O mercado da carne e a geopolítica da contaminação

A crise envolvendo antibióticos banidos em carnes brasileiras mostra como o acordo com a União Europeia preserva assimetrias históricas: aos países sul-americanos cabem as commodities e os passivos sanitários; à Europa, o controle das regras, dos mercados e das barreiras

O episódio envolvendo a decisão da União Europeia de excluir temporariamente o Brasil da lista de países autorizados a exportar carnes e outros produtos de origem animal possui implicações muito mais profundas do que uma mera disputa comercial sanitária. O que está em jogo é a credibilidade internacional do sistema agropecuário brasileiro e, sobretudo, a crescente associação entre o agronegócio exportador e práticas produtivas consideradas incompatíveis com os novos padrões globais de saúde pública e segurança alimentar.

Do ponto de vista econômico, o impacto potencial é expressivo. A União Europeia representa um dos mercados de maior valor agregado para a carne brasileira. A ameaça de interrupção dessas exportações tende a produzir efeitos em cadeia: pressão sobre frigoríficos, insegurança em contratos internacionais, perda de competitividade e fortalecimento de concorrentes como Argentina, Uruguai e Paraguai — todos mantidos na lista europeia de países aptos a exportar.

Politicamente, a situação é ainda mais delicada porque ocorre em um momento em que o governo brasileiro tenta consolidar internacionalmente a imagem de um país ambiental e sanitariamente alinhado às exigências globais. A decisão europeia funciona, portanto, como um constrangimento direto ao discurso oficial de modernização regulatória e de confiabilidade do agronegócio brasileiro.

Ao mesmo tempo, o episódio fornece munição política tanto para setores europeus protecionistas quanto para críticos internos do modelo agroexportador brasileiro. Agricultores europeus vêm pressionando Bruxelas há meses contra a entrada ampliada de produtos agropecuários do Mercosul, alegando concorrência desleal baseada justamente em padrões sanitários e ambientais mais permissivos. Nesse sentido, a controvérsia dos antibióticos oferece uma justificativa técnica poderosa para medidas que também possuem forte dimensão econômica e geopolítica.

Mas talvez a questão mais perturbadora esteja no que essa crise revela sobre o mercado interno brasileiro.

Se determinados antibióticos ou antimicrobianos são considerados inadequados ou perigosos para consumidores europeus, surge inevitavelmente uma pergunta: qual é exatamente o nível de exposição da população brasileira a essas substâncias? A crise abre uma linha inquisitória extremamente sensível sobre a existência de um possível “duplo padrão sanitário”: um sistema rigoroso para atender mercados externos exigentes e outro muito mais permissivo para o consumo doméstico.

A discussão deixa de ser apenas comercial e passa a envolver saúde pública. O uso intensivo de antibióticos na pecuária está associado internacionalmente à seleção de bactérias resistentes, capazes de comprometer tratamentos médicos humanos. Ou seja, não se trata apenas de resíduos químicos na carne, mas da possibilidade de fortalecimento silencioso de superbactérias resistentes a medicamentos.

Nesse contexto, torna-se inevitável questionar:

  • quais substâncias continuam sendo utilizadas na pecuária brasileira apesar de restrições internacionais;
  • qual é o nível efetivo de fiscalização realizado sobre frigoríficos e confinamentos;
  • quantos testes são feitos no mercado interno;
  • e por que consumidores brasileiros deveriam aceitar padrões sanitários inferiores aos exigidos para consumidores europeus.

As reações públicas revelam, inclusive, um dado preocupante: parte da população passou a interpretar a possível permanência dessas carnes no mercado interno apenas como oportunidade de queda de preços. Isso expõe uma contradição social dramática: a deterioração do poder de compra é tamanha que parcelas da população passam a relativizar riscos sanitários em nome do acesso à proteína animal.

A questão dos antibióticos banidos também se soma diretamente ao debate sobre os agrotóxicos proibidos na União Europeia, formando um quadro mais amplo de divergência regulatória entre Brasil e Europa. O país já convive com críticas internacionais relacionadas ao uso extensivo de princípios ativos vetados em território europeu. Agora, a controvérsia alcança também a pecuária, ampliando a percepção externa de que o Brasil estaria se consolidando como um espaço de flexibilização sanitária e ambiental para maximização da competitividade agroexportadora.

E há aqui uma ironia particularmente incômoda. Assim como ocorre com diversos agrotóxicos proibidos na Europa mas exportados para países periféricos, parte significativa dos antibióticos e insumos veterinários utilizados globalmente é produzida justamente por corporações sediadas em países da própria União Europeia. Ou seja, substâncias consideradas inadequadas para consumo interno europeu continuam gerando lucros para empresas europeias quando destinadas a mercados externos menos protegidos regulatoriamente.

O resultado é uma hipocrisia sanitária difícil de ignorar: a Europa proíbe o consumo doméstico de determinadas substâncias, mas tolera — e  lucra diretamente com — sua circulação em países do Sul Global como o Brasil. Ao mesmo tempo, quando os efeitos desse modelo retornam sob a forma de resíduos em carnes exportadas ou risco de resistência antimicrobiana global, o bloco europeu ergue barreiras sanitárias para proteger seus próprios consumidores.

A diferença é que os consumidores brasileiros não dispõem do mesmo nível de proteção regulatória, rastreabilidade e fiscalização existente na União Europeia. Assim, cria-se uma divisão sanitária internacional profundamente desigual: os riscos são externalizados para populações periféricas enquanto os mercados centrais preservam para si padrões mais rigorosos de segurança alimentar.

No limite, a crise atual pode marcar o início de uma transformação profunda no comércio internacional de alimentos. O que antes era debatido apenas em torno de tarifas e subsídios passa agora a envolver rastreabilidade sanitária, padrões ambientais, antibióticos, bem-estar animal e resíduos químicos. E isso coloca o Brasil diante de uma escolha estratégica: adaptar-se às exigências crescentes dos mercados globais ou correr o risco de se tornar um exportador associado a produtos considerados sanitariamente problemáticos.

Este episódio também exemplifica de maneira cristalina os limites e as profundas desigualdades estruturais do acordo comercial entre União Europeia e Mercosul. Enquanto a Europa mantém plena capacidade de erguer barreiras sanitárias, ambientais e regulatórias contra produtos sul-americanos sempre que seus interesses econômicos ou políticos forem ameaçados, dificilmente os países do Mercosul possuirão margem semelhante para bloquear a entrada de produtos industriais europeus. É difícil imaginar, por exemplo, que Brasil ou Argentina consigam impor restrições equivalentes contra veículos europeus baseados em tecnologias já relativamente ultrapassadas — especialmente automóveis movidos a combustão — mesmo quando existirem alternativas chinesas mais modernas, mais eficientes e frequentemente mais baratas. O desequilíbrio é evidente: a Europa preserva o direito de proteger seu mercado, sua indústria e seus consumidores com todo o peso de sua estrutura regulatória, enquanto aos países sul-americanos resta sobretudo a posição de exportadores de commodities sujeitos a exigências crescentes e frequentemente assimétricas.

No fundo, o caso das carnes contaminadas por antibióticos proibidos revela algo maior: o acordo Mercosul–União Europeia parece ter sido desenhado sobre pesos e contrapesos profundamente desiguais, nos quais os países do Sul assumem os riscos sanitários, ambientais e econômicos, enquanto os países centrais preservam para si o poder de decidir quais produtos podem circular, em quais condições e em benefício de quem.

El Niño: a engrenagem invisível que reorganiza o clima e pressiona sociedades

Do aquecimento do Pacífico às secas amazônicas e enchentes no Sul do Brasil, o risco de um Super El Niño revela como a variabilidade climática pode amplificar crises ambientais, econômicas e históricas

Há fenômenos naturais que funcionam como engrenagens discretas do sistema terrestre. Eles operam longe do cotidiano das cidades, mas quando entram em ação reconfiguram economias, paisagens e até trajetórias históricas. O El Niño é um desses mecanismos profundos , sendo um fenômeno que nasce nas águas tropicais do Oceano Pacífico e reverbera em escala planetária, com efeitos particularmente sensíveis na América do Sul.

