Segundo juiz, bloqueio dos bens móveis e imóveis do empresário pela Justiça é iminente
Mariana Durão, do
Douglas Engle/Bloomberg News
Eike Batista: magistrado ironizou o fato de Eike ter declarado à imprensa que é um homem de classe média
Rio – O bloqueio dos bens móveis e imóveis do empresário Eike Batista pela Justiça é iminente.
Em entrevista ao Broadcast, serviço de notícias em tempo real da Agência Estado, o juiz titular da 3ª Vara Criminal Federal, Flávio Roberto de Souza, afirmou que a decisão ainda não foi tomada mas é “muito provável” já que o valor de ativos financeiros levantado até agora em nome do fundador do grupo X (R$ 117 milhões) está muito aquém do R$ 1,5 bilhão solicitado pelo Ministério Público Federal (MPF) para garantir a indenização de danos supostamente causados ao mercado de capitais.
O magistrado ironizou o fato de Eike ter declarado à imprensa que é um homem de classe média.
“Eike disse que está deprimido porque está ficando pobre. Uma pessoa de classe média não tem milhões de reais disponíveis para pagar despesas correntes. Ele deve ter uma vida de marajá”, brincou.
No começo do ano R$ 122 milhões já haviam sido congelados em contas bancárias de Eike, que disse ter hoje um patrimônio negativo líquido de US$ 1 bilhão.
Ontem a Justiça Federal informou ter bloqueado outros R$ 117 milhões, mas os advogados do empresário dizem que o montante se refere a cotas de um fundo de investimento formado por debêntures (títulos de dívida) e não dinheiro.
Para a defesa a decisão judicial não alcança tais títulos.
“Na minha interpretação a cota de um fundo se enquadra no conceito de ativo financeiro previsto na decisão que decretou o bloqueio. É uma discussão doutrinária”, disse o juiz Flávio Roberto de Souza.
O ofício consolidado do Banco Central com o total definitivo encontrado em contas correntes do empresário em 14 bancos do País só fica pronto nesta sexta-feira, 19.
Na segunda-feira as informações detalhadas serão enviadas ao MPF que pode se manifestar, por exemplo, quanto a legitimidade das debêntures para garantir a indenização de prejuízos no caso de uma condenação de Eike.
Depois disso o juiz da 3ª Vara Criminal Federal deverá decidir sobre o sequestro de bens.
“Como o valor que foi bloqueado em princípio está abaixo do que o Ministério Público está pleiteando na cautelar é muito provável que o arresto se estenda a bens móveis e imóveis”, explicou Souza.
Se a decisão sair, a Justiça oficiará órgãos como os cartórios de registro de imóveis, o Detran e a Capitania dos Portos para que informem o que o empresário tem de fato em seu nome. Peritos vão avaliar casas, carros e barcos encontrados nesse inventário.
No início da semana o advogado Sérgio Bermudes, representante de Eike, disse acreditar que a Justiça não deveria acatar o pedido do MPF para atingir os bens de seu cliente. “A Justiça sabe que os bens, os imóveis, não fogem, não se escondem”, argumentou.
“Eu odeio o Eike classe média”, desabafou Marilena Chaui
PINDAÍBA – Em coletiva de imprensa realizada numa animada roda de samba no Cacique de Ramos, Eike Batista improvisou um partido alto sobre sua atual situação financeira: “Fui no Pink Fleet, acabou a comida, acabou a bebida, acabou a canja. Sobrou pra mim, o bagaço laranja”, cantarolou, bebericando um Natu Nobilis.
Mais sereno, com um palito de dente no canto da boca, Eike enalteceu sua consciência solidária: “Fiz a minha parte pela redução da desigualdade social”, disse, enquanto fritava um gato angorá numa churrasqueira improvisada com escombros do Hotel Glória.
O ex-bilionário, no entanto, negou que tenha voltado à classe média. “Entrei para a classe X”, corrigiu. “Continuo empreendendo”, ressaltou, enquanto mostrava a foto da barraquinha de X-Tudo que montou perto da estação de trem em Austin. “Enquanto isso, contratei advogados do Fluminense em 12 prestações para voltar à elite”, concluiu.
A entrevista abaixo, publicada pelo Jornal O GLOBO, apresenta a visão de Eike Batista sobre sua derrocada do alto da glória de ser um dos homens mais ricos para alguém que deve, segundo ele mesmo, US$ 1 bilhão. A leitura da entrevista nos revela um Eike Batista levemente mais humilde e capaz de reconhecer parcialmente sua própria culpa no trágico destino das suas empresas pré-operacionais.
