Os parques eólicos têm efeitos incertos na escala local

Os parques eólicos trazem benefícios econômicos de curto prazo para os municípios onde são instalados.  No entanto, a longo prazo, esses efeitos podem diminuir e até mesmo se tornar negativos

parques eólicosMuitos parques eólicos no Nordeste do Brasil estão localizados muito perto de residências e estão causando diversos problemas de saúde. Crédito da imagem: Felipe Correia/Kaosenlared 

[SÃO PAULO, SciDev.Net ] A instalação de parques eólicos para a produção de eletricidade pode ter um efeito positivo na economia dos municípios que os recebem, especialmente os mais pobres, com um aumento de aproximadamente 20% no seu Produto Interno Bruto (PIB) per capita.

Essa é a conclusão de um estudo publicado na revista The Electricity Journal , que analisou mais de 1.500 municípios do Nordeste brasileiro entre 2005 e 2021. No entanto, outros especialistas alertam que o impulso na economia local gerado por esses projetos pode ser temporário.

O Brasil é atualmente o quinto maior produtor mundial de energia eólica , com aproximadamente 36 gigawatts (GW) de capacidade instalada, concentrada principalmente no Nordeste, segundo reportagem do Valor Econômico, jornal brasileiro especializado em energia eólica. Em pouco mais de uma década, a capacidade instalada cresceu de quase zero para 31 GW.

Essa concentração e crescimento são amplamente explicados por suas condições naturais. O interior semiárido e os altos planaltos do nordeste geram ventos constantes, com fatores de capacidade superiores a 40%, entre os mais altos do mundo.

Mas não estava claro se a chegada desses parques melhorou a economia dos municípios que os receberam ou se simplesmente criou complexos de turbinas eólicas cuja eletricidade era exportada para outras cidades.

O estudo, conduzido por Fernando Antonio Ignacio González, pesquisador da Escola de Ciências Empresariais da Universidade Católica do Norte, no Chile, e do Conselho Nacional de Pesquisa Científica e Técnica, na Argentina, analisou 1.613 municípios da região. Destes, 41 receberam parques eólicos entre 2005 e 2021.

Utilizando métodos estatísticos, ele comparou a evolução econômica desses municípios antes e depois da instalação dos parques com a de 1.572 municípios que não os receberam.

O principal indicador foi o PIB per capita, ou seja, quanto a economia produz, em média, por habitante. Além disso, foram analisados ​​o valor gerado pelo setor de serviços, o emprego formal e as diferenças entre os municípios mais pobres e mais ricos.

Os resultados indicam que os parques aumentaram o PIB per capita em uma média de 20%: 29% nos municípios mais pobres em comparação com 13% nos mais ricos. Em termos absolutos — isto é, em reais per capita — ambos os grupos obtiveram ganhos semelhantes, entre R$ 3.200 e R$ 4.100 (aproximadamente US$ 615 e US$ 790).

Segundo González, embora a diferença absoluta entre um município pobre e um rico praticamente não se altere, esse valor tem um impacto muito maior numa economia cujo ponto de partida é mais baixo.

“Para um município do interior do Piauí, onde o Estado era praticamente o único empregador, essa renda extra significa passar de uma economia de subsistência para uma economia monetária, com comércio , emprego formal e arrecadação própria de impostos”, disse ele à SciDev.Net .

O pesquisador também identificou um aumento no emprego formal tanto em municípios pobres quanto ricos, porque os parques criam empregos durante sua construção e mantêm empregos permanentes em sua operação e manutenção.

Além disso, o valor agregado do setor de serviços aumentou 12,5%. “Esse número é importante porque o comércio, a hospedagem e a logística não são contabilizados em relação à geração de eletricidade. Se estão crescendo, é porque há atividade econômica real na região”, acrescenta.

Diante dessas descobertas, o especialista defende a instalação de parques eólicos em municípios carentes. “O pré-requisito, obviamente, é que haja vento. Mas se for possível combinar a instalação com uma região que tenha bons ventos e altos níveis de pobreza, melhor ainda”, destaca.

Efeitos temporários

Segundo Mariana Traldi, professora do Instituto Federal de São Paulo, que não participou do estudo, esses projetos geram empregos principalmente durante a construção dos parques, mas a contratação de trabalhadores locais é limitada e a arrecadação de impostos diminui após a conclusão das obras.

Ele explica ao SciDev.Net que, como os trabalhadores contratados para a construção vêm principalmente de outras regiões do país, isso aumenta momentaneamente a demanda por hospedagem, alimentação e outros serviços, ajudando a impulsionar a economia local.

“No entanto, uma vez concluídas as obras, as cidades se esvaziam e o emprego local se reduz aos serviços de segurança das turbinas eólicas e à produção de peças para os equipamentos em algumas fábricas localizadas nas proximidades”, acrescenta, com base em seus estudos .

A arrecadação de impostos segue uma dinâmica semelhante: aumenta durante a construção e pode alterar temporariamente o orçamento dos municípios, mas diminui assim que as obras são concluídas, retornando a níveis semelhantes aos registrados antes da instalação dos parques.

“Há relatos de proprietários de terras semianalfabetos que assinam contratos com suas impressões digitais e descobrem anos depois que os documentos incluem severas restrições ao uso de suas próprias terras e são válidos por muitos anos.”
Mariana Traldi, professora do Instituto Federal de São Paulo, Brasil

Segundo Traldi, para muitos proprietários de terras, tudo o que resta é a renda do arrendamento de suas terras para a instalação de turbinas eólicas. Mas, embora alguns ainda mantenham a propriedade formal de suas terras, eles têm pouco poder de decisão e recebem apenas uma pequena parcela da renda gerada.

“Há relatos de proprietários de terras semianalfabetos que assinam contratos com suas impressões digitais e descobrem anos depois que os documentos incluem severas restrições ao uso de suas próprias terras e são válidos por muitos anos”, diz ele.

Impactos ambientais e na saúde

Os impactos dos parques eólicos também podem ser ambientais , como a mortalidade de aves e morcegos que colidem com as pás das turbinas eólicas.

A geógrafa Adryane Gorayeb, da Universidade Federal do Ceará, que estuda os impactos desses projetos no estado há mais de 15 anos e também não participou do estudo do The Electricity Journal , explica que muitos parques foram instalados sem diálogo prévio com as comunidades ou estudos sobre seus possíveis efeitos nos territórios.

O documento observa que algumas turbinas eólicas foram instaladas em terrenos anteriormente utilizados para agricultura e que continham lagoas para pesca e recreação. As obras de aterro e nivelamento do terreno causaram o ressecamento de algumas dessas lagoas, reduzindo o acesso da comunidade a áreas que antes eram de uso coletivo.

