Nunes Marques censura canal pró-Lula, e bolsonaristas esquecem a liberdade de expressão

Editorial da Folha de S.Paulo denuncia censura pró-Flávio e expõe os riscos da interferência judicial e das big techs na disputa presidencial

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, manteve a derrubada de um canal de WhatsApp associado à mobilização eleitoral em favor de Lula, que reunia milhões de participantes. A decisão, justificada por alegações de irregularidades na divulgação de pesquisas e conteúdos eleitorais, foi duramente criticada em editorial da Folha de S.Paulo, intitulado “Nunes Marques insiste em censura pró-Flávio”. Para o jornal, a Justiça Eleitoral está extrapolando suas atribuições e assumindo um perigoso papel de tutora da informação política.  É evidente que a Justiça Eleitoral deve combater fraudes e ilícitos eleitorais. Entretanto, existe uma diferença fundamental entre responsabilizar autores de infrações comprovadas e eliminar um canal inteiro de comunicação em plena campanha presidencial. Nesse segundo caso, a intervenção pode comprometer a igualdade de condições entre os candidatos, especialmente quando atinge instrumentos de mobilização com milhões de participantes.

A situação se torna ainda mais preocupante quando associada à atuação das grandes plataformas digitais. Tenho relatado no Blog do Pedlowski os problemas que enfrentei com a Meta, incluindo o bloqueio temporário de minha conta no Instagram após uma onda de ataques contra uma publicação crítica às propostas associadas à candidatura de Flávio Bolsonaro. Também recebi relatos de restrições ao compartilhamento de conteúdos políticos pelo WhatsApp. Embora esses episódios não comprovem uma operação coordenada, levantam dúvidas legítimas sobre a transparência e a aplicação uniforme das regras dessas empresas.

O que estamos presenciando é uma combinação potencialmente perigosa: de um lado, decisões judiciais que restringem canais de mobilização eleitoral; de outro, corporações privadas que controlam, por mecanismos pouco transparentes, a circulação de informações políticas. Não é necessário demonstrar uma conspiração entre magistrados e big techs para reconhecer que os efeitos dessas intervenções podem convergir e favorecer determinados interesses eleitorais.

Também chama atenção a aparente tranquilidade de setores da extrema-direita que denunciam uma suposta ditadura judicial sempre que suas próprias redes são atingidas, mas parecem perfeitamente confortáveis quando restrições semelhantes prejudicam seus adversários. Afinal, a liberdade de expressão não pode ser um direito absoluto para os aliados e dispensável para os adversários.

O editorial da Folha merece destaque justamente por colocar em discussão um princípio democrático fundamental: a Justiça Eleitoral deve garantir a legalidade do processo eleitoral, não substituir a capacidade dos cidadãos de avaliar criticamente as informações que recebem. Em um país onde a comunicação já é fortemente concentrada nas mãos de grandes grupos econômicos, acrescentar uma tutela judicial excessiva sobre a informação amplia os riscos de manipulação da disputa política.

A pergunta que fica é inevitável: se a extrema-direita considera censura qualquer restrição à sua comunicação política, por que o mesmo princípio não deveria valer quando o prejudicado é Lula?  Uma democracia não pode conviver com uma liberdade de expressão de mão única. Muito menos quando o acesso dos eleitores à informação passa a depender, simultaneamente, de decisões judiciais e dos algoritmos de empresas privadas. Caso contrário, continuaremos realizando eleições formalmente livres, mas sob condições de circulação da informação cada vez menos democráticas.

A Amazônia diante do futuro climático: a ciência tenta descobrir até onde a floresta poderá resistir

Experimento apresentado pela revista Nature procura compreender como o aumento do dióxido de carbono na atmosfera afetará a maior floresta tropical do planeta, enquanto o aquecimento global e o desmatamento ameaçam sua capacidade de recuperação

Uma reportagem publicada em 9 de outubro de 2026 pela revista científica Nature apresenta, por meio de uma narrativa fotográfica, o trabalho do pesquisador David Lapola, que procura responder a uma das questões mais importantes e ainda insuficientemente esclarecidas pela ciência climática: como a floresta amazônica reagirá ao aumento contínuo da concentração de dióxido de carbono (CO₂) na atmosfera? 

A pergunta parece simples, mas suas implicações são enormes. Afinal, a Amazônia não é apenas um gigantesco reservatório de biodiversidade. Ela desempenha um papel fundamental na regulação do clima, no armazenamento de carbono e na circulação de umidade que influencia os regimes de precipitação em extensas áreas da América do Sul. Alterações em seu funcionamento ecológico poderão, portanto, produzir consequências que ultrapassam amplamente os limites geográficos da própria floresta.

Um dos aspectos mais relevantes dessa investigação é a tentativa de compreender se o aumento da disponibilidade de CO₂ poderá estimular o crescimento das árvores, por meio do chamado efeito de fertilização por carbono.

Em princípio, concentrações mais elevadas desse gás podem favorecer a fotossíntese. Entretanto, transformar essa possibilidade em uma previsão de maior crescimento florestal seria uma simplificação perigosa. A disponibilidade de nutrientes no solo, especialmente fósforo, as limitações hídricas, as temperaturas elevadas e a intensificação dos eventos climáticos extremos podem restringir ou até anular eventuais benefícios.

É justamente aí que reside uma das grandes contradições do atual momento histórico. Enquanto pesquisadores procuram compreender os limites fisiológicos e ecológicos da resistência da Amazônia, as atividades humanas continuam submetendo a floresta a pressões que comprometem sua integridade. O desmatamento, a degradação florestal, a expansão da mineração, as queimadas e a conversão de áreas naturais em espaços destinados à produção de commodities agrícolas constituem ameaças concretas, cujos efeitos podem ser agravados pelo aquecimento global.

Há também uma dimensão política que não pode ser ignorada. Os conhecimentos produzidos por pesquisas dessa natureza deveriam orientar políticas públicas capazes de reduzir emissões de gases de efeito estufa e proteger os ecossistemas tropicais. Entretanto, persiste uma distância considerável entre o conhecimento científico acumulado e as decisões tomadas por governos e grandes corporações econômicas. Em muitos casos, a floresta continua sendo tratada prioritariamente como uma reserva de terras e recursos naturais a serem incorporados aos circuitos de acumulação de capital.

Outro aspecto que merece atenção é o risco de que resultados eventualmente positivos sobre a capacidade de absorção de carbono pelas árvores sejam apropriados por discursos que procuram minimizar a urgência da redução das emissões. Mesmo que determinadas espécies apresentem respostas favoráveis a concentrações mais elevadas de CO₂, isso não significa que a Amazônia, como ecossistema, esteja protegida das consequências das mudanças climáticas. Muito menos que a floresta possa compensar indefinidamente as emissões provenientes da queima de combustíveis fósseis.

