O PT do Rio e o de Campos dos Goytacazes: do casamento de interesses à solteirice por rejeição (do eleitorado)

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Lula e Eduardo Paes e a tratativas de um casamento de interesses que colocou o PT do Rio de Janeiro em um buraco muito profundo

Por Douglas Barreto da Mata

Antes que as feministas se irritem, eu vos digo, não se trata de corroborar um arquétipo machista, mas sim de reconhecer que essa era uma categoria (de pessoas) que estavam sujeitas a uma ordem patriarcal, no chamado de “mercado matrimonial”.

Sim, sempre foi costume, que ainda persiste em alguns cantos, a “arrumação” de casamentos, a partir da lógica de conveniências econômicas e sociais (“famílias tradicionais”), onde ao pai, principalmente, cabia decidir qual das filhas iria casar com quem, e quando seria, caso fosse mais de uma.  As moças mais velhas, com grandes diferenças de idade para as irmãs mais novas, eram colocadas como tutoras dessas caçulas, não raro, dividiam com as mães o cuidado da casa, e por isso, quase sempre eram preteridas na ordem do mercado do matrimônio. Como se dizia, de forma ofensiva e jocosa, ficavam para “titias”.

Hoje, algumas mulheres ou não têm essa opção, como as negras e pobres, geralmente “cabeças das famílias”, por abandono de seus parceiros, ou têm a opção (classe média e classe alta) de ficarem sozinhas, e não raro, optam por maternidade solo. 

O PT do Rio, assim como o PT do Brasil, e como não poderia deixar de ser, o de Campos dos Goytacazes, parece que se encaminha para a solteirice por rejeição. Rejeição do eleitor, diga-se.

Vamos ao caso do Rio de Janeiro.  O PT da cidade do Rio se ofereceu (e foi oferecido por Lula), de todos os modos, para Eduardo Paes, e teve nele (Lula, o pai) um intermediário tão insistente que alguns, mais ácidos, diriam que beirou a cafetinagem política.  Há comentários de que essa união também teria a predileção da mãe (Janja), que adora os convescotes e o ambiente tipo Leblon/Gávea, com artistas e socialites que o moço prefeito proporciona. 

O PT do Rio nada conseguiu que já não tivesse, ou seja, uns carguinhos de menor importância na administração municipal carioca, e quem sabe, mais e mais promessas de “casamento futuro”, já que Lula insiste em desidratar o PT do Rio para ceder terreno ao prefeito carioca. 

É como se Lula pagasse o dote ao prefeito carioca Eduardo Paes, mesmo sem ele ter aceitado casar-se com a “noiva”, mas a “moça” fosse mantida como mera serviçal para agradar os favores e desejos do prefeito. Agora, a “noiva”, o PT do Rio, mesmo preterida, teve que se deitar com o prefeito, para satisfazer as suas demandas políticas, sobre a cruel justificativa de que é o preço de ser governo. 

Um preço alto, é verdade, que vai corroer o resto de capital político do partido em sua base sindical. Vejam bem, não há nenhum problema nessas, digamos, “promiscuidades”, o problema é não levar vantagem alguma, não obter nenhum ganho a curto, médio, e longo prazos, que permitam que, um dia, quem sabe, possam reverter essa condição de subordinação vergonhosa.  É o caso do PT no planalto central, que de tanto se abaixar para o centro e para o mercado, ninguém mais consegue distinguir se é o PT ou se é um PSD com “orégano”.

O resultado: não são reconhecidos pelos eleitores de direita, que preferem a direita original, e são rejeitados pelos que sempre votaram no PT, porque o partido deixou de representar qualquer demanda dessa parte da sociedade. 

Em Campos dos Goytacazes, a vergonha é ainda maior.  Em nome de uma desastrada estratégia eleitoral, ficaram sem um vereador, justamente o que era o argumento para se unirem ao pior espectro político possível, servindo-lhes de “força auxiliar”.

Novamente eu afirmo, nada demais, mas fica a pergunta, era necessário?  Claro que não, as chances de ter mais ou menos votos para eleger um vereador não residiam na alternativa de puxar o saco da ultra direita local, e terem levado um sonoro tapa na cara da deputada estadual, que em plena campanha, aderiu a essa candidatura protofascista. 

E agora, José? Agora é o de sempre.  Os vestidos das “noivas” estão puídos, amarelados, e restará ao PT nacional, estadual e campista a triste tarefa de trocar as fraldas geriátricas dos “patriarcas da direita”.

EPA toma apenas medidas parciais para proibir o clorpirifós em uma ação considerada “inconcebível” em face dos riscos para crianças

epa chlorpirifos

Por Carey Gillam para o “the New Lede”

O longo e tortuoso caminho regulatório para um agrotóxico conhecido por ser prejudicial ao desenvolvimento de bebês tomou outro rumo na segunda-feira, quando a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) disse que estava planejando proibir apenas parcialmente o inseticida clorpirifós na agricultura.

Sob pressão de poderosos interesses da indústria agrícola e ordenado por um tribunal federal a considerar os fatores levantados pelos grupos agrícolas em uma petição legal, a EPA disse que continuaria a permitir que o clorpirifós fosse usado por agricultores que cultivam 11 culturas, incluindo maçãs, aspargos, frutas cítricas, pêssegos, morangos, trigo, soja e outros, apesar das evidências de que o pesticida está associado a “efeitos neurodesenvolvimentais” que podem prejudicar o desenvolvimento normal de crianças. Outros usos na agricultura seriam proibidos, disse a agência.

No relatório mais recente de monitoramento de resíduos de agrotóxicos da Food and Drug Administration (FDA) , o clorpirifós foi o 11º  agrotóxico mais frequentemente encontrado em amostras de alimentos humanos, entre 209 pesticidas diferentes detectados pelos testes da FDA.   

“A EPA continua a priorizar a saúde das crianças”, disse Michal Freedhoff, administrador assistente do Escritório de Segurança Química e Prevenção da Poluição da EPA, em uma declaração. “Esta regra proposta é um passo crítico à medida que trabalhamos para reduzir o clorpirifós dentro ou sobre os alimentos e para proteger melhor as pessoas, incluindo bebês e crianças, da exposição a produtos químicos prejudiciais à saúde humana.”

