Ucrânia: um balanço de dois meses do golpe – Parte I

A ascensão fascista

Por Carlos Serrano Ferreira 

Há pouco mais de dois meses, em 22 de fevereiro, um golpe liderado por uma frente composta pelo Partido da Pátria e pelo fascista Svoboda (até alguns anos atrás chamado Partido Nacional-Socialista da Ucrânia, remetendo diretamente ao Partido Nazi de Hitler) e as milícias da federação de organizações fascistas chamada Setor Direita (Pravy Sektor) derrubaram o governo legitimamente eleito, ainda que corrupto, de Viktor Yanukovych. À frente do Pátria estava a oligarca Yulia Timoschenko, que já governou a Ucrânia e por suas ações escusas estava presa, sendo libertada pelas forças golpistas. 

Dirigindo o Svoboda está Oleh Tyanybok, raivoso antissemita e russófobo, adorador de Stepan Bandera, líder terrorista fascista da Organização Nacionalista Ucraniana “facção Bandera” (OUN-B) e do Exército Revolucionário Ucraniano (UPA), que se aliou à Hitler quando este invadiu o país. Bandera defendia uma Ucrânia só para ucranianos puros e durante e depois da II Guerra Mundial manteve ações terroristas contra o povo ucraniano, tendo entre os crimes de sua folha corrida o genocídio de 70.000 polacos e de 200.000 judeus. Ele foi parado apenas em 1959 pela ação do heróico agente da KGB Bohdan Stashynsky, que o assassinou na Alemanha Ocidental, país que abrigara o monstro nazista. Tyanybok foi expulso da facção parlamentar “Our Ukraine” (bloco eleitoral de Viktor Yuschenko) em 2004 após um discurso antissemita e antirrusso feito no túmulo de um comandante da UPA, onde afirmou entre outras sandices que o país era controlado por uma “máfia judaico-moscovita” (1). Outro dirigente partidário é Yuri Mykhailyshyn, um “intelectual”, conselheiro de Tyanybok, deputado e membro do Conselho Municipal de Lviv. Entre seus “feitos” consta a fundção em 2005 na internet do Centro de Pesquisa Política Joseph Goebbels (ministro da propaganda nazista), que depois teve seu nome alterado para Ernst Jünger e fechado em 2011, para reaparecer possivelmente com outro nome (2).

O outro setor fascista, o Setor Direita, é liderado por Dmytro Yarosh, acusado de ter lutado ao lado de extremistas muçulmanos na Guerra da Chechênia e é procurado por terrorismo pela Rússia. Em 1° de março deste ano a página do Pravy Sektor apelou à ajuda do terrorista e líder islamita checheno, ligado a Al-Qaeda, Dokka Umarov. Tanto os líderes do Svoboda, quanto do Pravy Sektor dizem que lutam contra a “máfia judaico-moscovita”. Estes, como diz em entrevista Sergei Kirichuk, líder do “Borotba”, um movimento surgido há três anos que unifica organizações de esquerda anticapitalistas ucranianas, “as pessoas estavam tão zangadas com a administração de Yanukovich que seguiram e apoiaram o Setor Direita, e quando Yanukovich fugiu do país, o Setor Direita tornou-se uma força política poderosa”(3). Este é uma frente de várias organizações paramilitares fascistas, como a Assembleia Nacional Ucraniana – Autodefesa Nacional Ucraniana (UNA-UNSO, na sigla em inglês). 

Na verdade, há uma clara ligação entre as duas organizações fascistas, sendo quase uma divisão de tarefa: o Svoboda é a face “mais humana”, “mais polida”, política e o Pravy Sektor é o braço armado, as milícias, o lado mais violento dos fascistas ucranianos. Isso não exclui, é claro, que militantes do Svoboda participem diretamente de ações violentas ao lado do Pravy Sektor, como na derrubada da estátua do Lênin em Kiev, ação repudiada pela esmagadora maioria da população daquela cidade, como mostra a pesquisa do instituto independente Research & Branding Group (4). Nem exclui que exista a disputa pela supremacia no movimento fascista entre esses setores. O que unifica a extrema-direita ucraniana é, nas palavras de Kirichuk, do Borotba a defesa de: “um estado nacional corporativo. Eles são contra os sindicatos e a língua russa. […] Ucrânia é separada em duas grandes divisões. Metade fala ucraniano e a outra metade fala russo. Eles são contra a língua russa. Eles são contra o feminismo, contra os direitos das mulheres. Eles são muito homofóbicos, então em política interna eles tentam ser muito tradicionais, políticos orientados para a direita” (5).

Qual o balanço do novo governo? Qual o resultado de suas ações? Alguns dirão que é pouco tempo para isso, que ainda seria cedo para isso. Na verdade, tal foi a velocidade – e em alguns casos a ferocidade das ações – que está mais do que claro o seu caráter e os efeitos de sua chegada ao poder. É possível elencar os seguintes resultados, dois o primeiro será analisado neste artigo e os outros em futuros textos: a) pela primeira vez desde a derrota do nazifascismo na Segunda Guerra Mundial e dos fascismos ibéricos – franquismo espanhol e salazarismo português, reminiscências anacrônicas do período entreguerras que terminaram nos anos setenta (6) – num governo europeu se encontram em posições estratégicas e decisivas fascistas; b) o surgimento de um movimento antifascista, que se materializa na política de secessão ou federativa; c) a mudança de orientação externa do frágil imperialismo russo e suas vitórias táticas; d) o domínio total pelos EUA e pelo FMI da Ucrânia; e) a vitória estratégica dos EUA, alcançando a divisão da União Europeia e da Rússia e a fragilização da Alemanha, que perdeu os dois primeiros rounds na disputa pela Ucrânia, mas pode vencer no final com as eleições presidenciais e uma possível vitória do oligarca Petro Poroshenko; f) o fortalecimento dos oligarcas ucranianos.

O primeiro elemento, que abordaremos neste primeiro artigo, pois é o mais assustador, é o peso dos fascistas no novo governo (7). Eles não só compõem o governo, eles estão em postos chaves, em particular no controle dos aparelhos ideológicos e repressivos. O mais importante posto é de Andriy Parubiy, cofundador do Svoboda, nomeado Secretário do Conselho de Segurança e de Defesa Nacional, que supervisiona todo o aparato militar e inclusive o Ministério da Defesa (8). Ele dirigiu os batalhões mascarados do Setor Direita nas ações violentas das batalhas campais em Kiev. Em 26 de fevereiro deste ano ele “fez um protesto contra UE pela condenação de Stepan Bandera, o líder antissemita e nacionalista ” (9). O segundo cargo mais importante desse Comitê que dirige as forças de segurança e as forças armadas do país é ocupado por Dmytro Arosh, líder do Pravy Sektor(10).

Outro nomeado para uma posição chave foi “Oleksandr Sych, um parlamentar do Svoboda de Ivano-Frankivsk, mais conhecido pelas suas tentativas de banir o direito a todos os tipos de aborto na Ucrânia, incluindo os resultados de estupros, ele foi nomeado vice-primeiro-ministro para assuntos econômicos”(11) . Ele é o chefe ideológico do Svoboda(12) , e trabalhou como professor de história, sendo o autor de “numerosos ensaios alterando a história apresentando os ultranacionalistas ucranianos e colaboradores de nazistas num movimento glorioso de libertação”(13) .

Outro parlamentar membro do Svoboda nomeado foi Oleh Makhnitsky, alçado a nada mais, nada menos, que a procurador-geral. Além disso, outras organizações fascistas, como a UNA-UNSO ganharam cargos no novo governo. Tetyana Chernovol, hoje oficialmente desligada da UNA-UNSO, é “retratada na mídia ocidental como uma abnegada jornalista investigativa, mas sem nenhuma referência ao seu envolvimento passado com o antissemita UNA-UNSO, nomeada presidente do comitê anticorrupção do governo”(14) . É curioso que essa ligação não tenha sido feita nem mesmo quando ela sofreu uma suposta agressão perpetrada pela polícia de Yanukovich e isto foi um dos elementos para que as mobilizações que vinham refluindo crescessem novamente. Ela entrou com 17 anos na UAN-UNSO e foi sua secretária de imprensa posteriormente. Outro que também foi “alegadamente” sequestrado pela polícia, mas que também é ligado à UAN-UNSO, é Dmytro Bulatov, nomeado ministro da juventude e dos esportes. 

Mas, a inserção dos fascistas no governo não para aí: o Svoboda nomeou seu membro Serhiy Kvit Ministro da Educação, “conhecido por seus esforços em glorificar aqueles que inspiraram os fascistas banderistas na Segunda Guerra Mundial”(15) . Também foi nomeado como Ministro da Ecologia e dos Recursos Naturais pelo Svoboda o seu vice-presidente e membro do conselho político, Andriy Makhnyk, responsável também pelos contatos com os outros partidos fascistas europeus. Entre as suas posições políticas incluem-se “a proibição da ideologia comunista e o julgamento dos comunistas”(16) . A importância do papel deste e dos contatos com os outros partidos da extrema-direita europeia se materializa na entrada como observador do Svoboda em 2009 na Aliança dos Movimentos Nacionais Europeus, único partido de fora da EU(17) . Contudo, demonstrando as ligações de Putin com os fascistas da Europa Ocidental – apenas apoiando os antifascistas no Leste e Sul por interesses geopolíticos – e a impossibilidade dos antifascistas ucranianos se apoiarem nele, este recebeu o apoio dos fascistas ocidentais às ações russas na Crimeia e na Ucrânia(18) . Por isso, o Svoboda saiu em 2014 dessa aliança fascista(19) .

Por fim, o Svoboda emplacou Ihor Shvaiko como Ministro da Agricultura, também membro do partido e um agro-oligarca, um dos homens mais ricos da Ucrânia, com vários investimentos na agricultura. É o caso clássico daquele velho ditado popular: “é colocar a raposa para cuidar do galinheiro”.

