No alvorecer de 2025, Wladimir mostra sua cara “malvadona”, enquanto o céu ameaça cair sobre nossas cabeças

Um analista sábio das coisas da pobre/rica cidade de Campos dos Goytacazes, me alertou ao longo do segundo semestre de 2024 que a coisa andava feia nos cofres da prefeitura comandada por Wladimir Garotinho e que o “bicho ia pegar em 2025”.  Como conheço esse analista desde que cheguei em Campos, nunca duvidei do alerta, mesmo com toda a pujança que eu via pelas ruas e avenidas da planície onde os Goytacazes um dia correram livres.

Eis que nas primeiras horas deste novo ano, o prefeito Wladimir Garotinho desatou um daqueles pacotes de maldades de deixar roxo de inveja o mais neoliberal dos governantes. Primeiro escolheu as vítimas de sempre, qual seja, os servidores públicos municipais, das quais retirou parte dos parcos direitos que ainda lhes restam após mais de três décadas de arrocho neoliberal, mas também atacou os bolsos da população que ainda consegue pagar o IPTU.  De quebra, nem se deu ao trabalho de fingir vetar as demandas por mais lucros da concessionária “Águas do Paraíba”, e tascou mais um reajuste inicial em uma tarifa que já é reconhecidamente uma das (senão a mais) salgadas do nosso país.

Mas enquanto assistimos a esse terror de horrores fiscal, os munícipes não estão nem tendo tempo para reclamar, já que chuvas torrenciais estão trazendo uma mistura particularmente intensa de raios e gelo. Como eu venho chamando atenção nos últimos 4 anos, Campos dos Goytacazes (como a imensa maioria das cidades brasileiras) continua totalmente inerte em relação à adaptação ao processo de mudanças climáticas. Com isso, o agravamento da crise climática que é vista em todo o planeta nos coloca diante de um precipício sob os olhares plácidos dos governantes, Wladimir Garotinho incluso.

Chuva forte e granizo marca início de semana em Campos dos Goytacazes - Vídeo

Obviamente que Wladimir não é um caso isolado de cegueira climática, pois raros são os prefeitos que estão fazendo alguma coisa para iniciar o urgente e necessário processo de adaptação climática. O problema é que, dada a inexistência de uma polítca municipal de adaptação, e o aperto fiscal em curso, certamente continuaremos vendo a canoa climática passar. Alguns poderão até achar bom, pois canoas serão cada vez mais necessárias até nas áreas com metro quadrado caro, o problema é que os desprovidos de políticas sociais cortadas pela tesoura ávida de Wladimir vão certamente sentir as consequências. Apenas para questões de reflexão, qual será o orçamento deixado para a Secretaria Municipal de Defesa Civil e para a sub-secretaria de Meio Ambiente?

O balanço desta ópera bufa é claro: para manter os contentes de sempre ainda mais contentes, a conta está sendo jogada nas contas de quem sempre arca com a alegria de uma minoria.  Mas como um eterno otimista, eu tenho a dizer que pelo menos agora, Wladimir rasgou a fantasia que o catapulpou a um segundo mandato com relativa facilidade. E como eu já disse antes aqui mesmo neste blog, agora ele será comparado consigo mesmo, e é aí que o bicho vai pegar.

O problema é que em nosso caso, nem correr para as montanhas é possível. Talvez dessa inescapável realidade surja, finalmente, algum tipo de reação política à aplicação dessas medidas anti-pobre com as quais fomos brindados, enquanto o céu ameaça literalmente cair sobre nossas cabeças.

A gravidade do poder ou o poder da gravidade

mesa diretora

Por Douglas Barreto da Mata

Assisti  à eleição da Mesa Diretora da Câmara Municipal de Campos dos Goytacazes, e a subsequente posse do prefeito e vice-prefeito reeleitos. Uma votação expressiva para a composição da Mesa nesse biênio, para a presidência, vice-presidência, secretaria e etc.

Com algumas pequenas diferenças entre um ou outro cargo, que são citados um por vez, e nominalmente eleitos, é possível afirmar que 22 dos vereadores votaram no candidato indicado pelo prefeito Wladimir Garotinho.

Não deixa de ser relevante, considerando que em 2021, apesar da eleição do aliado Fábio Ribeiro, o atual prefeito tentou antecipar a eleição do biênio 2023/2024 e perdeu para o líder da oposição Marquinho Bacelar. O resto foi história, e seguiu-se uma série de turbulências, com destaque para o impedimento da votação da LOA 2024.

Ali foi o ponto de virada do prefeito, que não só contornou o problema como recuperou a maioria parlamentar. É o poder da gravidade.

Vereadores são cargos muito relevantes, mas que nessa última legislatura, em Campos dos Goytacazes, se resumiram às questões menores, e hoje é certo que a oposição ao atual prefeito e seu grupo saíram menores do processo que entraram, mesmo como os quase 70 mil votos da candidata da oposição para o cargo de prefeita.

Não é acidental que o ex-Presidente da Câmara, biênio 2023/2024, tenha ficado bem abaixo da votação esperada, ainda mais em se tratando do irmão do Presidente da Alerj.

Sem demérito para nenhum dos que foram os mais votados, eles não eram favoritos ou figuras principais do jogo político até outubro de 2024.