Defensores da saúde pública e ambiental viram a questão de forma diferente, dizendo que o clorpirifós não deveria ser permitido de forma alguma, dada a pesquisa científica que mostra que ele tem efeitos neurotóxicos e desreguladores endócrinos, particularmente no desenvolvimento de crianças de mulheres grávidas.

“Os compromissos associados ao uso de produtos químicos à saúde pública são inconcebíveis, dada a disponibilidade de alternativas produtivas e com boa relação custo-benefício”, disse Jay Feldman, diretor executivo do grupo sem fins lucrativos Beyond Pesticides. “Com decisões como essa, no agregado, a carga tóxica para as pessoas e o meio ambiente é insustentável. A decisão anunciada hoje reflete uma falha tanto da lei subjacente quanto de um histórico de negociações que falham em documentar completamente o impacto catastrófico multidimensional do uso de pesticidas na saúde, biodiversidade e clima.”

Não está claro exatamente o quanto uma proibição parcial reduzirá a quantidade do agrotóxico usado a cada ano, embora se espere que o uso contínuo seja substancial. No ano passado, a agência disse que de 2014 a 2018 , o uso de clorpirifós nessas 11 culturas representou cerca de 55% do uso total de clorpirifós na agricultura em libras médias aplicadas. Na segunda-feira, a agência disse que manter “apenas os 11 usos alimentares poderia diminuir a média anual de libras de clorpirifós aplicadas nos EUA em 70% em comparação ao uso histórico”. 

“Efeitos graves para a saúde” citados

Os inseticidas contendo clorpirifós foram introduzidos pela Dow Chemical em 1965 e têm sido amplamente utilizados em ambientes agrícolas. No início dos anos 2000, a Dow Chemical  eliminou gradualmente  a maioria dos usos residenciais do produto químico em um acordo com a EPA devido a pesquisas científicas que mostram riscos à saúde humana, especialmente de crianças. 

Em 2012, pesquisadores da Universidade de Columbia publicaram um  estudo  que relacionou a exposição ao clorpirifós a déficits cognitivos em crianças. Pesquisas adicionais mostraram que exposições pré-natais ao clorpirifós estão associadas a menor peso ao nascer, redução do QI, perda de memória de trabalho, distúrbios de atenção e atraso no desenvolvimento motor. A Academia Americana de Pediatria  alertou que  o uso de clorpirifós coloca fetos em desenvolvimento, bebês, crianças e mulheres grávidas em risco.

A Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar  proibiu as vendas de clorpirifós  a partir de janeiro de 2020, dizendo que não há  nível de exposição seguro. A Tailândia também proibiu o clorpirifós em 2020. 

Ações judiciais por grupos ambientais, incluindo Earthjustice e Pesticide Action Network, pressionaram a EPA por anos para promulgar uma proibição nacional de clorpirifós, e os próprios cientistas da agência alertaram sobre o potencial de danos a crianças expostas ao produto químico por meio de alimentos e água. Sob o governo Obama, uma proibição estava programada para ser promulgada em 2017, mas depois que o governo Trump assumiu o poder em 2017,  a EPA adiou  e depois retirou a proibição. 

Em dezembro de 2017, o Escritório de Avaliação de Riscos Ambientais à Saúde da Califórnia listou o clorpirifós como conhecido por “causar toxicidade reprodutiva” e, em 2019, os reguladores estaduais anunciaram a proibição do uso na agricultura, citando “efeitos graves à saúde de crianças e outras populações sensíveis em níveis de exposição mais baixos do que os previamente compreendidos”.

Esforços de proibição de ida e volta

No geral, os defensores da saúde pública têm pressionado o governo federal a proibir o clorpirifós por quase duas décadas. Mas os lobistas da indústria de pesticidas têm resistido, argumentando  que a ciência é fraca e o produto químico é uma ferramenta importante no controle de insetos que podem danificar a produção agrícola. Ambos os lados têm martelado a EPA com uma série de ações legais. 

Em agosto de 2021, a EPA disse novamente que interromperia o uso de clorpirifós na produção de alimentos para “melhor proteger a saúde humana, particularmente a de crianças e trabalhadores rurais”. Mas isso só aconteceu depois que uma ordem judicial federal forçou a agência a agir em uma petição de 2007 de grupos que buscavam uma proibição.

Em resposta, vários grupos agrícolas representando organizações de produtores de açúcar, soja, trigo, algodão e frutas e vegetais entraram com uma ação judicial  buscando a reversão da proibição, argumentando que a ação da EPA para proibir o clorpirifós era “ilegal” e carecia de base científica. O Tribunal de Apelações dos EUA para o Oitavo Circuito então anulou a regra de agosto de 2021 da EPA, anulando a proibição.

Ao emitir sua última tentativa de forjar uma regra sobre clorpirifós, a EPA disse que sua revisão do pesticida continua. E com o recém-reeleito presidente Trump pronto para retornar ao cargo em janeiro, o anúncio da EPA na segunda-feira pode estar em questão, alguns observadores notaram.

A dificuldade em conseguir a proibição do clorpirifós, um agrotóxico com ampla comprovação científica de danos, frustra os críticos e ressalta os desafios de controlar outras toxinas perigosas.

“Ganhos relativamente pequenos para reduzir a exposição a agrotóxicos, obtidos ao longo de décadas de revisão regulatória e inação, não garantirão um futuro habitável”, disse Feldman.


Fonte: The New Lede

Exposição ao glifosato pode levar à demência, mostra estudo

A exposição ao glifosato, presente nos herbicidas, ameaça a cognição e a lucidez, além de aumentar a ansiedade, mostram estudos. Os que correm mais riscos são os trabalhadores rurais e profissionais que atuam diretamente no campo

glifosato cérebro

Glifosato, amplamente usados, é pulverizado em plantações nas pesquisas com camundongos, surge concentrado em áreas específicas do cérebro, causando efeitos associados ao Alzheimer – (crédito: Gráfico por Jason Drees)

Por Isabella Almeida para o Correio Braziliense

O cérebro tem uma grande capacidade de adaptação. No entanto, uma nova pesquisa, liderada pela Universidade Estadual do Arizona e pela City of Hope, nos Estados Unidos, revela que até mesmo uma breve exposição a um defensivo agrícola comum pode causar danos cerebrais que persistem por um longo período. Os cientistas demonstraram, em camundongos, que o glifosato, um dos herbicidas mais comuns no mundo, promove uma inflamação significativa no sistema nervoso, associada a doenças neurodegenerativas.