Mas essa disposição a falar precisa ser relacionada aos processos que está tendo responder após as ações iniciadas pelo Ministério Público Federal no Rio de Janeiro e em São Paulo. Assim, parte do que está dito pode ser entendido como uma espécie de defesa prévia. Nada melhor para alguém totalmente encrencado do que tentar limpar uma imagem pública que, convenhamos, não é das melhores. Talvez se tivesse agido mais como formiga do que como cigarra, Eike Batista não tivesse que estar nesta posição de contrição.
Aliás, há algo que eu efetivamente não engulo. É que Eike Batista diz que suas empresas pré-operacionais foram projetos custeados pelo seu próprio bolso e que levaram todo o seu patrimônio. Ora, um exame minimamente atento do percurso de Eike de milionário a bilionário, e agora bilionário negativo, vai nos mostrar que o dinheiro da viúva foi usado para regar fartamente o seu complexo de empresas de Powerpoint. Além disso, Eike Batista parece esquecer que no rastro de sua megalomania no Porto do Açu centenas de famílias humildes foram expropriadas e, muitas delas, jogadas na beira da estrada apenas com a roupa do corpo e os poucos pertences que as máquinas da LL(X) não tinham passado por cima. Então, Eike Batista que me desculpe, mas esse lamentar é insuficiente para produzir a expiação pelo mal que foi cometido contra pessoas humildes e trabalhadoras.
Uma nota interessante. Ao ser perguntado sobre as suas dívidas com o BNDES, Eike Batista apontou o dedo para o lado dos novos controladores de suas ex-empresas, começando pela EIG Global Partners que controla a Prumo Logística. Interessante saber o que a EIG tem a dizer sobre isso. Afinal, com quem vai segurar o papagaio?
Eike Batista: ‘Botei do bolso. Levaram todo o meu patrimônio’
Empresário diz que tem dívidas de US$ 1 bilhão. E afirma ter sido ‘criado como um jovem de classe média’, quando perguntado sobre arresto de seus bens
POR MARIA FERNANDA DELMAS / GLAUCE CAVALCANTI
Eike Batista: “Talvez tocar cinco empresas foi muita coisa” – / Patrick Fallon/Bloomberg/30-4-2012
RIO – Pouco menos de um ano atrás, o tagarela Eike Batista se calou — à exceção de uma rara entrevista, em abril, ao “Wall Street Journal”, época em que começou a ser investigado pela Polícia Federal. A petroleira OGX entrara no fim de 2013 em recuperação judicial, um símbolo de seu império em derrocada. Ontem, após ter virado réu em ação penal no Rio, Eike decidiu falar. Dispôs-se a 20 minutos de entrevista, com breve exposição prévia sobre seu otimismo e a ressalva dos advogados de que não “saberia responder muito bem” às questões técnicas sobre a Justiça.
Acusado de manipulação de mercado e uso de informação privilegiada, diz que vendeu ações da OSX porque a empresa tinha de se enquadrar a uma regra de ter ao menos 25% de seu capital em Bolsa. E que as ações da OGX tinham sido dadas em pagamento de uma dívida.
Não permitiu ser fotografado. Com mais cabelos brancos, continua exibindo vaidade com os negócios, apesar de ter inserido mea culpa no seu vocabulário. Na conversa que teve antes da entrevista, repetia frases de um roteiro entregue às repórteres com sua defesa. Entre as frases: “Nunca tive a intenção de ludibriar nenhum investidor”.
Eike já foi o mais rico do país e o oitavo do mundo, com US$ 34,5 bilhões, segundo índice da Bloomberg. Agora, diz, sem rodeios, que tem patrimônio líquido negativo de US$ 1 bilhão.
O criador do grupo X, que detestava que tratassem seus projetos como “negócios de PowerPoint”, valeu-se várias vezes de um mapa exibido numa tela de computador para destacar os investimentos em curso no Porto do Açu, no Norte Fluminense. No mercado, o porto é tido como essencial para manter pagamentos a credores.
Perguntado sobre como a família reagia à possibilidade de arresto de bens, afirmou: “Fui educado como um jovem de classe média. Não sei se você perde isso, não.”
As denúncias do Ministério Público tratam de vendas de ações em dois momentos específicos do ano passado. Como o senhor explica isso?
Uma era pela obrigação de me enquadrar. Eu não queria, mas tive de me adaptar às regras do jogo. No segundo caso, eram ações que pertenciam a outro, não eram minhas ações mais. Foram vendidas para quitar dívidas.
O senhor já foi o homem mais rico do Brasil, com US$ 34,5 bilhões. Hoje (ontem) o BC encontrou e bloqueou R$ 117 milhões seus. Qual é seu patrimônio hoje?
