Em novo incidente em Congonhas, vistoria aponta que resíduos de mineração da CSN também atingiram afluente do Rio Paraopeba

Incidente também ocorreu no fim de semana, mas só foi confirmado na terça (27), após fiscalização do município; afluente do Paraopeba foi atingido novamente

Imagem mostra área alagada entre o dique da mineradora e trilhos de trem

Imagem mostra área alagada entre o dique da mineradora e trilhos de tremFoto: ARQUIVO PESSOAL / DIVULGAÇÃO 

Por José Vítor Camilo para o “O TEMPO”

Prefeitura de Congonhas, na região Central de Minas Gerais, confirmou, nesta quarta-feira (28/1), um terceiro incidente que culminou em carreamento de resíduos da mineração para o rio Maranhão, afluente do rio Paraopeba. Desta vez, os danos ambientais ocorreram em área da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), no dique de Fraile, na Mina Casa de Pedra, que passa por obras desde então. O volume de material que atingiu o rio não foi confirmado e, segundo a mineradora, apesar da informação divulgada pela mineradora, não trata-se de resíduos da mineração, mas de acessos abertos pela empresa na região. 

Assim como os dois vazamentos registrados em minas da Vale, o episódio também foi registrado durante as chuvas do último final de semana. Porém, o fato só foi descoberto após vistoria promovida pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Mudanças Climáticas na terça-feira (27). Segundo a nota do município, não foram constatados danos causados pelo incidente no dique da mineradora, entretanto, foi identificado “carreamento de resíduos da atividade minerária” em rios da região.

“Ainda que nenhuma estrutura tenha se rompido, ao longo das vistorias, a fiscalização ambiental identificou problemas de drenagem e danos ambientais decorrentes do carreamento de resíduos da atividade minerária que atingiram corpos d’água, classificados como de natureza moderada. Em razão disso, o município adotará as medidas administrativas cabíveis, incluindo a lavratura de autos de infração contra o empreendimento”, divulgou a prefeitura. 

Ainda conforme o município, foi constatado no local o carreamento de resíduos por enxurradas fruto de deficiências nos sistemas de drenagem das vias da mineradora. Com isso, o dique de Fraile acabou recebendo grande parte da lama que escorreu. As enxurradas também atingiram a cachoeira de Santo Antônio, no Parque da Cachoeira. 

“No Dique do Fraile, na região do bairro Plataforma, verificou-se carreamento significativo de resíduos, situação que motivou a exigência de adequações estruturais, de forma que a estrutura passe a suportar adequadamente o elevado volume de material proveniente de diferentes direções, evitando riscos de extravasamento”, informou a Prefeitura. 

Foto mostra máquinas pesadas trabalhando na área do dique de Fraile, da CSN l Arquivo Pessoal / Divulgação

Procurada, a CSN informou, por nota, que mantém relacionamento “transparente e permanente” com as autoridades competentes, que foram recebidas “por diversas vezes” para a inspeção no local. “Durante as vistorias, segundo manifestação da própria prefeitura de Congonhas, foi constatado que não houve qualquer extravasamento, transbordamento, rompimento ou anormalidade em quaisquer das estruturas de barragem ou contenção de sedimentos da Companhia”, escreveu.

A empresa argumenta ainda que, durante as inspeções, a prefeitura constatou o “carreamento de resíduos por enxurrada, decorrentes de deficiências nos sistemas de drenagem”. “A CSN esclarece que esse carreamento está relacionado exclusivamente à drenagem de estradas de terra e acessos da região, assim como o eventual carreamento de galhos em decorrência das fortes chuvas, sem qualquer relação com barragens ou com as atividades operacionais da Companhia. Esse esclarecimento é primordial para evitar interpretações equivocadas e pânico desnecessário”, completou.

Por fim, a mineradora informou que as estruturas têm a função de conter sedimentos e passam por manutenções e limpezas periódicas. Além disso, as intervenções que acontecem no local são rotineiras e fazem parte do “plano de chuvas da CSN Mineração”, visando ampliar a capacidade de drenagem e reforçar a segurança da área. 

Os sedimentos que atingiram o rio Maranhão também inundaram uma área localizada entre o dique da CSN e a linha férrea da MRS. A empresa de transporte ferroviário foi questionada por O TEMPO, mas não se posicionou até a publicação da reportagem. 

O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) e a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) também foram questionadas sobre o episódio, mas ainda não se manifestaram.

Enxurradas foram denunciadas dias antes do ocorrido

Ainda na última sexta-feira (23), dois dias antes dos vazamentos serem registrados, o diretor da Unaccon, Sandoval Pinto, enviou uma denúncia à Prefeitura de Congonhas sobre as enxurradas registradas na área da CSN. “Carreamento de sólidos em grande volume para curso d’água que cruza a ferrovia, com nascente em áreas da CSN Mineração, que estão sendo decapeadas”, dizia o documento. 

“Na sexta-feira eu recebi diversos vídeos dos moradores do bairro Plataforma, preocupados com a situação. As imagens mostravam uma lama muito densa correndo para o rio Maranhão e, no local, constatamos que esse material era proveniente do desmatamento que a CSN está promovendo para instalação da pilha de Fraile”, denuncia. 

Veja a foto que mostra a área desmatada pela mineradora: 

Lama que afetou dique teria escorrido de áreas desmatadas l ARQUIVO PESSOAL / DIVULGAÇÃO

 

Ainda segundo a Prefeitura de Congonhas, na fiscalização realizada pela Defesa Civil do município foi constatado que, apesar do incidente, “não houve risco à integridade física de pessoas, restringindo-se os impactos aos danos ambientais já descritos”.

“A Prefeitura de Congonhas segue acompanhando a situação de forma rigorosa e permanente, mantendo o monitoramento técnico das áreas afetadas e adotando todas as providências legais necessárias para a proteção do meio ambiente, a prevenção de novos impactos e a segurança da população”, finalizou o município. 

Confira a nota da CSN na íntegra

“A CSN Mineração mantém relacionamento transparente e permanente com as autoridades competentes, que estiveram na Companhia por diversas vezes para inspeção de suas estruturas e operações.

Durante as vistorias, segundo manifestação da própria prefeitura de Congonhas, foi constatado que não houve qualquer extravasamento, transbordamento, rompimento ou anormalidade em quaisquer das estruturas de barragem ou contenção de sedimentos da Companhia. 

Em relação ao que foi mencionado na nota da Prefeitura, que afirma que, durante as inspeções, foram constatados episódios de carreamento de resíduos por enxurrada, decorrentes de deficiências nos sistemas de drenagem, a CSN esclarece que esse carreamento está relacionado exclusivamente à drenagem de estradas de terra e acessos da região, assim como o eventual carreamento de galhos em decorrência das fortes chuvas, sem qualquer relação com barragens ou com as atividades operacionais da Companhia. Esse esclarecimento é primordial para evitar interpretações equivocadas e pânico desnecessário.

As estruturas inspecionadas têm a função de contenção de sedimentos e passam por manutenções e limpezas periódicas. Assim, as intervenções realizadas são rotineiras, fazem parte do plano de chuvas da CSN Mineração e visam ampliar a capacidade de drenagem e reforçar a segurança da área.”


Fonte:  O TEMPO

Identitarismos e luta de classes: o problema de se ignorar a hegemonia capitalista nas relações sociais

The Problems Posed by the Concrete Class Struggle and Popular Organization

Publiquei aqui o singular caso da expulsão da mestranda Beatriz Bueno do programa de Mestrado em Cultura e Territorialidades da UFF.  Comentei apenas a minha estranheza sobre a tomada de uma medida tão radical, especialmente em um tempo em que os pós-graduandos gozam quase de imunidade completa para suas eventuais impropriedades ao longo dos seus estudos, seja de Mestrado ou Doutorado.

No post inicial eu me furtei a tecer maiores comentários porque a área das relações sociais não é nem de perto o foco das minhas pesquisas, e preferi não meter a minha colher, digamos assim, em um debate no qual não tenho conhecimento suficiente.

Mas desde a eclosão do caso da expulsão de Beatriz Bueno, o que eu tenho lido e ouvido sobre as razões e objetivos do debate por ela levantado sobre a desconsideração dos pardos no acesso às políticas sociais voltadas para melhorar a posição dos não brancos na sociedade brasileira vai do alinhamento até os ataques mais virulentos possíveis.  No caso dos ataques, Beatriz Bueno é apresentada como uma espécie de Cavalo de Tróia que está sendo usado para negar os direitos historicamente negados aos brasileiros afrodescendentes.