O estudo, publicado no Journal of Neuroinflammation, identificou uma relação glifosato e sintomas de neuroinflamação em ratos, além de uma condição de neurodegeneração acelerada, semelhante ao que é observado na doença de Alzheimer, em humanos. Os pesquisadores rastrearam a presença e o impacto dos subprodutos do agrotóxico no cérebro, mesmo após o fim da exposição e identificaram uma série de efeitos persistentes que prejudicam a saúde neural.

Os camundongos submetidos ao herbicida também morreram prematuramente e apresentaram comportamentos semelhantes aos de ansiedade. No entanto, os cientistas ficaram surpresos ao notar que esses sintomas persistiram mesmo após um período de recuperação de seis meses.

A pesquisa mostrou também que um subproduto do glifosato —o ácido aminometilfosfônico —acumulou-se no tecido cerebral, levantando sérias preocupações sobre a segurança do produto químico para os seres humanos. “Nosso trabalho contribui para a crescente literatura que destaca a vulnerabilidade do cérebro ao glifosato”, afirmou Ramon Velazquez, cientista da Arizona State University. “Dada a crescente incidência de declínio cognitivo na população idosa, particularmente em comunidades rurais onde a exposição ao glifosato é mais comum devido à agricultura em larga escala, há uma necessidade urgente de mais pesquisas básicas sobre os efeitos deste herbicida.”

Para o trabalho, a equipe realizou experimentos com camundongos expostos a duas doses de glifosato: uma dose alta, similar aos níveis usados em estudos anteriores, e uma dose mais baixa, próxima do limite considerado seguro para humanos. Mesmo a quantidade menor causou efeitos nocivos no cérebro dos animais, desencadeando inflamação persistente no cérebro e no sangue, mesmo após a interrupção da exposição por meses.

Os dados indicam que a exposição ao glifosato pode resultar em danos neurológicos significativos, com inflamação prolongada que pode impulsionar a progressão de doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer.

Efeitos adversos

Os experimentos foram realizados ao longo de 13 semanas, seguidos por um período de recuperação de seis meses. O principal metabólito do glifosato, o ácido aminometilfosfônico, foi detectado nos cérebros dos camundongos, tanto em camundongos normais quanto em camundongos modelos da Alzheimer. Mesmo com o fim da exposição, os efeitos adversos persistiram.

Conforme os autores, estudos como esse são importantes porque mostram que trabalhadores rurais e outros profissionais da agricultura têm maior probabilidade de ser expostos ao glifosato por inalação ou contato com a pele. Além disso, as descobertas indicam que a ingestão de resíduos em alimentos pulverizados com o herbicida pode representar um risco à saúde. De acordo com os Centers for Disease Control and Prevention (CDC), a maioria das pessoas nos Estados Unidos foi exposta ao glifosato em algum momento da vida.

Carlos Uribe, neurologista do Hospital Brasília, da Rede Dasa, destaca haver teorias que propõem que todo esse processo de neurodegeneração começaria com infecções por microrganismos, ou tem a ver com um processo inflamatório cerebral. “Há muito tempo se propõe que seja desencadeado pela exposição a toxinas, inclusive, metais pesados, ou outro tipo de materiais tóxicos. Agora vemos o glifosato, são resultados interessantes.

No entanto, Uribe pondera que ainda não é possível extrapolar os resultados do estudo para seres humanos. “Mas esse tipo de pesquisa é muito importante para abrir novas perspectivas, começar a investigar se realmente existe um efeito tóxico a longo prazo, e qual seria o tipo de exposição que desencadearia. Qual dose seria tóxica mesmo, uma série de coisas.”

Os pesquisadores reforçam a necessidade de mais estudos sobre os efeitos neurológicos do glifosato, já que as descobertas anteriores demonstraram que o herbicida atravessa a barreira hematoencefálica — camada protetora que normalmente impede que substâncias potencialmente prejudiciais entrem no cérebro. Após a travessia, o produto pode interagir com o tecido cerebral e contribuir para a neuroinflamação e outros danos na função neural.

“Essas descobertas destacam que muitos produtos químicos que encontramos regularmente, antes considerados seguros, podem representar riscos potenciais à saúde. No entanto, mais pesquisas são necessárias para avaliar completamente o impacto na saúde pública e identificar alternativas mais seguras”, frisou Patrick Pirrotte, autor sênior do estudo e pesquisador da City of Hope.


Fonte: Correio Braziliense 

Início das obras do Porto Central agravará crise socioambiental em curso na interface costeira entre RJ e ES

porto central

A imprensa corporativa capixaba está noticiando, com pompa e circunstância, o inicio das obras do Porto Central no município de Presidente Kennedy no extremo sul do Espírito Santo. O Porto Central é uma espécie de irmão gêmeo maligno de outro porto, o do Açu. A descrição das obras iniciais do projeto de instalação trazem o mesmo percurso do que ocorreu no V Distrito de São João da Barra, com a possibilidade de que os mesmos acidentes ambientais se repitam na área inicial do projeto, já que aparentemente nada se aprendeu com os erros cometidos na mesma fase de instalação do Porto do Açu.

porto centralProjeto da fase 1 das obras do Porto Central, em Presidente Kennedy. (Divulgação/Porto Central)

Um exemplo disso é a informação de que nessa fase inicia de execução estão previstos a produção, o transporte e a armazenagem de rochas para o quebra-mar sul, a instalação da central de fabricação dos elementos de concreto e a dragagem do canal de acesso. A mesmíssima rota que causou a salinização de águas continentais e a erosão na Praia do Açu.

Do ponto de vista dos objetivos do empreendimento como os mesmos têm sido apresentados pelos idealizadores de mais este porto voltado para a exportação de commodities agrícolas e minerais, o que se anteve é a possibilidade de processos sinergísticos com o Porto do Açu, dada a distância mínima entre os dois empreendimentos.   E esses processos deverão impactar as mesmas populações que já sofrem com o empreendimento criado por Eike Batista, notadamente pescadores artesanais, agricultores e quilombolas.