Em anos considerados “normais”, os ventos alísios empurram águas quentes em direção ao Pacífico oeste, acumulando calor próximo ao Sudeste Asiático e permitindo que águas frias, ricas em nutrientes, subam à superfície na costa oeste sul-americana. Esse mecanismo sustenta uma das regiões pesqueiras mais produtivas do mundo e ajuda a manter relativa estabilidade climática nos trópicos. O El Niño começa quando essa engrenagem enfraquece: os ventos perdem força, o calor oceânico se desloca para leste e a atmosfera reage reorganizando suas grandes correntes. O resultado é uma redistribuição global de calor e um efeito dominó climático.

É por isso que o El Niño não é apenas um “evento regional”. Ele é um reorganizador do clima planetário. Em escala global, costuma empurrar as temperaturas médias para cima e amplificar extremos: secas mais severas, chuvas mais intensas, ondas de calor mais persistentes. Em outras palavras, ele age como um multiplicador das tensões já presentes no sistema climático.

Na América do Sul, essa reorganização ganha contornos dramáticos. Ao atingir a costa do Peru e do Equador, o aquecimento das águas interrompe a ressurgência fria que sustenta a pesca. Ao mesmo tempo, regiões desérticas passam a receber chuvas torrenciais, desencadeando enchentes e deslizamentos. Enquanto isso, a Amazônia tende a experimentar o oposto: secas prolongadas, rios com níveis críticos e incêndios florestais mais frequentes. O continente vive, portanto, uma espécie de divisão climática: excesso de água em algumas regiões, escassez dramática em outras.

Esse contraste torna-se ainda mais evidente quando olhamos para o Brasil. O país costuma experimentar o El Niño como um fenômeno de extremos simultâneos. O Sul enfrenta chuvas persistentes e enchentes recorrentes; o Sudeste oscila entre ondas de calor e tempestades intensas; a Amazônia sofre com secas que elevam o risco de queimadas e pressionam a geração hidrelétrica. Em anos de El Niño muito forte, os chamados “Super El Niño” , esses padrões tendem a se intensificar, produzindo impactos que se espalham da agricultura ao sistema energético. O risco deixa de ser apenas meteorológico e passa a ser socioeconômico, com efeitos mais dramáticos atingindo as camadas mais pobres da população.

Além disso,  um Super El Niño em um planeta já aquecido pelo aquecimento global cria uma combinação particularmente preocupante. O fenômeno natural não ocorre em um mundo estático: ele se soma a oceanos mais quentes, florestas mais vulneráveis e cidades mais expostas. Assim, secas podem tornar-se mais profundas, enchentes mais destrutivas e ondas de calor mais prolongadas. O que antes era variabilidade climática passa a interagir com uma tendência de fundo, ampliando seus efeitos.

Mas o El Niño não é apenas uma questão contemporânea. Evidências arqueológicas sugerem que ele acompanha a história humana há milênios. Civilizações costeiras andinas dependiam de pesca abundante e de sistemas agrícolas delicados. Quando eventos extremos interrompiam a produtividade marinha ou desencadeavam chuvas devastadoras em regiões áridas, as consequências eram profundas: colapsos produtivos, migrações e instabilidade social. Há indícios de que episódios intensos do fenômeno contribuíram para crises em sociedades pré-colombianas.

No caso do mundo andino, especialmente nas regiões dos Andes, a variabilidade climática pode ter sido um fator silencioso na fragilização do Império Inca. Terraços agrícolas dependiam de equilíbrio hídrico delicado; chuvas extremas podiam destruir encostas cultivadas, enquanto secas comprometiam colheitas. Quando os europeus chegaram, encontraram uma sociedade já pressionada por tensões internas e possivelmente por oscilações climáticas recentes. O clima não explica sozinho a queda de grandes civilizações, mas frequentemente aparece como um fator agravante em momentos de crise.

Talvez seja essa a lição mais incômoda do El Niño: ele lembra que a história humana sempre esteve entrelaçada com a variabilidade climática. A diferença é que hoje a escala da exposição é muito maior. Populações urbanas densas, cadeias globais de alimentos e sistemas energéticos interdependentes tornam a sociedade contemporânea mais sensível a choques climáticos amplificados.

Observar o Pacífico tropical, portanto, é observar um dos termômetros mais importantes do futuro próximo. Quando suas águas aquecem além do habitual, não se trata apenas de uma anomalia oceânica, mas é um sinal de que o planeta inteiro pode estar prestes a sentir os efeitos dessa engrenagem invisível.

Análise revela que a Elsevier é a editora que menos despublica seus artigos e a que mais os reintegra

Frequência dos motivos apresentados por 10 editoras para a retratação de artigos ( fonte).

Por Retraction Watch

Embora a Elsevier supere outras editoras em termos de volume absoluto, um 
estudo recente revelou que ela também apresenta a menor taxa de retratação e a maior taxa de reintegração de artigos entre nove das principais editoras de artigos acadêmicos. O estudo também identificou uma décima editora como um caso atípico em relação aos motivos de retratação. 

“Cada editora tem seu próprio perfil de retratação e as taxas de retratação variam em duas ordens de magnitude”, disse Jonas Oppenlaender , autor do preprint de fevereiro e pesquisador da Universidade de Oulu, na Finlândia, ao Retraction Watch. “Isso reflete diferentes culturas editoriais e estratégias de detecção, e não apenas diferentes níveis de má conduta.”

Oppenlaender examinou dados do banco de dados Retraction Watch, abrangendo o período de 1997 até o início de 2026, para identificar as nove principais editoras com o maior número de retratações. Ele também incluiu a Association for Computing Machinery (ACM), “porque é uma importante editora de sociedade profissional que não havia sido examinada anteriormente em estudos de retratação entre editoras”, escreveu ele no preprint.

Segundo seus cálculos, a taxa de retratação da Elsevier foi de 3,97 artigos por 10.000 publicados. Em comparação, a SAGE teve 5,46, a Wiley 6,21, a Taylor & Francis 6,50, a Springer Nature 9,06, a IEEE 17,70, a PLOS 26,82 e a IOS Press 283,77.

Os leitores do Retraction Watch não ficarão surpresos ao saber que a maior taxa de retratações foi registrada na Hindawi, com 320,02 por 10.000. A Wiley adquiriu a editora em 2023 e o alto número de retratações – incluindo mais de 11.000 do final de 2022 ao início de 2024 – é “compatível com as retratações em massa que se seguiram à aquisição pela Wiley”, escreveu Oppenlaender. 

Dos 98 artigos no conjunto de dados que foram reintegrados após a retratação, 86 foram publicados em periódicos da Elsevier. Essa editora reintegrou 1,3% dos artigos retratados. Apenas a Taylor & Francis chegou perto, com uma taxa de reintegração de 0,4%.

Entre as nove principais editoras, os motivos mais comuns para retratação foram problemas com resultados e/ou conclusões, envolvimento ou preocupações de terceiros, plágio, problemas com os dados e revisão por pares problemática. No entanto, Oppenlaender descobriu que sete dos dez motivos mais comuns para retratação — incluindo má conduta, plágio e problemas com os dados — estavam “totalmente ausentes” dos registros da ACM. 

Das 354 retratações feitas pela ACM no conjunto de dados, todas, exceto duas, foram resultado de revisão por pares comprometida em dois conjuntos de anais de conferências, sem nenhuma retratação antes de 2020. Como relatamos em 2022, a ACM retratou mais de 300 artigos de conferência de uma só vez .

