de saúde coletiva e atuação do SUS, de autoria de Herling Gregorio Aguilar Alonzo, professor do Departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, foi indicada como semifinalista do Prêmio Jabuti Acadêmico 2026. O título concorre na categoria Enfermagem, Farmácia, Saúde Coletiva e Serviço Social.

A indicação foi anunciada em 15 de julho pela Câmara Brasileira do Livro (CBL). Publicado pela Pontes Editores em 2025, o livro está disponível em versão impressa e também como e-book gratuito. Os cinco finalistas serão divulgados em 27 de julho, durante a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), com anúncio simultâneo no site oficial do prêmio. A cerimônia de premiação ocorrerá em 11 de agosto.

Lançada em 2025 durante o Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, o Simpósio Internacional de Pesquisa em Enfermagem e um evento na Associação de Docentes da Unicamp (ADunicamp), a publicação reúne resultados de pesquisas, atividades de ensino e ações de extensão desenvolvidas pelo autor. “Os capítulos foram pensados para compor uma obra didática, mas também com nível técnico, voltada a profissionais da saúde e estudantes de graduação e pós-graduação”, afirmou Alonzo.

Exemplares empilhados do livro "Exposição Humana a Agrotóxicos: Problema de Saúde Coletiva e Atuação do SUS", de Herling Gregorio Aguilar Alonzo, expostos sobre uma mesa.Exemplar impresso de obra indicada ao Jabuti Acadêmico

No capítulo central, Alonzo desenvolve a principal tese do livro: a de que o contato com essas substâncias deve ser compreendido como um problema de saúde coletiva. Segundo o autor, o crescimento do número de formulações e produtos comerciais disponíveis no mercado amplia os riscos para a população. “Quanto maior a utilização, aumentam a exposição, os danos ambientais, a presença de resíduos e o acesso da população a esses agrotóxicos, que também são usados em tentativas de suicídio.”

Alonzo explica que os impactos à saúde podem ser imediatos ou surgir anos após o contato com essas substâncias. “Há efeitos agudos e crônicos. Algumas pessoas adoecem, sofrem intoxicações e podem morrer. Outras, em decorrência da exposição prolongada aos resíduos, desenvolvem danos em diferentes órgãos e sistemas, como o nervoso (central e periférico), respiratório, cardiovascular, gastrointestinal, imunológico e endócrino, além do fígado, dos rins, da pele, das mucosas e de diversos tipos de câncer.”

Também podem ocorrer danos à saúde reprodutiva, como abortos, alterações na qualidade dos óvulos e do sêmen, malformações congênitas e baixo peso ao nascer. Em crianças e adolescentes, o pesquisador relaciona o contato com as substâncias a prejuízos cognitivos e de aprendizagem, além do aumento do risco de alguns tipos de câncer infantil, especialmente tumores cerebrais e leucemias, associados tanto à exposição dos pais quanto dos próprios filhos.

Um homem de barba e camisa listrada gesticula enquanto conversa com uma mulher de blazer vermelho e broche contra agrotóxicos, cercados por outras pessoas em uma feira ou evento.Lançamento do livro no Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, em Brasília

A disponibilização gratuita do e-book, segundo Alonzo, busca ampliar o acesso de estudantes e profissionais de saúde a um material didático ainda escasso sobre o tema. “A literatura disponível hoje sobre intoxicações é voltada principalmente para situações agudas e de pronto-socorro. O livro propõe uma abordagem diferente, com estratégias direcionadas aos profissionais da atenção primária.”

A estrutura da obra acompanha uma sequência didática. Os primeiros capítulos apresentam conceitos básicos e a classificação dos agrotóxicos; na sequência, são abordadas formas de identificar pessoas expostas na rotina dos serviços de saúde; por fim, o livro reúne orientações para a investigação clínica e o manejo desses casos.

“No primeiro capítulo, o livro explica de forma simples como os agrotóxicos são classificados e agrupados. Mais adiante, apresenta estratégias para que os profissionais de saúde identifiquem pessoas expostas na rotina das unidades. O último capítulo mostra como realizar a história clínica e a anamnese, além de abordar o diagnóstico, as orientações e as condutas para esses pacientes.”