O Porto Central vem acompanhado do mesmíssimo discurso da criação de empregos e da dinamização da economia regional que foi e continua sendo empregado para justificar todo o dinheiro público colocado no porto de São João da Barra.  Certamente cientes dos problemas que ocorreram com a falta de empregabilidade para trabalhadores nativos de São João da Barra, o pessoal do Porto Central está espalhando que possui compromisso em empregar majoritariamente trabalhadores locais. Mas isso é uma balela, pois lá como cá, o tipo de capacidade profissional necessária para este tipo de obra de engenharia acaba vindo de outros partes do Brasil, e até de outros países. O que deverá acontecer em Presidente Kennedy já aconteceu e continua acontecendo em São João da Barra, onde explodiu os problemas de violência, prostituição e tráfico de drogas. Progresso e desenvolvimento mesmo só para os donos dos empreendimentos.

São Francisco de Itabapoana ficará espremido entre dois vetores de destruição ambiental

SFI portos

A região costeira de São Francisco de Itabapoana de estar na área de influência de duas grandes estruturas portuárias já a partir de 2027

Eu antecipo que graves problemas deverão ocorrer nos próximos anos na área costeira do município de São Francisco de Itabapoana, na medida em que seus vizinhos portuários deverão alterar dramaticamente a dinâmica costeira, diminuindo a circulação de sedimentos marinhos. Com isso, os processos erosivos que já estão em curso em praias do município certamente se agravarão. Com isso, o que também deverá ocorrer é o avanço do mar pelas calhas dos rios, principalmente do Rio Itabapoana com efeitos negativos sobre a capacidade das populações que residem nas áreas afetadas de continuaram suas formas de reprodução social.

Enquanto isso, a prefeitura municipal de São Francisco de Itabapoana parece ainda inerte em face dos problemas ambientais e sociais que estão pairando como espectros sobre o seu futuro. Essa paralisia precisa ser revertida imediatamente sob pena dos custos recaírem todos sobre os cofres municipais, o que certamente será desastroso para pescadores, agricultores e quilombolas que habitam a região costeira de São Francisco de Itabapoana.

Antes que o porto venha, o documentário

Aproveito para postar o documentário “Antes que o porto venha” para que fique claro que mais essa unidade portuária não está sendo recebida de braços abertos por quem vive e tira sua sobrevivência das águas e dos solos de Presidente Kennedy.  Com o início da instalação do Porto Central, esse documentário ganha ares de oráculo e merece ser visto por quem não cai na conversa fácil de que esses empreendimentos são garantidores de dias melhores.

Artigo na Science revê promessas revolucionárias em torno dos OGMs e aponta consequências negativas

OGMs

Impactos ambientais de culturas geneticamente modificadas: Adotar culturas com essas características afeta perdas de colheitas, uso de agrotóxicos e outras ações de manejo, incluindo níveis de cultivo e diversidade de culturas. Essas mudanças, por sua vez, afetam a expansão agrícola, o desmatamento, a poluição, a saúde humana, as emissões de gases de efeito estufa e a biodiversidade 

Uma equipe liderada pelo professor Frederick Noak do departamento de  Food and Resource Economics, da University of British Columbia acaba de publicar um interessante artigo de revisão sobre as expectativas em torno da adoção de sementes geneticamente modificadas (OGMs) e das consequências que já detectadas. Dentre as consequências que foram inicialmente desconsideradas, a equipe liderada pelo professor Noak aponta para a expansão de áreas agrícolas com a consequente elevação na derrubada de florestas, a repercussão cheia de nuances em torno do uso de agrotóxicos, e a ampliação das emissões de gases estufa que ocorre em função do aumento de uso de equipamentos agrícolas.

O estudo aponta ainda que apesar de ter tido um início acelerado, a adoção de sementes OGMs tem ficado reduzida a um número pequeno de países, pois a maioria dos governos nacionais acabou impondo legislações bastante restritivas para a adoção deste tipo de semente geneticamente manipulado por causa dos riscos ambientais que ainda não foram claramente respondidos pelos fabricantes dessas semente.

O mapa abaixo mostra bem como o plantio de sementes geneticamente modificadas ainda se encontra concentrado em um pequeno número de países. Interessante é o caso do Brasil onde a adoção de sementes geneticamente modificadas tem sido acompanhada pelo aumento exponencial no uso de agrotóxicos altamente tóxicos e pelo avanço da franja de desmatamento para áreas mais interiores da Amazônia, principalmente em função da ampliação dos plantios de soja.

paises com ogms

O estudo mostra ainda que há uma grande concentração das empresas que controlam a produção e comercialização deste tipo de sementes OGMs. Segundo o artigo, Em 2020, apenas quatro empresas controlavam mais da metade do mercado mundial de sementes, sendo que elas detinham direitos de propriedade intelectual sobre 95% das variedades de algodão e milho e 84% das variedades de soja geneticamente modificadas.  Esse dado é particularmente importante, na medida em que essas empresas cobram royalties por cada semente que é usada em paíoses como Brasil e Argentina. 

Uma coisa é certa: quanto mais sementes OGMs são utilizadas, mais agrotóxicos e mais desmatamento tendem a acontecer.  E lamentavelmente esta é a situação do Brasil neste momento.

A guerra dos mundos pode chegar no herdeiro daquela casinha da Lapa

paes wladimir

Por Douglas Barreto da Mata

Quem observar atentamente os resultados das eleições, em todos os níveis, dentro e fora do país, desde o início dos anos 2000, perceberá que o eixo do debate político mudou drasticamente.  Isso é óbvio, dirão vocês. Eu sei, mas alguém já disse que o óbvio precisa ser dito e repetido várias vezes. As reduções das gestões de políticas econômicas aos dogmas de mercado, e seus rigores fiscais impuseram uma aproximação radical de campos até então opostos.

De forma simplista, sobrou pouca diferença, por exemplo, entre Haddad e Paulo Guedes, Lula ou Bolsonaro, quando se observa as gestões fiscais e orçamentárias de ambos.  Seja na Noruega ou na Argentina, a agenda de mercado pressiona as conquistas sociais. O terrorismo econômico, da “gastança do governo”, imobiliza-o no atendimento aos mais pobres! É uma estratégia de duas cabeças: a interdição do debate econômico (onde só há uma tese certa, a do mercado), e desestabilizar pelo conflito “cultural”.

De forma simplista, seja quem for o candidato da direita e da esquerda, não importará muito se foram criados empregos, a taxa de juros, o PIB, etc. 

