Crise da USP: Carta aberta da Faculdade de Direito de Ribeirão Preto a uspianos

Marco Antônio Zago - São Paulo - 15/01/2014

Reitor Marco Antônio Zago no campus da USP – Butantã

CARTA ABERTA À COMUNIDADE USPIANA

 

Em reunião realizada no dia 04/8/2014, os docentes da FDRP decidiram dedicar a primeira semana do segundo semestre à discussão da crise vivida pela USP e, em especial, seus aspectos jurídicos. As ideias e opiniões a seguir expostas decorrem das quatro sessões de exposição e debates realizados, que contaram com a participação de servidores, docentes e não docentes, e alunos da Faculdade e de outras unidades do Campus de Ribeirão Preto.

I

Desde a sua posse o Reitor se dirigiu à comunidade uspiana, por carta, por vídeo e, em algumas unidades, como a FDRP, pessoalmente, para expor e explicar a atual situação orçamentária da USP. Não discordamos de S. Magnificência quanto à dimensão dos problemas que se colocam para a atual gestão. Não negamos, nem desconhecemos a situação financeira desequilibrada pela qual passa a nossa Universidade, embora ainda não tenhamos tido acesso a informações claras e detalhadas sobre as finanças da USP, e que os números oficialmente divulgados limitem as receitas da USP aos repasses do Governo do Estado, desconsiderando o significativo montante de receitas próprias da Universidade.

Para a solução dessa crise, o mais importante não é identificar os seus artífices, mas sim determinar as fissuras institucionais e estruturais que permitiram as ações administrativas tomadas nas últimas gestões, as quais levaram a USP à presente situação, sem que houvesse mecanismos de controle e transparência eficientes para evitá-los. É fundamental que sejam identificados os reais motivos da crise orçamentária para que os mesmos erros não se repitam no futuro.

O que entendemos indiscutível, contudo, é que ao corpo de servidores docentes e não docentes não cabe qualquer responsabilidade pelo desequilíbrio orçamentário atual. Se aumentos significativos foram concedidos a professores e funcionários nos últimos anos, isso apenas diminuiu a imensa defasagem que havia e ainda persiste entre os salários de muitos servidores do sistema de educação superior paulista e os vencimentos de outras carreiras públicas equiparáveis. Como o Magnífico Reitor reconheceu, reiteradas vezes, a excelência da Universidade depende, dentre outros fatores, da atratividade dos salários que oferece para que seja capaz de contratar e manter pessoal qualificado, capaz de atender aos fins que a sociedade atribui a esta Instituição. Contudo, até o momento, é sobre essas categorias que incidem de maneira mais sensível as medidas tomadas pela Reitoria para o saneamento financeiro da USP.

Nesse sentido, embora seja razoável afirmar que a verba disponível impeça a concessão de reajuste imediato, quanto mais de aumento salarial, entendemos indispensável que, num projeto de reorganização orçamentária da Universidade, seja expressamente reconhecido e contemplado o direito que os servidores têm a reajuste, direito previsto em disposição constitucional que estabelece a irredutibilidade de vencimentos. Impor às categorias de servidores da USP um arrocho salarial, medida que tem sérias consequências de curto e médio prazos, cuja recuperação é bastante difícil e demorada, significa, na prática, punir quem nenhuma participação teve na tomada das decisões que fizeram a USP gastar além do que permitia suas receitas orçamentárias. Por qualquer prisma que se observe essa situação, a iniquidade dessa repartição de consequências salta aos olhos.

Por isso, o que mais esperamos do Reitor e de sua equipe é que não mais busquem convencer-nos daquilo que já entendemos; o que queremos é a elaboração imediata de um plano claro de reorganização financeira da Universidade que garanta, primordial e expressamente, o cumprimento das obrigações da Instituição com o salário de seus servidores e, no mais breve futuro, a recomposição das perdas decorrentes da falta de reajuste que este ano penalizará todos os servidores.

Esse plano certamente implicará sacrifícios para vários setores da Universidade; para os servidores, significará a renúncia à parte de direito dos seus salários; para muitas unidades, resultará na impossibilidade de expansão de infraestrutura e melhoria das condições de trabalho de seus servidores; para os alunos, acarretará a diminuição de bolsas e de outros auxílios essenciais à sua permanência na universidade. Todos terão de arcar com o peso das medidas que permitirão que a USP continue funcionando. Até por isso, é-nos evidente que essa decisão não poderá ser tomada em gabinetes fechados, mas deverá ser objeto de discussão ampla com a comunidade uspiana que, ao final, será quem pagará a conta da reestruturação que a USP já não pode mais adiar.