Ao ler e ouvir o que Beatriz Bueno coloca, o que me parece surgir é uma cobrança para que se reconheça que a estrutura racial brasileira não é binomial (brancos e negros), mas que congrega um grande contingente de mestiços, os pardos, que não se reconhecem ou não são reconhecidos por um grupo ou outro.  Nesse sentido, não considero que o principal problema de Beatriz Bueno seja o de apresentador um caso sem bases teóricas que possam ser discutidas de forma racional e lógica. Afinal, o grau de mestiçagem é alto no Brasil, e já se sabe há algum tempo que existem brasileiro que não identificam com os dois grupos aos quais o debate foi concentrado nas últimas duas décadas (i.e., brancos e negros).

Então qual seria para mim o principal problema do caso apresentado por Beatriz Bueno? O mesmo problema daqueles que reduzem os problemas sociais e econômicos existentes no Brasil à questão da raça, desconsiderando um elemento que me parece essencial que é o da classe.  É que sendo o Brasil um país capitalista de caráter atrasado e dependente, não há porque se desconsiderar cabalmente a questão da classe social, já que existem milhões de brancos brasileiros que são pobres e excluídos dos direitos que são hoje garantidos, precariamente há que se enfatizar, dos não brancos.

O fato é que qualquer forma de opressão existente no capitalismo é ditada pela posição de classe do indíviduo. Assim, apenas aumentar o universo dos pleiteantes às melhorias condicionadas que o Estado entrega para reparar as distorções da forma de capitalismo vigente no Brasil não vai mudar essencialmente nada. Aliás, isto já foi claramente demonstrada pela experiência estadunidense no qual o modelo bionamial de relações raciais foi desenvolvido. 

Finalmente, há que se dizer que diante da catástrofe climática e de seus impactos mais visíveis sobre os trabalhadores, as tarefas que estão postas precisam de estratégias que mostrem a insuficiência de se manter o debate apenas no plano de que se precisa aumentar o número de pessoas sentadas na mesa do banquete capitalista. O buraco neste momento é bem mais fundo e perigoso. 

Aquífero estratégico no norte fluminense abastece Porto do Açu enquanto comunidades do entorno sofrem com falta d’água

Extração de água subterrânea foi autorizada pelo Inea a partir de 2022

Maior complexo portuário e industrial da América Latina opera há mais de 10 anos no Norte Fluminense | Crédito: Divulgação/Prumo Logística

Por Clivia Mesquita para “Brasil de Fato” 

Imagine um grande reservatório de água doce subterrânea e de excelente qualidade. Esse é o aquífero Emboré, localizado na região Norte Fluminense, considerado estratégico para a segurança hídrica regional. Desde 2022, Porto do Açu tem autorização do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) para explorar essas águas profundas.

A jurisdição sobre a água subterrânea é do governo estadual, segundo a Política Nacional de Recursos Hídricos (Lei 9.433/1997). O Inea, por sua vez, não informou o valor da outorga de direito de uso de recursos hídricos emitida para o aquífero Emboré. Os recursos gerados pela cobrança devem financiar programas, projetos e obras de melhoria na qualidade da água para o bem comum.

O porto e as empresas instaladas no megaempreendimento se abastecem do aquífero por meio de poços profundos. Em 2024, a empresa Porto do Açu extraiu 708 mil m³ do aquífero. O balanço consta no relatório de sustentabilidade da empresa (disponível neste link). A retirada passa de 2 milhões de m³ no acumulado dos últimos três anos. 

Para o ecologista Arthur Soffiati, o porto buscou a solução mais barata a curto prazo. Ao Brasil de Fato, historiador ambiental especialista na região Norte e Noroeste fluminense, explicou que a dinâmica natural de recarga dos aquíferos profundos depende das áreas úmidas da superfície. Isso significa que os aquíferos também se esgotam. A alternativa, que preservaria o aquífero, seria dessalinizar a água do mar, a exemplo de portos em outros países.

Para além da reserva estratégica de água doce, do outro lado da moeda prevalece a escassez para os moradores da região. A principal fonte de abastecimento público de São João da Barra é o rio Paraíba do Sul, que chega no município quase sem vazão. A situação fica ainda mais crítica com a estiagem. Durante longos períodos sem chuva, moradores ouvidos pela reportagem relataram que ficaram até dois meses sem água nas torneiras. 

“O Porto evitou a captação no rio [Paraíba do Sul] não por respeito à sua capacidade, mas sabendo que ele não atenderia a demanda. Então, capta no aquífero Emboré com autorização pública. Muitas bocas sugaram a água da região, que era super-úmida”, pontua o eco-historiador Soffiati sobre os impactos ambientais na região que pode virar semiárida.

Ao Brasil de Fato, o Inea informou que 20 poços operam no Porto do Açu. Segundo o órgão estadual, a região onde se encontra o complexo portuário não é abastecida por rede pública, sendo “permitido o uso da água oriunda de poços para a finalidade de consumo e higiene humana”.

“O Inea reitera ainda que o Aquífero Emboré se trata de um aquífero confinado, sem contribuição para o fluxo de base dos rios da região, que possuem contribuição de aquíferos mais rasos. Dessa forma, a operação em questão não poderia estar afetando os níveis dos corpos hídricos superficiais locais”, diz a nota.

Escassez hídrica global

O centro de estudos da ONU sobre água, da Universidade das Nações Unidas (UNU), declarou recentemente que o mundo entrou na era da “falência hídrica”, devido aos impactos das mudanças climáticas e o uso excessivo de recursos hídricos. 

Cerca de 70% dos aquíferos subterrâneos registram declínio de longo prazo. Devido aos danos irreversíveis da atividade humana, 4,4 bilhões de pessoas enfrentam escassez de água pelo menos um mês por ano. Essa é a situação dos moradores de diversas localidades de São João da Barra.

Professor aposentado da UFF-Campos, Soffiati explica que a elevação progressiva do nível do mar pelo aquecimento global fechou um braço do rio Paraíba do Sul. “Pelo braço de Gargaú, a língua salina penetra no rio comprometendo a captação para abastecimento público de São João da Barra, Atafona, Gruçaí e 5º Distrito”, detalha o ecologista.

“A captação do porto no aquífero de Emboré é um mistério não revelado pela empresa e pelo Inea. A captação para consumo público de SJB poderia ser feito nele, mas, ao lado disso, é preciso proteger as áreas úmidas que ainda restam, garantir a recarga do aquífero, promover o reflorestamento de áreas críticas. Sei que não se pode voltar ao passado, mas medidas que garantam a sustentabilidade ambiental podem e devem ser tomadas com a coordenação do poder público”, completa.

Danos coletivos

A construção do Porto do Açu, em 2009, envolveu uma série de danos ambientais, violação de direitos e corrupção que implicaram o ex-governador do Rio Sérgio Cabral e o empresário Eike Batista. Como noticiou o Brasil de Fato, ainda há cerca de 500 processos indenizatórios na Justiça sobre as desapropriações de terras de agricultores para a instalação do complexo.

Professora associada da Universidade Federal Fluminense em Campos dos Goytacazes (UFF-Campos), Ana Costa explica que os impactos ambientais do empreendimento são conhecidos desde 2012. Entre eles, sobressai o de salinização das águas, que ficou comprovado em estudos realizados pelo Laboratório de Ciências Ambientais (LCA) da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf).

“O estudo constatou que a salinidade das águas superficiais e subterrâneas destinadas ao consumo humano e à irrigação atingiu níveis de 5 a 7 vezes superiores aos do rio Paraíba do Sul. Na comunidade de Água Preta, foram registrados níveis de salinidade em águas de pastagem equivalentes aos da água do mar, cerca de 820 vezes superiores aos valores característicos de água doce”, afirma Costa.

Há anos que suas pesquisas sobre as expropriações das terras do Açu apontam escassez e má qualidade da água. “A salinização tem sido apontada como a principal reclamação das comunidades do 5º distrito [de São João da Barra], incluindo relatos iniciais de impactos à saúde da população local”, completa.

Uma manifestação da Defensoria Pública estadual pede a inclusão dos danos ambientais no processo de reparação dos atingidos. De acordo com a Ação Civil Pública, o estudo de impacto não detalhou os efeitos da dragagem do mar, entre eles a salinização. O documento sustenta que houve prejuízo ao meio ambiente como todo, aos agricultores que perderam plantações e às comunidades afetadas.

Falta água para tudo

São João da Barra vive um impasse sobre a responsabilidade do abastecimento. O contrato de concessão com a Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae) está vencido, porém, a concessionária permanece operando o serviço até a conclusão de um novo processo. 

Segundo a Cedae, estão sob sua responsabilidade apenas as localidades Praia do Açu e Grussaí. As demais são atendidas pela prefeitura, que conta com sistemas próprios de abastecimento. À frente da cidade está a prefeita Carla Caputi (União Brasil), reeleita para o segundo mandato em 2024.

Moradores ouvidos pela reportagem relatam que os problemas são generalizados, e estão relacionados à qualidade, pressão e regularidade do fornecimento de água em diversas localidades. A família da dona de casa Keli Gonçalves, do bairro Água Preta, precisa comprar cinco galões de água mineral por semana. 

