A Antártica está “esverdeando” a um ritmo dramático à medida em que o clima esquenta

Análise de dados de satélite revela que a cobertura vegetal aumentou mais de dez vezes nas últimas décadas

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Norsel Point na Ilha Amsler no Arquipélago Palmer da Antártida. Fotografia: Dan Charman/PA

Por Damian Carrington para o “The Guardian”

A cobertura vegetal na Península Antártica aumentou mais de dez vezes nas últimas décadas, à medida que a crise climática aquece o continente gelado.

A análise de dados de satélite descobriu que havia menos de um quilômetro quadrado de vegetação em 1986, mas havia quase 12 km² de cobertura verde em 2021. A disseminação das plantas, principalmente musgos, acelerou desde 2016, descobriram os pesquisadores.

O crescimento da vegetação em um continente dominado por gelo e rocha nua é um sinal do alcance do aquecimento global na Antártida, que está esquentando mais rápido do que a média global. Os cientistas alertaram que essa disseminação poderia fornecer um ponto de apoio para espécies invasoras alienígenas no ecossistema antártico imaculado.

O esverdeamento também foi relatado no Ártico e, em 2021 , chuva, e não neve, caiu no cume da enorme calota de gelo da Groenlândia pela primeira vez na história.


Ilha Verde na Antártida
Ilha Verde na Antártida. Fotografia: Matt Amesbury

“A paisagem antártica ainda é quase inteiramente dominada por neve, gelo e rocha, com apenas uma pequena fração colonizada por vida vegetal”, disse o Dr. Thomas Roland, da Universidade de Exeter, Reino Unido, e que coliderou o estudo. “Mas essa pequena fração cresceu dramaticamente – mostrando que mesmo essa vasta e isolada região selvagem está sendo afetada pelas mudanças climáticas causadas pelo homem.” A península tem cerca de 500.000 km2 no total.

Roland alertou que o aquecimento futuro, que continuará até que as emissões de carbono sejam interrompidas, pode trazer “mudanças fundamentais para a biologia e a paisagem desta região icônica e vulnerável”. O estudo foi publicado no periódico Nature Geoscience e baseado na análise de imagens do Landsat.

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a–d, Área vegetada (km2, <300 m a.s.l.) nos anos de 1986 (a), 2004 (b), 2016 (c) e 2021 (d) com base em dados do Landsat 5–8. Os hexágonos representam 5.000 km2 cada e são coloridos de acordo com a área de NDVI > 0,2 que contêm, permitindo, portanto, a visualização sistemática das tendências de esverdeamento, apesar da proporção relativamente pequena de terra sem gelo em comparação com terra e oceano cobertos de gelo. Os anos apresentados foram escolhidos com base na porcentagem de terra fotografada, maior área com NDVI > 0,2 e espaçamento temporal através da série temporal (veja a Fig. 2 para detalhes). e, resultados da análise de tendência de Mann–Kendall para todos os anos disponíveis (1985–2021) mostrando a direção da tendência e o nível de confiança. Veja a Fig. Suplementar 4.2 para o equivalente TCG desta figura. O litoral e a terra sem gelo são mostrados pelo contorno preto49.

O Prof. Andrew Shepherd, da Universidade de Northumbria, Reino Unido, e que não faz parte da equipe do estudo, disse: “Este é um estudo muito interessante e condiz com o que descobri quando visitei Larsen Inlet [na península] alguns anos atrás. Aterrissamos em uma praia que estava enterrada sob a plataforma de gelo Larsen até que a plataforma entrou em colapso em 1986-88. Descobrimos que agora há um rio com algas verdes crescendo nele!”

“Este lugar ficou escondido da atmosfera por milhares de anos e foi colonizado por plantas algumas décadas depois de ficar livre de gelo – é realmente espantoso”, disse ele. “É um barômetro da mudança climática, mas também um ponto de inflexão para a região, pois a vida agora tem um ponto de apoio lá.”

A aceleração na propagação dos musgos a partir de 2016 coincide com o início de uma diminuição acentuada na extensão do gelo marinho ao redor da Antártida. Mares abertos mais quentes podem estar levando a condições mais úmidas que favorecem o crescimento das plantas, disseram os pesquisadores. Os musgos podem colonizar rochas nuas e criar a base de solos que, junto com as condições mais amenas, podem permitir que outras plantas cresçam.