No âmbito estadual também não importará muito a saúde financeira do Estado, os índices de IDEB, se há filas de espera para atendimentos na saúde, se o transporte público faliu, ou outros indicadores.  Os eixos centrais são aqueles que alimentam essa “guerra de mundos”, como segurança, religião, gênero, e toda a pauta identitária, conjugado com as limitações permanentes de investimento social. Quer dizer, os temas econômicos e de gestão administrativa não são cruciais pelos seus aspectos reais, mas pela capacidade de cada oponente distorcer a realidade a seu favor, seja realçando suas qualidades, seja destacando os defeitos do outro. Prova?  Apesar de Trump ter deixado a economia dos EUA como uma bomba relógio para seu sucessor, o fato é que ele pinçou a alta dos preços, e transformou um dos aspectos da economia em sua pièce de résistance.

Ao mesmo tempo, ainda que o Brasil ostente crescimento positivo de PIB inesperado, com desemprego em patamar baixíssimo, apesar da taxa de juros mais alta do planeta, estabelecida pela sabotagem do Banco Central, o leve aumento inflacionário resultou em um ataque especulativo colossal, seguido de uma chantagem cruel da mídia para que sejam feitos cortes nos gastos sociais.

Não tenho como conspirar e dizer que mídia e mercado andam juntos, mas parece estranha a coincidência que todos sigam na mesma direção, sempre, subtraindo deste governo a base necessária para que mantenha uma agenda de direitos sociais e seu capital político para as eleições que se aproximam.

Voltando para o nosso Estado e para nossa região, dentro desse cenário descrito, nas eleições estaduais me parece que o papel de “herói” das esquerdas e do centro já foi escalado para Eduardo Paes. Ele é prefeito “playboy” boa praça, que circula nas altas rodas, pela sua origem privilegiada, mas sabe “entrar e sair” das “quebradas”, que samba com chapéu de Zé Pilintra, ecoando ‘miscigenação” e seu “sincretismo”, “um democrata racial e cultural”, para emprestar a lógica de Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre. O papel dos “anti heróis” vai ficar para o outro lado.

Sim, a direita vai se reunir em torno do governador e do amplo leque de alianças de sua base. Vão ter que encarar a poderosa Rede Globo, cria do Estado, e que tem na pauta identitária uma de suas preferências (hipócritas, por certo), e não escondem seu zelo com o “mocinho Paes”. Por isso, o que Paes mais deseja é um plebiscito com um “vilão” característico, um candidato truculento ou com histórico truculento, mau encarado, fundamentalista religioso, do tipo KKK carioca…um híbrido de Malafaia com Tenório Cavalcante. 

A direita fluminense parece não ter percebido a jogada de Paes, que esfrega as mãos, aguardando um antagonista desse tipo.  Esse é o prato que Paes espera que lhe seja servido, para que ele possa desempenhar o papel de centrista ilustrado, amigo de Macron, um prefeito internacional, sintonizado com a imagem de um Rio cosmopolita. Paes tem tentado evitar que uma candidatura com as mesmas características dele, mas de sinal trocado, ou seja, deliberadamente conservadora, porém suave e ponderada, simpática mesmo, lhe enfrente.

Embora a pré candidatura anunciada seja a de Washington Reis, e só os tolos acreditam que o presidente da ALERJ tenha desistido da ideia de ser ele mesmo o candidato, o fato é que o ex-prefeito de Duque de Caxias está impedido juridicamente, e o presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) se encaixe mais no papel de “vilão” que de “mocinho”. Na verdade, o candidato dos sonhos de Paes, observando essa lógica acima, seria o presidente da Alerj. 

No Estado do Rio há poucos com esse perfil de direita mais ameno e com potencial capital eleitoral significativo. Eu arriscaria dizer que o prefeito Wladimir Garotinho é um dos que pode colocar água no chopp de Paes. É de direita assumido, mas transita com facilidade na esquerda.  Como filho de governadores não se pode dizer pobre ou de origem humilde, mas traz na carreira a referência da trajetória dos pais junto ao eleitorado popular. Soube se diferenciar de seus pais, sem ignorar seu legado.  É religioso, mas sai do culto ao pagode sem perder a linha, nem parecer falso. Tem ótima entrada no público feminino pobre, principalmente das mães solo, e é atração entre crianças. 

O perfil conciliador e bonachão de Wladimir, e sua habilidade nas redes sociais se compara à de Paes, soando às vezes parece mais sincero, dada a história da família Garotinho, como já mencionado.  Ao contrário de Paes, tido e havido como um animal político de Zona Sul, até que, recentemente, conseguiu ultrapassar o túnel, mas não sem muito esforço e ruído, como o que aconteceu, recentemente, com a base evangélica. Outros atributos são a enorme capilaridade possível a Wladimir pelo Estado todo, ao contrário de Paes, que no máximo chega a Niterói, e com muito esforço, em boa parte, é verdade, pela parceria com Rodrigo Neves.

De todo modo, como diziam os romanos, alea jacta est. Que comecem os “jogos vorazes”.

A reitoria da Uenf flerta com contratos temporários para docentes e ameaça de morte projeto de universidade de Darcy Ribeiro

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Confrontada com sua própria incapacidade negociar com o governador Cláudio Castro questões básicas como o novo Plano de Cargos e Vencimentos (PCV) e a realização de concursos para docentes cuja ocorrência está permitida até pelo draconiano regime de recuperação fiscal (RRF), a atual reitoria da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) vem lançando mão de uma série de ações do tipo “band aid” que refletem o grau de incapacidade de gestão existente.

Agora, temos a notícia de que a reitoria da Uenf está flertando com a adoção de um modelo de contratos temporários para cobrir a falta de docentes em determinadas áreas. O modelo que estaria sendo imitado é o da Fundação de Apoio à Escola Técnica (Faetec) que recentemente lançou mão desse expediente para garantir a contratação de 664 professores para atuarem apenas nos anos letivos de 2024 e 2025.

Afora dizer que os modelos institucionais da Uenf e da Faetec são completamente diferentes, o problema é que contratos temporários podem funcionar quando se está pensando apenas no oferecimento de aulas por um período relativamente curto, mas se tornam um verdadeiro Cavalo de Tróia quando se pensa na formação universitária onde é necessário, além das aulas, se ter acesso a atividades de pesquisa e extensão.