“Anos que o povo luta pedindo melhorias e nada acontece. Minha casa é a última da rua, aqui é raro vir água. Em dias de calor piora, não cai uma gota. A não ser que o dia esteja nublado ou chovendo, não sobe água pra caixa”, contou ao Brasil de Fato. Ela mostra que a água não tem pressão nem para encher caixas d’água enterradas na areia. 

Água chega sem força nas comunidades do entorno o Porto do Açu; moradores precisam usar bomba elétrica acoplada em caixas no chão para ter água encanada
Água chega sem força nas comunidades do entorno o Porto do Açu; moradores precisam usar bomba elétrica acoplada em caixas no chão para ter água encanada | Crédito: Arquivo pessoal

Mesma situação vive a aposentada Maria da Penha, que mora com a mãe de 94 anos. “Antes da chuva desses dias, não subia água pra caixa há mais de 2 meses. A água pinga, leva quase 1h pra encher um balde a noite pra tomar banho”, disse. 

Sem resposta do poder público, aumenta a desconfiança de desvios na rede. “Não tem água pra fazer nada. A gente acha tem desvio pra alguma roça, porque quando chove tem água com força pra subir na caixa. Toda comunidade sofre”, lamenta Penha. 

Uma família de agricultores do bairro Sabonete que preferiu não se identificar junta água da chuva para a limpeza da casa e algumas atividades domésticas. A pressão da água encanada é tão fraca que sobe na caixa só com ajuda de uma bomba elétrica e mangueira.

“O dia que tem a água é muito suja, enferrujada, aquela água amarela, é um problema muito sério, a gente não faz nada com essa água, não tem como. Mal tomar banho. A água pra consumo tem que ser comprada de galão. Quando chove a gente junta água pra lavar as roupas, porque se lavar com a água daqui, a roupa não serve mais”, relata.

Ao Brasil de Fato, a prefeitura não deu um prazo, mas informou que o Plano Municipal de Água e Esgoto (PMAE) está em fase de revisão. O plano vai estruturar um novo processo de concessão para implementação definitiva de redes de água e esgoto alinhadas ao Marco Legal do Saneamento.

Outro lado

O Brasil de Fato enviou uma série de questionamento para a Porto do Açu sobre o uso do aquífero nas operações. A empresa afirmou que a água subterrânea é usada de forma sustentável, e que “estudos comprovam que não há impactos ambientais associados à retirada de água”. Não foi informado o volume retirado em 2025.

“O uso é acompanhado de forma contínua pelo Inea, por meio de monitoramento hidrogeológico, que indica que a recarga natural do aquífero é compatível com os volumes utilizados. O Porto adota ainda a diversificação de fontes, com uso de água de reuso, do mar e de chuva, preservando o Aquífero Emboré como reserva estratégica regional”, diz a resposta.

Sobre a falta d’água crônica em São João da Barra, a prefeitura informou que atua de forma complementar nas áreas não atendidas pela Cedae, por meio de caminhões-pipa, quando necessário. O município é responsável pela operação e manutenção de sistemas próprios de abastecimento, alimentados por poços profundos em Sabonete, Mato Escuro e Bajuru. 

A população de SJB pode comunicar falta d’água pelos seguintes canais: (22) 2741-8449 – Ramais 310 e 311, (22) 99975-1862 e servicospublicos@sjb.rj.gov.br.

Editado por: Vivian Virissimo

Indignação em centro científico europeu após demissão de diretor devido a estudo sobre glifosato

Dr. Daniele Mandrioli served as director of the Ramazinni Institute’s Cesare Maltoni Cancer Research Center from 2020 until his recent termination 

Por Carey Gillam para “The New Lede”

O Dr. Daniele Mandrioli ingressou  no Instituto Ramazzini  em Bolonha, Itália, em 2012 e dirige o Centro de Pesquisa do Câncer Cesare Maltoni do Instituto desde 2020. O centro de pesquisa realiza estudos toxicológicos em uma variedade de substâncias ambientais para determinar sua carcinogenicidade e outras possíveis implicações para a saúde.

O trabalho do instituto tem sido usado para fundamentar a tomada de decisões regulatórias e a elaboração de políticas sobre diversos produtos químicos, incluindo cloreto de vinila, benzeno e formaldeído, e o grupo  afirma colaborar com o Programa Nacional de Toxicologia dos EUA, bem como com o Instituto Nacional de Ciências da Saúde Ambiental dos EUA. Em seu site, o instituto destaca   50 ANOS DE PESQUISA INDEPENDENTE” e lista a Organização Mundial da Saúde como parceira.

Saiba mais sobre o Estudo Global do Glifosato aqui .

Mas a demissão de Mandrioli e a suspeita de que esteja ligada ao seu trabalho com o glifosato agitaram os círculos científicos.

Em uma  carta de 21 de janeiro endereçada  à presidente do Instituto Ramazzini, Loretta Masotti, o Dr. Philip Landrigan, epidemiologista ambiental e pediatra americano que lidera o programa de saúde pública global do Boston College e também preside o Comitê Consultivo Científico Internacional do Instituto Ramazzini, descreveu Mandrioli como um “cientista excepcional” e reclamou que o comitê não havia sido consultado sobre a demissão. A decisão parece ter sido motivada por pressão da indústria, alega a carta.

“O Dr. Mandrioli… tem sido alvo de ataques virulentos por parte da indústria química porque as descobertas da pesquisa independente do Instituto custaram dinheiro a essas empresas e prejudicaram seus resultados financeiros”, escreveu Landrigan. “Os ataques ao Dr. Mandrioli aumentaram de intensidade nos últimos meses, desde a publicação dos resultados do Estudo Global sobre o Glifosato, que constatou que o glifosato causa aumentos dose-dependentes no câncer em múltiplos locais anatômicos em animais de laboratório, principalmente aumentos na leucemia.”

“Estamos profundamente preocupados com o fato de sua decisão poder sinalizar o fim da independência da pesquisa do Instituto Ramazzini”, afirma a carta.

Questionada sobre as preocupações, Masotti afirmou que “a relação com o Dr. Mandrioli foi encerrada de comum acordo” e não por pressão da indústria química. Ela disse que os estudos sobre o glifosato continuarão.

“Nossos valores de pesquisa independente nunca foram questionados. O Centro de Pesquisa do Câncer do Instituto Ramazzini é um centro de excelência reconhecido internacionalmente, renomado por suas inúmeras e excepcionais contribuições para a pesquisa ambiental, e reconhecido por sua integridade e independência científica”, disse Masotti.

Sob a liderança de Mandrioli, o centro de pesquisa tem se concentrado recentemente no estudo dos múltiplos impactos potenciais do glifosato na saúde. O glifosato é o herbicida mais utilizado no mundo. Ele é conhecido como o principal ingrediente dos produtos Roundup, popularizados pela Monsanto, empresa agora pertencente ao conglomerado alemão Bayer.

Ao longo dos anos, muitos estudos científicos associaram o glifosato e o Roundup ao câncer, e a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer da Organização Mundial da Saúde  classificou o agrotóxico  como provavelmente cancerígeno para humanos em 2015.

Quase 200 mil pessoas processaram a Monsanto e a Bayer nos EUA, alegando que seus cânceres foram causados ​​pela exposição a herbicidas à base de glifosato.

Mas a Monsanto e, posteriormente, a Bayer,  sustentam que não há nenhuma base científica válida  que ligue o glifosato ao câncer e têm combatido veementemente cientistas e outros que contestam essa posição, incluindo aqueles da Organização Mundial da Saúde.

No verão passado, Mandrioli e o centro de pesquisa  publicaram os resultados  de um estudo de dois anos que,  segundo Mandrioli, apresentou  “evidências científicas sólidas e independentes da carcinogenicidade do glifosato e de herbicidas à base de glifosato”. O estudo constatou, entre outras coisas, que os coadjuvantes em produtos herbicidas à base de glifosato podem aumentar a carcinogenicidade do glifosato, particularmente no caso da leucemia.

A pesquisa fez parte de um “Estudo Global sobre Glifosato” que envolveu cientistas do Boston College, da George Mason University, do King’s College London, da Icahn School of Medicine no Mount Sinai, do Centro Científico de Mônaco, da Universidade de Bolonha, do Instituto de Biologia Agrícola e Biotecnologia do Conselho Nacional de Pesquisa da Itália, do Instituto Nacional de Saúde da Itália e do Comitê Nacional de Segurança Alimentar do Ministério da Saúde da Itália.

Em 2022, o grupo  publicou  resultados anteriores que mostravam efeitos adversos do glifosato em doses atualmente consideradas seguras.

