Descoberto no RS um dos mais antigos precursores dos dinossauros

Paleontólogo do CAPPA/UFSM descreveu nova espécie de réptil que viveu há 237 milhões de anos

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Detalhes do “Gondwanax paraisensis” (Ilustração: Matheus Fernandes Gadelha)

Um paleontólogo da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) publicou na última semana um estudo no periódico científico Gondwana Research descrevendo uma nova espécie de réptil que viveu há 237 milhões de anos. O animal traz novas pistas sobre a origem dos dinossauros. O artigo intitulado “A new ‘silesaurid’ from the oldest dinosauromorph-bearing beds of South America provides insights into the early evolution of bird-line archosaurs” pode ser acessado gratuitamente pelo link.

O surgimento dos dinossauros foi um dos processos evolutivos mais importantes da história da vida na Terra, uma vez que esses répteis dominaram os ecossistemas terrestres por mais de 150 milhões de anos. Entretanto, a ascensão dos dinossauros ainda é um tema muito desafiador de se investigar, especialmente pela escassez de fósseis de seus precursores. O Brasil é conhecido mundialmente por abrigar alguns dos mais completos e bem preservados fósseis dos mais antigos dinossauros do mundo, com aproximadamente 230 milhões de anos. Por outro lado, embora essenciais para se entender a origem do grupo, fósseis de precursores de dinossauros mais antigos ainda são muito raros.

Compreender como foram os precursores dos dinossauros poderá ajudar a entender quais as características que foram cruciais para a o seu sucesso evolutivo. Ao longo dos últimos anos, foram reportados achados desse tipo para camadas fossilíferas com aproximadamente 237 milhões de anos no Brasil. Contudo, esses fósseis são usualmente fragmentários e pouco informativos.

foto colorida quadrada com um homem de barba e camiseta branca manuseando e tendo à frente um esqueleto sobre uma bancadaRodrigo Temp Müller com o fóssil do “Gondwanax paraisensis” (Foto: Janaína Brand Dillmann)

Fósseis foram doados para o CAPPA/UFSM

Uma adição a esse cenário se deu agora com a descrição de uma nova espécie chamada de Gondwanax paraisensis. Os fósseis da nova espécie foram descobertos no município de Paraíso do Sul por Pedro Lucas Porcela Aurélio. Depois de recolhidos, os materiais foram doados por Aurélio para o Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica (CAPPA/UFSM) em janeiro de 2024.

Durante a triagem dos fósseis recebidos pelo CAPPA/UFSM, o paleontólogo Rodrigo Temp Müller notou alguns elementos com características interessantes. O paleontólogo levou os materiais para o laboratório e iniciou um minucioso trabalho de preparação, com uso de ácido e marteletes pneumáticos. Após dias de trabalho, parte do esqueleto de um réptil até então desconhecido foi finalmente revelada. Uma descrição formal da espécie e suas implicações foram apresentadas em um artigo científico publicado por Müller no periódico Gondwana Research. A pesquisa recebeu apoio do CNPq e INCT Paleovert.

Os detalhes do esqueleto fossilizado sugerem que o material pertence a um animal da linhagem dos dinossauros, podendo ser um dinossauro propriamente dito ou um parente muito próximo. Com aproximadamente 237 milhões de anos, esse é um dos fósseis mais antigos dessa linhagem já descobertos. Com base nas dimensões dos elementos preservados, estima-se que o Gondwanax paraisensis teria atingido cerca de um metro de comprimento. Uma vez que não foram recuperados dentes ou outros elementos cranianos, não foi possível inferir seus hábitos alimentares. Ainda assim, a maioria dos animais relacionados a ele foram herbívoros ou onívoros, o que torna bastante provável que ele também tivesse esse tipo de dieta. Quanto ao nome, “Gondwanax” significa “lorde do Gondwana”, referindo-se ao futuro domínio que os dinossauros exerceriam na porção de terra conhecida como Gondwana (região Sul do Supercontinente Pangeia). Já “paraisensis” é uma homenagem ao município de Paraíso do Sul.

Importância do Brasil no cenário internacional

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Fêmur do “Gondwanax paraisensis” (Foto: Rodrigo Temp Müller)

Gondwanax paraisensis foi classificado como membro do grupo denominado “Silesauridae” devido a características diagnósticas presentes no fêmur (osso da coxa). Contudo, existe um debate sobre a posição que os “silessaurídeos” ocupavam na árvore evolutiva dos dinossauros. Alguns pesquisadores acreditam que esses animais podem ter sido precursores muito próximos dos dinossauros, enquanto outros sugerem que, em vez de precursores, eles eram dinossauros verdadeiros. Esse conflito de hipóteses ocorre justamente porque os “silesaurídeos” apresentam características típicas de dinossauros, mas também possuem algumas que ainda parecem bastante primitivas.

Essa condição é observada nos elementos ósseos de Gondwanax paraisensis. Por exemplo, o fêmur não apresenta uma das principais cristas para ancoragem de músculos, que é comum em dinossauros. Já o seu sacro (região que conecta a cintura com a coluna) parece bastante avançada, uma vez que apresenta mais vértebras do que outros “silessaurídeos” com idade similar. Essa incomum combinação de características pode indicar que o Gondwanax paraisensis locomovia-se de maneira distinta dos outros precursores dos dinossauros. Ainda, a ocorrência do Gondwanax paraisensis em camadas fossilíferas que já haviam revelado outros fósseis de “silessaurídeos” indica que esses dinossauromorfos
foram bastante diversos, mesmo durante as fases iniciais da evolução do grupo.

A descoberta do Gondwanax paraisensis em rochas com aproximadamente 237 milhões de anos na região central do Rio Grande do Sul destaca a importância do Brasil no cenário internacional do estudo da origem dos dinossauros. Enquanto há cerca de 10 anos os fósseis de dinossauros eram comemorados com enorme entusiasmo pelos paleontólogos que realizavam escavações no Rio Grande do Sul, hoje eles se tornaram
mais abundantes, levando os pesquisadores a buscar vestígios ainda mais antigos, como o Gondwanax paraisensis. O achado demonstra que, além de preservar alguns dos dinossauros do mundo, o Brasil também abriga fósseis dos répteis que marcaram o início da história evolutiva dos dinossauros, revelando detalhes até então desconhecidos dessa trajetória que transformou os ecossistemas terrestres durante a Era Mesozoica.

Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica

Os restos fósseis do Gondwanax paraisensis, assim como uma série de outros fósseis, estão depositados no Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica (CAPPA/UFSM) que fica localizado no município de São João do Polêsine. O município faz parte do Geoparque Quarta Colônia
Unesco. No centro de pesquisa há uma exposição de fósseis que pode ser visitada sem custo.

Fonte: CAPPA/UFSM


Fonte: UFSM

Das formas de atuar em contextos de sofrimento

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Por Luciane Soares da Silva

Uma das questões que permearam a XI Jornada do Programa de Pós Graduação em Políticas Sociais que ocorreu entre 08 e 09 de outubro de 2024 na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, foi como lidar com os tempos que virão. Em certo momento parecíamos compartilhar o mesmo sentimento de “andar em uma montanha russa”. Na qual olhávamos o Ocidente e toda sua arrogância histórica nas relações de poder com povos originários, mulheres, negros e outras minorias políticas e perguntávamos onde estaria a humanidade. Ao mesmo tempo, as mesas sobre mudanças climáticas trouxeram conhecimentos absolutamente urgentes para viver realidades globais nas quais já sentimos um cotidiano alterado. Clima, água, poluição. Entre uma esperança magrela e um desejo por melodias menos áridas, cumprimos a Jornada com a clareza de quem não busca falsos instrumentos de mitigação diante das emergências climáticas.

Ainda na mesma semana, transcrevi trechos das entrevistas que tenho feito em meu retorno a campo nas favelas do Rio de Janeiro. Ainda são apenas percepções. Mas relações entre milícia e tráfico, aumento do custo de vida e enfraquecimento das condições de luta contra violência do Estado têm chamado minha atenção. Sempre é um desafio descrever cenários de violência e minha orientadora  sugeriu o livro de Veena Das, “ Vida e Palavras, a violência em sua descida ao ordinário”. Estou avançando em uma leitura que trata do cotidiano e das palavras a partir de alguns eventos de sofrimento para sociedade indiana.  Não é recente meu interesse sobre territórios periféricos nestes dois países. No entanto a sensação de que algo escapa na tradução não só da língua mas da cultura permanecem ali, no meio de minha reflexão sobre Índia e Brasil.