Em circunstâncias como essa, quando parlamentares reduzem sua legitimidade, deixando a impressão à população de que agem para satisfação de demandas imediatistas, o Poder Executivo exerce todo seu poder de gravidade para atrair as forças políticas que, aparentemente, lhe oferecem obstáculos…

Foi exatamente essa receita, seguida por Wladimir Garotinho, e que se consumou, por completo, na eleição da Mesa Diretora 2025/2026, aumentando o tamanho de sua base para 22 vereadores, 3 a mais que elegeu em outubro último.Quem viu os 22 votos consagrados não deve se enganar pelas aparências.

O que estava em jogo ali era uma disputa dramática, que dá dimensão da gravidade do poder.

A possibilidade de uma chapa alternativa bem sucedida, ainda que no campo político governista, poderia deflagrar não só o ressurgimento da oposição, mas também um pacote de dificuldades no relacionamento Legislativo e Executivo, em um momento sensível para um governo que deve enfrentar uma transição em 2026, caso o atual prefeito se afaste para candidaturas majoritárias.

A verdade é que Wladimir Garotinho demonstrou, gostemos dele ou não, habilidade e maturidade para articular a eleição de Fred Rangel, passando um rolo compressor na oposição, ou melhor dizendo, do que restou dela.

O atual prefeito percebeu que o mais sutil cheiro de sangue na água precipitaria um ataque dos tubarões com os quais compartilha a piscina. Não houve chance para tanto…

Porém, como ensinou Winston Churchill, “a política e a guerra são idênticas, porém, na política morremos e revivemos várias vezes.” Wladimir ganhou tempo para montar seu governo, estabelecer espaço para quem foi leal e para os “cristãos novos”, retirar de quem não foi, e perdoar quem, mesmo sendo recalcitrante, merece uma segunda chance.

‘Irônico’: aumento do nível do mar causado pelo clima inundará grandes portos de petróleo, mostra estudo

Portos, incluindo os da Arábia Saudita e dos EUA, devem ser seriamente danificados por um metro de elevação do nível do mar

porto saudita

Por Damian Carrington para o “The Guardian”

A elevação do nível do mar causada pela crise climática sobrecarregará muitos dos maiores portos petrolíferos do mundo, indica uma análise.

Cientistas disseram que a ameaça era irônica, pois a queima de combustíveis fósseis causa aquecimento global. Eles disseram que reduzir as emissões mudando para energia renovável interromperia o aquecimento global e forneceria energia mais confiável.

Treze dos portos com o maior tráfego de superpetroleiros serão seriamente danificados por apenas 1 metro de elevação do nível do mar, descobriu a análise. Os pesquisadores disseram que dois portos baixos na Arábia Saudita – Ras Tanura e Yanbu – eram particularmente vulneráveis. Ambos são operados pela Aramco, a empresa estatal de petróleo saudita, e 98% das exportações de petróleo do país saem por esses portos.

Os portos petrolíferos de Houston e Galveston, nos EUA, o maior produtor de petróleo do mundo, também estão na lista, assim como portos nos Emirados Árabes Unidos, China, Cingapura e Holanda.

ciência mais recente publicada pela International Cryosphere Climate Initiative (ICCI) mostra que 1 metro de elevação do nível do mar é agora inevitável dentro de um século ou mais e pode ocorrer já em 2070 se as camadas de gelo entrarem em colapso e as emissões não forem contidas. Uma elevação ainda mais catastrófica de 3 metros é provavelmente inevitável no próximo milênio ou dois e pode ocorrer já no início dos anos 2100.

A elevação do nível do mar já está causando problemas ao redor do mundo, mesmo antes de ultrapassar os desenvolvimentos costeiros. A elevação até o momento significa que as tempestades são maiores e significativamente mais propensas a causar inundações costeiras, enquanto a infiltração de água salgada em terras costeiras pode corroer as fundações, observam os pesquisadores. Cortar as emissões drasticamente não apenas desaceleraria a taxa de elevação do nível do mar, mas também limitaria a elevação final.

Pam Pearson, diretora do ICCI, disse: “É irônico que esses portos de petroleiros estejam abaixo de 1 metro de elevação do nível do mar e precisem ficar de olho nessas taxas potencialmente maiores de elevação do nível do mar, que vêm do uso contínuo de combustíveis fósseis.”

A elevação do nível do mar é o impacto mais profundo de longo prazo da crise climática, redesenhando o mapa do mundo e afetando muitas cidades importantes, de Nova York a Xangai. Mas Pearson disse que os interesses de curto prazo do governo e das empresas significavam que estava sendo negligenciado. “Informações básicas [de avaliações científicas da elevação do nível do mar] não parecem ter chegado à consciência dos governos”, disse ela.

James Kirkham, o principal consultor científico do ICCI, disse: “Recusar-se a fechar as torneiras do petróleo significa manter as torneiras abertas para o aumento do nível do mar. O derretimento acelerado do gelo e a expansão do oceano já fizeram com que a taxa de aumento do nível do mar dobrasse nos últimos 30 anos. A menos que os líderes redobrem a aposta na transição para longe dos combustíveis fósseis, os terríveis impactos do aumento do nível do mar só aumentarão ainda mais – afetando todos os países com litoral, incluindo aqueles que continuam a obstruir os esforços crescentes de descarbonização.”

A Aramco não quis comentar.

A Arábia Saudita foi acusada de obstrucionismo em uma série de cúpulas globais recentes, incluindo táticas de “ bola de demolição ” na assembleia climática Cop29, e de bloquear o progresso nas negociações sobre um tratado de plásticos e sobre o combate à seca e à desertificação. As últimas negociações foram realizadas em Riad e terminaram sem acordo, com os sauditas se recusando a incluir qualquer referência ao clima no acordo.