Desta forma, como se vê, os fascistas controlam o judiciário (procuradoria-geral), outros instrumentos políticos de repressão (comitê anticorrupção); setores chaves do governo em relação à economia (vice-primeiro-ministro para assuntos econômicos e o ministério da agricultura); controlam as forças armadas (Secretário do Conselho de Segurança e de Defesa Nacional); e controlam instrumentos ideológicos fundamentais (ministério da Educação e ministério da juventude e dos esportes). Durante quase um mês, entre 27 de fevereiro e 25 de março, o Svoboda ainda controlou o Ministério da Defesa com seu militante o Almirante Ihor Tenyukh, demitido após a operação que vitimou outro fascista, o criminoso líder do Pravy Sektor (o que revela a disputa interna no governo, que faz as suas próprias vítimas) e acusações de não dar resposta frente à ação russa na Crimeia. 

É verdade que as projeções eleitorais dos fascistas para as eleições presidenciais são muito ruins, com Oleh Tyahnybok do Svoboda com apenas 2,1% e Dmytro Yarosh do Setor Direita com 0,9% na pesquisa da SOCIS de 23 de abril(20) . Mas, como ratos eles roem o pouco de democracia que existia no país, impondo suas políticas e suas posições, inclusive abusando da violência.

Desde que assumiram a “vanguarda” dos processos contestatórios, alterando o caráter de insurreição popular contra o governo de Viktor Yanukovich – corrupto e apoiado por parte da oligarquia – tornando-o num golpe(21) , os fascistas se utilizaram de suas armas corriqueiras: a violência – como o cerco violento ao Parlamento – e as mentiras. Neste quesito se sobressai a ação dos snipers (franco-atiradores) recrutados pelos fascistas – provavelmente em conluio com as outras forças conservadoras de oposição – que vitimaram quase uma centena de manifestantes do próprio EuroMaidan. Buscaram assim criar a consternação necessária para justificar suas ações violentas. Quem afirma isso não é o Kremlin, mas aliados europeus: numa conversa vazada entre o ministro das Relações Exteriores da Estônia, Urmas Paet, e a chefe da diplomacia europeia, Catherine Ashton, ele afirma que “Fica cada vez mais evidente que por trás dos franco-atiradores não estava (o presidente Viktor) Yanukovich, mas alguém da nova coalizão” e ainda que “é preocupante que a nova coalizão não queira investigar”(22) . Os fascistas tem se utilizado dos “Mártires do Movimento” – que eles mesmo mataram – para criar uma mitologia unificadora, usando esse elemento para acusar os que se afastam de seus métodos e objetivos como traidores desses mártires!(23) 

O golpe foi garantido com o cerco ao Parlamento por milícias fascistas e ameaças que levaram a renúncia de vários dos parlamentares apoiantes do governo ou impediram mesmo a participação deles na sessão da Verkhovna Rada (Parlamento Ucraniano). Os “deputados estiveram submetidos à enorme pressão, posto que o edifício da Rada Suprema estava custodiado por dezenas de membros das guardas de autodefesa [nome fantasia das milícias fascistas em Kiev], que formavam uma fileira na porta do Parlamento, e toda a sessão foi retransmitida em direto pela megafonia à praça. Concluída a votação, os deputados se viram obrigados à sair do edifício através corredor de um metro de largura formado pelos membros das forças de autodefesa, em sua maioria encapuzados e alguns portando bastões de beisebol e outros métodos de defesa artesanais”(24) . 

Logo após o golpe os fascistas, com apoio do Partido Pátria, buscou a legalização da discriminação dos russos, com a aprovação no dia seguinte à deposição de Yanukovich da abolição da lei que estabelecia como língua cooficial as línguas minoritárias que contavam com mais de 10% de falantes, como é o caso de 13 das 27 regiões ucranianas (na zona oriental), onde o russo é falado nalguns casos pela maioria da população. Poucos dias depois, frente à pressão russa e de seus aliados da UE, o presidente em exercício Aleksandr Turchinov vetou a lei de abolição do direito linguístico e ordenou ao Parlamento que construísse uma nova lei que restabelecesse os direitos linguísticos das minorias(25) . Contudo os sinais não são auspiciosos: os encarregados de tal proposta são Volodymyr Yavorivsky, um russófobo neonazi do Pátria, e Iryna Farion, membro e parlamentar do Svoboda(26) .

Porém, as “travessuras” fascistas não pararam por aí. Como essa mesma lei vetada trazia a imposição do banimento de toda a mídia em russo, eles encontraram uma outra maneira de fazer valer sua vontade. Através do “Conselho de Defesa e Segurança Nacional [se] instruiu o Escritório do Procurador-Geral e [d]o Serviço de Segurança a investigar as atividades dos canais russos de TV por descumprimento da legislação ucraniana [… por] incitamento ao ódio étnico, incitamento à guerra, separatismo” e a “Corte Administrativa do Distrito de Kiev decidiu pela suspensão da transmissão de quatro canais russos”(27) . Essas decisões levaram ao repúdio da Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE), expressado na declaração do seu Representante sobre Liberdade da Mídia, Dunja Mijatović de que “banir programação sem base legal é uma forma de censura; preocupações com segurança nacional não deveriam ser usadas a expensas da liberdade da mídia”(28) . Em 11 de março já mais de 50% das empresas de mídia não passavam mais canais russos, seguindo as ordens do órgão de fiscalização da mídia(29) . Não bastando isso, um parlamentar do Svoboda e outros militantes fascistas foram até o escritório do CEO da Companhia Nacional de Televisão, Aleksandr Panteleymonov, o espancaram e gritaram até forçá-lo a assinar sua demissão, sob a justificativa de ele seria “pró-russo”(30) .

O clima de terror e de controle totalitário que buscam instalar no país. É um salto qualitativo num país onde os setores fascistas, apoiados crescentemente pela pequena-burguesia da parte ocidental da Ucrânia, vem crescendo e impondo medo às minorias. “Na Ucrânia atual o anti-semitismo é tão forte, que nos últimos 20 anos, depois da derrocada da União Soviética – que sempre protegeu os judeus como etnia – 80% dos 500.000 hebreus que viviam no país o abandonaram, desde 1989, em um êxodo sem precedentes no pós-guerra. Hoje, em uma população de mais de 44 milhões de habitantes, há menos de 70.000 judeus ucranianos”(31) . Contudo é ainda pior para “os cerca de 120.000 a 400.000 ciganos que vivem na Ucrânia, uma minoria que não conta com recursos para deixar o país, nem com um destino, como Israel, que os possa receber. Com a desmobilização da polícia e do exército, e sua substituição por brigadas paramilitares compostas de vândalos e arruaceiros, os neonazistas têm circulado livremente pelos bairros ciganos da periferia de Kiev e de cidades do interior do país, insultando e agredindo impunemente, qualquer homem, mulher, criança, idoso, que encontrem pela frente”(32) .

A violência se estende aos membros do Partido das Regiões, mas principalmente contra a esquerda, tanto comunistas, membros do Borotba, ou anarquistas (com uma história de raízes profundas no país). No dia 24 de fevereiro, perto de Kiev, “a casa do líder do Partido Comunista da Ucrânia, Pyotr Simonenko, foi queimada […]. A esposa de Simonenko, Okasana Vashenko, contou […] que a casa foi invadida por indivíduos que procuravam alguma coisa que incriminasse o dirigente. Como não acharam nada eles simplesmente atearam fogo na casa, com caixas de coquetéis Molotov”(33) . Mas, não foi só isso: “Sedes [do Partido Comunista] foram atacadas no País inteiro, câmaras regionais foram ameaçadas com armas para aprovar determinadas medidas, políticos foram obrigados, sob ameaça física, a renunciar a seus cargos”(34) . No dia 25 de fevereiro, um ativista do Pravy Sektor, chamado Aleksandr Muzychko, entrou no “Parlamento Regional de Rovno, aonde ele ameaçou os membros do parlamento regional com uma metralhadora e certo número de outras armas e demandou uma decisão garantindo apartamentos para as famílias dos manifestantes mortos durante os violentos confrontos da última semana no centro de Kiev”(35) . No Parlamento Nacional, quando o líder do Partido Comunista, Pyotr Simonenko, discursava defendendo a federalização do país e a concessão do status de língua oficial ao idioma russo ele foi atacado por dois deputados do Svoboda, levando a que os deputados comunistas tivessem que se defender dos ataques(26) . Em Lviv, bastião do Svoboda, eles chegaram a torturar o primeiro secretário do Partido Comunista de Lviv, Rostislav Vasilko(37) . Uma idosa foi brutalmente espancada pelos fascistas por estar a levar flores para uma estátua de Lênin(38) . Até mesmo as Igrejas Ortodoxas subordinadas ao Patriarcado de Moscou estão sendo atacadas(39) . 

Essa violência contra a esquerda já se dava desde os próprios protestos do EuroMaidan, como denunciava o anarcossindicalista ucraniano Denys, da União do Trabalhador Autônomo da Ucrânia, à Rádio Asheville FM, da Carolina do Norte: “Hoje e talvez em todos os outros dias da última semana, você poderia estar em perigo real, se você começar a dizer algo assim [falar sobre a alternativa de classe], porque você seria imediatamente considerado um provocador do partido no poder. Na verdade, houve um par desses incidentes no Euromaidan, quando pessoas de diferentes grupos de esquerda estavam tentando fazer exatamente o que você está dizendo [falar sobre a alternativa de classe], e alguns deles foram espancados muito severamente, outros foram apenas expulsos. Isso ocorre porque as pessoas comuns mostram algum interesse, às vezes, mas o outro problema é que entre os ativistas no Euromaidan, entre a segurança e os responsáveis locais (os organizadores dos protestos), entre os que fazem as coisas, há forte infiltração pelos grupos de extrema-direita que realmente têm suas próprias coisas para dizer para a esquerda. E eles têm a confiança das pessoas comuns, dos políticos, por isso, se algum nazista novo que conhecemos diz: “Oh, meu Deus, olha, estes são os comunistas, estes são provocadores, eu acho que eles apenas apoiam Yanukovych”, ninguém mais ouvirá você. Você seria expulso”(40) .