Em uma segunda-feira após a ressaca eleitoral para cidade de Campos, torna-se um desafio sair do mundo para focar uma pesquisa na qual precisamos ouvir até que nosso objeto apareça. Para mim nunca foi fácil. E depois da crise vivida no Rio de Janeiro, sangrando o funcionalismo público, tornou-se quase impossível este afastamento. É como tentar sair do mundo e ser tragado por uma manchete que compromete sua capacidade de concentração.

No fim das contas, eu pensava sobre sofrimento cotidiano, terceirização de serviços essenciais, falta de luz em São Paulo, água de má qualidade em Campos. E compra de votos. O desafio em descrever realidades que são culturais e políticas estava ali cristalizado. Senti tremenda repulsa ao pensar na condição de famílias infectadas pelo HIV dentro de uma rede de relações, estranhas contratações e trágicas consequências em uma área tão séria como a de transplantes no Brasil.

No fim das contas, imagino que nosso lugar como cientistas resida no desafio de viver “os fins de mundo” diários sem abrir mão das trincheiras que passam por um investimento na capacidade de aproximação e afastamento. Não desmoronar enquanto uma tarefa de resistência.  E sequer acredito que seja uma tarefa para a qual estamos plenamente preparados. Não se pode ver pessoas queimando na Palestina e seguir nas redes sociais. Organizar a resistência diante das diferentes formas de sofrimento me parece urgente. Esta tarefa ao contrário de sua aparência, não está apenas no terreno dos afetos. Percebo a exigência de compreender os fenômenos em suas conexões. O que evita respostas fáceis de motivação mas também evita que se caia na visão apocalíptica à qual a classe trabalhadora não pode se dobrar.

Eu espero ver o fim do governo de Cláudio Castro. E espero algo melhor para o Estado do Rio de Janeiro. Cada sofrimento deve ter seu dia de acabar.

Escândalo na França: crianças doentes por exposição à agrotóxicos presentes em flores

A unidade de investigação da Rádio França e do Le Monde recolheu depoimentos dos pais de uma criança que morreu de leucemia, cuja mãe florista foi exposta a agrotóxicos durante a gravidez. Eles deploram a falta de regulamentação relativa à presença de pesticidas nas flores

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Por Radio France Internacional

Esta construção é um projeto que cinco de nós lançamos. Mas quando nos mudamos, restavam apenas quatro de nós .” Já faz quase um ano que Laure e François Marivain se mudaram para sua nova casa na região de Nantes, com seu filho de dezoito anos, Evan, e sua neta de nove, Perle. Uma nova história que se escreve com um vazio no meio, já que a irmã de Evan e Perle, Emmy, nunca poderá desfrutar do quarto cujo papel de parede floral escolheu. 

Emmy morreu em março de 2022, antes de comemorar seu décimo segundo aniversário. O fim de uma longa batalha contra a doença para ela, o início de outra para seus pais. Porque antes de morrer, Emmy fez a mãe prometer lutar para que “ todos saibam a verdade ”. Um momento “ atemporal ” para Laure. “ Ela me disse: ‘Mãe, você tem que lutar, porque não temos o direito de fazer isso com crianças. Não temos o direito de envenená-los . Então prometi a ele que faria tudo o que pudesse para provar a ligação entre a doença dele e meu trabalho como florista .”

Um vínculo que a jovem, há muito apaixonada pela profissão, levou anos para estabelecer. Quando engravidou de Emmy no final de 2009, Laure Marivain trabalhou como representante de flores para um atacadista , depois de vários anos em uma boutique, com uma florista artesã. Ela recebe os carrinhos de flores e folhagens, instalava as lixeiras nos armazéns, carregava todas as plantas em caminhões para entregá-las aos varejistas. Ela se considerava sortuda por trabalhar em contato com flores. Mas desde o início da gravidez, “ as coisas complicaram-se. Ganhei muito pouco peso e o meu bebê também ”. A jovem foi acompanhada de perto e rapidamente colocada em licença médica. O parto também foi difícil.

Placenta toda preta

Quando Emmy nasceu, ela não chorou. Ela estava toda roxa. O anestesista nos contou que tinha problema na placenta, que estava carbonizada, toda preta. E então seus resultados não foram bons. Uma parteira até me perguntou se eu havia tomado drogas durante a gravidez .” Mas Laure não usava drogas. Ela nunca fumou e não bebe álcool. Os únicos produtos tóxicos com os quais ela teve contato durante a gravidez estavam nas plantas que ela manuseava o dia todo, sem saber que poderiam representar risco à sua saúde e à do filho que carregava .

Na maternidade, Emmy acabou ganhando peso e foi deixada em casa. Ela cresceu, mas permaneceu em uma curva de crescimento baixa. “ Ela era uma menina dinâmica, sempre fazia o cata-vento ”, continua Laure. Mas aos três anos ela foi à escola pela primeira vez e começou a reclamar de dores, primeiro no cóccix, depois nos joelhos.”  A dor ósse a acordava à noite . A professora contou aos pais que Emmy estava adormecendo na aula e que estava sempre muito cansada. “ Nossa garotinha, que estava tão viva, estava morrendo .”

Em janeiro de 2015, Emmy foi examinada no pronto-socorro do Hospital Universitário de Nante : cintilografia óssea e radiografias. Naquela época, Laure já estava grávida de Perle. No final da tarde, ela estavadescansando em uma caixa quando o marido acompanhou Emmy para um exame final.   “Quando ele voltou, ele me disse: ‘É estranho, vi vários médicos chegando.’ E então começamos a pensar: uau, isso está ficando ruim”

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Flores não tão inofensivas

Laure e François foram atendidos por um oncologista pediátrico. “Nem sabíamos o que significava oncologia. Mas nós entendemos isso muito rapidamente . Disseram-nos para esperar um câncer grave. Minha primeira reação foi perguntar aos médicos: como é possível ter câncer aos quatro anos? Acabaram de nos dizer: é assim, a culpa é do azar. Mas hoje sei que não tem nada a ver com azar”.

Poucos dias depois, o diagnóstico foi confirmado. Emmy sofria de leucemia linfoblástica aguda B. Uma longa luta então começou. Emmy era hospitalizada regularmente. Quimioterapia, operações, transplantes. Emmy estava perdendo o seu cabelo. Durante sete anos, ela lutou contra a doença e contra a dor, que nunca a abandonou.

Os períodos de remissão eram de curta duração. Cada vez que ela interrompeu o tratamento, Emmy teve uma recaída. Em 2018. 2019 e  2021 . “ Na época da terceira recaída dela, comecei a perguntar, a cavar, porque senti que não era normal e descobri que meu trabalho poderia ter causado o câncer de Emmy” . Laure conduz sua própria investigação, para tentar entender. Ela descobriu que as rosas que semeou, os buquês de frésias nos quais adorava mergulhar o nariz, as flores exóticas que manuseou depois de comer seu pain au chocolat matinal, todas essas flores que ela tanto amava, talvez não fossem tão inofensivas. .

43 agrotóxicos diferentes

“Comecei a buscar informações sobre as flores, sobre sua origem, a forma como eram tratadas ”, conta a mãe de Emmy. E descobri uma situação desanimadora. Percebi que em um buquê pode haver 43 agrotóxicos diferentes. Entendi que as flores eram assassinas invisíveis”.

Para a jovem, foi um choque. “ Ninguém nunca me contou que as flores com as quais trabalhei foram tratadas com produtos tóxicos, principalmente com agrotóxicos proibidos que podiam fazer mal à saúde. Como eu poderia ter imaginado uma coisa dessas? Ninguém nunca me disse para lavar as mãos quando estava comendo, coçando o rosto ou assoando o nariz. Para mim, quando algo é perigoso, avisamos, informamos!”