Homem de camisa listrada e barba grisalha discursa com microfone ao lado de uma projeção do livro "Exposição Humana a Agrotóxicos", de Herling Gregorio Aguilar Alonzo, com QR codes para acesso.

Herling Alonzo apresenta livro em sessão

 

Para Alonzo, a principal contribuição da publicação é oferecer um material voltado especificamente aos profissionais da atenção primária e aos estudantes da área da saúde, preenchendo uma lacuna na formação sobre os impactos da exposição aos agrotóxicos e o atendimento às pessoas expostas.

O autor e o prêmio

Formado em Medicina e Cirurgia pela Universidad Nacional Autónoma de Honduras, Alonzo fez pós-graduações em Toxicologia Clínica e Ambiental no Uruguai e em Saúde Ocupacional em Israel, antes de consolidar, no Brasil, sua carreira acadêmica na área de Saúde Coletiva.

Criado em 2024 com apoio da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e da SBPC, e com participação da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) a partir deste ano, o Prêmio Jabuti Acadêmico é uma iniciativa da CBL para reconhecer livros acadêmicos, científicos, técnicos, profissionais e didáticos nacionais. 


Fonte: Portal da Faculdade de Ciências Médicas

Uma ameaça invisível: agrotóxicos estão afetando a saúde e o desenvolvimento infantil

Por Pan UK

Um novo relatório publicado pelo UNICEF no início desta semana revela que a rápida expansão global do uso de agrotóxicos — que mais que dobrou entre 1990 e 2022 — superou em muito a proteção das crianças.

As crianças são expostas a agrotóxicos por meio de alimentos e água, uso em residências, jardins, escolas e espaços públicos. Elas também enfrentam exposição por meio da contaminação ambiental causada pela deriva da pulverização, manejo inadequado de agrotóxicos e  seus resíduos nas roupas. O uso contínuo de agrotóxicos altamente perigosos (HHPs), que apresentam riscos agudos ou crônicos particularmente graves, intensifica esses riscos.

A exposição durante a gravidez e na infância pode levar a problemas de saúde para toda a vida. Os agrotóxicos prejudicam o sistema imunológico, comprometem a função pulmonar e agravam a asma. A exposição também pode afetar a saúde reprodutiva e causar danos aos órgãos e cânceres infantis, incluindo leucemia.

Um número crescente de estudos demonstra os efeitos dos agrotóxicos nos resultados do nascimento e um risco aumentado de anomalias congênitas. A exposição pré-natal a agrotóxicos  está associada a fendas orais, anomalias cardiovasculares e defeitos do tubo neural. Alguns estudos mostraram que a exposição a pesticidas está associada ao risco de baixo peso ao nascer.

Uma área de grande preocupação clínica é a relação entre a exposição crônica a baixos níveis de agrotóxicos e o transtorno do espectro autista (TEA) e o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH).

Genotoxicidade refere-se à capacidade de uma substância danificar o material genético, o que pode levar a defeitos hereditários. Evidências crescentes mostram que crianças e adolescentes que vivem em áreas agrícolas ou trabalham na agricultura correm o risco de sofrer danos genotóxicos.

Existem mais de 1.000 substâncias químicas sintéticas, incluindo certos agrotóxicos, que são conhecidas ou potencialmente disruptoras endócrinas (EDCs); este é um número enorme e pode ser uma subestimação. Estudos epidemiológicos em humanos sugerem que as EDCs em crianças afetam o crescimento pré-natal, a função tireoidiana, o metabolismo da glicose, a obesidade, a puberdade e a fertilidade.

O relatório destaca que a verdadeira dimensão dos danos continua subestimada para as crianças em todo o mundo, com intoxicações e mortes por agrotóxicos significativamente subnotificadas nos sistemas globais de dados e riscos amplificados para os 83,4 milhões de crianças envolvidas no trabalho agrícola.

