Pesquisa paulista explica como a produtividade de cana varia no mesmo tipo de solo

Estudo do IAC mostram as interferências das condições climáticas no resultado toneladas por hectare

cana

São muitas as tecnologias que fazem do Brasil o maior produtor de cana-de-açúcar e de etanol do mundo, competência recentemente ressaltada no cenário em que a Índia anunciou o uso do etanol puro nos postos de combustíveis daquele país. Para alcançar os três dígitos de produtividade, o pacote tecnológico gerado pela pesquisa brasileira é complexo e cada fator determina índices para cima ou para baixo. Conhecer os diversos componentes que definem os números da produção é essencial para desperdiçar energia e recursos. No universo dos ambientes da canavicultura, destaca-se o fato de exatamente o mesmo tipo de solo se enquadrar em ambiente de produção diferente, desde que as condições climáticas sejam também diversas. Assim, lavouras instaladas em um mesmo tipo de solo, porém com condições de temperaturas e disponibilidade hídrica diversas, terão produtividades variadas. Pesquisas do Instituto Agronômico (IAC), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, mostram que é importante conhecer a produtividade do ambiente de produção para saber qual é o ponto de partida, isto é, o mínimo que é possível produzir em determinada localidade.

“Por exemplo: o Nitossolo eutrófico, textura argilosa, enquadra-se no ambiente A1, onde a produtividade média é de cinco cortes é de 100 toneladas por hectare, no manejo convencional e na colheita do meio de safra”, explica o pesquisador do Instituto Agronômico (IAC), Hélio do Prado.

Esse mesmo solo, em Goianésia, Goiás, onde ocorre seca durante cinco meses seguidos, o ambiente de produção muda para o chamado C1, com produtividade média de cinco cortes de 84 a 87 toneladas por hectare, também no manejo convencional e na colheita do meio de safra. “A maior deficiência hídrica em Goiás é responsável pela menor produtividade”, resume.

Outro exemplo que comprova esse fenômeno: o Latossolo com teor de argila relativamente baixo atinge cinco cortes de cana no estado de São Paulo. Porém, o mesmo solo na Paraíba atinge apenas dois cortes. “No terceiro corte nem compensa insistir porque nada produz”, garante o pesquisador da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA).
Segundo Prado, se o ambiente for restritivo, a produtividade é tão baixa que, para alcançar produtividade a partir de 100 toneladas, por hectare, será preciso muito investimento. “No entanto, se o ambiente de partida for favorável, com pouco recurso já é possível atingir os três dígitos”, diz.

No estado de São Paulo existem locais com clima muito diferentes. Considerando as regiões paulistas canavieiras de Assis e Ribeirão Preto, na primeira a distribuição da chuva é bem melhor do que na segunda. Nessas condições, são diferentes as interações entre solo e clima.

“A região de Piracicaba possui área representativa com solo originado da rocha folhelho, muito pobre em cálcio, elemento que estimula o crescimento radicular. Além disso, esse solo é naturalmente muito duro, o que dificulta a exploração radicular em profundidade”, explica.

Por esse motivo, os ambientes de produção paulistas mais restritivos estão em Piracicaba, exceto nos locais geograficamente direcionados para Campinas e para Rio Claro, que correspondem a 25% da região, no máximo.

O pesquisador relata que em suas pesquisas já encontrou o solo mais rico do mundo, chamado Vertissolo, em Juazeiro, na Bahia. Lá, a cana-de-açúcar com manejo de irrigação por gotejamento atinge quase 200 toneladas, por hectare. “Na nova edição do meu livro Pedologiafacil – Aplicações em Solos Tropicais mostrarei as produtividades de 17 cortes, normalmente o que existem são cinco a dez cortes, no máximo”, diz. A nova edição estará disponível em julho de 2021, nas versões online e impressa.