O Dr. Olly Bartlett, da Universidade de Hertfordshire e também colíder do novo estudo, disse: “O solo na Antártida é, em sua maioria, pobre ou inexistente, mas esse aumento na vida vegetal adicionará matéria orgânica e facilitará a formação do solo. Isso aumenta o risco de espécies não nativas e invasoras chegarem, possivelmente trazidas por ecoturistas, cientistas ou outros visitantes ao continente.”

Um estudo em 2017 mostrou que a taxa de crescimento do musgo estava aumentando , mas não avaliou a área coberta. Outro estudo, em 2022, mostrou que as duas plantas nativas com flores da Antártida estavam se espalhando na Ilha Signy, ao norte da península Antártica.

Algas verdes também estão florescendo na superfície da neve derretida na península. Árvores estavam crescendo no polo sul alguns milhões de anos atrás, quando o planeta não tinha tanto CO 2 na atmosfera quanto tem hoje.

Natália Soares se firma como principal liderança da esquerda em Campos dos Goytacazes

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Não vou me ater a uma análise global das eleições municipais que acabam de selar a reeleição de Wladimir Garotinho e da formação, em tese, de uma sólida bancada governista na Câmara Municipal de Campos dos Goytacazes.  O meu propósito aqui é enfatizar algo que as análises rasteiras que ando lendo sobre os resultados eleitorais estão tratando de esconder.

Falo da impressionante votação obtida pela Professora Natália Soares (PSOL) que obteve impressionantes 3.583 votos com uma campanha propositiva, bem humorada, barata, e que foi capaz de angariar votos por diferentes partes do município.   Uma votação histórica, mas que não logrou obter o objetivo de colocar a Natália em uma das cadeiras da próxima legislatura.

Apesar do aparente fracasso, uma coisa é certa: se a esquerda campista precisava de uma liderança para avançar suas pautas, ela agora já existe e está sedimentada eleitoralmente. 

Mas como superar o bloqueio histórico que impede a esquerda campista de vencer, não apenas no número de votos, mas também consolidação de um campo político que faça avançar as demandas em prol dos segmentos mais pobres da população?  

Eu diria que existem vários passos básicos, mas o principal é de que se reconheça que Natália Soares sintetiza as expectativas e esperanças por mudança, começando pelo próprio PSOL cujo diretório municipal parece ainda não entender a força eleitoral que possui em seus quadros.  O segundo é que os partidos que se dizem de esquerda na cidade deixem de ser partidos eleitorais que só se mexem a cada dois anos, enquanto as diferentes matizes da direita fazem um trabalho diuturno para manter o status quo vigente totalmente intacto e impermeável a qualquer compromisso com a democratização do orçamento municipal.

Além disso, eu diria que é preciso que a própria Natália rejeite os caminhos tortuosos que figuras como Marcelo Freixo e Guilherme Boulos, cada um em seu estilo, adotaram para se tornarem elegíveis e palatáveis para as classes dominantes.  Mas se ela mantiver a firmeza de compromisso e avançar na sua compreensão sobre sua própria estatura política, é possível que estejamos vendo o nascimento de uma liderança com raízes efetivamente populares e sem qualquer cabresto em relação às dinastias familiares que controlam a vida política em Campos dos Goytacazes desde sempre.

Como a Natália é uma pessoa leve e descontraída, eu aproveito para repetir a ele uma frase saída do livro “O Pequeno Príncipe” de Antoine de Saint-Exupéry: Tu deviens responsable pour toujours de ce que tu as apprivoisé  ou em bom português ”tú te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”. E o que ela cativou não é pouco: esperança por dias melhores.   

Tom da Ciência traz Carlos Eduardo Rosa Martins falando sobre a relação China-EUA

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O Tom da Ciência é um projeto realizado no âmbito do Laboratório de Estudos do Espaço Antrópico (LEEA) da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcu Ribeiro (Uenf), sob coordenação do professor Marcelo Carlos Gantos.  O projeto envolve ouvir pesquisadores em diferentes níveis de desenvolvimento de suas carreiras acadêmicas sobre tópicos de interesse para uma ampla gama de ouvintes, dentro e fora do mundo acadêmico.

Posto abaixo uma entrevista realizada com o Professor Carlos Eduardo Rosa Martins, do Instituto de Relações Internacionais e Defesa (Irid) da Universidade Federal do Rio de Janeiro sobre um tópico “quente” na conjuntura atual que é a relação entre China e EUA, e seus impactos no sul Global, e especialmente na América Latina.

