Pesquisa da UFSCar aponta que peixes invasores estão reconfigurando ecossistemas aquáticos globais

Estudo de pós-doutorado analisou comunidades de peixes em 402 lagos de regiões tropicais, subtropicais e temperadas

(Foto: Magnific)

Espécies invasoras estão alterando profundamente a estrutura de comunidades aquáticas ao redor do mundo, modificando a proporção entre peixes de diferentes tamanhos e reduzindo a biomassa de espécies nativas, sobretudo as menores e juvenis. É o que aponta um estudo desenvolvido na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), no âmbito de um pós-doutorado financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).  

A pesquisa analisou 667 comunidades de peixes em 402 lagos distribuídos por regiões tropicais, subtropicais e temperadas do mundo e identificou que os impactos das invasões biológicas variam conforme a temperatura dos ambientes e o nível trófico das espécies invasoras.

A base de dados foi construída a partir de levantamentos em estudos já existentes e do contato com especialistas e grupos de pesquisa nacionais e internacionais. Ao todo, foram compiladas informações sobre o tamanho e peso corporal de quase 637 mil peixes.

“A diferença entre o número de comunidades e o de lagos ocorre porque alguns lagos puderam ser amostrados em diferentes anos. Assim, cada amostragem representa uma comunidade distinta, ou seja, um retrato da estrutura da comunidade, com organismos nativos coexistindo com espécies invasoras em um momento específico. Essa dependência entre amostras do mesmo lago foi posteriormente considerada nas análises estatísticas”, contextualiza Barbbara da Silva Rocha, pesquisadora de pós-doutorado vinculada ao Departamento de Ciências Ambientais (DCAm) da UFSCar, sob supervisão de Victor Saito, docente do DCAm.

Segundo Rocha, para garantir comparabilidade entre os ecossistemas, foram selecionados apenas trabalhos que utilizaram métodos semelhantes de coleta. “Variáveis ambientais, como profundidade, área, temperatura e concentração de nutrientes no lago, também foram incorporadas às análises”, explica a pesquisadora.

O estudo identificou que comunidades submetidas a maior pressão de invasão apresentam uma estrutura de tamanho mais “plana”. Na prática, isso significa que a diferença entre a quantidade de peixes pequenos e grandes diminui. 

“Em ecossistemas saudáveis, normalmente há muitos peixes pequenos e poucos peixes grandes. O que observamos é que as espécies invasoras alteram esse padrão, aumentando proporcionalmente a abundância de peixes grandes ou reduzindo a de peixes nativos menores. Com isso, o número de indivíduos passa a diminuir de forma menos pronunciada à medida que o tamanho dos peixes aumenta, resultando em uma configuração mais ‘plana’ da estrutura de tamanho da comunidade”, detalha Rocha.

Ecologicamente, esse resultado é importante porque o tamanho corporal dos peixes está diretamente relacionado ao funcionamento desses ecossistemas. “Mudanças na distribuição dos tamanhos dos peixes na comunidade podem alterar a intensidade das relações tróficas, a transferência de energia no ambiente e, consequentemente, a estabilidade das comunidades aquáticas”.

A pesquisadora observou que todas as espécies invasoras avaliadas causam impactos negativos sobre as comunidades nativas, mas de maneiras distintas. “Em geral, as invasões tornam a estrutura de tamanho das comunidades mais ‘plana’ e reduzem a biomassa das espécies nativas. No entanto, a intensidade desses efeitos varia conforme o tipo de invasor e a temperatura do ambiente”, relata.

Nos lagos mais quentes, o impacto dos peixes predadores (piscívoros) sobre a estrutura das comunidades foi mais intenso. Já em ambientes frios e menos produtivos, invasores de níveis mais baixos da cadeia alimentar – como herbívoros (que se alimentam de plantas aquáticas), onívoros (que se alimentam principalmente de ambos plantas e pequenos invertebrados) e detritívoros (que consomem matéria orgânica em decomposição) – provocaram reduções mais severas na biomassa das espécies nativas, principalmente por competirem pelos recursos disponíveis.

Segundo Rocha, o aumento da temperatura acelera o metabolismo dos peixes predadores invasores, elevando sua necessidade de alimento e intensificando a pressão sobre as espécies nativas menores. “Como os pequenos peixes nativos são alvos mais abundantes e fáceis de capturar, a pressão de predação se concentra desproporcionalmente sobre eles”, descreve.

Nos ambientes mais frios, por outro lado, o problema parece estar menos relacionado à predação e mais à competição. Como a disponibilidade de recursos na base da cadeia alimentar tende a ser menor, espécies invasoras herbívoras, onívoras e detritívoras conseguem superar os peixes nativos na disputa por alimento, reduzindo significativamente sua biomassa. 

Esse conjunto de impactos afeta principalmente os peixes menores e os indivíduos juvenis das espécies nativas, criando o que os pesquisadores descrevem como uma possível “zona de exclusão ecológica” para essas classes de tamanho. Segundo Rocha, o processo pode interromper a renovação natural das populações ao impedir que indivíduos jovens alcancem a fase reprodutiva, além de ameaçar espécies endêmicas. 

“A perda desses peixes menores pode afetar diretamente a qualidade da água, além de comprometer estoques pesqueiros importantes para a alimentação e subsistência humana”, aponta a pesquisadora.

Para os autores, os dados reforçam a necessidade de estratégias de conservação e manejo que considerem simultaneamente o contexto climático e o papel ecológico das espécies invasoras. 

“Os resultados mostram que estratégias de monitoramento e controle precisam levar em conta tanto as características do ambiente quanto o tipo de invasor presente. Compreender essa interação permite direcionar esforços de conservação de forma mais eficiente e antecipar riscos à biodiversidade antes que os impactos se tornem irreversíveis”, finaliza Rocha. 