A Bayer respondeu acusando o Instituto Ramazzini de ter “um longo histórico de fazer alegações enganosas sobre a segurança de vários produtos”. A empresa não respondeu a um pedido de comentário sobre a demissão de Mandrioli.

Mandrioli afirmou em entrevista que foi alvo de “uma quantidade incrível de ataques” por causa do estudo sobre o glifosato.

“Infelizmente, minha experiência é semelhante à que muitos cientistas independentes estão passando”, disse ele.

O centro de pesquisa está atualmente finalizando quatro novos manuscritos sobre testes de pesticidas. Não está claro quando eles serão publicados.

Membros do  Collegium Ramazzini,  uma academia científica composta por médicos e cientistas de 45 países,  afirmaram em comunicado  que o processo de demissão de Mandrioli foi “pouco transparente” e “secreto”, sem oferecer qualquer explicação racional além de dizer que fazia parte de uma “reorganização”.

O grupo afirmou que o estudo de 2025 sobre o glifosato foi “o maior estudo toxicológico internacional já realizado sobre o glifosato e herbicidas à base de glifosato” e que “os ataques e campanhas difamatórias” contra Mandrioli “aumentaram drasticamente” após a divulgação do estudo de 2025.

Os ataques visavam “minar sua credibilidade e a credibilidade das conclusões da pesquisa independente de sua equipe sobre a toxicidade de produtos químicos perigosos”, escreveu o grupo.

Francesco Forastiere , cientista do Conselho Nacional de Pesquisa em Palermo, Itália, e professor visitante do Imperial College de Londres, afirmou que a demissão “carecia de justificativa e foi abrupta”.

“Não houve transparência alguma na operação”, disse Forastiere, que faz parte de um conselho consultivo do Instituto. “Estou estarrecido.”


Fonte: The New Lede

Situação de alto risco em Congonhas do Campo reafirma descaso socioambiental da Vale em Minas Gerais

Prefeituras e Vale se reúnem após rompimento de estrutura entre Congonhas e  Ouro Preto

Depois de exatos 7 anos do incidente de Brumadinhol, uma situação de alto risco envolvendo estruturas da mineradora Vale está causando apreensão e grandes danos ambientais no município de Congonhas do Campo (MG). Mais uma vez a mineradora Vale está envolvida em um incidente que poderá se tornar ainda mais grave, caso o caso passe do extravazamento de estruturas para a situação de rompimento.

Mas como informam fontes locais, o extravamento inicial de uma represa localizada entre Congonhas e Ouro Pretoque, despejou cerca de 220 mil m³, o equivalente a 88 piscinas olímpicas,no rio Maranhão . Segundo o prefeito de Congonhas do Campo, Anderson Cabido , o primeiro vazamento “trouxe um impacto significativo por conta da água que saiu e foi carregando todo o material que se encontrava pelo caminho.”  O prefeito ainda acrescentou que “foi observado um aumento do volume da água no rio e aumento significativo da turbidez do rio. Então, isso mostra que esse material de fato chegou ao córrego”.

O problema foi agravado pelo extravazamento de material de outra mina da Vale, a Mina da Viga, que agora atingiu o Rio Paraopebas, o mesmo que foi fortemente contaminado pelo incidente que ocorreu em Brumadinho. Em outras palavras, mais uma vez a Vale é responsável por contaminar um dos principais rios de Minas Gerais.

Pelo que pude acompanhar na cobertura que está sendo feita pelo jornal “O Tempo”, a reação inicial dos governantes, desde o nível municipal até o federal, é de um certo pasmo paralisante, pois apesar dos riscos de um acidente de grande monta e que pode afetar também o gigantesco reservatório que a CSN possui logo acima da área urbana de Congonhas do Campo, não me parece estar havendo o nível de mobilização que já deveria estar ocorrendo para garantir que o pior aconteça em termos de vidas e estruturas urbanas; além é claro do espectro de um novo tsulama em vários rios mineiros.

A Vale, como sempre, está minimizando os riscos e suas próprias responsabilidades, pois conta com a costumeira complacência do Estado brasileiro em todas as suas esferas de governo.  Mas é importante que se trate a situação com a importância que ela requer. 

Navios-bomba: propostas para acordo visam mitigar – e não evitar – possíveis acidentes e explosões no porto de Santos    

Planos em análise pelo Ministério Público não incluem a transferência do polêmico terminal de regaseificação para um local seguro, fora do canal. Empresa sugere navios-bombeiros contra incêndios 

Por Cida de Oliveira*

Maran Gas deixa canal após entregar 80 mil toneladas de gás natural liquefeito. Foto: Youtube/Drone Cubatão

A preocupante localização do Terminal de Regaseificação São Paulo (TRSP), no estreito e movimentado canal de navegação do porto de Santos e próxima a área densamente povoada, está no centro de uma Ação Civil Pública do Ministério Público. Com base em estudos e pesquisas técnicas, promotores apontam riscos de acidentes e explosões, com impacto social, que também ficaram de fora do licenciamento aprovado apesar das falhas e omissões.  

Tratativas em andamento para um acordo no âmbito da ação, em segunda instância, incluem alternativas compensatórias, em desacordo com princípios da prevenção e precaução. Segundo a reportagem apurou, no início de dezembro último o TRSP propôs a permanência na região de navios equipados para o combate a incêndios. Representantes chegaram a se oferecer para procurar grandes estaleiros nacionais para esse fim. Na prática, navios-bombeiros para apagar incêndios que podem ser causados pelos navios-bomba. Essa e outras propostas ainda estão sendo estudadas, assim como documentos com parâmetros técnicos para criação de núcleos comunitários de defesa civil em assentamentos precários, voltados à prevenção e combate de princípios de incêndios. São esperadas contribuições do Corpo de Bombeiros, da Defesa Civil de Santos, Guarujá e Cubatão, e das áreas de saúde quanto a serviços de resposta a emergências decorrentes de acidentes ou sinistros na área portuária.

Em busca de mais informações sobre as propostas que apresentou, o Blog contatou a empresa Edge, do grupo Cosan, controladora do TRSP. Como não foram recebidas até o fechamento da reportagem, o espaço fica aberto para as manifestações.

“Um acordo que precisamos é aquele voltado para um novo local para instalação do terminal, em áreas marítimas externas ao estuário de Santos. E não mantê-lo no canal do porto, como convém à empresa”, disse ao Blog Paulo Ferraz, advogado da Associação de Combate aos Poluentes (ACPO) que atua como amicus curiae na ação. Conforme lembrou, as alternativas locacionais apresentadas durante o licenciamento ambiental se referem a pontos distintos, mas todos dentro do próprio estuário. “Normas aplicadas internacionalmente, como nos Estados Unidos, determinam instalações do tipo a mais de 3 milhas da costa. Isso equivale a 4,8 quilômetros”.

Mas o aspecto econômico prevaleceu sobre a segurança no maior porto da América Latina, conforme lembrou. “A única razão apresentada para a escolha do local é essencialmente econômica, de que o custo de implantação seria maior em outro local. A perícia judicial sequer se atentou a esse fato, não tratou especificamente sobre a segurança de todos”, disse Ferraz.

Na avaliação da Frente Ambientalista da Baixada Santista (FABS), a proposta apresentada pelo TRSP ao MP não contempla nem minimiza os riscos de uma possível explosão no terminal de regaseificação. “Nas diversas oportunidades em que abordamos esse tema junto ao MP, ao poder executivo e na Câmara dos Vereadores, apresentamos material suficiente para provar a gravidade dos danos que incidiriam sobre a população da região, com a possibilidade de elevado número de vítimas fatais, além dos incontáveis danos materiais”, disse ao Blog a engenheira agrônoma Mari Polachini, coordenadora da Frente.

Em sua avaliação, um empreendimento com alto potencial explosivo, situado no entorno de silos de armazenamento de fertilizantes e diversos outros materiais de alta combustão poderia provocar, em um eventual desastre, um colapso em todo o sistema portuário.

“Diante disso, é uma irresponsabilidade reduzir a questão da segurança à criação de embarcações de combate a incêndio e organização de ‘núcleos comunitários de defesa civil em assentamentos precários voltados à prevenção e combate de princípios de incêndios’. Assim como considerar que isso seja suficiente para garantir a mínima segurança da população e seu território”, disse a coordenadora.

Mapa mostra grande parte do estuário de Santos e da ocupação urbana no entorno. E no destaque, no centro do círculo branco, o navio FRSU, que regaseifica o GNL. Foto: Google Earth

Mari criticou também posicionamento do Ministério Público, de que o acordo deveria “eliminar os riscos do empreendimento ou ao menos mitigar”. “Uma proposta que se mostra dissociada de uma efetiva preocupação em zelar pela salvaguarda das comunidades do entorno, da população da Baixada Santista e da zona portuária. Afinal, uma explosão na magnitude do potencial apresentado por esse terminal de regaseificação não pode ser combatido com uma brigada de incêndios.”