Mas, o salto qualitativo no domínio de terror se deu com o aprofundamento do golpe, em 13 de março: o Parlamento Nacional aprovou a criação de uma “Guarda Nacional” com 60 mil stormtroopers (tropas de assalto), “cujos trabalhos incluirão a proteção da ‘ordem pública’ (moldada sobre a ‘nova ordem’ alemã sobre os territórios ocupados) e a supressão de ‘distúrbios’ (protestos populares) durante um estado de emergência, bem como a assistência na defesa das fronteiras (com a Rússia, naturalmente), e a participação em operações militares em caso de guerra”(41) . Isto na verdade significou a incorporação das milícias fascistas à estrutura oficial de repressão. O sonho de Ernest Röhm para as suas Sturmabteilung (SA) e depois realizada pela SS por Heinrich Himmler, com a constituição a partir dos batalhões da Waffen SS, foi realizado pelos fascistas ucranianos em tempo recorde. Estes batalhões “principalmente originados de Lviv [bastião do Svoboda e dos fascistas em geral] (Ucrânia Ocidental) serão unidades de retaliação e de fronteira – análogas às Waffen SS(42) . Na sua era, os nazistas rapidamente livraram-se dos generais da Wehrmacht que ousaram se opor à criação e a militarização do “Exército do Partido”. Usando o mesmo esquema de jogo, o “primeiro-ministro” em exercício, Arseny Yatsenyuk não hesitou a demitir três vice-ministros da defesa que se atreveram a se opor ao lunático plano de armar o Setor Direita”(43) . Arsen Avakov, ministro do Interior, declarou “como uma de suas primeiras intenções que o Setor Direita deve ser integrado no aparato estatal de segurança”(44) , o que cumpriu inteiramente.

Esses grupos de assaltos, secundados por grupos de extrema-direita ligado às claques de futebol (financiadas pelos oligarcas proprietários desses clubes) realizaram o grande Massacre de Odessa. Na noite da passada sexta-feira, dia 3 de maio, as torcidas organizadas de dois clubes que jogavam na cidade de Odessa, junto de membros do Pravy Sektor e as milícias fascistas começaram a atacar os militantes antifascistas, se dirigindo para o acampamento montado por estes junto à Casa dos Sindicatos, para onde estes foram encurralados. Os fascistas então lançaram uma bomba que iniciou o incêndio, que vitimou ao menos 42 pessoas, carbonizadas até a morte(45) . Ao contrário da propaganda da mídia imperialista e de Kiev, todos eram ucranianos, não se encontrou nenhum corpo de “infiltrados russos”. Tanto os queimados, como os mortos a tiros pelos fascistas nesse massacre, eram em sua maioria militantes do partido comunista ucraniano e do outro partido de esquerda, o Borotba. 

É assustador, mas os fascistas possuem de fato o poder local “em ao menos algumas das regiões ocidentais ucranianas, como as regiões de Rivne e Volyn”(46) . Como a Ucrânia é um estado unitário, a indicação dos governadores de região é feita por Kiev, que indicou quatro militantes do Svoboda como governadores(47) . Já nas eleições parlamentares de 2012 eles obtiveram 10,44% de votos no sistema proporcional e 12 deputados eleitos diretamente no sistema distrital, superando então a cláusula de barreira de 5%, permitindo alcançarem 38 deputados entre 450 vagas(48) . Nas eleições locais de 2010 tiveram “uma média de 25,7% de votos na Galícia Oriental, e seus candidatos venceram a maioria dos cargos distritais. Como resultado, o Svoboda conformou coalizões majoritárias nos conselhos regionais e, em Ternopil, Ivano-Frankivsk e várias pequenas cidades o partido tem uma maioria absoluta. Ternopil permanence, contudo, a única cidade onde o partido pode governar independentemente, pois o prefeito é membro deste partido”(49) . O crescimento em militância do Svoboda também tem sido exponencial: em 2004 tinha 5.000 militantes, em 2010 já havia subido para 15.000(50) ! A verdade é que o crescimento dos setores fascistas pela via eleitoral tem como limite a divisão do país e sua política antiminoria russa. Por isso, eles pressionam pela mudança na legislação eleitoral e pela substituição do staff da Comissão Central de Eleições, e o Setor Direita e o Causa Comum (outro grupo fascista) manterão até as eleições militantes nos escritórios dessa comissão(51) . Não se pode descartar, obviamente, que ocorram fraudes nas eleições presidenciais do dia 25 de maio para beneficiar os fascistas ou uma parte deles.

Como reflete brilhantemente Mauro Santayna: “Até agora, o neonazismo se ressentia de um território grande e simbólico o suficiente, do ponto de vista de uma forte ligação com o anticomunismo e com o nacional-socialismo, no passado, para servir de estuário para o ressentimento e as frustrações de um continente decadente e nostálgico das glórias perdidas, que nunca se sentiu realmente distante, ou decididamente oposto, ao fascismo. Faltava um lugar, um santuário, onde se pudesse perseguir o mais fraco, o diferente, impunemente. Um front ideológico e militar para onde pudessem convergir – como voluntários ou simpatizantes — militantes da supremacia branca de todo o mundo. Um laboratório para a criação de um novo estado, com leis, estrutura e ideologia semelhantes às que imperavam na Alemanha há 70 anos. Se, como tudo indica, os neonazistas se encastelarem no poder em Kiev, por meio de eleições fraudadas, ou da consolidação de um golpe de estado desfechado contra um governante eleito, o ninho da serpente poderá renascer, agora, no conflagrado território ucraniano”(52) .

O exemplo dos fascistas ucranianos já inspira fascistas de outras partes, como os nazistas do Partido dos Suecos, que tem atacado militantes de esquerdas – como em Malmo, após manifestações de esquerda pelo Dia Internacional da Mulher – e judeus, ou ainda o Movimento de Resistência Sueco: “Ao todo, 12 membros de vários grupos de extrema direita suecos foram nas últimas semanas a Kiev para participar das revoltas contra o governo anterior, apoiando partidos de ideologia similar ao Setor de Direitas e Svoboda. Um dos três detidos pelo incidente de Malmo acabava de retornar da Ucrânia, revelou a ‘Expo’ O Säpo [serviço de inteligência sueco] havia admitido dias antes que sabia da presença de nazistas suecos na Ucrânia, mas que não lhe constava que tivessem intenção de cometer delitos com motivações políticas na Suécia”(53) .

Os perigos da ascensão dos fascistas na Ucrânia não se restringem ao espaço ucraniano, muito pelo contrário. Como corretamente pondera Yorgos Mitralias, membro do comitê grego da iniciativa do Manifesto Antifascista Europeu: “Independentemente do caminho que tomem os acontecimentos que vêem afrontar-se no solo ucraniano não só a Rússia e a Ucrânia (igualmente reacionárias e enfeudadas aos oligarcas) mas também as grandes potências imperialistas do nosso tempo, tudo indica que os neo-nazis ucranianos, já poderosos, serão os únicos a aproveitar-se da devastação que não deixarão de provocar tanto as políticas de austeridade do FMI como os ventos guerreiros e nacionalistas que varrem a região. As consequências são previsíveis. Os neo-nazis ucranianos em armas serão provavelmente capazes de estender a sua influência para lá do Leste europeu e gangrenar o conjunto do nosso continente. Como? Primeiro, impondo, no interior do campo da extrema-direita europeia em ascensão, relações de força favoráveis ao neo-nazismo militante. Depois, servindo como modelo de exportação ao menos para os países vizinhos (incluindo a Grécia), já martirizados pelas políticas de austeridade e já contaminados por vírus racistas, homofóbicos, anti-semitas e neo-fascistas. E, evidentemente, sem esquecer o grande “argumento” que constituem os milhares e milhares de armas – incluindo pesadas – na sua posse, que não deixarão de exportar. A conclusão salta à vista. É o conjunto da paisagem, equilíbrios e relações de força na Europa que será inevitavelmente transformado, às custas de sindicatos operários, organizações de esquerda e movimentos sociais. Em palavras simples, já há de que ter pesadelos”(54) .

Na verdade, o fascismo e o liberalismo são duas bestas gêmeas paridas pelo capitalismo. Não por acaso convivem harmoniosamente no novo governo ucraniano, como já o fizeram, por exemplo, no Chile de Pinochet. Mais do que isso: o fascismo é a expressão desesperada dos capitalistas em crise, que se utilizam dos pequeno-burgueses ameaçados de proletarização na sua luta para esmagar a resistência da classe trabalhadora. Por isso, não há outra forma de derrotar o fascismo em definitivo sem a derrota do capitalismo. Não é de surpreender que o fascismo, que parecia ter sido morto no Julgamento de Nuremberg, e enterrado em definitivo com a Revolução dos Cravos e o fim do franquismo, volta com toda a força. É como explica o líder do Borotba sobre a situação ucraniana, ao falar sobre o Svoboda: “Eles [o Svoboda] foram apoiados por alguns grupos e o governo burguês porque o governo burguês [e a] administração de Yanukovich [estava] tentando usar os fascistas contra os seus inimigos políticos. Por exemplo, você sabe que na Ucrânia um dos mais populares políticos foi Yulia Tymoshenko. Ela foi uma política realmente corrupta, mas ao mesmo tempo foi bastante popular, então Yanukovich e seu grupo usaram o Svoboda para atacá-la. Eles fizeram boas doações para financiar o Svoboda, e em poucos anos eles converteram-se de um pequeno partido fascista da Ucrânia Ocidental num grande partido parlamentar. Eu preciso explicar que a Ucrânia é um país muito nacionalista. Quando a União Soviética caiu e nós tivemos um grande desastre social aqui na Ucrânia, era da intenção e da vontade do povo lutar contra o capitalismo porque ele não trouxe nada de bom para o povo, e [toda] a oligarquia ucraniana, novos homens de negócio, novos ricos, começaram a usar a ideologia nacionalista para evitar que o país voltasse ao “Passado Vermelho”. Nós tivemos propaganda nacionalista por vinte anos através da mídia, na escola, e nós tivemos um grande financiamento para sustentar os movimentos fascistas. Estas duas condições fizeram possível os fascistas estarem no parlamento ucraniano”(55) . O que ele fala de governo de Yanukovich é válido para todos os governos oligarcas anteriores. O “herói da democracia”, líder da “Revolução” Laranja, Viktor Yuschenko, no fim de seu governo, após não conseguir se reeleger ao perder a eleição para Yanukovich, premiou postumamente com o título de “Herói da Ucrânia” o líder fascista e colaborador de nazistas, Stepan Bandera(56) . O que Sergei Kirichuk demonstra é que foi a partir do apoio do Estado burguês e da grande burguesia ucraniana que se construiu o fascismo. Yanukovich alimentou a fera fascista, que depois devorou a mão que lhe entregava dinheiro(57) . 