Em Goiás, na usina Jalles Machado, onde o solo é tipo Latossolo acrico, tem-se produtividade média de cinco cortes de 68 a 71 toneladas, por hectare, na colheita de meio de safra. Este mesmo solo, na usina Santa Juliana, em Minas Gerais, tem produtividade média de cinco cortes de 84 a 87 toneladas, por hectare, também com colheita no meio de safra.
Prado explica que isso ocorre porque na Jalles Machado a altitude é de 780m, já na Santa Juliana é de 1.100m. De novo é o clima mudando um ambiente de produção. “Em Goianésia, na usina Jalles Machado esse solo enquadra-se no ambiente E2, mas na Santa Juliana enquadra-se no ambiente C1, ambas no manejo convencional, com colheita no meio de safra”, complementa.

O pesquisador classificou os ambientes por letras: G2, G1, F2, F1, E2, E1, D2, D1, C2, C1, B2, B1, A2, A1, A+1, A+2, A+4 , A+5. São muito favoráveis os ambientes A+1, A+2, A+3, A+4, A+5; favoráveis A1, A2, B1, B2; médios C1, C2, D1; desfavoráveis D2, E1, E2, muito desfavoráveis os ambientes F1, F2, G1 e G2.

No G2 a produtividade média é inferior a 52 toneladas, por hectare, no A+4 é próxima de 200 toneladas, por hectare. “Um solo muito rico pode ser ambiente G2, isto é, muito desfavorável, se a deficiência hídrica for extrema, tal como em Juazeiro, na Bahia, onde não chove durante oito meses do ano”, explica.

No México, Peru e Guatemala existem locais com deficiência hídrica muito grande. Essa condição torna seus ambientes muito mais restritivos, de acordo com Prado, que palestrou sobre Produção de cana-de-açúcar no Brasil e países da América Latina e Central, 2° Fórum Latino-Americano do Agronegócio, evento online e gratuito, em 25 de março de 2021.

Variedades exigentes devem ser alocadas nos melhores ambientes. As menos exigentes, nos ambientes mais restritivos

O Programa Cana IAC estabeleceu ao longo dos últimos 20 anos uma grande rede experimental, apoiado principalmente por empresas do setor sucroenergético da região Centro-Sul: São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Paraná, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso. Essa ação permitiu identificar variedades IAC com excelente adaptação e performance em outros estados. É o caso da IAC91-1099, muito adaptada a Goiás e a outros estados do Centro-Oeste brasileiro. Destaca-se também a IACSP95-5094 com grandes performances no Paraná, Goiás, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. “Nesta network estamos tendo oportunidade de identificar variedades de excepcional desempenho para nichos específicos”, resume o líder do Programa Cana IAC, Marcos Guimarães de Andrade Landell.

Assim acontece com as variedades que estão em processo de lançamento: a IACCTC05-9561, muito adaptada a Goiás, e a IACSP04-6007, desenvolvida inicialmente na região de Assis e que se encontra em franca expansão nos estados do Paraná e Mato Grosso do Sul.

“O desenvolvimento de micro redes regionais, em nichos extremos, como é o caso do “site” de seleção que temos há 20 anos no norte de Goiás, em Goianésia, nos permitiu, identificar genótipos de acentuada tolerância à seca, como a IACCTC07-8008″, explica Landell. As informações geradas nessa localidade possibilitam prever quais as variedades apresentam maior tolerância ao estresse hídrico. Dessa forma é possível indicá-las para outras regiões do Brasil. “O uso dessas variedades poderia contribuir para a sustentabilidade econômica e ambiental da atividade”, afirma.

Como funciona a metodologia IAC em relação aos ambientes de produção
Segundo o pesquisador do IAC, Hélio do Prado, o ponto de partida de produção da cana-de-açúcar é o ambiente de produção nas condições naturais da interação solo e clima, considerando o manejo convencional. O ponto de chegada é ter manejo avançado, com adoção das tecnologias geradas pelo Instituto Agronômico, como Terceiro Eixo, irrigação, efeitos da vinhaça e da torta, adubação foliar, além de resíduos nutricionais deixados pela cultura anterior, que pode ser soja ou frutíferas.