Qualquer que seja o plano adotado pela Reitoria, é de se lembrar que uma das medidas preconizadas na Constituição Federal para o cumprimento dos limites estabelecidos para gasto com pessoal é a redução em pelo menos 20% dos cargos em comissão e funções de confiança. Sabendo-se que na estrutura da USP encontram-se inúmeros ocupantes de cargos comissionados e funções de confiança nomeados sem a devida submissão a concurso público, sua imediata exoneração é medida que se impõe, tanto em razão da economia orçamentária, quanto em homenagem ao princípio da impessoalidade. Quanto aos demais cargos em comissão ocupados por servidores concursados, entendemos que a sua extinção deve ser discutida com a Comunidade, de forma a assegurar que essa medida atenda o efetivo interesse da Instituição, sem prejudicar o bom andamento de suas atividades e evitando o execrável uso político dessas medidas como retaliação a funcionários.

Ainda na seara dos cortes orçamentários, faz-se necessário um diagnóstico abrangente dos contratos administrativos celebrados pela USP, não se limitando aos contratos de serviços terceirizados de limpeza e segurança. Caso seja possível e viável, e dentro dos limites permitidos pela Lei 8.666/93, as devidas readequações contratuais devem ser processadas. Se em tempos mais brandos o princípio constitucional da eficiência deve ser observado, muito mais agora, nesses tempos difíceis.

II

Sobre a situação de greve, discordamos da postura que a Reitoria tem adotado na relação com o movimento paredista. Em primeiro lugar, não se pode denominar “negociação” comunicações unilaterais que apenas enunciam fatos e noticiam decisões; tampouco podem ser assim chamadas reuniões nas quais os pontos de discussão sejam definidos unilateralmente e que excluam os assuntos centrais que motivam o impasse vivido na atualidade; finalmente, num momento de crise aguda, a previsão de uma próxima reunião de negociação para um prazo de 30 dias evidencia menos uma disposição para o diálogo do que uma aviltante estratégia de “cansar” os grevistas.  Ao invés de contribuir com a solução do problema, essas atitudes o agravam e tornam mais distante a solução do profundo conflito que vivemos.

Além disso, as medidas recentemente anunciadas, em especial o corte do ponto dos servidores que estão em greve, parecem-nos extremamente criticáveis e inapropriadas, tanto política quanto juridicamente. Ainda que o parecer da Procuradoria Geral que tenta dar sustentação jurídica à medida guarde correspondência com algumas recentes decisões judiciais que aplicam, por analogia, a Lei de Greve aos servidores públicos, como juristas, é nosso dever ressaltar a difícil compatibilização dessa Lei com a garantia constitucional do Direito de Greve; de fato, a análise das consequências práticas da aplicação dessa legislação mostra que, antes de garantir o exercício desse direito fundamental para estabelecer um mínimo de equilíbrio na relação entre empregadores e empregados, o que se verificou foi o quase total desaparecimento das greves no setor privado; isso não surpreende, já que a suspensão do pagamento de salários aos grevistas, mesmo quando não há abuso do direito de greve, torna desproporcionalmente custoso para os empregados o recurso ao mecanismo historicamente mais efetivo na defesa de seus interesses. Uma lei cuja aplicação prática resulta no exato oposto do que preconiza a Constituição dificilmente pode ser com esta considerada compatível. Só por isso, já seria de se questionar a aplicação analógica da Lei de Greve ao movimento paredista na USP.

Por outro lado, ainda que fosse aceitável sustentar a incidência da Lei de Greve na situação presente, chamamos a atenção da Reitoria para outras decisões judiciais que condicionam o desconto de salários a uma prévia tentativa de negociação; se a Reitoria recorre à analogia para justificar juridicamente suas decisões, impõe-se que não selecione da regulação escolhida apenas as partes que lhe sejam favoráveis. Por isso, dado que, até o momento, uma genuína disposição para negociar não ficou evidente nas atitudes da Reitoria, o desconto se revela irregular ainda que se busque fundamento na Lei de Greve.