Ao flertar com essa hipótese, a reitoria da Uenf esquece que na sua co-irmã mais poderosa, a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), a contratação de professores temporários acabou há exatamente 10 anos gerando uma intervenção do Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro para obrigar a realização de concursos para vagas permanentes após anos de congelamento.  Essa ação do MP/RJ ocorreu após provocação da associação de docentes da Uerj (Asduerj) que demonstrou a piora das condições de trabalho e de performance da qualidade geral das atividades universitárias por causa da quantidade persistente de contratos temporários.

A verdade é que se essa proposta for implementada na Uenf, o que estará se matando é a proposta institucional de Darcy Ribeiro que não apenas tornou a instituição a primeira do Brasil a ter apenas docentes com dedicação exclusiva, mas também pagando os melhores salários do país no ano de sua fundação. Em vez de termos a Universidade do Terceiro Milênio idealizada por Darcy, o que os contratos temporários criarão será uma situação de inviabilização do tripé ensino-pesquisa-extensão e a instalação de um modelo precarizado em que docentes sem estabilidade estarão sempre na  espera da renovação ou não de seus contratos.

Por essas e outras é que essa proposta não pode prosperar e deve ser rejeitada de pronto. É que não se pode admitir que, por falta de capacidade de gestão, se recorra a um expediente que já deu provas que não resolve, mas apenas cria problemas.  O que deixará o governador Cláudio Castro ainda mais livre para impor ainda mais precarização nas universidades fluminenses. Será  tipo sai a Universidade do Terceiro Milênio, e entra a Uberversidade ou a IFoodsidade.

Guerra química: agrotóxicos viram arma de guerra nas áreas de expansão do agronegócio, mostra relatório da CPT

Dados divulgados pela CPT (Comissão Pastoral da Terra) relativos ao primeiro semestre de 2024 indicam crescimento de disputas nas áreas conhecidas como Amacro, Matopiba e Amazônia Legal, fronteiras do agronegócio. Explosão de casos de contaminação por agrotóxicos no Maranhão chama a atenção

Pulverização aérea de agrotóxicos tem causado aumento de casos de contaminação no Maranhão (Foto: Reprodução/Academia do Agronegócio)

Por Igor Ojeda para a Repórter Brasil 

Os conflitos de terra se acirraram durante o primeiro semestre de 2024 em regiões do Brasil onde o agronegócio tem avançado, revelam dados divulgados nesta segunda-feira (2) pela CPT (Comissão Pastoral da Terra). 

O levantamento aponta queda no número total de conflitos em relação ao mesmo período de 2023, mas aumento de disputas no campo na Amazônia Legal e nas áreas conhecidas como Amacro – que abrange 45 milhões de hectares na divisa entre o Amazonas, Acre e Rondônia – e Matopiba – que se estende por territórios dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. São regiões marcadas pela expansão do agronegócio nas últimas décadas.

Segundo os dados parciais levantados pela CPT, entidade vinculada à CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), foram 1.056 ocorrências de conflitos no campo entre janeiro e junho de 2024, uma queda de 6% em relação às 1.127 registradas no primeiro semestre do ano anterior. 

No entanto, o índice deste ano é o segundo maior desde 2015. Do total de ocorrências em 2024, foram 872 conflitos por terra, 125 conflitos por água e 59 casos de trabalho escravo. 

“O semestre apresentou menos vítimas da violência no campo em relação ao mesmo período no último ano, mas a conflitividade continua elevada, somada aos danos sofridos pelas comunidades rurais devido à crise climática e aos incêndios criminosos em seus territórios”, diz a CPT.

Os números parciais divulgados nesta segunda integrarão o Caderno Conflitos no Campo 2024, que será lançado pela entidade em abril de 2025. O relatório, que já teve 38 edições, é um dos mais importantes registros da violência e da resistência no campo brasileiro. 

“Quando se olha os últimos dez anos, há uma crescente que se mantém. Houve uma diminuição muito leve de casos em 2024, mas, ao mesmo tempo, ainda existe um índice muito alto de violência contra a pessoa e um crescimento de outras formas de violência”, avalia Cecília Gomes, da Coordenação Nacional da CPT.

Para ela, o aumento da conflitividade em áreas de expansão das fronteiras agrícolas “indicam que o campo ainda não é um lugar seguro pra se viver”. “O campo é um lugar onde há um desrespeito extremo aos direitos humanos e à vida digna. Vivemos momentos de ataques crescentes aos povos da terra, das águas e das florestas”, diz.

Entre os 872 casos relativos a conflitos por terra, a maior parte (824) foi de casos de violência contra a ocupação e posse, o terceiro maior índice dos últimos dez anos. O restante dos casos (48) deve-se a ações de resistência: ocupações, retomadas e acampamentos.

Apesar de ter ocorrido redução no registro de formas de violência como grilagem, invasão, expulsão concretizada, pistolagem e omissão/conivência das autoridades, houve aumento significativo das ocorrências de ameaça de expulsão, que passaram de 44, em 2023, para 77, em 2024, revela a CPT. Em relação à pistolagem, apesar da redução de 150 para 88 casos, é o segundo maior índice da última década. 

Entre os casos de assassinatos, os dados revelam que houve uma diminuição no número de vítimas: 6 no primeiro semestre – o menor número em dez anos. Mas a CPT alerta que já são 11 mortes confirmadas até o final de novembro. Destas, quase metade foi cometida por fazendeiros. Segundo a entidade, em quatro dos casos, forças policiais atuaram como executoras ou apoiadoras aos executores. . 

Explosão de casos de contaminação por agrotóxicos 

Um dos índices que mais chamam a atenção nos dados divulgados pela CPT é o crescimento acentuado de ocorrências de contaminação por agrotóxicos. De 19 casos registrados no primeiro semestre de 2023, houve um salto para 182 no mesmo período de 2024 – alta de 857%. A maioria dos casos (156) aconteceu no Maranhão. 

Na avaliação de Gomes, esse dado é reflexo de uma diversificação nas formas de opressão e violência no campo. “As populações de comunidades camponesas e tradicionais estão sendo atingidas diretamente pelas pulverizações aéreas de agrotóxicos. Estão sendo diretamente envenenadas. Quando não se expulsa pela força, se expulsa por banhos de veneno”, denuncia.

agrotóxicos

A violência decorrente da contaminação por agrotóxicos teve um crescimento alarmante, passando de 19 ocorrências em 2023 para 182 em 2024. A maior parte desses casos (156) ocorreu no estado do Maranhão, onde comunidades estão sofrendo severas consequências da pulverização aérea de veneno. 