Com grande clarividência, o líder do Borotba coloca que eles não lutam apenas contra os fascistas, mas que é necessário lutar principalmente contra a “oligarquia ucraniana e a classe dominante ucraniana, porque os fascistas ucranianos são apenas um sintoma dessa doença chamada desenvolvimento capitalista. Atualmente, eles são apenas um dos problemas da Ucrânia porque nós temos um enorme número de problemas ligados à corrupção, pobreza e movimentos de extrema-direita. O grande desemprego, a pobreza na Ucrânia, eles não criam uma boa base de desenvolvimento, mas estes movimentos neonazistas. Logo, nosso inimigo central é a classe dominante”(58) . 

Apesar da ameaça fascista, felizmente, no Sul e no Leste da Ucrânia – mesmo que a campanha de desinformação da grande mídia internacional pinte a mobilização popular nessas regiões como um plano arquitetado por Moscou, chamando os militantes de “pró-russos” – cresce uma verdadeira revolução antifascista, com a entrada em cena de batalhões pesados da classe operária, como os mineiros. Inclusive se debate entre estes a necessidade de expropriar a propriedade dos oligarcas. Ainda há esperança para a Ucrânia. Ainda há esperança para a Europa. Que a resistência do povo ucraniano oriental derrote o fascismo como o povo soviético derrotou a besta nazista em Stalingrado.

Notas:

(1) Kuzio, Taras. Yushchenko Finally Gets Tough On Nationalists. Eurasia Daily Monitor, v.1, n° 66. Disponível em:http://www.jamestown.org/single/?no_cache=1&tx_ttnews%5Bswords%5D=8fd5893941d69d0be3f378576261ae3e&tx_ttnews%5Bany_of_the_words%5D=Tyahnybok&tx_ttnews%5Btt_news%5D=26703&tx_ttnews%5BbackPid%5D=7&cHash=0a5d124110#.U2nW4_ldXZ0. 

(2) Olszański , Tadeusz A.. Svoboda party – the new phenomenon on the Ukrainian right-wing scene. OSW Commentary, n.° 56, 2011. p.2. Disponível em:http://mercury.ethz.ch/serviceengine/Files/ISN/137051/ipublicationdocument_singledocument/fd513b79-1b42-403d-bde8-3d3d3a6a6f32/en/commentary_56.pdf.

(3) Democracy and Class Struggle. Ukraine: Sergei Kirichuk of Union Borotba Interviewed by the Last Defense – Red Star verses Brown Shirt. 5 de abril de 2014. Disponível em: http://democracyandclasstruggle.blogspot.co.uk/2014/04/ukraine-sergei-kirichuk-of-union_5.html. Tradução livre do inglês.

(4) Segundo a pesquisa da R&B, entre os moradores da Kiev, “majoritariamente favorável ao EuroMaidan, mostra que 69% consideram totalmente negativa a atitude de derrubada da estátua [de Lênin]; apenas 13% a consideram totalmente positiva; e, 67% consideraram um ato bárbaro, contra apenas 29% que não o tipificam assim.” Ferreira, Carlos Serrano. A Batalha pela Ucrânia. História & Luta de Classes, n° 17, março 2014. p. 72. 

(5) Ver nota (3). Tradução livre do inglês.

(6) Seria muito polêmico acrescentar a ditadura dos coronéis (1967-1974), um regime ditatorial militar, mas que não chegava a ser um fascismo clássico.

(7) Infelizmente, devido aos limites do espaço, não será possível aqui citar a extensa ligação entre países imperialistas europeus e, principalmente, os EUA, com os fascistas ucranianos desde seu surgimento décadas atrás. 

(8) As informações sobre a participação dos fascistas no novo governo foram extraídas principalmente do artigo de Greg Rose, Ukraine Transition Government: Neo-Nazis in Control of Armed Forces, National Security, Economy, Justice and Education, publicado em 2 de março deste ano em Global Research News e disponível emhttp://www.globalresearch.ca/ukraine-transition-government-neo-nazis-in-control-of-armed-forces-national-security-economy-justice-and-education/5371539. 

(9) Democracy and Class Strugle. Know your Enemy :The new neoliberal fascist government in Ukraine. Disponível em: http://democracyandclasstruggle.blogspot.co.uk/2014/03/the-new-neoliberal-fascist-government.html. Tradução livre do inglês.

(10) Informação extraída de Mitralias, Yorgos. Ucrânia: Anti-fascistas europeus, despertem! A peste castanha está de volta!. 8 de março de 2014. Disponível em:http://www.esquerda.net/artigo/ucrânia-anti-fascistas-europeus-despertem-peste-castanha-está-de-volta/31654. 

(11) Ver nota (8). Tradução livre do inglês.

(12) Ryan, John. Misinformation about Ukraine and Russia. Disponível em: http://canadiandimension.com/articles/6044/. 

(13) Ver nota (9). Tradução livre do inglês.

(14) Ver nota (8). Tradução livre do inglês.

(15) Ver nota (12).

(16) Ver nota (9). Tradução livre do inglês.

(17) Ver nota (2). p.2. 

(18) Ames, Paul. Europe’s Far Right Is Embracing Putin. 10 de abril de 2014. Disponível em: http://www.businessinsider.com/paul-ames-europes-far-right-is-embracing-putin-2014-4#!J4Zqz. 

(19) Tiahnybok, Oleh. Oleh Tiahnybok withdraws Svoboda’s membership within the Alliance of European National Movements. 20 de março de 2014. Disponível em:http://en.svoboda.org.ua/news/events/00010596/. 

(20) Disponível em http://metapolls.net/2014/04/23/ukrainian-presidential-election-23-april-2014-poll/#.U2hfG_ldXZ0. 

(21) Sobre essa transformação de uma insurreição em golpe sugere-se a leitura do artigo Ferreira, Carlos Serrano. Ucrânia: da insurreição ao golpe. Diário Liberdade. Disponível em: http://www.diarioliberdade.org/opiniom/opiniom-propia/46329-ucrània-da-insurreição-ao-golpe.html. Pode ser acessado em vários outros sites, como no do PCB: http://www.pcb.org.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=7097%3Aucrania-da-insurreicao-ao-golpe&catid=43%3Aimperialismo. 

(22) EFE. Chanceler estoniano sugere que atiradores de Kiev foram pagos pela oposição. UOL Notícias. Disponível em:http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2014/03/05/chanceler-estoniano-sugere-que-atiradores-de-kiev-foram-pagos-pela-oposicao.htm. 

(23) Sobre isso veja-se Who is in charge of Ukraine today?. Oriental Review. 19 de março de 2014. Disponível em:http://orientalreview.org/2014/03/19/who-is-in-charge-of-ukraine-today/. 

(24) Suanzes, Pablo Rodríguez. El Parlamento destituye a Yanukovich y convoca elecciones. El Mundo, 22 de fevereiro de 2014. Disponível em: http://www.elmundo.es/internacional/2014/02/22/53086e73e2704ec87a8b456a.html. Grifos no original. Tradução livre do castelhano. 

(25) RT. Canceled language law in Ukraine sparks concern among Russian and EU diplomats. 27 de fevereiro de 2014. Disponível em: http://on.rt.com/fpsdcn. 

(26) Who is in charge of Ukraine today?, citado na nota (23).

(27) RT. Ukrainian court bans Russian TV broadcast.26 de março de 2014. Disponível em: http://on.rt.com/w7ybdu. 

(28) Idem.

(29) RT. Humiliation: Ukrainian MP & thugs beat state TV Channel head into resigning (VIDEO). 18 de março de 2014. Disponível em: http://on.rt.com/b3y4ax. Além da notícia há um vídeo com as cenas de brutalidade fascista. 

(30) Idem.

(31) Santayana, Mauro. Capitalismo ameaçado passeia com o fascismo. 9 de março de 2014. Disponível em:http://www.viomundo.com.br/denuncias/mauro-santayana-capitalismo-ameacado-sempre-passeia-com-o-fascismo-o-ataque-aos-povos-roma-na-europa.html. 

(32) Idem.

(33) PCO. Fascistas queimam casa de líder do Partido Comunista. Disponível em: http://pco.org.br/blog/politicainternacional/238/europa/ucrania/2014/fascistas-queimam-casa-de-lider-do-partido-comunista/. Sobre outras ações terroristas dos fascistas na Ucrânia pode se ler mais em: Workers BushTelegraph. The Coup Leadership in Ukraine is Fascist. 28 de abril de 2014. Disponível em: http://workersbushtelegraph.com.au/2014/04/28/the-coup-leadership-in-ukraine-is-fascist/. 

(34) Fascistas queimam casa de líder do Partido Comunista. Ver nota anterior.

(35) RT. Ukraine: “Thugs R Us”. Western-Backed Extremists’ Intimidation Techniques. 27 de fevereiro de 2014. Tradução livre do inglês. Disponível em: http://www.globalresearch.ca/ukraine-thugs-r-us-western-backed-extremists-intimidation-techniques/5370914. 