O estudo deu origem ao artigo intitulado “Invasive fishes interact with temperature to reshape community size structure across climatic zones“, publicado na revista Global Change Biology, em colaboração com pesquisadores de instituições do Brasil, Espanha, Canadá, Reino Unido e França. O acesso pode ser feito em https://onlinelibrary.wiley.com/doi/pdf/10.1111/gcb.70884, onde também estão disponíveis informações completas sobre os demais autores.

Pesquisa da UFSCar registra resistência inédita ao glifosato em plantas invasoras

Estudo identifica pela primeira vez resistência ao herbicida em Solanum americanum, espécie comum em áreas agrícolas

Pesquisa da UFSCar registra resistência inédita ao glifosato em plantas invasoras -

Por Jéssica para “São Carlos Agora” 

Pesquisadores do Laboratório de Produtos Naturais (LPN) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) identificaram diferentes espécies de plantas invasoras, agronomicamente conhecidas como “plantas daninhas”, com capacidade de resistir à ação do herbicida glifosato. Entre elas está Solanum americanum, cuja resistência foi registrada pela primeira vez para a espécie, tanto no Brasil quanto no cenário internacional.

A investigação teve início durante o doutorado de Gabriel da Silva Amaral, no Programa de Pós-Graduação em Química (PPGQ) da UFSCar, sob a orientação de Maria Fátima Fernandes da Silva, docente no Departamento de Química (DQ) da Instituição, a partir de relatos de produtores rurais que observavam falhas recorrentes no controle de plantas invasoras. Com base nessas observações, os pesquisadores coletaram sementes de espécies que haviam sobrevivido à última aplicação do herbicida (dose de campo) em pomares de laranja-doce e limão-taiti. O material foi então submetido a testes laboratoriais para avaliar a resposta das plantas ao herbicida.

Como surge a resistência

O glifosato é o herbicida mais utilizado no país e um dos mais empregados no mundo. Ainda assim, algumas populações de plantas invasoras vêm apresentando redução na sensibilidade ao produto, devido ao uso indiscriminado deste. Essa resistência não ocorre de forma imediata, é resultado de um processo evolutivo gradual.

Quando um herbicida é usado repetidamente, ele não afeta todas as plantas da mesma forma. Algumas já possuem pequenas diferenças genéticas que as tornam menos sensíveis ao produto. Com o tempo, essas plantas sobrevivem às aplicações e se multiplicam, fazendo com que a população passe a responder cada vez menos a ação do herbicida. Esses indivíduos sobrevivem, se reproduzem e transmitem essas características às gerações seguintes. Com o tempo, esses traços passam a predominar, formando populações resistentes.

Testes confirmam a resistência

Segundo Amaral, o estudo trouxe uma constatação inédita. “Elucidamos que Solanum americanum apresenta resistência ao glifosato. É o primeiro registro desse tipo de resistência para a espécie no Brasil e no mundo. A descoberta amplia o conjunto de plantas invasoras que passam a representar desafio para a citricultura, especialmente em sistemas com uso contínuo do herbicida”, afirma. 

Os testes indicaram que algumas espécies, como Amaranthus deflexus, Amaranthus hybridus e Tridax procumbens, permaneceram sensíveis ao produto. Já Bidens pilosa apresentou comportamento distinto: embora a maioria das populações tenha respondido ao glifosato, amostras coletadas na região de Olímpia exibiram sinais de resistência, com redução significativa na mortalidade das plantas tratadas com glifosato.

Outras espécies já reconhecidas por dificultar o manejo agrícola, como Conyza bonariensis, Digitaria insularis e Chloris elata, apresentaram resistência. Em alguns casos, nem mesmo doses elevadas do herbicida foram suficientes para garantir o controle.

Para confirmar que as plantas eram realmente resistentes, e não apenas sobreviventes ocasionais, os pesquisadores realizaram teste bioquímico que avalia o funcionamento da via metabólica alvo do glifosato. O herbicida atua bloqueando a chamada via do chiquimato, responsável pela produção de aminoácidos essenciais ao desenvolvimento da planta. Quando essa via é interrompida, a planta deixa de sintetizar compostos indispensáveis para seu crescimento e sobrevivência. Como consequência desse bloqueio, o ácido chiquímico, uma molécula intermediária da via, passa a se acumular.

Em plantas sensíveis ao herbicida, esse acúmulo é elevado, sinalizando que o metabolismo foi efetivamente interrompido. Já nas populações analisadas como resistentes, os níveis de ácido chiquímico foram significativamente menores. Isso indica que o glifosato não conseguiu bloquear completamente a via metabólica. Ao demonstrar que a via permanece ativa nas plantas resistentes, o estudo confirma que não se trata de uma sobrevivência casual, mas de uma alteração fisiológica consistente que reduz a eficácia do herbicida.

Além do impacto direto no controle das plantas invasoras, o uso contínuo do herbicida pode afetar outros componentes do sistema produtivo. “O glifosato não atua apenas sobre as plantas indesejadas. Ele também pode interferir em bactérias e fungos do solo que desempenham papel importante na saúde da lavoura. Aplicações frequentes ou em doses elevadas podem reduzir esses microrganismos benéficos e comprometer a ciclagem de nutrientes”, explica Amaral.

A ocorrência simultânea de múltiplas espécies resistentes em um mesmo pomar é uma problemática constante. Nas áreas analisadas, que envolvem os municípios de Araras, Cordeirópolis, Mogi-Mirim e Olímpia, os cientistas identificaram a convivência de duas, três ou até cinco espécies resistentes lado a lado. Essa sobreposição torna o manejo mais complexo, uma vez que estratégias eficazes para uma espécie podem não funcionar para outra, elevando custos e limitando as alternativas disponíveis aos produtores.

A identificação dessas populações resistentes é fundamental para compreender como o uso contínuo de herbicidas pode alterar o equilíbrio no campo. É necessário orientar estratégias de manejo mais diversificadas e sustentáveis, reduzindo a dependência de uma única ferramenta de controle.

