2-4,D (Agente Laranja): o herbicida que tem feito agricultores gaúchos desistirem de produzir uva

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Por Felipe Prestes para o Sul 21

Há cerca de cinco anos um fenômeno incompreensível começou a ser notado pelos associados da Cooperativa Agrária São José, que produz vinhos na cidade de Jaguari, região centro-oeste do Estado. Em uma das mais antigas cooperativas gaúchas, fundada em 1932, nada parecido havia acontecido antes. “Começaram a enrugar as folhas dos parreirais, torcer e definhar a produção. Nossos técnicos analisavam e não encontravam doença nenhuma”, conta o presidente da entidade, João Minuzzi.

Embora já existissem suspeitas, só no ano passado é que se comprovou a causa do problema: análises mostraram que o culpado pela queda na produção da cooperativa era a presença do 2-4,D, um herbicida utilizado largamente nos últimos anos por sojicultores. O produto é usado no combate da buva, uma planta tida como “invasora”, que criou resistência ao glifosato.  

“Produzíamos cerca de 18 toneladas de uva e agora cinco, seis”, relata o presidente da cooperativa. A queda na produção tem trazido consequências bastante graves. “Eu comprei neste ano várias toneladas de uva. Não tenho mais matéria-prima para fazer o vinho”, conta. Se, em um futuro próximo, mais de 30% das uvas utilizadas na produção do vinho vierem de não-associados, esta operação pode deixar de ser considerada um ato cooperativo, implicando em uma série de mudanças para a São José, como, por exemplo, o aumento de tributos.  

Mas o problema não fica restrito à Cooperativa São José, muito pelo contrário: se estende por diversas regiões do Estado, como, por exemplo, a região da Campanha. “Faz uns três anos que a gente começou a sentir a pouca produção, mas não se sabia o motivo. Então alguns produtores mais experientes, e que também plantavam soja, perceberam a causa. A perda é gigante em praticamente todas as vinhas da região”, conta a presidente da Associação dos Produtores de Vinhos Finos da Campanha Gaúcha, Clori Peruzzo. 

“O 2,4-D é similar a um hormônio, envia mensagens para a planta, por isto quantidades muito pequenas já causam sintomas, causam uma desregulação”, relata o engenheiro agrônomo e chefe da Divisão de Agrotóxicos da FEPAM, Gianfranco Badin Aliti. “Nas plantas mais sensíveis mesmo que não leve à morte, causa queda de produção, de floração, na safra atual e nas seguintes”, explica. 

Por este efeito duradouro do 2-4,D muitos agricultores têm simplesmente desistido de trabalhar com uva. “O 2-4,D está erradicando os parreirais. Tu plantas e ele não vem mais, sobe uns 50 centímetros, bate o veneno e não cresce mais. Os associados estão largando e plantando fumo no lugar”, lamenta Minuzzi, da cooperativa de Jaguari. 

Na Campanha, a presidente da associação teme que isto também possa acontecer. “Muitas plantas morreram ao longo desses três anos. Então nós temos que replantar. Mas se não pararem de aplicar esse produto, nem vale a pena replantar”, diz Clori Peruzzo.

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Foto: Cooperativa Agrária São José

Prejuízos para diversas cadeias produtivas e para a saúde 

Entre setembro e dezembro do ano passado, a Secretaria Estadual de Agricultura coletou 61 amostras de videiras, em 21 municípios e encontrou 2-4,D em 56 amostras, em 18 municípios. Apesar de a maioria das amostras terem sido coletadas na Região da Campanha, o 2-4,D aparece nos parreirais de municípios de várias regiões do Estado, como São Borja, na Fronteira Oeste; Monte Alegre dos Campos, nos Campos de Cima da Serra; e Sobradinho, na Região Central do Estado. A Secretaria também detectou o 2-4,D em cinco amostras de oliveiras em Candiota e uma em Santana do Livramento. E também em duas amostras de cinamomo, e uma em milho, azevém, campo nativo, pasto e guabiju. 