Exige uma ação urgente e coordenada nos âmbitos regulamentar, agrícola, do sistema de saúde e social, incluindo:

  1. Reforçar os padrões e a avaliação de riscos  para levar em conta as vulnerabilidades específicas das crianças.
  2. Eliminar gradualmente os agrotóxicos altamente perigosos , reduzir a toxicidade ambiental relacionada ao uso de agrotóxicos e incentivar o alinhamento com instrumentos internacionais, como a Convenção-Quadro Global sobre Produtos Químicos de 2023.
  3. Eliminar o trabalho infantil na agricultura  e proteger todas as crianças dos riscos dos agrotóxicos.
  4. Reduzir o risco associado aos agrotóxicos através da promoção de práticas agroecológicas, implementação do manejo integrado de pragas e vetores, limitação de aplicações não essenciais e desenvolvimento de alternativas sustentáveis.
  5. Reduzir os impactos  através do monitoramento, do estabelecimento de zonas de amortecimento em torno de onde as crianças vivem, aprendem e brincam, da melhoria do controle da deriva, da segurança alimentar e das medidas de proteção ocupacional.
  6. Ampliar a educação  sobre os riscos dos agrotóxicos, incluindo armazenamento e manuseio, prevenção em casa e exposição alimentar.
  7. Fortalecer os sistemas de saúde  através da criação de centros de informação toxicológica, treinamento de profissionais de saúde e vigilância epidemiológica.

Leia o relatório completo ” Subestimados e Ignorados: O impacto silencioso dos agrotóxicos nas crianças ” aqui 


Fonte: PAN UK

Colonialismo químico: a Europa proíbe, mas vende ao Brasil

Dados revelam que dezenas de agrotóxicos considerados perigosos demais para uso na União Europeia seguem sendo comercializados livremente no Brasil, num modelo que transfere riscos ambientais e sanitários para os países periféricos

O debate sobre o uso de agrotóxicos no Brasil ganhou novos contornos a partir da divulgação de dados que revelam uma realidade alarmante: o país continua permitindo e consumindo em larga escala substâncias que já foram consideradas perigosas demais para serem utilizadas na União Europeia. O problema não é apenas ambiental ou sanitário. Trata-se também de uma questão ética e geopolítica que expõe a profunda desigualdade existente na governança global dos riscos químicos.

Levantamento realizado pelo Campo Grande News, com base em dados do Ibama, mostrou que seis dos dez ingredientes ativos mais comercializados em Mato Grosso do Sul são proibidos na União Europeia. Entre eles estão o acefato, o clorotalonil, a atrazina, o mancozebe, o metomil e o glufosinato de amônio, substâncias associadas a diferentes riscos ambientais e à saúde humana.

O mais grave é que esse não parece ser um fenômeno isolado. Um levantamento técnico feito por técnicos do próprio Ministério da Agricultura identificou que o Brasil autoriza atualmente o uso de 147 ingredientes ativos proibidos na União Europeia. O mesmo estudo apontou ainda 306 casos em que resíduos de agrotóxicos presentes em produtos brasileiros exportados superavam os níveis de detecção aceitos pelas autoridades sanitárias europeias. O próprio governo brasileiro reconheceu que essa situação representa uma vulnerabilidade para as exportações nacionais.

Mas o aspecto mais perturbador dessa história vai muito além das possíveis barreiras comerciais. A pergunta central deveria ser outra: se essas substâncias são consideradas perigosas demais para serem utilizadas em países europeus, por que sua aplicação continua sendo amplamente permitida sobre trabalhadores rurais, comunidades do campo e consumidores brasileiros?

A resposta remete a uma das maiores contradições do sistema agroalimentar global. Muitas das empresas que produzem esses agrotóxicos têm sede justamente em países europeus. Em outras palavras, substâncias consideradas inadequadas para aplicação nos territórios da União Europeia continuam sendo fabricadas por empresas do próprio continente e exportadas para países do Sul Global, incluindo o Brasil. Trata-se de uma forma contemporânea de colonialismo químico, na qual os riscos são deslocados para regiões periféricas enquanto os países centrais preservam padrões mais elevados de proteção ambiental e sanitária para suas próprias populações.