A nova análise foi baseada no trabalho de maio , no qual pesquisadores descobriram que 12 dos 15 portos de petróleo com o maior tráfego de petroleiros eram vulneráveis ​​à elevação do nível do mar. Mapas de elevação do nível do mar do Climate Central e do GoogleMaps foram usados ​​para mostrar que uma elevação de 1 metro danificaria molhes, instalações de armazenamento de petróleo, refinarias e outras infraestruturas.

A nova análise adicionou o segundo porto saudita, Yanbu, que também está em alto risco com uma elevação de 1 metro. A equipe usou dados de exportação de petróleo da Bloomberg para estimar o volume e o valor do petróleo importado e exportado dos portos. Juntos, Ras Tanura e Yanbu exportaram US$ 214 bilhões (£ 171 bilhões) em petróleo em 2023. No total, os 13 portos foram responsáveis ​​por cerca de 20% das exportações globais de petróleo em 2023.

Murray Worthy, da Zero Carbon Analytics , que faz parte da equipe, disse: “Esta análise mostra que depender de combustíveis fósseis em um mundo em aquecimento é um caminho para o desastre, não para a segurança energética. Os países enfrentam uma escolha: continuar com combustíveis fósseis e arriscar interrupções no fornecimento, pois a elevação dos mares inunda portos e terminais, ou fazer a transição para energias renováveis ​​domésticas seguras e sustentáveis.”

Esforços poderiam ser feitos para construir defesas contra inundações, o que seria muito custoso, mas Worthy disse: “No final das contas, é uma batalha perdida. Você tem que continuar construindo esses muros de contenção mais altos ao longo do tempo.”


Fonte: The Guardian 

Desmatamento e degradação tem sexto mês consecutivo de aumento na Amazônia, aponta Imazon

Novembro teve alta de 41% nas áreas desmatadas e 84% nas degradadas

Monitoring of Deforestation and Fires in the Amazon
Monitoramento de Desmatamento e Fogo na Amazônia em julho de 2024

Sobrevoo no sul do Amazonas e no norte de Rondônia para monitorar o desmatamento e queimadas em 2024. Imagem: Marizilda Cruppe / Greenpeace

Por Imazon

A Amazônia teve em novembro o sexto mês consecutivo de aumento tanto no desmatamento, que é a remoção completa da vegetação, quanto na degradação florestal, que é o dano causado pelo fogo ou pela extração madeireira. Segundo o monitoramento por imagens de satélite Imazon, as áreas desmatadas passaram de 116 km² em novembro de 2023 para 164 km² no mesmo mês neste ano, uma alta de 41%. Já a as florestas degradadas passaram de 1.566 km² para 2.882 km², 84% a mais.

Com isso, o desmatamento acumulado de janeiro a novembro de 2024 chegou aos 3.654 km², apenas 7% a menos do que no mesmo período do ano passado. Além disso, foi a 7ª maior área desde 2008, quando o Imazon implementou seu sistema de monitoramento.

Captura de tela 2024 12 18 135732 - Desmatamento e degradação têm sexto mês consecutivo de aumento na Amazônia

Enquanto isso, por causa do aumento expressivo nas queimadas, a degradação acumulada de janeiro a novembro de 2024 chegou aos 35.751 km², área sete vezes maior do que a registrada no mesmo período do ano anterior e a pior desde 2009. Já em comparação com o desmatamento registrado no período, a degradação foi quase 10 vezes maior.

Captura de tela 2024 12 18 135821 - Desmatamento e degradação têm sexto mês consecutivo de aumento na Amazônia

“Esses aumentos consectivos mostram a necessidade de ações de prevenção mais efetivas tanto em relação ao desmatamento quanto à degradação. E principalmente a partir de maio, quando as chuvas na Amazônia deverão reduzir”, alerta o pesquisador do Imazon Carlos Souza Jr.

Pará lidera desmatamento e degradação

Sede da próxima Conferência do Clima das Nações Unidas, a COP 30, o Pará liderou tanto o raking de desmatamento quanto o de degradação em novembro. O estado desmatou 95 km² de florestas (58% do detectado na Amazônia) e degradou 1.118 km² (39% do registrado na região).

Dos 10 municípios com as maiores áreas desmatadas em novembro, nove ficam no Pará: Uruará, Medicilândia, Pacajá, Portel, Prainha, Amajari, Placas, Nova Canaã do Norte, Porto de Moz e Monte Alegre. Além disso, o estado também tem nove assentamentos entre os 10 mais destruídos: Nova União, Surubim, Ouro Branco, Paraíso do Norte, Serra Azul, Paraíso, Ademir Fredericce, Renascer II e São Sebastião do Tutuí.

Estado Desmatamento em novembro 2023 (km²) Desmatamento em novembro 2024 (km²) Variação
Pará 37 95 157%
Mato Grosso 18 23 28%
Roraima 19 21 11%
Amazonas 14 8 -43%
Maranhão 9 7 -22%
Acre 10 6 -40%
Rondônia 7 2 -71%
Amapá 1
Tocantins 2 1 -50%
Amazônia 116 164 41%

Mato Grosso fica em segundo

Em segundo lugar nos rankings de desmatamento e de degradação em novembro está Mato Grosso. O estado desmatou 23 km² de florestas (14% do detectado na Amazônia) e degradou 737 km² (26% do registrado na região). Em solo matogrossense, o destaque negativo foi para o município de Nova Canaã do Norte, o único fora do Pará no ranking dos 10 com as maiores áreas desmatadas. 