Os problemas ocorrem devido à deriva, que é quando o agrotóxico aplicado em uma lavoura vai para fora da área de cultivo. A pulverização aérea costuma trazer maiores riscos de deriva, mas o 2-4,D costuma ser aplicado por tratores e mesmo assim tem gerado deriva. Pairam dúvidas sobre que distância o 2-4,D pode atingir. Fala-se em dois a três quilômetros, mas os vitivinicultores dizem ter sido atingidos por aplicações a até dez quilômetros de suas propriedades. 

O Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin) projeta prejuízos de R$ 94 milhões, com redução de 32% apenas na colheita atual da uva, sem considerar que os efeitos do 2-4,D vêm sendo notados há alguns anos.  “Nós projetamos de forma muito conservadora os prejuízos”, ressalta Helio Marchioro, conselheiro do Instituto. “Não consideramos custos intangíveis, como o custo de implantação, de parreirais que precisarão ser implantados novamente. Só consideramos o custo da safra e o valor agregado no vinho, com preços conservadores”. 

Mas a deriva do 2-4,D não coloca em perigo apenas atividades econômicas. “Se encontrou 2-4,D até em área urbana de Bagé e ninguém fala na questão da saúde humana, do meio ambiente que está sendo contaminado, dos trabalhadores rurais que aplicam, as crianças, gestantes, idosos todas as crianças que ficam expostas”, ressalta o coordenador do Fórum Gaúcho de Combate ao Impacto dos Agrotóxicos, Rodrigo Valdez de Oliveira. “O Brasil ano passado foi responsável por 20% do consumo mundial de agrotóxicos. Pena que essa situação só tomou relevo por conta do problema entre cadeias econômicas”, lamenta. 

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Foto: Cooperativa Agrária São José

Vitivinicultores cobram a suspensão do uso de 2-4,D 

O Ministério Público Estadual apura os danos causados pelo 2-4,D. Por meio da assessoria de imprensa, o MP informa que em meados de março o promotor responsável pela investigação, Alexandre Saltz, chamou “representantes dos diversos setores atingidos pelo agrotóxico para buscar uma avaliação sobre o impacto do mesmo na economia do estado, já que há indícios de que prejudica culturas de uva, oliva, maçã, produção de vinho, dentre outras”. A assessoria informa ainda que o promotor aguarda “documentações desses produtores e buscando reunir-se com os secretários de Estado da Agricultura, Saúde e Meio Ambiente para ver quais providências serão tomadas”. Por fim, esclarece que, “dependendo das respostas dos secretários, o MP não descarta o ajuizamento de ação para proibir a utilização do 2,4 -D no Estado”. 

Anteriormente, a promotora Anelise Grehs, coordenadora do Núcleo de Resolução de Conflitos Ambientais do Ministério Público Estadual, chamou as partes envolvidas para buscar uma solução conjunta, mas não houve acerto. O Governo do Estado também criou um Grupo de Trabalho para discutir a questão com todas partes envolvidas, mas a primeira reunião só foi ocorrer no último dia 17. E os vitivinicultores têm pressa, pois o preparo do plantio de soja e, portanto, a aplicação de 2-4,D, começa em junho. “No mais tardar final de maio temos que ter isto resolvido”, defende Clori Peruzzo.  

O impasse entre os produtores de uva e vinhos e os de soja parece residir na suspensão ou não do uso da substância. Os vitivinicultores com quem o Sul21 conversou são taxativos. “A gente não vê alternativa senão a suspensão pelo menos neste ano para a gente trabalhar mais tranquilo”, afirma Peruzzo. O conselheiro do Ibravin Helio Marchioro concorda: “Não tem outra saída”. 

Em 2017, a Prefeitura de Jaguari propôs e a Câmara de Vereadores aprovou a suspensão do uso de 2-4,D durante o período de 15 de setembro a 15 de março na área de vitivinicultura da cidade. Ainda assim, a utilização do princípio ativo em municípios próximos tem feito com que os parreirais de Jaguari sejam atingidos. “Tem que ter uma lei de nível estadual”, conclui João Minuzzi. 