O mérito da investigação apresentada pela Nature está justamente em enfrentar uma incerteza científica fundamental, em vez de oferecer respostas simplistas sobre o futuro da Amazônia. Entretanto, a existência de incertezas sobre a magnitude das respostas ecológicas não deveria servir como justificativa para a inação política. Pelo contrário, quanto maiores forem as incertezas sobre a capacidade de resistência da floresta, mais prudente será evitar a intensificação das pressões que ameaçam seu funcionamento.

A questão central, portanto, não é apenas descobrir como será a Amazônia em uma atmosfera enriquecida por dióxido de carbono. É compreender se estaremos dispostos a modificar os processos econômicos e políticos que contribuem para tornar seu futuro cada vez mais incerto.

Afinal, de pouco adiantará a ciência descobrir os limites de resistência da Amazônia se continuarmos politicamente empenhados em ultrapassá-los.

Das redes às ruas: a juventude mostra o caminho, mas a campanha de Lula precisa agir

A campanha do presidente Lula neste segundo turno está diante de uma oportunidade política que não pode ser desperdiçada. As mobilizações que vêm ocorrendo em diferentes partes do país, muitas delas impulsionadas espontaneamente pela juventude, demonstram uma disposição de participação política que ultrapassa as estruturas partidárias tradicionais. Os jovens não estão apenas comparecendo aos atos: estão ajudando a convocá-los, organizá-los e dar-lhes uma linguagem própria.

Esse protagonismo precisa ser reconhecido pela direção do PT e pela coordenação da campanha de Lula. O pior caminho seria tentar enquadrar essa energia espontânea nas  estruturas partidárias, transformando jovens mobilizadores em figurantes de eventos organizados de cima para baixo. A juventude não está pedindo autorização para participar da política. Ela já está mostrando sua capacidade de organização.

Entretanto, é fundamental construir uma verdadeira simbiose entre redes e ruas, especialmente diante do enorme poder das big techs sobre a circulação de informações. A comunicação digital não pode ser o único meio de acesso às propostas em disputa nesta eleição.  É nesse ponto que cabe cobrar uma ação concreta da direção nacional do PT e da coordenação da campanha: produzir e disponibilizar imediatamente materiais impressos, com linguagem acessível, informações verificáveis e referências às propostas efetivamente apresentadas pelos candidatos. Esses materiais devem permitir que a população conheça e compare as consequências das diferentes propostas sobre remuneração por hora trabalhada, direitos previdenciários, proteção social, educação e condições de trabalho.

Para isso, não basta anunciar uma campanha de comunicação. É necessário estabelecer um calendário público de produção e entrega dos materiais, disponibilizar arquivos para impressão local, garantir recursos às estruturas regionais e criar canais pelos quais coletivos juvenis e organizações sociais possam solicitar apoio logístico. Tudo isso com transparência e respeito à autonomia dos participantes.

A juventude não pode ser tratada apenas como força auxiliar para carregar bandeiras e preencher fotografias de manifestações. Seu protagonismo precisa ser reconhecido também na definição das formas de participação e organização, sem submissão automática às estruturas partidárias.  O segundo turno exige mais do que grandes atos, discursos e disputas de audiência nas plataformas digitais. Exige condições materiais para que o debate político ultrapasse as telas e alcance os espaços públicos, com informações claras e possibilidades reais de participação.

A juventude já demonstrou capacidade de transformar indignação em mobilização. Cabe agora à direção do PT demonstrar que consegue oferecer apoio concreto sem sufocar essa autonomia. Afinal, seria um desperdício político monumental ver a juventude ocupando as ruas enquanto a direção da campanha permanece ocupada apenas em administrar agendas, discursos e fotografias.

A tarefa é simples de enunciar: imprimir, disponibilizar, organizar e prestar contas. Porque algoritmo nenhum substitui organização popular.

Meta, eleições e os misteriosos problemas técnicos que parecem ter lado

Enquanto a campanha de Lula denuncia restrições ao alcance de suas publicações, até o compartilhamento de informações entre cidadãos passa a enfrentar bloqueios. A questão é saber quem controla a circulação das informações e quem fiscaliza esse poder

Há algo de particularmente preocupante acontecendo nas eleições presidenciais brasileiras de 2026. A Meta, conglomerado proprietário do Facebook, Instagram e WhatsApp, está sendo questionada por uma sucessão de episódios que, segundo denúncias da campanha do presidente Lula, estariam prejudicando a circulação de conteúdos favoráveis à sua candidatura. A empresa reconheceu a ocorrência de problemas técnicos, mas negou qualquer favorecimento eleitoral, alegando que as falhas também atingiram outros usuários e mercados. A controvérsia chegou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que concedeu prazo de 48 horas para a empresa prestar esclarecimentos sobre as restrições denunciadas.

O curioso é que esses misteriosos problemas técnicos parecem ter adquirido uma capacidade bastante inconveniente de aparecer justamente quando a circulação de informações políticas se torna particularmente relevante. A campanha de Lula relata interrupções no registro de visualizações, dificuldades de impulsionamento e quedas de alcance. Nada disso comprova, isoladamente, uma interferência deliberada, mas tampouco pode ser resolvido com a explicação genérica de que houve uma falha técnica. Afinal, quando uma empresa privada controla parte significativa da infraestrutura de comunicação política de um país, não basta informar que seus computadores tiveram um dia ruim. É preciso demonstrar o que aconteceu, quem foi afetado e quais providências foram tomadas para corrigir os problemas.

Hoje recebi um relato que torna essa situação ainda mais inquietante.

Um amigo, professor universitário de reconhecida probidade, informou que foi impedido de continuar compartilhando pelo WhatsApp um material sobre a proposta de adoção do salário por hora trabalhada, sob a alegação de distribuição em massa. O detalhe quase cômico, não fosse a gravidade do assunto, é que ele não havia encaminhado o material sequer para uma centena de pessoas. Evidentemente, esse episódio individual não permite concluir que houve discriminação política, até porque o WhatsApp possui regras contra disparos automatizados e mensagens consideradas indesejadas. Entretanto, o caso exige uma pergunta bastante simples: quais critérios transformam o compartilhamento de informações sobre direitos trabalhistas em uma atividade passível de bloqueio?

O problema se torna ainda mais sério quando lembramos que as big techs passaram anos vendendo a fantasia de que suas plataformas representariam uma democratização sem precedentes da comunicação. Agora descobrimos que essa suposta praça pública funciona em terreno privado, onde os proprietários podem alterar algoritmos, reduzir a visibilidade de conteúdos e restringir a comunicação entre usuários mediante critérios cuja aplicação concreta permanece pouco transparente. A liberdade de expressão, nesse ambiente, corre o risco de se transformar em uma espécie de concessão corporativa, exercida enquanto os sistemas automatizados e os interesses comerciais das plataformas assim permitirem.