Estado Degradação em
novembro 2023 (km²)
Degradação em novembro 2024 (km²) Variação
Pará 1.093 1.118 2%
Mato Grosso 94 737 684%
Rondônia 67 545 713%
Maranhão 188 272 45%
Amazonas 121 152 26%
Amapá 1 30 2.900%
Tocantins 25
Roraima 2
Acre 2 1 -50%
Amazônia 1.566 2.882 84%

Rondônia tem quatro UCs entre as 10 mais degradadas

Especificamente em relação à degradação dentro de unidades de conservação, o destaque negativo foi para Rondônia, que possui quatro dos 10 territórios mais degradados em novembro nessa categoria. Juntos, eles somaram 274 km² de florestas degradadas, o que equivale a quase mil campos de futebol por dia.

Unidade de Conservação Estado Degradação em novembro 2024 (km²)
Resex do Rio Cautário RO 130
Parna Serra da Cutia RO 114
Rebio do Gurupi MA 42
Resex do Rio Pacaás Novos RO 22
Resex Riozinho do Anfrísio PA 20
Resex do Rio Cajari AP 18
FES do Paru PA 15
Resex Verde para Sempre PA 9
Resex Barreiro das Antas RO 8
APA Upaon-Açu/Miritiba/Alto Preguiças MA 8

Terra Indígena Alto Rio Guamá foi a mais degradada

Já entre as terras indígenas, a mais degradada em novembro foi a Alto Rio Guamá, no Pará. Somente esse território teve 192 km² afetados pelo dano ambiental, o equivalente a 640 campos de futebol por dia.

Terra Indígena Estado Degradação em novembro 2024 (km²)
Alto Rio Guamá PA 192
Menkragnoti PA/MT 128
Pacaás-Novas RO 111
Rio Guaporé RO 101
Alto Turiaçu MA 98
Aripuanã RO/MT 89
Nambiquara MT 31
Apinayé TO 25
Araribóia MA 24
Kayabi PA/MT 23

Veja os dados de novembro aqui
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Saiba como funciona o sistema aqui


Fonte: Imazon

 

SUS gasta R$ 12 bilhões por ano para tratar doenças causadas por agrotóxicos

Estudo revelou que exposição à substância encontrada em centenas de produtos vendidos no país pode desencadear doenças neurodegenerativas

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Por Camila Bezerra para o Jornal GGN

Um estudo da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) apontou que o Sistema Único de Saúde (SUS) gasta, aproximadamente, R$ 12 bilhões por ano para tratar doenças causadas pela exposição a agrotóxicos. 

Em contrapartida, o governo federal torna o prejuízo aos cofres públicos ainda maior ao conceder R$ 10 bilhões em isenções fiscais anualmente para tais indústrias.  

“Estamos discutindo a reforma tributária. Os agrotóxicos têm bilhões de reais em isenção todos os anos. Quando olhamos a relação do que é isento e dos gastos para tratar essas pessoas, podemos até questionar a história de que o agronegócio é líder do Produto Interno Bruto [PIB]. Sabemos que, se botarmos na conta os problemas, eles vão ficar devendo”, afirma  Karen Friedrich,  servidora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e integrante da Abrasco.

A exposição ao glifosato, usada em centenas de produtos vendidos no país, mesmo em curto prazo, pode causar danos permanentes, como o acúmulo no cérebro. Consequentemente, o usada em centenas de produtos vendidos glifosato pode desencadear processos inflamatórios associados a doenças neurodegenerativas. 

Pesquisadores chamam atenção ainda para o risco que a pulverização aérea, tendo em vista que se trata da prática mais nociva em diversos fatores, pois requer controle da quantidade de agrotóxico dispensada, do vento e temperatura. 

“As condições climáticas do país são muito diversas e mais ainda com o momento de crise e de colapso climático. Então, garantir a segurança é algo antiético. Não é possível dizer que é 100% seguro quando não é. Os mais atingidos são os trabalhadores da agricultura, suas famílias, quem mora nas áreas do entorno e povos e comunidades tradicionais, inclusive de maneira proposital. Além de tudo, o agrotóxico no Brasil também é usado como arma química”, continua a servidora. 

Além da reforma tributária, que assegurou 60% de redução de impostos para agrotóxicos registrados no Ministério da Agricultura, Karen Friedrich também observou o atraso no Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara)

Ainda que o Pronara estivesse previsto para 2014, o programa foi adiado e não saiu do papel até hoje. Há a expectativa de que o programa seja anunciado ainda no primeiro semestre do próximo ano.


Fonte: Jornal GGN

Mineração ilegal e seca: uma combinação letal

garimpo ilegalA mineração ilegal de ouro causa danos irreversíveis aos ecossistemas onde ocorre. Crédito da imagem: Polícia Federal Brasileira 

Se o uso do mercúrio na mineração ilegal já causa efeitos devastadores ao meio ambiente e aos seres vivos, um estudo recente identificou um problema ainda mais sério: os níveis do metal disponível no solo podem aumentar em até 70% durante as estações secas.

O estudo , publicado na revista Science of the Total Environment , avaliou o impacto da mineração ilegal de ouro nas reservas de carbono, nitrogênio e mercúrio do solo em quatro biomas brasileiros: Amazônia, Cerrado, Pantanal e Mata Atlântica .

Um bioma é um conjunto de ecossistemas que compartilham clima, flora e fauna.