A pesquisa foi desenvolvida frente ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) Controle Biorracional de Insetos Pragas e Fitopatógenos (CBIP), sob coordenação de Maria Fátima Fernandes da Silva, docente no DQ. Os resultados foram publicados e podem ser conferidos no site da revista AgriEngineering.

O projeto recebeu apoio financeiro da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp, processos 14/50918-7 e 2012/25299-6).


Fonte: São Carlos Agora

Pesquisa da UFSCar avalia impactos da diabetes em membros superiores e inferiores

Estudo busca participação de voluntários para investigar sensibilidade, força e função dos braços e pernas

(Imagem: Freepik)

Uma pesquisa de Iniciação Científica do curso de Fisioterapia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) está convidando pessoas com diagnóstico de diabetes mellitus tipo 1 ou tipo 2, com idades entre 18 e 65 anos, para responder a um questionário online que investiga os efeitos da doença nos membros superiores e inferiores. A participação é voluntária, anônima e pode ser feita de qualquer lugar do Brasil.

O estudo, intitulado “Avaliação sensorial, motora e da função dos membros superiores e inferiores em indivíduos com Diabetes Mellitus”, é conduzido pela estudante de graduação Daniel Oishi Mariano, sob orientação da professora Paula Rezende Camargo, do Departamento de Fisioterapia (DFisio). A pesquisa tem como objetivo compreender de que forma o diabetes afeta aspectos como sensibilidade, força e função de braços e pernas, e como esses fatores se relacionam entre si.

“A diabetes mellitus é uma doença crônica e progressiva, com índices epidêmicos em todo o mundo. Estima-se que afete 537 milhões de pessoas globalmente, sendo o Brasil o sexto país com maior número de casos”, contextualiza Mariano. Segundo ele, a literatura científica já sugere uma possível relação entre a doença e disfunções musculoesqueléticas, especialmente no ombro, o que pode comprometer atividades diárias.

A expectativa do estudo é reunir dados que contribuam para avaliações clínicas mais completas. “Com informações suficientes, será possível alertar os profissionais da saúde para que atentem também para as condições musculoesqueléticas e sintomas nos membros superiores em pacientes com diabetes”, afirma o pesquisador. “Além disso, os resultados poderão auxiliar na construção de tratamentos mais específicos para essas alterações.”

A participação consiste apenas em um questionário online, sem necessidade de comparecimento presencial, e leva cerca de 20 minutos para ser respondido. Ao final do preenchimento, os participantes recebem uma cartilha com orientações sobre cuidados com sintomas da diabetes e possíveis complicações associadas à doença.

Interessados podem acessar o questionário no link https://forms.gle/bApFpyiGzf3e3Vta9. O prazo para participação vai até o final de agosto. Mais informações podem ser obtidas pelo WhatsApp (16) 99186-1145. Projeto aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UFSCar (CAAE: 84185024.6.0000.5504).

(Imagem: Divulgação)

Pesquisa da UFSCar avança na busca de novos compostos com propriedades anticancerígenas 

Compostos testados em laboratório ampliam perspectivas para terapias contra o câncer, mais eficientes e com menos efeitos colaterais 

Compostos de platina estão entre os fármacos mais utilizados na quimioterapia em todo o mundo. No entanto, é grande a busca por alternativas, menos tóxicas, mais seletivas (ou seja, danosas às células tumorais, mas com menos efeitos sobre células saudáveis) e, também, porque pacientes podem desenvolver resistência a esses compostos durante o tratamento. 

Pesquisas realizadas no Departamento de Química (DQ) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) tem mostrado resultados promissores com um conjunto de compostos do tipo Rutênio(II)-fosfina (complexos metálicos de rutênio coordenados a ligantes contendo átomos de fósforo). Em trabalho conduzido pelo Dr. Marcos Vinícius Palmeira de Mello, em estágio de pós-doutorado no Laboratório de Estrutura e Reatividade de Compostos Inorgânicos (LERCI) no DQ, foram sintetizados e caracterizados diferentes compostos, testados quanto às suas estabilidades químicas e avaliados em relação à citotoxicidade em diversas linhagens celulares, inclusive de câncer de pulmão (A549). 

Dois destes compostos apresentaram resultados positivos na eliminação de células cancerígenas, mostrando-se bem mais potentes que a cisplatina, um medicamento amplamente utilizado na quimioterapia. Além de serem citotóxicos, eles também dificultaram sua proliferação e migração, o que é importante para evitar a disseminação das células doentes. Estudos revelaram que esses compostos afetam principalmente as mitocôndrias — estruturas celulares responsáveis pela respiração celular e produção de energia — provocando a perda do potencial da membrana mitocondrial e alterando drasticamente o consumo de oxigênio celular, o que compromete a produção de energia e pode levar as células ao colapso”, conta Palmeira. 

Esses resultados indicam que os compostos de rutênio podem se tornar uma alternativa promissora para tratamentos mais eficazes e com menos efeitos adversos do que as terapias atuais. No entanto, é importante destacar que esses estudos ainda estão em fase inicial e foram conduzidos apenas em células cultivadas em laboratório (in vitro). 

Um aspecto interessante do estudo foi a observação de que, embora os compostos tenham se acumulado no núcleo celular, não houve evidências de uma ligação covalente (forte) com o DNA. Isso sugere justamente que sua principal ação está relacionada à disfunção mitocondrial, em vez de causar danos diretos ao material genético. 

Dentre as limitações do estudo, Palmeira destaca que estes compostos interagem também com células saudáveis, embora tenham seletividade semelhante ao do fármaco cisplatina. Apesar desse desafio, o grupo de pesquisa tem avançado no desenvolvimento de novos delineamentos experimentais para melhorar a especificidade desses compostos, visando uma seletividade mais promissora. 

O estudo, realizado no grupo liderado pelo professor Alzir Azevedo Batista, do DQ/UFSCAR, em parceria com o grupo de pesquisa do professor Gilles Gasser, da Chimie ParisTech, PSL Université, na França, foi publicado no periódico ChemBioChem, e pode ser conferido [Aqui!]. O estudo foi financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP, processos 2021/01787-0 e 2022/09971-8). 