Para o coordenador do Fórum Gaúcho de Combate ao Impacto dos Agrotóxicos, a solução também seria a suspensão do uso do 2-4,D. “Não há tempo para que o Estado regule esta matéria. O que eu acho que seria acertado seria uma suspensão do uso do 2-4,D para este ano até que sobrevenha uma legislação ou decreto estipulando uma série de medidas para minimizar esses problemas”, afirma. 

Porém, a tendência é que a suspensão não ocorra. A FEPAM, responsável pelo cadastro dos agrotóxicos no Estado, já descartou a hipótese. O órgão encaminhou a questão para a Comissão de Cadastro, que é formada por três integrantes técnicos da Secretaria de Saúde, três da Agricultura e três da FEPAM. “Para suspender tem que ter fundamentação e, neste caso, nós não vimos fundamentação. Eu levei para a Comissão e eles foram bem enfáticos de não haver restrição. Mas faço uma ressalva: isso não significa que ele não seja perigoso”, afirma o engenheiro agrônomo e chefe da Divisão de Agrotóxicos da FEPAM, Gianfranco Badin Aliti. 

O agrônomo ressalta que o produto é largamente utilizado na Europa e nos Estados Unidos e que o problema maior pode estar residindo na má aplicação. “Quanto maior a gota do produto, menos ela fica volátil, gotas pequenas podem atingir distâncias maiores. Isso depende da pressão do equipamento. Um equipamento bem regulado pode diminuir a deriva, embora não se possa garantir que não aconteça”, explica. 

Outro órgão que poderia suspender o uso do 2-4,D seria a Secretaria Estadual de Agricultura, mas o secretário Covatti Filho descarta esta medida. “A suspensão do 2,4-D, por si só, não resolve o problema, considerando que, em nossa visão, os prejuízos registrados em outras culturas foram decorrentes de aplicação incorreta do herbicida. Trocar um produto por outro não é garantia de solução para uma situação que teve como causa, conforme nossa análise preliminar, a aplicação incorreta. Em nosso entendimento, a resolução deste conflito passa por uma discussão profunda com diferentes cadeias produtivas”, afirma. 

“Se proibir o 2,4-D o problema vai se transferir para o glifosato ou para outro produto. É preciso um regramento que force as boas práticas de aplicação”, defende o presidente da Associação dos Produtores de Soja do Rio Grande do Sul (APROSOJA-RS), Luiz Fernando Fucks. Conforme o dirigente, a tecnologia de pulverização existente permite evitar a deriva. Segundo ele, foi feito um mau uso do 2-4,D, especialmente na região da Campanha, onde o vento é muito forte. “Naquela região de fronteira agrícola o pessoal não está muito consciente. Por isso que chegou a necessidade de um regramento”, diz, embora o problema esteja afetando também outras regiões do Estado. 

Fucks afirma que o controle de plantas invasoras, como a buva, é fundamental no plantio de soja. “A buva é muito difícil de controlar, se você não controlar de um ano para outro a população aumenta muito”. Ele explica que, sem o uso de agrotóxicos, seria necessário o revolvimento da terra, o que baixa muito a produtividade. 

O presidente da Cooperativa São José discorda da necessidade do uso de 2-4,D. Segundo ele, a utilização desta substância é uma questão meramente econômica. “Eu também planto soja e não uso o 2-4,D. Todos nós da cooperativa plantamos soja. Não é como estão falando, que não seria possível plantar sem o 2-4,D. Existem várias outras substâncias que podem ser utilizadas. Só sai um pouco mais caro. É pela relação custo-benefício”, afirma. João Minuzzi ressalta ainda que a buva já tem oferecido maior resistência ao 2-4,D, fazendo com que seja necessário utilizar um volume maior do agrotóxico, o que já minimiza mesmo a justificativa econômica  de seu uso. 