Além da base jurídica questionável, a maneira desigual como foi aplicada, atingindo apenas a categoria dos servidores técnico-administrativos, é outro aspecto que criticamos na medida. Ainda mais do que o desconto, repudiamos sua incidência apenas ao segmento reconhecidamente mais vulnerável da Universidade, violando a regra fundamental de isonomia.

Por fim, ainda que se admita a legalidade das medidas adotadas, do ponto de vista político, elas só contribuem para um acirramento dos ânimos na Universidade. Melhor faria o Magnífico Reitor se, antes de adotar essas medidas de força, procurasse, de maneira efetiva, um diálogo com os setores insatisfeitos e, principalmente, reconhecesse a legitimidade dos seus pleitos. É fundamental que a Reitoria se comprometa, rápida e genuinamente, a compatibilizá-los com as contingências orçamentárias atuais. Tivesse sido essa a orientação adotada desde o início, a negociação seria efetiva e profícua, evitando muitos dissabores.

III

Na qualidade de autoridade máxima da Universidade, e reconhecendo que, entre a USP e o Governo do Estado não existe, necessariamente, uma comunhão de interesses, preocupa-nos que o Reitor inquestionavelmente adote a posição do Governo como correta, mesmo quando ela é discutível juridicamente. Referimo-nos, em especial, à questão do montante que deveria ser repassado às Universidades e ao Centro Paula Souza em virtude da arrecadação de ICMS. Do fato que as entidades sindicais busquem a alteração do texto da LDO para evidenciar que o percentual deve ser aplicado ao montante total da arrecadação de ICMS no Estado, não se pode deduzir que essa interpretação não seja já hoje possível a partir do texto vigente. O que se quer com essa alteração é excluir a possibilidade de se considerar como legal a atitude do Governo que, na prática, implica sonegação de valores devidos às Universidades. De S. Magnificência era de se esperar que, em lugar de aceitar como automaticamente correta a opinião do Secretário da Fazenda do Estado, assumisse uma postura mais incisiva em defesa do que é o interesse da Universidade e, por decorrência, da Educação no Estado de São Paulo.

A defesa da autonomia da Universidade não pode ser entendida como um cabresto imposto à USP que a impeça de reivindicar o que lhe é de direito. Se essa reivindicação coloca em xeque essa autonomia, parece-nos que cabe à comunidade, por seus órgãos representativos, decidir pela conveniência ou não de se formular tal pleito, e não ao Reitor, individualmente.

IV

Consideramos válidos, louváveis e pioneiros os esforços empreendidos pela Reitoria em debater problemas históricos e estruturais na USP, cujo principal, sem dúvida, é o incremento da democracia nos seus processos decisórios. O fim da lista tríplice na eleição de Diretores é um passo importante nesse sentido, mas não suficiente. A falta de legitimidade do poder, fruto de eleições realizadas com colégios eleitorais pouco representativos, conturba e vicia eticamente a tomada de decisão administrativa da Reitoria e das Unidades. Ademais, é preciso aceitar que mérito acadêmico e mérito administrativo nem sempre estão presentes em um mesmo agente público: devem, pois, ser eleitos para as funções administrativas aqueles docentes que tenham capacidade para tanto, independentemente da sua titulação.

Seria ingenuidade desvincular essas características problemáticas dos processos decisórios da USP dos problemas que hoje enfrentamos. Mais transparência, abertura de Colegiados e processos administrativos à participação efetiva dos três segmentos da Comunidade e mecanismos efetivos de responsabilização dos dirigentes são cruciais não apenas para proteger a Universidade daqueles que dela apenas buscam ganhos pessoais, mas também dos enganos que os bem intencionados podem cometer. A atual estrutura administrativa da USP, como a crise escancarou, não a protege nem de uma, nem de outra dessas ameaças.

Devotamos a nossa vida profissional à USP e desejamos, sinceramente, seguir o nosso caminho em uma Instituição cada vez mais plural e igualitária. Colocamo-nos à disposição da Reitoria e da Comunidade para debater, colaborar e trabalhar para a construção desse ideal.

Ribeirão Preto, 13 de agosto de 2014.

FONTE: http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/crise-da-usp-carta-aberta-dos-docentes-da-faculdade-de-direito-de-ribeirao-preto.html

RJ: Justiça determina que Petrobrás indenize pescadores por obras na Baía de Guanabara entre 2007 e 2009.