Matheus Soares, pesquisador da Faculdade de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo e principal autor do estudo, explica ao SciDev.Net que a matéria orgânica do solo, rica em carbono, retém mercúrio e ajuda a prevenir sua propagação.

No entanto, as temperaturas mais elevadas durante as secas aceleram a decomposição desta matéria orgânica, libertando dióxido de carbono para a atmosfera e reduzindo a capacidade do solo de capturar mercúrio. Resultado: O metal altamente tóxico torna-se mais disponível no meio ambiente e mais acessível aos organismos vivos.

As análises realizadas no âmbito da pesquisa indicaram uma redução de 50 por cento nos estoques de carbono do solo nas áreas de mineração em comparação com as áreas de pastagem, utilizadas pelos pesquisadores como referência para comparar os resultados. Esta perda está relacionada com um aumento de 70% na libertação de mercúrio.

No entanto, os resultados do estudo apontam para uma contaminação potencialmente muito maior . Isso ocorre porque os pesquisadores analisaram apenas a camada superior do solo.

“O mercúrio liberado na atmosfera pode percorrer longas distâncias, sendo transportado para áreas onde não há impacto direto da mineração ou de outras atividades que emitem mercúrio.”

Gabriela Arrifano, professora do Laboratório de Farmacologia Molecular da Universidade Federal do Pará, Brasil

“A atenção foi voltada para as primeiras camadas porque geralmente é onde ocorre a interação com o meio ambiente e onde os animais e outros seres vivos têm acesso a elas. Mas se considerarmos o impacto como um todo, estamos a falar de muito mais toneladas de carbono [perdidas] e provavelmente de muito mais quilogramas de mercúrio por hectare nestas áreas”, acrescentou Soares.

Segundo o pesquisador, embora os impactos tenham sido semelhantes nos quatro biomas analisados, a Amazônia e o Pantanal foram mais sensíveis às mudanças, principalmente por registrarem temperaturas mais elevadas.

Para a professora do Laboratório de Farmacologia Molecular da Universidade Federal do Pará (UFPA), Gabriela Arrifano – que não participou do estudo –, o aumento da disponibilidade de mercúrio no período de seca aumenta o impacto das mudanças climáticas .

“Já sabemos, por exemplo, que o aumento da temperatura no planeta fez com que o permafrost [camadas congeladas do solo] descongelasse, o que acaba liberando para o meio ambiente esse mercúrio que estava fixado no solo. O mercúrio liberado na atmosfera pode percorrer longas distâncias, sendo transportado para áreas onde não há impacto direto da mineração ou de outras atividades que emitem mercúrio”, acrescentou Arrifano.

Ameaça às comunidades indígenas

O mercúrio é utilizado na extração ilegal de ouro porque se amalgama com o metal precioso, facilitando sua separação de outros resíduos. O amálgama é aquecido para que o mercúrio evapore, restando apenas o ouro. O gás resultante também é extremamente tóxico.

Na região amazônica, a mineração ilegal é uma ameaça ao meio ambiente e às comunidades indígenas.

Um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), divulgado no início do ano, identificou a presença de mercúrio nas 293 amostras de cabelos e mucosa oral coletadas de indígenas da região do Alto Rio Mucajaí, na Terra Indígena Yanomami, estado de Roraima. O material foi coletado de homens e mulheres adultos, além de crianças e idosos.

Os pesquisadores também analisaram 47 exemplares de peixes, todos apresentando algum grau de contaminação por mercúrio .

Da mesma forma, as projeções de outro estudo , publicado recentemente na revista Toxics , indicam que, em média, 27% das 8.259 sub-bacias dos rios amazônicos analisadas estariam em descumprimento da legislação brasileira, que estabelece limites para a concentração de mercúrio nos alimentos. Nas bacias dos rios Branco e Tapajós esse número sobe para 52%.

“Os ambientes característicos do bioma amazônico, como os igapós , reúnem condições que favorecem a transformação do mercúrio em sua forma orgânica, ou do metilmercúrio, a forma mais tóxica do poluente”, diz o analista ambiental Vitor Domingues, um dos coautores. do estudo de tóxicos .

As florestas pantanosas da Amazônia sazonalmente inundadas por água preta e doce são chamadas de Igapó.

Segundo o analista, o metilmercúrio se acumula na cadeia alimentar, principalmente nos peixes, que são utilizados como fonte de alimento por animais e comunidades da região. A modelagem indica que quase metade das comunidades indígenas nas sub-bacias dos rios Mucajaí, Uraricoera e Branco estariam em risco muito elevado de contaminação, considerando os efeitos do mercúrio na saúde humana .

“O peixe é a principal fonte de proteína das comunidades tradicionais amazônicas, que apresentam os maiores índices de consumo de pescado do mundo. Portanto, mesmo que as concentrações de mercúrio nos peixes atendam aos padrões do Mercosul, as populações podem estar em risco, considerando as quantidades ingeridas na região”, acrescentou Domingues.

Esse risco alarmante também foi identificado no estudo da Fiocruz, que revelou que a ingestão média de mercúrio superou em três vezes a dose de referência estabelecida pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA).

Ao avaliar as condições de saúde dos indígenas, os pesquisadores observaram que aqueles com níveis mais elevados de mercúrio nas amostras de cabelo apresentavam déficits cognitivos e neurológicos. A exposição a metais também tem sido associada a doenças cardiovasculares e problemas de desenvolvimento em crianças.


