O lulismo, suas estratégias eleitorais e o sacrifício das utopias

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As eleições de 2018 irão ocorrer sob o signo da desorganização das esquerdas, muito graças à estratégia de sobrevivência política adotada pelo ex-presidente Lula que procura salvaguardar o seu legado de apaziguador da luta de classes no Brasil. 

A meu ver o lançamento da chapa “triplex” que é formada pelo próprio Lula e com o ex-prefeito Fernando Haddad e a deputada estadual Manuela D´Ávila (PC do B/RS) tem como objetivo maior impedir que haja a devida discussão sobre os rumos estrututais da economia brasileira e da sua forma de inserção cada vez mais dependente na economia mundial.   É verdade que esta opção está camuflada por um discurso moralista em torno da injustiça do encarceramento de Lula, mas os seus objetivos estratégicos são dirigidos a esterilizar dentro e fora do PT qualquer possibilidade de que se faça o correto debate sobre o que precisa ser feito para impedir que o Brasil regrida à condição de colônia de exploração dos países centrais. De quebra, ela visa impedir que quadros menos conciliadores surjam dentro do PT, de modo a libertar o partido da hegemonia lulista.

Mas ao fazer esse movimento essencialmente de auto preservação, Lula joga a confusão para dentro do seio da classe trabalhadora e da juventude que, convenhamos, já padecem de um forte processo de desorganização decorrente dos esforços de imobilização que acompanharam os anos do PT na presidência da república. 

Tal situação abre possibilidades perigosas não apenas do ponto de vista eleitoral, mas também para o pós-eleitoral. É que eleições são ganhas e perdidas, mas o momento subsequente é tão importante quanto elas.  São incontáveis os casos de governos eleitos que não ficam em pé muito tempo por causa da força avassaladora que emana das demandas por melhores condições de vida que só a classe trabalhadora organizada pode gerar.

E não creio ser exagerado dizer que as principais vítimas da estratégia “triplex” desenvolvida por Lula desde as masmorras de Curitiba são as nossas utopias de viver numa sociedade mais justa e democrática. É que se observarmos os primeiros discursos de Fernando Haddad para acalmar “os mercados”, veremos que já se sinaliza com mais sacrifícios para a classe trabalhadora, a começar pela ampliação da destruição do sistema de aposentadorias.

Por isso é imperioso que saiamos dessa “Lula dependência” para apostar num processo de ação política que nos coloque para além do limiar eleitoral. É que do ponto de vista da utilidade para organizar as demandas da classe trabalhadora e da juventude, essas eleições estão praticamente perdidas. Saber identificar isso e se colocar para além delas, mesmo participando da disputa, será fundamental para impedir a política de terra arrasada que está sendo armada para evitar que a hegemonia neoliberal seja quebrada no Brasil.

Finalmente, este é um momento em que fundamentalmente temos que defender as nossas utopias em face do realismo lulista.  Só assim poderemos fechar um capítulo que parece interminável na história da esquerda brasileira. Que vivam as nossas utopias, e que o velho deixe o novo florescer.

Syriza e Podemos: mostra que ainda espaço para utopia no “realpolitik”

Tem algum tempo que cansei de ouvir as lamúrias pragmáticas e anti-utópicas que são disseminadas pelos militantes e simpatizantes do PT (ou neoPT como alguns gostam), É que se prestarmos um pouco de atenção nas lamúrias que são jogadas para explicar a guinada à direita do partido, o que veremos é a defesa dos limites de uma política real que deixaria Harry Fukuyama (aquele que previu o fim da história após o desmantelamento do Muro de Berlim) feliz demais. É que, por detrás as lamúrias pragmáticas, o que se tem é a decretação cínica do  fim das utopias e das possibilidades de algo mais do que gerir bem o Estado burguês no horizonte dos partidos que se proclamam de esquerda.

Como estava dentro do PT quando o Muro de Berlim virou poeira, lembro bem desse chorôrô. É que mal tinham acabado de voltar de um curso de formação política na Alemanha Oriental, Lula e Zé Dirceu tiveram que se defrontar com o fim do falso socialismo, e a abertura de chances reais de ser rediscutida a construção de uma nova sociedade. Ali enquanto os trotskistas como eu viam a abertura de uma chance real de construção do socialismo, os pais do neopetismo viram uma derrota histórica e desmoralizante.

De lá para cá, o que se viu foi a contínua concessão aos ditames do mercado por um lado e, de outro, a completa adesão aos piores elementos da política burguesa e nas suas formas mais abjetas dentro da forma atrasada de desenvolvimento do Estado burguês no Brasil. 

E em função disso, é que temos todo tipo de ataque aos que ousam dizer que o realismo do PT não serve ao interesse dos trabalhadores, camponeses e à juventude do Brasil.  Qualquer sinal de crítica é logo tachado de ultra-esquerdismo e por ai vai.

Agora, me parece que o PT está para se defrontar um novo Muro de Berlim, só que agora saído das eleições gerais na Espanha e na Grécia. É que nesses países devem emergir vitoriosos partidos políticos que lembram muito o PT no seu nascedouro, e com muitas das mesmas contradições que o partido então tinha. E o mais interessante é que o Syriza na Grécia e o Podemos na Espanha resultam de um cansaço extremo com a mesma lógica de “realpolitik” abraçada por forças tradicionais da esquerda espanhola e grega, e que foi a mesma à qual o PT abraçou no Brasil.

Alguns dos “teóricos” neopetistas vão querer dizer que Espanha e Grécia não possuem a mesma importância geopolítica do Brasil, e outros trololós, o que condena Syriza e Podemos à inexpressividade. Tudo besteira, já que posicionados na periferia imediata dos mercados centrais, Espanha e Grécia poderão causar sérios abalos na ordem geopolítica comandada pela aliança EUA-Alemanha, e que hoje mantem a Europa numa condição de quase Estado de sítio. 

O fato é que se as pesquisas eleitorais que hoje dão vitórias para Syriza e Podemos se confirmarem, e esses partidos não abandonarem suas bandeiras políticas como fez o PT, o que deveremos ter é um abalo sistêmico no sistema político europeu e, por extensão, mundial.

Dai será só esperar as explicações estapafúrdias que os neopetistas irão tentar dar. A ver!