(36) DNAgola. Deputados nacionalistas e comunistas trocaram tapas na sessão de ontem do Conselho Supremo em Kiev. Disponível em: http://www.dnangola.com/2014/04/deputados-nacionalistas-e-comunistas-trocaram-tapas-na-sessao-de-ontem-do-conselho-supremo-em-kiev/. 

(37) La Republica. Rostislav Vasilk, comunista torturado por los fascistas de EuroMaidan. 27 de fevereiro de 2014. Disponível em: http://www.larepublica.es/2014/02/rostislav-vasilk-comunista-torturado-por-los-fascistas-de-euromaidan/. 

(38) Bleitrach, Danielle. Questions à l’Union européenne et au gouvernement français. Disponível em: http://histoireetsociete.wordpress.com/2014/02/26/questions-a-lunion-europeenne-et-au-gouvernement-francais-par-danielle-bleitrach/. 

(39) Ver nota (35).

(40) Tahrir-ICN. Anarquista ucraniano alerta sobre a influência fascista na oposição ucraniana. Tradução Carlos Serrano Ferreira. Diário Liberdade. Disponível em: http://www.diarioliberdade.org/mundo/antifascismo-e-anti-racismo/45455-ucrânia-anarquista-ucraniano-dissipa-mitos-que-cercam-os-protestos-do-euromaidan-e-alerta-sobre-a-influência-fascista.html. 

(41) Ver nota (23). Tradução livre do inglês.

(42) É importante notar que a Divisão Galitzia da Waffen SS teve um importante papel na história do fascismo ucraniano, e não é estranho que seja um parâmetro para esse processo: “Os nazistas ucranianos não apenas forneceram assassinos e torturadores para o holocausto — e a eliminação de prisioneiros políticos e de homossexuais — mas também lutaram ao lado dos alemães, por meio da sua famigerada Legião Ucraniana de Autodefesa e da Divisão SS Galitzia, contra os russos, na Segunda Guerra Mundial.Longe de renegar esse passado, do qual toma parte o extermínio da própria população ucraniana – em Baby Yar, uma ravina perto de Kiev, foram massacrados, com a ajuda de soldados e policiais ucranianos, 150.000 mil civis, entre ciganos, comunistas, e judeus ucranianos, 33.700 deles apenas nos dias 29 e 30 de setembro de 1941 – a direita ucraniana o venera e honra. No dia primeiro de agosto de 2013, com a presença de um padre ortodoxo, dezenas de pessoas vestindo uniformes da Waffen SS, em meio a uma profusão de bandeiras ucranianas e de suásticas, se encontraram na cidade de Chervone, na Ucrânia, para honrar o “sacrifício” dos “heróis” ucranianos da Divisão SS Galitzia”. Ver referência na nota (31).

(43) Ver nota (23). Tradução livre do inglês.

(44) Ver nota (9). Tradução livre do inglês.

(45) Pode-se ver informações sobre o Massacre em RT. Radicals shooting at people in Odessa’s burning building caught on tape. 4 de maio de 2014. Disponível em:http://on.rt.com/oa8vvj; Oliphant, Roland. Ukraine crisis: death by fire in Odessa as country suffers bloodiest day since the revolution. The Telegraph, 3 de maio de 2014. Disponível em:http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/europe/ukraine/10806656/Ukraine-crisis-death-by-fire-in-Odessa-as-country-suffers-bloodiest-day-since-the-revolution.html; 

(46) The Coup Leadership in Ukraine is Fascist. Ver nota (33). Tradução livre do inglês.

(47) Ver nota (9). Tradução livre do inglês.

(48) Vyacheslav Likhachev . 2012 REPORT on manifestations of anti-semitism in Ukraine. Disponível em:http://eajc.org/page635. 

(49) Ver nota (2). p.2.

(50) Ver nota(2). p.2.

(51) Ver nota (35).

(52) Ver nota (31).

(53) EFE. Aumento da violência neonazista gera debate e protestos na Suécia. 16 de março de 2014. Disponível em:https://br.noticias.yahoo.com/aumento-violência-neonazista-gera-debate-protestos-suécia-131358617.html. 

(54) Ver nota (9). Tradução livre do inglês.

(55) Ver nota (3). Tradução livre do inglês.

(56) RT. Bandera: Ukraine’s national hero or traitor?. 5 de abril de 2010. Disponível em: http://on.rt.com/tty2if. 

(57) Outro exemplo de financiamento das oligarquias ao Svoboda pode ser visto nas eleições dos conselhos distritais em 2009, onde Ihor Kolomoyskyi, em conflito há época com Yulia Timoshenko, financiou a campanha do candidato do Svoboda ao conselho de distrital de Ternopil. Fonte: Olszański , Tadeusz A.. Svoboda party – the new phenomenon on the Ukrainian right-wing scene. OSW Commentary, n.° 56, 2011. p.5. Disponível em: http://mercury.ethz.ch/serviceengine/Files/ISN/137051/ipublicationdocument_singledocument/fd513b79-1b42-403d-bde8-3d3d3a6a6f32/en/commentary_56.pdf. 

(58) Ver nota (3). Tradução livre do inglês.

Wallerstein: o sentido histórico da revolta zapatista

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Tratada com ironia, mesmo entre certa esquerda, insurreição de 1994 abriu caminho para retomada da ação anticapitalista, quando sistema julgava-se imbatível

Por Immanuel Wallerestein | Tradução: Gabriela Leite

Em 1º de janeiro de 2014, o Exército Zapatista de Liberação Nacional (EZLN) celebrou o vigésimo aniversário de sua insurreição em Chiapas. Este ano, eles estão se envolvendo em uma auto-avaliação. Em abril, na página web do EZLN, o Enlace Zapatista, o Subcomandante Insurgente Moisés publicou um editorial sobre a “guerra contra o esquecimento”. Ele diz que em meros dezenove anos, a luta do EZLN “toreou” o sistema que oprime os povos indígenas há 520 anos.

Quais foram as realizações do EZLN? Em que sentido, pode-se dizer que ele teve sucesso? O EZLN tem sido tratado com ironia não apenas pena direita mundial, mas também por certos grupos  da esquerda, que o acusam de ser muito irrelevante para a luta mundial contra o imperialismo e o neoliberalismo. O que eles alcançaram, perguntam os críticos? Sua trajetória teria sido mais que um show de relações públicas?

Este tipo de crítica não compreende nada sobre a insurreição. O primeiro feito dos zapatistas tem sido sobreviver contra um exército mexicano que tem se esforçado, há vinte anos, por destruí-los. A ameaça foi evitada não por proeza militar do EZLN (seu poder  não pode ser comparado à do exército mexicano), mas por sua força política — tanto internamente, entre os povos indígenas de Chiapas, quanto externamente, no resto do mundo. É essa força que limitou os danos do exército a não mais que perseguições (algumas com assassinatos) nas margens das comunidades anôminas zapatistas.

Qual foi a múltipla mensagem do EZLN, ao governo mexicano e ao mundo, em 1º de janeiro de 1994, quando começou o levante? Primeiro, estavam reivindicando a dignidade dos povos indígenas oprimidos, ao renovar a exigência de exercer o governo de suas próprias comunidades, por meio das próprias populações, coletiva e democraticamente. Em segundo lugar, estavam dizendo que não têm nenhum interesse em chegar ao poder de Estado no México, o que seria, em sua visão, simplesmente trocar um conjunto de opressores por outro. Ao invés disso, demandavam que o governo mexicano reconhecesse formal e sinceramente sua autonomia.

Em terceiro lugar, o EZLN escolheu a data porque marcava a entrada em vigor do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (Nafta, em inglês). Ao escolher esta data, estavam afirmando sua rejeição ao papel imperialista dos Estados Unidos, no México e em todo o mundo. Quarto: afirmavam que, ao invés de focarem sua ação especificamente em Chiapas, apoiavam as lutas de todos os povos e classes oprimidas ao redor do mundo. Enfatizaram isso ao convocar mais tarde, em Chiapas, o que eles chamaram de reuniões intergaláticas; e ao se recusarem a excluir participantes que eram rejeitados por outros convidados. E em quinto lugar, solicitaram compartilhar estas visões com outros oprimidos no México através do Congresso Nacional Indígena.

 O levante do EZLN foi o início de uma contra-ofensiva da esquerda mundial contra o avanço,  relativamente breve, da direita mundial, entre 1970 e 1994. A combinação do impacto político e econômico do Consenso de Washington e o aparente triunfo, com o colapso da União Soviética, permitiram à direita sonhar com a dominação permanente do sistema mundial. O que os zapatistas fizeram foi lembrá-los (e o mundo de esquerda) que há, sim, uma alternativa — a de um mundo relativamente democrático e relativamente igualitário.

Em 1º de janeiro de 1994, o EZLN abriu caminho para os protestos bem sucedidos que ocorreriam Seattle, em 1999; e em diversas outras cidades, na sequência — assim como para a fundação do Fórum Social Mundial (FSM) em Porto Alegre, em 2001. A luta contínua do FSM e do que agora tem sido chamado de movimento por Justiça Global, foi possível por causa do EZLN.

É claro que, como o Subcomandante Insurgente Moisés nos recorda, “não pode haver descanso; é preciso trabalhar duro”. Suponho que esta seja a mensagem definitiva do EZLN. Não pode haver descanso para qualquer um de nós que acredite que “outro mundo é possível”.