A hipocrisia torna-se ainda mais evidente quando a União Europeia endurece os controles sobre resíduos químicos em alimentos importados. O bloco restringe a entrada de produtos agrícolas contaminados por substâncias que ele mesmo proibiu, mas fecha os olhos para o fato de que muitas dessas moléculas continuam sendo produzidas por corporações europeias e vendidas agressivamente para mercados como o brasileiro.

O resultado é um modelo perverso. De um lado, agricultores brasileiros são induzidos a utilizar substâncias altamente perigosas disponibilizadas por multinacionais químicas. De outro, quando os resíduos desses produtos aparecem nos alimentos exportados, a responsabilidade recai exclusivamente sobre os produtores e sobre o país exportador. Os lucros permanecem concentrados nas empresas fabricantes, enquanto os riscos ambientais, sanitários e econômicos são socializados entre trabalhadores rurais, consumidores e ecossistemas do Sul Global.

A permanência desse quadro também ajuda a explicar o crescimento das preocupações relacionadas à contaminação de solos, águas superficiais e subterrâneas, além dos potenciais impactos sobre polinizadores e biodiversidade. Diversas das substâncias que aparecem nas listas de restrição europeia acumulam histórico de controvérsias científicas relacionadas à toxicidade ambiental e aos possíveis efeitos sobre a saúde humana.

Por isso, a discussão não pode ficar limitada ao risco de perda de mercados internacionais. O verdadeiro escândalo é que milhões de brasileiros continuem expostos diariamente a compostos que já foram considerados incompatíveis com os padrões de segurança adotados em países centrais. Ao mesmo tempo, é necessário denunciar a dupla moral da União Europeia, que se apresenta como referência mundial em sustentabilidade enquanto permite que suas empresas transformem o Sul Global em destino preferencial para substâncias que ela própria rejeitou.

Enquanto a lógica da exportação de riscos prevalecer sobre a proteção da saúde pública e do meio ambiente, o Brasil continuará ocupando a desconfortável posição de grande consumidor de agrotóxicos banidos em outras partes do mundo — uma situação que revela tanto a força do lobby químico quanto as profundas assimetrias que marcam o comércio internacional contemporâneo

Brasil, a “lixeira química” do agronegócio global

Em palestra no 1º Congresso de Agroecologia, realizada em 25 de maio em Florianópolis (SC), a professora Sonia Hess expôs como o avanço do agronegócio exportador aprofundou o consumo de agrotóxicos banidos na União Europeia, contaminando águas, alimentos e populações inteiras enquanto amplia a insegurança alimentar e a dependência econômica brasileira

A palestra ministrada pela professora Sonia Corina Hess no 1º Congresso de Agroecologia, realizado ontem, 25 de maio, apresentou um retrato contundente do papel que o Brasil vem desempenhando na expansão global do uso de agrotóxicos, evidenciando não apenas a dimensão quantitativa do problema, mas também suas implicações econômicas, sanitárias e ambientais. A apresentação mostrou que o país comercializou mais de 907 mil toneladas de agrotóxicos em 2024, o equivalente a 4,3 kg por habitante, consolidando sua posição como maior consumidor mundial desses produtos. O dado se torna ainda mais grave quando comparado ao crescimento relativamente modesto da área plantada no mesmo período, indicando uma intensificação da dependência química do modelo agrícola dominante.

Um dos pontos centrais da exposição foi a demonstração de que boa parte dos ingredientes ativos utilizados em larga escala no Brasil já foi banida na União Europeia devido aos seus impactos sobre a saúde humana e os ecossistemas. Substâncias como mancozebe, clorotalonil, atrazina e glufosinato de amônio continuam sendo aplicadas massivamente em lavouras brasileiras, mesmo associadas a câncer, infertilidade, desregulação endócrina, doenças neurodegenerativas e danos reprodutivos. Hess argumenta que o Brasil vem se convertendo em uma verdadeira “lixeira química”, absorvendo compostos rejeitados por países centrais, enquanto multinacionais como Bayer, BASF, Syngenta e Corteva seguem acumulando lucros bilionários com a continuidade desse modelo.