O uso dos agrotóxicos como arma para expulsar moradores no contexto de disputa de terras tem crescido nos últimos, alertam comunidades rurais e organizações da sociedade civil. 

O fim da pulverização aérea de venenos agrícolas tem sido discutido em vários estados do país. No Brasil, por enquanto, só o Ceará tem uma legislação que veda a prática — a “Lei Zé Maria do Tomé”, batizada em homenagem a um ativista ambiental assassinado em 2010, no interior do estado. 

A Repórter Brasil mostrou na semana passada que duas comunidades próximas a lavouras de frutas no Ceará – Tomé, em Limoeiro do Norte, e Assentamento Maceió, em Itapipoca – continuam registrando mortes de crianças que poderiam ser atribuídas à exposição aos agrotóxicos, mas que não são investigadas por órgãos de vigilância.

Para Cecília Gomes, o Maranhão tem sido palco de uma disputa territorial e de uma “corrida por bens naturais”. Segundo os dados do CPT, o Matopiba registrou um aumento em diversas formas de violência. O desmatamento ilegal teve crescimento de 16%, a destruição de roçados, de 30%, as ameaças de despejo aumentaram em 60% e as ameaças de expulsão saltaram 150%. 

Nessa região, diferentemente do registrado no Amacro e na Amazônia Legal, também houve aumento na quantidade de vítimas de violência contra a pessoa.

Vítimas e causadores

Os posseiros, ou seja, famílias de comunidades tradicionais que ainda não têm a titulação da terra, foram as maiores vítimas dos conflitos por terra (235), seguidos por povos indígenas (220), quilombolas (116) e sem-terra (92), revelam os dados.

Já em relação aos causadores da violência, a CPT aponta os fazendeiros (339) como principal força, seguidos por empresários (137), governo federal (88), governos estaduais (44) e grileiros (33).

Em relação aos conflitos por água, as maiores vítimas foram os povos indígenas (35 casos). Em seguida, vêm os quilombolas (24), posseiros (21), ribeirinhos (18) e pescadores (13). Nessa categoria, os causadores das violências são os empresários (32), fazendeiros (26), hidrelétricas (23), mineradoras (19) e governo federal.

Áreas de Cerrado na Bahia ocupadas por plantações de soja (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

Trabalho escravo

Segundo o levantamento da CPT, o primeiro semestre de 2024 apresentou uma redução significativa do número de casos de trabalho escravo e pessoas resgatadas, após três anos consecutivos de crescimento. 

Foram 59 casos e 441 trabalhadores rurais resgatados, em comparação a 98 casos e 1.395 resgatados em 2023. 

As atividades com maior concentração de pessoas resgatadas foram as lavouras permanentes (209), desmatamento (75), mineração (70), produção de carvão vegetal (44) e a pecuária (39), números que demonstram “a grande contribuição do agronegócio e da mineração para a perpetuação do trabalho análogo à escravidão”, diz a CPT.

Crise climática

Embora não contem como violência do campo, a CPT levantou dados sobre os impactos sentidos pelas comunidades camponesas, quilombolas e indígenas em três eventos relacionados à crise climática: enchentes na região Sul, secas na Amazônia e incêndios em todo o país.

No Rio Grande do Sul, mais de 300 famílias camponesas, 145 comunidades quilombolas e nove aldeias do povo Guarani foram afetadas. Em relação aos incêndios, os povos indígenas foram os que mais sofreram. Ao todo, 37% dos casos de desmatamento ilegal registrados foram em territórios indígenas. Segundo a CPT, fazendeiros foram responsáveis por metade dos casos identificados de incêndios criminosos. 


Fonte: Repórter Brasil e CPT

Boias de navegação em regiões portuárias podem facilitar entrada de espécies invasoras, mostra estudo

boiasEquipe coletou 73 amostras de 23 boias do porto de Paranaguá durante substituição dos equipamentos

bori conteudo

Além de transportar humanos e objetos, navios também podem levar de carona espécies de animais marinhos. Um estudo publicado na última sexta (29/11) na revista “Ocean and Coastal Research” identificou, em nível de espécie, 25 animais sésseis – que vivem fixos em substratos – em boias de navegação no litoral do Paraná. Dessas espécies, 13 são consideradas introduzidas – ou seja, não são nativas da costa brasileira, mas mantêm populações que sobrevivem e se reproduzem no local. Quase todas podem ser ainda consideradas invasoras – com dispersão e reprodução frequente na região. A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade Estadual do Paraná (Unespar) e da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Em 2011, os pesquisadores obtiveram autorização para coletar amostras de boias do porto de Paranaguá, no Paraná, quando seria feita a substituição dos itens de sinalização da região portuária. Foram coletadas 73 amostras em 23 boias. “É muito difícil conseguir esse tipo de material, porque é proibido mexer nessas boias, elas são importantes para a segurança do tráfego portuário e da navegação”, explica o biólogo Rafael Metri, pesquisador da Unespar e primeiro autor do artigo. As boias às quais Metri e seus colegas tiveram acesso estavam posicionadas na região portuária paranaense havia mais de dez anos.

Os cientistas conseguiram identificar, ao todo, 88 táxons (grupos de animais) nas amostras, sendo 44 sésseis (organismos que vivem presos a um substrato) e 44 vágeis (organismos que se movem livremente). Foi possível determinar 25 espécies no primeiro conjunto. Além das 13 introduzidas, esse grupo conta com 11 espécies que têm larga distribuição e origem desconhecida, enquanto apenas uma é nativa. Já o segundo conjunto é composto por 23 espécies, sendo 12 de origem desconhecida e 11 nativas.

A maioria dos animais introduzidos mapeados no estudo são do grupo bivalve, caracterizado por conchas, que inclui ostras e mexilhões. O mexilhão marrom Perna perna, já comum na costa brasileira há alguns séculos, foi a espécie mais constante, aparecendo em 80% das boias estudadas. O artigo também destaca a presença de outro bivalve invasor, Isognomon bicolor, registrado pela primeira vez no Brasil nos anos 2000, em 40% das boias.

Segundo Metri, as espécies introduzidas promovem a homogeneização da biota, diminuindo a ocorrência de espécies nativas. “A colonização de espécies invasoras é a segunda principal causa da perda de biodiversidade no mundo, perdendo apenas para a destruição de habitats naturais”, alerta o biólogo.