Posto abaixo os 6 vídeos em que o pessoal do Tom da Ciência dividiu essa interessante entrevista.

Uma conversa pós-eleição bem esclarecedora na bomba de gasolina

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Há quem diga que os membros da classe trabalhadora não possuam a devida consciência sobre os limites das eleições burguesas como a que ocorreu no dia de ontem, onde teoricamente cada cabeça é um voto, tornando o processo em algo democrático. 

Ao abastecer meu veículo no início desta tarde, fui perguntado pela pessoa que me atendia se eu havia ficado satisfeito com os resultados da eleição para a Câmara de Vereadores. Em vez de dar uma resposta imediata, perguntei a quem me inquiria como ela mesma via o resultado, e se algo mudaria em sua vida e a da sua família com o novo plantel de vereadores eleitos ou reeleitos no dia de ontem.

Após enumerar as dificuldades vividas em seu bairro, a pessoa que me inquiria e foi por mim inquirida me contou a história de um vereador reeleito que tinha conseguido se eleger anteriormente com o apoio massivo de seus vizinhos, mas que havia sumido logo após o pleito de 2020.  Segundo ela, por causa do sumiço, a votação deste ano do referido vereador teria diminuído bastante, o que demonstraria para ela que, pelo menos, os vizinhos tinham aprendido algo com o sumiço do vereador.

Perguntei a ela sobre como estavam coisas básicas no bairro dela, apenas para ouvir que tudo se encontrava muito precário, a começar pela escola das suas duas crianças pequenas, mas também passando por coleta de lixo, abastecimento de água, tratamento de esgoto, e serviços de saúde, etc. etc.  Aproveitei para perguntar se algum vereador teria aparecido nos últimos quatro anos para ver como as coisas andavam.  A resposta foi um lacônico:  ninguém apareceu por lá para fiscalizar o quer que fosse.

Por outro lado, me foi dito com algum desdém que ainda há quem venda o voto por um mero sacolão, o que mostraria para minha interlocutora que não falta quem não entenda o que valor do voto, já que ninguém dá sacolão à toa. 

A conversa seguiu até um ponto em que eu enumerei os aspectos negativos para o controle das ações de um prefeito por conta do fato da maioria dos vereadores serem de apoio ao prefeito. Argumentei com ela que sem uma Câmara que fiscalize, as chances de que qualquer prefeito vá governar de acordo com suas promessas diminui exponencialmente. Minha interlocutora aquiesceu dando de ombros, em um sinal de que concordava.

Como eu tinha que partir e deixar minha interlocutora com seus afazeres, perguntei se eu tinha dado uma resposta clara à pergunta dela. A resposta foi que sim.  Depois disso, segui o meu caminho. Mas sai do posto de combustíveis com a certeza de que uma parcela da população entende muito mais a situação do parece aos analistas de plantão.

Bagaço de cana é usado para descontaminação de água

bagazo-cana-1-996x567Os rejeitos de minas contaminam as águas com metais pesados ​​que geralmente são difíceis de remover com tecnologias convencionais. Crédito da imagem: Carol Stoker, NASA , imagem em domínio público.

O aparelho, feito com bagaço de cana, é acoplado ao cano ou filtro de cerâmica ou argila, fazendo a ligação entre o encanamento e o dispositivo de filtragem da casa.

Em Ouro Preto, a mineração, que remonta ao século XVII, deixou um rastro de águas subterrâneas contaminadas com chumbo , ferro, manganês e arsênico. Um risco para a vida da maioria dos seus cerca de 75 mil habitantes. O arsênico, por exemplo, é extremamente tóxico e difícil de ser retido com carvão ativado, tecnologia convencional utilizada pelas estações de tratamento.

“São populações em situação de vulnerabilidade , que ainda captam água sem tratamento de poços artesanais ou torneiras públicas históricas, e que podem estar expostas a águas contaminadas”, diz o químico e engenheiro ambiental Leandro Vinícius Alves Gurgel, da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). ).

Para dar uma solução alternativa ao problema da poluição, desde 2018 ele e sua equipe visitam residências cuja água, extraída de fontes alternativas, é suspeita de estar contaminada ou conter contaminantes identificados.

“São populações em situação de vulnerabilidade, que ainda recolhem água não tratada em poços artesanais ou torneiras públicas históricas, e que podem estar expostas a água contaminada.”