Oppenlaender argumentou no preprint que a ACM move pelo menos uma parte de seus artigos retratados para um “arquivo obscuro”, o que “significa que alguns conteúdos retratados ou removidos podem não aparecer em nenhum banco de dados público, incluindo o Retraction Watch, o que pode levar à subnotificação das retratações da ACM”.

“Isso não condiz com a realidade”, disse-nos Scott Delman, diretor de publicações da ACM, por e-mail. “Artigos que são ‘removidos’ por um dos motivos indicados em nossa Política [de Retratações] ainda teriam páginas de citação disponíveis, juntamente com um Aviso de Remoção.”

Quanto à ACM ser uma anomalia no que diz respeito aos motivos para retratação, “O que eu diria é que nosso limite para comprovar má conduta é ‘extremamente alto'”, disse Delman. “A qualquer momento, a ACM está investigando bem mais de 100 alegações de má conduta.”

Em 2023, a ACM afirmou que iria retratar dois artigos de um pioneiro dos deepfakes por má conduta. Eles ainda não foram retratados. Quando pedimos uma atualização sobre esses artigos, Delman nos disse que “um recurso foi apresentado de acordo com a Política de Recursos da ACM, e este caso está aguardando uma revisão formal pelo Comitê de Recursos da ACM”.

Oppenlaender também descobriu que o intervalo entre a publicação de um artigo e sua retratação variava de semanas a anos, com o “atraso” da PLOS apresentando uma média de mais de quatro anos. O tempo relativamente curto entre a publicação e a retratação de um artigo no IEEE — 41 dias — “mostra que é viável emitir retratações rápidas em larga escala”, afirmou. Quase todas as suas retratações, mais de 99%, foram concluídas em menos de um ano, de acordo com o preprint. 

Tanto a Elsevier quanto a Springer Nature apresentaram um “crescimento constante” nas taxas de retratação na última década. Quanto à geografia, a Springer Nature teve um conjunto de retratações de pesquisadores na Índia classificados como “Editor Desonesto”, o que “é praticamente exclusivo entre as editoras analisadas”, disse Oppenlaender. 

Nosso banco de dados usa a classificação “Editor Desonesto” para retratações causadas por credenciais de editor falsas ou forjadas, ou quando um editor subverte pelo menos um processo sob sua responsabilidade. O agrupamento corresponde às retratações em massa que já abordamos . 

De acordo com o estudo preliminar, em cada uma das nove editoras com o maior número de retratações, os autores afiliados à China “representam a maior parcela de retratações em todas as editoras analisadas, refletindo pressões sistêmicas”. Em termos de nacionalidade dos autores dos trabalhos retratados, a China representou 52,54%, a Índia 7,25%, os EUA 5,72%, a Arábia Saudita 2,83%, o Irã 2,51% e o Reino Unido 2,10%.

Com reportagem de Avery Orrall


Fonte: Retraction Watch

Monitorar a água, liberar o veneno: o paradoxo dos agrotóxicos no governo Lula

O governo lança ferramentas de monitoramento hídrico ao mesmo tempo em que consolida o Brasil como o líder mundial de consumo de agrotóxicos

O anúncio do governo Lula sobre a criação de um painel de monitoramento de agrotóxicos nas bacias hidrográficas brasileiras expõe uma contradição política difícil de ignorar. Ao mesmo tempo em que o Ministério do Meio Ambiente apresenta a iniciativa como um avanço em transparência e prevenção de riscos ambientais, o próprio governo Lula vem acumulando recordes na liberação de novos agrotóxicos, incluindo princípios ativos proibidos na União Europeia devido aos seus comprovados riscos à saúde humana e ao meio ambiente. O resultado é um cenário paradoxal: monitora-se cada vez mais a contaminação da água enquanto se amplia simultaneamente a autorização para o uso das substâncias responsáveis por essa mesma contaminação. 

O discurso oficial procura associar o monitoramento à ideia de responsabilidade ambiental e sustentabilidade agrícola. Contudo, essa narrativa entra em choque com a política concreta de expansão do mercado de agrotóxicos no Brasil. Desde o início do atual governo, centenas de novos registros comerciais de agrotóxicos foram autorizados, muitos deles contendo substâncias que países europeus já decidiram retirar de circulação por seu potencial cancerígeno, neurotóxico, desregulador endócrino ou persistente no ambiente. Assim, o monitoramento anunciado corre o risco de funcionar mais como instrumento de gestão da contaminação do que como política efetiva de prevenção.

A contradição se torna ainda mais evidente quando autoridades federais afirmam que “competitividade e sustentabilidade não podem caminhar separadas”, enquanto a estrutura regulatória brasileira continua profundamente orientada para atender às demandas do agronegócio exportador dependente de agrotóxicos. Na prática, o país permanece consolidando sua posição como um dos maiores mercados consumidores de agrotóxicos do planeta, inclusive de princípios ativos rejeitados em outras partes do mundo.

Há ainda uma questão estrutural que fragiliza o alcance real dessa iniciativa. Após a aprovação do chamado “Pacote do Veneno”, o poder decisório sobre a liberação de novos agrotóxicos foi significativamente concentrado no Ministério da Agricultura, historicamente mais permeável às pressões das corporações multinacionais que monopolizam a produção de venenos agrícolas e das grandes entidades do agronegócio. Isso significa que, mesmo que o monitoramento identifique níveis preocupantes de contaminação em rios, aquíferos e bacias hidrográficas, não existe garantia de que essas informações resultarão em restrições efetivas ou na proibição das substâncias detectadas.

O problema é que monitorar não equivale automaticamente a proteger. Um painel pode produzir mapas sofisticados, estatísticas detalhadas e relatórios públicos, mas continuará sendo insuficiente se não houver disposição política para enfrentar as causas da contaminação. E essas causas estão diretamente ligadas ao modelo agrícola dominante e à contínua flexibilização regulatória promovida pelo próprio Estado brasileiro.

Os dados apresentados no lançamento do painel já revelam um quadro preocupante. Mais de 10 mil análises foram realizadas, com detecção de agrotóxicos em 7,2% das amostras, sendo o S-Metolacloro o composto mais frequentemente encontrado. O fato de substâncias químicas aparecerem de maneira recorrente nos recursos hídricos brasileiros deveria acender um alerta sanitário nacional, sobretudo em um país onde milhões de pessoas dependem diretamente dessas águas para abastecimento, pesca, agricultura familiar e consumo cotidiano.

Nesse contexto, a iniciativa do governo parece caminhar sobre uma linha ambígua: de um lado, reconhece oficialmente os impactos ambientais e sanitários dos agrotóxicos; de outro, mantém e amplia a política de liberação dessas substâncias. Sem enfrentar essa contradição central, o risco é que o monitoramento se transforme apenas em um grande inventário da contaminação progressiva das águas brasileiras — um mecanismo de observação da crise, mas não de sua contenção.

Cientistas alertam que o El Niño pode intensificar os eventos climáticos extremos em 2026

O surgimento de um forte padrão climático El Niño este ano, em um mundo que está aquecendo como resultado das mudanças climáticas causadas pelo homem, pode alimentar extremos climáticos “sem precedentes”, alertaram cientistas do clima

Incêndio arde no tronco de uma árvore em Vilar de Condes, Galiza, Espanha, 15 de agosto de 2025. REUTERS/Nacho Doce 

Por Mateo Civillini, edição de Megan Rowling, para “Climate Home News”

Os meteorologistas preveem que o El Niño – o fenômeno climático natural caracterizado por temperaturas da superfície do mar excepcionalmente elevadas no Oceano Pacífico – se desenvolva já neste mês . Alguns especialistas afirmam que, desta vez, o evento poderá ser particularmente intenso.

Cientistas afirmam que a combinação do El Niño com o aumento das temperaturas globais pode fazer de 2026 o ano mais quente ou o segundo mais quente já registrado. Um El Niño anterior contribuiu para que as temperaturas médias globais em 2024 atingissem um recorde de 1,55°C acima dos níveis pré-industriais.