O pesquisador também alerta para os efeitos relacionados ao ruído das turbinas eólicas. Muitas foram instaladas a pouco mais de 100 metros das residências, gerando problemas como distúrbios do sono, estresse, ansiedade, dores de cabeça e sofrimento psicológico, o que, por sua vez, leva os moradores locais a fazer uso contínuo de medicamentos e a desenvolver doenças crônicas.

Gorayeb conclui que a instalação de parques pode ser uma estratégia para promover o desenvolvimento local, mas deve ser acompanhada pelo reconhecimento oficial dos territórios das populações marginalizadas, pelo cumprimento dos procedimentos previstos nos estudos de impacto ambiental e por um maior diálogo com as comunidades.


Fonte:  SciDev.Net

Estudo revela que agrotóxicos de uso corrente danificam o DNA das células intestinais humanas — mesmo em doses muito baixas

Por Sustainable Pulse

Cientistas do projeto SPRINT, na União Europeia, testaram dez agrotóxicos amplamente utilizados em fazendas europeias — incluindo o herbicida glifosato, diversos inseticidas e alguns fungicidas — para verificar se eles danificam o DNA em células intestinais humanas cultivadas em laboratório. Eles também testaram dois “coquetéis” realistas, feitos combinando vários desses agrotóxicos, já que, na vida real, as pessoas raramente são expostas a apenas um produto químico por vez.

Os resultados, revisados ​​por pares, comprovaram que a maioria dos agrotóxicos causou danos ao DNA, e alguns o fizeram em concentrações muito menores do que as relatadas anteriormente — em alguns casos, próximas aos níveis que os órgãos reguladores consideram atualmente “seguros” para exposição diária.

“As conclusões do projeto SPRINT destacaram a presença ubíqua e os efeitos tóxicos das misturas de agrotóxicos, mesmo em baixas doses”, afirmou o Dr. Daniele Mandrioli, Investigador Principal e Líder do Grupo de Trabalho de Toxicologia do SPRINT.

Por que este estudo foi realizado

Em todo o mundo, são aplicados agrotóxicos em plantações para afastar insetos, ervas daninhas e fungos. Como parte de um amplo projeto de pesquisa europeu chamado SPRINT, pesquisadores já haviam descoberto que resíduos de múltiplos agrotóxicos estão praticamente em todos os lugares nas regiões agrícolas — no solo, na água, nas plantações, na poeira doméstica e até mesmo no ar dentro das casas dos agricultores. O que não estava claro era se esses produtos químicos, sozinhos ou misturados, poderiam de fato prejudicar as células humanas nos níveis aos quais as pessoas estão realisticamente expostas.

Um importante sinal de alerta para o perigo a longo prazo de um produto químico é se ele é “genotóxico” — ou seja, se danifica ou altera o DNA. Danos ao DNA são uma das vias bem estabelecidas que podem levar ao câncer e outras doenças crônicas ao longo do tempo. Portanto, testar a genotoxicidade de agrotóxicos é uma etapa padrão e importante para determinar se eles são seguros para uso.

Como funciona o teste

Os pesquisadores utilizaram um teste laboratorial consagrado e reconhecido internacionalmente, chamado ensaio de micronúcleos . Eis a ideia básica, em termos simples:

  • Células intestinais humanas (de uma linhagem celular chamada Caco-2, comumente usada como modelo para o revestimento intestinal) foram cultivadas em placas de Petri e brevemente expostas a um agrotóxico.
  • Em seguida, as células foram deixadas dividir-se uma vez e, posteriormente, adicionou-se uma substância química que as impedia de se dividirem em duas células separadas (para que os cientistas pudessem ter certeza de que cada célula realmente tentou se dividir).
  • Ao microscópio, os técnicos procuravam minúsculos aglomerados extras de material genético fora do núcleo principal, chamados micronúcleos . Eles se formam quando os cromossomos de uma célula são danificados ou dispersos durante a divisão celular — são basicamente um sinal visível de que algo deu errado com o DNA.
  • Mais micronúcleos = mais danos ao DNA causados ​​pela substância testada.

A equipe também verificou se as doses utilizadas não estavam simplesmente matando um grande número de células (o que tornaria os resultados não confiáveis) — uma etapa fundamental de controle de qualidade exigida pelas diretrizes internacionais de testes.

O que eles testaram

Dez agrotóxicos foram testados individualmente, cada um em cinco doses que variaram de muito baixa (0,01 miligramas por litro) até uma dose alta (100 mg/L):

  • Inseticidas: lambda-cialotrina, cipermetrina, deltametrina, acetamiprida
  • Fungicidas: tebuconazol, ciprodinil, fluopiram, imazalil
  • Herbicida: glifosato
  • Sinergista/coformulante: butóxido de piperonila (um ingrediente adicionado a alguns inseticidas para melhorar a eficácia do princípio ativo)

Eles também testaram duas misturas realistas: uma combinação de 3 agrotóxicos (acetamiprida + glifosato + tebuconazol) e uma combinação de 8 agrotóxicos (adicionando cipermetrina, ciprodinil, deltametrina, lambda-cialotrina e butóxido de piperonila à mistura).

O que eles descobriram

A maioria dos agrotóxicos danificou o DNA. Nove das dez substâncias causaram um aumento significativo de micronúcleos em uma ou mais doses. Apenas o imazalil não pôde ser avaliado adequadamente, pois era muito tóxico para as células mesmo em baixas doses, o que tornou a medição do dano ao DNA não confiável.

O glifosato destacou-se como o mais prejudicial. Causou danos ao DNA em todas as doses testadas, incluindo a mais baixa (0,01 mg/L) — uma concentração bem abaixo dos níveis que demonstraram causar danos em outros tipos de células, como as sanguíneas. Na dose mais alta, o glifosato causou ainda mais danos ao DNA do que o composto químico de “controle positivo” (um composto já conhecido por ser altamente prejudicial, usado para confirmar o funcionamento correto do teste). Isso é notável, visto que a segurança do glifosato tem sido debatida publicamente há anos — a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer o classificou como um provável carcinógeno humano em 2015, uma conclusão contestada por alguns órgãos reguladores.

Alguns agrotóxicos causaram danos que não aumentaram de forma constante com a dose — a cipermetrina, o acetamiprido e o ciprodinil apresentaram danos em algumas doses (frequentemente as mais baixas), mas não em um padrão crescente constante. Os pesquisadores observam que esses resultados merecem confirmação em estudos de acompanhamento.

Três substâncias foram recentemente identificadas como prejudiciais, contradizendo suposições anteriores:

  • O butóxido de piperonila — um aditivo usado em muitos inseticidas piretroides — nunca havia demonstrado causar danos às células humanas, apesar de ser considerado não genotóxico.
  • Anteriormente, acreditava-se que o ciprodinil e a deltametrina não danificavam o DNA, com base em estudos mais antigos em células sanguíneas, mas demonstraram danos claros nessas células intestinais.