A justiça determinou no processo nº 0005161-16.2011.8.19.0029 que tramita na 1ª Vara Cível de Magé que a PETROBRÁS pague indenização a 96 famílias de pescadores artesanais atingidos pelas obras dos projetos GNL e GLP na Baía de Guanabara em até um salários mínimos mensal durante os 18 meses da obras, corrigido monetariamente e com juros de 1% ao mês a contar da citação, independente da prova da sua culpa. Segundo o juízo nexo causal ficou demonstrado pelo Estudo de Impacto Ambiental.

A Associação Homens do Mar da Baía de Guanabara – AHOMAR propôs o ICP junto ao MPF e acompanha a causa desde entãoA petição inicial do processo narra que o objeto da ACP é garantir o direito dos pescadores artesanais, em face da implementação de um gasoduto afim de que sejam ressarcidos dos prejuízos causados. O ICP que originou a Ação foi instaurado em 27/4/2009 e apurou que a instalação do gasoduto causou a impossibilidade da atividade pesqueira na região estando tudo previsto no RIMA/EIA que instruem a petição inicial.Vamos acompanhar o caso e divulgar em nosso site.

Veja a integra da decisão: Sentença ACP 96 famílias

Fonte Sitio TJ/RJ

UENF: uma festa que teria sido sonolenta se não fosse a presença dos estudantes

A festa promovida pela reitoria para comemorar os 21 anos da UENF tinha tudo para ser sonolenta e modorrenta se não fosse a presença dos estudantes que foram lá para questionar a lamentável situação em que a instituição criada por Darcy Ribeiro se encontra neste momento.

As imagens abaixo falam mais que mil palavras. Mas uma coisa é certa: os estudantes da UENF, ao contrário da reitoria, vivem e materializam o ideal de Darcy Ribeiro em formar profissionais com consciência cidadã e preocupados com o futuro da nossa sociedade.

Longa vida à UENF!

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O GLOBO: Anvisa proíbe venda de água mineral da Nestlé, por risco de causar infecções em grávidas e crianças

Bebida vendida na embalagem de 300ml sem gás da marca São Lourenço não deve ser consumida

Embalagem de 300ml sem gás da marca São Lourenço não deve ser consumida – Divulgação

RIO – A Anvisa suspendeu a venda e distribuição, em todo o país, do lote 32966047S1 de Água Mineral Natural sem gás de 300ml da marca São Lourenço, produzida pela Nestlé. O lote, que possui validade até 23/10/2014, apresentou a presença da bactéria Pseudomonas aeruginosa acima do limite estabelecido na legislação sanitária. A bactéria causa alterações de odor e sabor nos alimentos, mas normalmente não representa risco preocupante à saúde da população em geral. No entanto, em crianças, gestantes e pessoas com sistema imunológico fragilizado, a bactéria pode causar infecções, informou a Anvisa.

A amostra foi coletada pela Vigilância Sanitária de Campinas após denúncia de um consumidor que relatou gosto estranho do produto. A vigilância sanitária de Minas Gerais, onde está localizada a fábrica do produto, já foi acionada para adotar as medidas necessárias junto à empresa.

A medida tem validade imediata. O lote em questão não pode ser vendido e o recolhimento é de responsabilidade do fabricante.

Procurada para comentar o assunto, a Nestlé disse, em nota, que ao receber o primeiro contato da autoridade sanitária, em fevereiro, informando sobre alteração de parâmetro no lote, tomou a decisão de suspender imediatamente a distribuição e venda dos produtos. “A medida foi tomada ainda que controles internos não tivessem apontado nenhuma desconformidade com a legislação vigente”, complementou.

Para o esclarecimento de dúvidas ou informação adicional, a empresa coloca à disposição dos consumidores o telefone 0800-979-1819.