Laure entrou então em contato com  a associação Phytovictimes , descoberta através de suas pesquisas na internet. Esta associação, que ajuda pessoas que sofrem de doenças ligadas aos agrotóxicos, aconselhou os pais de Emmy a contactar o Fundo de Indemnização às Vítimas de Agrotóxicos (FIVP), criado em 2020 pela lei de financiamento da segurança social, para que fosse reconhecida a ligação entre a doença de Emmy e a doença. sua exposição pré-natal a agrotóxicos. Em fevereiro de 2022, depois de reunir todos os documentos necessários, Laure apresentou o processo ao Fundo, enquanto o estado de saúde da menina piorou consideravelmente. Emmy está hospitalizada com problemas respiratórios. Ela morreu em 12 de março de 2022, aos onze anos.

Emmy est décédée à 11 ans des suites d’une exposition prénatale aux pesticides.
Emmy morreu aos 11 anos de exposição pré-natal a agrotóxicos.  © Rádio França – Marie Dupin

Em julho de 2023, um gestor do fundo telefonou para Laure para lhe dizer que a comissão responsável pela análise do processo de Emmy, composta por investigadores e médicos, tinha tomado a sua decisão. “Ele me disse que eles haviam reconhecido por unanimidade a ligação causal entre a morte de Emmy e meu trabalho como florista. Naquele dia a culpa foi enorme. Eu disse para mim mesmo: como pude ser tão ingênua! Fui eu quem envenenou a minha filha. Essa criança que eu tanto queria, eu causei a perda dela. Explodi de raiva. Falei para o médico: mas é envenenamento! Você percebe o que estamos deixando acontecer! E ele disse: ‘Não posso te dizer o contrário’.”

Mais riscos para os floristas do que para os agricultores

É esse descaso que os pais de Emmy querem denunciar hoje, através do seu depoimento. Porque o problema dos resíduos de pesticidas nas flores cortadas já está bem documentado. Um estudo científico belga conseguiu assim demonstrar o risco incorrido pelos floristas. Este estudo demonstra que os floristas estão expostos a níveis de pesticidas muito acima dos níveis considerados seguros para os trabalhadores. Para provar isso, cientistas belgas colheram um total de 42 amostras de urina de profissionais e formaram um grupo de controle.

“Este não é um risco potencial. Este é um risco comprovado”, explica o professor Bruno Schiffers, professor honorário da Universidade de Liège, que liderou este estudo. “ Conseguimos comprovar que os agrotóxicos ultrapassaram a barreira da pele e entraram no corpo. O risco para os floristas é ainda maior do que o incorrido pelos agricultores, porque estão expostos a um cocktail de numerosos agrotóxicos, com um número muito elevado de substâncias em cada ramo, incluindo substâncias proibidas na Europa. Porém, eles não são informados. Eles não usam equipamentos de proteção. Bebem e comem enquanto trabalham, sem saber que manipulam produtos tóxicos em grande quantidade e em alta concentração. E ao contrário dos agricultores, eles ficam expostos seis dias por semana, o dia todo, o ano todo!”, finaliza o cientista.

Falta de regulamentação na Europa

Ao contrário das frutas e legumes, não existem regulamentos europeus para flores que permitam a fixação de limites máximos de resíduos. Além disso, também não existe qualquer controle destes resíduos, especialmente nas flores importadas, que podem, no entanto, conter agrotóxicos cuja utilização é proibida na Europa e em grandes quantidades. 85% das flores vendidas na França são produzidas no estrangeiro, especialmente na África Oriental e na Colômbia. “Essas flores são potencialmente assassinas e ninguém avisa nem os consumidores nem os floristas, que são os primeiros a serem expostos ”, lamenta Laure.

O problema é, no entanto, perfeitamente conhecido das autoridades francesas, como demonstra uma resposta escrita de novembro de 2022, do Ministério da Agricultura francês , à pergunta de um senador sobre a “ toxicidade das rosas vendidas em França” . O Ministério da Agricultura admite assim que “há vários anos que estudos demonstram a presença regular, em plantas ornamentais, de resíduos de substâncias, algumas das quais não aprovadas na UE, em níveis por vezes elevados”. Uma situação que “ resulta em riscos para a segurança dos profissionais que manuseiam as plantas”.

Um risco comprovado para os trabalhadores, mas sem regulamentos para protegê-los. Tal como nos foi confirmado pela Pan-Europe, rede de ONG europeias que promove a adopção de soluções alternativas à utilização de pesticidas, e que contactou a Comissão Europeia sobre este assunto. “Na sua carta de resposta, datada de abril de 2022, a Comissão explicou que lançou um estudo para fazer o balanço da situação na Europa”, explica a rede de ONGs. Confirmou-nos que não existem atualmente disposições em matéria de rotulagem, nem quaisquer medidas específicas de mitigação de riscos nos Estados-Membros em relação a resíduos de agrotóxicos em flores, e especificou que nenhum Estado solicitou o desenvolvimento de legislação sobre este assunto”.

Desafiar os líderes políticos

Um tabu que deve acabar para Laure Marivain: “ É simples. Todo mundo sabe, mas ninguém faz nada. E durante esse período, há famílias que estão cumprindo penas de prisão perpétua. Porque ninguém nunca nos devolverá a nossa filha. Não trabalho mais em contato com flores, mas continuo em contato com os artesãos. Acima de tudo, não quero apontar-lhes o dedo, mas, pelo contrário, protegê-los.”

Com o marido, Laure apelou ao Tribunal de Recurso de Rennes para contestar a proposta de compensação do FIVP. Porque, segundo o advogado da família, Maître François Lafforgue, “ o Fundo manteve a ligação entre a morte de Emmy e a sua mãe, mas a sua oferta de indenização limita-se aos pais. Essa criança sofreu muito, mas há uma negação do dano dela, porque ela morreu”. A associação Phytovictimes apela às pessoas para que se manifestem em frente ao tribunal nesta quarta-feira, 9 de outubro de 2024 , “ para apoiar a família na sua luta”, e para “apelar aos líderes políticos e ao público em geral sobre esta questão amplamente ignorada”.

Procurados, o Ministério da Agricultura e a Federação dos Floristas não quiseram responder às nossas questões.


Fonte: Radio France Internacional

Uenf e a miragem da escola de cinema: o projeto de uma universidade que ensina javanês

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Darcy Ribeiro idealizou uma escola de cinema na Uenf, mas a realidade se mostrou mais desafiadora do que seus planos

Por Douglas Barreto da Mata

Há alguns anos atrás conheci um grupo de promissores estudantes da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), todos vinculados ao Centro de Ciências do Homem.  Parte desse grupo cumpriu a expectativa, e se consolidou como cientistas respeitáveis em suas áreas de estudo, mas acima de tudo, coerentes.  A outra parte decidiu aprender o javanês, alguns tiveram aulas até com o maior especialista na língua de Java, e se tornaram discípulos do grande Roberto Mangabeira Unger, o erístico.

Para quem não sabe, vale a pena pesquisar no Google, e descobrir esse saboroso conto de Lima Barreto, onde ele, com ironia fina, desvenda um personagem típico.  O homem que sabia javanês, em resumo, é uma fraude, que a todos engana com falsa erudição, palavreado rebuscado, modos janotas, e através desse engodo ascende socialmente. 

Ao ler sobre a intenção da atual reitoria da Uenf, e de um grupo de homens e mulheres que sabem o javanês em promoverem a instalação de uma “escola de cinema” ou de uma disciplina na grade curricular da Uenf nesta área, eu pensei:  Zeus, de onde vem essa gente?

Eu não vou abordar o tema pela ótica pessimista, pois amo cinema e seria um sonho realizado ter uma iniciativa bem sucedida desta natureza.  Sou um entusiasta da ideia, mas sei a diferença entre o delírio e a possibilidade, por mais remota que seja.

Vamos pela realidade mesmo.  Cinema é coisa cara, caríssima, e não à toa essa indústria é típica de países ricos, com raras exceções, como Argentina e Irã.  Outros países, como a França, além de ricos, cobram severos impostos dos filmes dos EUA, e estabelecem cotas de exibição de produções nacionais nas salas de exibição, TV e etc.  Com isso criaram um cinema francês.