Leandro Vinícius Alves Gurgel, químico e engenheiro ambiental da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP)

Para analisar as amostras de água coletadas , os pesquisadores medem 24 parâmetros, entre componentes biológicos e químicos, como cádmio, cobre, chumbo e arsênico.

Para potencializar a ação do bagaço de cana como adsorvente – ou seja, sua capacidade de reter partículas –, os cientistas fizeram modificações em sua estrutura, fixando moléculas orgânicas que possuem afinidade química com o poluente a ser eliminado.

“Fixadas em um material sólido, no caso o bagaço, essas moléculas retêm o contaminante”, explica o químico.

Além dos contaminantes que queriam eliminar, o laboratório também controlava os componentes que poderiam alterar o funcionamento da tecnologia . Ao medir a presença de cálcio e magnésio, por exemplo, descobriram que a quantidade desses componentes não interferia na adsorção de cádmio e cobre.

Foi assim que eles conseguiram o dispositivo. Depois de verificar a sua eficácia com as análises correspondentes – eliminação de 95 por cento de arsénico por 20-40 microgramas de água – os investigadores regressaram às casas das famílias envolvidas para instalá-lo.

O aparelho já está em nível de transferência de tecnologia e escala comercial. Para transferir tecnologia entre a universidade e as empresas interessadas, criaram a startup Aquaouro. Enquanto isso, farão algo inusitado no Brasil: esperam produzir entre 50 e 200 unidades do aparelho por mês na própria universidade.

Os pesquisadores optaram por não patentear o produto. Segundo eles, a tecnologia é um segredo comercial, “uma forma mais atrativa de atrair um parceiro que queira produzi-la em escala”, diz Gurgel.

Os pesquisadores esperam que o valor final do aparelho não ultrapasse R$ 100,00-150,00 por unidade (equivalente a US$ 20 – US$ 25), para que seja acessível ao maior número de famílias que dele necessitem, mas que seja acessível. dependerá, em última análise, do modelo de negócio adotado.

Carlos Eduardo de Rezende, pesquisador do Laboratório de Ciências Ambientais da Universidade Estadual do Norte Fluminense (LCA/UENF), que não faz parte do projeto da UFOP, considera a iniciativa relevante, dada a capacidade de filtragem de metais do aparelho e sua contribuição para a melhoria da qualidade da água que a população utiliza para seu consumo.

Porém, ele afirma que é importante que os pesquisadores estabeleçam a destinação do material filtrante após o uso, para não gerar outra fonte de contaminação.

“Embora seja biodegradável, por concentrar compostos indesejáveis, estes devem ter um destino para serem segregados adequadamente”, diz ao SciDev.Net o especialista em Ecologia Aplicada, Gestão e Conservação Ambiental de Recursos Naturais .

Leandro Gurgel explica que o arsênico removido será enviado para empresas fabricantes de concreto mecanizado, solução reconhecidamente segura, na sua opinião.

“Ao final de sua vida útil, quando o aparelho não consegue mais remover o arsênico, ele pode ser queimado para gerar energia, caso não contenha mais arsênico em sua composição. Se ainda sobrar resíduo, ele deverá ir para um aterro fiscalizado”, afirma.

Disputas pela água

A água de Ouro Preto deixou de ser gratuita, distribuída pela Prefeitura, para ser paga há quase cinco anos.

Vista panorâmica da cidade de Ouro Preto, no estado brasileiro de Minas Gerais. A mineração que remonta ao século XVII deixou um rastro de águas subterrâneas contaminadas. Crédito da imagem: Rosino/Flickr , licenciado sob Creative Commons CC BY-SA 2.0 Deed .

Desde que iniciou a sua actividade, em 2019, a Saneouro – concessionária responsável pelo abastecimento de água – encerrou o escoamento de água das minas próximas e passou a captar água de nascentes. No entanto, o serviço ainda não chegou a algumas áreas. As solicitações do SciDev.Net para saber o percentual de cobertura não foram atendidas pela empresa até o fechamento desta informação.

A privatização gerou disputas acirradas entre a população e a concessionária. Um grande número de moradores exige a remunicipalização do saneamento básico, para que o serviço volte a ser gratuito. Atualmente, em média, as contas variam entre R$ 300 a 1.400 por mês (aproximadamente US$ 50 a 250).