É evidente que combater spam, fraudes e campanhas coordenadas de desinformação constitui uma necessidade. O que não se pode admitir é que mecanismos criados para essa finalidade terminem restringindo manifestações políticas legítimas sem justificativas verificáveis e possibilidades efetivas de contestação. Quando isso acontece em pleno segundo turno de uma eleição presidencial, os efeitos potenciais ultrapassam os direitos individuais dos usuários e alcançam as próprias condições de igualdade da disputa eleitoral. Não é necessário demonstrar que Mark Zuckerberg tenha pessoalmente decidido prejudicar Lula para reconhecer que restrições injustificadas à circulação de conteúdos políticos podem produzir consequências eleitorais concretas.

A questão central, portanto, não é apenas saber se a Meta está deliberadamente interferindo nas eleições brasileiras em benefício de Flávio Bolsonaro, como suspeita a campanha de Lula. É também determinar se a concentração privada do controle sobre a comunicação digital permite que decisões empresariais, inclusive aquelas apresentadas como simples problemas técnicos, afetem desigualmente o debate público. A primeira hipótese exige investigação e provas; a segunda já constitui um problema estrutural que não pode continuar sendo ignorado.

No fim das contas, talvez estejamos descobrindo que a tão celebrada liberdade oferecida pelas big techs possui uma cláusula que raramente aparece na propaganda: todos podem falar, desde que os donos das plataformas continuem decidindo quem será ouvido. E, quando surgem questionamentos sobre essa distribuição desigual da visibilidade, a resposta parece convenientemente pronta: foi apenas um problema técnico.

A democracia brasileira merece explicações melhores do que essa. E o TSE precisa exigir que elas sejam acompanhadas de dados verificáveis, não apenas de declarações corporativas de boas intenções.

Carta de um Brasil que deixou de existir

Por Ismael Machado

Brasil, 17 de abril de 2032.

Escrevo esta carta sem saber se alguém poderá lê-la. Há cinco anos, escrever determinadas palavras tornou-se perigoso. Algumas desapareceram dos meios de comunicação, outras dos livros escolares. Democracia é uma delas. Ditadura também. Fascismo, então, é palavra proibida. O governo chama isso de pacificação nacional.

Não houve um golpe como aqueles que conhecemos nos livros de história. Não apareceram tanques nas ruas na primeira manhã. Não fecharam o Congresso. Pelo contrário. O Congresso continuou funcionando, votando leis, aprovando decretos, legitimando cada nova violência. Os ministros do Supremo foram substituídos aos poucos. Os que permaneceram aprenderam a concordar. A Constituição continua existindo, embora ninguém saiba exatamente para que serve.

O presidente governa cercado de generais, pastores, empresários e homens que, antes, apareciam nas páginas policiais. Alguns deles agora são ministros. Outros controlam territórios inteiros. As milícias administram bairros, distribuem gás, cobram pela água, controlam o transporte, escolhem os comerciantes autorizados a trabalhar. Nas periferias, o Estado aparece apenas para confirmar as decisões tomadas por esses homens. A televisão chama isso de segurança comunitária.

Os cultos religiosos tornaram-se cerimônias oficiais. O presidente aparece ajoelhado diante de pastores que determinam o que as crianças devem aprender, quais livros podem circular, que comportamentos serão tolerados. Nas escolas públicas, as aulas começam com orações obrigatórias. Professores de história foram afastados por insistirem em falar sobre escravidão, ditadura militar, movimentos sociais. A palavra diversidade foi retirada dos currículos.

A universidade pública praticamente desapareceu. Algumas foram privatizadas. Outras transformadas em centros de formação técnica administrados por organizações religiosas e grandes empresas. Filosofia, sociologia, artes e literatura passaram a ser consideradas disciplinas inconvenientes. A pesquisa científica depende de autorização governamental. Há laboratórios fechados, bibliotecas abandonadas, pesquisadores trabalhando no exterior. Os filhos dos ricos continuam estudando. Os outros aprendem a obedecer.

O Sistema Único de Saúde foi desmontado em etapas. Primeiro vieram os cortes orçamentários. Depois, a transferência de hospitais para organizações privadas. Em seguida, a cobrança por procedimentos que antes eram gratuitos. O governo anunciou que a população teria liberdade para escolher seus serviços de saúde. Hoje, milhões de brasileiros não conseguem pagar por uma consulta. Medicamentos para doenças crônicas desapareceram das farmácias populares. A vacinação deixou de ser prioridade nacional.

Os hospitais públicos ainda possuem fachadas. Alguns mantêm placas com o antigo símbolo do SUS. Dentro deles, corredores vazios, equipamentos quebrados, profissionais exaustos. Quem precisa de atendimento depende da caridade de instituições religiosas, de campanhas na internet ou da sorte.

O Bolsa Família foi extinto. Em seu lugar, surgiu um programa de assistência administrado por entidades conveniadas, muitas delas ligadas a igrejas que apoiam o governo. A distribuição de alimentos depende de cadastros, entrevistas e declarações de conduta moral. A fome voltou a ocupar as ruas. O governo proibiu a divulgação dos números.

O IBGE foi reorganizado. Seus dirigentes são escolhidos diretamente pelo presidente. As estatísticas oficiais mostram um país em permanente crescimento, com desemprego reduzido e pobreza em queda. Entretanto, há famílias inteiras vivendo em construções improvisadas, crianças trabalhando, idosos vendendo pequenos objetos nos sinais de trânsito. O salário mínimo perdeu boa parte de seu poder de compra. A jornada de trabalho foi ampliada sob o argumento de estimular a economia.

Os sindicatos foram enfraquecidos por sucessivas leis. Greves em serviços considerados essenciais passaram a ser tratadas como ameaças à segurança nacional. E quase tudo foi declarado essencial.

Na Amazônia, a situação é ainda pior. O Ministério do Meio Ambiente existe apenas formalmente. O Ibama perdeu sua capacidade de fiscalização. O ICMBio foi reduzido a uma repartição burocrática. Terras indígenas foram abertas à mineração, à exploração madeireira e à pecuária. Grandes extensões de floresta desapareceram. Rios foram contaminados. Comunidades inteiras abandonaram seus territórios.

O calor tornou-se quase insuportável durante boa parte do ano. Há bairros onde falta água por vários dias. As ilhas próximas à cidade enfrentam a contaminação dos rios e o avanço de empreendimentos privados. Peixes que antes eram comuns tornaram-se raros e caros.