FONTE: http://outraspalavras.net/capa/wallerstein-o-sentido-historico-da-revolta-zapatista/

Saudades de Salassier

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Ainda refletindo sobre a profunda degradação da nossa direção institucional, me vi lembrando da gestão do Prof. Salassier Bernardo com quem tive profundas diferenças em muitos momentos. O interessante é que mesmo durante os períodos de confrontos mais duros, sempre mantivemos uma relação respeitosa fora dos colegiados. Essa era uma qualidade singular do Prof. Salassier, pois ele não via a discordância como algo nefasto ou que o portador do contraditório devesse ser perseguido. Tanto isto é verdade que nunca sofri uma comissão de sindicância sequer durante seus quatro anos de gestão. E isso é uma marca impressionante já que os reitores seguintes me premiaram com tantas que eu até perdi a conta, incluindo um que jurava que tinha enfrentado a ditadura em nome da democracia!
Mas deixemos minhas reminiscências pessoais de lado e vamos ao que interessa. Eu preciso lembrar aos que esqueceram que na gestão do Prof. Salassier os colegiados funcionavam e ali se discutia tudo, inclusive as greves que ocorriam na instituição. Muitos dos que hoje abominam este tipo de discussão dentro dos colegiados não raras vezes eram os mais incendiários nos ataques dentro dos colegiados. Por essas e outras é que eu olho para a gestão do Prof. Salassier com uma certa nostalgia, pois a UENF vivia um tempo onde havia democracia e tínhamos diferenças que eram discutidas quase à exaustão em tempo real.
Felizmente, sinto que muita gente se cansou do atual estado de letargia sistêmica e estamos prontos para retomar o caminho da democracia, onde poderemos nos  concentrar positivamente na construção de um modelo de descentralização orçamentária e discussão efetiva das prioridades coletivas que vão ainda impulsionar a UENF para grandes conquistas. E vamos olhar para os últimos 10 anos apenas como aquilo dizia Leonel Brizola sobre Garotinho… um fogo que passou e se alastrou dentro do canavial num dia de vento forte.
Finalmente, acho que nem preciso avisar, mas não sou e não serei candidato a nada em 2015. Serei apenas um soldado a serviço da superação do Ancien Régime que hoje asfixia a criatividade e a democracia dentro da UENF.

Rafucko convida Eduardo Paes para entrevista no Twitter

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Uma das poucas coisas em que eu e Eduardo Paes concordamos é que o Twitter é bem mais legal que o Facebook!

Por isso, se vocês querem que ele aceite meu convite para entrevista, o ideal é mandar um tweet para http://www.twitter.com/eduardopaes_ , que lá quem lê é ele próprio (quem faz o “feice´´ é uma agência).
Então, simbora? “Eduardo, por favor, aceite o convite pra participar do Talk Show do Rafucko! ‪#‎AceitaPaes‬”

Veja o vídeo oficial da campanha: http://youtu.be/KijtqeFkY94

Apóie o Talk-Show do Rafucko (falta pooouco!) http://catarse.me/rafucko

Comissão Pastoral da Terra lança nota sobre falecimento de D. Tomás Balduíno

Comissão Pastoral da Terra – Secretaria Nacional 
Assessoria de Comunicação


NOTA DE FALECIMENTO

Dom Tomás Balduino, fundador da CPT, fez a sua páscoa

“Para tudo há uma ocasião certa;
há um tempo certo para cada propósito
debaixo do céu: Tempo de nascer e tempo de morrer,
tempo de plantar
e tempo de arrancar o que se plantou…

tempo de lutar e tempo de viver em paz”. 

(Eclesiastes 3:1-8)

É com grande pesar e muita tristeza que a Comissão Pastoral da Terra (CPT) comunica a todos e todas o falecimento de Dom Tomás Balduino. Fundador da CPT, bispo emérito da cidade de Goiás e frade dominicano, Dom Tomás lutou por toda sua vida pela defesa dos direitos dos pobres da terra, dos indígenas, das demais comunidades tradicionais, e por justiça social. Nem mesmo com a saúde debilitada e internado no hospital ele deixava de se preocupar com a questão da terra e pedia, em conversas, para saber o que estava acontecendo no mundo.

Aos 91 anos, completados em dezembro passado, Dom Tomás Balduino, o bispo da reforma agrária e dos indígenas, nos deixa seu exemplo de luta, esperança e crença no Deus dos pobres. Ficamos, hoje, todos e todas um pouco órfãos, mas seguimos na certeza de quem Dom Tomás está e estará presente sempre, nos pés que marcham por esse país e nas bandeiras que tremulam por esse mundo em busca de uma sociedade mais justa e igualitária.

Dom Tomás faleceu em decorrência de uma trombo embolia pulmonar, às 23h30 de ontem, 02 de maio de 2014. Ele permaneceu internado entre os dias 14 e 24 de abril último no hospital Anis Rassi, em Goiânia. Teve alta hospitalar dia 24, e no dia seguinte foi novamente internado, porém desta vez no Hospital Neurológico, também em Goiânia.

O Corpo será velado na Igreja São Judas Tadeu, no Setor Coimbra, em Goiânia, até às 10 horas do domingo, dia 4 de maio, momento em que será concelebrada a Eucaristia, e logo em seguida será transladado para a cidade de Goiás (GO), onde será velado na Catedral da cidade até às 9 horas da segunda-feira, 5 de maio, e logo em seguida será sepultado na própria Catedral.

Biografia de Dom Tomás Balduino

O bispo emérito da cidade de Goiás, dom Tomás Balduíno (Valter Campanato/Agência Brasil)

Dom Tomás Balduino nasceu em Posse, Goiás, no dia 31 de dezembro de 1922. Ele é filho de José Balduino de Sousa Décio, goiano, e de Felicidade de Sousa Ortiz, paulista. Seu nome de batismo é Paulo, Paulo Balduino de Sousa Décio. Foi o último filho homem de uma família de onze filhos, três homens e oito mulheres. Ao se tornar religioso dominicano recebeu o nome de Frei Tomás, como era costume.

Até os cinco anos de idade viveu em Posse. Depois a família migrou para Formosa, onde seu pai se tornou promotor público, depois juiz e se aposentou como tal.

Fez o Seminário Menor – Escola Apostólica Dominicana – em Juiz de Fora, MG. Fez os estudos secundários no Colégio Diocesano, dirigido pelos irmãos maristas, em Uberaba.  Cursou filosofia em São Paulo e Teologia em Saint Maximin, na França, onde também fez mestrado em Teologia.

Em 1950, lecionou filosofia em Uberaba. Em 1951 foi transferido para Juiz de Fora como vice-reitor da então Escola Apostólica Dominicana e lecionou filosofia, na Faculdade de Filosofia da cidade.

Em 1957, foi nomeado superior da missão dos dominicanos da Prelazia de Conceição do Araguaia, estado do Pará, onde viveu de perto a realidade indígena e sertaneja. Na época a Pastoral da Prelazia acompanhava sete grupos indígenas. Para desenvolver um trabalho mais eficaz junto aos índios, fez mestrado em Antropologia e Linguística, na UNB, que concluiu em 1965. Estudou e aprendeu a língua dos índios Xicrin, do grupo Bacajá, e Kayapó.

Para melhor atender a enorme região da Prelazia que abrangia todo o Vale do Araguaia paraense e parte do baixo Araguaia mato-grossense, fez o curso de piloto de aviação. Amigos solidários da Itália o presentearam com um teco-teco com o qual prestou inestimável serviço, sobretudo no apoio e articulação dos povos indígenas. Também ajudou a salvar pessoas perseguidas pela Ditadura Militar.

Em 1965, ano em que terminou o Concílio Ecumênico Vaticano II, foi nomeado Prelado de Conceição do Araguaia. Lá viveu de maneira determinante e combativa os primeiros conflitos com as grandes empresas agropecuárias que se estabeleciam na região com os incentivos fiscais da então SUDAM, e que invadiam áreas indígenas, expulsavam famílias sertanejas, os posseiros, e traziam trabalhadores braçais de outros Estados, sobretudo do nordeste brasileiro, que eram submetidos, muitas vezes, a regimes análogos ao trabalho escravo.

Em 1967, foi nomeado bispo diocesano da Cidade de Goiás. Nesse mesmo ano foi ordenado bispo e assumiu o pastoreio da Diocese, onde permaneceu durante 31 anos, até 1999 quando, ao completar 75 anos, apresentou sua renúncia e mudou-se para Goiânia. Seu ministério episcopal coincidiu, a maior parte do tempo, com a Ditadura Militar (1964-1985).

Dom Tomás, junto à Diocese de Goiás, procurou adequar a Diocese ao novo espírito do Concílio Ecumênico Vaticano II e de Medellín (1968). Por isso sua atuação, ao lado dos pobres, no espírito da opção pelos pobres, marcou profundamente a Diocese e seu povo. Lavradores se reuniam no Centro de Treinamento onde Dom Tomás morava, para definir suas formas de organização e suas estratégias de luta. Esta atuação provocou a ira do governo militar e dos latifundiários que perseguiram e assassinaram algumas lideranças dos trabalhadores. Em julho de 1976, Dom Tomás foi ao sepultamento do Padre Rodolfo Lunkenbein e do índio Simão Bororo, assassinados pelos jagunços, na aldeia de Merure, Mato Grosso. Em sua agenda estava programada uma outra atividade. Soube depois, por um jornalista, que durante esta atividade programada, estava sendo preparada uma emboscada para eliminá-lo.

Alguns movimentos nacionais como o Movimento do Custo de Vida, a Campanha Nacional pela Reforma Agrária, encontraram apoio e guarida de Dom Tomás e nasceram na Diocese de Goiás.

Dom Tomás foi personagem fundamental no processo de criação do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), em 1972, e da Comissão Pastoral da Terra (CPT), em 1975.  Nas duas instituições Dom Tomás sempre teve atuação destacada, tendo sido presidente do CIMI, de 1980 a 1984 e presidente da CPT de 1999 a2005. A Assembleia Geral da CPT, em 2005, o nomeou Conselheiro Permanente.

Depois de deixar a Diocese, além de ser presidente da CPT, desenvolveu uma extensa e longa pauta de conferências e palestras em Seminários, Simpósios e Congressos, tanto no Brasil quanto no exterior. Por sua atuação firme e corajosa recebeu diversas condecorações e homenagens Brasil afora. Em 2002, a Assembleia Legislativa do Estado de Goiás lhe concedeu a medalha do Mérito Legislativo Pedro Ludovico Teixeira. No mesmo ano recebeu o Título de Cidadão Goianiense, outorgado pela Câmara Municipal de Goiânia.