A palestra também desmonta a narrativa de que o uso crescente de agrotóxicos estaria associado à produção de alimentos para a população brasileira. Segundo os dados apresentados, 79% dos agrotóxicos aplicados no país concentram-se em apenas quatro culturas — soja, milho, cana-de-açúcar e algodão — fortemente vinculadas ao agronegócio exportador. Além disso, 93% da soja e 80% do milho produzidos no Brasil são destinados à alimentação animal, dentro e fora do país. Enquanto isso, culturas essenciais para a segurança alimentar, como feijão, arroz e trigo, enfrentam retração de área plantada e aumento da dependência de importações. O contraste revela uma política agrícola orientada prioritariamente para commodities e para os interesses do comércio internacional, especialmente da China, em detrimento da soberania alimentar brasileira.

Outro aspecto particularmente alarmante abordado por Sonia Hess foi a contaminação das águas de abastecimento público. Dados do Programa Qualidade da Água do Ministério Público de Santa Catarina mostraram a presença de resíduos de agrotóxicos em mais da metade dos municípios avaliados. Em muitos casos, a água considerada “potável” pela legislação brasileira ultrapassaria amplamente os limites permitidos na União Europeia. A situação evidencia o abismo regulatório existente entre o Brasil e países que adotam critérios mais protetivos à saúde pública, além de revelar a fragilidade das normas nacionais sobre potabilidade e monitoramento ambiental.

A professora Sonia Hess também relacionou a expansão do uso de agrotóxicos ao agravamento de problemas de saúde pública, destacando o crescimento contínuo dos óbitos por neoplasias e suicídios no Brasil. Embora a relação causal entre exposição química e adoecimento coletivo exija análises epidemiológicas complexas, a literatura científica apresentada na palestra reforça a existência de fortes evidências sobre os efeitos genotóxicos da exposição crônica aos agrotóxicos em trabalhadores rurais e populações residentes em áreas agrícolas.

Ao final, a professora Sonia Hess defendeu um conjunto de medidas estruturais para reverter o atual quadro. Entre elas, destacou a necessidade de rever o Plano Safra, reduzindo os incentivos direcionados ao agronegócio exportador e fortalecendo a agricultura familiar e agroecológica; eliminar benefícios fiscais concedidos a agrotóxicos proibidos na União Europeia; endurecer os parâmetros de qualidade da água e dos alimentos; e excluir da legislação brasileira ingredientes ativos já considerados inseguros em outros países. A agroecologia aparece, assim, não como um nicho alternativo de produção, mas como uma necessidade estratégica para a proteção da saúde coletiva, da biodiversidade e da soberania alimentar do país

A EPA ignorou pedido para endurecer as restrições ao Glifosato, alega ação judicial

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Por Shannon Kelleher para “The New Lede”  

A Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) está colocando a saúde pública em risco ao continuar permitindo que os agricultores pulverizem glifosato, um herbicida associado ao câncer, diretamente sobre a aveia antes da colheita, uma prática que geralmente resulta em resíduos do agrotóxicos em alimentos populares feitos com aveia, de acordo com um novo processo judicial.

O processo , apresentado em 20 de abril pelo Environmental Working Group (EWG), pede ao Tribunal de Apelações dos EUA para o Circuito do Distrito de Columbia que obrigue a EPA a responder a uma petição de 2018 que solicita à EPA a proibição do uso de glifosato para secar plantações antes da colheita e a redução do nível de resíduos de glifosato permitido na aveia de 30 partes por milhão (ppm) para apenas 0,1 ppm. A EPA nunca respondeu à petição, que foi apresentada pelo EWG e um grupo de empresas alimentícias e supermercados.

O processo judicial centra-se no atual “limite máximo de resíduos” (LMR) da EPA para o glifosato na aveia, que é amplamente consumida por crianças em cereais, biscoitos e outros produtos, e alega que os limites não protegem adequadamente a saúde das crianças.

Testes realizados pelo EWG e outras entidades encontraram resíduos de glifosato em diversos alimentos populares, incluindo cereais e snacks à base de aveia, concluindo que a aveia é uma das principais fontes de exposição ao glifosato para bebês e crianças pequenas.