O cientista desenvolveu a metodologia para classificar os ambientes de produção de cana-de-açúcar atribuindo-lhes letras, que os classificam conforme a condição favorável ou desfavorável de produção. Até 2006, o método contava com cinco letras: A, B, C, D e E, em que era feito o enquadramento de cinco tipos de solos em cinco ambientes. “Notei que precisava aumentar a quantidade de letras porque uma grande usina possui 20 a 30 tipos de solos, ficando impossível enquadrá-los em só cinco letras”, comenta.

Assim surgiu a classificação A1, A2, B1, B2, C1, C2, D1, D2, E1, E2, F1, F2, G1 e G2, que reúnem os possíveis ambientes no manejo convencional. Para atingir ambientes A+1, A+2, A+3, A+4, A+5 é preciso fazer algumas combinações de manejos avançados e saber qual é o ambiente no ponto de partida, ou seja, nas condições de manejo convencional no clima local.

Em resumo: no manejo convencional é possível atingir baixas produtividades, podendo ser desde G2, se for solo pedregoso, e também alcançar altas produtividades, chegando ao topo ao atingir A1, no melhor solo, na região mais chuvosa, como no Paraná.

O pesquisador relata exemplos de ambientes que se deslocaram do ponto de partida, no manejo convencional, para ambientes mais favoráveis no manejo avançado, como ocorreu em Taquaritinga, interior paulista, com Argissolo eutrófico, que representa o ambiente A1. “Porém, esta mesma região deslocou-se para o ambiente A+2 pelos benefícios proporcionados pela tecnologia do Terceiro Eixo e pela adubação foliar”, comenta.

Na usina Agrovale, em Juazeiro, na Bahia, com Vertissolo no ambiente G2, no manejo convencional, houve mudança para o ambiente A+1 pelo efeito da irrigação por gotejamento, mais vinhaça e compostagem. A Agrovale é a única no mundo que irriga 17 mil hectares ao mesmo tempo, segundo Prado. Os dados sobre as produtividades obtidas nessa área estarão na nova edição do livro de autoria do pesquisador do IAC.

Na região Centro-Sul a produtividade aumenta, pois chove mais e os solos são melhores. “O melhor solo no manejo convencional, na região do Paraná atinge o ambiente A1, o recordista sem o citado manejo avançado”, diz o pesquisador. As produtividades mencionadas referem-se às obtidas na colheita no meio de safra, no manejo convencional.

A nova classificação de ambientes de produção tornou possível usar a mesma referência para todo Brasil. “Desde a região Nordeste, onde a produtividade histórica, na média de cinco cortes, é de 60 toneladas, por hectare, no citado manejo convencional, ambiente F1, até o ambiente A1, com produtividade média de 5 cortes, no melhor solo do Paraná”, complementa. Esses dados foram reunidos em uma única régua, em que é possível consultar todas essas informações.

Anglo American sofre processo na Zâmbia por causa do envenenamento em massa de crianças

Processo afirma que a mineradora Anglo Americana  falhou em evitar a poluição em Kabwe, afetando várias gerações

escoriaMais de 6 milhões de toneladas métricas de escória de chumbo formam a Black Mountain, uma pilha de resíduos tóxicos de chumbo. Fotografia: Larry C Price

Por Damian Carrington Editor de Meio Ambiente do “The Guardian”

Uma ação coletiva foi movida contra a empresa de mineração Anglo American por sua alegada falha em prevenir a poluição generalizada de chumbo na cidade zambiana de Kabwe. A cidade abrigou uma das maiores minas de chumbo do mundo por muitas décadas e os cientistas relataram níveis “alarmantes” de chumbo no sangue das pessoas.