A única solução aceitável, conforme a coordenadora, é levar o terminal para uma distância segura da costa, como é comum em empreendimentos do tipo. “Como já foi amplamente discutido entre os representantes da sociedade civil e o poder público, o que realmente afastará esse perigo inimaginável de nossas vidas é a mudança do terminal para uma distância para longe da costa”. Ela lembrou que o projeto de termelétrica Verde Atlântico, proposto em 2017 para a cidade de Peruíbe, na Baixada Santista. Nele, o terminal de regaseificação seria construído a 10 quilômetros da praia (confira imagem). O empreendimento, que traria danos catastróficos para a população, meio ambiente e a terra indígena Piaçaguera, foi barrado pela grande mobilização popular.

No círculo azul, a localização prevista para os navios-bomba da termelétrica de Peruíbe. Projeto foi derrotado pela população. Foto: Reprodução EIA RIMA

 

“Dessa forma, entendemos que aceitar uma proposta que não contempla a prevenção e não atende minimamente os critérios para ser classificada como mitigação é tripudiar com a vida dos moradores da Baixada Santista, obrigados a conviver com os riscos de uma explosão que destruirá nossas cidades e nossa economia em proporções inimagináveis”, destacou.

Jato de fogo, nuvem incandescente

A literatura internacional sobre o potencial inflamável do gás natural aponta que vazamentos em equipamentos desses navios e em seus sistemas de transferência de gás podem resultar em diversos desfechos. E que, caso a dispersão na atmosfera encontre fontes de combustão pelo caminho, o resultado será jato de fogo, nuvem incandescente, bola de fogo e até explosões, com intensa propagação de radiação térmica e sobre pressão. Um cenário catástrofico com elevado potencial de riscos à saúde humana e ao meio ambiente, com possibilidades de causar grande número de vítimas fatais dependendo dentre outros aspectos magnitude do incidente e do contingente populacional situado na região.

Para se ter uma ideia, uma explosão do navio regaseificador (FSRU), ou o transportador, tem potência equivalente a 50 bombas de Hiroshima, segundo alerta em seu livro Power Brittle  o físico estadunidense Amory Bloch Lovins. A energia de um único navio metaneiro GNL padrão, com capacidade de 125 mil metros cúbicos, equivale a sete décimos de um megaton de TNT, ou cerca de 55 bombas de Hiroshima.

Como o TRSP não fez estudos e projeções sobre o impacto social à populosa área urbana do entorno, e nem a Cetesb exigiu, a assessoria técnica do MP projetou “quantidades significativas de fatalidades, além de prejuízos às atividades portuárias e em bairros próximos ao canal de Santos, conforme mapa a seguir. Essa região toda corresponde aos distritos da Ponta da Praia, Estuário, Macuco, Vila Mathias, Vila Nova, Paquetá, Centro e Valongo, situados em Santos. E Jardim São Manoel/Vila Santa Rosa, Jardim Conceiçãozinha, Itapema e Vicente de Carvalho, no Guarujá.

Mapa mostra impactos previstos para o caso de acidentes e explosões. Foto: Reprodução/Ministério Público

Controlado pela Edge, empresa do grupo Cosan, o terminal entrou em atividade em abril de 2024, antes da licença de operação da Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANP), concedida três meses depois e com a condição de a Edge não injetar o gás no gasoduto Subida da Serra, de propriedade da Comgás, do mesmo grupo. Isso foi no início da disputa entre a agência estadual paulista Arsesp e a ANP, quanto à regulação quanto à esfera administrativa. A agência federal multou o TRSP devido à operação apressada, com auto de interdição. E tudo foi parar na Justiça. A Edge obteve liminar que suspendeu a interdição, mas manteve a multa de R$ 85 mil. A disputa pela regulamentação do gasoduto entre as esferas federal e estadual, com implicações em tarifas mais altas para o consumidor, está agora no Supremo Tribunal Federal. O terminal segue a todo vapor. Dados da Edge apontam regaseificação e distribuição diária de 14 milhões de metros cúbicos pela Comgás na Baixada Santista, na capital e em outras regiões do estado.


Cida de Oliveira é jornalista

Avaliação e produtivismo na universidade

A celebração das notas da CAPES diante do estrangulamento orçamentário revela a contradição obscena de uma universidade que internalizou o produtivismo neoliberal como nova liturgia acadêmica

Neoliberalism, Mental Health, & Academia – Dr Nadine Leese

Por  *Danichi Hausen Mizoguchi  para “A Terra é Redonda” 

No dia 12 de janeiro de 2026, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) divulgou os resultados preliminares de sua avaliação quadrienal. Trata-se de um marco relevante para o sistema de pós-graduação brasileiro, já que influencia diretamente no reconhecimento dos cursos de mestrado e doutorado e, consequentemente, das universidades.

O processo mensura o desempenho dos programas a partir de critérios como produção científica, formação de novos pesquisadores, impacto social e internacionalização, dentre outros, e, a partir disso, atribui notas que vão de 1 a 7.

Porém, a avaliação não é apenas um diagnóstico técnico: é um ritual de consagração e exclusão em que programas sobem ao altar enquanto outros são empurrados para a penumbra administrativa. Apenas programas com nota igual ou superior a 4, por exemplo, estão aptos à formação de doutores.

Programas com nota mais alta – entre 6 e 7 – tendem a ter mais recursos, bolsas, visibilidade e parcerias, enquanto programas com nota mais baixa enfrentam menos financiamento, menor atratividade e maior pressão por reestruturação. A avaliação decide quem respira, quem agoniza, quem merece existir – define hierarquias, condiciona verbas e orienta carreiras. Sob a retórica da excelência e o suposto ascetismo dos indicadores, distribui-se prestígio como quem distribui oxigênio.

Como não poderia deixar de ser, a comunidade acadêmica reagiu à divulgação com ansiedade – em alguns casos com frustação, em outros com euforia e, em quase todos, com uma pontinha de servilismo institucional. O rito se repetiu sem surpresas: assim que os resultados foram publicizados, universidades e programas bem-sucedidos correram às redes para exibir suas notas como se fossem medalhas.

Nas postagens, os avatares institucionais celebraram orgulhosamente a própria qualidade acadêmica. O aplauso defronte ao espelho ecoou alto, talvez para abafar o barulho do desmonte.

Pouco menos de um mês antes, em 19 de dezembro de 2025, o Congresso Nacional aprovava a Lei Orçamentária Anual para 2026, amputando quase meio bilhão de reais das universidades federais: o orçamento da educação encolheu, a assistência estudantil foi mutilada e as agências de fomento perderam recursos destinados a bolsas e pesquisa. Em outras palavras: menos estudantes pobres poderão permanecer na universidade, menos pesquisas poderão ser feitas, menos ciência será produzida.

O contraste é obsceno: enquanto se comemoram notas e rankings quase individualmente, a base material da universidade pública é sistematicamente corroída – e a recomposição orçamentária assinada por Lula no dia 20 de janeiro não é capaz de alterar o roldão histórico. Celebra-se a avaliação enquanto se aceita com naturalidade o estrangulamento: a festa acontece no convés de uma embarcação cujo casco faz água. A festa acontece sob luz artificial – e, do lado de fora, o madeirame range.

Em janeiro de 2021, sob o pseudônimo de Benamê Kamu Almudras, um professor identificado apenas como docente de uma universidade pública de São Paulo publicou na revista Piauí um ensaio intitulado “Parece revolução, mas é só neoliberalismo”A peça causou certa polêmica – e uma série de réplicas foi publicada na sequência.

Partindo de um punhado de situações concretas ocorridas em salas de aula de graduação e pós-graduação em diversas regiões do Brasil, o texto argumenta que muitos discursos e práticas apresentados como revolucionários deslocam a ideia de transformação estrutural para o plano individual – empreendedor, autônomo, inovador – e, assim, mesmo que sob um verniz transformador, apenas e tão somente reforçam a lógica neoliberal: menos evidente, mais sedutora, mais palatável – mas, ainda assim, e quiçá ainda mais, neoliberal.

Benamê Kamu Almudras apontava duas virulentas ofensivas neoliberais simultâneas contra a universidade pública. À direita, o ataque frontal: cortes de verbas, demonização do serviço público, hostilidade à inclusão social realizada em especial com a implementação da política de cotas. À esquerda, a transformação do estudante em consumidor, da sala de aula em espaço de satisfação mercadológica, do professor em prestador de serviços, da educação em distribuição de diplomas.

Dentre outras coisas, o artigo talvez tenha incomodado por dizer algo quase indizível: que parte significativa da universidade que compreende a si mesma como crítica já não resiste ao neoliberalismo – ela o atualiza com gosto e gozo narcísico e midiático. Para usar um termo freudiano, o texto operava uma ferida narcísica: a denúncia de que parte significativa do discurso crítico universitário não apenas convive com o neoliberalismo, mas funciona como sua versão mais sofisticada, em nova maquiagem, novo vocabulário e nova estética que contribuem para uma universidade crítica perfeitamente adaptada à lógica privativista do mercado.