Fonte:  Instituto da Cultura Científica da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)

Pesquisa indica relevância de monitorar qualidade da água com precisão

Estudo usou técnica inovadora no Brasil para identificação de bactérias em caixas d’água residenciais

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Empresas de saneamento podem usar nova técnica para monitorar a qualidade da água (Foto: Freepik)

A presença de bactérias na água usada para consumo humano em geral não é um problema, já que é mais comum que elas não causem malefícios à saúde humana. No entanto, essa situação pode se inverter dependendo do tipo e da quantidade dessas bactérias, que não são detectadas pelos métodos comumente usados no Brasil para monitoramento de qualidade da água no processo de tratamento, distribuição e armazenamento. Estudo realizado em município no interior do estado de São Paulo, usando a técnica de citometria de fluxo, mais sensível que aquelas usadas tradicionalmente para essa função, identificou a presença de bactérias em caixas d’água residenciais, em um conjunto de 36 amostras coletadas em pontos distintos da cidade. O resultado, publicado recentemente, aponta que a aplicação da técnica pode ser ferramenta muito útil no monitoramento do crescimento bacteriano após as estações de tratamento, permitindo averiguar possíveis contaminações.

A pesquisa foi desenvolvida por Leandro Manoel Afonso Mendes, estudante de Medicina da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), com orientação de Hugo Sarmento, docente no Departamento de Hidrobiologia. “A qualidade da água é o fator individual mais importante para garantir a saúde pública, e as estações de tratamento têm o compromisso de fornecer um suprimento seguro de água potável para a população, garantindo a ausência e limitando o crescimento de qualquer microrganismo que possa causar alguma doença”, situa Sarmento. No entanto, o docente explica que é comum as bactérias aparecerem durante os processos de tratamento e distribuição da água. “A presença dessas bactérias, na maioria das vezes, não causa malefícios à saúde humana, mas é preciso um controle rigoroso para garantir a qualidade da água fornecida”, avalia Sarmento, que coordena o Laboratório de Biodiversidade e Processos Microbianos (LMPB), onde as amostras foram analisadas.

Normalmente, a contagem dos microrganismos é feita por técnica que utiliza placas de cultivo como um parâmetro geral de qualidade microbiana da água potável. Sarmento indica que diversos estudos demonstraram a presença de microrganismos na água potável ou em biofilmes utilizando técnicas mais sensíveis como a citometria de fluxo, que ainda não é utilizada no Brasil com esta função. “Este método é utilizado para enumeração direta das concentrações totais de células na água, utilizando marcadores de ácidos nucléicos fluorescentes e detecção de características específicas de cada célula. Existem na literatura relatos de detecção de microrganismos, alguns patógenos, em água de distribuição, reforçando a importância de tais achados para a saúde coletiva”, destaca o docente da UFSCar. Ele reforça, também, que esses estudos estão concentrados em países onde não existem caixas d’água residenciais no circuito de distribuição, um elemento que pode deteriorar a qualidade da água armazenada. “No hemisfério Norte, as pessoas não têm caixas d’água individuais. São grandes reservatórios por bairro, controlados por empresas”, relata.

Resultados

Os pesquisadores apontam que foi constatada a presença de bactérias no interior dos reservatórios analisados e nas entradas das caixas d’água, em concentrações condizentes com os resultados de estudos realizados em outros países. “Observamos uma forte correlação entre as concentrações de bactérias na água entregue pela empresa pública de saneamento e na água das caixas d’água, com maiores concentrações de bactérias nestas últimas, em geral”, registram. Outra análise buscou relacionar a presença das bactérias à higienização dos reservatórios, cujo intervalo variou entre períodos de três meses a 20 anos. Os resultados indicam que se a água já chegar aos reservatórios com as bactérias, a limpeza das caixas d’água não fará diferença. “No entanto, é primordial que seja feita a limpeza periódica dos reservatórios”, ressalvam.

“Nossos resultados mostram que empresas de saneamento deveriam buscar meios de implementação da citometria de fluxo como ferramenta conjunta de monitoramento do processo de tratamento, distribuição e armazenamento de água potável, principalmente para detecção e quantificação esporádica de bactérias, tal como já se faz atualmente em outros países”, conclui Hugo Sarmento. O professor conta que a citometria de fluxo já é usada em países como a Suíça, por exemplo, de forma ágil, permitindo detecção precoce de bactérias e tomada de providências em caso de necessidade.

A pesquisa teve apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O artigo sobre o estudo foi publicado recentemente e pode ser acessado neste link (https://www.aprh.pt/rh/v43n2_cti-4.html).

Brasil sedia encontro anual de projeto internacional voltado a pesquisas no Oceano Atlântico

Evento será sediado pela Universidade Federal de Santa Catarina, com apoio da UFSCar

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Veleiro Tara durante pesquisa do AtlantECO na Amazônia (Julia Nedelec -Tara Foundation)

Entre os dias 3 e 10 de outubro, o Brasil será sede do Encontro Anual do AtlantECO – projeto de pesquisa científica financiado pelo Programa Horizon 2020 (H2020) da União Europeia. O evento é organizado pela instituição anfitriã, Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), e conta com o apoio de pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). A atividade vai reunir pesquisadores que integram o AtlantECO em todo o mundo, incluindo a União Europeia, África e Brasil. 

A programação do evento consta de reuniões, sessão de pôsteres, atualizações sobre temáticas transversais do projeto, sessões plenárias sobre o progresso do AtlantECO e ações ainda a serem realizadas. Também haverá atividade conjunta com o projeto Mission Atlantic, incluindo discussões científicas sobre o que já foi efetuado. Além disso, serão realizadas visitas locais a aquicultores e pescadores e momentos para vivência social entre os participantes. A atividade é voltada aos pesquisadores do projeto e a convidados para programação específica, não sendo aberta ao público geral.