“Não sabemos que água estamos bebendo. A promessa de abastecimento universal ainda está pendente. Além disso, a água ainda não atende às necessidades de consumo e, mesmo assim, querem nos cobrar preços altos por um serviço de baixa qualidade”, aposentou Luiz Carlos Teixeira, 60 anos, coordenador da Federação das

A poluição por metais é complexa porque tem efeitos a longo prazo na saúde , podendo causar danos ao fígado, rins e pele, bem como alterações neurológicas. Não há números oficiais de vítimas dessas contaminações, mas relatos de moradores sugerem uma suposta correlação.

“Há duas semanas houve um surto de diarreia no bairro Pocinho e os vizinhos suspeitam que foi por causa da água”, relata Angelo Lucas Sobrinho, 33 anos, morador da região central da cidade. “Mas isso pode ser um vírus, não relacionado à água.”

Nascido no Espírito Santo, Angelo Sobrinho chegou à cidade há quatro anos para fazer doutorado na UFOP e é a favor da privatização do abastecimento e de soluções alternativas para o problema da poluição. Mas ele ressalta que ainda é preciso informar melhor a população local. “É preciso conscientizar as pessoas sobre as vantagens de uma água de qualidade”, acrescenta.

Carlos Eduardo de Rezende, da UENF, explica que a privatização dos sistemas de tratamento e abastecimento de água passa por uma grave crise de desconfiança pública devido à falta de transparência sobre a qualidade química da água.

“ As empresas devem disponibilizar uma base de dados sólida da água captada, bem como da água fornecida à população, e todo o processo deve ser rigorosamente fiscalizado pelos órgãos públicos competentes”, conclui.


Fonte:  SciDev.Net

Eleições 2024: dinheiro é importante, mas não é tudo

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Por Douglas Barreto da Mata

Uma das principais lições que ficam nas eleições de Campos dos Goytacazes é de que o poder econômico, empregado em uma escala jamais vista na história da cidade, pelo grupo de oposição ao prefeito reeleito Wladimir Garotinho, pode muita coisa, mas não alcança tudo.

O resultado da oposição foi um fiasco, contabilizado como um todo, desde a candidata principal, a Delegada Madeleine, até as candidaturas auxiliares, como o PT e outros mais insignificantes.

Na eleição parlamentar, a oposição elegeu apenas 06 vereadores, e o atual Presidente da Câmara, o vereador Marcos Bacellar, irmão do Presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), liderança maior entre os oposicionistas, e grande artífice da estratégia eleitoral do seu grupo, ficou com a terceira colocação entre os mais votados.  Pouco, muito pouco para quem personificou a disputa com o atual Prefeito.

Voltando para a eleição majoritária, parece certo que não se pode imaginar que qualquer pessoa seja capaz de levar adiante um projeto político de tamanha envergadura, isto é, se eleger e governar Campos dos Goytacazes, mesmo que infindáveis recursos sejam colocados à sua disposição.

Eventos isolados, como eleições de um Wilson Witzel, ou mesmo de um Rafael Diniz não são regras, são exceções que as confirmam. Curiosamente, Witzel e Rafael mostraram que ganhar é até possível, mas governar, de maneira estável, quando eles significavam um descolamento total da política, sendo os arautos da antipolítica, seria uma tarefa pouco provável de ser cumprida. De fato, Witzel caiu, e Rafael sangrou o mandato todo, até ser execrado como o pior prefeito da história.

A delegada, além de não reunir carisma suficiente para o que lhe era exigido, faltava a ela traquejo, embocadura para uma luta dessa grandeza, e nem se encontrava em um momento conjuntural excepcional, como aqueles que elegeram Rafael, Witzel ou outros casos parecidos.

Enfrentar o legatário de uma dinastia que elegeu o pai prefeito, deputado estadual e federal, governador por duas vezes, a mãe governadora por duas vezes, e prefeita por dois mandatos também, além do fato de que boa parte dos outros prefeitos e deputados locais derivaram desse clã, e imaginar que bastava duas ou três frases de efeito, feitas para agradar audiência de palestras de “treinamento” (“coach”, argh!!!) é de uma ingenuidade atroz.

A correlação dos eleitos para Câmara indica que o Prefeito Wladimir terá um segundo mandato mais tranquilo, desde que confirme o aprendizado da sua relação com a casa de leis na desastrosa antecipação da eleição da mesa diretora, quando levou uma rasteira de alguns de seus aliados.

Agora, uma nota triste para a esquerda local.  O PT, como previsto, fez a campanha mais vergonhosa da sua história, menos pelos parcos votos para prefeito e vereadores, mas muito mais pela sua impostura política, funcionando como legenda de aluguel da extrema-direita, em troca sabe-se lá do quê, e o que quer que tenha sido, não foi suficiente para tirar o partido do atoleiro. 