Com toda essa renegociação da dívida, minha situação líquida de patrimônio hoje é de menos US$ 1 bilhão (US$ 1 bilhão negativo). É uma negociação de cinco a dez anos de prazo, em que eu trabalho para trazer novos investidores para instalar fábricas no Porto do Açu. Nesse prazo, vou fazer minhas ações se valorizarem. Eles (credores) hoje têm em garantia. Se o valor dobrar, triplicar, vou ter a chance de, na frente, isso sair positivo. Mas hoje minha situação é de menos US$ 1 bilhão líquido.
Isso contando imóveis, dinheiro no exterior etc.?
Tudo. Essa é minha situação hoje. Meu patrimônio.
Petróleo é um negócio de risco em qualquer lugar no mundo, mas vemos muitas companhias investindo nisso e tocando normalmente suas operações, mesmo com projetos ruins. Por que houve essa ruína com a OGX?
Primeiro, a OGX (rebatizada de OGPar e em recuperação judicial) ainda está em pé. Ela produz, tem a perspectiva do BMS-4 e novas parcerias. Na hora em que você vai produzir não é um quarto do que esperava, isso faz parte do negócio. Mas foi uma aposta muito grande que fiz. Podia ter vendido um pedaço antes.
A OGX está em pé, mas foi ela que causou a derrocada do seu grupo. O que poderia ter sido diferente na OGX?
Infelizmente, é um setor de risco muito alto. Confiei demais, até porque o Brasil é um país de baleias, toda semana a Petrobras anuncia uma descoberta. Eu ganho uma área gigantesca na maior bacia produtora do Brasil, e ela é um terço do que a gente imaginava em produtividade.
O senhor ainda não disse por que o problema da OGX causou toda essa crise. O que teria feito diferente?
Nada, nada, nada. O que se poderia dizer é que ninguém no mundo tem uma participação tão grande em uma empresa de petróleo. Deveria ter vendido participações, fechado o capital das companhias e ficado no mercado de private equity. É dinheiro privado que tem mais prazo, em que você aguenta o tranco numa queda gigante e tem chance de recuperar.
A interrelação entre as empresas X pode ter pesado na crise de confiança?
Lógico. Se esse negócio do Eike está mal, por que os outros não estariam? O que quero mostrar é que a venda para novos participantes mostra que a história é um pouco diferente. Não é porque é uma empresa de PowerPoint.
O senhor sempre defendeu investimentos no Brasil. O que acha de agora seus empreendimentos estarem passando para a mão de estrangeiros?
Que triste. Adoraria vender para brasileiros.
O senhor falou que não recebeu do seu corpo técnico as informações que deveria ter recebido. O senhor acha que errou na contratação ou, mesmo dizendo que trabalhava dia e noite, não enxergou o que estava acontecendo no grupo? Era pressão por resultados?
Contratei os melhores, e houve trocas. O pessoal que assumiu na segunda leva teve de completar os estudos que fizeram até a famosa data de junho, e estes são os resultados. Fomos transparentes, e eu confiante. A Petronas estava dando o aval num campo de petróleo, sócios mundiais de primeira linha. Eu não era especialista em petróleo, você vai ouvir as pessoas que falam. E tem um lado de furar sem saber qual é a produtividade do petróleo. Eu tinha confiança absoluta, e não sou tão criança… Aliás, vocês poderiam corrigir essa história de mais rico do mundo, eu já disse que queria ser o mais generoso do mundo. Corrijam isso para mim.
Infelizmente, a lista é dos mais ricos, não há lista dos mais generosos. Mudando de assunto, há empresas suas em recuperação judicial, outras operando, outras em situação difícil. Quais são as prioridades nas suas viagens ao exterior?
Por exemplo, trazer empresas coreanas para o Porto do Açu. Assim agrego valor aos meus ativos penhorados. Dou conselho a todos eles (investidores), todos eles me querem, porque eu concebi esse negócio.
Que lições o senhor aprendeu com a derrocada do grupo?
Nossa… Talvez tocar cinco empresas foi muita coisa. Teria sido mais fácil se elas não fossem de capital aberto, porque no setor privado, com private equity, você tem sete, dez anos para fazer. Você atravessa diferentes crises sem estar exposto àquele resultado trimestral que é duro e te cobra um preço alto. E esses projetos vão beneficiar o Brasil nos próximos 200 anos. Botei dinheiro do meu bolso, estou pagando minhas dívidas, levaram todo meu patrimônio, me deram a chance de nos próximos cinco a dez anos sobrar algo para mim. Por isso trabalho todo dia. Imagina poder pagar a dívida e ainda ficar com meus 20% do Açu?
O senhor pensa em ficar lançando mais negócios?
A prioridade é trabalhar na reestruturação, me dedicar a isso. Muita gente já me disse: “Eike, o que você passou muita gente não iria aguentar”.