A última edição do Encontro Anual foi realizada em 2022, na Cidade do Cabo, na África do Sul, e foi importante para a equipe de pesquisadores do projeto discutir avanços do AtlantECO. “Como são três continentes diretamente envolvidos no projeto – Europa, América e África -, essa rotatividade na realização do encontro anual é importante para assegurar que todos os participantes se sintam abraçados pelo projeto, atuando de forma igualitária em seu desenvolvimento e execução”, aponta Andrea Green Koettker, pós-doutoranda da UFSC e integrante do AtlantECO.

Ela acrescenta que, por se tratar de um projeto interdisciplinar e colaborativo, os encontros presenciais são fundamentais para que a equipe do AtlantECO tenha um maior entrosamento e possa discutir de forma mais eficaz os principais resultados obtidos e os próximos passos a serem desenvolvidos no projeto como um todo.

Pesquisadores da UFSCar participam na organização do evento, diretamente na coordenação das atividades dos jovens pesquisadores. Integrantes do Laboratório de Biodiversidade e Processos Microbianos (LMPB) da UFSCar vão apresentar os seus trabalhos e participar das discussões científicas. Ainda dentro da programação, também será apresentado o primeiro episódio da série de animação “Max e sua turma em: Descobrindo o mar”, produzida pela parceria entre a equipe do AtlantECO vinculada à UFSCar e o Instituto da Cultura Científica (ICC) da Universidade. A série é direcionada ao público infantil e apresentará informações sobre os serviços ecossistêmicos que o mar oferece, o excesso de resíduos plásticos no oceano e a importância desse bioma para a temperatura do Planeta. O primeiro episódio, “O mar que a gente respira”, vai apresentar alguns microrganismos que vivem no oceano – fitoplâncton e zooplâncton – e ações como fotossíntese e captura de carbono que eles realizam, contribuindo muito para o meio ambiente. Além dos personagens do fundo do mar, a série traz sempre um bate-papo com pesquisadores que abordam conceitos e explicações de forma acessível para as crianças espectadoras. Serão três episódios que ficarão disponíveis na Internet, para acesso gratuito, e poderão servir como material de apoio para professores e escolas trabalharem as temáticas com crianças do Ensino Fundamental.

AtlantECO

Financiado pela União Europeia, este projeto de pesquisa internacional tem como objetivo analisar as regiões marinhas e a conexão entre seus ecossistemas ao longo do Oceano Atlântico – na extensão Norte-Sul e nos limites continentais, entre as costas brasileira e africana. A partir disso, a expectativa é gerar dados para desenvolver modelos que levem em consideração os processos dinâmicos do ambiente marinho. Além de cenários climáticos futuros, esses modelos ajudarão a prever a migração de espécies, a capacidade do oceano de capturar e armazenar o gás carbônico atmosférico, o transporte e riscos de poluentes, como plásticos e nutrientes, e o equilíbrio entre a saúde do ecossistema e as atividades humanas.

O Projeto é desenvolvido em parceria com 13 países, sendo 11 da União Europeia, Brasil e África do Sul. Dentre as instituições brasileiras que atuam no projeto estão a UFSC, UFSCar, Universidade de São Paulo (USP), diferentes instituições de Pernambuco e as universidades federais da Bahia (UFBA) e do Rio Grande (FURG).

Os grandes pilares de pesquisa e divulgação científica do AtlantECO são microbioma, microplásticos e plastisfera, circulação oceânica e suas interações. Há uma lacuna de conhecimento sobre como essas questões afetam a biodiversidade, os ecossistemas, a sensibilidade às mudanças climáticas e o potencial de uma exploração social e econômica sustentável dos recursos naturais do Atlântico. Por meio das pesquisas realizadas nas águas em diferentes partes do mundo, o projeto vai levantar dados que poderão auxiliar novos estudos e estratégias de conservação e preservação do microbioma marinho.

De maneira global, os trabalhos de campo para a coleta de amostras estão sendo realizados a bordo de seis embarcações nacionais e internacionais projetadas para expedições científicas oceanográficas. No Atlântico Sul, o Veleiro ECO, da UFSC, e o Veleiro Tara, da Fundação Tara Ocean, já fizeram coletas ao longo das costas brasileira e africana. Neste ano, novas expedições serão feitas pelos rios São Francisco e Buranhém. Além da pesquisa, o projeto prevê vários eventos voltados para a conscientização ambiental, ciência cidadã, promoção da Cultura Oceânica e, no caso do Brasil, a importância da Amazônia Azul. Mais informações podem ser acessadas no Instagram do projeto (@eu.atlanteco).

Invento permite estudos precisos, em abelhas eussociais primitivas e solitárias, sobre agentes tóxicos e comportamento

Dispositivo, desenvolvido por cientistas da UFSCar, é reutilizável e evita estresse em indivíduos, além de diminuir problemas metodológicos de pesquisa

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Espécime da abelha Bombus, estudada pelos cientistas (Foto: Arquivo)

Abelhas briguentas ou, no mínimo, não muito sociáveis. Foi esta a dificuldade que levou cientistas do Laboratório de Biologia Estrutural e Funcional (LABEF) do Campus Sorocaba da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) a desenvolver um equipamento para estudar os efeitos de agentes tóxicos sobre abelhas eussociais primitivas e solitárias, que representam 85% das espécies de abelhas existentes no mundo.

Abelhas eussociais primitivas vivem em colônias menores, se comparadas às sociais, e as solitárias que, como o nome indica, não vivem em colmeias, com outras abelhas, mas constroem seus próprios ninhos. “Muito se fala sobre a importância das abelhas sociais, de colônia, mas as abelhas eussociais primitivas e as solitárias desempenham um papel fundamental no ecossistema, pois são polinizadoras de plantas nativas brasileiras, além de ajudarem no produção de frutos maiores e mais saudáveis, fornecendo alimentos a outros animais”, explica Guilherme Boeing, que realiza mestrado sobre o tema no Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia e Monitoramento Ambiental (PPGBMA-So) da UFSCar, sob orientação de Fábio Abdalla, docente no Departamento de Biologia (DBio-So) do Campus Sorocaba.