O texto do meu amigo George Gomes Coutinho, em um jornal local, desvendou aquilo que mantém o PT local sem qualquer chance de ser considerado uma força política de relevo.

Simplificando o que ele disse, é como se o PT vivesse no auge a Era Vargas, e tentasse conter essa hegemonia avassaladora se unindo a monarquistas escravagistas, imaginando que isso lhe daria espaço para avançar com uma proposta mais progressista que a organização do trabalho feita por Vargas na época.

A coordenação de campanha, que contava com a eleição de um vereador para justificar essa linha de atuação horrorosa, ficou sem argumento algum.  O candidato que era o líder dessa aposta, assessor de um deputado federal petista, e que contou com todos os beneplácitos da coordenação de campanha, para a insatisfação de todos os demais, somou pouco mais de 600 votos, desempenho sofrível.  Não houve qualquer eleito entre os petistas.  É preciso dar nomes e rostos a essa tragédia petista, e todos ali sabem quem são.

A incapacidade de articulação isolou o PT do PSOL, o que deixou uma candidata com mais de 3.500, a Professora Natália, sem mandato, apesar da votação fantástica. Como diz o antigo ditado, dos tempos da ditadura, esquerda junta só no bar ou na cadeia.

Já a deputada estadual petista Carla Machado, protagonista de uma traição indizível ao seu partido, e que embarcou na canoa furada da delegada, além de pouco somar a ela, ainda viu seu irmão ficar abaixo de 1.200 votos. 

É, definitivamente, as urnas mostraram a esse pessoal que planos mirabolantes para transferência de votos precisam de um detalhe importante para darem certo: convencer o eleitor.

A população parece ter respondido como a maioria dos analistas, pesquisadores e “pitaqueiros” (como eu) diziam.

A combinação de um antecessor cuja administração foi um fracasso colossal, junto a expertise de um atual prefeito que domina as mídias e as formas de articulação política, além da ineficiência completa da oposição, mesmo que de posse de recursos gigantescos, deram um resultado que confirma que o eleitor faz seu cálculo político dentro de um esquema com expectativas realistas.

Por outro lado, deve ter ensinado ao PT, e ao resto da esquerda, que não adianta brigar com esse senso (comum), usando da conhecida arrogância em desconhecer que o eleitor, a seu modo, ou sabe o que quer, ou sabe o que não quer.  E o eleitor campista, não quer o PT que parece também não querer o eleitor, no melhor estilo do “dois bicudos que não se beijam”.

Assim como ensinou ao grupo da delegada que dinheiro altera a realidade, mas não toda a realidade.

Sujeira pelas ruas mostra que candidatos tiveram muito dinheiro, mas não tiveram pernas

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Vive em Campos dos Goytacazes desde 1998 e já presenciei muitas campanhas eleitorais para prefeito e vereador, mas esta manhã tornou a atual certamente a mais capaz de jogar sujeira pelas ruas na forma de santinhos de campanha.  Pobres do pessoal da limpeza urbana que terá uma tarefa dura que será a de livrar nossas praças, ruas e avenidas de toneladas de materiais de campanha que foram despejados de sábado para domingo em uma prova de que verbas eleitorais nem sempre se traduzem em melhores práticas de urbanidade.

Por outro lado, o que todo esse material jogado ilegalmente pelas vias públicas mostra é que teve candidato com dinheiro de mais e pernas de menos para fazer sua mensagem chegar ao eleitor campista. É que todo esse material impresso é caro, pois a maioria é de alta qualidade gráfica.

O que me deixa um pouco curioso se refere ao controle dos gastos de campanha, pois existem limites declarados e o que se vê pelas ruas é que não houve o menor esforço para se evitar o desperdício. Como a maioria dos candidatos não tem dinheiro pessoal para investir na impressão desses materiais, a pergunta que fica é de onde saiu tanto recurso para ser investido em algo que agora não passa de lixo eleitoral.

Mas o fato é que esse desperdício todo apenas reflete uma campanha eleitoral rica que foi muito pobre no debate necessário para fazer a cidade de Campos mais democrática e menos socialmente injusta. Uma prova cabal da falta da fraqueza da nossa democracia. Vida que segue em meio a desafios cada vez maiores e que não couberam nem nos vistosos programas de TV nem no lixo que agora cobre nossas ruas.