O conselheiro do Ibravin Helio Marchioro afirma que, apesar de a soja trazer divisas para o país, privilegiar o cultivo dela em detrimento de outras culturas não traz benefícios econômicos. “Nós queremos apoio de todos para que não haja uma valoração de uma cultura em detrimento de outras. A soja tirou do campo centenas de famílias e botou na cidade, gerando custos para os municípios, como, por exemplo, de saneamento. Mas a soja não agrega valor, os municípios arrecadam muito pouco com ela. E gera pouco emprego. No caso da uva, tem agregação de valor, tem o vinho, o rótulo, a garrafa. Tem mão-de-obra para colher, na indústria, nas vendas, no enoturismo, na hotelaria”, compara.

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Este artigo foi originalmente publicado pelo site Sul 21 [Aqui!]

Sul 21: Barragem da Samarco continua vazando e lama segue descendo o rio, diz presidente da CUT-MG

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Presidenta da CUT – MG, Beatriz Cerqueira, fala sobre a tragédia de Mariana. Foto: Guilherme Santos/Sul21

Beatriz Cerqueira: “É necessário que Minas e o Brasil rediscutam o modelo de mineração implantado no país e a serviço de quem ele opera”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Marco Weissheimer

O impacto do rompimento da barragem da Samarco em Bento Rodrigues, ocorrido no último dia 5 de novembro, no subdistrito do município de Mariana, é muito maior do que se consegue ver hoje e terá consequências devastadoras para a vida de muitas comunidades. O alerta é da professora Beatriz Cerqueira, presidente da Central Única dos Trabalhadores em Minas Gerais, que vem acompanhando o caso desde o início e participa de uma articulação de sindicatos, movimentos sociais e populares de Minas que luta para que os responsáveis paguem civil e criminalmente pelo ocorrido. Em entrevista ao Sul21, Beatriz Cerqueira, fala sobre essa mobilização e sobre a dimensão do impacto social e ambiental do rompimento da barragem, “que não foi um acidente”, faz questão de enfatizar, “mas sim um crime ambiental”.

“O crime ocorreu na época da piracema, quando os peixes se reproduzem. O impacto disso será devastador na vida das comunidades e dos pescadores. A lama destruiu muitas pastagens e áreas de agricultura familiar, que viviam da produção de leite. Os impactos são muito maiores do que aquilo que a gente consegue ver. Conseguimos ver os atingidos que perderam suas casas ou que perderam alguém de sua família. Mas os impactos são muito superiores”, diz a dirigente da CUT, que critica a chantagem econômica promovida pela mineradora sobre as comunidades da região atingida, bem como o acordo firmado pela empresa com a União, que não contou com a participação dos atingidos.

Sul21: Você poderia resumir os acontecimentos que se seguiram ao rompimento da barragem da Samarco? Qual a sua avaliação sobre as consequências trágicas do rompimento e seus possíveis desdobramentos?

Beatriz Cerqueira: A barragem de Fundão rompeu no dia 5 de novembro. Esse rompimento gerou a devastação imediata e completa de Bento Rodrigues, subdistrito de Mariana. Mas a lama também percorreu uma extensa área até chegar ao rio Doce, comprometer toda a bacia desse rio e, finalmente, chegar até o mar. Embora, nacionalmente, se conheça mais a situação do subdistrito de Bento Rodrigues, outros subdistritos e municípios também foram muito atingidos. É o caso, por exemplo, do município de Barra Longa, localizado a uma hora e meia de Mariana. Neste município, a lama invadiu o centro da cidade cobrindo as casas da região central quase até o teto. A força da lama foi tal que, ao passar pelo rio, ela voltou por cinco quilômetros contra a correnteza.