Boeing destaca, assim, que o estudo e a conservação dessas abelhas são essenciais para a biodiversidade, e situa, neste contexto, a importância da invenção resultante da sua investigação. “Em nossas pesquisas, realizamos testes ecotoxicológicos, que consistem em avaliar os efeitos de agentes tóxicos nestas abelhas, além de análises de comportamentos. Porém, não existia um recipiente padrão adequado para estudos destes tipos de abelhas”, conta.

A partir desta demanda, os cientistas criaram o objeto com foco no bem-estar das abelhas e, ao mesmo tempo, na possibilidade de maiores padronização e controle de dados nas pesquisas. A invenção resultou em solicitação de patente junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), com o apoio da Agência de Inovação (AIn) da Universidade, e tem, como diferencial, justamente o fato de ser utilizada especificamente para estudos de abelhas eussociais primitivas e solitárias, uma vez que, para abelhas sociais, já existem objetos adequados.

A caixa é feita de material bastante comum, com aberturas cobertas por acetato em cor. É reutilizável, e seu alimentador pode ser introduzido de maneira segura e prática, sem a necessidade de abrir e fechar a caixa a todo instante. Como essas abelhas costumam ser territorialistas, é preciso inserir um indivíduo por caixa – seguindo, inclusive, o padrão internacional recomendado para testes.

“As características das abelhas eussociais e solitárias são muito diferentes das sociais. O acetato em cor, por exemplo, deixa o ambiente escuro e causa menos estresse – por serem encontrados em ambientes subterrâneos, esses indivíduos preferem regiões mais escuras. E, com o alimentador na lateral, é possível retirá-lo, limpá-lo e inseri-lo novamente, sem invadir o espaço”, detalha Boeing.

Todas essas peculiaridades possibilitam estudos mais detalhados e menos invasivos, diminuindo, também, a probabilidade de erros em dados e de problemas metodológicos de pesquisa.

“Testamos o invento em minha pesquisa de iniciação científica e em dissertações de mestrado do LABEF e não detectamos óbitos na caixa, um diferencial perante outros objetos utilizados anteriormente, onde comumente havia mortes por estresse ambiental. Além disso, nossos ensaios conseguiram ser mais efetivos, com dados consistentes. Com o objeto dosador, conseguimos medir, por exemplo, a quantidade exata de alimento e de água consumidos por dia. Antes, não havia esse controle. Assim, foi possível estabelecer padrões mais claros de pesquisa, enriquecendo-a”, registra o pesquisador da UFSCar.

Por meio de ensaios toxicológicos, que expõem o indivíduo a algum tipo de substância química natural ou artificial, também foi possível analisar os efeitos em seu organismo de forma mais detalhada. “Avaliamos desgaste de asa e mudanças de comportamentos (se a abelha está muito parada, agitada etc.), além de realizarmos análises histológicas de tecidos, que trazem informações importantes sobre as células que os compõem e o seu nível de degradação. Com base em todas essas informações, dá para saber se, de fato, o agente faz mal para o indivíduo, e em quais proporções”, compartilha.

Após testes em escalas laboratoriais, os pesquisadores chegaram em um modelo de caixa leve, de fácil transporte e baixo custo (entre R$ 25 e R$ 30 a unidade). Agora, a ideia é que a invenção chegue a outros cientistas interessados em melhorar suas avaliações de pesquisas com estes tipos de abelhas. Também pode ser útil para empresas que queiram fazer testes precisos de seus próprios agrotóxicos.

Pessoas e empresas interessadas em adquirir a caixa podem entrar em contato com a AIn, pelo e-mail inovacao@ufscar.br ou pelo telefone (16) 3351-9040.

Pintura spray é fonte negligenciada de microplásticos no solo

Pesquisa com participação de cientista da UFSCar detectou maior concentração já encontrada, junto a grafites no Muro de Berlim

unnamed (15)Microscopia mostra microplásticos coloridos e, ao centro, fragmento com camadas de grafites (W. Waldman)

Que micro e nanoplásticos são uma fonte de poluição dos oceanos extremamente preocupante não é mais novidade. Agora, uma pesquisa realizada em Berlim, na Alemanha, com a participação de cientista brasileiro, mostrou que as tintas usadas para pintura spray – amplamente utilizada em processos industriais nos setores automotivo, naval e de mobiliário, por exemplo – são uma fonte negligenciada de microplásticos no solo.

A pesquisa foi realizada por um time liderado pelo biólogo Matthias C. Rillig, na Freie Universität Berlin, com participação de Walter Waldman, docente no Departamento de Física, Química e Matemática da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Campus Sorocaba. O grupo coletou amostras de solo ao redor de paredes preservadas do Muro de Berlim, no Mauerpark, em que a prática do grafite é legalizada. A escolha se deu pela hipótese de alta presença de microplásticos originados na tinta no local, já que, tradicionalmente, grafites mais antigos são recobertos por novas pinturas no parque urbano, há décadas.

“Entendemos a atividade de grafite como um proxy, ou seja, uma variável que podíamos medir e que seria indicativa dos impactos da pintura por spray amplamente usada na indústria naval, automobilística e de construção civil, que tem uma emissão muito grande de aerossóis durante seu uso em ambientes abertos e que, invariavelmente, forma microplásticos quando se evapora o solvente”, explica o pesquisador da UFSCar.

A grande contribuição do estudo foi o desenvolvimento de um novo protocolo para separação dos microplásticos. “Os microplásticos presentes nas tintas são mais densos que outras partículas plásticas e, por isso, imaginamos que não estariam sendo detectados nas análises tradicionais, baseadas justamente na baixa densidade desses microplásticos de outras fontes e, consequentemente, na sua flutuação em solução de brometo de sódio, NaBr”, explica Waldman. Assim, os pesquisadores, após coletarem amostras de solo em diferentes locais nas cercanias das paredes grafitadas e em profundidades diversas, realizaram a separação em duas etapas: primeiro, na solução de NaBr e, depois, em uma mistura de solução de NaBr com solução de cloreto de zinco, mais densa que o líquido geralmente utilizado.