Fonte: SciDev.Net

‘Todos os rios do Brasil estão contaminados’, alerta pesquisador sobre uso de agrotóxicos

Estudo divulgado nesta semana pelo governo federal mostra que rio Tocantins contém substância proibida na Europa

tractor sprayAtualmente, mais de 100 agrotóxicos diferentes usam o glifosato em sua composição – PABLO AHARONIAN / AFP

Por Lucas Weber para o Brasil de Fato

Neste final de semana, o governo  federal divulgou o resultado da análise sobre a qualidade do rio Tocantins, após a ameaça de contaminação da água por agrotóxicos, por causa da queda de caminhões que transportavam herbicidas e ácido sulfúrico.

O estudo trouxe alívio ao revelar que os tonéis onde as substâncias estavam armazenadas não se romperam. A tragédia da queda da ponte Juscelino Kubitschek, que ligava Estreito (MA) e Aguiarnópolis (TO), em 22 de agosto, portanto, não contaminou o rio.

Mas os dados do governo mostram que já havia a presença na água de agrotóxicos proibido em diversos países do mundo, incluindo a União Europeia. Foi detectado uma concentração de 0,2 microgramas por litro (µg/L) do herbicida 2,4-D, apontado como cancerígeno por agências internacionais, mas amplamente utilizado no Brasil.

“Com as doses, frequências e diversidade de agrotóxicos usados no Brasil, dá para afirmar que todos os rios estão contaminados. Sem nenhuma dúvida. O grau de contaminação é que pode variar”, denuncia Danilo Rheinheimer dos Santos, professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e referência na análise de agrotóxicos em água.

A presença de agrotóxicos na água não é novidade no Brasil. Estudo do ano passado realizado pela Repórter Brasil mostrou que 27 tipos de agrotóxicos foram encontrados na água consumida por parte da população de 210 municípios brasileiros, como São Paulo (SP), Fortaleza (CE) e Campinas (SP).

Os dados surgiram a partir de informações do Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Sisagua), do Ministério da Saúde, com testes feitos em 2022.

O agrotóxico 2,4-D, encontrado no rio Tocantins e considerado “normal” pelo estudo do governo federal, é o mesmo usado como componente do chamado “agente laranja”, um desfolhante químico altamente tóxico, usado pelos Estados Unidos na Guerra do Vietnã. A arma química era utilizada pelas tropas estadunidenses para desmatar florestas e impedir que soldados vietnamitas se escondessem na vegetação.

A análise do rio Tocantins, divulgado nesta sexta-feira (27), aconteceu dias após a queda da ponte que matou 10 pessoas, com outras sete ainda desaparecidas. 


Ponte Juscelino Kubitschek de Oliveira, sobre o Rio Tocantins, que caiu com grande quantidade de agrotóxicos / AFP

No comunicado com os dados, o governo reconhece que “essa concentração de 2,4-D é considerada normal em rios que atravessam áreas agrícolas, como o rio Tocantins, e, por isso, não foram encontrados indícios de contaminação da água por defensivos agrícolas decorrente do acidente na Ponte Juscelino Kubitschek de Oliveira”.

Mas o professor Rheinheimer contesta a conclusão oficial: “A gente só faz, sempre, um questionamento: se fosse os europeus, a água seria imprópria para consumo pois está acima de 0,1 ug/L. Mas somos brasileiros e daí tudo bem”.

“Valemos menos”

O fato de o Brasil ser mais flexível no uso de agrotóxicos que países da União Europeia (UE) é investigado pela pesquisadora Larissa Bombardi, que já recebeu ameaças por após a publicação de estudos que denunciam a situação. Foi ela quem constatou que, dos dez agrotóxicos mais vendidos no Brasil, cinco são proibidos na UE.

“Quando eu olho o fato de que no Brasil o resíduo de glifosato autorizado na água potável é cinco mil vezes maior do que aquele autorizado na União Europeia. Quando eu vejo que o resíduo de malationa no Brasil é 400 vezes maior do que o autorizado na União Europeia, sou obrigada a pensar que, no conjunto das relações internacionais, a população brasileira, latino-americana e africana é tida como sub-humana. Nós valemos menos”, disse ao Brasil de Fato quando lançou o livrAgrotóxicos e Colonialismo Químico, em julho esse ano

“Quando a gente vê por exemplo, casos criminosos de uso de agrotóxicos, vai ver que a substância utilizada foi produzida por justamente por uma dessas empresas sediadas na União Europeia. Fica claro um mecanismo que remete ao período colonial, ou seja, um deslocamento dessa agricultura capitalista, dessa monocultura, que avança sobre áreas de camponeses, de povos originários, utilizando como arma nessa violência dos conflitos fundiários, uma substância que é proibida no território em que ela foi produzida.”

Edição: Rodrigo Durão Coelho


Fonte: Brasil de Fato

Canto das Pedras é um verdadeiro canto da sereia corporativa do Porto do Açu

açu 2014 2023

Processo de erosão na Barra do Açu foi iniciado pela implantação das estruturas de proteção do Porto do Açu: a tristeza de muitos para a alegria de poucos

Uma das características marcantes do chamado “Capitalismo do Choque”  é que não existe destruição que não abra caminho para situações voltadas para gerar lucro. Pois bem, uma das consequências diretas da implantação dos quebra-mares e molhes no Porto do Açu foi a erupção de um desequilíbrio no trânsito de sedimentos no sentido Sul-Norte, pois a implantação dessas estruturas geraram um impedimento no fluxo de ida e vinda dos sedimentos.  Com isso, a localidade de Barra do Açu está sendo ameaçada pela destruição causada pela intrusão das águas marinhas.