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“Não estamos falando de um acidente, mas sim de um crime e a luta da CUT e de todos os movimentos populares e sociais de Minas Gerais é para que os responsáveis paguem civilmente e criminalmente pelo que fizeram”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

O rompimento da barragem provocou o comprometimento de toda a bacia do rio Doce, a vida do rio e o abastecimento de água de diversos municípios da região. Diante desses acontecimentos, uma das primeiras coisas que precisa ficar clara é que não se tratou de um acidente. Estamos dizendo isso desde o dia 6 de novembro e o que nós avaliávamos foi comprovado pelo inquérito da Polícia Civil concluído na semana passada. Diferente do discurso da mineradora, esse inquérito conclui que não ocorreram impactos sísmicos que pudessem provocar o rompimento da barragem. O inquérito da Polícia Civil demonstrou que houve uma série de fatores causados pela negligência da empresa, que resultaram no rompimento. Entre esses fatores estão equipamentos com deficiência, assoreamento de partes da barragem e falta de manutenção em vários trechos da barragem. Então, não estamos falando de um acidente, mas sim de um crime e a luta da CUT e de todos os movimentos populares e sociais de Minas Gerais é para que os responsáveis paguem civilmente e criminalmente pelo que fizeram. O segundo aspecto que estamos discutindo agora é a situação dos atingidos pelo rompimento da barragem.

Sul21: Qual o número consolidado de vítimas, entre mortos e desaparecidos?

Beatriz Cerqueira: Entre mortos e desaparecidos, são 20 pessoas. Dezessete mortos, dois desaparecidos e nós estamos considerando uma vigésima vítima, que foi o feto de uma jovem grávida de quatro meses que, na luta para sair da lama que atingiu sua casa em Bento Rodrigues, sofreu um aborto. Quanto aos atingidos, são todos os moradores que vivem na região do percurso da lama. Na verdade, todo o estado de Minas Gerais foi atingido por esse crime da Samarco, Vale e BHP.

Nós temos lutado para que a empresa não controle nem tutele a relação com os atingidos. Não pode ser a empresa a definir, sozinha, o que é necessário para os atingidos e mesmo quem são os atingidos, mas é isso que a mineradora tem feito desde novembro de 2015. Ela define quem são os atingidos e tenta impor o que esses atingidos precisam como mecanismos de compensação. Os movimentos sociais e populares estão trabalhando para que os atingidos se organizem e não sejam tutelados pela mineradora. É uma luta muito desigual porque a Vale, a BHP e a Samarco colocaram toda a estrutura de seu poder econômico para fazer esse monitoramento e esse controle.

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De fato, o que nós identificamos é que atuação da mineradora ficou muito aquém das suas responsabilidades. Ela vem tentando diminuir as necessidades das pessoas atingidas. No município de Barra Longa, eu acompanhei a luta das mulheres para que sejam repostas questões básicas do cotidiano de suas casas, como, por exemplo, o funcionamento de máquinas de lavar. Houve o caso de uma senhora idosa que só teve a reposição de sua máquina de lavar após apresentar um laudo médico para a Samarco comprovando que ela não podia torcer a roupa com as mãos. Existem outros casos muito semelhantes envolvendo negativa de direitos.

Outro aspecto fundamental envolvido neste episódio é o do abuso do poder econômico. É necessário que Minas e o Brasil rediscutam o modelo de mineração implantado no país e a serviço de quem ele opera. Em 2014, a Samarco teve um lucro líquido de R$ 2,8 bilhões de reais. A sua produção é toda voltada para a exportação e grande parte de seu lucro não é revertido em benefícios sociais para a população, indo para os acionistas. Cabe assinalar ainda que as mineradoras exerceram até hoje um papel estratégico no financiamento de campanhas eleitorais. Os principais candidatos à presidência da República, os principais candidatos ao governo de Minas e um grande leque de candidatos a deputado estadual, a deputado federal e a vereador são financiados pelas mineradoras. Muitas pesquisas nas universidades também são financiadas por mineradoras. Além disso, temos as grandes campanhas publicitárias feitas nos meios de comunicação, comprometendo a cobertura jornalística feita por essas empresas.

Sul21: O que representa, hoje, o setor de mineração em Minas Gerais? Qual o tamanho, o perfil e a dinâmica dessa atividade?