FONTE: : http://oglobo.globo.com/economia/defesa-do-consumidor/anvisa-proibe-venda-de-agua-mineral-da-nestle-por-risco-de-causar-infeccoes-em-gravidas-criancas-13617907#ixzz3AUTSrJra

‘Desenvolvimentismo’ brasileiro extermina usos sociais da floresta e águas amazônicas

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POR LOU-ANN KLEPPA E LUIS FERNANDO NOVOA GARZON  

Assim que o Brasil – ou os que o dominam – resolveu ser o principal estoque de insumos básicos do mundo, logo a Amazônia foi enquadrada como seu principal estoque interno. Parece não haver Código, Lei, Constituição, Tratado, Convenção ou alguma memória ou ética que impeça a exploração da integralidade das jazidas minerais, dos recursos energéticos, dos espaços de logística e circulação presentes na Amazônia. Por exemplo, os linhões de transmissão já feitos (e outros projetados) para o segundo ciclo de grandes hidrelétricas na região (Santo Antônio e Jirau, Belo Monte, Tabajara e Complexo Teles Pires e Tapajós) precisam percorrer mais de 3 mil quilômetros de extensão em contínua e alta voltagem. Isso já demonstra a que missão vieram. É energia para ficar à disposição de plantas industriais eletro-intensivas onde quer que estejam. Aqui tem energia barata para os que se dedicam a ampliar a produção de commodities, anunciam concessionárias e governo.
 
É tanto favor ao hidronegócio que, nesse caso, é a energia que se deslocaliza. E energia hidrelétrica provinda de megaprojetos deslocaliza modos de vida sustentadores de biomas. Sem maiores formalidades, foi posta em vigor uma política de extermínio dos usos sociais da floresta e das águas. Cada megaprojeto desses implica em implosões de sociabilidades e socializações. São sacrifícios sociais impostos que sequer são dimensionados, muito menos avaliados e discutidos publicamente.

As usinas no rio Madeira já eram computadas por instâncias gabaritadas do próprio governo como um caso de “desastre social”. Não se admitia o “desastre ambiental” strictu sensu, tendo em vista os efeitos minimizados prospectiva e retroativamente pela tecnologia das “usinas a fio d’ água”, com argumentos do tipo: “fossem usinas com reservatórios convencionais, os impactos seriam maiores”.

Mas o desastre social ninguém negava: a Secretaria Especial de Direitos Humanos acompanhou e registrou os surtos de estupros, casos de violência contra mulheres e crianças e exploração sexual de adolescentes em Jacy-Paraná entre 2008 e 2012. O Ministério do Trabalho e a Secretaria da Presidência atestaram condições análogas à escravidão nos canteiros de obra, cuja expressão mais visível foi a rebelião operária de Jirau em 2011.

O Ministério da Pesca sabe que milhares de pescadores artesanais perderam sua capacidade de sustento e que nenhum programa compensatório pode alterar o fato que o trecho superior do rio Madeira foi transformado em dois degraus que alteraram de forma drástica os fluxos – de água, sedimentos e seres vivos – que provinham das cabeceiras nos Andes e seu deságue nas terras baixas do Amazonas.

O Ministério de Desenvolvimento Social e até o IBAMA atestaram a inviabilidade econômica dos reassentamentos realizados pelos consórcios e comprovaram a desagregação familiar e pulverização dos reassentados nas periferias de Porto Velho.

Com a grande cheia de 2014, potencializada pela imprevidente operação dos “peculiares” reservatórios das usinas, agora querem apagar o rastro dos desastres acumulados. O “desastre foi natural”, repetem dirigentes dos consórcios, técnicos dos órgãos licenciadores e fiscalizadores, senadores, governador do estado e até a presidenta do país. Tratamento padrão para “calamidade natural” a fim de ocultar a calamidade construída e que continua em curso.

Seria necessário suspender as licenças de operação das duas usinas e repensar o projeto “Complexo Madeira” como um todo, incluindo suas extensões, ramificações e seu efeito cumulativo na bacia. Mas não é o que pensam o setor elétrico e o governo (em processo de reeleição). Selou-se um pacto de silêncio e inação dos órgãos fiscalizadores e do próprio Poder Judiciário para que não se ponha óbice a projetos de infraestrutura do PAC, considerados “estratégicos para o país”.

Na estratégia dos promotores do Complexo Madeira, colam-se muitas outras estratégias empresariais convergentes no intuito da incorporação prévia de blocos de recursos naturais e eixos de passagem interoceânicos. Por isso agora as estradas voltam a ser priorizadas.

Os caminhos na Amazônia eram os rios. Com a chegada das estradas, a pilhagem foi viabilizada. O mercado faz seu traçado olhando o mapa abstrato e uma planilha de custos. A Belém-Brasília, a Transamazônica (ainda que não completamente pavimentada), a BR 364 (Cuiabá-Rio Branco) e agora a BR 163 (Cuiabá-Santarém) foram e estão sendo edificadas com histórias nada edificantes ao longo de cada trecho.