Pesquisadores alertam que um El Niño forte pode intensificar ainda mais as condições climáticas extremas, contribuindo para incêndios e secas mais severos em algumas regiões e tempestades e inundações em outras.

El Niño encontra o aquecimento global

Friederike Otto, professora de ciências climáticas no Imperial College London, afirmou que o El Niño em si “não é motivo para pânico”, mas sim o fato de estar ocorrendo em um contexto de aquecimento global cada vez maior.

“El Niño é um fenômeno natural que vem e vai”, disse ela a jornalistas esta semana. “O que o torna tão dramático não é o evento em si, nem se é um ‘Super El Niño’ ou não, mas sim o fato de estar acontecendo em um clima que está mudando drasticamente.”

“Os recordes ainda serão quebrados devido às mudanças climáticas causadas pelo homem e à queima contínua de combustíveis fósseis”, acrescentou Otto.

A Organização Meteorológica Mundial divulgará sua próxima atualização sobre as perspectivas de um El Niño no final de maio, que, segundo ela, fornecerá orientações mais robustas para a tomada de decisões sobre como proteger as pessoas e a natureza dos impactos associados .

Mesmo antes da provável chegada do fenômeno El Niño, 2026 já se configura como um ano “extraordinário” em termos de eventos climáticos extremos, afirmaram cientistas do grupo de pesquisa World Weather Attribution (WWA).

Em abril, as temperaturas da superfície do mar se aproximaram de seus máximos históricos, enquanto o gelo marinho do Ártico atingiu seu nível mais baixo pelo segundo ano consecutivo. Em março, os Estados Unidos vivenciaram uma onda de calor recorde que teria sido “virtualmente impossível” sem as mudanças climáticas, de acordo com uma análise da WWA.

Risco dramático de incêndios florestais

Em todo o mundo, a temporada de incêndios florestais teve um início dramático. Incêndios recordes na África Ocidental e no Sahel, bem como grandes focos na Índia, no Sudeste Asiático e em partes da China, contribuíram para que o mundo registrasse a maior área queimada de todos os tempos para o período de janeiro a abril, de acordo com Theodore Keeping, pesquisador da WWA.

Ele observou que o surgimento de um evento El Niño poderoso poderia ter um grande impacto na intensificação dos incêndios florestais, aumentando a probabilidade de condições climáticas “severas”, quentes e secas, na Austrália, nos EUA e no Canadá, bem como na floresta amazônica.

“A probabilidade de incêndios extremos e prejudiciais pode ser a mais alta que vimos na história recente, caso um El Niño forte se desenvolva”, acrescentou Keeping.


Fonte: Clima Home News

Estudantes nas ruas: o que os protestos revelam sobre a crise de financiamento das universidades paulistas

Manifestações que chegam ao centro de São Paulo expõem o desafio da permanência estudantil, o esgotamento das negociações e a urgência de respostas estruturais para o futuro das universidades estaduais

Os protestos envolvendo estudantes das universidades estaduais paulistas (Unesp, Unicamp e USP) mostram que algo importante está em ebulição no ensino superior público brasileiro. Mais do que um episódio pontual, a mobilização revela tensões acumuladas ao longo de anos e que agora transbordam para o espaço público. Quando manifestações deixam os campi e ocupam o centro da cidade, o recado muda de escala: aquilo que antes parecia um debate interno passa a disputar a atenção da sociedade. Esse deslocamento é simbólico, pois lembra que a universidade pública não existe isolada — ela forma profissionais, produz conhecimento, impacta políticas públicas e ajuda a definir os rumos do país.

O cenário que levou às ruas foi sendo construído lentamente, em assembleias, reuniões e negociações que muitos estudantes consideram insuficientes. Em geral, protestos ganham intensidade quando se combinam sensação de esgotamento das vias institucionais, aumento da mobilização coletiva e a presença de forças de segurança diante das manifestações. Essa combinação tende a transformar reivindicações em crise política, deslocando o foco do debate para a tensão entre direito à manifestação e manutenção da ordem. Nesse processo, a pauta original corre o risco de ficar em segundo plano, mesmo quando foi justamente ela que motivou a mobilização.

No fundo, um dos temas que atravessa essas manifestações é a permanência estudantil. Nas últimas décadas, o acesso ao ensino superior público se ampliou, mas permanecer na universidade — especialmente em cidades com alto custo de vida — tornou-se um desafio crescente. Moradia, alimentação, transporte e condições mínimas de estudo passaram a ocupar o centro das reivindicações porque a democratização do acesso, sem políticas robustas de permanência, tende a se tornar incompleta. Entrar na universidade não garante que o estudante consiga concluir o curso em condições dignas, e essa percepção tem mobilizado cada vez mais jovens.

Episódios de confronto chamam atenção justamente porque tornam visível algo que muitas vezes permanece invisível no cotidiano universitário: o acúmulo de frustrações, expectativas e incertezas sobre o futuro. Independentemente das posições políticas envolvidas, protestos funcionam como sinais de alerta. Eles indicam que existem problemas estruturais que ainda aguardam respostas estruturais. Universidades públicas sempre foram espaços de debate, conflito e construção de projetos de futuro. Quando estudantes ocupam as ruas, estão dizendo, de forma clara e ruidosa, que sentem não estar sendo ouvidos — e ignorar esse sinal dificilmente fará com que a tensão desapareça.  Assim, a solução dificilmente será o uso da repressão policial para calar reivindicações justas. Pior ainda é a ação de parlamentares que agem mais como provocadores do que representantes eleitos do povo justamente para cobrar e fiscalizar as ações do poder executivo.

Pouco estudada, névoa da Amazônia tem papel ambiental, indica pesquisa

Fenômeno que ocorre na altura da copa das árvores revela dinâmica intrincada entre microrganismos e a umidade que a floresta produz

Pouco estudada, névoa da Amazônia tem papel ambiental, indica pesquisa -  Ciência UFPR

Por Camille Bropp para “Ciência UFPR” 

O ponto a 43 metros de altura de uma plataforma metálica no meio da Floresta Amazônica, na Estação Científica de Uatumã, tem sido o local de trabalho recorrente da pesquisadora curitibana Bruna Sebben nos últimos sete anos. No Observatório de Torre Alta (ATTO), aonde se chega do aeroporto de Manaus por um trajeto de seis horas que envolve rodovia, barco e estrada de terra, pesquisadores do Brasil e da Alemanha buscam entender a relação entre floresta e atmosfera.

Para Bruna Sebben, estar na Amazônia significa desvendar a dinâmica e as funções da neblina amazônica. Talvez pouca gente saiba, mas a névoa é um fenômeno frequente da floresta. Ocorre entre as 3 e as 7 horas da manhã, coincidindo com o nascer do dia. Gera uma massa densa que envolve a vegetação e muda a paisagem na copa das árvores, entre 30 e 150 metros de altura.

“A floresta é de tirar o fôlego, uma experiência multissensorial que envolve visuais, sons e cheiros. Os diferentes tons de verde, a movimentação da copa pelo vento. E, no meio de tudo isso, uma torre, da qual se vê até mesmo o relevo por baixo desta selva”, descreve a cientista vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Engenharia Ambiental na Universidade Federal do Paraná (UFPR).

A neblina é resultado da perda de calor para a atmosfera à noite e de como esse resfriamento impacta a umidade (o vapor d’água) que a floresta produz o tempo todo. Além de uma característica da Amazônia, a neblina é um dos processos do ciclo da água que fazem da floresta a “bomba d’água” do planeta. Mas, ao contrário dos rios voadores — as correntes de umidade que circulam pela Terra impulsionados pela floresta —, a neblina é menos estudada porque sua presença é local.