“Por estar ao lado de um meio sólido, o solo, imaginamos que a emissão e a deposição constante dos aerossóis no Muro, e a sua baixa taxa de transporte em solos, gerariam um hotspot de microplásticos, ou seja, uma área de altíssima concentração dessas partículas”, compartilha Waldman. “Dito e feito: coletamos as amostras de solo em seis pontos próximos ao Muro, processamos no laboratório e nos defrontamos com as imagens mais coloridas e abundantes de microplásticos que eu eu vi na vida”, conta o pesquisador. E não só ele: as concentrações encontradas, da ordem de centenas de milhares de partículas por quilo de solo seco, são as mais altas já registradas na literatura científica.

Diante desses resultados, os pesquisadores alertam para a urgência de mais estudos sobre os efeitos ecológicos de microplásticos no solo. Defendem também a realização de novos levantamentos para a alimentação de bancos de dados sobre essa poluição, bem como a inclusão desse tipo de microplásticos em levantamentos futuros, especialmente em áreas urbanas.

O estudo está publicado no periódico de acesso aberto Environmental Chemistry Letters. A participação de Waldman seu deu durante seu estágio de pós-doutorado na Alemanha, com bolsa Capes-Humboldt (gerenciada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Capes – em parceria com a Fundação Alexander von Humboldt).

Projeto internacional liderado pela UFSCar analisa impacto das mudanças climáticas sobre a biodiversidade aquática

Iniciativa, apoiada por Fapesp e National Science Foundation, prevê colaboração com universidades dos EUA e Nova Zelândia

unnamed (14)(Foto: Victor Saito)

Comparando comunidades de insetos em riachos no Brasil e nos Estados Unidos, pesquisa liderada pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) tem como objetivo compreender impactos das mudanças climáticas sobre a organização da biodiversidade aquática, algo ainda pouco conhecido. A iniciativa prevê colaboração com três instituições dos EUA (Universidade da Califórnia, Universidade Estadual da Virgínia e Universidade de Maryland) e uma neozelandesa (Universidade de Canterbury). 

O projeto foi aprovado recentemente para receber apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e da National Science Foundation (NSF), em chamada colaborativa com a temática “Biodiversity on a Changing Planet (BoCP) 2022” (Biodiversidade em um Planeta em Transformação). A liderança é de Victor Satoru Saito, docente no Departamento de Ciências Ambientais (DCAm) da UFSCar.

Com duração de três anos, o projeto prevê estudos – com bolsas de graduação, treinamento técnico e pós-doutorado para as universidades envolvidas – em comunidades biológicas de riachos, principalmente insetos que possuem fase de larva na água e, de adultos, terrestres com asas, como as libélulas. 

O intuito é entender se a organização dessas comunidades, ao longo do tempo, é diferente em locais tropicais e temperados. 

“As espécies são sempre as mesmas ou mudam de mês a mês? Qual a magnitude dessas variações? Há a troca de todas as espécies do verão para o inverno, ou mantêm-se as mesmas?”, exemplifica o pesquisador. 

Para responder a esses questionamentos, os cientistas produzirão amostragens mensais dessas comunidades em riachos nos dois países, de uma forma coordenada e uniforme. Com isso, pretendem estudar todo o ciclo de vida desses insetos – ou seja, da vida aquática à saída da água, como adultos alados, até a reprodução e a inserção de ovos novamente nos riachos. Também estarão no foco as suas demografias (dinâmica da população, com informações como quantidade de indivíduos, natalidade e mortalidade). 

O desconhecimento ainda existente sobre como a biodiversidade de insetos responde diretamente às mudanças climáticas é devido, sobretudo, à falta de estudos coordenados em diferentes latitudes, que permitam uma comparação direta do efeito da temperatura nos organismos. 

“Com os dados coletados, vamos buscar construir modelos que permitam prever como cada comunidade pode responder a futuras mudanças climáticas”, detalha o docente da UFSCar. 

Os locais de análise ainda estão em definição, mas Saito adianta que, aqui no Brasil, serão potencialmente os riachos dentro do Parque Estadual de Intervales, localizado no Sul do estado de São Paulo. “Esta Unidade de Conservação abriga uma Mata Atlântica muito bem preservada e uma bacia hidrográfica bem inserida e conhecida”, justifica. 

Saito conta que os insetos aquáticos costumam ser utilizados como indicadores ambientais. Assim, o estudo também é uma forma de tentar prever como os ecossistemas vão responder a mudanças, para pensar em precauções diante de alterações ecossistêmicas indesejadas, como a perda de espécies de interesse pesqueiro ou a diminuição da qualidade da água. 

O pesquisador explica que, hoje, é muito utilizada a Teoria Metabólica – que indica que o metabolismo dos organismos determina fortemente o que se encontra na Natureza – para elucidar a biodiversidade, mas sabe-se da importância de sua união com outras explicações possíveisconforme já abordado em pesquisas anteriores do próprio Saito.  

“As populações das espécies também sofrem variações em suas abundâncias de forma estocástica (ou seja, imprevisível, de causa desconhecida) -, e é justamente esse ponto que buscamos entender melhor, investigando as relações dessas variações com a temperatura. A ideia é avançar nesses estudos e entender mais sobre o ciclo de vida das espécies, para começarmos a tapar essas lacunas no conhecimento da nossa fauna”, complementa o pesquisador. 

Mais informações sobre o projeto aprovado – intitulado “Entendendo o papel da estocasticidade na montagem de metacomunidades sob efeitos de mudanças globais” – estão disponíveis no site da Fapesp.