Foi designado, em 2003, membro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, CDES, do Governo Federal, cargo que deixou por sentir que pouco ou nada contribuía para as mudanças almejadas pela nação brasileira. Foi também nomeado membro do Conselho Nacional de Educação.

No dia 8 de novembro de 2006, Dom Tomás recebeu da Universidade Católica de Goiás (UCG) o título de Doutor Honoris Causa, devido ao comprometimento de Dom Tomás com a luta pelo povo pobre de Deus.

No dia 18 de abril de 2008 recebeu em Oklahoma City (EUA), da Oklahoma City National Memorial Foudation, o prêmio Reflections of Hope. A organização considerou que as ações de Dom Tomás são exemplos de esperança na solução das causas que levam a miséria de tantas pessoas em todo o mundo. A premiação Reflections of Hope foi criada em 2005 para lembrar o 10º aniversário do atentado terrorista de Oklahoma – quando um caminhão-bomba explodiu em frente a um edifício, matando 168 pessoas – e para homenagear aqueles que representam a esperança em meio à tragédia e dedicam suas vidas para melhorar a vida do próximo.

De 22 até 29 de março 2009 foi em Roma para participar das palestras em homenagem de Dom Oscar Romero e dos 29 anos do seu assassinato.

Em 2012 a Universidade Federal de Goiás (UFG) também lhe outorgou o título de Doutor Honoris Causa. Em dezembro do mesmo ano, durante as comemorações dos seus 90 anos, a CPT homenageou-o dando o seu nome ao Setor de Documentação da Secretaria Nacional, que passou a se chamar “Centro de Documentação Dom Tomás Balduino”.

 CPT Nacional.

MPF denuncia um boliviano e três brasileiras por trabalho escravo em Americana  

Anali Dupré/Repórter Brasil, Confecção contratada pela Zara terceirizava produção para atender à demanda e fechava os olhos para a violação de direitos

O boliviano Narciso Atahuichy Choque, dono de uma confecção, e as brasileiras Rosangila Theodoro, Sonia Aparecida Campanholo e Silva Regina Fernandes Ribeiro da Costa, respectivamente sócia e funcionárias da Rhodes Confecções, foram denunciados pelo Ministério Público Federal em Piracicaba por manterem 51 trabalhadores em condições análogas às de escravos em uma oficina de costura em Americana, no interior paulista. Entre as vítimas, 45 bolivianos. Entre eles, 13 em situação irregular no Brasil.

O boliviano e as três brasileiras foram denunciados nos artigos 149, por reduzir alguém a condição análoga à de escravo, e 203, por frustrar direito assegurado pela legislação do trabalho, ambos do Código Penal.

Em operação realizada pelo Ministério do Trabalho e Emprego entre maio e agosto de 2011 foi constatado que diversos desses trabalhadores se dedicavam à confecção de peças de vestuário da marca Zara, encomendadas pela Rhodes. A empresa funcionava como fornecedora direta da grife espanhola, mas para atender à demanda, terceirizava a produção para outras confecções, como a do boliviano.

As brasileiras fecharam os olhos para as irregularidades visando a baratear as peças. Pela denúncia, Sonia e Silvia faziam visitas frequentes à oficina para vistoriar a produção, e Rosangila sabia da utilização de mão de obra barata ao contratar empresas sem idoneidade econômica, como a do denunciado.

Conforme nota do MPF, os empregados eram submetidos a jornadas exaustivas de até 14 horas diárias e a condições degradantes de trabalho. Não possuíam registro em carteira, equipamento de segurança e não tinham descanso mínimo durante a jornada. No caso dos estrangeiros, os três primeiros salários eram retidos indevidamente para a quitação das dívidas adquiridas com transporte e alimentação no trajeto da Bolívia para o Brasil. 

A oficina funcionava ainda como alojamento em condições insalubres. Havia quartos sem ventilação, alimentos armazenados no chão e banheiros em mau estado de conservação e limpeza. Lá moravam três menores, sendo dois bebês.

O Ministério do Trabalho interditou o imóvel devido às más condições de higiene e ameaças à segurança dos trabalhadores. Havia perigo de choque elétrico, incêndio, explosão e até risco de morte por asfixia em caso de vazamento de gás, por conta da grande quantidade de material inflamável, instalações elétricas improvisadas, extintores de incêndio vencidos e falta de ventilação.

Foi comprovado que Narciso Choque restringia a liberdade dos bolivianos devido às adquiridas com as despesas da viagem para o Brasil, que eram pagas por ele. De acordo com a denúncia, o único portão de entrada do alojamento permanecia fechado com cadeado e nenhum dos trabalhadores consultados pela equipe de fiscalização possuía a chave.

Com informações do MPF-SP

MPF/BA aciona Braskem por contaminação com mercúrio na Enseada dos Tainheiros

mercúrio

MPF requer que empresa repare danos ambientais causados e pague indenização por danos morais coletivos

O Ministério Público Federal na Bahia (MPF/BA) ajuizou ação civil pública contra a Braskem S. A. por contaminação com mercúrio na Enseada dos Tainheiros, localizada na península de Itapagipe, em Salvador (BA). Na ação, o MPF requer que a empresa repare os danos ambientais causados e pague indenização por danos morais coletivos.

De acordo com a ação, a Companhia Química do Recôncavo Baiano (CRQ), posteriormente incorporada pela Braskem, que funcionou nas proximidades da Enseada dos Tainheiros por cerca de 11 anos, produzia cloro-soda pelo processo eletrolítico de célula de mercúrio e lançava efluentes líquidos sob a forma inorgânica de cloreto de mercúrio diretamente no mar, poluindo a área e expondo a população a alto risco de intoxicação.

A empresa se mudou para o Polo Petroquímico de Camaçari em 1978, mas os resultados do lançamento dos efluentes permanecem até hoje depositados nos sedimentos de fundo da Enseada, na forma inorgânica, que não é tóxica. Segundo estudos realizados no local, embora os níveis de mercúrio presentes no mar se encontrem dentro dos limites aceitáveis pela legislação brasileira, existe o risco de que uma movimentação dos sedimentos em decorrência do fluxo das marés ou da própria atividade humana possa provocar um processo de metilação do mercúrio e sua dispersão na forma orgânica, que pode bioacumular na cadeia alimentar, atingindo o homem. Vale ressaltar que essa contaminação é altamente tóxica e pode causar graves danos à saúde humana.

Segundo a ação, de autoria da procuradora da República Caroline Queiroz, as ações promovidas pela Braskem nos últimos anos, a exemplo do monitoramento da área, não se revelam suficientes, buscando-se com a ação civil pública proposta “a integral e devida reparação dos gravíssimos danos materiais e extrapatrimoniais causados”. Assim, é imperioso que a empresa demandada responda civilmente pelos danos ambientais perpetrados na área da Enseada dos Tainheiros, bem como pelos danos morais infligidos à coletividade.

Pedidos – O MPF requer que a Braskem repare in natura, no que for possível, os danos materiais decorrentes do lançamento de efluentes líquidos sob a forma inorgânica de cloreto de mercúrio no mar da Enseada dos Tainheiros, com a apresentação de um Plano de Recuperação de Área Degradada, com acompanhamento técnico e anuência do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema); em relação aos danos irrestauráveis, requer compensação ambiental e pagamento de indenização equivalente. Requer, ainda, o pagamento de indenização por danos morais coletivos em valora ser arbitrado judicialmente.

Número para consulta processual: 0014843-08.2014.4.01.3300

FONTE: http://www.ecodebate.com.br/2014/05/02/mpfba-aciona-braskem-por-contaminacao-com-mercurio-na-enseada-dos-tainheiros/

Transporte público de qualidade e democrático… só que é na Alemanha

Tendo saído de Campos em meio a pantomina criada para supostamente ocultar a ruindade dos serviços públicos de transporte, não há como não ver uma diferença andando por uma rua na cidade de Hamburgo. Aqui existem ciclovias claramente demarcadas e ônibus para percorrer a cidade a preços razoáveis. De quebra, como mostram as imagens abaixo, o ponto de ônibus é austero, mas limpo e informativo.

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E antes que alguém venha com a desculpa que isso é coisa de país rico e que temos nos acostumar com a bagunça brasileira, eu tenho que lembrar que no caso da cidade de Campos, o problema não é financeiro, mas de qualidade da gestão pública. E o problema é que até aqueles que se dizem de oposição não parecem querer mudar essa situação.

Estado, fé e justiça

Por João Batista Damasceno

A ocupação da Catedral Metropolitana pelos despejados da Favela da Telerj, em decorrência de liminar deferida pelo Judiciário, expõe o calcanhar de Aquiles da política habitacional em nosso estado

#telerjresiste
A ocupação dos moradores da favela da telerj que foram violentame... virusplanetario

Rio – A ocupação da Catedral Metropolitana pelos despejados da Favela da Telerj, em decorrência de liminar deferida pelo Judiciário, expõe o calcanhar de Aquiles da política habitacional em nosso estado. O desalijo sem prévio cadastramento dificulta a implementação de política assistencial ou social. Despejados com truculência foram para a porta da prefeitura, onde permaneceram aguardando providências em seu proveito. Ao contrário de ajuda e solidariedade, receberam ameaças. Mães foram ameaçadas de perder a guarda dos filhos porque estavam em convívio familiar fora dos lares que não mais têm; sofreram a perturbação do sono noturno por sirenes da Guarda Municipal; crianças e mulheres grávidas foram retiradas da passarela do metrô, onde se protegiam da chuva durante a madrugada. Ao fim, foram de novo expulsos da porta da prefeitura com violência conjunta da Guarda Municipal e da Polícia Militar. Desrespeitou-se o preceito de que locais públicos são próprios para ir, vir e ficar. Abrigando-se da truculência estatal, foram para o único lugar onde, dizem, não sofreram violência: o pátio privado da Catedral; impróprio refúgio, mas necessário diante do que vivenciavam.