Resultado da pesquisa de mestrado de Bruna Sebben, um estudo publicado com outros 35 autores no periódico Communications Earth & Environment traz elucidações sobre o papel ambiental da neblina amazônica. A pesquisa foi liderada pelo professor Ricardo Godoi, orientador da pesquisadora no mestrado que também coordena o Laboratório de Análise e Qualidade do Ar (LabAir) da UFPR.

As análises indicaram que a neblina sustenta a vida microscópica da floresta, dispersando nutrientes e servindo de habitat para microrganismos, como fungos e bactérias. Também é uma facilitadora dos ciclos biogeoquímicos, ou seja, dos ciclos naturais que “reciclam” os elementos químicos necessários à vida, como água, carbono, nitrogênio e fósforo.

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A vida que mora na neblina amazônica

Neblinas são formadas basicamente por água condensada, o vapor de água que acabou de passar para o estado líquido. A pesquisa constatou que a neblina amazônica consegue carregar pela atmosfera partículas químicas, mas também microrganismos e até fragmentos de seres vivos macroscópicos (visíveis a olho nu).

Assim, a análise revelou que a neblina é um habitat temporário para microrganismos ativos. As amostras apresentaram concentrações de até 98 mil células por mililitro de água. Ou seja, a névoa é o ambiente de comunidades vivas de bactérias e de fungos que têm funções ambientais importantes.

“Estávamos dando um tiro no escuro. Claro que tínhamos uma noção da microbiota atmosférica da Amazônia, por conta de estudos de outros colegas, mas nossa ideia era observar como esses micro-organismos se comportam durante os eventos de nevoeiro. De forma geral, os fungos e as bactérias observados são essenciais para a decomposição da matéria orgânica e a reposição de nutrientes ao solo”, conta a pesquisadora.

No caso das bactérias, foram encontradas oito espécies vidas. Entre as mais frequentes estão a Sphingomonas paucimobilis e a Pseudomonas putida, que têm função no ciclo do fósforo, ajudando na fertilidade do solo. Houve ainda registros de bactérias que agem na decomposição de compostos orgânicos (Serratia marcescens e Ralstonia pickettii).

Em situações específicas, como em ambientes hospitalares ou frequentados por pessoas com problemas de imunidade, algumas dessas espécies são capazes de provocar infecções no ser humano. Na floresta, porém, têm funções ecológicas reconhecidas pela ciência e participam do equilíbrio de locais sem interferência humana, caso do ponto de vegetação contínua onde foram colhidas as amostras.

Nevoeiro age como uma ponte de água entre a atmosfera e o solo

O diferencial da pesquisa está em apresentar o nevoeiro como um transportador desses microrganismos vivos, ultrapassando a imagem dele como fenômeno meteorológico.

Segundo os cientistas, a neblina funciona como uma ponte biológica que facilita o transporte vertical (do ar para o solo) de bactérias e fungos. Assim, esses micro-organismos que costumam ficar suspensos no ar, acima da copa das árvores, acabam depositados vivos sobre as superfícies das plantas e do solo.

“As gotículas do nevoeiro atuam como forma de transporte ‘agradável’ para essas espécies microbiológicas. Cria um ambiente favorável para a atividade metabólica [as reações químicas de troca com o ambiente que mantêm um organismo vivo], porque as protege da radiação solar e da desidratação”, avalia a pesquisadora.

“Quando o nevoeiro goteja nas folhas e no solo esses microrganismos são depositados ainda metabolicamente ativos, facilitando seu papel ecológico e populando outras regiões”.

Descendo à altura das árvores, esses micro-organismos passam a compor as colônias que vivem sobre a superfície das plantas, outro universo particular chamado de filosfera. Essa relação com bactérias e fungos costuma proteger as plantas contra doenças, secas e radiação solar, além de beneficiar o seu crescimento pela produção de hormônios vegetais.

Ainda na graduação em Engenharia Ambiental da UFPR, Bruna Sebben examinou como esporos (células de reprodução de plantas, fungos e bactérias) e pólens de plantas da Amazônia se relacionam com a neblina. A conclusão foi de que, nesse caso, o nevoeiro funciona como ambiente de preservação dessas partículas, mais do que de transporte.

“No meu TCC observamos que, para noites com nevoeiro, a quantidade de esporos de fungos era muito maior, isso nos deixou pensativos sobre essa relação, se o nevoeiro permitia a emissão ou se a emissão favorecia a formação de nevoeiro. No fim descobrimos essa conexão intrínseca, os dois se potencializam”.

Colaboração mútua: o mundo microscópico depende do nevoeiro e ajuda a provocar o fenômeno

Outra indicação do estudo é que os micróbios e demais partículas da neblina amazônica ajudam que o próprio fenômeno exista.

Isso porque essas partes sólidas agem de duas formas para que a água do vapor da floresta se condense. Primeiro, pela sua capacidade de absorver água, o que atrai mais umidade para a região onde ocorre a neblina.

A outra forma é pela carga elétrica. As paredes celulares de muitos microrganismos possuem carga superficial negativa. Essa carga negativa é atraída pelas gotas de água, facilitando a incorporação e a estabilidade dos seres vivos dentro da neblina.

Essas características mostram a facilitação que gera a dependência mútua entre a comunidade de micróbios e a neblina.

No artigo, cientistas descrevem essa relação como colaborativa. Os microrganismos ajudam a criar a gota d’água ao servirem de base para a condensação. Em troca, ganham um microhabitat protegido contra a radiação solar, poluentes e desidratação, o que garante sua sobrevivência durante o transporte pela floresta.

Dessa forma, os microrganismos não são apenas passageiros passivos, porque agem na dinâmica das nuvens baixas na Amazônia.

Assim sendo, queimadas e desmatamento, dois problemas da Floresta Amazônica, afetam a neblina tanto aumentando as temperaturas quanto impedindo que a comunidade de micróbios permaneça vida e ativa.

Ainda que tenha havido queda nos alertas dos últimos três anos, segundo a medição do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) entre janeiro e março de 2026 a floresta perdeu 348 quilômetros quadrados por desmatamento.

No mesmo período, a Amazônia figura no sistema do Inpe como o bioma com mais área queimada (quase 9,4 mil quilômetros quadrados).

A neblina ocorre em áreas contínuas de floresta, o que significa que sua presença é um indicativo dos locais intocados e dos que mostram capacidade de se adaptar aos problemas.

“Quanto maior o desmatamento, menor a frequência e intensidade do nevoeiro. Então definitivamente existe um feedback entre estes fatores. Uma rigorosa fiscalização contra queimadas e desmatamento é necessária”, acredita Bruna Sebben.

Instalação do dispositivo para coleta de amostras, no observatório da Estação Científica de Uatumã

Um parêntese: como se coletam amostras de neblina?

Para coletar a neblina na Amazônia, os pesquisadores utilizaram a versão pequena de um dispositivo científico que colhe amostras de gotículas de nuvens e névoa. O aparelho coleta gotículas por meio de fileiras de fios de Teflon, material que não altera a composição das gotas e permite que elas gotas se acumulem quando o vento da névoa passa em alta velocidade.

“As gotinhas de nevoeiro impactam [nos fios] e ‘pingam’ em uma garrafa. Quando o nevoeiro é muito denso conseguimos coletar mais de 125 mililitros”, explica Bruna Sebben.

Para a pesquisa, o amostrador foi instalado a 43 metros de altura em uma plataforma no lado nordeste da torre principal do Observatório de Torre Alta da Amazônia (ATTO), que possui 325 metros no total. Localizado no Amazonas, o observatório é uma parceria entre Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e o Instituto Max Planck, da Alemanha.

As mostras de névoa foram coletadas três vezes entre 2022 e 2023, de 13 nevoeiros diferentes.