Aqui, a menor menção de proteção a um mercado nacional cultural é uma heresia grave.  Dizer que 70 salas de exibição no passado ou citar locações de novelas e filmes como pontos de partida para instauração de um polo de cinema local é bizarro.  Acho que nem vale a pena comentar essa tolice, típica de gente que chora o fim de uma loja de livros escolares, chamada de livraria centenária, do tempo que só a elite sabia ler. 

Mesma coisa com o famoso Teatro Trianon, símbolo da exclusão cultural de um povo pobre, cuja elite caipira se esperava em copiar jeitos e trejeitos daquilo que almejava ser, cosmopolita. 

No atual estágio da indústria cinematográfica, o surgimento de um enclave de cinema aqui requer muita grana, muita mesmo, e não só de forma sazonal, mas perene, para que, talvez em dez ou vinte anos se estabeleça uma cadeia da atividade, que se constitui de técnicos, engenheiros, atores, diretores, roteiristas, produtores, etc.

Porém, não é só isso.  Um projeto dessa magnitude não pode repetir o erro de manter as classes populares fora da iniciativa, restringindo a política de cultura aos de sempre: ricos e seus sabujos da classe média.  Cabe ainda dizer que nenhum país ou região, que hoje são referências nesse setor, a indústria cinematográfica foi criada de forma instantânea, e sem contingentes históricos especiais e raríssimos.

Mesmo que chova dinheiro do BNDES, ou de investidores estrangeiros, ou que fizéssemos grandes festivais, mesmo assim isso não significa que faríamos cinema.  Gramado é famosa por seu festival e pela premiação.  Cannes idem.  Nenhuma das duas cidades produz cinema.

É preciso honestidade, seriedade e, mais que tudo, sinceridade para iniciar um processo com esta escala.  A Uenf mal consegue se manter de pé, como vai abraçar uma empreitada dessas? Será que o destino da universidade é institucionalizar aventuras?

Enfim, cabe perguntar, sem ofensas, mas por curiosidade:  Se Darcy Ribeiro, com seu nome e contatos, com sua força intelectual e sua legitimidade, não conseguiu, serão os que sabem javanês que o farão? Fica aí a sugestão de primeiro roteiro, sai até de graça, porque a obra de Lima Barreto já é de domínio público:  a universidade que ensina javanês.

Em Londres, BHP enfrentará 620.000 reclamantes em julgamento sobre rompimento da barragem de Mariana

Autores da ação buscam indenização de mineradora anglo-australiana por desastre ambiental ocorrido em 2015

cavalo bento rodriguesUm socorrista tenta salvar um cavalo em Bento Rodrigues após o rompimento da barragem de Fundão em novembro de 2015. Fotografia: Ricardo Moraes/Reuters

Por Daniel Boffey para o “The Guardian”

A mãe de um menino de sete anos que foi arrancado dos braços da avó e morreu afogado em um dos piores desastres ambientais do Brasil está entre os mais de 620.000 requerentes que terão seus casos ouvidos neste mês na maior ação coletiva da história jurídica inglesa.

Gelvana Aparecida Rodrigues da Silva, 37, perdeu seu filho Thiago em 5 de novembro de 2015 quando a barragem de Fundão, perto de Mariana, no leste do Brasil, rompeu, liberando cerca de 50 milhões de metros cúbicos de resíduos tóxicos .

Gelvana Aparecida Rodrigues da Silva com seu filho Thiago.

A avalanche de água atingiu a pequena comunidade de Bento Rodrigues em minutos, matando 19 pessoas, incluindo Thiago, que estava hospedado na casa da avó no momento do incidente

Gelvana Aparecida Rodrigues da Silva com seu filho Thiago. Fotografia: Apostila

“A avó dele disse que ele pediu por Jesus”, disse Da Silva sobre os momentos finais do filho. “Ele chamou por Jesus para salvá-lo. Mas eles foram despedaçados.”

O corpo de Thiago foi encontrado uma semana depois, a 60 milhas (100km) de distância. “Naquele momento, minha vida acabou”, ela disse. “Tudo mudou.”

Os rejeitos de minério de ferro armazenados na barragem rapidamente se espalharam por vários cursos d’água, transbordando e atingindo os municípios vizinhos de Mariana, Barra Longa, Rio Doce e Santa Cruz do Escalvado.

Destruiu pontes, estradas, casas, fábricas e outras instalações comerciais , bem como terras agrícolas, vida selvagem e igrejas históricas que continham artefatos de valor inestimável.

Cerca de 620.000 pessoas, 46 municípios brasileiros, 2.000 empresas e 65 instituições religiosas devem reivindicar indenização da mineradora anglo-australiana BHP em um julgamento no tribunal superior de Londres, programado para ocorrer ao longo de 12 semanas, a partir de 21 de outubro.

Tom Goodhead, presidente-executivo do escritório de advocacia internacional Pogust Goodhead, que representa os reclamantes, disse que eles argumentarão que a BHP é responsável como acionista de 50% da Samarco, a joint venture responsável pela gestão da barragem de rejeitos de Fundão.

Alega-se ainda que a BHP, que estava em uma joint venture com a mineradora brasileira de minério de ferro Vale, foi negligente, pois, embora “estivessem cientes dos riscos do rompimento da barragem , financiaram sua expansão”, disse Goodhead. Os reclamantes estão buscando até US$ 44 bilhões (£ 33,6 bilhões) em indenização.

A BHP, junto com a Vale e a Samarco, criou a Fundação Renova para fornecer compensação a indivíduos e algumas pequenas empresas por perdas e danos, bem como mitigar impactos ambientais. A empresa disse que defenderia a ação judicial.

Um porta-voz da BHP disse: “O rompimento da barragem de Fundão foi uma tragédia e nossas mais profundas condolências às famílias e comunidades afetadas.

“A Fundação Renova, criada em 2016 como parte do nosso acordo com as autoridades brasileiras, gastou mais de US$ 7,7 bilhões em assistência financeira emergencial, compensação e reparo e reconstrução de meio ambiente e infraestrutura para aproximadamente 430.000 indivíduos, empresas locais e comunidades indígenas.

“A BHP Brasil está trabalhando coletivamente com as autoridades brasileiras e outros para buscar soluções para finalizar um processo de compensação e reabilitação justo e abrangente que manteria os fundos no Brasil para o povo brasileiro e o meio ambiente afetados, incluindo as comunidades indígenas impactadas.

“A BHP continua a defender a ação legal no Reino Unido. Acreditamos que o litígio no Reino Unido, que, se bem-sucedido, não veria os reclamantes receberem o pagamento antes de 2028, no mínimo, duplica – e prejudica – os esforços de reparação locais no Brasil.

“Como parceira não operacional de joint venture na Samarco, a BHP Brasil não tem controle operacional ou diário do negócio. A BHP não possuía nem operava a barragem ou quaisquer instalações relacionadas.”

O pai de Thiago, que morreu há dois anos, recebeu uma pequena indenização após o desastre, que ele dividiu com Da Silva, mas ela disse que não teve nenhum contato pessoal com as empresas envolvidas.

Ela disse: “A única coisa que pedimos é justiça, para que isso nunca aconteça com nenhuma outra mãe. Nenhum dinheiro no mundo pode trazer meu filho de volta, mas eu quero que eles sejam responsáveis ​​por isso, por esse crime.”

Goodhead disse: “Até onde sabemos, esta é a maior ação coletiva já realizada nos tribunais ingleses e acreditamos que provavelmente a maior em qualquer lugar do mundo. E isso é provável pelo valor, bem como pelo número de requerentes que estão participando dela.”