Como sua família está lidando com a ameaça de arresto dos bens?
Não é fácil, né?
Mudou muito a rotina deles?
(Risos) Fui educado como um jovem de classe média. Não sei se você perde isso, não.
Quando o senhor vai negociar no exterior, há desconfiança?
No fundo, os investidores estrangeiros encaram pessoas que criam coisas desse porte como pessoas que merecem uma volta. Tem gente que me diz que tem interesse em investir capital comigo, em novos projetos. No Brasil, não, talvez porque eu não tenha falado neste ano e meio (com exceção de entrevista concedida ao “Wall Street Journal”, em abril passado).
O senhor avalia que houve uma superexposição sua?
Pode ter havido, mas eu tinha confiança nos projetos, e no fundo sempre quis passar uma mensagem aos jovens brasileiros de que este país precisa pensar grande, pensar projetos de infraestrutura. Sair desse raciocínio de puxadinho. Sem superexposição você não atinge o jovem.
No auge do grupo, muita gente queria trabalhar com o senhor. Hoje, consegue atrair gente para seus negócios?
Os executivos que trabalharam aqui que façam bom proveito dos recursos que ganharam, que tenham sucesso nos seus empreendimentos, estou tocando a vida com gente nova que gosta de trabalhar com alguém que sabe construir essas coisas.
Por que falar agora? Foi um erro não ter falado antes?
Talvez. Muitos investidores credores não gostam, na negociação, de ver falar. Vamos mostrar primeiro (a estruturação). Vou voltar a falar. Quem sabe me deixam até tuitar.
Como está a relação com o BNDES?
Meus projetos são de infraestrutura. Vocês sempre dizem que o dinheiro do BNDES deve ser usado para infraestrutura. E não foi dinheiro direto do BNDES, foi tudo garantido por bancos privados. Então, uau.
Há alguma pendência com o BNDES?
Não. Há sócios novos hoje, a EIG, hoje é em cima deles.
O senhor pensou em sair do Brasil?
Não, nunca.
O mercado falava muito que o senhor vendeu vento…
Térmicas são vento? Porto, vento? Como você tem uma empresa de petróleo, com as parcerias que elenquei, e não vou ser otimista, com os dados que eu tinha na mão? Quando um pilar quebrou, infelizmente derrubou a casa toda. Me ajudem a mostrar…
O governo dizia que queria outros Eikes Batistas…
Todo meu capital foi para fazer isso acontecer. Se não tivesse aqueles US$ 8 bilhões que investi nos projetos, isso não fica em pé. Porque aí o governo vai “diminui”, “encolhe”, cada um tem uma pauta, aí você tem de empurrar para fazer o certo, o antipuxadinho.
Logo após sair do Porto do Açu acaba de assinar um contrato de US$ 300 milhões com a Petrobras para entregar produtos que seriam aparentemente o centro da sua produção no porto sanjoanense. Apesar de não parecem diretamente conectados, essa notícia deverá jogar um nuvem de dúvidas sobre potenciais investidores no porto que é a nova joia da cora do ex-bilionário Eike Batista. É que a GE saiu do Açu por faltarem as devidas estruturas para funcionar a contento, o que certamente será um elemento de contenção de interessados após esse contrato exitoso com a Petrobras. A ver!
GE Oil & Gas assina contrato de mais de US$ 300 mi com a Petrobras
Por Alessandra Saraiva | Valor
RIO – A GE Oil & Gas informou nesta quinta-feira ter assinado contrato de mais de US$ 300 milhões com a Petrobras para o fornecimento de sistemas de “manifold” (junção de tubos e canais) para águas ultraprofundas. O valor do acordo chega a mais de US$ 300 milhões, segundo a GE.
De acordo com a GE, serão os primeiros “manifolds” da subsidiária brasileira da empresa norte-americana a serem utilizados em campos do pré-sal, localizados na costa brasileira, a aproximadamente 2.500 metros de profundidade.
Em comunicado, a GE detalhou que o contrato com a Petrobras prevê fornecimento de oito manifolds de injeção modular alternada de água e gás, além dos equipamentos de controle das máquinas, o que permite o controle da entrada ou saída de mais de quatro poços.
Na análise do CEO de Subsea Systems da companhia, Rod Christie, o contrato permitirá que a GE Oil & Gas expanda o seu portfólio de soluções fornecidas para suportar o desenvolvimento nos campos do pré-sal. A subsidiária brasileira informou ainda que os equipamentos serão produzidos no Brasil.
No informe, a presidente e CEO da GE Oil & Gas para a América Latina, Patricia Vega, lembrou que sua empresa tem relacionamento de longa data com a Petrobras para desenvolver equipamentos e soluções essenciais para suportar as operações offshore no Brasil, principalmente no pré-sal.