Beatriz Cerqueira: O nosso problema é que Minas Gerais não cuidou da diversificação da sua economia. O minério de ferro é um dos principais produtos da pauta de exportação do Estado. Existe uma coisa assustadora, sobre a qual pouco se fala, que são os mineriodutos (quatro, no total), que fazem o transporte do minério da mina até o porto, para exportação. O que se gasta de água para esse transporte é superior ao consumo de grandes cidades da região metropolitana de Belo Horizonte, ou de cidades como Governador Valadares, que teve todo o seu consumo de água comprometido pelo rompimento da barragem. A negligência envolvendo a segurança, a utilização desse sistema de mineriodutos e de barragens de rejeitos são práticas para diminuir custos. O minério de ferro teve uma queda de preço no mercado internacional. Mesmo assim, as mineradoras mantiveram ou mesmo aumentaram seus lucros. Como isso é possível? Diminuindo custos, inclusive na área da segurança. O inquérito apontou que vários equipamentos não estavam funcionando.

Outra característica desse modelo é a prática intensa de terceirizações, inclusive de modo ilícito, razão pela qual a Samarco está sendo investigada pelo Ministério Público do Trabalho. Mais de 50% dos funcionários da Samarco são terceirizados. Dos trabalhadores que morreram, somente um era vinculado diretamente à empresa. Esses trabalhadores sequer tiveram por parte da empresa um aviso do iminente rompimento da barragem. Então, temos um conjunto de negligências operando para cortar custos e manter a lucratividade.

Sul21: Há muitas barragens desse tipo operando em Minas?

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Beatriz Cerqueira: No total, são mais de 400 barragens. O que nos preocupa é que o caso dessa barragem que rompeu expôs um esquema de favorecimento e de agilidade no processo de licenciamento. Foram pouco mais de dois meses para que houvesse o licenciamento para a operação da barragem, por decisão monocrática no secretário adjunto do Meio Ambiente à época. Estamos falando de licenciamentos em 2007, 2008 e 2013. Esse processo faz com que o Estado também seja responsável por esse tipo de crime, por omissão, negligência e favorecimento no processo de licenciamento das barragens. Isso que essa barragem que rompeu era considerada segura. Se olharmos os relatórios das barragens em Minas essa que rompeu não era considerada de risco, mas sim como segura.

Sul21: Como está sendo a atuação institucional neste caso? Os órgãos do governo, Ministério Público e Judiciário estão enfrentando o poder e a pressão econômica da Samarco?

Beatriz Cerqueira: O Ministério Público tem tido uma atuação muito forte e positiva junto aos atingidos. O que nos causou estranhamento e indignação foi o processo de acordo da empresa com a União sem a participação dos atingidos. Esse acordo, pela informação que temos, traz consigo a autorização para a retomada das atividades por parte da mineradora. O poder econômico das mineradoras tem atuado fortemente neste tema. Materializando esse poder, cabe esclarecer que a Samarco, hoje, tem como duas de suas principais controladoras a Vale e a BHP. Mas o consórcio que compõe a Vale tem o BNDES, o Bradesco e os fundos de pensão do Banco do Brasil e dos funcionários da Petrobras. Então, esses atores que estão silenciosos desde que o crime aconteceu também precisam ser cobrados, pois são controladores da Samarco. O que se percebe é que, publicamente, tenta-se jogar a responsabilidade só para a Samarco, omitindo o papel da BHP, da Vale e suas controladoras.

Sul21: Do ponto de vista da repercussão midiática do caso junto à opinião pública de Minas Gerais, o assunto já está desaparecendo das manchetes principais?

Beatriz Cerqueira: Esse é um de nossos desafios, não deixar que Mariana caia no esquecimento. Temos pautado permanentemente esse tema no movimento sindical. No dia 28 de abril, dia em memória às vítimas de acidentes de trabalho, teremos um ato nacional do movimento sindical, em Mariana, envolvendo várias centrais e o DIEESE. O dia 1º de maio, em Minas Gerais, terá um tribunal popular para discutir os crimes da mineração. É uma luta desigual, pois a empresa tem uma estratégia muito forte na disputa da opinião pública. Desde o ano passado, a Samarco tem promovido campanhas publicitárias dizendo que tem feito tudo o que é necessário, o que não é verdade. Na prática, os atingidos, os ribeirinhos, os pescadores do rio Doce não têm tido a assistência necessária na maioria dos municípios. Neste momento, a própria Samarco avalia que não tem mais que fornecer água, mesmo que a qualidade da água do rio Doce não esteja adequada para novas captações.