Pierre Dardot e Christian Laval definiram o neoliberalismo como uma racionalidade política global que reorganiza o Estado, a economia, as instituições e, sobretudo, as formas de subjetivação. Como disse Margaret Thatcher em uma de suas frases mais célebres, economics are the method: the object is to change the soul. Nesta chave de leitura, o neoliberalismo não se limita a privatizar empresas ou cortar direitos, mas também conduz os sujeitos a pensarem-se como empreendimentos que devem constantemente valorizar a si mesmo no mercado – seja ele qual for.

Ou seja, na leitura dos Pierre Dardot e Christian Laval, mas também de Margaret Thatcher, o neoliberalismo não governa apenas economias — governa almas sob uma norma concorrencial universal.

Assim, cada indivíduo torna-se uma empresa portátil que carrega seu CNPJ subjetivo, calcula seus investimentos e administra seus fracassos. O trabalhador metamorfoseia-se em capital humano, a vida vira portfólio e os direitos tornam-se performance. Byung-Chul Han descreveu com precisão essa mutação: o sujeito neoliberal não precisa mais ser oprimido, pois explora a si mesmo voluntariamente.

Em A Muralha da China, Franz Kafka descreve uma obra monumental construída em fragmentos intervalados e separados por longas distâncias. Gilles Deleuze e Felix Guattari viram nela o retrato de um poder que já não se apresenta como unidade, mas como rede de microcomandos. Para a dupla de franceses, a muralha deve ser entendida como um dispositivo político que revela a fragmentação do poder imperial – e é nessa astúcia que está sua força.

O imperador não é uma autoridade plenamente presente, mas uma figura distante, quase inexistente, que opera mais como um significante vazio do que como um soberano efetivo. O poder não se concentra no topo, mas se espalha em uma rede burocrática que atravessa os corpos e as práticas cotidianas.

Assim, a obediência não decorre de ordens claras, mas de uma adesão difusa a um sistema incompreensível – fato que reforça a dimensão imanente e impessoal do poder. O império não domina por uma presença forte, e sim por uma organização difusa que captura os indivíduos em um trabalho interminável e sem sentido totalizável.

Sob o neoliberalismo, a universidade se parece cada vez mais com essa muralha. A coletividade política se transforma em um conjunto de indivíduos-consumidores e se perde a ideia de que a universidade é um serviço público dedicado ao ensino, à pesquisa e à extensão. A educação pública passa a funcionar como uma empresa mal disfarçada, e produz produtividade compulsiva, avaliações permanentes, comparação generalizada e culpa constante.

Karl Marx já havia diagnosticado essa condição em sua gigantesca cartografia do capitalismo:  trabalho alienado é aquele em que o trabalhador já não se reconhece no que produz. Academicamente, a alienação assume um verniz elegante e intelectual: publica-se em série artigos que ninguém lê, pesquisas que ninguém debate, participa-se de congressos que ninguém lembra – mas que contam para deixar o lattes mais parrudo e o perfil nas redes com mais engajamento.

Tudo vira post, nada permanece: o paper vira mercadoria, o currículo vira fetiche, o pesquisador vira gerente– e a solidez se desmancha no ar da lógica competitiva de mercado em sua mais radical pureza.

No final de novembro de 1998, quando a greve dos docentes das universidades federais completava quase cem dias, Fernando Henrique Cardoso afirmou: “Se a pessoa não consegue produzir, coitada, vai ser professor. Então fica a angústia: se vai ter um nome na praça ou se vai dar aula a vida inteira e repetir o que os outros fazem”. A frase não foi um deslize: foi um sintoma.

A separação retórica entre o professor e o pesquisador era o início de uma era em que nunca se exigiu tanto que o professor produzisse em vastas quantidade e nunca se ofereceu tão pouco tempo para pensar. No enunciado do presidente da república, nenhuma crítica às condições estruturais da universidade brasileira e a dificuldade que impunham à pesquisa – e, assim, também à formação de um pensamento acadêmico nacional consistente apto a disputar com os centros mais ricos do mundo.

À guisa de contraexemplo, veja-se as regras do Collège de France, onde lecionaram nomes como Michel Foucault, Claude Lévi-Strauss, Georges Canguilhem e Roland Barthes. De acordo com o regulamento da instituição os docentes devem expor a cada ano uma pesquisa nova e original, o que os obriga a sempre renovar o conteúdo do seu ensino, que não pode se repetir de um ano para o outro.

Todavia, os professores têm a obrigação de dar apenas 26 horas de aula por ano. De praxe, nas universidades federais brasileiras, a obrigação é de 8 horas semanais – o que totaliza quase dez vezes mais do que a parisiense.

Aqui, ao contrário, demanda-se produção sem dispor institucionalmente de tempo. Assim, a imaginação é reduzida a performance mensurável das quantidades. O professor pesquisador passa a ter como matéria-prima de sua labuta a autopromoção asseverada em formulários online, repositórios, assinaturas digitais, editais.

Citações-moeda, relatórios-capital simbólico, o tempo quadrienal em que livros valem menos que artigos e ideias só importam se indexada na lógica estatística– indexação e estatística, pasmem, saudados pela própria maquinaria universitária.

Houve um tempo em que, ao menos por parte das fileiras progressistas, o produtivismo acadêmico era criticado abertamente. “Capestalismo” era o neologismo utilizado para relacionar a agência do Estado à lógica extrativista do capital. Hoje, o que se vê, em boa parte destas mesmas fileiras, é adesão entusiasmada. Com seus avatares exibicionistas, a universidade converte a própria submissão em capital simbólico. Talvez esse seja o sinal mais claro da derrota.

Quando a crítica vira performance, quando a avaliação vira festa, quando a muralha é saudada como conquista, já não se trata apenas e tão somente de falta de recursos ou de políticas equivocadas. Trata-se de algo mais grave: a incorporação alegre da própria servidão – mensurada, sorridente e postada em alta resolução.

*Danichi Hausen Mizoguchi é professor do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense (UFF).


Fonte: A Terra é Redonda

Agrotóxicos são a nova face do complexo de vira-latas de um Brasil transformado na lixeira química do mundo

Por  Sonia Corina Hess*

Em 2025 foram aprovados 914 novos agrotóxicos para uso no Brasil. Desses, 152 (16%) continham ingredientes ativos biológicos, incluindo microorganismos, óleos e extratos vegetais, e 140 (92%) de tais pesticidas naturais eram fabricados por empresas instaladas no Brasil. Por outro lado, dentre os 762 agrotóxicos químicos registrados (83% do total), 666 (73%) tinham pelo menos um ingrediente ativo fabricado na China. Além disso, em 393 desses 762 agrotóxicos (51%) havia pelo menos um ingrediente ativo sem uso autorizado na União Europeia (banidos, ou sem registro, ou com registro pendente).

Somando-se os números relativos ao atual governo, de 2023 a 2025, foram aprovados 2.135 novos agrotóxicos, sendo 346 (16%) produtos biológicos e 302 deles (87%) fabricados no Brasil. Dentre os 1.789 agrotóxicos químicos aprovados naquele período, 1.511 (84%) tinham pelo menos um ingrediente ativo fabricado na China e 867 (48%) continham pelo menos um ingrediente ativo sem uso autorizado na União Europeia.

No período de 2019 a 2022, no governo anterior, foram aprovados 2.170 novos agrotóxicos, sendo 278 (13%) produtos biológicos, dos quais 254 (91%) eram fabricados no Brasil. Dentre os 1.892 agrotóxicos químicos, 1.465 (77%) tinham pelo menos um ingrediente ativo fabricado na China, e 1.056 (49%) continham pelo menos um ingrediente ativo sem uso autorizado na União Europeia.

A maioria dos 1.419 agrotóxicos formulados aprovados entre 2023 e 2025 tinha uso autorizado em plantações de soja (895/63%), algodão (671/ 47%), milho (639/45%) e cana-de-açúcar, (404/28%). Também no período de 2019 a 2022, a maioria dos 1.014 agrotóxicos formulados aprovados tinha uso autorizado em plantações de soja (614/ 61%), algodão (443/44%), milho (428/42%) e cana-de-açúcar (336/33%). Tais proporções são compatíveis com as estimativas do uso de agrotóxicos naqueles cultivos industriais no Brasil, 52% do total sendo aplicados em plantações de soja, 10% no milho, 10% na cana-de-açúcar e 7% no algodão.