Mas a história nao para aí.  É que nas imediações do molhe que foi construído para proteger o Terminal 2 do Porto do Açu está ocorrendo um processo de deposição de areias que alargou a faixa de praia. E aí foi que entrou dinheiro público e a imaginação de algum marqueteiro para estabelecer um novo “point” que recebeu o simpático nome de “Canto das Pedras“, com direito a página oficial na rede Instagram. 

Eu não vou nem elaborar sobre a origem dessa jogada de marketing, mas é preciso dizer que para a sua materialização foi feito uso de dinheiro público como apontou em recente entrevista a um veículo da mídia corporativa local, o secretário municipal de Obras e Serviços de São João da Barra, Alexandre Rosa.

O que Rosa não disse é que enquanto o “Canto das Pedras” faz a alegria de alguns, inclusive de funcionários do próprio Porto do Açu, o processo erosivo segue firme e forte na região da Praia do Açu onde vivem os deserdados das benesses criadas pela implantação do enclave geográfico que opera sem ter que se responsabilizar pelos prejuízos socioambientais que estão sendo criados pela sua existência e funcionamento.

Assim, ainda que se entenda que parte da população use a faixa de areia próxima do molhe do Terminal 2 do Porto do Açu, não é aceitável que se esqueça a outra face desta moeda que é a destruição que está ocorrendo na Barra do Açu. Afinal, é o canto da praia nada mais é uma forma mal disfarçada de canto de sereia das corporações que está instaladas no Porto do Açu sob a batuta da Prumo Logística.

 

Crise ambiental no rio Tocantins: 12 toneladas de agrotóxicos foram derramadas com queda de ponte

Entre os produtos químicos derramados em queda de ponte, o 2,4-D tem fácil propagação pela água

ponte estreitoPor Rodrigo Chagas para o Brasil de Fato 

queda da Ponte Juscelino Kubitschek de Oliveira, que conectava os municípios de Estreito (MA) e Aguiarnópolis (TO), além dos impactos socioeconômicos, pode desencadear uma grave crise ambiental. No domingo (22), três caminhões carregados com agrotóxicos e ácido sulfúrico caíram no rio Tocantins, espalhando 25,2 mil litros de agrotóxicos e 76 toneladas de ácido, segundo a Agência Nacional de Águas (ANA).

Entre os produtos derramados, estavam quase nove toneladas do herbicida 2,4-D, permitido no Brasil, mas proibido na Dinamarca, em Moçambique e no Vietnã devido à sua toxicidade. Também já foi proibido na Austrália e no Canadá. Na União Europeia, há um processo em curso para o banimento definitivo do composto.

O 2,4-D é o mesmo usado como componente do chamado “agente laranja”, um desfolhante químico altamente tóxico que também foi usado pelos Estados Unidos na Guerra do Vietnã. A arma química era usada pelas tropas estadunidenses para desmatar florestas e impedir que soldados vietnamitas se escondessem na vegetação.

Danilo Rheinheimer dos Santos, professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e referência na análise de agrotóxicos em água, alerta que os impactos ambientais e à saúde são profundos e duradouros. “Essa conversa de que os agrotóxicos são facilmente biodegradáveis não é verdadeira. Eles têm alta permanência, especialmente na água”, explica.

Segundo ele, mesmo que medições posteriores não constatem mais a presença dos produtos na água, não é possível garantir que o ambiente não estará contaminado. “Produtos como o 2,4-D e o picloram impregnam nas rochas e nos biofilmes epilíticos do fundo do rio, contaminando tudo por anos.” 

“Os agrotóxicos não desaparecem simplesmente à medida que o rio segue seu curso. Eles se diluem, mas deixam um rastro. Mesmo 40 ou 50 quilômetros rio abaixo, as moléculas podem estar presentes, contaminando a fauna aquática e os organismos bentônicos, como moluscos e peixes”, detalha Rheinheimer.

O professor reforça que a contaminação pode alcançar toda a cadeia alimentar, com riscos para a saúde humana. “Bactérias, algas e peixes que não morrerem agora ficarão contaminados, passando esse impacto para toda a cadeia trófica. Isso é um desastre terrível,” conclui.

O peso do 2,4-D: um veneno de longo prazo

Entre os produtos químicos derramados no acidente, o 2,4-D chama atenção por seus efeitos nocivos. Classificado como um “gatilho hormonal”, o herbicida é associado a casos de câncer e proibido na União Europeia.

“Com o derramamento de quase 9 mil quilos desse veneno, os efeitos não serão localizados ou temporários. Estamos falando de algo que vai se impregnar nos sedimentos e permanecer ativo por muitos anos, talvez décadas,” afirma Leonardo Melgarejo, engenheiro agrônomo e membro da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e Pela Vida.

Melgarejo reforça que a desestruturação causada por esse tipo de contaminação não aparece de imediato. “Os problemas de saúde, como casos de câncer, podem surgir décadas depois, mas suas raízes estarão neste desastre e na irresponsabilidade que permitiu a fabricação e o transporte desse veneno no Brasil,” denuncia.

Outro produto transportado era o acetamiprid, inseticida da classe dos neonicotinóides. Ele é amplamente reconhecido por seu impacto devastador sobre abelhas e aves. Já o picloram, outro agrotóxico envolvido, será proibido na União Europeia a partir de 2028, devido à sua toxicidade persistente e riscos ambientais.