“A EPA tem o claro dever legal de agir em relação a esta petição, e simplesmente se recusou a fazê-lo”, disse Caroline Leary, conselheira jurídica da EWG, em um comunicado .

“Esse tipo de atraso tem consequências reais para as famílias que dependem da agência para garantir que as crianças não sejam expostas a resíduos tóxicos de produtos químicos agrícolas, como o glifosato”, disse Leary.

“Esse tipo de atraso tem consequências reais para as famílias que dependem da agência para garantir que as crianças não sejam expostas a resíduos tóxicos de agrotóxicos, como o glifosato.” — Caroline Leary, EWG

Os limites máximos de resíduos (LMRs, na sigla em inglês), também conhecidos como níveis de tolerância, para o glifosato em culturas alimentares têm sido alvo de controvérsia há muito tempo. Enquanto o LMR para aveia era de 0,1 ppm em 1993, ele foi elevado para 20 ppm em 1997 e novamente para 30 ppm em 2008. Os LMRs da EPA frequentemente permitem que mais resíduos de glifosato permaneçam nos alimentos nos EUA do que em muitos outros países , incluindo os da União Europeia.

Em 2013, a EPA (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos) emitiu uma nova regulamentação que elevou os níveis de glifosato em oleaginosas, incluindo linhaça, gergelim e soja, de 20 ppm para 40 ppm, além de aumentar drasticamente os níveis permitidos em batata-doce e cenoura. A EPA aumentou os níveis de tolerância em resposta a pedidos da Monsanto .

A EPA está reavaliando o registro do glifosato sob a Lei Federal de Inseticidas, Fungicidas e Rodenticidas (FIFRA), após ter revogado uma decisão provisória de registro em setembro de 2022. A expectativa é que a agência emita uma decisão final sobre a revisão do registro ainda este ano.

Na página da agência sobre glifosato , a EPA afirma que a presença de resíduos detectáveis ​​de agrotóxicos em alimentos não significa que esses resíduos estejam presentes em níveis inseguros.

“Devido ao seu uso generalizado, traços de resíduos de glifosato podem ser encontrados em diversas frutas frescas, vegetais, cereais e outros produtos alimentícios e bebidas. No entanto, esses traços não representam motivo de preocupação para o consumidor”, afirma a EPA em seu site.

Em sua petição de 2019, o EWG escreveu que a EPA “rejeitou indevidamente” muitos estudos científicos que ligaram o glifosato ao câncer, uma medida que “permitiu a aprovação contínua de níveis de tolerância cada vez mais altos de glifosato como resíduo em alimentos comuns”.

O processo da EWG surge no momento em que a Monsanto, fabricante do Roundup, um herbicida popular que tem o glifosato como ingrediente ativo, se prepara para uma batalha judicial em 27 de abril na Suprema Corte , na qual o tribunal deverá determinar se a lei federal prevalece sobre as exigências estaduais de rotulagem para produtos que possam prejudicar os consumidores.

Os documentos legais que apoiam a Monsanto, empresa pertencente ao conglomerado alemão Bayer, sugerem que os EUA podem enfrentar uma “devastação” agrícola e outras dificuldades caso o tribunal decida contra a empresa, enquanto os documentos contrários alertam que apoiar a Monsanto pode isentar as empresas de responsabilidade, privando os consumidores do direito de processá-las caso adoeçam gravemente após a exposição a produtos químicos perigosos.

O glifosato é usado nos EUA desde a década de 1970 e atualmente é o herbicida mais utilizado no mundo. Em um “simpósio sobre glifosato” realizado em Seattle no mês passado, cientistas de todo o mundo se reuniram para instar os órgãos reguladores dos EUA e da Europa a fortalecerem as regulamentações sobre o glifosato. Os pesquisadores examinaram estudos conduzidos na última década, concluindo que as evidências que demonstram que os herbicidas à base de glifosato podem prejudicar a saúde humana “são agora tão robustas que nenhum atraso adicional na regulamentação do glifosato pode ser justificado”.

Um grupo internacional de pesquisa sobre câncer determinou, há mais de uma década, que a substância química é “provavelmente” cancerígena para seres humanos.