Depois de recolhida, a água de névoa coletada precisa ser acondicionada em garrafas esterilizadas, para impedir contaminação. Essa parte da pesquisa ficou a cargo do LabAir da UFPR, em Curitiba, especializado em estudos ambientais relacionados ao ar

Também foram realizadas na UFPR, no Laboratory of Cancer Drug Resistance, as análises de citometria de fluxo. Essa técnica laboratorial usa laser e corantes fluorescentes para quantificar a concentração total de células e avaliar se os microrganismos estão vivos e viáveis (o equivalente a “saudáveis” para seres unicelulares).

Por fim, as partículas encontradas na névoa foram incubadas sob temperaturas controladas. Assim fungos e bactérias cresceram e as espécies puderam ser isoladas e identificadas. O principal método para isso, a espectrometria de massa, que analisa a estrutura química dos microrganismos, ocorreu no Laboratório de Micologia no Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo.

Como resultado, o estudo, financiado por agências públicas, entre elas o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), quantificou que dezenas de milhares de seres vivos habitam cada gota de névoa.

➕ Leia o artigo “Amazonian fog harbors viable microbes, publicado na Communications Earth & Environment (em inglês; aberto) 


FONTE: Ciência UFPR

Observatório dos agrotóxicos: a marcha do veneno segue sem freios

Nova rodada de liberações de agrotóxicos reforça um modelo agrícola sustentado pela contaminação ambiental e pelo adoecimento coletivo

Apesar de todas as evidências científicas de que o Brasil já se encontra sob grave risco ambiental e sanitário em razão do uso intensivo de agrotóxicos — sendo parte significativa deles composta por substâncias banidas na União Europeia — o governo Lula publicou hoje o Ato nº 29, de 7 de maio de 2026, autorizando a comercialização de mais 44 agrotóxicos do tipo “Produto Técnico”. 

As características observadas nas centenas de liberações ocorridas durante o atual mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva se repetem, compondo uma espécie de “museu de velhas novidades”: produtos cujos princípios ativos já circulam amplamente no mercado, com predominância quase absoluta de formulações produzidas por empresas chinesas (ver gráfico abaixo).

O que se observa nessa nova rodada de liberações é a completa ausência de compromisso com a redução dos riscos — amplamente conhecidos e documentados — que esses compostos representam tanto para o meio ambiente quanto para a saúde humana. Em vez de estimular uma transição para modelos agrícolas menos dependentes de insumos tóxicos, o país aprofunda sua submissão a uma lógica produtiva baseada na contaminação sistemática do solo, da água e dos alimentos.

Tudo isso ocorre para sustentar um modelo agrícola estruturalmente deficitário, cuja aparência de viabilidade depende da aplicação crescente de venenos agrícolas. E a pergunta que permanece é: quem paga a conta desse sistema envenenado? Pagamos todos nós — por meio das isenções fiscais bilionárias concedidas ao agronegócio químico e, sobretudo, com o próprio corpo. Pagamos no aumento das doenças crônicas, nos casos de intoxicação silenciosa, na contaminação da água que chega às casas, no adoecimento de trabalhadores rurais e no comprometimento do futuro das próximas gerações. Enquanto os lucros se concentram nas mãos de poucas corporações, socializam-se os danos, o sofrimento e a degradação ambiental.

O Brasil segue, assim, avançando perigosamente rumo a um horizonte em que o veneno deixa de ser exceção para se tornar parte naturalizada da nossa paisagem cotidiana.

A “generosidade” do financiamento climático britânico no Brasil e suas mazelas

O financiamento climático concedido pela Grã-Bretanha ao Brasil é ambicioso, mas apresenta impactos menos claros para as comunidades, florestas e emissões

Sir Keir Starmer, primeiro-ministro britânico, e Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil. Imagem: Ricardo Stuckert/ Palácio do Planalto/Creative Commons 2.0. 

Por Monica Piccinini para “The Ecologist”
Existe uma versão familiar de ação climática que, por definição, transmite uma sensação reconfortante. Governos destinam verbas públicas, parcerias internacionais são firmadas e metas ambiciosas são estabelecidas.   O programa climático internacional do Reino Unido – UK Partnering for Accelerated Climate Transitions, ou UK PACT – encaixa-se perfeitamente nessa narrativa, posicionando-se como parte de uma resposta global coordenada a uma crise crescente.

Leia o relatório de Monica Piccinini: Um acerto de contas na Amazônia ( PDF )

O UK PACT financia projetos em países como o Brasil com o objetivo de reduzir as emissões, proteger os ecossistemas e desbloquear investimentos “verdes”. 

Implementação

À primeira vista, parece exatamente como se esperaria. Mas, como acontece com muitos sistemas complexos e de grande porte, a realidade se torna mais complicada quanto mais se observa. Portanto, a questão não é se o trabalho está sendo feito, mas se esse trabalho leva a mudanças significativas na prática.

É fácil presumir que o financiamento climático flui diretamente para onde é mais necessário: florestas, comunidades ou infraestrutura crítica. Na realidade, o caminho raramente é tão simples.

Os fundos são transferidos dos contribuintes para os programas governamentais e, em seguida, para os parceiros de implementação, geralmente consultorias, centros de pesquisa e ONGs internacionais. 

Organizações como a Climate Policy Initiative ( CPI) , o Instituto Talanoa , a Climate Bonds Initiative , a Imaflora , a Conexus , o The Climate Group , o AYA Institute , a The Nature Conservancy ( TNC ) Brasil e outras participam desse movimento. 

Para que o financiamento verde sirva ao bem-estar coletivo em vez dos interesses de uma minoria privilegiada, precisamos de regulamentações públicas rigorosas e proativas. 

O trabalho deles geralmente se concentra em assistência técnica, elaboração de políticas e estruturas financeiras, embora alguns também possam apoiar ou colaborar na implementação no terreno.

Mais ricos

Mas o papel dessas organizações levanta uma questão mais ampla: quanto do financiamento climático é, em última análise, gasto em ações que viabilizam a implementação , e quanto realmente as concretiza? Não se trata de má conduta, mas sim de estrutura. 

Quanto mais camadas o dinheiro atravessa, mais difícil se torna traçar uma linha clara entre o financiamento e os resultados, sejam eles emissões, proteção de terras ou benefícios tangíveis para as comunidades. 

Segundo o CPI, os primeiros dados indicam que o financiamento climático global ultrapassou os 2 biliões de dólares em 2024, tendo atingido os 1,9 biliões de dólares em 2023.

Maud Borie, professora sênior, e a professora Sarah Bracking, ambas do King’s College London, escreveram um artigo importante para o The Conversation , intitulado “Por que o financiamento ‘verde’ não é tão sustentável quanto parece”.

O texto afirma: “ Cada vez mais evidências  sugerem uma discrepância entre as possibilidades propostas e os resultados reais das finanças verdes. Muitos produtos de finanças verdes parecem servir mais aos mercados financeiros e aos investidores mais ricos do que à natureza ou às comunidades vulneráveis.”

Multilateral

“Ainda mais preocupantes são as consequências não intencionais. Longe de promover a igualdade de oportunidades, o financiamento verde pode exacerbar a desigualdade.”

“Se o financiamento verde pretende servir o bem-estar coletivo em vez dos interesses de uma minoria privilegiada, precisamos de regulamentações públicas rigorosas e proativas, bem como de debates públicos mais aprofundados sobre o que o financiamento verde deve levar em consideração.”

O Fundo Internacional de Financiamento Climático do Reino Unido ( ICF) , na sigla em inglês) não é um fundo único, mas um sistema intergovernamental compartilhado entre o Ministério das Relações Exteriores, da Commonwealth e do Desenvolvimento (FCDO), o Departamento de Segurança Energética e Net Zero (DESNZ), o Departamento de Meio Ambiente, Alimentação e Assuntos Rurais (Defra) e o Departamento de Ciência, Inovação e Tecnologia (DSIT). 