Fonte: The Guardian

Tarcísio cede a lobby pró-mercúrio e veta projeto que protege saúde e meio ambiente

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Entre proteger a saúde dos paulistas, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, preferiu abraçar os negacionistas e impediu o banimento do uso do mercúrio em tratamentos dentários

Por Cida de Oliveira

Governador ouviu órgão negacionista e vetou agenda para banimento de metal altamente tóxico em obturações dentárias, que protege de imediato gestantes, lactantes e menores de 15 anos. Canetada contraria acordo assinado pelo Brasil  

São Paulo – O governador de São Paulo Tarcísio de Freitas (Republicanos) aproveitou as atenções voltadas ao primeiro turno das eleições municipais para vetar integralmente uma medida de interesse da população. Trata-se do Projeto de Lei 1.475/2023, de autoria do deputado Maurici (PT), que disciplina no estado o uso do amálgama à base do metal altamente tóxico em restaurações dentárias. E proíbe, de imediato, a aplicação desse tipo de obturação em gestantes, lactantes e menores de 15 anos, grupos mais vulneráveis aos graves efeitos do mercúrio sobre a saúde. Caberá ao Legislativo avaliar se mantém ou derruba o veto.

Para a coordenação da Aliança Mundial para a Odontologia Livre de Mercúrio no Brasil, a canetada de Tarcísio reforça seu alinhamento com setores negacionistas. No caso, de entidades que defendem a continuidade do uso do metal e que desprezam os estudos científicos que comprovam os prejuízos que trazem à saúde e ao meio ambiente. E também o seu distanciamento de agendas internacionais sobre o tema, das quais o Brasil é signatário.

Em artigo publicado neste sábado (12), os coordenadores da aliança, Jeffer Castelo Branco, Mari Polachini e Rafaela Rodrigues da Silva revelam que o governo Tarcísio acolheu pedido de veto encaminhado pelo Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP), que defende a continuação do uso do metal tóxico. “Esse mesmo Conselho informou ao governador que as normas técnicas existentes ainda fundamentam a possibilidade de continuidade da utilização do amálgama de mercúrio”, afirmam os cientistas em trecho da publicação.

Desde que o projeto do deputado petista foi apresentado, em meados de 2023, o CROSP e a Sociedade Brasileira de Pesquisa Odontológica intensificaram sua campanha pró-mercúrio nas redes sociais e na mídia tradicional. Com os mesmos argumentos pela continuidade, excluíam aqueles da Organização Mundial de Saúde (OMS), que alertam para os perigos da exposição ao metal, que mesmo em pequenas quantidades pode causar sérios problemas de saúde.

Ao serem inaladas, já que evaporam mesmo sob temperaturas negativas, suas partículas chegam à corrente sanguínea e podem se acumular em diversos órgãos. Em casos de gestantes, atravessam a barreira placentária. E podem causar prejuízos ao sistema nervoso central do feto, além de outras malformações e danos irreversíveis. Não é à toa que o mercúrio é um dos dez principais produtos químicos que causam as maiores preocupações à saúde pública.

A aliança pela odontologia sem mercúrio destaca ainda que, em seu veto, Tarcísio de Freitas endossa também outra tese negacionista do CROSP, a da inexistência de evidências significativas à saúde do paciente ou do profissional. “É uma verdadeira afronta ao princípio da precaução. Sabemos da farta evidência científica dos males causados pelo mercúrio, um metal tóxico não essencial para o corpo humano. Esse é o motivo da existência de uma Convenção Internacional assinada por cerca de 140 países e ratificada pelo Brasil em 2017. O mercúrio lançado pela ação humana já é mais um entre os maiores poluentes que ameaçam a saúde humana e ambiental”, afirmam os coordenadores.

Eles se referem à Convenção de Minamata, criada na ONU para proteger a saúde humana e o meio ambiente dos efeitos nocivos das liberações de mercúrio e seus compostos. E principalmente para evitar que se repitam tragédias como a da Baía de Minamata, no Japão, causada por vazamentos da antiga indústria química Chisso entre as décadas de 1950 e 1960. Houve contaminação da água, de peixes, de animais e aves marinhas, que passaram a manifestar alterações em seu comportamento. Na sequência começaram a nascer crianças com graves deformidades, cegueira, surdez e danos ao sistema nervoso central.

Após as mortes e a pressão popular vieram os estudos, que confirmaram o mercúrio como agente causador. Ao todo, até hoje, são estimadas em mais de 70 mil as vítimas em Minamata, sendo pelo menos mil mortos.  De acordo com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), em 2019 cerca de 2 milhões de pessoas em todo o mundo morreram devido à poluição química. Muitas das quais, segundo especialistas, em consequência do mercúrio.

Um relatório do Petit Comité do Parlamento Europeu classifica o mercúrio como um agente desregulador endócrino. E segundo a definição da OMS, “um desregulador endócrino é uma substância que altera a função do sistema endócrino e, consequentemente, causa efeitos adversos à saúde em um organismo sadio, ou em sua descendência”.

A opção de Tarcísio pelo negacionismo das entidades do setor lembra muito seu padrinho político Jair Bolsonaro (PL) durante a pandemia de covid. Na época, o então mandatário defendia o uso da cloroquina, apesar de não ter comprovação científica para essa finalidade. Mesmo assim, o Conselho Federal de Medicina (CFM) chegou a regulamentar o uso do medicamento nesse sentido. E até a defender os médicos que o utilizaram apesar de conhecer os riscos envolvidos.

Desta vez, como assinala o grupo que luta pelo banimento do mercúrio na prática odontológica, o que se constata “é a existência de um Conselho negando a Convenção de Minamata, bem como o seu apoio institucional à proteção da saúde e do meio ambiente, inclusive da população que precisa do serviço público”.

Ainda conforme o artigo deste sábado, há a constatação de um “lobby pró-mercúrio que se espraia pelos governos e repartições públicas”. E que “uma parte influente de profissionais alinhados à ideologia da velha guarda, não está indo ao encontro das pautas populares e protetivas”. O problema, alertam os especialistas, é que como sempre acontece, é que a população mais carente e periférica que vai continuar recebendo o tratamento com mercúrio. “Em resumo, aos menos abastados, mercúrio, enquanto os mais abastados que podem, se utilizam das opções menos invasivas, mais seguras e estéticas das clínicas privadas”.

Assim, ao fechar com um conselho profissional elitista, que conspirou contra uma lei consonante com um tratado internacional, aprovada pelo Legislativo eleito pelo povo, o governador também sinaliza para a injustiça socioambiental em sua gestão. Segundo a Aliança Mundial para a Odontologia Livre de Mercúrio no Brasil, pessoas negras têm menor chance de substituição de amálgama de mercúrio por restaurações de resina composta que as brancas. Do mesmo modo, adultos com alto nível de escolaridade foram mais propensos de terem as suas restaurações posteriores de amálgama substituídas por resinas compostas. Ou seja, é o racismo ambiental, já que se trata de maior possibilidade de exposição química das minorias a um dos maiores poluentes do mundo.

Ascensão e queda da baronesa de São João da Barra

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A deputada Carla Machado, então prefeita de Sâo João da Barra, no dia da entrega da Medalha Barão de São João da Barra ao ex-bilionário Eike Batista

Por Douglas Barreto da Mata

Não entendo o fetiche do PT regional com a deputada Carla Machado.  Justiça lhe seja feita, ela nunca esboçou qualquer tentativa de parecer progressista ou mais afeita a uma agenda de esquerda. Pensando bem, acho que entendo sim.  Afinal, há muitos anos, nem o próprio PT tem se esforçado nesse sentido, seja no Planalto, seja na planície.

Mesmo assim, não deixa de ser estranho ver duas candidaturas oriundas do MST no PT Campos dos Goytacazes, convivendo com uma personagem como a baronesa, ou de figuras (simplórias) do PT, dedo em riste, acusando este ou aquele político de bolsonarista ou direitista, tendo uma matriarca de direita como a baronesa no PT. 

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Reforma agrária às avessas: a então prefeita Carla Machado, sentada ao lado de Sérgio Cabral, olhando para as terras que seriam tomadas dos agricultores do V Distrito de São João da Barra para a instalação do natimorto Distrito Industrial de São João da Barra

Logo ela, uma das envolvidas por aquilo que pode ser chamada de maior reforma agrária invertida da história recente do país.  Ao invés de desapropriação de terras para benefício de muitos, no V Distrito de SJB se fez o inverso, desalojaram centenas de famílias para instalação do porto, e até hoje, há pendências no pagamento desses agricultores.  Uma vergonha.