A GE lembrou, no comunicado, que em 2012, a Petrobras assinou contrato para aquisição de longo prazo dos chamados sistemas de cabeça de poço da GE, que também serão utilizadas nos campos do pré-sal.
Acuado pela Justiça, Eike se defende e diz que seus ativos são de credores
Por Rafael Rosas, Ana Paula Ragazzi e Francisco Góes | Do Rio
Batista, em entrevista na antiga sede da EBX, diz que nunca teve a intenção de ludibriar os investidores e que não usou informação privilegiada para fazer negócios
Réu em uma ação penal na Justiça Federal do Rio, o empresário Eike Batista decidiu romper o silêncio. Fazia cerca de um ano e meio que ele se mantinha recluso, sem falar sobre a derrocada do grupo EBX. Em pouco mais de meia hora de conversa em seu escritório, na zona sul do Rio, Eike fez sua autodefesa. Disse que nunca teve a intenção de ludibriar nenhum investidor pois colocou todo o seu patrimônio nos projetos do grupo e ofereceu garantias pessoais aos bancos credores. Hoje, depois de um longo processo de reestruturação de dívidas que ainda está em curso, disse ter patrimônio negativo de cerca de US$ 1 bilhão.
Apontado como oitavo homem mais rico do mundo, com patrimônio de US$ 30 bilhões em 2012, segundo a “Forbes”, transformou-se em uma espécie de administrador de ativos que pertencem aos credores: Mubadala (empresa de investimentos de Abu Dhabi), além dos bancos Itaú e Bradesco.
Eike vem trabalhando na criação de valor para os ativos em que ainda tem participação acionária, mas cuja posse está em mãos desses credores. “Ouso dizer que essa [da EBX] vem a ser a maior reestruturação do mundo de um grupo de empresas. Não tem nada igual”, disse. A frase mostra que, apesar da debacle, ele continua a usar superlativos para definir seus negócios.
Ele recebeu o Valor na antiga sede da EBX, no 10º andar de um prédio comercial na Praia do Flamengo, para onde voltou depois de deixar o luxuoso Edifício Serrador, no centro da cidade. Diferentemente do período áureo, quando chegou a ocupar todo o Serrador, um dos prédios mais tradicionais do Rio, o escritório atual é austero e tem poucos funcionários. A sala de Eike tem vista para a Baía de Guanabara e o Pão de Açúcar, mas desta vez ele não quis fotos. Vestido de camiseta azul escura, camisa social rosa e terno cinza com listras, com aspecto cansado e mais grisalho, admitiu que a crise afetou “muito” o lado pessoal. “Mas sou um cara que sempre construí minhas coisas do zero”, frisou.
Apesar das dificuldades, ele mostrou-se otimista. Disse acreditar que, ao fim do processo de renegociação das dívidas, terá possibilidade de criar valor e, eventualmente, em um encontro de contas, ainda sobrem ativos para ele. Eike afirmou que a prioridade tem sido pagar todas as dívidas, sem redução de valores, mas com alongamento nos prazos de vencimento. “O cash se foi e os ativos estão penhorados nos bancos. As participações que ainda tenho em algumas empresas são dos bancos, não tenho ativos, porque eles [os ativos] eram meu avais pessoais. As pessoas esquecem disso”, afirmou. Ele disse só ter falado agora, quase dois anos depois do grupo ter sido arrastado pela crise da petroleira OGX, porque precisava de tempo para achar novos sócios. “Eu estava desacreditado,” lamentou.
No começo da entrevista, acompanhado pelo advogado Sergio Bermudes, Eike leu nove tópicos alinhados em duas folhas sob o título: “Fatos”. No documento, ele repetiu ideias que havia exposto em artigo publicado no Valor em julho do ano passado, e apresentou novos argumentos. Disse que sempre acreditou no Brasil e por isso investiu no país. Admitiu que os problemas na antiga OGX, hoje OGPar, contaminaram todo o grupo. Segundo ele, ocorreu uma espécie de fenômeno “darwiniano” [de seleção]. “Criou-se desconfiança que afetou todas as empresas [do grupo], uma espécie de corrida bancária que me forçou a fazer uma megareestruturação buscando novos grandes investidores”.
Eike virou réu na justiça federal depois de investigação da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) acusar o empresário por manipulação de mercado e negociar ações da OGX com informação privilegiada. A autarquia concluiu que os administradores da petroleira poderiam ter avisado o mercado dez meses antes da inviabilidade da empresa. Antes disso, vendeu ações e, ao mesmo tempo, via Twitter, fez declarações otimistas sobre o futuro da empresa. A CVM abriu 22 processos relacionados às suas empresas, na maioria dos casos devido a problemas na divulgação de informações sobre o grupo.