Os povos indígenas resistiram enquanto puderam. Suas organizações foram classificadas como instrumentos de interferência estrangeira. Lideranças foram perseguidas, territórios invadidos. Os movimentos de trabalhadores rurais receberam tratamento semelhante. Assentamentos foram desfeitos. Escolas do campo fecharam. A reforma agrária tornou-se expressão de um passado que o governo deseja apagar.

O país rompeu compromissos internacionais de proteção ambiental e direitos humanos. A diplomacia brasileira passou a seguir as orientações de governos estrangeiros aliados ao presidente. Empresas multinacionais receberam concessões sobre áreas estratégicas. A soberania nacional é celebrada em discursos oficiais enquanto terras, minerais, energia e infraestrutura são entregues em contratos que a população não pode conhecer.

As mulheres perderam direitos conquistados ao longo de décadas. Políticas de proteção foram desmontadas. Organizações feministas passaram a ser investigadas por suposta promoção da desordem social. A violência doméstica cresceu, mas os dados oficiais deixaram de ser publicados. Pastores ocupam programas de televisão para explicar que a família brasileira precisa recuperar sua antiga hierarquia.

Pessoas LGBT vivem sob permanente ameaça. Leis municipais e estaduais restringem manifestações públicas, eventos culturais e conteúdos escolares. O governo federal afirma que não existe perseguição, apenas proteção dos valores familiares.

O racismo também encontrou novas formas de legitimação. As políticas de igualdade racial foram abandonadas. Quilombolas enfrentam expulsões e disputas fundiárias. A violência policial concentra-se nas mesmas populações de sempre, agora sob uma legislação que amplia a proteção jurídica dos agentes de segurança.

As emissoras de televisão pertencem a empresários associados ao governo ou dependem de verbas públicas distribuídas segundo critérios políticos. Jornalistas independentes enfrentam processos, bloqueios financeiros e ameaças. Alguns deixaram o país. Outros abandonaram a profissão.

Na internet, cada cidadão possui um registro de confiabilidade. Publicações consideradas ofensivas às instituições podem impedir o acesso a empregos públicos, bolsas de estudo e determinados serviços. A Polícia Federal foi transformada em instrumento de vigilância política. A agência de inteligência acompanha professores, artistas, sindicalistas, estudantes e antigos militantes de movimentos populares.

Os militares ocupam cargos na administração civil. Os pastores definem os limites da moral. Os empresários estabelecem as prioridades econômicas. As milícias executam aquilo que as instituições preferem não assumir. A população foi sendo acostumada a tudo isso.

Primeiro, aceitaram a perseguição aos adversários políticos. Depois, o fechamento de organizações sociais. Em seguida, as restrições à imprensa, às universidades, às manifestações. Cada medida era anunciada como necessária, temporária, destinada a proteger as famílias e salvar a nação de inimigos internos.

Havia sempre um inimigo novo. Comunistas. Professores. Indígenas. Ambientalistas. Artistas. Jornalistas. Feministas. Sindicalistas. Qualquer pessoa que discordasse poderia receber um desses nomes.

As eleições continuam acontecendo. Os candidatos de oposição precisam obter certificados de compromisso com a ordem constitucional, emitidos por um conselho controlado pelo governo. Partidos foram extintos por decisões judiciais. Outros sobreviveram renunciando a qualquer possibilidade real de confronto. A propaganda oficial apresenta cada eleição como uma demonstração da vitalidade democrática brasileira. O presidente vence todas.

Há uma fotografia antiga guardada na gaveta da minha escrivaninha. Mostra uma multidão ocupando uma praça, bandeiras vermelhas, rostos sorridentes, gente de todas as idades. Foi tirada quando ainda se podia acreditar que a história avançava, mesmo com suas interrupções e derrotas. Olho para ela algumas vezes, sobretudo quando falta energia e a casa fica silenciosa.

Penso nas pessoas que disseram que nada disso poderia acontecer. Nas que acreditaram que as instituições seriam suficientemente fortes. Nas que preferiram se abster porque todos os políticos lhes pareciam iguais. Nas que aceitaram pequenas violências porque não eram suas as vidas atingidas. Nas que fizeram concessões sucessivas, convencidas de que haveria tempo para reagir. Penso também naqueles que sabiam exatamente o que estavam fazendo.

Não posso afirmar que ninguém resistiu. Houve manifestações, greves, ocupações, denúncias, campanhas. Houve gente que perdeu o emprego, a liberdade, o direito de viver em sua própria terra. Ainda existem pequenos grupos organizados. Há professores ensinando história em casas particulares. Há médicos atendendo gratuitamente nas periferias. Há indígenas protegendo o que resta de suas florestas. Há jornalistas produzindo boletins clandestinos.

Esta carta talvez chegue a algum deles.

Hoje é 17 de abril. A data ainda me faz lembrar os trabalhadores rurais assassinados em Eldorado dos Carajás, em 1996. O massacre desapareceu dos livros didáticos. O governo diz que episódios dessa natureza estimulam divisões entre brasileiros. No lugar da memória, instituiu uma celebração nacional da ordem e da propriedade. Trinta e seis anos depois, a história oficial conseguiu transformar vítimas em criminosos e criminosos em exemplos de patriotismo.

Escrevo porque tenho medo de que, daqui a alguns anos, ninguém consiga explicar como chegamos até aqui. E porque me lembro de uma coisa que os novos livros de história não ensinam. Nada disso começou em 2027. O projeto já estava anunciado. Seus defensores falavam abertamente sobre o que pretendiam fazer com os direitos trabalhistas, com a educação, com os povos indígenas, com as mulheres, com o meio ambiente, com a Justiça e com a própria democracia.

Não esconderam suas intenções. Foram eleitos apesar delas. Esta é a parte da história que mais me atormenta. Se esta carta conseguir atravessar o tempo, se chegar a alguém que ainda viva naquele Brasil anterior, quando tudo isso era apenas uma possibilidade, peço que não a leia como uma profecia. Leia como um documento de ficção escrito por alguém que ainda conhecia a liberdade e imaginou o que seria perdê-la. Talvez o futuro possa ser diferente. Talvez, no tempo de vocês, ainda seja possível impedir que esta carta venha a ser escrita.

Assinado: um brasileiro que se lembra.


Fonte: Medium

A Paulista lotada, a Globo mostrando robôs: a seletividade da televisão em plena eleição presidencial

Enquanto milhares de brasileiros ocupavam a Avenida Paulista em defesa da democracia, a cobertura das grandes redes de TV levantou dúvidas sobre suas prioridades editoriais e os efeitos políticos da invisibilidade de uma manifestação popular

Neste domingo, 11 de outubro, milhares de brasileiros ocuparam a Avenida Paulista na chamada Marcha pela Democracia, em uma demonstração expressiva de mobilização popular em apoio à candidatura do presidente Lula. Segundo reportagem do UOL, a manifestação ocupou sete quarteirões da avenida, reunindo estudantes, movimentos sociais, artistas e lideranças políticas. A concentração foi tamanha que a estação Trianon-Masp do metrô precisou ser temporariamente fechada. Entretanto, o que deveria ser um acontecimento de grande destaque na televisão brasileira parece não ter recebido, nas principais redes abertas, uma cobertura proporcional à sua dimensão. Essa discrepância merece ser examinada, especialmente quando estamos a apenas duas semanas de um segundo turno presidencial marcado por intensa polarização.