As misturas de agrotóxicos também causaram danos.  A mistura de três agrotóxicos causou danos significativos ao DNA mesmo na dose mais baixa, mais do que qualquer um de seus ingredientes isoladamente nessa dose — sugerindo que os efeitos individuais dos produtos químicos se somam.

Por que as baixas doses são importantes?

Uma característica fundamental deste estudo é que ele testou concentrações mais baixas do que a maioria das pesquisas anteriores — chegando perto dos níveis oficiais de “ingestão diária aceitável” (IDA), as doses que os órgãos reguladores consideram atualmente seguras para consumo ao longo da vida. A detecção de danos ao DNA nesses níveis ou próximos a eles é significativa, pois sugere que os limites de segurança atuais para algumas dessas substâncias químicas podem precisar ser revistos.

Esta pesquisa soma-se a um crescente conjunto de evidências de que agrotóxicos agrícolas comuns — incluindo alguns que há muito se supõem seguros do ponto de vista de danos ao DNA — podem prejudicar as células humanas em concentrações surpreendentemente baixas, às vezes próximas aos níveis de exposição atualmente permitidos.


Fonte: Sustainable Pulse

Livro sobre exposição humana a agrotóxicos é semifinalista do Prêmio Jabuti Acadêmico

Por Karen Moraes para o “Portal da Faculdade de Ciêncas Médicas”

A obra Exposição humana a agrotóxicos: problema de saúde coletiva e atuação do SUS, de autoria de Herling Gregorio Aguilar Alonzo, professor do Departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, foi indicada como semifinalista do Prêmio Jabuti Acadêmico 2026. O título concorre na categoria Enfermagem, Farmácia, Saúde Coletiva e Serviço Social.

A indicação foi anunciada em 15 de julho pela Câmara Brasileira do Livro (CBL). Publicado pela Pontes Editores em 2025, o livro está disponível em versão impressa e também como e-book gratuito. Os cinco finalistas serão divulgados em 27 de julho, durante a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), com anúncio simultâneo no site oficial do prêmio. A cerimônia de premiação ocorrerá em 11 de agosto.

Lançada em 2025 durante o Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, o Simpósio Internacional de Pesquisa em Enfermagem e um evento na Associação de Docentes da Unicamp (ADunicamp), a publicação reúne resultados de pesquisas, atividades de ensino e ações de extensão desenvolvidas pelo autor. “Os capítulos foram pensados para compor uma obra didática, mas também com nível técnico, voltada a profissionais da saúde e estudantes de graduação e pós-graduação”, afirmou Alonzo.

Exemplares empilhados do livro "Exposição Humana a Agrotóxicos: Problema de Saúde Coletiva e Atuação do SUS", de Herling Gregorio Aguilar Alonzo, expostos sobre uma mesa.Exemplar impresso de obra indicada ao Jabuti Acadêmico

No capítulo central, Alonzo desenvolve a principal tese do livro: a de que o contato com essas substâncias deve ser compreendido como um problema de saúde coletiva. Segundo o autor, o crescimento do número de formulações e produtos comerciais disponíveis no mercado amplia os riscos para a população. “Quanto maior a utilização, aumentam a exposição, os danos ambientais, a presença de resíduos e o acesso da população a esses agrotóxicos, que também são usados em tentativas de suicídio.”

Alonzo explica que os impactos à saúde podem ser imediatos ou surgir anos após o contato com essas substâncias. “Há efeitos agudos e crônicos. Algumas pessoas adoecem, sofrem intoxicações e podem morrer. Outras, em decorrência da exposição prolongada aos resíduos, desenvolvem danos em diferentes órgãos e sistemas, como o nervoso (central e periférico), respiratório, cardiovascular, gastrointestinal, imunológico e endócrino, além do fígado, dos rins, da pele, das mucosas e de diversos tipos de câncer.”

Também podem ocorrer danos à saúde reprodutiva, como abortos, alterações na qualidade dos óvulos e do sêmen, malformações congênitas e baixo peso ao nascer. Em crianças e adolescentes, o pesquisador relaciona o contato com as substâncias a prejuízos cognitivos e de aprendizagem, além do aumento do risco de alguns tipos de câncer infantil, especialmente tumores cerebrais e leucemias, associados tanto à exposição dos pais quanto dos próprios filhos.

Um homem de barba e camisa listrada gesticula enquanto conversa com uma mulher de blazer vermelho e broche contra agrotóxicos, cercados por outras pessoas em uma feira ou evento.Lançamento do livro no Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, em Brasília

A disponibilização gratuita do e-book, segundo Alonzo, busca ampliar o acesso de estudantes e profissionais de saúde a um material didático ainda escasso sobre o tema. “A literatura disponível hoje sobre intoxicações é voltada principalmente para situações agudas e de pronto-socorro. O livro propõe uma abordagem diferente, com estratégias direcionadas aos profissionais da atenção primária.”

A estrutura da obra acompanha uma sequência didática. Os primeiros capítulos apresentam conceitos básicos e a classificação dos agrotóxicos; na sequência, são abordadas formas de identificar pessoas expostas na rotina dos serviços de saúde; por fim, o livro reúne orientações para a investigação clínica e o manejo desses casos.

“No primeiro capítulo, o livro explica de forma simples como os agrotóxicos são classificados e agrupados. Mais adiante, apresenta estratégias para que os profissionais de saúde identifiquem pessoas expostas na rotina das unidades. O último capítulo mostra como realizar a história clínica e a anamnese, além de abordar o diagnóstico, as orientações e as condutas para esses pacientes.”

Homem de camisa listrada e barba grisalha discursa com microfone ao lado de uma projeção do livro "Exposição Humana a Agrotóxicos", de Herling Gregorio Aguilar Alonzo, com QR codes para acesso.

Herling Alonzo apresenta livro em sessão

 

Para Alonzo, a principal contribuição da publicação é oferecer um material voltado especificamente aos profissionais da atenção primária e aos estudantes da área da saúde, preenchendo uma lacuna na formação sobre os impactos da exposição aos agrotóxicos e o atendimento às pessoas expostas.

O autor e o prêmio

Formado em Medicina e Cirurgia pela Universidad Nacional Autónoma de Honduras, Alonzo fez pós-graduações em Toxicologia Clínica e Ambiental no Uruguai e em Saúde Ocupacional em Israel, antes de consolidar, no Brasil, sua carreira acadêmica na área de Saúde Coletiva.

Criado em 2024 com apoio da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e da SBPC, e com participação da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) a partir deste ano, o Prêmio Jabuti Acadêmico é uma iniciativa da CBL para reconhecer livros acadêmicos, científicos, técnicos, profissionais e didáticos nacionais. 