“O desastre de saúde pública ambiental deixado pelo Anglo American significa que há mais de 100.000 crianças e mulheres em idade reprodutiva em Kabwe que provavelmente sofreram envenenamento por chumbo como resultado da poluição causada pelo Anglo”, de acordo com os documentos legais arquivados .

Os advogados argumentam que a subsidiária sul-africana da Anglo American é responsável, uma vez que foi responsável pela mina de 1925 a 1974 e que foi quando a maior parte da poluição foi causada. A Anglo American tinha “o dever de zelar pela proteção das gerações existentes e futuras de residentes de Kabwe”, de acordo com os documentos legais.

chumboOs níveis de chumbo em Kabwe são até 100 vezes os níveis de segurança recomendados. Fotografia: Larry C Price for the Guardian

ecido por ser altamente tóxico e “ nenhum nível de exposição ao chumbo é conhecido por não ter efeitos os nocivos” à saúde humana, de acordo com a Organização Mundial de Saúde. Um estudo científico com 1.190 pessoas em Kabwe publicado em 2019 chamou os níveis de exposição lá de “alarmantes”. Ele concluiu: “Este é o primeiro estudo que revelou a verdadeira extensão da exposição ao chumbo em toda a cidade de Kabwe, que representa um sério risco público e deve receber atenção urgente.”

“O envenenamento por chumbo na infância tem efeitos devastadores no desenvolvimento neurológico e causa sinais clínicos evidentes, incluindo convulsões e coma”, disseram os cientistas. Eles descobriram que os níveis médios de chumbo no sangue estavam acima dos classificados como altos pelas autoridades americanas em todos, exceto em um dos 13 distritos da cidade. No distrito mais afetado, o nível médio foi nove vezes acima do limite dos EUA.

A poluição por chumbo está no solo e na poeira em que as crianças brincam, e as crianças de dois anos apresentam os níveis sanguíneos mais elevados. Algumas crianças pequenas apresentam níveis mais de 20 vezes maiores do que o limite dos EUA, o que pode causar danos cerebrais graves ou morte, de acordo com a OMS.

O caso foi apresentado por 13  pessoas, e  algumas são crianças com níveis muito elevados de chumbo no sangue e outras são mulheres, pois a poluição por chumbo apresenta grandes riscos para os fetos durante a gravidez.

A ação coletiva alega que a Anglo America é responsável por emissões substanciais de chumbo no meio ambiente local devido a deficiências na operação da mina e por não garantir a limpeza de terras contaminadas. A mina foi transferida para uma empresa estatal zambiana em 1974 e fechada em 1994.

política de direitos humanos da Anglo American declara : “Onde tivermos causado ou contribuído para impactos adversos sobre os direitos humanos, contribuíremos para sua reparação, conforme apropriado.”

Richard Meeran, da Leigh Day, um escritório de advocacia com sede no Reino Unido que atua em nome dos demandantes, disse que operar uma grande mina perto das comunidades era um risco claro: “Infelizmente, parece que o Anglo não conseguiu garantir que medidas suficientes estivessem em vigor.”

Zanele Mbuyisa, do escritório de advocacia Mbuyisa Moleele em Joanesburgo, que também está representando os demandantes, disse que um estudo dos anos 1970 mostrou níveis elevados de chumbo no sangue: “O mesmo envenenamento por chumbo que estava acontecendo naquela época continua acontecendo agora.”

Outro estudo científico, publicado em 2018 , concluiu que a cidade de Kabwe “pertence aos distritos mais contaminados de África” e que “o desenvolvimento de um programa de cuidados de saúde… é de extrema importância”. A ação legal visa a disponibilização de um programa de triagem, tratamento, limpeza da poluição e indenização aos envenenados.

“[A Anglo American] precisa fazer algo a respeito porque eles destruíram nossos corpos e as vidas de nossos filhos, bem como seus cérebros”, disse o pai de uma das crianças anônimas demandantes, em um vídeo gravado pelos escritórios de advocacia .