Os governantes estão tranquilos com a atual situação. Tratam-na como se fosse uma questão de fé a ser resolvida pela Arquidiocese. A questão é político-social e compete ao poder público, que apenas oferece a truculência do seu aparato repressivo, felizmente recusada pelo cardeal-arcebispo Dom Orani. Não é de hoje que governantes despidos de concepção adequada de suas funções consideram que problema social é caso de polícia.

Monteiro Lobato, no artigo ‘Velha Praga’, em 1914, escreveu se referindo ao povo: “Não há recurso legal contra ele. A única pena possível, barata, fácil e já estabelecida como praxe, é ‘tocá-lo’. Curioso este preceito: ‘ao caboclo, toca-se.’ Toca-se, como se toca um cachorro importuno, ou uma galinha que vareja pela sala.”

Remoções são realizadas à margem da lei, pois a ordem jurídica não as autoriza, aproveitando-se da cegueira ou miopia dos órgãos encarregados de garantir o império da justiça. Ainda que realocações sejam autorizadas legalmente em casos necessários, não devem afastar a pessoa de suas referências, da possibilidade de convívio com seus familiares e dos grupos com os quais se relacione. Mas ao povo, toca-se. Nem gado, hoje, é tocado. Quando necessário, é transportado com maior cuidado que o dispensado a trabalhadores. Gado se guarda e se protege, pois tem valor econômico.

Se há dinheiro para a Copa do Mundo, para obras faraônicas e para empréstimos a fundo perdido a certos empresários, há de ter também para assegurar direitos constitucionais, dentre os quais o de moradia.

João Batista Damasceno é doutor em Ciência Política pela UFF

FONTE: http://odia.ig.com.br/noticia/opiniao/2014-05-03/joao-batista-damasceno.html

Entrevista com Saskia Sassen sobre o livro “Expulsões: brutalidade e complexidade na economia global

Hoje, em Bilbao, em Nova York na manhã de ontem, no Reino Unido entre dois vôos , Saskia Sassen , professora de Sociologia na Universidade de Columbia, em Nova York, discorre, debate provoca. Durante vinte anos , ela analisa a globalização em todas as suas dimensões políticas, sociais e econômicos, financeiros . Cosmopolita , esta poliglota nasceu na Holanda em 1949 , cresceu em Buenos Aires antes de estudar na França, Itália e Estados Unidos. Estes dias teve publicado nos Estados Unidos  a obra “Expulsões: Brutalidade e Complexidade na Economia Global (Harvard University Press).

 Abaixo a entrevista feita com Saskia Sassen por Olivier Guez para o jornal Le Monde Paris .

Em seu novo livro , você sabe que a globalização entrou em uma fase de ‘empurrar’ para a frente. O que quer dizer com isso?

Nas últimas duas décadas , um número crescente de pessoas, empresas e locais foram fisicamente como ‘expulsos’ da ordem econômica e social.  Trabalhadores pobres ficaram proteção social. Nove milhões de famílias americanas perderam suas casas após a crise do subprime. Em grandes cidades ao redor do mundo , as “classes médias” são gradualmente expulsas do centro da cidade que se tornou inacessível para o seu bolso . A população carcerária dos EUA aumentou em 600% nos últimos quarenta anos. O fraturamento hidráulico do solo para extrair gás de xisto transformou ecossistemas em deserto, que tem seus solos águas poluídos , como se fossem removidas fatias da biosfera. Centenas de milhares de moradores foram deslocadas desde que empresas estrangeiras, estatais e privadas , foram adquirindo terras nos quatro cantos do mundo: desde 2006, 220 milhões de hectares foram comprados , principalmente na África.

Todos esses fenômenos , sem ligações explícitas , que eles respondem , em sua opinião, a uma única lógica?

Aparentemente estão desligados um do outro, e cada um é explicado separadamente . O destino de um desempregado excluído, obviamente, nada tem a ver com um lago poluído na Rússia ou os EUA Isso não impede que , na minha opinião , a aplicação de uma nova dinâmica sistêmica , complexa e radical , que exige quadros teóricos inéditos. Eu sinto que nos últimos anos cruzamos uma linha invisível , como se tivéssemos ido para o outro lado do “algo”. Em muitas áreas – economia, finanças, desigualdade , meio ambiente , desastres humanitários – o aumento das curvas e ‘ expulsão ‘ foi acelerado. Suas vítimas desaparecem como navios que afundam no mar, sem deixar vestígios, pelo menos na superfície. Sem mais serem levados em conta .

Qual é a diferença entre um “excluído” e um “expulso”?

Os excluídos são uma vítima, um mais ou menos, um marginal infeliz , uma anomalia de uma certa forma , enquanto o expulso é uma conseqüência direta do funcionamento atual do capitalismo. O expulso pode ser uma pessoa ou uma categoria social, como os excluídos, mas também pode ser um espaço, um ecossistema, uma região inteira . O expulso é o produto das transformações atuais do capitalismo , que introduziu , no meu ponto de vista, na extração de lógica e destruição, seu corolário .

 É isso significa?

Antes, durante os ” trinta anos gloriosos ” no Ocidente, mas também no mundo comunista e no Terceiro Mundo , apesar de suas falhas , o crescimento da classes trabalhadora e média formou a base do sistema. Predominava então uma lógica distributiva e inclusiva. O sistema , com todos os seus defeitos , funcionou dessa maneira. Esse não é mais o caso. Essa é a razão de porque perdem pé a pequena burguesia e uma parte significativa das classes médias . Seus filhos são as principais vítimas : eles têm respeitado as regras do sistema e têm feito conscientemente tudo o que foi exigido deles – estudos, práticas, muitos sacrifícios – a fim de continuar sua ascensão social de seus pais. Eles não falharam, ainda , o sistema os expulsou pois não há espaço suficiente para eles.

Quem são os “expulsadores”?

Não se trata de falar de alguns indivíduos , ou mesmo de multinacionais deslumbradas por seu volume de negócios e negociação na Bolsa . Para mim os “expulsadores” são “formações predatórias ‘ que decorrem de uma combinação heterogênea e geograficamente dispersa de executivos, banqueiros , advogados, contadores , matemáticos , físicos, e elites globalizadas que são dotadas de capacidades sistêmicas extremamente poderosas.

– Máquinas, redes tecnológicas  – para adicionar e manipular conhecimentos e dados complexos, extremamente complexos para dizer verdade. Ninguém controla todo o processo . A desregulamentação das finanças dos anos 1980 tornou possível caminhar estas formações predatórias e chave são os derivados , funções de funções que se multiplicam os lucros, bem como perdas e deixar essa concentração extrema e sem precedentes de riqueza.

 Quais são as conseqüências do paradigma que você descreve?

Amputadas de pessoas expulsas – trabalhadores , florestas, geleiras, etc, as economias encolhem e degradam a biosfera , enquanto o aquecimento global e o derretimento das geleiras acelera de uma velocidade inesperada. A concentração da riqueza encoraja o processo de expulsão de dois tipos: dos mais desfavorecidos e dos super-ricos . Estes dois grupos são abstraídos da sociedade em que vivem fisicamente. Eles evoluem em um mundo paralelo reservados para castas e não assumem as suas responsabilidades cívicas. Em resumo , o algoritmo do neoliberalismo não funciona mais.

 O mundo que você descreve é muito desagradável . Não está carregando demais na tinta ?

Acho que não. Eu tiro essas conclusões de fenômenos subjacentes  que são extremos para alguns. E a lógica que eu relato coexiste com formas de governança mais refinadas e sofisticadas. Meu objetivo é soar o alarme. Estamos em um momento de balanço . A erosão do ator histórico fundamental “classe média” que foi o vetor de dois séculos anteriores da democracia , especialmente me preocupa. Este processo é muito perigoso politicamente,, e pode ser encontrado em todos os lugares do mundo neste momento.

Como podemos resistir a essas formações predadores ?

É difícil , devido à sua natureza complexa , já que estas pilhas de indivíduos , instituições, redes e máquinas são dificilmente identificáveis e rastreáveis. Dito isto , acho que o movimento Occupy Wall Street e seus derivados ‘ indignados ‘ , ou seja, a Primavera Árabe ou as manifestações de Kiev, embora ocorrendo em contextos sócio-políticos diferentes são respostas interessantes . Os expulsos estão se reapropriando do espaço público. Ancorados em um “buraco” – sempre uma praça principal, um local de passagem – e implementam uma sociedade temporária hipermidiatizada e criam um território. Apesar das alegações que não têm nem uma liderança precisa nem uma direção política clara , os expulsos reencontram uma presença nas cidades globais, essas metrópoles onde a mundialização se encarna  e se exibe. reunir uma presença em cidades globais , as cidades em que a globalização se encarna e exibidos. Na impossibilidade de apontar para um lugar de autoridade identificado com seus problemas – um palácio real , uma Assembléia Nacional , a sede de uma multinacional , um centro de produção , os expulsos ocupam um espaço indeterminado que é simbolicamente forte na cidade para reivindicar os seus direitos.

Na sua opinião qual é o destino desses movimentos?

Se forem considerados como cometas , a sorte está de fato definida. Mas eu tenho uma tendência para assimilar início de carreira, e cada ” ocupação ” é um seixo. É o embrião de uma estrada? Eu não sei. Mas o movimento das nacionalidades no feminismo do século XIX também começou com pequenos toques , atire até que as células começaram a realizar o seu conjunto e formam um todo. Esses movimentos , eventualmente, talvez , incentivando estados para lançar iniciativas globais na área de meio ambiente, acesso a água e comida.

Saskia Sassen, uma especialista em vários aspectos da Globalização, urbanismo e da migração humana, é professora de Sociologia na Universidade de Columbia em Nova York e professora visitante da London Schoool of Economics . Em 2013 ela ganhou o Prêmio Príncipe de Astúrias de Ciências Sociais .