Fonte: Portal da Faculdade de Ciências Médicas

Uma ameaça invisível: agrotóxicos estão afetando a saúde e o desenvolvimento infantil

Por Pan UK

Um novo relatório publicado pelo UNICEF no início desta semana revela que a rápida expansão global do uso de agrotóxicos — que mais que dobrou entre 1990 e 2022 — superou em muito a proteção das crianças.

As crianças são expostas a agrotóxicos por meio de alimentos e água, uso em residências, jardins, escolas e espaços públicos. Elas também enfrentam exposição por meio da contaminação ambiental causada pela deriva da pulverização, manejo inadequado de agrotóxicos e  seus resíduos nas roupas. O uso contínuo de agrotóxicos altamente perigosos (HHPs), que apresentam riscos agudos ou crônicos particularmente graves, intensifica esses riscos.

A exposição durante a gravidez e na infância pode levar a problemas de saúde para toda a vida. Os agrotóxicos prejudicam o sistema imunológico, comprometem a função pulmonar e agravam a asma. A exposição também pode afetar a saúde reprodutiva e causar danos aos órgãos e cânceres infantis, incluindo leucemia.

Um número crescente de estudos demonstra os efeitos dos agrotóxicos nos resultados do nascimento e um risco aumentado de anomalias congênitas. A exposição pré-natal a agrotóxicos  está associada a fendas orais, anomalias cardiovasculares e defeitos do tubo neural. Alguns estudos mostraram que a exposição a pesticidas está associada ao risco de baixo peso ao nascer.

Uma área de grande preocupação clínica é a relação entre a exposição crônica a baixos níveis de agrotóxicos e o transtorno do espectro autista (TEA) e o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH).

Genotoxicidade refere-se à capacidade de uma substância danificar o material genético, o que pode levar a defeitos hereditários. Evidências crescentes mostram que crianças e adolescentes que vivem em áreas agrícolas ou trabalham na agricultura correm o risco de sofrer danos genotóxicos.

Existem mais de 1.000 substâncias químicas sintéticas, incluindo certos agrotóxicos, que são conhecidas ou potencialmente disruptoras endócrinas (EDCs); este é um número enorme e pode ser uma subestimação. Estudos epidemiológicos em humanos sugerem que as EDCs em crianças afetam o crescimento pré-natal, a função tireoidiana, o metabolismo da glicose, a obesidade, a puberdade e a fertilidade.

O relatório destaca que a verdadeira dimensão dos danos continua subestimada para as crianças em todo o mundo, com intoxicações e mortes por agrotóxicos significativamente subnotificadas nos sistemas globais de dados e riscos amplificados para os 83,4 milhões de crianças envolvidas no trabalho agrícola.

Exige uma ação urgente e coordenada nos âmbitos regulamentar, agrícola, do sistema de saúde e social, incluindo:

  1. Reforçar os padrões e a avaliação de riscos  para levar em conta as vulnerabilidades específicas das crianças.
  2. Eliminar gradualmente os agrotóxicos altamente perigosos , reduzir a toxicidade ambiental relacionada ao uso de agrotóxicos e incentivar o alinhamento com instrumentos internacionais, como a Convenção-Quadro Global sobre Produtos Químicos de 2023.
  3. Eliminar o trabalho infantil na agricultura  e proteger todas as crianças dos riscos dos agrotóxicos.
  4. Reduzir o risco associado aos agrotóxicos através da promoção de práticas agroecológicas, implementação do manejo integrado de pragas e vetores, limitação de aplicações não essenciais e desenvolvimento de alternativas sustentáveis.
  5. Reduzir os impactos  através do monitoramento, do estabelecimento de zonas de amortecimento em torno de onde as crianças vivem, aprendem e brincam, da melhoria do controle da deriva, da segurança alimentar e das medidas de proteção ocupacional.
  6. Ampliar a educação  sobre os riscos dos agrotóxicos, incluindo armazenamento e manuseio, prevenção em casa e exposição alimentar.
  7. Fortalecer os sistemas de saúde  através da criação de centros de informação toxicológica, treinamento de profissionais de saúde e vigilância epidemiológica.

Leia o relatório completo ” Subestimados e Ignorados: O impacto silencioso dos agrotóxicos nas crianças ” aqui 


Fonte: PAN UK

Colonialismo químico: a Europa proíbe, mas vende ao Brasil

Dados revelam que dezenas de agrotóxicos considerados perigosos demais para uso na União Europeia seguem sendo comercializados livremente no Brasil, num modelo que transfere riscos ambientais e sanitários para os países periféricos

O debate sobre o uso de agrotóxicos no Brasil ganhou novos contornos a partir da divulgação de dados que revelam uma realidade alarmante: o país continua permitindo e consumindo em larga escala substâncias que já foram consideradas perigosas demais para serem utilizadas na União Europeia. O problema não é apenas ambiental ou sanitário. Trata-se também de uma questão ética e geopolítica que expõe a profunda desigualdade existente na governança global dos riscos químicos.

Levantamento realizado pelo Campo Grande News, com base em dados do Ibama, mostrou que seis dos dez ingredientes ativos mais comercializados em Mato Grosso do Sul são proibidos na União Europeia. Entre eles estão o acefato, o clorotalonil, a atrazina, o mancozebe, o metomil e o glufosinato de amônio, substâncias associadas a diferentes riscos ambientais e à saúde humana.

O mais grave é que esse não parece ser um fenômeno isolado. Um levantamento técnico feito por técnicos do próprio Ministério da Agricultura identificou que o Brasil autoriza atualmente o uso de 147 ingredientes ativos proibidos na União Europeia. O mesmo estudo apontou ainda 306 casos em que resíduos de agrotóxicos presentes em produtos brasileiros exportados superavam os níveis de detecção aceitos pelas autoridades sanitárias europeias. O próprio governo brasileiro reconheceu que essa situação representa uma vulnerabilidade para as exportações nacionais.

Mas o aspecto mais perturbador dessa história vai muito além das possíveis barreiras comerciais. A pergunta central deveria ser outra: se essas substâncias são consideradas perigosas demais para serem utilizadas em países europeus, por que sua aplicação continua sendo amplamente permitida sobre trabalhadores rurais, comunidades do campo e consumidores brasileiros?

A resposta remete a uma das maiores contradições do sistema agroalimentar global. Muitas das empresas que produzem esses agrotóxicos têm sede justamente em países europeus. Em outras palavras, substâncias consideradas inadequadas para aplicação nos territórios da União Europeia continuam sendo fabricadas por empresas do próprio continente e exportadas para países do Sul Global, incluindo o Brasil. Trata-se de uma forma contemporânea de colonialismo químico, na qual os riscos são deslocados para regiões periféricas enquanto os países centrais preservam padrões mais elevados de proteção ambiental e sanitária para suas próprias populações.