Mais de 90% do desmatamento na Amazônia são para abrir pastagens

MapBiomas indica que esmagadora maioria da área desmatada na Amazônia entre 1985 e 2023 foi ocupada por pastagem, crescimento superior a 360%

QUE1 QUERÊNCIA 29/01/2008  VIDA &amp; DESMATAMENTO QUERÊNCIA MATO GROSSO  . FOTO: JF DIORIO/AE

Por ClimaInfo

O desmatamento da Amazônia nas últimas quatro décadas está intimamente relacionado ao avanço das pastagens sobre o território do bioma. Segundo uma nova análise divulgada pelo MapBiomas nesta 5a feira (3/10), cerca de 90% da área desmatada entre os anos 1985 e 2023 foi ocupada por pasto, que saltaram de 12,7 milhões de hectares (ha) para 59 milhões de ha, um crescimento de mais de 363%.

A partir de imagens de satélite, o MapBiomas conseguiu reconstituir as mudanças de uso da terra na Amazônia ao longo do tempo, de forma a compreender como a terra desmatada foi ocupada nos anos subsequentes. Do desmatamento ocorrido entre 1987 e 2020, 77% viraram pasto e apresentaram o mesmo uso em 2020.

Já 12% das áreas desmatadas tiveram como primeiro uso a pastagem, mas em 2020 voltaram a ter vegetação nativa. A agricultura passou a ocupar 8% da área desmatada originalmente para pecuária, além dos 2% utilizados permanentemente para produção agrícola.

Uma das regiões com maior transformação de floresta em pasto é a fronteira do desmatamento do sul da Amazônia, que compreende áreas do Acre, Amazonas e Rondônia (AMACRO). Nela, a área de pastagem aumentou 11 vezes, uma expansão de 6,9 milhões de ha, ou quase a totalidade dos 7 milhões de ha de vegetação nativa perdidos entre 1985 e 2023. Nesse período, 13% da perda líquida de vegetação nativa ocorreu nesta região.

Já a área utilizada pela agricultura na Amazônia teve um crescimento ainda mais notável: de 154 mil ha em 1985 para 7,3 milhões em 2023, um salto de 4.647%. Por outro lado, o desmatamento para uso direto da produção agrícola vem caindo significativamente desde seu auge em 2004, quando foram desmatados 147 mil ha para esse fim. O MapBiomas sugere que a queda é reflexo direto da moratória da soja.

O avanço das pastagens e dos campos agrícolas teve como custo a perda monumental de vegetação nativa na Amazônia. De acordo com o MapBiomas, nos últimos 39 anos, foram perdidos 55,3 milhões de ha de área ocupada pela flora nativa amazônica, cerca de 14% da vegetação total original. Desse total, mais de 50 milhões de ha eram de formação florestal, o tipo de cobertura vegetal que mais perdeu área nesse período, passando de 336 milhões de ha para 285,8 milhões de ha.

“A quantidade de vegetação nativa removida nos últimos 39 anos é alarmante e a continuidade dessa perda pode levar a região ao chamado ‘ponto de não retorno’, ou tipping point”, observou Jailson Soares, pesquisador do IMAZON e do MapBiomas. “Nesse estágio, o bioma perderia sua capacidade de manter funções ecológicas essenciais e de se recuperar de distúrbios como queimadas e exploração madeireira, resultando em uma degradação irreversível da floresta”.

Os dados do MapBiomas foram destacados por diversos veículos, como CartaCapitalCNN Brasilg1MetrópolesO GloboPoder360Um Só Planeta e UOL.

ClimaInfo, 4 de outubro de 2024.

Divulgando o livro “Cartografia Social da Pesca Artesanal nos Alagados do rio Itabapoana”

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O livro “Cartografia Social da Pesca Artesanal nos Alagados do rio Itabapoana” que documenta e valoriza a cultura e a economia das comunidades pesqueiras acaba de ser lançado pela organização não-governamental “Restauração e Ecodesenvolvimento da Bacia Hidrográfica do Rio Itabapoana (REDI)“. Ao compartilhar as histórias, práticas e desafios dos pescadores,  a REDI espera contribuir para a conservação deste modo de vida essencial e incentivar práticas de pesca mais sustentáveis.

A REDI aponta que a luta pela conservação da pesca artesanal é também uma luta pela justiça social, ambiental e contra o avanço da crise climática, na esperança de que as futuras gerações possam viver e prosperar nas águas do rio Itabapoana.