Além dos impactos ambientais, Metri aponta consequências econômicas do desequilíbrio causado pelas espécies invasoras na região portuária. “Os pescadores estão bastante preocupados com algumas espécies invasoras que podem atrapalhar a atividade porque afetam as espécies pescadas por eles”, comenta o biólogo. A bioincrustação por espécies invasoras também pode danificar a infraestrutura costeira, o que gera custos de manutenção e reparo.

Para evitar problemas, os autores recomendam aos gestores portuários que façam a limpeza periódica das boias de navegação e a utilização de tintas anti-incrustantes não tóxicas, que impedem a fixação de organismos. Eles também destacam a importância do monitoramento ambiental. “A detecção precoce de novas espécies introduzidas é crucial para a implementação de estratégias para minimizar o problema”, diz Metri. O biólogo e seus colegas têm trabalhado em projetos de mapeamento das espécies introduzidas por toda a região da baía de Paranaguá, o que pode ajudar na prevenção de desequilíbrios ecológicos.


Fonte: Agência Bori

Países pedem metas vinculativas para reduzir produção de plástico após fracasso de negociações em conferência da ONU

Grupo de 85 países e blocos pressiona por ambição no tratado sobre resíduos plásticos após nenhum acordo ter sido alcançado em Busan

garras petSacos de garrafas plásticas em uma loja de sucata em Quezon City, nas Filipinas. Fotografia: Eloisa Lopez/Reuters

Por Sandra Laville, correspondente de Meio Ambiente, para o “The Guardian”

Metas globais vinculativas para reduzir a produção de plástico devem estar no centro de quaisquer negociações contínuas para garantir o primeiro tratado do mundo para lidar com o desperdício de plástico, disse um grupo de 85 países.

Negociações em Busan, Coreia do Sul, tentando garantir um acordo entre mais de 200 países sobre os detalhes de um tratado sobre poluição plástica terminaram em fracasso no fim de semana.

Graham Forbes, o delegado líder do Greenpeace nas negociações, disse na segunda-feira: “Estamos em uma encruzilhada histórica. A oportunidade de garantir um tratado de plásticos impactante que proteja nossa saúde, biodiversidade e clima continua ao nosso alcance.”

As negociações de uma semana, conhecidas como INC-5, que deveriam ser as últimas antes da assinatura do primeiro tratado para reduzir a poluição por plástico, terminaram sem acordo nas primeiras horas de segunda-feira, em um impasse sobre a inclusão de cortes na produção de plástico entre os chamados países ambiciosos e os estados produtores de combustíveis fósseis, que se opõem a quaisquer reduções na produção.

Mais de 100 países apoiaram um rascunho de texto que incluía reduções globais juridicamente vinculativas na produção de plástico e a eliminação gradual de certos produtos químicos e plásticos de uso único.

Mas a resistência de países como Arábia Saudita, Irã e Rússia às reduções de produção, de acordo com declarações em suas submissões às negociações do tratado, levou os negociadores a admitir a derrota. Eles reconheceram que falharam em superar sérias divisões sobre os objetivos do tratado.

Abdulrahman al-Gwaiz, o delegado da Arábia Saudita, indicou que os cortes de produção continuaram sendo uma linha vermelha para muitos países. “Se você abordar a poluição por plástico, não deve haver problema em produzir plásticos, porque o problema é a poluição, não os plásticos em si”, disse ele.

Em resposta ao fracasso das negociações, os países que pressionavam por cortes de produção continuaram a pedir reduções juridicamente vinculativas. Oitenta e cinco países e blocos políticos, incluindo o Reino Unido, a UE, a Espanha, a Alemanha, o México e a Grécia, assinaram uma declaração comprometendo-se a defender a ambição no tratado.

Juliet Kabera, diretora-geral da autoridade de gestão ambiental de Ruanda, disse em uma declaração em nome dos países de alta ambição: “Expressamos nossas fortes preocupações sobre os apelos contínuos de um pequeno grupo de países para remover disposições vinculativas do texto que são indispensáveis ​​para que o tratado seja eficaz.”

Os EUA, que haviam falado em apoio a reduções voluntárias na produção, foram acusados ​​de não usar sua influência para pressionar por medidas juridicamente vinculativas.

Rachel Radvany, uma ativista do grupo de direito ambiental CIEL, disse: “Apesar de manterem na preparação e durante o INC que a produção e os produtos químicos eram medidas importantes para o tratado, eles se recusaram a… atender ao chamado para se juntar a mais de 100 países que pedem medidas juridicamente vinculativas.”

Hugo Schally, diretor-geral do meio ambiente da Comissão Europeia, disse: “A UE está decepcionada com o resultado do INC-5; não obtivemos o que viemos buscar aqui, um tratado vinculativo com ação decisiva contra a poluição plástica, mas nos sentimos encorajados e fortalecidos por um número crescente de países que compartilham as mesmas ambições.”

Outra reunião está planejada, mas a chefe do meio ambiente da ONU, Inger Andersen, reconheceu que profundas diferenças permaneceram e “algumas conversas significativas” eram necessárias primeiro. “Eu acredito que não há sentido em nos reunirmos a menos que possamos ver um caminho de Busan para o texto do tratado sendo batido”, ela disse.

Andersen disse que estava claro que “há um grupo de países que dão voz a um setor econômico”, mas ela disse que encontrar um caminho a seguir era possível. “É assim que as negociações funcionam. Os países têm interesses diferentes, eles os apresentam e as conversas então têm que acontecer… buscando encontrar esse ponto em comum.”

Nenhuma data ou local foi definido para a retomada das negociações. A Arábia Saudita e outros países estão tentando garantir que elas comecem não antes de meados de 2025.

Números recordes de lobistas da indústria do plástico compareceram às negociações em Busan, com 220 representantes da indústria química e de combustíveis fósseis presentes. Tomados como um grupo, eles foram a maior delegação nas negociações, com mais lobistas da indústria do plástico do que representantes da UE e de cada um de seus estados-membros (191) ou do país anfitrião, a Coreia do Sul (140), de acordo com uma análise do CIEL.

Dezesseis lobistas da indústria de plásticos compareceram às conversas como parte de delegações de países. China, República Dominicana, Egito, Finlândia, Irã, Cazaquistão e Malásia tinham representantes da indústria em suas delegações, mostrou a análise.


Fonte: The Guardian