Os escritórios de advocacia apresentaram evidências de especialistas de toxicologistas clínicos e especialistas em mineração e meio ambiente. O caso está sendo financiado pela Augusta Ventures, o maior fundo de litígios do Reino Unido.

“A Anglo American relata que um processo legal foi aberto na África do Sul em relação ao suposto envenenamento por chumbo na Zâmbia”, disse um porta-voz da empresa. “Nenhuma reclamação desse tipo foi apresentada à Anglo American. Assim que a reclamação for recebida, a empresa analisará as reclamações feitas pela empresa e tomará todas as medidas necessárias para defender vigorosamente sua posição. ” Leigh Day disse que a empresa foi atendida.

“A título de contexto, a Anglo American foi um dos vários investidores na empresa que possuía a mina Kabwe até o início dos anos 1970”, disse o porta-voz. “A Anglo American esteve, no entanto, em todos os momentos, longe de ser a proprietária majoritária.”

O Guardian esteve em Kabwe em 2017 e encontrou pessoas coletando sucata de chumbo em pilhas de lixo gigantes, onde os níveis de chumbo no solo são extremamente altos. Uma jovem, Debola Kunda, estava sendo ajudada por seu filho de quatro anos. Ela estava preocupada com a saúde dos filhos, mas disse: “Como vamos comer se ficarmos em casa?

fecho

Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo “The Guardian” [Aqui!].

Larissa Bombardi e a comparação do uso de agrotóxicos entre Brasil e a União Europeia

larissa bombardi

Série de entrevistas com a professora Larissa Mies Bombardi esclarece a grave situação dos agrotóxicos no Brasil.

A professora da Universidade de São Paulo (USP) Larissa Mies Bombardi é hoje uma das principais experts na questão do uso de agrotóxicos, muitos deles banidos em outras partes do planeta, na agricultura brasileira. É dela a obra “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia” que compara a situação comparada entre o uso de agrotóxicos do Brasil e na União Europeia.

Abaixo posto o primeiro vídeo de uma série produzida pelo jornalista Bob Fernandes com a professora Larissa Bombardi sobre a crítica situação que está ocorrendo no Brasil em função do vício da agricultura brasileira, principalmente naquelas propriedades destinadas às monoculturas de exportação, por compostos altamente tóxicos.

Não nos enganemos, como bem diz a professora Larissa Miers Bombardi a situação causada pelos agrotóxicos no Brasil é gravíssima. E é preciso tratar a situação pelo que ela é em função dos graves danos ambientais e sociais que a dependência da agricultura brasileira em relação a essas substâncias altamente perigosas que hoje contaminam águas, solos e os alimentos que os brasileiros e as populações dos parceiros comerciais do Brasil consomem.

O mundo precisa de solo arável para cultivar 95% de seus alimentos – mas eles estão desaparecendo rapidamente

Sem esforços para reconstruir a saúde dos solos, poderemos perder a capacidade de cultivar alimentos nutritivos em quantidades suficientes para alimentar a população do planeta

topsoilO deserto de Sarigua, a oeste da Cidade do Panamá, Panamá, visto após o pasto do gado e a perda do solo superficial devido à erosão. Foto: Tomas Munita / AP

Por Susan Cosier para o “The Guardian”

O mundo cultiva 95% de seus alimentos na camada mais alta do solo, tornando o solo superficial um dos componentes mais importantes de nosso sistema alimentar. Mas, graças às práticas agrícolas convencionais, quase metade do solo mais produtivo desapareceu no mundo nos últimos 150 anos, ameaçando o rendimento das colheitas e contribuindo para a poluição de nutrientes, zonas mortas e erosão. Somente nos EUA, o solo nas terras cultiváveis está erodindo 10 vezes mais rápido do que pode ser reabastecido

Se continuarmos a degradar o solo no ritmo atual, o mundo poderá ficar sem terra em cerca de 60 anos, segundo Maria Helena Semedo, da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). Sem solo superficial, a capacidade da terra de filtrar a água, absorver carbono e alimentar as pessoas mergulha. Não só isso, mas a comida que cultivamos provavelmente será menor em nutrientes vitais.