Esta matéria aborda contribuição da comunidade da UFSCar à concretização dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável – Agenda 2030 (ODS14-Vida na Água)

Dia Nacional de Luta dos Povos Indígenas: Dificuldades na assistência e desnutrição afetam territórios há anos

Cientista da UFSCar analisa as causas da situação como sendo o antagonismo entre modos de vida de grupos sociais distintos e a complexidade política e socioambiental do País

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(Imagem: Daiany B. Zago)

Hoje, dia 7 de fevereiro, é celebrado o Dia Nacional de Luta dos Povos Indígenas. Embora a data tenha sido estabelecida há 15 anos, em 2008, pela Lei nº 11.696, o Brasil enfrenta situações de dificuldades na assistência e desnutrição desta população em pleno 2023 – e não só na terra indígena Yanomami.

Mônica da Silva Nunes, docente no Departamento de Medicina (DMed) da UFSCar, conta que os problemas enfrentados pelos povos indígenas afetam os territórios há muito tempo. Ela atuou como médica extensionista em áreas indígenas, rurais e ribeirinhas na Amazônia brasileira.

“Meu primeiro contato com a Amazônia foi em 2003, no escopo da minha pesquisa de doutorado, vencedora no Prêmio Capes de Tese. Analisei como ações antrópicas nas florestas geraram proliferação de mosquitos e, por sua vez, crescimento dos casos de malária. A partir de então, passei a estudar como as mudanças ambientais podem impactar na saúde e no bem-estar das populações”, situa a pesquisadora.

Em 2009, começaram suas vivências diretamente com a população indígena no Acre e Amazonas. Além de prestar atendimento médico, ela participou de estudos relacionados à nutrição de pessoas de várias etnias, com medidas de peso, altura e testes rápidos de anemia. Já naquele contexto, da Silva Nunes detectou precariedade na assistência em Saúde para essas comunidades, além de desnutrição, principalmente de mulheres e crianças.

“As aldeias estão situadas ao longo dos rios, e cada uma tem a sua particularidade. Muitas são de difícil acesso; é preciso se locomover de barco e o percurso pode durar mais de dois dias. Eram cinco dias viajando para um dia de atendimento, por isso existia, naquela época, uma dificuldade de encontrar profissionais médicos no serviço de assistência indígena”, relata.

Além das limitações de deslocamento, ela também relembra uma situação que se escancarou aos seus olhos durante uma pesquisa de campo.

“Em contato com uma família indígena, estávamos nos transportando de barco e havia duas crianças bem quietas – não interagiam e nem brincavam. Imaginei que fosse um comportamento natural, talvez devido à língua, pois não falavam Português. Após o almoço, preparado ali mesmo e que foi compartilhado pela equipe com os indígenas, a mudança de atitude foi nítida: elas passaram a brincar, sorrir e se comunicar. Era fome”, relata, emocionada, a pesquisadora.

Em suas análises ao longo dos últimos 14 anos, ela detecta uma relação direta entre a destruição das florestas e a fome. “A realidade dos povos indígenas brasileiros é muito distinta de outras sociedades. Em várias aldeias da Amazônia, eles vivem da caça e da pesca, e é preciso respeitar a sua cultura. Nas regiões de matas preservadas, víamos indígenas bem nutridos e com abundância de alimentos. Em áreas tomadas por mudanças ambientais, sem qualquer responsabilidade, a realidade é outra. Os rios, ao terem contato com o mercúrio do garimpo, se contaminam, causando diminuição e morte de peixes. As florestas, ao serem tomadas por áreas de pastagem, têm perda da biodiversidade e diminuição de alimentos, antes encontrados abundantemente”, exemplifica.

“O antagonismo entre modos de vida de grupos sociais distintos, junto à complexidade da situação política e socioambiental do País, gerou o cenário atual dessa população.”

Papel dos cientistas e das universidades

Para da Silva Nunes, uma mudança de cenário é complexa e envolve diversos atores da sociedade. “Cada etnia, em cada região geográfica, tem a sua especificidade e que requer intervenções diferenciadas, ao invés de uma solução única.”

No que tange às universidades, é importante uma atuação proativa em questões humanitárias, que envolvem Educação, Saúde e Ambiente.

Ações como o Vestibular Indígena da UFSCar, unificado em 2023 com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), são um exemplo de inclusão. Na UFSCar, há hoje mais de 400 estudantes de 51 diferentes povos indígenas matriculados nos cursos de graduação. Frequentemente, as pró-reitorias de Graduação (ProGrad) e de Assuntos Comunitários e Estudantis (ProACE) e a Secretaria Geral de Ações Afirmativas, Diversidade e Equidade (SAADE), em parceria com o Centro de Culturas Indígenas (CCI), realizam atividades de acolhimento a esses estudantes. Aliadas ao ensino, ações de pesquisa e extensão também são essenciais.

A docente segue com estudos na área, com estudante de graduação indígena recém-contemplado com bolsa do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Cientifica (Pibic). O projeto analisará justamente a desnutrição dos povos indígenas. Está previsto, para este ano de 2023, também projeto de extensão com o intuito de trazer, para diálogo, questões dos povos indígenas.

Ela também dá continuidade aos estudos sobre a relação entre ambiente e doenças na Amazônia. Em 2 de fevereiro, cientistas do Centro de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (SinBiose), vinculado ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), do qual da Silva Nunes faz parte, divulgou a criação da base de dados Trajetórias. Ela reúne indicadores ambientais, socioeconômicos e epidemiológicos referentes ao período de 2000 e 2017 para todos os 772 municípios de nove estados da região amazonense, conforme publicado em artigo na Nature Scientific Data.

“Nós, cientistas, temos como papel trazer o conhecimento às pessoas e ampliar as suas visões, além de produzir dados e análises que possam auxiliar na formulação de políticas públicas. Só assim será possível encontrar um equilíbrio entre grupos sociais tão antagônicos, para que esses grupos possam coexistir sem conflitos”, finaliza a professora.