Os dados apresentados revelam uma realidade que tem perdurado mesmo com a mudança de governos no Brasil. O país depende da China para produzir os ingredientes ativos presentes em torno de 80% dos agrotóxicos químicos autorizados, e metade dos produtos químicos aprovados contém pelo menos um ingrediente ativo sem uso autorizado na União Europeia. Além disso, a maioria dos agrotóxicos aprovados tem uso direcionado a plantações de soja, algodão, milho e cana-de-açúcar, que não são alimentos direcionados a seres humanos, mas sim, à alimentação de animais, bioenergia e outros usos.

Até quando aceitaremos que o Brasil figure como a maior lixeira química do mundo, onde as multinacionais vendem a preços elevados os agrotóxicos que foram banidos em outros países, sendo considerados lixo por lá? Até quando teremos que beber, respirar e comer esse lixo que contamina os nossos corpos, os animais, as águas, o ar e o solo? Até quando aceitaremos essa situação vexatória, nos comportando como vira-latas simpáticos, enquanto que as muiltinacionais químicas atuam com a truculência típica dos cães furiosos, insistindo em ferir a nossa dignidade e a nossa saúde?

Fontes dos dados podem ser conhecidas [Aqui!].


* Sonia Corina Hess é professora aposentada da Universidade Federal de Santa Catarina

Hyatt e Marriott: estudo liga hotéis de luxo a extração ilegal de madeira na Amazônia

Relatório da organização Environmental Investigation Agency (EIA) mostra como a madeira extraída ilegalmente no Pará pode ‘contaminar’ a cadeia produtiva de importadores na Europa e Estados Unidos; Um dos exportadores brasileiros citados no estudo já comprou de madeireiras abastecidas por fazendas flagradas com trabalho escravo, revela a Repórter Brasil

 

Por Poliana Dallabrida/ Edição Juliano Barros para “Repórter Brasil” 

Importadores de madeira brasileira na Europa e Estados Unidos compram produto com “alto risco de ilegalidade”, aponta novo estudo da EIA (Environmental Investigation Agency), organização especializada na investigação de crimes ambientais. 

O relatório “Contrabandistas, Corretores e Compradores” (disponível apenas em inglês), publicado na última terça-feira (20), revela como toras extraídas ilegalmente de áreas protegidas no Pará, como territórios indígenas e reservas ambientais, podem ter virado decks em hotéis de luxo nos EUA e calçadões em praias da Riviera Francesa. 

A investigação reuniu documentos de transporte de mais de 25 mil metros cúbicos de madeira – o suficiente para encher 830 contêineres – extraídos de três áreas do Pará que até tinham autorização para retirada de madeira, mas apresentaram indícios de ilegalidade, segundo a organização. 

A EIA mapeou 11 serrarias que forneceram madeira para oito exportadores. Estes, por sua vez, forneceram decks de madeiras Ipê e Cumaru para outros 11 importadores nos Estados Unidos, Portugal, França e Alemanha. 

Uma das citadas pela EIA é a Global Forest Lumber Company, importadora dos Estados Unidos. Segundo registros de redes sociais listados no relatório, uma das empresas do grupo forneceu madeira de Ipê a empreiteiros americanos que realizaram reformas em unidades das redes de hotéis Marriott e Hyatt, ambos na Flórida, e na área VIP do Grand Prix da Fórmula 1 em Miami em 2023 e 2025. 

“No entanto, como já foi documentado em múltiplos relatórios da EIA, nenhuma das grandes marcas ou clientes pode garantir que toda a madeira tenha vindo de uma área legal”, aponta a EIA no estudo. 

A Repórter Brasil entrou em contato com os hotéis Marriott e Hyatt e com a assessoria de imprensa da Fórmula 1, mas não obteve respostas até o fechamento deste texto. A reportagem não localizou o contato da Global Forest Lumber Company. O espaço segue aberto para manifestações futuras. 

Madeira da Terra Indígena Munduruku

O relatório da EIA destaca a devastação ilegal para extração de madeira na Terra Indígena Munduruku, localizada na borda oeste do chamado Arco do Desmatamento na Amazônia. 

A EIA, em parceria com a organização Munduruku Associação de Mulheres Wakoborũn, identificou uma operação ilegal de extração de madeira dentro do território entre 2023 e 2024. 

Com base em imagens de satélite, a EIA mapeou cerca de 60 km de estradas abertas no período, conectadas a uma área de garimpo e a uma pista clandestina no Parque Nacional do Rio Novo, unidade de conversação vizinha à TI. As imagens (ver abaixo) indicam centenas de toras estocadas ao longo das vias e em pontos de carga – a EIA estima a carga em 1,2 mil metros cúbicos de madeira. 

Via imagens de satélite, a EIA identificou uma operação de extração ilegal de madeira em grande escala no Território Indígena Munduruku entre 2023 e 2024. (Reprodução/Imagens de satélite fornecidas por CNES; mapa e localizações identificados pela EIA)
Via imagens de satélite, a EIA identificou uma operação de extração ilegal de madeira em grande escala no Território Indígena Munduruku entre 2023 e 2024. (Reprodução/Imagens de satélite fornecidas por CNES; mapa e localizações identificados pela EIA)

“A atividade teria cessado em novembro de 2024, quando o governo intensificou a repressão ao garimpo, mas já havia afetado cerca de 5 mil hectares de floresta intacta”, aponta a organização. “Há suspeitas de que madeira de alto valor, como Ipê e Cumaru, tenha sido ‘lavada’ na cadeia produtiva e possivelmente exportada para mercados como EUA e União Europeia”, complementa o relatório.

Verniz de legalidade

Para a EIA, a madeira extraída em áreas não autorizadas pode ser facilmente “lavada” e inserida no comércio nacional e internacional usando documentos oficiais de áreas formalmente licenciadas. No Pará, aponta a organização, grandes volumes de madeira não são originários das áreas declaradas nas licenças de exploração madeireira. 

Um dos casos detalhados no relatório é o da Fazenda Odila, localizada no município paraense de Óbidos, próximo à TI Munduruku. 

Entre junho de 2021 e junho de 2022, a propriedade obteve a autorização da Semas-PA (Secretaria do Meio Ambiente do Pará) para a extração de 16,9 mil metros cúbicos de madeira – volume que poderia encher um trem de carga de 3 km. A autorização foi concedida mesmo após multa do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente), registrada em 2018 em nome do dono declarado da propriedade por apresentar informações falsas em documentos de exploração madeireira. 

Guias de transporte de madeira acessadas pela EIA indicam que, entre novembro de 2021 e junho de 2022, 16,3 mil metros cúbicos de madeira teriam saído do local. No entanto, ao analisar imagens de satélite, a organização não identificou sinais de exploração madeireira em escala industrial. “Apenas uma pequena estrada de acesso surgiu em outubro de 2021, insuficiente para justificar esse volume”, diz trecho do relatório. 

A madeira da Fazenda Odila alcançou mercados globais. A produção da área foi adquirida por 11 serrarias – dez delas com multas registradas pelo Ibama ou pela Semas-PA. 

“Entre 2022 e 2025, dez dessas serrarias revenderam para seis exportadoras brasileiras – todas também multadas pelo Ibama em casos diferentes – que, por sua vez, embarcaram para quatro importadoras nos EUA e três na União Europeia”, detalha a EIA.

Repórter Brasil não localizou contatos de representantes da Fazenda Odila. O espaço segue aberto para manifestações futuras.

Fornecedor flagrado com trabalho escravo

Uma das exportadoras brasileiras citadas no caso da Fazenda Odila é a Amazon Comércio Atacadista e Exportação de Madeira. Uma investigação adicional realizada pela Repórter Brasil identificou que a empresa já foi abastecida, em 2023, por duas madeireiras que compraram o produto de fazendas flagradas com trabalho escravo. 

A primeira é a Fazenda Sipasa, onde 16 trabalhadores foram resgatados de condições análogas à escravidão em junho de 2023 em Moju (PA). Os trabalhadores haviam sido contratados para realizar a derrubada de 477 hectares de vegetação nativa dentro de uma área da fazenda, como mostrou a Repórter Brasil em reportagem publicada em fevereiro de 2024. Pelo flagrante, a dona da propriedade, Sipasa Seringa Industrial do Pará S/A, entrou em abril de 2025 na chamada Lista Suja do trabalho escravo, cadastro oficial do governo federal com os dados dos empregadores responsabilizados pelo crime.

Dias após o flagrante de trabalho escravo, a Sipasa forneceu toras de Ipê para a DAB Madeiras e Empreendimentos Florestais, em Tailândia (PA), segundo guias de transporte de madeira acessadas pela reportagem. Dois meses depois, a DAB forneceu toras da mesma espécie de madeira para a Amazon.

A exportadora brasileira também foi abastecida por outra madeireira que comprou o produto de uma fazenda flagrada com trabalho escravo. No mesmo período da fiscalização na Fazenda Sipasa, auditores fiscais do Trabalho resgataram outros 17 trabalhadores na Fazenda Citag, em Moju (PA).