As declarações no Twitter ele justificou pelo fato de acreditar na companhia. Segundo o empresário, foram relacionadas às parcerias que fechava para participar das rodadas de exploração da Agência Nacional de Petróleo (ANP), além de uma associação com a malaia Petronas. “Sócios relevantes como esses acreditavam na companhia. Por que eu não iria acreditar?”, questionou. Por essas razões disse que recebeu o processo na Justiça com “surpresa”.
O juiz Flavio Roberto de Souza, da 3ª Vara Federal do Rio, determinou na terça-feira bloqueio de ativos financeiros de Eike até o limite de R$ 1,5 bilhão, fruto de denúncia do Ministério Público Federal (MPF) acolhida pela Justiça. O arresto de bens do empresário são para cobrir prejuízos a investidores. Ontem seus advogados disseram que R$ 117 milhões encontrados em suas contas referem-se ao total de cotas de um fundo de investimento em debêntures. No início do ano, em outra ação, Eike teve R$ 120 milhões bloqueados.
“Eu, de petróleo, infelizmente, não entendo. Mas contratei os melhores especialistas e cabia a eles escrever o que achavam e a maneira como se divulgava”, disse. Sobre a demora na declaração de inviabilidade da empresa, disse que não se sabia ao certo o futuro. “Sem o estudo final pronto, que foi divulgado em meados de junho do ano passado, me desculpe, mas não dava para falar. Como vai anunciar um negócio que você não sabe? Você tem que fazer a avaliação técnica, que não estava concluída dez meses antes”, disse o empresário.
A trajetória do grupo e seu relacionamento com a mídia mostra que Eike não teve tanto cuidado com a informação quando divulgava dados e projeções otimistas para seus negócios. Nos processos da CVM, enquanto alega que apenas confiou nos técnicos, esses técnicos afirmam que as divulgações eram infladas pelo excesso de otimismo de Eike. Em sua defesa, disse que sempre acreditou na companhia. Vendeu as ações porque estavam comprometidas com os credores e na quantia exatamente necessária. Os recursos da venda, disse, foram diretamente para o Mubadala. “Se usei informação privilegiada, por que não vendi tudo? Não me beneficiei em nada, continuei com 51% da companhia e serei diluído”, afirma. Disse que se não pagasse os credores naquele momento haveria risco sistêmico que levaria o grupo ao default.
Perguntado se arrependeu-se de ter investido no setor de óleo e gás afirmou: ” É claro que eu me arrependo de ter investido em petróleo. Levou todo o meu patrimônio e todos esses projetos fantásticos. Foi a âncora que me puxou para baixo”, afirmou. Segundo ele, grande parte de seu patrimônio, de R$ 8 bilhões, em 2008, foi para dentro dos negócios do grupo EBX. Essa foi uma riqueza construída a partir da venda de ativos de minério de ferro de Eike, no Brasil, para a Anglo American.
“Eu me calei por um ano e meio para reestruturar essa dívida gigantesca. E existe essa visão de que quem cala, consente”, disse o empresário, referindo-se ao fato de que sabe que a história que fica no mercado é que ele se beneficiou dos negócios, vendeu ações, botou dinheiro no bolso e usou dinheiro público para criar sempre estruturas gigantes e não pagou de volta. O que, de certa forma, considera uma injustiça. “Eu investi todo o meu patrimônio em negócios de infraestrutura para o Brasil. Dei avais pessoais e perdi todo o meu patrimônio. Eu não fugi. Estou aqui honrando meus compromissos. Isso as pessoas não sabem”.
Sentado de frente à tela que mostra o Porto do Açu, no norte do Rio, projeto que sempre foi a sua “joia”, Eike falou sobre seu futuro: “É cedo para falar em novos projetos. Mas sou um brasileiro que não desiste nunca.”
A matéria abaixo publicada pelo Jornal O GLOBO dá mais pistas sobre o estado de espírito de Eike Batista. Mas vai mais além ao nos informar que o Porto do Açu agora subiu ao posto de joia da coroa do dilapidado conglomerado (conglomerado?) de empresas do ex-bilionário.
Eu não quero bancar a ave de mau agouro para Eike, mas se o Porto do Açu é a sua maior esperança de sair do vermelho “em cinco a dez anos” (sic!), é possível que ele fique na classe média que lhe causa tanta angústia por um bom tempo. É que além dele ter apenas 20% do negócio hoje controlado pela Prumo Logística, o encolhimento do projeto é a coisa mais concreta que o Porto do Açu tem a oferecer aos seus controladores neste momento.