Bem, muito tem se falado quem saiu menor ou maior desse pleito.  Eu diria que a baronesa deputada saiu muitíssimo menor que entrou. Antes, na pré campanha, tida e havida como carta na manga do grupo de oposição, reunido em torno dos Bacelar, a ponto do PT (linha auxiliar desse mesmo grupo) ter mantido a vaga da candidatura à prefeitura em aberto, até que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) dissesse o que todos sabiam, a baronesa deputada também foi considerada um manancial de transferência de votos.

A candidata delegada e o candidato professor sonhavam herdar esse capital eleitoral, que, afinal, se diluiu entre os principais concorrentes, incluindo aí o atual prefeito reeleito.  Deste modo, à baronesa deputada restou um papel melancólico na campanha, que piorou ainda mais, mesmo que ninguém achasse ser isso possível, quando ela esfaqueou o PT pelas costas, subiu no palanque da delegada, e, pecados dos pecados, fazendo um discurso de desagravo ao ex-prefeito Rafael Diniz, o pior de todos os tempos.

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A subida da deputada Carla Machado no palanque da delegada Madeleine teve o efeito de matar duas campanhas nas eleições municipais de 2024

Em um movimento, como já disse em vários textos, neste blog, ela matou duas campanhas, a do PT, já moribunda, e da delegada, cuja base de apoio ficou sem saber se a delegada era mesmo de direita, como jurou ser, além de ressuscitar o “bode na sala” (Rafael Diniz), que foi cuidadosamente escondido pela coordenação das campanhas do PT e da delegada, que contavam com a amnésia do eleitor acerca da umbilical relação de todos com o governo desastroso do neto de Zezé Barbosa.

Ah, mas você se esqueceu da esmagadora vitória em São João da Barra, onde a sucessora e pupila da baronesa conseguiu uma votação histórica.  Bem, pode ser, mas tenho lá minhas dúvidas.  A julgar pelo número de votos alcançado pela prefeita reeleita, Carla Caputi, tudo indica que a baronesa deputada não seja mais a única referência de seu campo político na cidade, pois emergiu das urnas uma força autônoma, com condições e intenções de se desvincular da baronesa, em franco declínio.

A prova principal da queda da baronesa é a ridícula votação de seu irmão, Fred Machado, ex-presidente da Câmara de Vereadores de Campos dos Goytacazes, que concorria à reeleição naquela casa. 

Campos dos Goytacazes parece ter rejeitado invasores como os deputados que aqui estiveram para despejar mais modos e truculência.  Rejeitou também a baronesa, que deverá correr de volta para SJB, sob pena de ficar sem espaço por lá também.

Aguardemos.

Apesar das aparências, Lula foi o grande vencedor do 1o. turno das eleições municipais

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Lula, e não Gilberto Kassab (PSD), foi o grande vencedor no primeiro turno das eleições municipais de 2024

Tenho lido e ouvido análises sobre os resultados do primeiro turno das eleições municipais onde a maioria dos analistas, alguns até honestos, apontam para o que seria uma derrota flagrante do presidente Lula e do seu partido, o PT.  Essas análises são apoiadas em números de votos recebidos e candidatos eleitos, o que dá uma aparência de irrefutabilidade às indicações de que Lula e o PT foram derrotados por partidos que seriam de centro ou centro-direita, seja lá o que seja isso em termos práticos.

Eu discordo dessas análises porque avalio que a estratégia eleitoral determinada por Lula e pela cúpula dirigente do PT era algo que ia no sentido de “entrar em campo para jogar, fingindo que se quer ganhar, mas  fazendo uma força danada para perder”.  Basta ver o tipo de suporte político e financeiro que foi dado aos candidatos oficiais do PT, a começar aqui pela terra do chuvisco, Campos dos Goytacazes.

Na maioria dos casos, faltou de tudo nas campanhas “raiz” do petismo, a começar por uma linha política que habilitasse seus candidatos a terem um mínimo de chance.  Isso também ficou claro em campanhas próximas do que seria o campo popular, como foi o caso da campanha de Guilherme Boulos, o mais petista dos psolistas ainda no PSOL.  A imposição de Marta Suplicy como candidata a vice-prefeita, por exemplo, só serviu para esmaecer as tinturas esquerdistas de Boulos que, convenhamos, não eram tão fortes para começo de conversa. De resto, o PT paulistano e o paulista não fizeram muita coisa para apoiar Boulos que quase conseguiu a façanha de enviar dois candidatos bolsonaristas para o segundo turno, o que foi alcançado pelo PT de Curitiba que resolveu apoiar uma espécie de não-candidatura do PSB local.

Mas é para além das derrotas do petismo raiz que o sucesso da estratégia eleitoral de Lula ficou mais evidente. Seja nas vitórias como a de Eduardo Paes no Rio de Janeiro onde o PT foi aliado de primeira hora de uma candidatura que aposta na privatização até do ar poluído que os cariocas respiram, seja nas alianças com os ditos partidos de extrema-direita pelo Brasil afora. Foi pouco noticiado, mas até com o PL de Jair Bolsonaro, o PT esteve aliado.

Alguém pode me perguntar como é que eu possa estar fazendo este tipo de análise contra um presidente tão com cara de esquerda como Lula.  O problema é que tanto Lula quanto a direção do PT já abandonaram o campo da esquerda faz algum tempo (eu diria que desde a Carta aos Brasileiros de 2002). O que restou do velho PT foi um simulacro de partido de esquerda que em alguns aspectos está mais à direita do que o Partido Democrata está nos EUA.

Pode-se perguntar o motivo das opções estratégicas de Lula para abandonar o esforço de eleger prefeitos e vereadores do próprio PT e entregar de graça a chance de governar para a direita ou até a extrema-direita.  A primeira coisa é que Lula sabe muito bem que os partidos políticos no Brasil, com a possível exceção do próprio PT, não passam de agremiações que juntam oportunistas e aventureiros de todo tipo e matiz que estão dispostos a servir caninamente os que realmente mandam no país (banqueiros e latifundiários) em troca das migalhas que ainda restam nos cofres de governos municipais e estaduais.  Partidos no sentido ensejado pela democracia liberal burguesa que é bom, nem sombra. E Lula, como poucos, sabe operar nesse mar de oportunistas.

A segunda coisa é que ao entregar os anéis, Lula sabe que aumenta em muito as chances de manter os dedos que, no caso presente, é o controle do governo federal.  Em que pese o esperado encarecimento do preço político das eleições (normalmente contado em número de ministérios e de cargos de segundo e terceiro escalão), ao entregar as prefeituras para a direita, Lula também se livra o ônus de ter que conversar sob o tacão das políticas neoliberais que são impostas aos municípios pelo seu próprio governo.  De quebra, diante do inevitável fracasso das promessas feitas pela direita nas eleições municipais, Lula, ou um escolhido para substituí-lo,  pode manter a fachada de esquerda para ganhar as eleições de 2026, usando a repetida, manjada, mas efetiva assertiva de que a direita não governa para os pobres.

Em suma, discordo de quem diz que a política da “Frente Ampla” de Lula foi derrotada no primeiro turno das eleições municipais de 2024. Na verdade, essa política ficou fortalecida ao apontar para um cenário em 2026 em que novamente será o PT (e seus aliados) contra o conveniente fantasma da extrema-direita.

O fato é que a primeira tarefa de quem realmente deseja mudar o cenário político brasileiro e movê-lo para a esquerda é superar toda e qualquer ilusão em Lula. Com isso será possível liberar as forças populares da paralisia que lhes é imposta por Lula e pelo PT. Essa, convenhamos, não será uma tarefa fácil, pois basta ver o que foi feito para desmoralizar quadros emergentes da esquerda como era o caso de Marcelo Freixo e Guilherme Boulos, ou para abandonar e deixar à mercê da direita uma liderança ascendente como Glauber Braga. 

Contudo, em tempos históricos tão desafiadores, não posso deixar de lembrar de uma frase de Rosa Luxemburgo que dizia que “há todo um velho mundo ainda por destruir e todo um novo mundo a construir. Mas nós conseguiremos, jovens amigos, não é verdade?” Mas  para a frase de Rosa Luxemburgo ser transformada em realidade, há que se entender como o jogado é realmente jogado, e aquilo que precisa ser feito para virar o placar.  Mas pelo que eu vejo e ouço, as forças que lutam por um novo mundo estão aí e se movimentando com vigor.  O que nos impede de saber disso é que noticiar a existência e a ação dessas forças não interessa a quem controla a distribuição da informação.