A hipocrisia torna-se ainda mais evidente quando a União Europeia endurece os controles sobre resíduos químicos em alimentos importados. O bloco restringe a entrada de produtos agrícolas contaminados por substâncias que ele mesmo proibiu, mas fecha os olhos para o fato de que muitas dessas moléculas continuam sendo produzidas por corporações europeias e vendidas agressivamente para mercados como o brasileiro.

O resultado é um modelo perverso. De um lado, agricultores brasileiros são induzidos a utilizar substâncias altamente perigosas disponibilizadas por multinacionais químicas. De outro, quando os resíduos desses produtos aparecem nos alimentos exportados, a responsabilidade recai exclusivamente sobre os produtores e sobre o país exportador. Os lucros permanecem concentrados nas empresas fabricantes, enquanto os riscos ambientais, sanitários e econômicos são socializados entre trabalhadores rurais, consumidores e ecossistemas do Sul Global.

A permanência desse quadro também ajuda a explicar o crescimento das preocupações relacionadas à contaminação de solos, águas superficiais e subterrâneas, além dos potenciais impactos sobre polinizadores e biodiversidade. Diversas das substâncias que aparecem nas listas de restrição europeia acumulam histórico de controvérsias científicas relacionadas à toxicidade ambiental e aos possíveis efeitos sobre a saúde humana.

Por isso, a discussão não pode ficar limitada ao risco de perda de mercados internacionais. O verdadeiro escândalo é que milhões de brasileiros continuem expostos diariamente a compostos que já foram considerados incompatíveis com os padrões de segurança adotados em países centrais. Ao mesmo tempo, é necessário denunciar a dupla moral da União Europeia, que se apresenta como referência mundial em sustentabilidade enquanto permite que suas empresas transformem o Sul Global em destino preferencial para substâncias que ela própria rejeitou.

Enquanto a lógica da exportação de riscos prevalecer sobre a proteção da saúde pública e do meio ambiente, o Brasil continuará ocupando a desconfortável posição de grande consumidor de agrotóxicos banidos em outras partes do mundo — uma situação que revela tanto a força do lobby químico quanto as profundas assimetrias que marcam o comércio internacional contemporâneo

Brasil, a “lixeira química” do agronegócio global

Em palestra no 1º Congresso de Agroecologia, realizada em 25 de maio em Florianópolis (SC), a professora Sonia Hess expôs como o avanço do agronegócio exportador aprofundou o consumo de agrotóxicos banidos na União Europeia, contaminando águas, alimentos e populações inteiras enquanto amplia a insegurança alimentar e a dependência econômica brasileira

A palestra ministrada pela professora Sonia Corina Hess no 1º Congresso de Agroecologia, realizado ontem, 25 de maio, apresentou um retrato contundente do papel que o Brasil vem desempenhando na expansão global do uso de agrotóxicos, evidenciando não apenas a dimensão quantitativa do problema, mas também suas implicações econômicas, sanitárias e ambientais. A apresentação mostrou que o país comercializou mais de 907 mil toneladas de agrotóxicos em 2024, o equivalente a 4,3 kg por habitante, consolidando sua posição como maior consumidor mundial desses produtos. O dado se torna ainda mais grave quando comparado ao crescimento relativamente modesto da área plantada no mesmo período, indicando uma intensificação da dependência química do modelo agrícola dominante.

Um dos pontos centrais da exposição foi a demonstração de que boa parte dos ingredientes ativos utilizados em larga escala no Brasil já foi banida na União Europeia devido aos seus impactos sobre a saúde humana e os ecossistemas. Substâncias como mancozebe, clorotalonil, atrazina e glufosinato de amônio continuam sendo aplicadas massivamente em lavouras brasileiras, mesmo associadas a câncer, infertilidade, desregulação endócrina, doenças neurodegenerativas e danos reprodutivos. Hess argumenta que o Brasil vem se convertendo em uma verdadeira “lixeira química”, absorvendo compostos rejeitados por países centrais, enquanto multinacionais como Bayer, BASF, Syngenta e Corteva seguem acumulando lucros bilionários com a continuidade desse modelo.

A palestra também desmonta a narrativa de que o uso crescente de agrotóxicos estaria associado à produção de alimentos para a população brasileira. Segundo os dados apresentados, 79% dos agrotóxicos aplicados no país concentram-se em apenas quatro culturas — soja, milho, cana-de-açúcar e algodão — fortemente vinculadas ao agronegócio exportador. Além disso, 93% da soja e 80% do milho produzidos no Brasil são destinados à alimentação animal, dentro e fora do país. Enquanto isso, culturas essenciais para a segurança alimentar, como feijão, arroz e trigo, enfrentam retração de área plantada e aumento da dependência de importações. O contraste revela uma política agrícola orientada prioritariamente para commodities e para os interesses do comércio internacional, especialmente da China, em detrimento da soberania alimentar brasileira.

Outro aspecto particularmente alarmante abordado por Sonia Hess foi a contaminação das águas de abastecimento público. Dados do Programa Qualidade da Água do Ministério Público de Santa Catarina mostraram a presença de resíduos de agrotóxicos em mais da metade dos municípios avaliados. Em muitos casos, a água considerada “potável” pela legislação brasileira ultrapassaria amplamente os limites permitidos na União Europeia. A situação evidencia o abismo regulatório existente entre o Brasil e países que adotam critérios mais protetivos à saúde pública, além de revelar a fragilidade das normas nacionais sobre potabilidade e monitoramento ambiental.

A professora Sonia Hess também relacionou a expansão do uso de agrotóxicos ao agravamento de problemas de saúde pública, destacando o crescimento contínuo dos óbitos por neoplasias e suicídios no Brasil. Embora a relação causal entre exposição química e adoecimento coletivo exija análises epidemiológicas complexas, a literatura científica apresentada na palestra reforça a existência de fortes evidências sobre os efeitos genotóxicos da exposição crônica aos agrotóxicos em trabalhadores rurais e populações residentes em áreas agrícolas.

Ao final, a professora Sonia Hess defendeu um conjunto de medidas estruturais para reverter o atual quadro. Entre elas, destacou a necessidade de rever o Plano Safra, reduzindo os incentivos direcionados ao agronegócio exportador e fortalecendo a agricultura familiar e agroecológica; eliminar benefícios fiscais concedidos a agrotóxicos proibidos na União Europeia; endurecer os parâmetros de qualidade da água e dos alimentos; e excluir da legislação brasileira ingredientes ativos já considerados inseguros em outros países. A agroecologia aparece, assim, não como um nicho alternativo de produção, mas como uma necessidade estratégica para a proteção da saúde coletiva, da biodiversidade e da soberania alimentar do país

A EPA ignorou pedido para endurecer as restrições ao Glifosato, alega ação judicial

providence-doucet-5za6niH4qpw-unsplash

Por Shannon Kelleher para “The New Lede”  

A Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) está colocando a saúde pública em risco ao continuar permitindo que os agricultores pulverizem glifosato, um herbicida associado ao câncer, diretamente sobre a aveia antes da colheita, uma prática que geralmente resulta em resíduos do agrotóxicos em alimentos populares feitos com aveia, de acordo com um novo processo judicial.