A moderna combinação de cultivo intensivo, falta de culturas de cobertura, fertilizantes sintéticos e uso de pesticidas deixou as terras agrícolas sem os nutrientes, minerais e micróbios que sustentam a vida vegetal saudável. Mas alguns fazendeiros estão tentando reverter a tendência e salvar suas terras junto com seus meios de subsistência.

“Nós nunca queremos ver nosso solo a menos que procuremos por ele”, diz Keith Berns, um fazendeiro de Nebraska cuja terra não sofre a ação de arados há três décadas.

Ele e seu irmão, Brian, iniciaram a prática do plantio direto em sua fazenda de milho e soja de 850 hectares quando souberam que poderia aumentar o carbono, os nutrientes e a água disponível no solo. Sua fazenda está em uma área particularmente seca do país, e manter a umidade em suas terras é uma prioridade. Para cada aumento de 1% de carbono, um acre de terra pode conter mais 40.000 galões de água.

Uma vez que eles pararam de cultivar, a família de Berns viu a matéria orgânica no aumento do solo, o que pode ter o benefício adicional de tornar os alimentos cultivados no solo mais nutritivos.

A matéria orgânica, uma seção do solo que contém plantas ou tecidos animais em decomposição, serve como um reservatório de nutrientes que os micróbios podem banquetear enquanto fornecem nitrogênio para o cultivo de plantas e sequestram carbono. Quanto mais matéria orgânica, mais organismos o solo pode suportar.

“Se você estivesse segurando um punhado de terra nas mãos, teria mais organismos do que pessoas na Terra”, diz Rob Myers, cientista do solo da Universidade do Missouri. Com o aumento da matéria orgânica, os bernes cultivaram mais alimentos usando menos água e fertilizantes.

Na década de 1990, eles começaram a plantar culturas de cobertura entre as colheitas. O centeio e o trigo-sarraceno, entre outras culturas de cobertura, forneceram mais matéria orgânica ao solo, alimentando ainda mais microorganismos como bactérias e fungos. As culturas também mantiveram nitrogênio no solo e reduziram a erosão.

Em meio a crescentes preocupações com a perda de solo, o plantio direto e as culturas de cobertura estão se tornando mais populares, de acordo com o Censo Agrícola de 2017 dos EUA. Quarenta por cento das terras cultivadas nos EUA são cultivadas em plantios diretos, contra 32% em 2012.

Embora ainda não amplamente adotadas, as culturas de cobertura também estão se tornando mais populares entre os agricultores, particularmente no cinturão de milho do país. Em todo o país, os agricultores plantaram culturas de cobertura em 15 milhões de acres, um aumento de 50% em relação aos cinco anos anteriores.

Os irmãos Berns viram essa mudança em primeira mão. Quando decidiram plantar culturas de cobertura, tiveram dificuldade em encontrar sementes. Vendo um buraco no mercado, eles começaram sua própria empresa de sementes de cultura de cobertura em 2009, montando o que os agricultores agora chamam de coquetel de cobertura para semear no outono. Em seu primeiro ano, eles venderam sementes suficientes para cobrir 890 hectares. No ano passado, eles venderam o suficiente para cobrir  344 mil hectares.

O senso de urgência sobre o solo superficial está crescendo enquanto o planeta está projetado para atingir 9 bilhões de pessoas até 2050. Sem um sistema agrícola saudável, os agricultores não serão capazes de alimentar a crescente população mundial, diz Dave Montgomery, geólogo da Universidade de Washington e autor do livro “Crescendo uma revolução: trazendo nosso solo de volta à vida“.