Quem é Wladimir Garotinho? Decifra-me ou te devoro

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Por Douglas Barreto da Mata

Nessas eleições recentes aconteceram episódios pitorescos.  Enquanto a esquerda tentava emplacar a pecha de bolsonatista no prefeito, muito mais para justificar suas escolhas, de funcionar como linha auxiliar de ultra direitistas (um paradoxo aparente), do que para demarcar uma posição progressista, de fato, do outro lado, a direita, representada na delegada candidata, quis emplacar a narrativa que o prefeito reeleito não era bolsonarista suficiente, ao mesmo tempo que recebeu a deputada petista Carla Machado (outro aparente paradoxo) em seu campo.

Resultado conhecido, o PT amargou um desastre, e a delegada não foi além do teto conhecido do chamado anti garotismo.  Juntos ficaram na medida das abstenções, brancos e nulos.  Em analogia ao termo torcida arco-íris, que reúne os torcedores que são anti flamenguistas, podemos dizer que o arco-íris ou está com cores a menos, ou desbotou.

O erro de cálculo desse pessoal foi não entender o caminho político do prefeito, rumo ao centro, já antevendo um movimento natural pós saturação de extremismos de direita, e que se confirmou nos resultados nacionais pelas cidades, o PSD foi o grande vencedor, e ampliou seu capital político, que não era pequeno.

No Estado do RJ, esse papel coube ao PP, e ao PL, por estranho que pareça).  Todas as campanhas deste último partido (PL), apesar de usarem com mais ou menos intensidade a imagem dos Bolsonaros, se caracterizaram por candidaturas de centro, de prefeitos ou ex-prefeitos com quilometragem.  Foram poucas as “novidades” impetuosas.

O prefeito Wladimir entendeu isso antes, e nem renegou seu vínculo com Bolsonaro (teve no filho Flávio um apoiador presente), nem exagerou nessa exposição, mantendo canal aberto com outras forças. Há, no entanto, um outro viés, para o qual gostaria de chamar a atenção.

Nacionalizar a eleição seria um erro, que o PT não entendeu quando, em desespero, passou a veicular Lula em sua campanha, nem a delegada, quando reivindicou a condição de porta-voz do ex-presidente.

Ainda que houvesse margem para tanto, é preciso dizer que, em Campos dos Goytacazes, a família Garotinho e seu legado são muito mais relevantes que figuras nacionais. Foi assim em todas as eleições presidenciais que a família direcionou seus votos. Com Bolsonaro não foi diferente.

A base de apoio a família Garotinho, com exceção dos intervalos das vitórias de dissidentes deste mesmo grupo, sempre se manteve intacta.  Mesmo nestes intervalos, o grupo garotista foi grande cabo eleitoral de campanhas presidenciais.

A oposição não foi capaz de reconhecer, ou não teve humildade, ou inteligência, ou tudo junto, que a família Garotinho, agora renovada no personagem Wladimir Garotinho, uma versão ampliada e melhorada de seus pais, é ainda a grande eleitora na cidade, e não o contrário.

Esta planície é, historicamente, conservadora, mas este conservadorismo é mediado, desde a década de 90 do século XX pela família Garotinho, embora não seja irrelevante que este ou aquele líder nacional possa agregar mais capital político à família.

Assim, era inócuo, como foi, dizer que Wladimir era muito ou pouco bolsonarista, ou dizer que ele era a continuidade de seus pais.  O prefeito se consolidou como um ator relevante e autônomo, ainda que não rejeite, e nem afaste influências e heranças políticas. O desconhecimento dessas noções básicas levaram a oposição a combater moinhos de vento, ou seja, sequer conseguiram entender o adversário que enfrentavam, quanto mais, acertar o “alvo”.  A comemoração gaiata do grupo da delegada sobre a votação obtida mostra que nada aprenderam.

Afinal, com a montanha de recursos empenhados, a candidatura da delegada não conseguiu ir além do patamar histórico de votação dos anti garotistas, deixando claro que, para tanto, seria necessária uma estratégia muito melhor ou um nome com muito mais capacidade, sendo que estas hipóteses não se excluem.

Trilhando, talvez, o caminho de Getúlio Vargas, que se orgulhava de não ser decifrado, o prefeito, do alto de seus 190.000 votos, agradece.

 ‘Rede social privada’ financiada pelo governo dos EUA ataca críticos dos agrotóxicos

A rede inclui perfis depreciativos de figuras como especialistas da ONU e o escritor de alimentos Michael Pollan, e faz parte de um esforço para minimizar os perigos dos agrotóxicos, sugerem os registros

algodão agrotóxicoPulverização de agrotóxicos em um campo de algodão no Arizona. Fotografia: mvp64/Getty Images

Por Carey Gillam , Margot Gibbs e Elena DeBre para o “The Guardian”

Em 2017, dois especialistas das Nações Unidas pediram um tratado para regulamentar rigorosamente pesticidas perigosos, que eles disseram ser uma “preocupação global de direitos humanos”, citando pesquisas científicas mostrando que pesticidas podem causar câncer, doença de Parkinson, Alzheimer e outros problemas de saúde.

Publicamente, a principal associação comercial da indústria de agrotóxicos apelidou as recomendações de “afirmações infundadas e sensacionalistas ”. Em privado, os defensores da indústria foram mais longe.

Perfis depreciativos dos dois especialistas da ONU, Hilal Elver Baskut Tuncak , estão hospedados em um portal privado online para funcionários de empresas de agrotóxicos e uma série de aliados influentes. 


mulher usando óculos e jaleco branco sentada à mesa e gesticulando enquanto falaHilal Elver, relatora especial das Nações Unidas sobre o direito à alimentação, fala com jornalistas. Fotografia: Cia Pak/UN Photo

Os membros podem acessar uma ampla gama de informações pessoais sobre centenas de indivíduos de todo o mundo considerados uma ameaça aos interesses da indústria, incluindo os escritores de alimentos dos EUA Michael Pollan e Mark Bittman, a ambientalista indiana Vandana Shiva e o ativista nigeriano Nnimmo Bassey. Muitos perfis incluem detalhes pessoais, como nomes de membros da família, números de telefone, endereços residenciais e até mesmo valores de casas.

A criação de perfil faz parte de um esforço — que foi financiado, em parte, com dinheiro dos pagadores de impostos dos EUA — para minimizar os perigos dos agrotóxicos, desacreditar oponentes e minar a formulação de políticas internacionais, de acordo com registros judiciais, e-mails e outros documentos obtidos pela redação sem fins lucrativos Lighthouse Reports.

A agência colaborou com o Guardian, o New Lede, o Le Monde, o Africa Uncensored, a Australian Broadcasting Corporation e outros parceiros internacionais de mídia na publicação desta investigação.

Os esforços foram liderados por uma empresa de “gestão de reputação” no Missouri chamada v-Fluence. A empresa fornece serviços que descreve como “coleta de inteligência”, “mineração de dados proprietários” e “comunicações de risco”.

As revelações demonstram como os defensores da indústria estabeleceram uma “rede social privada” para combater a resistência a agrotóxicos e culturas geneticamente modificadas (GM) na África, Europa e outras partes do mundo, ao mesmo tempo em que denegriam métodos agrícolas orgânicos e outros métodos alternativos.

Mais de 30 atuais funcionários do governo estão na lista de membros, a maioria dos quais é do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).

Elver, que agora é professora universitária pesquisadora e membro de um comitê de segurança alimentar das Nações Unidas , disse que o dinheiro público teria sido melhor gasto em pesquisas científicas sobre os impactos dos pesticidas na saúde do que em traçar perfis de pessoas como ela.

O perfil do autor Michael Pollan o retrata como um “fervoroso oponente” da agricultura industrial e um proponente da agricultura orgânica. Seu perfil inclui uma longa lista de críticas e detalhes como os nomes de seus irmãos, pais, filho e cunhado.