O processo , apresentado em 20 de abril pelo Environmental Working Group (EWG), pede ao Tribunal de Apelações dos EUA para o Circuito do Distrito de Columbia que obrigue a EPA a responder a uma petição de 2018 que solicita à EPA a proibição do uso de glifosato para secar plantações antes da colheita e a redução do nível de resíduos de glifosato permitido na aveia de 30 partes por milhão (ppm) para apenas 0,1 ppm. A EPA nunca respondeu à petição, que foi apresentada pelo EWG e um grupo de empresas alimentícias e supermercados.

O processo judicial centra-se no atual “limite máximo de resíduos” (LMR) da EPA para o glifosato na aveia, que é amplamente consumida por crianças em cereais, biscoitos e outros produtos, e alega que os limites não protegem adequadamente a saúde das crianças.

Testes realizados pelo EWG e outras entidades encontraram resíduos de glifosato em diversos alimentos populares, incluindo cereais e snacks à base de aveia, concluindo que a aveia é uma das principais fontes de exposição ao glifosato para bebês e crianças pequenas.

“A EPA tem o claro dever legal de agir em relação a esta petição, e simplesmente se recusou a fazê-lo”, disse Caroline Leary, conselheira jurídica da EWG, em um comunicado .

“Esse tipo de atraso tem consequências reais para as famílias que dependem da agência para garantir que as crianças não sejam expostas a resíduos tóxicos de produtos químicos agrícolas, como o glifosato”, disse Leary.

“Esse tipo de atraso tem consequências reais para as famílias que dependem da agência para garantir que as crianças não sejam expostas a resíduos tóxicos de agrotóxicos, como o glifosato.” — Caroline Leary, EWG

Os limites máximos de resíduos (LMRs, na sigla em inglês), também conhecidos como níveis de tolerância, para o glifosato em culturas alimentares têm sido alvo de controvérsia há muito tempo. Enquanto o LMR para aveia era de 0,1 ppm em 1993, ele foi elevado para 20 ppm em 1997 e novamente para 30 ppm em 2008. Os LMRs da EPA frequentemente permitem que mais resíduos de glifosato permaneçam nos alimentos nos EUA do que em muitos outros países , incluindo os da União Europeia.

Em 2013, a EPA (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos) emitiu uma nova regulamentação que elevou os níveis de glifosato em oleaginosas, incluindo linhaça, gergelim e soja, de 20 ppm para 40 ppm, além de aumentar drasticamente os níveis permitidos em batata-doce e cenoura. A EPA aumentou os níveis de tolerância em resposta a pedidos da Monsanto .

A EPA está reavaliando o registro do glifosato sob a Lei Federal de Inseticidas, Fungicidas e Rodenticidas (FIFRA), após ter revogado uma decisão provisória de registro em setembro de 2022. A expectativa é que a agência emita uma decisão final sobre a revisão do registro ainda este ano.

Na página da agência sobre glifosato , a EPA afirma que a presença de resíduos detectáveis ​​de agrotóxicos em alimentos não significa que esses resíduos estejam presentes em níveis inseguros.

“Devido ao seu uso generalizado, traços de resíduos de glifosato podem ser encontrados em diversas frutas frescas, vegetais, cereais e outros produtos alimentícios e bebidas. No entanto, esses traços não representam motivo de preocupação para o consumidor”, afirma a EPA em seu site.

Em sua petição de 2019, o EWG escreveu que a EPA “rejeitou indevidamente” muitos estudos científicos que ligaram o glifosato ao câncer, uma medida que “permitiu a aprovação contínua de níveis de tolerância cada vez mais altos de glifosato como resíduo em alimentos comuns”.

O processo da EWG surge no momento em que a Monsanto, fabricante do Roundup, um herbicida popular que tem o glifosato como ingrediente ativo, se prepara para uma batalha judicial em 27 de abril na Suprema Corte , na qual o tribunal deverá determinar se a lei federal prevalece sobre as exigências estaduais de rotulagem para produtos que possam prejudicar os consumidores.

Os documentos legais que apoiam a Monsanto, empresa pertencente ao conglomerado alemão Bayer, sugerem que os EUA podem enfrentar uma “devastação” agrícola e outras dificuldades caso o tribunal decida contra a empresa, enquanto os documentos contrários alertam que apoiar a Monsanto pode isentar as empresas de responsabilidade, privando os consumidores do direito de processá-las caso adoeçam gravemente após a exposição a produtos químicos perigosos.

O glifosato é usado nos EUA desde a década de 1970 e atualmente é o herbicida mais utilizado no mundo. Em um “simpósio sobre glifosato” realizado em Seattle no mês passado, cientistas de todo o mundo se reuniram para instar os órgãos reguladores dos EUA e da Europa a fortalecerem as regulamentações sobre o glifosato. Os pesquisadores examinaram estudos conduzidos na última década, concluindo que as evidências que demonstram que os herbicidas à base de glifosato podem prejudicar a saúde humana “são agora tão robustas que nenhum atraso adicional na regulamentação do glifosato pode ser justificado”.

Um grupo internacional de pesquisa sobre câncer determinou, há mais de uma década, que a substância química é “provavelmente” cancerígena para seres humanos.

Em dezembro, um artigo publicado no ano 2000, que havia sido usado como principal argumento da Monsanto na alegação de que o glifosato não causa câncer, foi retratado , com o editor da revista citando “sérias preocupações éticas”.

Imagem em destaque: Providence Doucet / Unsplash


Fonte: The New Lede

Observatório dos Agrotóxicos: Quem ganha com a avalanche de agrotóxicos no Brasil?

Com 912 liberações em 2025, país amplia uso de substâncias — muitas proibidas na Europa — e aprofunda riscos à saúde, ao ambiente e à sustentabilidade agrícola

Em 2025, o Brasil atingiu um marco que deveria causar mais preocupação do que celebração: foram aprovados 912 registros de agrotóxicos, o maior número da série histórica. Desse total, apenas 162 correspondem a produtos biológicos — uma fração ainda tímida diante do volume esmagador de substâncias químicas liberadas. Os dados, organizados pela consultoria AllierBrasil com base em publicações oficiais do Ministério da Agricultura e Pecuária no Diário Oficial da União, revelam mais do que uma tendência: apontam para a consolidação de um modelo agrícola profundamente dependente de insumos potencialmente nocivos.