Em dezembro, um artigo publicado no ano 2000, que havia sido usado como principal argumento da Monsanto na alegação de que o glifosato não causa câncer, foi retratado , com o editor da revista citando “sérias preocupações éticas”.

Imagem em destaque: Providence Doucet / Unsplash


Fonte: The New Lede

Observatório dos Agrotóxicos: Quem ganha com a avalanche de agrotóxicos no Brasil?

Com 912 liberações em 2025, país amplia uso de substâncias — muitas proibidas na Europa — e aprofunda riscos à saúde, ao ambiente e à sustentabilidade agrícola

Em 2025, o Brasil atingiu um marco que deveria causar mais preocupação do que celebração: foram aprovados 912 registros de agrotóxicos, o maior número da série histórica. Desse total, apenas 162 correspondem a produtos biológicos — uma fração ainda tímida diante do volume esmagador de substâncias químicas liberadas. Os dados, organizados pela consultoria AllierBrasil com base em publicações oficiais do Ministério da Agricultura e Pecuária no Diário Oficial da União, revelam mais do que uma tendência: apontam para a consolidação de um modelo agrícola profundamente dependente de insumos potencialmente nocivos.

Para pesquisadores e especialistas na área, a lista não é apenas um levantamento técnico. O fasto é que entre os produtos liberados estão substâncias que já foram banidas na União Europeia em razão de sua elevada toxicidade, tanto para o ambiente quanto para a saúde humana. Ou seja, o Brasil segue abrindo suas portas para compostos que outros países consideraram perigosos demais para uso em seus próprios territórios, apesar de fabricá-los.

Essa escolha tem implicações diretas e profundas. No plano ambiental, o uso intensivo de agrotóxicos está associado à contaminação de solos e recursos hídricos, à perda de biodiversidade e ao desequilíbrio de ecossistemas inteiros. Polinizadores essenciais, como abelhas, são particularmente vulneráveis a essas substâncias, o que compromete não apenas a produção agrícola, mas a própria resiliência dos sistemas naturais que a sustentam.

No campo da saúde pública, os impactos são igualmente preocupantes. A exposição contínua a determinados agrotóxicos tem sido relacionada a uma série de doenças crônicas, incluindo distúrbios hormonais, problemas neurológicos e diferentes tipos de câncer. Trabalhadores rurais e populações que vivem próximas a áreas de pulverização são os mais afetados, mas os riscos não se limitam a eles: resíduos químicos nos alimentos fazem com que toda a população esteja, em maior ou menor grau, exposta.

Do ponto de vista da sustentabilidade, o cenário é ainda mais contraditório. A dependência crescente de insumos químicos tende a criar um ciclo vicioso: organismos considerados como pragas agrícolas desenvolvem resistência, exigindo doses maiores ou novos produtos, o que aumenta custos, impactos ambientais e riscos à saúde. Ao mesmo tempo, alternativas mais sustentáveis — como a agroecologia e o uso de bioinsumos — seguem ocupando um espaço marginal, apesar de seu potencial comprovado.

É nesse contexto que o recorde de liberações em 2025 lança uma sombra sobre o discurso oficial. Promessas de incentivo à agroecologia e de redução do uso de agrotóxicos perdem força diante de números que apontam na direção oposta. A política agrícola parece, na prática, reforçar um modelo que privilegia ganhos imediatos de produtividade, mesmo à custa de impactos altamente desastrosos em longo prazo.

Mais do que uma questão técnica ou econômica, o avanço dos agrotóxicos no Brasil é um debate sobre escolhas. Escolhas que dizem respeito ao tipo de agricultura que o país deseja promover, ao nível de proteção ambiental que está disposto a garantir e, sobretudo, à qualidade de vida das gerações presentes e futuras. O recorde de 202 5será lembrado como um ponto de inflexão — ou como mais um passo em uma trajetória que insiste em ignorar seus próprios erros e custos.

Quem desejar baixar o arquivo com a lista completa dos 912 agrotóxicos liberados pelo governo Lula em 2025, basta clicar [Aqui!].