Este livro foi desenvolvido pela REDI, com o apoio do Fundo Casa Socioambiental @fundocasasocioambiental, por meio do edital “Fortalecendo Comunidades para Conservação e Revitalização da Mata Atlântica e Resiliência Climática”. 

Baixe o livro completo no site da REDI [Aqui! ].

Quando o Porto do Açu se encontra com o “Expulsões” de Saskia Sassen

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Agricultores do V Distrito resistindo ao processo de expulsão promovido para beneficiar o Porto do Açu

Em meio à minha constante procura por produções intelectuais que me ajudem a ir além do que já li. Com isso, acabei de me deparando com o livro da socióloga holandesa Saskia Sassen que se chama “Expulsões:  brutalidade e complexidade na economia global que foi lançado no Brasil pela editora Paz e Terra.

Expulsões, de Saskia Sassen, por Debora Diniz - Grupo Editorial Record

Este livro de Sassen é um esforço analítico para compreender como a financeirização da economia capitalista abriu caminho para mecanismos de apropriação e expropriação de todo tipo de bem, incluindo a terra.  Todo esse processo serve aos processos de acumulação de riqueza por um grupo cada vez menor de pessoas e empresas que se encontram dispersas em diferentes pontos do planeta, mas que, invariavelmente, agem para deslocar multidões de seus territórios tradicionais para o estabelecimento de grandes projetos econômicos, principalmente aqueles voltados para a mineração e a implantação de grandes áreas de monoculturas, seja de alimentos, carne ou árvores.

Quando comecei a ler o “Expulsões” encontrei passagens que, apesar da escala em que o fenômeno aconteceu, são perfeitas para explicar o processo de expropriação de terras que ocorreu no V Distrito de São João da Barra para a implantação do Porto do Açu.  É interessante notar que nos casos analisados por Sassen não aparece nenhum envolvendo portos, e eu desconfio que tem a ver com a novidade que são as expropriações de terras para implantação de estruturas portuárias no sul Global.   E apenas no caso do Brasil podemos citar os casos dos portos do Açu (RJ), Pecém (CE), Suape (PE) e Sudeste (RJ).

A coisa simplesmente ainda não estava acontecendo ou sendo detectável quando Sassen escreveu o “Expulsões”.  Isso em parte é bom porque me permitirá alavancar as análises sobre o papel desses empreendimentos portuários, mesmo porque eles estão diretamente articulados com as causas primárias das expulsões de Sassen. É que esses portos estão destinados a serem o ponto de transbordo das produções que ocorrem nos territórios onde as expulsões ocorrem.  É uma espécie de articulação que merece ser melhor compreendida e analisada.

O papel da aquisição de terras por empresas estrangeiras na desarticulação do Estado nacional

Uma das elaborações de Sassen que mais me chama atenção no seu “Expulsões” é da conexão que ela faz entre o controle de terras por empresas ou fundos de investimento (como é o caso do EIG Global Partners que detém a propriedade do Porto do Açu) na criação de um “buraco estrutural no tecido do território nacional soberano”. 

Nesse sentido, vejam o que Sassen diz:

“Em conjunto, essas aquisições de terras em grande escala produziram um espaço operacional global que está parcialmente incorporado aos territórios nacionais. Eles produzem uma desnaturalização parcial e profunda no tecido dentro dos Estados nacionais, um buraco estrutural no tecido do território nacional soberano. Vejo a aquisição de terras por estrangeiros como um dos vários processos que desagregam o território nacional. Os contratos criados para essas aquisições tornam-se capacidades de uma lógica organizadora desarticulada do Estado nacional, apesar de essas aquisições operarem dentro de seu território. Além do mais, muitas vezes os contra os interesses de grande parte da população e do capital local, que teria muito mais probabilidade de gerar ciclos positivos de retroalimentação em diversas do país…”

Assim ainda que o montante terras efetivamente desnacionalizado no V Distrito seja relativamente pequeno em relação ao estoque global, toda a experiência do Porto do Açu me mostra que este já é suficiente para gerar o impacto diagnosticado por Saskia Sassen.  Assim, o que temos é a imposição de uma lógica que se coloca de fora do Estado nacional brasileiro, implicando na criação de um enclave geográfico que opera por fora da soberania nacional.  E o mais grave, contra os interesses da população local que, diga-se de passagem, continua até hoje sem receber o devido ressarcimento pela tomada de suas pequenas propriedades.