Para ver o que pode acontecer com as civilizações que perderam o solo necessário para cultivar alimentos, não procure mais além da Síria ou da Líbia. Registros de impostos romanos mostram que essas áreas cresceram grandes quantidades de trigo, mas como os agricultores continuaram a arar seus campos, eles expuseram micróbios valiosos e o solo erodido. Hoje essas áreas mal têm solo para cultivar.

“Sociedades que perdem o solo superficial, seus descendentes pagam o preço”, diz Montgomery. “A natureza leva muito tempo para construir o solo”. Segundo algumas estimativas, pode levar 500 anos para o solo saudável se desenvolver e menos de um século para se degradar.

O mundo também está enfrentando uma crise na nutrição. Um estudo de 2004 publicado no Journal of American College of Nutrition comparou nutrientes de culturas cultivadas em 1950 com aqueles cultivados em 1999 e encontrou declínios nas proteínas, cálcio, fósforo, ferro, vitamina B2 e vitamina C.

A prática de cultivar uma ou duas culturas, como milho e soja, acelerou a degradação do solo, de acordo com Montgomery. A política do governo incentivou os agricultores dos EUA a se especializar, resultando em monoculturas que exigem uma quantidade crescente de água e fertilizantes e pesticidas.

Práticas, no entanto, estão mudando, dizem Montgomery e Myers. “Eu acho que você está vendo um grande movimento, mas está apenas começando”, diz Montgomery.

Melhorar a saúde do solo paga dividendos, mas o investimento na camada superficial do solo pode levar anos para mostrar resultados. Este é um desafio para os agricultores que operam com margens apertadas, de acordo com Montgomery, que diz que o governo poderia fazer mais para ajudar a incentivar as melhores práticas.

Berns sugere que os fazendeiros façam essas mudanças lentamente, empregando-os em um trecho da fazenda por vez. Nos estados do meio do Atlântico, como Maryland e Virgínia, os governos locais incentivaram os agricultores com subsídios para plantar culturas de cobertura, resultando em altas taxas de adoção nos últimos 20 anos.

As apostas são altas. Se os agricultores nos EUA e em todo o mundo não continuarem a valorizar mais o que nutre suas colheitas, poderemos estar diante de uma catástrofe inimaginável, segundo Myers: “Temos que ter esse solo superficial; é fundamental para nossa sobrevivência. ”

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Este artigo foi publicado originalmente em inglês pelo “The Guardian” [Aqui!].

Poluição de solos agrícolas: a China é o Brasil amanhã

China diz que 3 mi hectares estão poluídos demais para plantio

A Chinese farmer walks through his crop on the outskirts of Leshan, Sichuan

PEQUIM, 30 Dez (Reuters) – Cerca de 3,33 milhões de hectares de terras agrícolas da China estão poluídas demais para o plantio de alimentos, disse um oficial do governo nesta segunda-feira, destacando os riscos que enfrenta a agricultura do país após três décadas de rápido crescimento industrial.

A China tem estado sob pressão para melhorar o ambiente urbano, depois de uma série de incidentes envolvendo poluição,

Por outro lado, limpar áreas rurais poderia ser um desafio ainda maior, num momento em que o governo tenta reverter os danos causados por anos de expansão urbana e industrial e assegurar oferta de alimentos para uma população crescente.

O vice-ministro de terras e recursos, Wang Shiyuan, disse em uma conferência de imprensa que a China está determinada a corrigir o problema e já assegurou “dezenas de bilhões de iuanes” por ano para projetos pilotos que têm o objetivo de recuperar o solo e reservas subterrâneas de água.

A área contaminada na China é equivalente ao tamanho da Bélgica.

Wang disse que nenhum plantio será permitido nestas terras, com o governo determinado a prevenir metais tóxicos de entrar na cadeia alimentar.

(Reportagem de David Stanway)

FONTE: http://br.reuters.com/article/worldNews/idBRSPE9BT01Q20131230