O caso mais recente, a pavimentação da BR 319 (Porto Velho-Manaus) prossegue sem licenciamento específico, sem que se adotem medidas adicionais de fortalecimento das Unidades de Conservação e terras indígenas no seu percurso. Nada contra estradas em geral, mas quando determinadas vias produzem espaços homogêneos que propiciam situações de etnocídios e biocídios, é preciso falar o que vem junto com as estradas e o que não vem.

A construção de vias de acesso de larga escala a regiões situadas na fronteira do mercado traz embutidos projetos de desarticulação e rearticulação de um conjunto de territorialidades não mercantis. É o que deveria ser admitido e discutido. Para podar qualquer discussão, no entanto, sempre haverá uma situação de exceção à disposição. O risco de um novo apagão impôs a expansão da fronteira elétrica na Amazônia em marcha forçada. Em seguida não podem abrir mão das taxas mínimas de “crescimento” frente à crise internacional e novas exceções são abertas: desregulamentações, subsídios e incentivos diretos aos “setores dinâmicos” da economia. E se há um desastre ampliado, associado a grandes variações pluviométricas, aflora então, com mérito salvacionista, um governo de exceção que faz a “gestão da urgência” durante o meio e o pico da última cheia do rio Madeira.

Dois exemplos disso foram estradas representadas e reivindicadas como grande solução depois do isolamento provocado pela cheia: a estrada Parque, que foi anunciada nos jornais como única alternativa para ligar Guajará-Mirim à BR 364, artéria do estado de Rondônia; e a estrada que liga a BR 319 às comunidades ribeirinhas do Maravilha e Niterói, situadas a jusante da usina de Santo Antônio. Essa última estrada foi construída de forma praticamente clandestina com a alegação de que era preciso refazer acessos destruídos pelos efeitos da cheia.

A Estrada Parque, a BR 421, atravessa o Parque Estadual de Guajará-Mirim. Este parque é contíguo com o território da etnia Karipuna e sabe-se que há na região indícios de índios não contatados pelos brancos (o termo “isolados” é corrente, porém, mais justo seria: “resistentes voluntários à modernidade capitalista”). A estrada tinha sido interditada como resultado do trabalho do Ministério Público Federal de Rondônia em março de 2014, com o argumento de que era preciso proteger a vida da/na floresta. No mesmo mês a estrada foi reaberta, inviabilizando a área de proteção integral. Depois que as águas baixaram e a BR 364 foi liberada, não se teve notícia da reversão dessa decisão que fere frontalmente direitos conquistados pelos povos indígenas. Pelo contrário, as manchetes de jornais locais comemoram que a Estrada Parque “está garantida”.

A estrada nova que fica na margem esquerda do Madeira se tornou solução para a especulação fundiária/imobiliária estimulada pela construção da primeira ponte que atravessa o rio. A estrada que parte da BR 319 não parece regulamentada: além de não haver placa indicativa, simplesmente quebraram a guia da BR na largura da estrada nova. A comunidade Maravilha teve a sua chamada “estrada da beira” tomada pelo rio Madeira e pela lama e acabou ficando muito perto da barranca devido à erosão das praias. A comunidade de Niterói, onde surgiram muitos lotes e loteadores, se tornou a cabeça de ponte para expandir o negócio da incorporação imobiliária e fundiária.

O problema é que a estrada fragiliza ainda mais a porção mais preservada da APA (Área de Proteção Ambiental) Rio Madeira, onde ainda muitas famílias agroextrativistas persistem em manter sua economia de subsistência e/ou semi-mercantil. A comunidade Maravilha é uma das poucas áreas próximas a Porto Velho que contém manchas de floresta densa, olhos d’água e formas de interação tradicional com o meio ambiente. A ponte nova, associada à estrada já cascalhada, estende a cidade de Porto Velho e suas assimetrias para a margem esquerda do rio Madeira.

Lou-Ann Kleppa e Luis Fernando Novoa Garzon são professores da Universidade Federal de Rondônia.