Em conjunto, esses departamentos supervisionam um amplo portfólio de gastos climáticos que abrange florestas, transição energética, adaptação e desenvolvimento sustentável.

Uma parcela significativa desse financiamento não é destinada diretamente a projetos. Em vez disso, é canalizada por meio de instituições multilaterais , como o Banco Mundial, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e agências das Nações Unidas. 

Tangível

No Brasil, o financiamento climático britânico totaliza mais de 510 milhões de libras esterlinas comprometidas desde 2016, tornando o país um dos principais beneficiários do ICF . 

Os recursos são distribuídos por uma ampla gama de iniciativas : combate ao desmatamento, restauração de ecossistemas, promoção da agricultura sustentável, fortalecimento da política de bioeconomia do Brasil e expansão do financiamento verde e dos sistemas de energia limpa. O resultado é menos uma estratégia unificada do que um conjunto de esforços paralelos. 

O UK PACT é gerido pelo FCDO e pelo DESNZ, e centra-se sobretudo na assistência técnica, trabalhando a montante, moldando políticas e sistemas financeiros, em vez de executar projetos diretamente.

No Brasil, o UK PACT e o Green Finance Institute ( GFI ) desempenham papéis complementares na fase inicial do processo, com o UK PACT financiando assistência técnica e apoio político por meio de intermediários, e o GFI focando no desenvolvimento de estruturas de financiamento verde e em fluxos de investimento. 

Esse alinhamento ajuda a mobilizar capital, mas também significa que grande parte do esforço se concentra em sistemas de apoio, em vez de execução direta, o que torna mais difícil rastrear a ligação entre o financiamento e os resultados tangíveis no terreno. 

Alvos

Entre os financiadores da GFI estão a Fundação Gordon e Betty Moore , o Governo de Sua Majestade , a Cidade de Londres , a Fundação Esmée Faribairn , aFundação Laudes , a Fundação MCS , a Fundação Quadrature para o Clima , a Fundação LTPP , Amalgamated Banka Climate Change Collaboration . 

Um dos aspectos menos visíveis, mas mais influentes do financiamento climático, reside na forma como ele é definido .

Organizações especializadas, como a Climate Policy Initiative e a Climate Bonds Initiative, ajudam a determinar o que se qualifica como investimento verde , enquanto grupos consultivos como a Talanoa auxiliam na tradução dessas definições em políticas e sistemas financeiros, moldando a forma como o progresso é medido.

Esse processo nem sempre é neutro. Quando as definições se expandem, mais atividades podem ser rotuladas como financiamento climático, incluindo investimentos que poderiam ter ocorrido de qualquer forma. Nesses casos, o progresso relatado pode refletir uma mera adequação ao contexto, em vez de uma transformação genuína. 

Isso pode criar uma lacuna sutil. Os fluxos financeiros aumentam, as metas são atingidas no papel, mas a conexão com os resultados ambientais no mundo real torna-se mais difícil de determinar. 

Desmatamento

Ao chegarem ao Brasil, esses modelos se deparam com uma realidade muito mais complexa, moldada pela política, pelas pressões econômicas e por estruturas de poder consolidadas. 

No centro está o BNDES , o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que desempenha um papel fundamental na condução dos investimentos. Possui fortes laços com grandes indústrias e projetos de infraestrutura, além de significativa influência sobre a trajetória econômica do país. 

O financiamento climático que entra nesse sistema não o transforma necessariamente. Na maioria das vezes, ele se adapta a ele. Isso pode gerar riscos: o financiamento destinado a impulsionar mudanças pode acabar reforçando as estruturas existentes, inclusive aquelas ligadas à destruição ambiental. 

Na floresta amazônica, projetos apoiados pelo Reino Unido frequentemente se concentram no uso sustentável da terra, em sistemas de certificação e no monitoramento ambiental. Essas são ferramentas bem estabelecidas, mas apresentam limitações. Organizações como a Imaflora e o IPAM contribuem com conhecimento especializado nessas áreas.

A “exploração florestal sustentável” ainda envolve o corte de árvores e os sistemas de certificação podem variar no rigor com que são aplicados. Além disso, a proteção de uma área pode transferir a pressão do desmatamento para outros locais.

Pressupostos

Uma parcela significativa do financiamento também é destinada ao monitoramento. O Brasil já possui sistemas de satélite sofisticados que rastreiam o desmatamento em tempo real. A questão não é simplesmente saber onde ele está acontecendo, mas sim agir de forma consistente e eficaz com base nessas informações.

Mais dados podem ajudar, mas por si só não impedem o desmatamento e a degradação. 

Os mercados de carbono são outra peça fundamental desse quebra-cabeça. Em teoria, eles oferecem uma maneira de reduzir as emissões, atribuindo valor às reduções de carbono. Na prática, alguns sistemas permitem que as empresas compensem as emissões enquanto compram créditos em outros lugares. 

Isso tem gerado um debate contínuo sobre se leva a reduções reais ou apenas as adia.

Investigações sobre créditos de carbono provenientes de florestas levantaram sérias preocupações quanto à sua credibilidade . Alguns projetos não conseguem gerar reduções reais de emissões. Outros se baseiam em premissas difíceis de verificar. 

Pressão

O resultado é um sistema que, por vezes, consegue equilibrar as emissões no papel sem as reduzir de forma clara. É uma ideia interessante, mas complexa.

Há um interesse crescente na descarbonização das indústrias pesadas do Brasil , particularmente as de aço e cimento, utilizando tecnologias como hidrogênio e captura e armazenamento de carbono.

A ideia é convincente: combustíveis mais limpos, captura de emissões, continuidade da produção industrial. Mas a lacuna entre o conceito e a realidade continua significativa.

Tecnologias de captura e armazenamento de hidrogênio e carbono já existem e estão sendo testadas em projetos-piloto e em estágios iniciais de comercialização. No entanto, conforme destacado no relatório da Climate Bonds Initiative sobre a descarbonização da indústria de cimento e aço, elas ainda não foram implementadas na escala necessária para reduzir significativamente as emissões em toda a indústria pesada.

O hidrogênio é frequentemente apresentado como um substituto mais limpo para o carvão na produção de aço, principalmente quando produzido a partir de energia renovável. O problema é que esse tipo de hidrogênio ainda é caro e não está amplamente disponível, especialmente em países onde os sistemas energéticos já estão sob pressão. 

Emissões

No Brasil, ampliar essa iniciativa exigiria uma infraestrutura nova e massiva e investimentos de longo prazo que ainda não existem. Por ora, trata-se mais de uma ambição de longo prazo do que de algo que proporcione reduções de emissões imediatas. 

A captura e o armazenamento de carbono enfrentam desafios semelhantes . São processos dispendiosos, que consomem muita energia e ainda não são utilizados na produção de aço em escala comercial. 

Também existem dúvidas sobre o destino de todo esse carbono capturado e sobre a segurança de seu armazenamento a longo prazo. O mesmo relatório deixa claro que esses sistemas ainda estão longe de serem soluções confiáveis ​​e em larga escala.

Isso cria uma lacuna entre a ambição e a realidade. 

Tecnologias como o hidrogênio e a captura e armazenamento de carbono estão sendo usadas para contar uma história tranquilizadora em vez de gerar mudanças imediatas. Quando são contabilizadas como parte do progresso climático atual, podem dar a impressão de que as emissões estão sendo combatidas de forma mais direta do que realmente estão na prática.  

Fluxos

Em todas essas áreas, um padrão se torna claro: os resultados são moldados não apenas pelas intenções, mas também pelos incentivos. 

As organizações recebem financiamento para desenvolver soluções, espera-se que os governos demonstrem progresso e as instituições financeiras se beneficiam quando mais investimentos são classificados como verdes.

Nesse ambiente, a própria atividade pode se tornar o foco. O progresso costuma ser mais fácil de demonstrar por meio de estruturas, métricas e relatórios do que por meio de mudanças ambientais mensuráveis.