Um exemplo particularmente revelador dessa situação foi a opção da TV Globo de dedicar espaço a uma competição universitária de robótica realizada em São Paulo, conforme demonstra vídeo disponibilizado pela própria emissora no portal G1. Nada tenho contra competições de robótica, muito pelo contrário. O problema está na hierarquia das prioridades jornalísticas. Enquanto milhares de pessoas ocupavam a principal avenida de São Paulo, em um ato de evidente importância política, a Globo encontrou espaço para mostrar robôs. A existência dessa reportagem não comprova, isoladamente, que tenha ocorrido uma substituição deliberada da cobertura da manifestação. Mas o contraste é suficientemente significativo para exigir uma pergunta: por que uma mobilização dessa magnitude não recebeu uma cobertura televisiva à altura de sua relevância?

A resposta pode estar nas escolhas editoriais dos grandes conglomerados de comunicação, que estão longe de ser politicamente neutras em seus efeitos. Não é necessário que uma emissora declare apoio a Flávio Bolsonaro para que suas decisões sobre o que mostrar, quanto mostrar e quando mostrar possam produzir consequências favoráveis à sua candidatura. A reduzida visibilidade de uma manifestação em apoio a Lula, caso confirmada por uma comparação sistemática da programação, representa uma desvantagem objetiva na circulação de imagens e informações sobre a mobilização de seus apoiadores. Em uma disputa eleitoral tão polarizada, a capacidade de demonstrar força nas ruas é parte importante da construção da percepção pública sobre as candidaturas. Limitar essa visibilidade pode, portanto, produzir efeitos eleitorais, ainda que não seja possível demonstrar uma intenção deliberada de favorecer determinado candidato.

Há outro aspecto que torna a cobertura televisiva dessa manifestação especialmente relevante: a forte presença da juventude. As imagens da Paulista desafiam a narrativa de que a esquerda brasileira perdeu sua capacidade de mobilização e de diálogo com as novas gerações. O protagonismo de estudantes e de coletivos juvenis é, por si só, um acontecimento político relevante, independentemente das preferências partidárias de quem o observa. Não deixa de ser pertinente perguntar se uma manifestação de dimensão semelhante organizada por apoiadores de Flávio Bolsonaro receberia o mesmo tratamento das grandes redes de televisão. A resposta exigiria comparar as coberturas, mas a própria necessidade dessa comparação revela a importância de submeter as decisões editoriais ao escrutínio público.

É preciso reconhecer que veículos como UOL, Folha de S.Paulo e CNN Brasil noticiaram a manifestação. Entretanto, publicar uma notícia em um portal e oferecer cobertura robusta na televisão aberta são coisas distintas. A televisão continua sendo um instrumento poderoso de construção da percepção coletiva, sobretudo entre os segmentos da população que não acompanham continuamente as redes sociais. Nesse contexto, a decisão de conceder maior ou menor visibilidade a uma manifestação pode interferir na compreensão pública da realidade política. Não se trata de exigir que as emissoras promovam Lula ou qualquer outro candidato, mas de questionar critérios editoriais que possam resultar em tratamento desigual de acontecimentos de relevância comparável.

A situação é ainda mais preocupante porque a concentração do poder de informar nas mãos de poucos grupos empresariais constitui um problema estrutural da democracia brasileira. A existência de transmissões independentes, como as realizadas pela DiaTV e pela TVT, permite que acontecimentos pouco destacados pela televisão convencional alcancem outros públicos. Entretanto, essa alternativa também depende de plataformas digitais controladas por grandes corporações, cujos algoritmos e mecanismos de moderação podem restringir a circulação de conteúdos. Assim, entre as escolhas editoriais dos conglomerados televisivos e o poder das big techs, a sociedade brasileira permanece sujeita a filtros privados que influenciam profundamente o que pode ser visto, conhecido e debatido.

O que aconteceu neste domingo na Avenida Paulista deveria servir como oportunidade para uma discussão mais ampla sobre o papel político das grandes redes de televisão. Não é necessário comprovar uma conspiração entre emissoras para reconhecer que a hierarquização das notícias possui consequências políticas e que essas consequências podem prejudicar uma candidatura em benefício de outra. A questão fundamental é saber se os critérios utilizados para definir a importância dos acontecimentos estão sendo aplicados de maneira consistente, especialmente durante uma eleição presidencial.

Afinal, o problema não é a Globo mostrar robôs. O problema é a possibilidade de que uma multidão de brasileiros nas ruas receba menos atenção televisiva do que merece. E quando a visibilidade de manifestações políticas depende das conveniências editoriais de grandes corporações, o que está em jogo não é apenas a cobertura de uma eleição, mas a qualidade da própria democracia brasileira.

“Fake news” virou senha para calar os outros? A estranha democracia dos bloqueios digitais

Enquanto perfis praticamente vazios atacam publicações críticas a Flávio Bolsonaro, a Justiça Eleitoral suspende um canal de mobilização de milhões de apoiadores de Lula. Afinal, quem está tentando controlar a circulação das mensagens políticas?

Nos últimos dias, minha conta oficial no Instagram passou a receber dezenas de comentários hostis depois da publicação de um card sobre propostas associadas à campanha presidencial de Flávio Bolsonaro. O que mais me chamou a atenção é que muitos desses ataques partem de perfis com zero ou pouquíssimas postagens, repetindo praticamente a mesma acusação: a de que estou divulgando fake news. A situação ficou ainda mais preocupante quando um desses perfis anunciou que iria bloquear minha conta. A ameaça merece atenção, especialmente porque meu perfil já ficou recentemente inacessível por uma medida de segurança aplicada pela Meta, após outra onda de ataques de natureza política.

É necessário, entretanto, distinguir a crítica política legítima das tentativas de intimidação digital. Qualquer pessoa tem o direito de discordar de minhas publicações, questionar seu conteúdo e até denunciá-las quando identificar possíveis violações das regras da plataforma. Entretanto, quando dezenas de perfis, muitos deles sem qualquer postagem, repetem acusações praticamente idênticas e um deles anuncia que irá bloquear minha conta, surgem indícios que merecem investigação. Isso não comprova uma operação coordenada, mas levanta a possibilidade de que o objetivo de alguns participantes não seja debater o conteúdo, e sim constranger seu autor ou tentar restringir sua presença na rede. A diferença é decisiva: contestar uma ideia é exercer a liberdade de expressão; tentar silenciar quem a apresenta, por meio de intimidação ou denúncias fraudulentas, é atentar contra essa mesma liberdade.