Fonte: http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=9931:manchete130814&catid=34:manchete 

UENF: um aniversário para lembrar o passado e lutar por um futuro melhor

darcy

A Universidade Estadual do Norte (UENF) celebra hoje (15/08) 21 anos de existência. Essa instituição que é fruto das visões de longa profundidade de Darcy Ribeiro e Leonel Brizola, também é produto da organização da população de Campos dos Goytacazes.  Essa junção de vontades gestou uma instituição com ideias e práticas que revolucionaram a forma com que as universidades públicas brasileiras.

Darcy Ribeiro viajou por diversas partes do mundo para produzir um modelo institucional que permitisse a todos os membros da UENF realizar o máximo de suas potencialidades. Darcy começou por quebrar as amarras departamentais que, em sua opinião, sufocavam a criatividade e burocratizavam o cotidiano das universidades brasileiras. Além disso, Darcy Ribeiro elevou a barra dos requisitos para alguém fosse professor na UENF ao estabelecer o título de doutor para que alguém pleiteasse o direito de trabalhar na instituição. Além disso, Darcy estabeleceu que todos os professores deveriam trabalhar em regime de Dedicação Exclusiva.  Com o passar dos anos, todas as universidades públicas brasileiras se dirigiram no sentido de adotar esses pré-requisitos, mesmo esquecendo que toda essa mudança começou com a criação da UENF.

Agora a UENF vive uma crise sem precedentes em sua jovem história. E o principal problema, não o único, é a rala compreensão que os atuais (des) governantes estaduais possuem da importância das universidades públicas fluminenses para um modelo de desenvolvimento econômico, social e ambiental que seja inclusivo e democrático. Ao contrário, nos anos de Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão, o que temos é o encurtamento de salários, o aprofundamento da terceirização e o desrespeito pela autonomia universitária.  Essa visão rala é o ponto de partida da situação de quase insolvência financeira em que não só a UENF, mas também a UERJ e a UEZO se encontram!

Para compor esses problemas, temos na reitora da UENF um grupo de gestores que simplesmente não entendem a estatura dos cargos que ocupam. É por isso que, em vez de enfrentarem o (des) governo de frente, preferem insistir num diálogo de surdos e mudos com o (des) governo Pezão, enquanto precisam assumir que já não conseguem pagar os fornecedores e prestadores de serviços.

Mas como alguém que já está na UENF desde 1998, eu acredito firmemente que a comunidade universitária tem plenas capacidades de superar tudo isso, e continuar realizando as tarefas idealizadas por Darcy Ribeiro e seu parceiro de projeto, Leonel Brizola, nos deixaram. 

Darcy Ribeiro dizia que “a crise na educação não é uma crise, mas um projeto”. Assim, em vez de cairmos no desânimo e na apatia, creio que o caminho devemos ampliar a resistência aos que querem destruir a UENF com um projeto político de privatização do estado do Rio de Janeiro.  Só dessa forma estaremos à altura das tarefas que nos foram deixadas pelos fundadores da UENF.

Por isso tudo, é que devemos celebrar esse aniversário com altivez e não com meras celebrações de fachada. E só lembrando Chico Buarque de Holanda, eu dedico ao (des) governador Luiz Fernando Pezão, que aqui simboliza os inimigos da UENF, a canção “Apesar de você”.

Porto do Açu: construção e impactos na faixa de praias

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Hoje recebi novas imagens da Praia do Açu, e a linha de praia continua onde eu fotografei pela última vez. Mas isso quer dizer exatamente o que? Que o problema da erosão não é tão grave quanto parece? Para começar a dar respostas cientificamente válidas para essa pergunta, pedi uma análise da variação da área de areia que vai desde a Barra do Açu até o terminal 1 do Porto do Açu, e o resultado aparece na imagem abaixo.

Alteração da Linha de Costa Açu

 Os mais céticos sobre a validade destes números poderão argumentar que a série temporal considerada é curta, e isto é um fato inegável, o que compromete qualquer prognóstico mais duradouro. Agora, duas coisas são inegáveis no que a imagem mostra: 1) que após a construção do Porto do Açu, a área diminuiu, e 2) que a canal que permite o acesso de navios até o interior do empreendimento é um colosso de trabalho de engenharia. Resta-nos apenas acompanhar e medir ao longo do tempo, os efeitos que já foram notados, seja na diminuição da faixa de areia ou na salinização de águas e solos na região no entorno do empreendimento.