Para pesquisadores e especialistas na área, a lista não é apenas um levantamento técnico. O fasto é que entre os produtos liberados estão substâncias que já foram banidas na União Europeia em razão de sua elevada toxicidade, tanto para o ambiente quanto para a saúde humana. Ou seja, o Brasil segue abrindo suas portas para compostos que outros países consideraram perigosos demais para uso em seus próprios territórios, apesar de fabricá-los.

Essa escolha tem implicações diretas e profundas. No plano ambiental, o uso intensivo de agrotóxicos está associado à contaminação de solos e recursos hídricos, à perda de biodiversidade e ao desequilíbrio de ecossistemas inteiros. Polinizadores essenciais, como abelhas, são particularmente vulneráveis a essas substâncias, o que compromete não apenas a produção agrícola, mas a própria resiliência dos sistemas naturais que a sustentam.

No campo da saúde pública, os impactos são igualmente preocupantes. A exposição contínua a determinados agrotóxicos tem sido relacionada a uma série de doenças crônicas, incluindo distúrbios hormonais, problemas neurológicos e diferentes tipos de câncer. Trabalhadores rurais e populações que vivem próximas a áreas de pulverização são os mais afetados, mas os riscos não se limitam a eles: resíduos químicos nos alimentos fazem com que toda a população esteja, em maior ou menor grau, exposta.

Do ponto de vista da sustentabilidade, o cenário é ainda mais contraditório. A dependência crescente de insumos químicos tende a criar um ciclo vicioso: organismos considerados como pragas agrícolas desenvolvem resistência, exigindo doses maiores ou novos produtos, o que aumenta custos, impactos ambientais e riscos à saúde. Ao mesmo tempo, alternativas mais sustentáveis — como a agroecologia e o uso de bioinsumos — seguem ocupando um espaço marginal, apesar de seu potencial comprovado.

É nesse contexto que o recorde de liberações em 2025 lança uma sombra sobre o discurso oficial. Promessas de incentivo à agroecologia e de redução do uso de agrotóxicos perdem força diante de números que apontam na direção oposta. A política agrícola parece, na prática, reforçar um modelo que privilegia ganhos imediatos de produtividade, mesmo à custa de impactos altamente desastrosos em longo prazo.

Mais do que uma questão técnica ou econômica, o avanço dos agrotóxicos no Brasil é um debate sobre escolhas. Escolhas que dizem respeito ao tipo de agricultura que o país deseja promover, ao nível de proteção ambiental que está disposto a garantir e, sobretudo, à qualidade de vida das gerações presentes e futuras. O recorde de 202 5será lembrado como um ponto de inflexão — ou como mais um passo em uma trajetória que insiste em ignorar seus próprios erros e custos.

Quem desejar baixar o arquivo com a lista completa dos 912 agrotóxicos liberados pelo governo Lula em 2025, basta clicar [Aqui!].

 

Agrotóxicos estão mais tóxicos em todo o mundo, aponta estudo publicado pela Science

Brasil é um dos países longe da meta estabelecida pela ONU

Por Rafael Cardoso para “Agência Brasil” 

O grau de toxicidade dos pesticidas aumentou em todo o mundo de 2013 e 2019, com o Brasil entre os países líderes. A conclusão está em um estudo publicado este mês na revista Science e contraria a meta de redução de riscos dos pesticidas até 2030, estabelecida na 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Biodiversidade (COP15).

Pesquisadores alemães da universidade de Kaiserslautern-Landau avaliaram 625 agrotóxicos em 201 países. Eles utilizaram o indicador de Toxicidade Total Aplicada (TAT), que considera o volume usado e o grau de toxicidade de cada substância.

Seis de oito grupos de espécies estão mais vulneráveis aos níveis crescentes de toxicidade. São eles: artrópodes terrestres (como insetos, aracnídeos e lacraias), cuja toxicidade aumentou 6,4% ao ano; organismos do solo (4,6%), peixes (4,4%); invertebrados aquáticos (2,9%), polinizadores (2,3%) e plantas terrestres (1,9%).

O TAT global diminuiu apenas para plantas aquáticas (−1,7%) e vertebrados terrestres (−0,5% ao ano). Humanos fazem parte desse último grupo.

“O aumento das tendências globais de TAT representa um desafio para o alcance da meta de redução de risco de agrotóxicos da ONU e demonstra a presença de ameaças à biodiversidade em nível global”, diz um dos trechos do estudo.

Brasil em destaque

O Brasil aparece como um dos principais protagonistas desse cenário. O estudo identifica o país como detentor de uma das maiores intensidades de toxicidade por área agrícola em todo o planeta, ao lado de China, Argentina, Estados Unidos e Ucrânia.

Além disso, Brasil, China, Estados Unidos e Índia respondem juntos por 53% a 68% da toxicidade total aplicada no mundo.

A relevância brasileira está diretamente ligada ao peso do agronegócio, especialmente de culturas extensivas. Embora cereais tradicionais e frutas ocupem grandes áreas, a toxicidade associada a culturas como soja, algodão e milho exerce impacto significativamente maior em relação à extensão cultivada.

Tipos de agrotóxicos

Um dos achados mais relevantes do estudo indica que o problema é altamente concentrado: em média, apenas 20 agrotóxicos por país respondem por mais de 90% da toxicidade total aplicada.

O levantamento aponta que diferentes classes químicas dominam os impactos. Classes de inseticidas, como piretroides e organofosforados, contribuíram com mais de 80% do TAT de invertebrados aquáticos, peixes e artrópodes terrestres. Neonicotinoides, organofosforados e lactonas representaram mais de 80% do TAT de polinizadores.

Organofosforados, juntamente com outras classes de inseticidas, foram os que mais contribuíram para os TATs de vertebrados terrestres. Herbicidas acetamida e bipiridil contribuíram com mais de 80% para o TAT das plantas aquáticas, enquanto uma mistura mais ampla de herbicidas (incluindo acetamida, sulfonilureia e outros) definiu o TAT das plantas terrestres. Herbicidas de alto volume, como acetoclor, paraquat e glifosato, pertencem a essas classes e têm sido associados a riscos ambientais e à saúde humana.

Fungicidas conazol e benzimidazol, juntamente com os inseticidas neonicotinoides, ​​aplicados no revestimento de sementes, contribuíram principalmente para o TAT dos organismos do solo.

Meta global distante

O estudo também avaliou a trajetória de 65 países. O diagnóstico é de que, sem mudanças estruturais, apenas um país (Chile) atingirá a meta da ONU de redução de 50% da toxicidade dos pesticidas até 2030.