Esse cenário ganha contornos ainda mais preocupantes com a decisão do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, de suspender o canal de WhatsApp “Exército do Lula”, criado pelo deputado André Janones e que reunia aproximadamente 3,3 milhões de participantes. A decisão, tomada a pedido da campanha de Flávio Bolsonaro sob alegações de disseminação de informações falsas, levanta questões sobre a proporcionalidade das restrições à mobilização política digital. Evidentemente, informações comprovadamente falsas devem ser combatidas, mas isso não elimina a necessidade de transparência, critérios consistentes e respeito à liberdade de expressão. 

O que me parece especialmente preocupante é a possibilidade de que o combate às fake news esteja sendo instrumentalizado para restringir a circulação de mensagens políticas adversárias. De um lado, uma decisão judicial suspende um canal de mobilização com milhões de participantes; de outro, perfis praticamente anônimos atacam publicações críticas e anunciam bloqueios de contas. Não há provas de conexão entre os episódios, nem se pode equiparar automaticamente uma decisão judicial a eventuais denúncias abusivas nas plataformas. Mas ambos justificam uma reflexão sobre quem controla os espaços de expressão política e como esse controle é exercido.

Afinal, não seria essa a verdadeira ação combinada que deveríamos estar discutindo? A transformação das acusações de fake news, dos mecanismos de denúncia e das decisões de moderação em possíveis instrumentos de intimidação e restrição do debate público? A democracia não pode depender da boa vontade das big techs, tampouco admitir que o combate à desinformação seja utilizado seletivamente para silenciar críticas. Se a liberdade de expressão só vale para quem concorda conosco, então já não estamos falando de liberdade, mas de uma disputa pela hegemonia do direito de falar.

Enquanto governo Trump se omite, Califórnia classifica herbicida Atrazina como cancerígena

Por Carey Gillam para “The New Lede”

Reguladores da Califórnia anunciaram na sexta-feira que pretendem classificar o herbicida atrazina, amplamente utilizado, como um carcinógeno conhecido, uma medida que contrasta com a opinião dos reguladores federais.

O Escritório de Avaliação de Riscos à Saúde Ambiental (OEHHA) da Agência de Proteção Ambiental da Califórnia informou que incluirá a atrazina na lista de substâncias “conhecidas pelo estado como causadoras de câncer, de acordo com uma disposição da Lei de Água Potável Segura e Fiscalização de Substâncias Tóxicas de 1986”, conhecida como Proposição 65.

A OEHHA afirmou que está dando às pessoas a oportunidade de comentar sobre o plano até 9 de novembro.

A ação do estado ocorre depois que a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC) classificou a atrazina — o segundo herbicida mais usado nos EUA, depois do glifosato — como “provavelmente cancerígena para humanos”, em novembro, após uma longa revisão de anos de estudos científicos.

A Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) rejeitou a classificação da IARC no ano passado, ridicularizando a equipe de cientistas do câncer e ecoando as críticas da Syngenta, fabricante da atrazina, ao afirmar que a IARC tem “um longo histórico de graves equívocos”.

Defensores da saúde pública e ambiental há muito tempo pedem a proibição da atrazina, não apenas devido a preocupações com o câncer, mas também devido a pesquisas que a associam a danos reprodutivos e ao desenvolvimento. A Califórnia incluiu a atrazina em sua lista de substâncias químicas “conhecidas pelo estado por causarem toxicidade reprodutiva” em 2016.

Uma pesquisa realizada pela própria Syngenta há mais de 20 anos mostrou altas taxas de câncer entre os trabalhadores de sua fábrica de agrotóxicos, um fato que a empresa não divulgou até ser obrigada por um processo judicial.

A atrazina é proibida em cerca de 60 outros países, incluindo toda a União Europeia, mas os agricultores dos EUA aplicam aproximadamente 70 milhões de libras do agrotóxico sem seus campos todos os anos, geralmente usando-o para cultivar milho, sorgo e cana-de-açúcar, de acordo com estimativas da EPA .

Além do câncer, evidências científicas associam a exposição à atrazina a defeitos congênitos, baixo peso ao nascer, disfunções hormonais e problemas no sistema imunológico. Um estudo de 2011 concluiu que a atrazina “causa efeitos graves na saúde humana”, que variam desde efeitos no sistema nervoso, sistema imunológico, rins, coração e fígado, até hormônios e enzimas.

Embora os trabalhadores agrícolas sejam considerados o principal grupo populacional exposto à atrazina, o produto químico é comumente levado das lavouras dos campos agrícolas para os cursos d’água e é um poluente recorrente no abastecimento de água potável para milhões de americanos.

Um estudo publicado no início desta semana pelo Centro para a Diversidade Biológica afirmou que uma estratégia da EPA para lidar com a contaminação por atrazina nos cursos d’água dos EUA provavelmente não terá impacto significativo na poluição generalizada da água por atrazina.

“ A Califórnia está, acertadamente, acompanhando as evidências científicas mais recentes que relacionam a atrazina ao câncer em humanos”, disse Nathan Donley, diretor de ciências da saúde ambiental do Centro.

“Apesar de ser proibida em mais de 60 países ao redor do mundo, ainda usamos tanta atrazina nos EUA que mais de um quarto de nossos rios e córregos estão contaminados com essa substância cancerígena. Devemos isso aos nossos filhos e a nós mesmos: banir a atrazina em todo o país de uma vez por todas”, disse ele.


Fonte: The New Lede

Flávio Bolsonaro, Trump e o modelo americano: terras raras para os EUA e salários precarizados ara os trabalhadores brasileiros?

Sob o discurso da liberdade de escolha, a proposta ameaça transformar o salário mínimo mensal em uma renda incerta e os direitos trabalhistas em benefícios cada vez menores

Uma das propostas mais preocupantes defendidas por Flávio Bolsonaro e seus apoiadores nesta campanha eleitoral é a ampliação da remuneração por hora trabalhada, apresentada como uma modernização das relações de trabalho no Brasil. O exemplo preferido dos defensores dessa mudança são os Estados Unidos, mas há aspectos fundamentais dessa comparação que estão sendo convenientemente omitidos. Afinal, os trabalhadores norte-americanos não possuem direito federal geral a férias remuneradas nem a um equivalente obrigatório ao nosso 13º salário, tampouco contam com um sistema público universal de saúde comparável ao SUS. Embora existam benefícios oferecidos por empresas e programas públicos específicos, o modelo norte-americano está longe de representar uma referência universal de proteção social. A pergunta que fica é por que importar justamente os mecanismos de flexibilização trabalhista de um país que não assegura a todos os seus trabalhadores direitos sociais já consolidados no Brasil.