Eu sei que pode parecer ingenuidade minha, mas seria muito legal que em um dos seus futuros comunicados sobre o iminente início das operações do Porto do Açu, a Prumo Logística também disponibilizasse os dados que diz estar produzindo sobre estas duas variáveis. Afinal, se é para ser transparente, tem que compartilhar informações que não sejam só para mostrar que tudo vai na ex-Eikelândia. 

Reitoria reúne Conselho Universitário, mostra números da crise financeira, mas decide não fazer nada a respeito

Eu não sei o que é pior na atual da reitoria da UENF: sua incapacidade gerencial ou a enraizada disposição a aceitar pacificamente todos os desmandos do (des) governo Pezão. Na reunião do Conselho Universitário (CONSUNI) que ocorreu nesta 5a. feira (14/08), a reitoria entregou documentos que mostram o processo encolhimento das verbas a partir de repetidos contingenciamentos e cancelamentos de verbas, mas ficou por ai.

E o pior é que apenas poucos conselheiros manifestaram a necessidade de que a sociedade fluminense seja informada da situação gravíssima por que passam as finanças da UENF neste momento. Em resposta a estes conselheiros, o reitor Silvério Freitas apresentou a posição de que o CONSUNI não é um órgão político (como assim?) e que o caminho que será trilhado envolve apenas a continuidade das negociações com o (des) governo Pezão. Após a manifestação de três conselheiros e do presidente da ADUENF, Luís Passoni, o CONSUNI decidiu que uma moção deverá ser enviada a todos os candidatos ao governo do estado explicando a grave situação financeira em que a UENF se encontra. Isso aconteceu, é preciso que se saliente, a contra-gosto do reitor e do seu vice.

Um momento de especialmente constrangimento para o reitor (eu se fosse ele teria me sentido muito constrangido, mas eu sou eu e ele é ele) foi o desmentido dado pelo diretor geral de administração da UENF de uma afirmação do reitor de que não haveria risco do (des) governo dar calote nas dívidas da UENF. Segundo o que me foi informado por um dos membros do CONSUNI, o diretor geral de administração afirmo que é possível que o (des) governo Pezão não repasse os recursos necessários para a UENF honrar todos os seus compromissos!  Pois é, não há que esteja muito ruim que não possa piorar mais!

Abaixo os documentos entregues pela reitoria aos membros do CONSUNI que mostram de forma cabal a evolução do processo de asfixia financeira que a UENF vem sofrendo nas mãos do (des) governo Pezão/Cabral.

Carta Congentenciamento Contingenciamentos UENF

O acidente de Eduardo Campos mostra a força do Whatsapp

O impacto da disseminação de aplicativos na disseminação da informação ficou ainda mais claro no episódio da morte do candidato a presidente Eduardo Campos. É que munidos de celulares capazes de transmissão acelerada de dados via internet, um número calculável de pessoas se dirigiram ao local do acidente e produziram uma quantidade incalculável de fotografias e vídeos. Eu mesmo estou sendo abastecido com esse tipo de material via o Whatsapp, que já vinha se tornando a última febre dos usuários de comunicação móvel, mas que agora ficou ainda mais na crista da onda.

Esse fenômeno certamente provocará mais mudanças na forma com que a mídia corporativa se relaciona com a população, sempre pronta a enviar todo tipo de material informativo. O problema vai ser separar o joio do trigo, o que no caso da mídia corporativa está, inclusive, na crise que esses meios vem vivendo após a disseminação da internet e da telefonia móvel.

Abaixo envio um dos materiais que me chegaram de Santos (SP), onde a pessoa que produziu o material foi praticamente dentro da edificação onde o acidente ocorreu.

Imagens do local do acidente onde Eduardo Campos morreu

Por uma dessas coincidências do destino, um dos meus irmãos trabalha a 200 metros do local onde ocorreu o acidente em que faleceu Eduardo Campos, e ele me enviou cenas do local tiradas do celular dele e de colegas de trabalho. Pelas imagens dá para notar que os ocupantes do jatinho não tiveram a menor chance de sobreviver.

O meu irmão me disse que o avião caiu quando ele acabara de estacionar o carro na Avenida Washington Luiz, num ponto que não fica mais do que 100 metros de onde o avião se acidentou. A impressão que ele tem é que facilmente o acidente poderia ter tido muito mais vítimas, visto a área em que o mesmo ocorreu.

 

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