Sul21: Como está essa questão do abastecimento de água? Os municípios mais diretamente atingidos seguem captando água do Rio Doce?

Beatriz Cerqueira: O sistema está comprometido. Quem conseguiu, fez captação de outros rios. Mas quem depende diretamente do rio Doce, como Governador Valadares, tem enfrentado muitos problemas e voltou a captar. Há muita falta de transparência nas informações disponibilizadas para a população que, em função disso, está justificadamente desconfiada com a qualidade da água neste momento. É importante destacar ainda que a lama continua descendo. Minha última visita à região foi no dia 13 de fevereiro. Eu vi com os meus olhos que a lama continua descendo, chegando à bacia do rio Doce e chegando ao mar. A barragem continua vazando e a lama continua descendo pelos rios.

Sul21: Depois do rompimento, não houve a instalação de um sistema de contenção para interromper o vazamento?

Beatriz Cerqueira: Não, não houve. A lama continua descendo, mais de três meses depois do rompimento. Eu estive lá na semana que completou cem dias do rompimento. Publiquei um vídeo no meu Instagram que mostra isso (ver abaixo).

Sul21: Já há um diagnóstico inicial sobre o tamanho do impacto ambiental do rompimento?

Beatriz Cerqueira: Não. Esse é outro objeto de disputa que faz parte também do acordo da União com a Samarco. A União está assumindo a responsabilidade pelas questões ambientais. Mas existe um inquérito policial aberto para apurar as responsabilidades no processo de licenciamento e o crime ambiental. Além deste, temos o inquérito já concluído que pediu a prisão preventiva de sete acusados. É um cenário de disputa, onde a empresa tenta diminuir o tamanho do impacto. Temos relatos que a própria empresa contratou ribeirinhos, logo no início, que pudessem recolher os peixes mortos para que esse dano se tornasse o menos visível possível. É importante dizer que o crime ocorreu na época da piracema, quando os peixes se reproduzem. O impacto disso será devastador na vida das comunidades e dos pescadores. A lama destruiu muitas pastagens e áreas de agricultura familiar, que viviam da produção de leite.

Os impactos são muito maiores do que aquilo que a gente consegue ver. Conseguimos ver os atingidos que perderam suas casas ou que perderam alguém de sua família. Mas os impactos são muito superiores. O que eu acho mais perverso é a chantagem feita pela mineradora. Essas empresas criaram um sistema onde diversas comunidades passaram a viver em torno da mineração. Tome o exemplo de uma cidade linda como Mariana, numa região de turismo histórico, que apostou na mineração como sua maior fonte de renda. Acontece que, nas cidades que fizeram essa escolha, não se vê melhores indicadores de qualidade de vida, comparando com outras comunidades. Não há prestação de serviços públicos essenciais em áreas como saúde, educação e habitação de qualidade melhor do que em regiões que não têm mineração.

Como a economia destas cidades gira em torno das mineradoras, vende-se a ideia de que a paralisação das atividades da empresa vai trazer queda de arrecadação e desemprego. A chantagem econômica é muito forte e continua na região. Hoje, mesmo depois do que aconteceu, vemos manifestações em favor da empresa. Há movimentos nas redes sociais intitulados “Fica Samarco”, “Somos todos Samarco”.

Sul21: Alguém já foi preso em função do que aconteceu?

Beatriz Cerqueira: Não. Houve o pedido de prisão preventiva do presidente da empresa, que está licenciado e de diretores responsáveis pelo projeto, pela segurança, mas ninguém foi preso ainda.

FONTE: http://www.sul21.com.br/jornal/barragem-da-samarco-continua-vazando-e-lama-segue-descendo-o-rio-diz-presidente-da-cut-mg/