É importante esclarecer que o pagamento por hora não é uma novidade no Brasil. Nossa legislação já utiliza o salário-hora em diferentes modalidades de contratação. A questão central é a possibilidade de ampliar contratos com jornadas reduzidas e remuneração proporcional, sem assegurar uma renda mensal suficiente para garantir condições dignas de sobrevivência. A proposta defendida por Flávio Bolsonaro não extingue formalmente férias, 13º salário ou FGTS, mas pode permitir que esses direitos sejam calculados sobre remunerações menores. Em outras palavras, não é necessário eliminar um direito da legislação para esvaziar seu significado econômico.

Tomemos um exemplo bastante simples para compreender o que está em jogo. Atualmente, um trabalhador que recebe o salário mínimo nacional de R$ 1.621 por uma jornada de 44 horas semanais tem assegurada essa remuneração mensal. Se, entretanto, uma empresa puder contratar outro trabalhador para a mesma função por apenas 20 horas semanais, pagando proporcionalmente às horas contratadas, sua remuneração seria de aproximadamente R$ 737 mensais. Isso representa uma diferença de 54,5% em relação ao salário de referência, sem que o valor pago por hora tenha sido diminuído. O empregador pagaria menos simplesmente porque contratou menos horas de trabalho, enquanto o empregado continuaria enfrentando praticamente as mesmas despesas com alimentação, moradia, transporte e outras necessidades básicas. Além disso, como férias, 13º salário e FGTS são calculados com base na remuneração, os valores correspondentes também seriam menores. O resultado é que, para alcançar uma renda equivalente a um único salário mínimo, esse trabalhador precisaria encontrar outro emprego, submetendo-se a novos deslocamentos, jornadas fragmentadas e maior insegurança econômica. E há uma pergunta decisiva: quem garante que ele encontrará outro empregador disposto a contratá-lo justamente nos horários em que estiver disponível? A suposta liberdade de trabalhar menos pode, assim, transformar-se na obrigação de procurar mais empregos para conseguir sobreviver.

É nesse ponto que o discurso da modernização revela seu caráter profundamente contraditório. A liberdade de escolher quanto trabalhar só existe efetivamente quando o trabalhador dispõe de condições materiais para exercer essa escolha. Em um país marcado por profundas desigualdades sociais, informalidade e baixos salários, a relação entre empregador e empregado está longe de ser equilibrada. Quem precisa desesperadamente de um emprego dificilmente poderá recusar condições contratuais desfavoráveis. Assim, aquilo que é apresentado como liberdade de escolha pode funcionar como um mecanismo de transferência dos riscos empresariais para os trabalhadores, enquanto as empresas ajustam seus gastos salariais às próprias necessidades.

A precarização associada a esse tipo de organização do trabalho encontra uma representação contundente no filme Nomadland, dirigido por Chloé Zhao, que acompanha trabalhadores norte-americanos obrigados a percorrer grandes distâncias em busca de empregos temporários e sazonais, muitas vezes vivendo em veículos adaptados. Embora não represente a totalidade do mercado de trabalho dos Estados Unidos, o filme expõe uma realidade perturbadora: a existência de pessoas que trabalham e, ainda assim, não conseguem assegurar condições estáveis de moradia e sobrevivência. Seria essa a modernidade que Flávio Bolsonaro pretende oferecer aos brasileiros?

Há também uma aproximação política que não deveria passar despercebida. Flávio Bolsonaro tem demonstrado afinidade com a orientação econômica adotada por Javier Milei na Argentina, onde a flexibilização das relações trabalhistas vem sendo apresentada como instrumento para estimular investimentos e contratações. Embora as propostas não sejam idênticas, ambas compartilham a premissa de que a redução de determinadas proteções trabalhistas seria necessária para aumentar a competitividade empresarial. O problema é que a competitividade obtida mediante a redução dos custos do trabalho pode significar, na prática, ampliação da precariedade e concentração dos benefícios econômicos nas mãos dos empregadores.

No caso brasileiro, o problema assume contornos ainda mais graves porque o salário mínimo já é insuficiente para assegurar as necessidades básicas de uma família. Nesse contexto, a possibilidade de fragmentar ainda mais a remuneração mensal deveria ser encarada como uma ameaça concreta à segurança econômica da classe trabalhadora. A situação se torna especialmente preocupante quando combinada com propostas de limitar a valorização real do salário mínimo, reduzindo as perspectivas de recuperação do poder aquisitivo dos trabalhadores. Em um país onde milhões de pessoas já precisam escolher quais despesas pagar a cada mês, transformar o salário mensal em uma renda variável e potencialmente insuficiente está longe de representar qualquer avanço social.

Outro aspecto que merece atenção é o possível enfraquecimento da negociação coletiva. A ampliação da prevalência dos contratos individuais sobre acordos coletivos pode reduzir a capacidade dos sindicatos de proteger trabalhadores submetidos a relações profundamente desiguais de poder. Afinal, a negociação entre um trabalhador isolado e uma grande empresa dificilmente ocorre em condições de igualdade. A história das conquistas trabalhistas demonstra precisamente o contrário: férias remuneradas, 13º salário, limites de jornada e outros direitos foram alcançados por meio de processos coletivos de organização e pressão social, e não por concessões espontâneas dos empregadores.

Há, finalmente, uma contradição econômica que os defensores dessa proposta parecem ignorar. A remuneração dos trabalhadores não representa apenas um custo para as empresas, mas também uma das principais fontes de sustentação do consumo e da atividade econômica. Se a disseminação dos contratos por hora resultar em redução da massa salarial, os efeitos poderão atingir o comércio, os serviços e as economias locais, especialmente em cidades onde grande parte da população já depende de salários baixos e de políticas públicas de transferência de renda. Aquilo que pode parecer vantajoso para uma empresa individualmente pode produzir consequências negativas para o conjunto da economia.

A verdadeira modernização das relações de trabalho deveria caminhar na direção oposta: redução da jornada sem redução dos salários, distribuição dos ganhos de produtividade, fortalecimento da proteção social e ampliação das condições materiais para que os trabalhadores possam desfrutar de mais tempo livre. Afinal, os avanços tecnológicos deveriam servir para melhorar a vida das pessoas, e não apenas para aumentar as margens de lucro das empresas. Existe uma diferença fundamental entre assegurar o direito de trabalhar menos e permitir que os empregadores paguem menos porque passaram a contratar menos horas.