O acidente ocorrido na ponte Juscelino Kubitschek onde dois caminhões  carregados de agrotóxico e ácido sulfúrico caíram sob o rio fez com que 19  cidades ficassem impedidas de consumir água do rio

Detalhes da carga derramada

Os pesticidas transportados nos caminhões incluíam:

  • Carnadine (acetampirid): inseticida neonicotinóide, com 500 litros transportados, totalizando 100 kg de princípio ativo.

  • Pique (picloram): herbicida, com 2.700 litros transportados, totalizando 1.048 kg de princípio ativo.

  • Tractor (picloram): herbicida, com 22.080 litros transportados, totalizando 2.274 kg de princípio ativo.

  • Tractor (2,4-D): herbicida hormonal, com 22.080 litros transportados, totalizando 8.964 kg de princípio ativo.

O total transportado chegou a 12.386 kg de princípios ativos altamente tóxicos.

Medidas emergenciais e alertas à população

Por precaução, o governo do Maranhão recomendou a suspensão da captação de água nos municípios banhados pelo rio Tocantins. As prefeituras de Estreito (MA) e Aguiarnópolis (TO) emitiram alertas para que a população evite contato com a água devido ao risco de queimaduras químicas e intoxicação.

A Agência Nacional de Águas (ANA) iniciou coletas em cinco pontos do rio para monitorar os parâmetros de qualidade da água.

No entanto, segundo Heinheimer, as medidas emergenciais podem não ser suficientes. “Mesmo que o monitoramento aponte baixos níveis de contaminação agora, os resíduos estarão impregnados nos sedimentos, e os impactos continuarão a surgir ao longo do tempo,” alerta.

Queda de ponte entre Tocantins e Maranhão tem relação com impacto do agronegócio na região, diz pesquisadora

A tragédia evidenciou problemas estruturais históricos denunciados pela população local. Construída na década de 1960, a Ponte Juscelino Kubitschek está localizada na região do Matopiba, epicentro do crescimento do agronegócio no Brasil. Nas últimas décadas, a produção de commodities como soja e milho transformou a paisagem da região e sobrecarregou a infraestrutura de transporte.

“O desabamento da ponte é um marcador de alerta de que precisamos de fiscalização e comprometimento com essas infraestruturas. Isso também está diretamente relacionado ao avanço voraz do agronegócio, que impulsiona o transporte pesado e agrava os impactos ambientais,” destaca Gilvânia Ferreira, doutoranda em Estudos Sociais Agrários.

Nos últimos dez anos, a produção de grãos no Matopiba aumentou 92%, de 18 milhões de toneladas na safra 2013/14 para 35 milhões atualmente. Os principais produtos são soja, milho e algodão. Um estudo do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), mostra que a escalada vai continuar e pode chegar a 37% nos próximos 10 anos.

A professora ressalta que os danos não são apenas econômicos, mas sociais e ambientais. “Essa ponte simboliza a destruição de territórios e modos de vida. O avanço da monocultura prejudica a produção familiar, contamina as águas e coloca em risco a saúde humana e dos animais,” explica.

Enquanto o Ministério Público e o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes apuram as causas do acidente, o Ministro dos Transportes, Renan Filho, prometeu a reconstrução da ponte até 2025. Porém, especialistas e moradores alertam que, sem mudanças estruturais e no modelo de produção agrícola predominante, tragédias como esta continuarão a ocorrer.

Edição: Geisa Marques


Fonte: Brasil de Fato

Rios secando em meio ao avanço do desmatamento sinalizam para grave crise hídrica no Brasil

crise hidrica

Quando se olha para a situação geral dos rios brasileiros, a avaliação está longe de ser boa. É que tudo indica que estamos testemunhando um processo de ressecamento nas bacias ligadas às florestas da Amazônia e do Cerrado.  E o pior é que a voracidade do latifúndio agro-exportador por mais desmatamento está sendo alimentada por um conjuntov de projetos de logística orientados para a pavimentação de estradas como a BR-319 e a construção de ferrovias como a Ferrogrão

Para piorar esse cenário em diferentes estados e municípios o cenário de 2024 foi marcado pela aprovação de uma série de leis para fragilizar leis ambientais com o único objetivo de facilitar ainda mais a ação destruidora das monoculturas, mesmo em estados como o Rio Grande do Sul que foi devastado por eventos extremos de chuvas.  

Um componente extra dessa tempestade perfeita é o aumento da poluição nos rios, especialmente pelo lançado de substâncias tóxicas associadas às atividades de mineração e das monoculturas.  As evidências científicas já apontam para o aumento da carga de metais pesados (especialmente a do mercúrio liberada pelo garimpo de ouro) e de agrotóxicos em grandes rios brasileiros.

O que teremos com o somatório desses componentes sinaliza para rios cada vez mais secos e poluídos em meio a um crescente aumento da população urbana.  Eu não me surpreenderia se já em 2025 começarmos a ver uma crise persistente em estados importantes como Rio de Janeiro e São Paulo, especialmente nas suas principais áreas metropolitanas.

O fato inescapável é que estamos na antessala de uma grave crise hídrica e que não se resumirá à oscilações sazonais nas intensidades de precipitação. Por isso, é urgente que se refaça uma profunda reorganização dos mecanismos de controle social do acesso à água. Os atuais comitês de bacias hidrográficas já se mostraram insuficientes para enfrentar uma crise do tamanho que estamos enfrentando. Até porque eles são ferramentas para o gerenciamento privado das águas, e o que está posto vai muito além desse cenário.