A propriedade está registrada em nome de Wilson Fabricio Campos de Sá, conforme descrito pela Repórter Brasil em matéria publicada em outubro do ano passado. A empresa terceirizada que contratou os trabalhadores é quem foi responsabilizada pela prática de trabalho escravo e entrou na Lista Suja em abril de 2025.

Guias de transporte de madeira acessadas pela reportagem mostram que Wilson de Sá forneceu, em setembro de 2023, toras de Ipê-amarelo para a Madeireira Barreto, de Tailândia (PA). Dias depois, a madeireira forneceu o mesmo produto para a exportadora Amazon.

Estudo identificou que áreas no Pará com autorização para retirada de madeira apresentaram indícios de ilegalidade (Foto: Marizilda Cruppe/Greenpeace)
Estudo identificou que áreas no Pará com autorização para retirada de madeira apresentaram indícios de ilegalidade (Foto: Marizilda Cruppe/Greenpeace)

“O trabalho escravo é outra faceta da convergência de crimes associados ao desmatamento ilegal e destaca a importância das leis da UE e dos EUA que exigem que as empresas que compram commodities de alto risco, como madeira da floresta amazônica, realizem a devida diligência na cadeia de abastecimento”, avalia Rick Jacobsen, Gerente sênior de Política de Commodities da EIA.

À época da publicação da reportagem sobre o caso de trabalho escravo, a defesa da Sipasa Seringa Industrial do Pará afirmou que os trabalhadores foram contratados por uma empresa terceirizada, responsável pela contratação de mão de obra, que não foram submetidos à jornada excessiva de trabalho e que os alojamentos eram “condizentes com as condições de abrigo e de vida dos habitantes da própria Região Norte”. 

Procurado pela Repórter Brasil, o advogado de defesa de Wilson de Sá, da Fazenda Citag, disse que as vendas de madeira da propriedade foram realizadas “ao rigor da lei, com todas as licenças emitidas à época”, e que não tem nada mais a declarar sobre o caso.

As madeireiras DAB e Barreto e a exportadora Amazon também foram procuradas, mas não responderam aos questionamentos enviados pela reportagem até o fechamento deste texto. O espaço segue aberto para manifestações futuras.

Regras mais rígidas

Para a EIA, o setor madeireiro brasileiro apresenta um “padrão contínuo de crimes e impunidade”. A organização também ressalta limitações atuais do sistema de rastreabilidade da madeira e dos esforços de fiscalização no país, “que ainda permitem a circulação de grandes volumes de madeira ilegal nas cadeias de suprimentos nacionais e internacionais, causando danos irreparáveis aos povos indígenas e à Amazônia”. 

A Semas-PA foi procurada pela Repórter Brasil para comentar o relatório e as informações sobre o caso da Fazenda Odila, mas não respondeu até o fechamento deste texto. O espaço segue aberto para manifestações futuras.

A EIA sugere rastreabilidade em tempo real, com validação em campo, combinada com maior transparência de dados públicos. “O Ministério Público do Pará já começou a enfrentar a situação ao recomendar uma série de medidas que melhorariam significativamente o sistema – e que deveriam ser apoiadas e implementadas em nível nacional”, diz o relatório.

A organização sustenta ainda que os casos apresentados no estudo indicam um “descumprimento generalizado” do EUTR (Regulamento da União Europeia sobre a Madeira) e da Lei Lacey, que proíbe a importação de madeira ilegal para os EUA. “Para compradores dos EUA e da UE, os casos apresentados nos dois relatórios da EIA levantam sérias questões sobre suas práticas de devida diligência”, aponta a organização.

Para a EIA, requisitos mais rigorosos de devida diligência do Regulamento da UE sobre Desmatamento (EUDR), que substituirá o EUTR, são “urgentemente necessários” para interromper o fluxo de madeira ilegal da Amazônia para o mercado da União Europeia. No caso americano, a organização espera que os EUA “façam sua parte para aplicar de forma efetiva o Lacey Act”.

“Em conjunto, essas soluções podem ajudar a reduzir de maneira eficaz o crime florestal e proteger uma das últimas florestas tropicais remanescentes do mundo”, afirmam.


Fonte: Repórter Brasil

Aumento drástico da violência relacionada à água registrado desde 2022

Especialistas afirmam que a crise climática, a corrupção e a falta ou o uso indevido de infraestrutura estão entre os fatores que impulsionam os conflitos hídricos

Vista aérea de casas submersas em Kherson

Casas submersas em Kherson, Ucrânia, após a destruição da barragem de Kakhovka em 2023. Fotografia: AP

Por Rachel Salvidge para “The Guardian” 

A violência relacionada à água quase dobrou desde 2022 e pouco está sendo feito para entender e lidar com essa tendência e prevenir riscos novos e crescentes, disseram especialistas.

Segundo o Pacific Institute, um centro de estudos com sede nos EUA, foram registrados 419 incidentes de violência relacionados à água em 2024, um aumento em relação aos 235 registrados em 2022.

O instituto compilou evidências de centenas de anos de conflitos relacionados à água, incluindo casos em que a água foi um fator desencadeador de violência, uma arma de conflito ou uma vítima de conflito.

“Estamos vendo mais conflitos, e eles são multicausais”, disse o Dr. Peter Gleick, cofundador e pesquisador sênior do instituto. “A crise climática e os eventos climáticos extremos contribuem para isso, mas há muitos outros fatores, como falhas do Estado, governos incompetentes ou corruptos, e a falta ou o uso inadequado de infraestrutura.”

Exemplos recentes incluem tensões entre a Índia e o Paquistão sobre um tratado de compartilhamento de água do rio Indo após um ataque terrorista, ataques da Rússia a barragens hidrelétricas na Ucrânia, destruição dos sistemas de água de Gaza por Israel e protestos sobre o abastecimento de água na África do Sul.

“Em Gaza, Israel sistematicamente transformou a água em arma”, disse Trevor. “Eles atacaram deliberadamente sistemas de água e usinas de dessalinização e bloquearam os reparos. A água potável foi contaminada por esgoto devido à destruição da infraestrutura de esgoto e drenagem pluvial, e pessoas foram atacadas enquanto esperavam ou faziam fila para pegar água.”

“Na África Oriental e no Sahel, a água está se tornando cada vez mais insegura e as pessoas estão se deslocando para novas áreas em busca de água, o que por si só pode desencadear competição e conflito com a população local.”

A política intensificou situações já frágeis em alguns lugares. Gleick afirmou: “O Rio Colorado e o Rio Grande, nos EUA, tornaram-se cada vez mais controversos politicamente nos últimos anos. Existem tratados que datam de 1944 que regem ambos os rios, exigindo que os EUA forneçam água do Rio Colorado ao México e que o México forneça água do Rio Grande aos EUA. Mas, com a intensificação da política fronteiriça durante o governo Trump, essas questões se tornaram mais controversas. Várias pessoas foram mortas no México durante um protesto em uma barragem usada para fornecer água aos EUA, após agricultores se oporem à liberação de água.”

Gleick afirmou que existem algumas disputas menos conhecidas na Ásia Central que podem se agravar. “No Uzbequistão, Tadjiquistão e Quirguistão, há tensões relacionadas à água há algum tempo, e o Afeganistão está construindo um canal muito grande, o canal Qosh Tepa, para desviar água do rio Amu Darya, o qual, se entrar em operação, reduzirá significativamente o fluxo para as repúblicas da Ásia Central.”

Os institutos das Nações Unidas estão soando o alarme e a ONU prevê que a demanda global por água doce excederá a oferta em 40% até 2030. Na terça-feira, o Instituto Universitário das Nações Unidas para Água, Meio Ambiente e Saúde declarou que o mundo entrou em uma era de “falência hídrica”.

A Unesco afirma que, embora aproximadamente 40% da população mundial viva em bacias hidrográficas transfronteiriças de rios e lagos, apenas um quinto dos países possui acordos transfronteiriços para compartilhar recursos de forma equitativa.

Trevor afirmou: “Com o aumento da insegurança hídrica, é necessário implementar tratados transfronteiriços mais transparentes e responsáveis ​​que atendam a todas as pessoas, garantindo seu direito humano à água. É preciso reconhecer mais a necessidade de uma melhor partilha da água, que vá além dos atuais acordos de partilha, muitas vezes voluntários e, portanto, totalmente dependentes da boa vontade.”

Gleick afirmou: “Podemos resolver nossos problemas hídricos – não estou dizendo que vamos resolvê-los ou que faremos isso em breve, mas podemos. Isso inclui os impactos das mudanças climáticas na água, o atendimento às necessidades humanas básicas e aos direitos à água, a resolução dos problemas dos ecossistemas e a redução dos riscos de conflitos por recursos hídricos.”


Fonte: The Guardian