O que Flávio Bolsonaro e seus apoiadores precisam explicar aos trabalhadores brasileiros é como alguém poderá viver dignamente recebendo uma fração do salário mínimo mensal, ainda que o valor de cada hora trabalhada permaneça legalmente preservado. Também precisam explicar como pretendem impedir que a suposta liberdade de escolha se transforme em imposição econômica, obrigando milhões de pessoas a acumular empregos precários para conseguir sobreviver.

No fundo, a pergunta é bastante simples: a modernização prometida por Flávio Bolsonaro pretende melhorar a vida de quem trabalha ou apenas baratear a mão de obra para quem contrata? Se a resposta for a segunda alternativa, estaremos diante de mais uma tentativa de apresentar como progresso aquilo que poderá representar um profundo retrocesso social. E, nesse caso, o Brasil não estará importando a prosperidade dos Estados Unidos, mas justamente uma de suas faces mais perversas: a normalização de uma sociedade na qual ter emprego já não significa necessariamente ter condições dignas de sobrevivência.

Voltei ao Instagram, mas até quando a Meta quiser: a falsa democratização da informação pelas big techs

Entre denúncias bolsonaristas, labirintos de verificação e exigências de reconhecimento facial, o bloqueio da minha conta expõe o poder arbitrário das plataformas digitais sobre a liberdade de expressão

Na manhã deste sábado (10/10), relatei aqui no Blog do Pedlowski o bloqueio da minha conta oficial no Instagram, que já acumulava 5.128 publicações e 1.997 seguidores. O bloqueio ocorreu após uma onda de ataques e denúncias de apoiadores de Flávio Bolsonaro contra uma publicação em que apresentava propostas e declarações associadas à sua candidatura presidencial. A Meta justificou a restrição alegando estar protegendo minha conta contra uma possível invasão. Não tenho como comprovar que as denúncias tenham provocado diretamente o bloqueio, mas a sequência dos acontecimentos é suficientemente preocupante para merecer atenção.

O primeiro registro público que fiz do problema ocorreu às 8h55. Às 10h55, voltei ao assunto para denunciar o que considerava uma grave ameaça à minha liberdade de expressão. Finalmente, às 12h30, já estava solicitando uma imagem para anunciar o restabelecimento do acesso. Foram, portanto, pelo menos 3 horas e 35 minutos entre meu primeiro relato e a comunicação da recuperação, embora as dificuldades tenham começado antes disso. Nesse intervalo, enfrentei um verdadeiro labirinto digital, sendo empurrado de uma etapa de verificação para outra, entre mensagens de e-mail, códigos de acesso e sucessivas tentativas de reconhecimento facial. Em vez de resolver o problema, os procedimentos frequentemente me devolviam ao ponto de partida, sem qualquer possibilidade efetiva de diálogo com um responsável humano.

A exigência de reconhecimento facial merece atenção especial. Para recuperar uma conta que já era minha, fui levado a fornecer repetidamente informações biométricas extremamente sensíveis. Quem garante que esses dados serão utilizados exclusivamente para verificar minha identidade? A Meta possui políticas declaradas de proteção e exclusão dessas informações, mas isso não equivale a oferecer ao usuário garantias independentes e verificáveis sobre sua destinação final. A própria Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) estabelece proteção especial aos dados biométricos. Não estou afirmando que minhas informações tenham sido utilizadas indevidamente, mas questionando a falta de transparência e a assimetria de poder que permite a uma empresa exigir dados tão sensíveis como condição prática para devolver o acesso a uma conta.

O episódio ganha uma dimensão política ainda mais inquietante diante das denúncias feitas pela campanha de Lula sobre restrições à circulação e ao impulsionamento de seus conteúdos nas plataformas da Meta, em contraste com o alegado favorecimento de Flávio Bolsonaro. A empresa nega qualquer favorecimento eleitoral, e as denúncias ainda precisam ser devidamente apuradas. Entretanto, a combinação entre dificuldades enfrentadas por uma campanha presidencial e episódios como o meu levanta questões legítimas sobre o funcionamento dos mecanismos de moderação e distribuição de conteúdos políticos. Não se trata de afirmar que existe uma conspiração comprovada, mas de exigir transparência sobre processos que podem interferir diretamente na disputa eleitoral.

Há uma ironia particular no meu caso. Não sou um apoiador incondicional de Lula. Ao longo de seu terceiro mandato, publiquei críticas contundentes às suas políticas econômica e ambiental, especialmente à continuidade da expansão petrolífera em plena crise climática. Minha decisão de votar nele no segundo turno resulta de uma avaliação programática e da rejeição às propostas regressivas e ao negacionismo científico associados ao bolsonarismo. Entretanto, aparentemente, para determinados setores da extrema-direita, basta não aderir ao seu projeto político para se tornar alvo de ataques e tentativas de silenciamento. E não deixa de ser curioso que a acusação de fake news seja utilizada por setores políticos cuja ascensão esteve profundamente associada à disseminação de desinformação.

Tudo isso nos remete à grande promessa que acompanhou a expansão das redes sociais: a democratização da informação. Durante anos, as big techs venderam a ideia de que qualquer cidadão poderia produzir conteúdos, alcançar grandes audiências e disputar narrativas antes monopolizadas pelos meios tradicionais de comunicação. O que essa promessa escondia era que os novos espaços públicos digitais seriam controlados por corporações privadas, capazes de decidir unilateralmente quem pode falar, quais conteúdos terão visibilidade e quem será condenado à invisibilidade algorítmica. A concentração do poder comunicacional não desapareceu; apenas mudou de mãos, tornando-se ainda mais opaca e difícil de fiscalizar.

Talvez o problema não seja simplesmente uma promessa comercial não cumprida, mas algo mais profundo: um produto intrinsecamente comprometido por seu próprio modelo de negócios. Afinal, plataformas que transformam nossos dados, nossa atenção e nossas interações em mercadorias dificilmente podem ser consideradas espaços plenamente democráticos. Isso não significa defender redes sociais sem regras, mas exigir mecanismos transparentes de moderação, proteção efetiva dos dados pessoais, direito de contestação e fiscalização pública independente. Sem essas condições, a liberdade de expressão continuará subordinada aos interesses de empresas que não prestam contas democraticamente à sociedade.

Voltei ao Instagram, agora para ficar — até quando a Meta quiser, evidentemente. Afinal, minha permanência na plataforma não depende apenas da minha vontade ou do meu direito constitucional à liberdade de expressão, mas também das decisões de uma corporação privada que pode, a qualquer momento, fechar novamente as portas. Volto ainda mais convencido de que enfrentar o poder desmedido das big techs é uma exigência democrática. Porque, se até o direito de permanecer em uma rede social é uma concessão precária de seus proprietários, talvez a tão prometida democratização da informação não passe de uma liberdade com prazo de validade definido pelos donos da plataforma.