Há poucos incentivos para admitir que algo não está funcionando, e menos ainda para simplificar sistemas que dependem de complexidade. 

Enquanto isso, as pessoas mais afetadas, as comunidades locais, muitas vezes permanecem à margem do fluxo de recursos. O sistema fala em nome delas, mas raramente coloca os recursos diretamente em suas mãos.

Reembalar

Nada disso significa que programas como o UK PACT sejam desnecessários, mas destaca a dificuldade de garantir que o financiamento se traduza em resultados tangíveis.

A questão central não é se o dinheiro está sendo gasto, mas como o impacto é definido e se essas definições refletem o que está acontecendo na prática.

Quando o sucesso é medido por meio de fluxos financeiros e alinhamento de políticas, a ligação com a realidade vivida pode começar a enfraquecer, e é aí que a confiança começa a se deteriorar. 

Em um artigo publicado na revista Geography Compass , os autores argumentam que o financiamento climático muitas vezes parece mais transformador do que realmente é. Embora os fundos sejam apresentados como ferramentas para reduzir as emissões e apoiar comunidades vulneráveis, eles operam, em grande parte, dentro dos sistemas políticos e econômicos existentes, em vez de os remodelar. 

Em alguns casos, o que é considerado investimento verde pode simplesmente reformular atividades já existentes, criando a impressão de progresso sem gerar mudanças ambientais significativas.

Poder

Mais criticamente, o artigo destaca como esses fluxos podem aprofundar os desequilíbrios de poder existentes. Em vez de redistribuir recursos, o financiamento climático pode concentrá-los, levantando questões sobre quem se beneficia e quem fica de fora. 

Em última análise, isso questiona a ideia de financiamento climático como uma solução neutra, apontando, em vez disso, para um sistema que pode reproduzir com a mesma facilidade as desigualdades que pretende resolver.

Lauren Gifford, autora principal do artigo  destacou a opacidade e a influência dos sistemas financeiros. 

Ela disse : “As finanças são complexas e muitas vezes confusas, podendo ser uma caixa-preta para muitos de nós, obscurecendo como o capital é criado, negociado e acumulado. Precisamos de mais cientistas que reflitam sobre as interseções entre dinheiro, finanças, tecnologia e mudanças climáticas. Esses campos exercem grande influência na forma como as mudanças climáticas são abordadas.”

A questão não é descartar os programas de financiamento climático, mas analisá-los de forma mais crítica.

Complexidade

Maior transparência, vínculos mais claros entre financiamento e resultados, e apoio mais direto à atuação na linha de frente são frequentemente mencionados como caminhos a seguir. Igualmente importante é a disposição para questionar a própria definição de sucesso.

As florestas continuam sob pressão, as comunidades seguem enfrentando riscos, as emissões ainda estão aumentando e, no entanto, no papel, o progresso continua.

No fim das contas, a história do financiamento britânico para o clima no Brasil não é uma história de fracasso ou sucesso absoluto. É uma história sobre complexidade e sobre a necessidade de analisar de perto sistemas que, à primeira vista, parecem estar funcionando. 

Assim, a pergunta permanece: estamos mudando o curso das mudanças climáticas ou apenas nos tornando melhores em descrever nossos esforços para fazê-lo?

Este autor

Monica Piccinini é uma jornalista brasileira-britânica e membro do Sindicato Nacional dos Jornalistas. Ela contribui regularmente para  o The Ecologist e publica no Substack, Medium e em sua própria plataforma,  YourVoiz.org 


Fonte: The Ecologist

Agrotóxicos sem fronteiras: o avanço silencioso dos agrotóxicos ilegais no Brasil

Produtos proibidos e sem registro atravessam o Brasil impulsionados por redes criminosas e pela dependência química do agronegócio.

A apreensão de 55 pacotes de agrotóxicos estrangeiros sem registro legal realizada pela Polícia Rodoviária Federal em Altamira, no Pará, é mais um episódio de um problema que há anos avança silenciosamente pelo território brasileiro: o comércio ilegal e o contrabando de agrotóxicos. Produtos como os inseticidas  “Porselen Xtra” e “Rockot Extra” (cujo princípio é o Tiametoxam que se encontra banido no Brasil), foram encontrados em um veículo na BR-230 com rótulos inteiramente em língua estrangeira e sem autorização do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) ou da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), representam uma grave ameaça à saúde pública, ao meio ambiente e à própria segurança alimentar do país. 

O Brasil já ocupa há décadas posição de destaque entre os maiores consumidores de agrotóxicos do mundo. Em paralelo ao crescimento do agronegócio e da dependência química na produção agrícola, consolidou-se também um mercado clandestino alimentado por contrabando, falsificação e adulteração de agrotóxicos. Esses produtos entram principalmente pelas fronteiras com Paraguai, Uruguai e Bolívia, muitas vezes oriundos da China, e circulam sem qualquer controle técnico ou sanitário. Estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada mostram que milhares de cargas ilegais foram apreendidas no país entre 2008 e 2018, revelando uma cadeia criminosa complexa e altamente lucrativa.

O problema vai muito além da evasão fiscal ou do comércio irregular. Agrotóxicos sem registro frequentemente possuem composição desconhecida, concentração adulterada ou substâncias já proibidas no Brasil devido à elevada toxicidade. Em operações recentes, fiscais encontraram produtos contendo Paraquat , um herbicida banido no Brasil desde 2020 em razão de seus impactos neurológicos e associação com doenças degenerativas, além de compostos sem qualquer rastreabilidade.

Os riscos ambientais também são enormes. Produtos clandestinos podem contaminar rios, aquíferos e solos, provocar mortandade de peixes, insetos polinizadores e outros organismos essenciais aos ecossistemas. O Ibama alerta que substâncias sem autorização oficial possuem potencial de causar danos severos à fauna e à flora, justamente porque escapam dos protocolos mínimos de avaliação toxicológica e ambiental.

Outro aspecto preocupante é o vínculo crescente entre o comércio ilegal de agrotóxicos e organizações criminosas. O alto valor agregado desses produtos transformou o setor em alvo de quadrilhas especializadas em contrabando, roubo de cargas e falsificação. Investigações policiais apontam inclusive a participação de facções criminosas na logística de distribuição clandestina, especialmente em regiões de fronteira agrícola.

A situação torna-se ainda mais grave porque o combate ao problema ocorre em meio a um contexto de flexibilização regulatória e expansão acelerada do uso de agrotóxicos no Brasil. Nos últimos anos, houve sucessivos recordes de aprovação de novos registros de agrotóxicos, inclusive de substâncias consideradas altamente perigosas em outros países. Isso contribui para ampliar a normalização do uso intensivo dessas substâncias e dificulta o enfrentamento político e social da contaminação química no campo.

As operações realizadas pela Polícia Rodoviária Federal, pela Polícia Federal, pelo MAPA e pelo Ibama mostram que o Estado brasileiro reconhece a gravidade da situação. Em 2023, uma operação conjunta apreendeu cerca de 152 toneladas de agrotóxicos irregulares em São Paulo, com multas superiores a R$ 10 milhões. Ainda assim, especialistas alertam que as apreensões representam apenas uma fração do mercado clandestino que efetivamente circula pelo país.

O episódio ocorrido em Altamira revela, portanto, muito mais do que uma ocorrência policial isolada. Ele expõe as fragilidades do controle sanitário brasileiro, a força econômica das redes ilegais de agrotóxicos e a permanência de um modelo agrícola profundamente dependente de químicos altamente perigosos. Enquanto o combate ao contrabando continuar dissociado de uma discussão mais ampla sobre a redução do uso de agrotóxicos, fortalecimento da fiscalização e incentivo à agroecologia, o Brasil seguirá convivendo com uma combinação explosiva de crime ambiental, intoxicação humana e degradação ecológica.