Segundo os pesquisadores, China, Japão e Venezuela estão no caminho para atingir a meta e apresentam tendências de queda em todos os indicadores. Mas precisam de uma aceleração nas mudanças de uso de agrotóxicos.

Tailândia, Dinamarca, Equador e Guatemala estão se afastando da meta, com pelo menos um indicador dobrando nos últimos 15 anos. Eles precisam reverter as tendências de rápido aumento para voltar a trajetória anterior.

Todos os outros países do estudo, o que inclui o Brasil, precisam retornar os riscos de agrotóxicos aos níveis de mais de 15 anos atrás. O que significa reverter padrões de uso das substâncias consolidadas há décadas, em termos de volume e toxicidade das misturas.

Os pesquisadores indicam três frentes principais para conter a escalada dos riscos: substituição de agrotóxicos altamente tóxicos, expansão da agricultura orgânica e adoção de alternativas não químicas. Tecnologias de controle biológico, diversificação agrícola e manejo mais preciso são apontadas como estratégias capazes de reduzir impactos sem comprometer produtividade.


Fonte: Agência Brasil

Resíduos de glifosato, agrotóxico associado ao câncer, foram encontrados em testes realizados em parques infantis no Reino Unido

A pressão aumenta para que o uso do glifosato, classificado pela OMS como provável carcinógeno desde 2015, seja severamente restringido

Balanços em um parquinho

Vestígios de glifosato ou de seus produtos de decomposição foram encontrados em oito dos 13 parques infantis testados pela Pan UK. Fotografia: Christopher Thomond/The Guardian 

Por Damien Gayle para “The Guardian”

Crianças podem estar sendo expostas ao controverso herbicida glifosato em parques infantis por todo o Reino Unido, afirmaram ativistas após testarem parques em Londres e nos condados vizinhos.

A Organização Mundial da Saúde classificou o glifosato como um provável carcinógeno humano desde 2015. No entanto, ativistas afirmam que as autoridades locais no Reino Unido ainda utilizam milhares de litros de herbicidas à base de glifosato em áreas verdes públicas.

Ativistas da Rede de Ação contra Agrotóxicos (Pan) do Reino Unido coletaram amostras de solo e de superfície em 13 parques infantis em Kent, Cambridgeshire, Milton Keynes, Tower Hamlets e Hackney. Em oito deles, encontraram vestígios de glifosato ou de seu produto de degradação, o ácido aminometilfosfônico (AMPA).

A única área onde não foram encontrados vestígios do herbicida foi em Hackney, que deixou de usar glifosato em espaços verdes públicos em 2021.

“É profundamente preocupante encontrar um agrotóxico altamente perigoso como o glifosato nos locais onde nossas crianças brincam”, disse Nick Mole, da Pan UK. “Todos sabemos que as crianças pequenas tendem a colocar os dedos e outros objetos na boca, então encontrar resíduos de glifosato em parques infantis, inclusive em equipamentos como balanços e escorregadores, é particularmente preocupante.”

Nos últimos anos, a utilização do glifosato tem gerado controvérsia. No entanto, o produto químico continua autorizado para uso em espaços públicos no Reino Unido e é aplicado rotineiramente pelas autoridades locais em parques, campos de jogos, cemitérios e calçadas.

O câncer não é a única doença associada ao glifosato. O professor Michael Antoniou, especialista em genética molecular e toxicologia do King’s College London, afirmou: “Nossos estudos mostraram que a exposição a herbicidas à base de glifosato é um fator de risco significativo para o desenvolvimento de uma série de problemas de saúde graves, incluindo esteatose hepática e doença renal e, o que é mais preocupante, uma ampla gama de cânceres, incluindo leucemias.

“A afirmação dos órgãos reguladores governamentais de que o glifosato é seguro não resiste ao escrutínio científico mais recente, que demonstra que uma dose segura de glifosato é, atualmente, desconhecida. Portanto, todos os esforços devem ser feitos para reduzir o uso do herbicida glifosato tanto em áreas agrícolas quanto urbanas, e para eliminar vias desnecessárias de exposição, especialmente para crianças.”

A Agência Executiva de Saúde e Segurança (HSE), órgão governamental responsável por pesticidas, deverá reexaminar a autorização para o uso de glifosato este ano, e ativistas afirmam esperar que uma consulta pública sobre a renovação comece em breve.

A pressão para que seu uso seja severamente restringido está aumentando. Siân Berry, deputada do Partido Verde por Brighton Pavilion, apresentou um projeto de lei de iniciativa parlamentar que pede que os conselhos municipais proíbam o uso de glifosato em áreas públicas.

“Muitos conselhos municipais em cidades, vilas e aldeias por todo o Reino Unido adotaram uma abordagem diferente para controlar o crescimento de plantas e gerenciam ruas e parques infantis de maneiras que garantem a segurança das crianças e da natureza”, disse Berry ao The Guardian. “Os conselhos têm muitas outras opções além de cobrir o ambiente local de nossas crianças com perigos.”

Dafina Bozha e sua filha Alessia, que está em pé em um brinquedo do parquinho.

Dafina Bozha e sua filha Alessia no Victoria Park. Fotografia: Linda Nylind/The Guardian

Na tarde de quarta-feira, no Victoria Park, o maior parque de Tower Hamlets, Dafina Bozha disse estar chocada ao saber que poderia haver vestígios de substâncias químicas cancerígenas no parquinho. “Este deveria ser o lugar mais seguro para eles”, disse ela, olhando para onde sua filha pequena estava subindo em um carrossel. “Se isso afetar a saúde da minha filha, é algo muito importante para mim.”

Outra mãe, que pediu para ser identificada como Naz B, disse que achava que o uso de glifosato ia contra o propósito dos parques infantis. “Não acho aceitável”, disse ela. “O parque infantil deveria ser um espaço sobre natureza e sobrevivência.”

Naz B e sua filha em um parquinho infantil

Naz B: ‘O parque infantil deve ser um espaço dedicado à natureza.’ Fotografia: Linda Nylind/The Guardian

Enquanto sua filha procurava na terra com um graveto um fragmento de joia perdido, Naz continuou: “As crianças vêm ao parque para tocar na grama e na lama, ninguém quer visitantes estranhos.”

“Temos muitos produtos, produtos naturais, produtos orgânicos. Temos pessoas que vêm ao parque que são veganas, vegetarianas, então tenho certeza de que existem produtos que podem ser usados ​​sem os produtos químicos antiquados.”

Este artigo foi alterado em 15 de janeiro de 2026 para esclarecer que uma amostra de solo do condado de Buckinghamshire foi coletada em Milton Keynes, que é administrativamente separada do conselho do condado para decisões relativas a parques.


Fonte: The Guardian