Eike tem patrimônio líquido de US$ 1 bilhão negativo
Empresário afirma ter comprometido tudo o que possui em garantias a negócios do grupo X. E elege Porto do Açu como novo foco para atrair investidores
POR MARIA FERNANDA DELMAS / GLAUCE CAVALCANTI
Eike diz que colocou todo seu patrimônio como garantia para empresas – Michel Filho / O Globo/31-5-2010
Considerado o homem mais rico do Brasil apenas dois anos atrás, Eike Batista diz ter hoje um patrimônio líquido de US$ 1 bilhão negativo. O tombo veio a reboque da derrocada da OGX, petroleira do grupo X, que pediu recuperação judicial em outubro do ano passado. Hoje, após ter virado réu em ação penal da Justiça Federal, o empresário quebrou o silêncio de quase um ano, garantindo trabalhar diariamente pela reestruturação de suas companhias.
— Coloquei todo o meu patrimônio nas empresas. Ele garante empréstimos e negócios do grupo. O problema localizado em uma delas, a OGX, contaminou todo o sistema. O fato do petróleo não ter a produtividade esperada se tornou a raiz de toda essa corrida bancária. E, quando se perde a credibilidade de uma empresa pública, você é massacrado — afirmou o empresário em entrevista ao GLOBO.
Apesar da crise no grupo e da corrida pela manutenção e recuperação das companhias e de seus ativos, Eike afirma que não haveria um caminho diferente do que percorreu. Se pudesse voltar atrás, afirma que fechar o capital da OGX (hoje OGPar) poderia ter sido a escolha mais acertada.
— No todo, não poderia ter sido diferente. Eu acreditava no negócio. Não tinha como não ser otimista com os dados que eu tinha em mãos. Ninguém no mundo tem uma participação tão grande numa empresa de petróleo. Talvez, uma das minhas falhas tenha sido que, no tempo certo, eu deveria ter literalmente fechado o capital da OGX, usado private equity.
O Porto do Açu subiu ao posto de principal joia do grupo, substituindo a antiga posição da OGX. A cada questionamento sobre a situação do grupo, o empresário se agarra ao potencial do projeto, que está muito aquém do prometido quando foi lançado. Ainda assim é citado por Eike como a maior aposta para atrair investidores e novos negócios. Em cinco a dez anos, ele espera não só conseguir pagar sua dívida, como ter 20% de participação no Açu e colocar seu patrimônio novamente no azul.
Eike garante ter aprendido algumas lições com o tombo dos negócios:
— Acho que tocar cinco companhias juntas é muita coisa. Também acho que seria mais fácil não ter capital aberto, o que nos daria de sete a dez anos para trabalhar, já que o grupo tem projetos de infraestrutura de longo prazo.
Apesar do tombo, Eike mantém um discurso calibrado de que não é pessimista em relação ao futuro do grupo, que soma duas empresas em recuperação judicial, a OGX e a OSX (ainda em vias de aprovação do processo), além de ter vendido outras companhias e outros ativos. A LLX, de logística, foi rebatizada como Prumo, tendo passado às mãos da americana EIG; a MPX, de energia, rebatizada como Eneva, tem a alemã E.ON. como sócia majoritária.
— O foco é reerguer o negócios. Não dá para investir em novas frentes. Estamos nos recuperando. Os investidores estrangeiros encaram esse movimento como natural.
Ironicamente, o empresário que sempre afirmou acreditar no país, vê agora a maior parte de seus negócios passarem para as mãos de investidores estrangeiros. Eike afirma segue trabalhando, sem jamais ter considerado a possibilidade de deixar o grupo ou o Brasil. Ontem, por determinação da Justiça, ele teve R$ 117 milhões em ativos bloqueados.
— Fui educado como um jovem de classe média. E a gente não perde isso — afirmou.
O jornal Folha de São Paulo acaba de colocar no ar uma entrevista com Eike Batista, onde ele reconhece que atualmente tem um saldo negativo de US$ 1 bilhão, mesmo que vende o que ainda possui nas empresas que ainda é controlador (OGPar, OS(X) e MM(X), e naquelas que possui ações depois de ter repassado o controle (Prumo (ex LL(X) Eneva (ex MP(X)) (Aqui!). Após chegar aos píncaros da glória corporal/especulativa, Eike Batista diz que voltou à classe média e que isto representa um baque gigantesco na família dele.
Ao ser perguntado sobre uma afirmação polêmica de que seus negócios eram à prova de idiotas, emitida nos tempos em que reinava soberano e desfrutava de companhias importantes como Lula, Sérgio Cabral e Dilma Rousseff, Eike Batista respondeu dizendo que existem vários legados em fase de conclusão, citando os portos Sudeste e do Açu.
De minha parte, Eike Batista parece ainda não ter entendido o buraco em que se meteu, já que a entrevista representa uma espécie de defesa prévia contra as pesadas acusações que está sofrendo do Ministério Público Federal em São Paulo e Rio de Janeiro. Para mim, em particular o problema é ele falar que deixou legados. Se examinarmos de perto, o belo “legado” que está plantado no V Distrito de São João da Barra, veremos que a coisa está mais para praga do que para benção. Basta perguntar às centenas de famílias que tiveram suas terras expropriadas ou salgadas que elas vão logo dizer qual é o “legado” de Eike Batista nas vidas delas. Aliás, perguntem aos moradores da Praia do Açu para ver o que eles acham deste “legado” de Eike Batista, e talvez a resposta que virá não seja tão adequada à visão positiva que ele tenta disseminar.
De toda forma, o destino pessoal de Eike Batista é irrelevante para mim. Importa mais analisar o tipo de modelo econômico que permitiu que ele tivesse uma ascendência tão meteórica quanto sua queda, onde os custos efetivos estão sendo distribuídos e colocados nas costas de quem não tem nada a ver com o peixe. E de quebra, vemos a desnacionalização de recursos estratégicos e dos pesados investimentos que foram feitos em suas empresas pré-operacionais. É deste legado que deveríamos nos ocupar. Eike Batista, como outros no passado, é apenas um pião no tabuleiro.
Eike Batista fechou ontem, em Doha, no Qatar, a venda de mais uma de suas companhias – a AUX, dona de minas de ouro na Colômbia. Os emires do pais árabe vão pagar 400 milhões de dólares, mas o dinheiro não vai para o bolso do ex-bilionário.
Será repartido entre o fundo soberano de Abu Dhabi, o Mubadala, e Bradesco e o Itaú, principais credores de Eike.
Eike comprou o controle das minas da Colômbia em 2011, quando seu império ainda estava no auge. Pagou por elas 1,5 bilhão de dólares — dos quais 1,4 bilhão foram emprestados pelos dois bancos nacionais.
Filme retrata a degradação ambiental e violência social implantada pelo projeto minas-rio em conceição e região. Total violação às leis, desrespeito á vida e a dignidade humana. Com todo esse caos envolvendo a mineradora Anglo American , com várias condicionantes descumpridas, os governantes de Minas Gerais, num ato de total ilegalidade, colocam em votação a Licença de Operação do mineroduto Minas-Rio.
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Contas de Eike só cobrem despesas do dia-a-dia, diz advogado
Segundo o advogado do ex-bilionário, em pelo menos uma conta do empresário “resta apenas R$ 1″
Blake Schmidt, da
Douglas Engle/Bloomberg News
Eike: ele já foi a oitava pessoa mais rica do mundo
São Paulo – As contas do ex-bilionário Eike Batista só têm dinheiro suficiente para cobrir suas “despesas do dia a dia”, de acordo com Sérgio Bermudes, um dos seus advogados.
Bermudes disse que um juiz ordenou o congelamento de até R$ 1,5 bilhão (US$ 642 milhões) nas contas bancárias de Eike Batista como medida preventiva depois que o Ministério Público Federal no estado do Rio de Janeiro o acusou de crimes no mercado financeiro e solicitou o congelamento de seus bens.
“Posso garantir que não há R$ 1,5 bilhão nessas contas”, disse Bermudes em entrevista por telefone, acrescentando que em pelo menos uma conta “resta apenas R$ 1”, sem dar mais detalhes.
Eike Batista, que já foi a oitava pessoa mais rica do mundo, de acordo com o Bloomberg Billionaires Index, viu o desmoronamento do seu império de commodities no ano passado, liderado pela empresa principal Óleo Gás Participações SA, antes conhecida como OGX.
Com sede no Rio de Janeiro, a companhia entrou com um pedido de concordata em outubro após gastar mais de R$ 10 bilhões desde que foi fundada em 2007. A OSX Brasil SA, empresa de construção naval de Batista, também entrou com um pedido de recuperação judicial.
O montante do pedido de congelamento de bens é aproximadamente igual ao do dano infligido ao mercado financeiro como resultado dos crimes de que é acusado, de acordo com uma declaração publicada no site do Ministério Público Federal no dia 13 de setembro. O bloqueio pode abranger casas, carros, barcos, aviões e participações financeiras.
Batista, 57, já é acusado pelo Ministério Público de usar de modo indevido informações privilegiadas na venda de suas ações na petroleira antes de sua queda.
Os advogados de Eike Batista disseram que ele vendeu as ações para pagar o credor Mubadala Development Co. e não porque previu o fracasso dos projetos, de acordo com um documento obtido pela Bloomberg. Sérgio Bermudes, um advogado civil que diz que está coordenando os problemas judiciais de Batista, disse que as acusações são “infundadas”.