“Uma coisa é ter uma indústria atrás de você depois de publicar um artigo crítico. Isso acontece o tempo todo no jornalismo”, disse Pollan. “Mas ter seu próprio governo pagando por isso é ultrajante. Esses são meus impostos em ação.”

Registros mostram que Jay Byrne, um ex-executivo da Monsanto e fundador da v-Fluence, liderou o esforço. Byrne aconselhou autoridades dos EUA e tentou sabotar a oposição a produtos criados pelas maiores empresas agroquímicas do mundo.

Ele e a v-Fluence são nomeados como co-réus em um caso contra a empresa agroquímica de propriedade chinesa Syngenta. Eles são acusados ​​de ajudar a Syngenta a suprimir informações sobre os riscos de que os herbicidas paraquat da empresa poderiam causar a doença de Parkinson, e de ajudar a “neutralizar” seus críticos. (A Syngenta nega que haja uma ligação causal comprovada entre paraquat e Parkinson.)

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Logotipo da Syngenta em uma fazenda piloto em Geispitzen, França, em 2017. Fotografia: AFP/Getty Images

Em uma declaração por e-mail, Byrne negou as alegações no processo, citando “numerosas alegações incorretas e factualmente falsas”, feitas pelos demandantes.

Quando questionado sobre as descobertas desta investigação, Byrne disse que as “alegações e perguntas que você fez são baseadas em representações grosseiramente enganosas, erros factuais sobre nosso trabalho e clientes e falsidades fabricadas”.

A empresa vê seu papel como “um provedor de coleta, compartilhamento, análise e relatórios de informações”, disse Byrne. Ele disse que os perfis eram baseados em informações publicamente disponíveis.

“Nosso escopo de trabalho que você está questionando se limita ao monitoramento, pesquisa e relatórios de tendências sobre atividades e tendências globais para melhoramento de plantas e questões de proteção de cultivos”, disse Byrne em sua resposta por e-mail.

‘Sob ataque’

Byrne se juntou à Monsanto em 1997 em meio ao lançamento de culturas GM da empresa, projetadas para tolerar a pulverização com seus herbicidas de glifosato. Como diretor de comunicações corporativas, seu foco era ganhar aceitação para as controversas culturas “biotecnológicas .

Anteriormente, ele ocupou vários cargos de alto nível em assuntos legislativos e de relações públicas na Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAid).

A fundação da v-Fluence em 2001 ocorreu em meio a crescentes batalhas de políticas públicas sobre culturas geneticamente modificadas e pesticidas comumente usados ​​por agricultores e outros aplicadores para matar insetos e ervas daninhas.

Evidências científicas crescentes têm vinculado alguns pesticidas a uma série de riscos à saúde , incluindo leucemia, Parkinson e câncer de bexiga, cólon, medula óssea, pulmão, células sanguíneas e pâncreas, bem como problemas reprodutivos, distúrbios de aprendizagem e problemas do sistema imunológico . As preocupações sobre vários impactos documentados à saúde levaram vários países a proibir ou restringir vários tipos de pesticidas.

Em um discurso que Byrne fez em uma conferência da indústria agrícola em 2016, ele deixou sua posição clara. Ele caracterizou a agricultura convencional como estando “sob ataque” do que ele chamou de “indústria de protesto”, e alegou que poderosas forças antiagrotóxicos e pró-orgânicas estavam gastando bilhões de dólares “criando medos sobre o uso de agrotóxicos”, culturas geneticamente modificadas (GM) e outras questões da agricultura industrial.

“Nós quase sempre somos escalados como vilões nesses cenários”, ele disse aos participantes da conferência. “E então precisamos inverter isso. Precisamos reformular as histórias que contamos de maneiras alternativas.” 

Pessoas protestam contra a gigante da biotecnologia Monsanto e as plantações geneticamente modificadas em Nova York, em 2013. Fotografia: Tony Savino/Corbis/Getty Images

Os primeiros clientes da v-Fluence incluíam Syngenta e Monsanto. Mais tarde, ela garantiu financiamento do governo dos EUA como parte de um contrato com uma terceira parte.

‘Chocante e vergonhoso’

Registros de gastos públicos mostram que a USAid contratou o Instituto Internacional de Pesquisa de Política Alimentar (IFPRI), uma organização não governamental que gerencia uma iniciativa governamental para introduzir culturas geneticamente modificadas em países africanos e asiáticos.

Por sua vez, o IFPRI pagou à v-Fluence um pouco mais de US$ 400.000 entre 2013 e 2019 por serviços que incluíam neutralizar as críticas às “abordagens agrícolas modernas” na África e na Ásia.

A v-Fluence criaria o “portal de rede social privada” que, entre outras coisas, forneceria “apoio tático” aos esforços para obter aceitação das culturas geneticamente modificadas .

A empresa então lançou uma plataforma chamada Bonus Eventus, nomeada em homenagem ao deus romano da agricultura, cujo nome se traduz como “bom resultado”.

Os indivíduos descritos no portal incluem mais de 500 defensores ambientais, cientistas, políticos e outros vistos como opositores de pesticidas e culturas geneticamente modificadas.

A USAid não respondeu a um pedido de comentário.

Os detalhes nos perfis parecem ter sido extraídos de uma série de fontes online, e muitos deles incluem alegações depreciativas de autoria de pessoas financiadas pela indústria química ou de outra forma conectadas a ela. As primeiras versões dos perfis foram compiladas pela Academics Review, uma organização sem fins lucrativos criada com o envolvimento da Monsanto e Byrne .

A fundação da v-Fluence ocorreu em meio a crescentes batalhas de políticas públicas sobre culturas GM e pesticidas comumente usados ​​por fazendeiros e outros aplicadores para matar insetos e ervas daninhas. Fotografia: Bloomberg/Getty Images

Hoje, o Bonus Eventus é somente para convidados e conta com mais de 1.000 membros. Eles incluem executivos das maiores empresas agroquímicas do mundo e seus lobistas, bem como acadêmicos, funcionários do governo e formuladores de políticas de alto nível, como o embaixador do governo Trump na Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação e um consultor de pesquisa agrícola da USAid.

Quando contatados por repórteres, alguns disseram que não tinham se inscrito para serem membros do portal, ou não estavam cientes do conteúdo. Um disse que cancelaria sua associação.

Um perfil de um professor pesquisador baseado em Londres que se manifestou contra empresas agroquímicas e culturas GM contém vários detalhes profundamente pessoais de sua vida, não relacionados a suas posições sobre culturas ou produtos químicos. O perfil descreve uma esposa que morreu de “complicações relacionadas ao suicídio” após descobrir um caso extraconjugal de seu marido e após uma “luta de 23 anos contra a depressão e a esquizofrenia…”

Um perfil de um proeminente cientista dos EUA repleto de comentários críticos inclui detalhes sobre uma infração de trânsito cometida há 33 anos e os gastos do cientista em contribuições para campanhas políticas, além de um número de telefone pessoal (com um dígito errado) e o antigo endereço residencial do cientista.

Um pesquisador de saúde pediátrica de Indiana que estuda os impactos de agrotóxicos em bebês também é perfilado. As informações listam um endereço residencial, juntamente com o valor aproximado da propriedade, e os nomes e outros detalhes de sua esposa e dois filhos.

Um perfil do ex-escritor de culinária do New York Times Mark Bittman, um crítico da agricultura industrial, tem 2.000 palavras e inclui uma descrição de onde ele mora, detalhes de dois casamentos e hobbies pessoais, além de uma extensa seção de críticas.

“Está cheio de erros e mentiras”, disse Bittman sobre o perfil sobre ele. Ainda assim, ele disse, o fato de ele ser perfilado é muito menos preocupante do que o contexto maior em que o perfil existe.

Bittman disse que era uma “coisa terrível” que o dinheiro dos contribuintes fosse usado para ajudar uma agência de relações públicas a “trabalhar contra esforços sinceros, legítimos e científicos para melhorar a agricultura”.

“O fato de que por mais de um século o governo tem apoiado firmemente a agricultura industrial, tanto direta quanto indiretamente, às custas da agroecologia, é um obstáculo direto em face dos esforços para produzir alimentos nutritivos que sejam universalmente acessíveis, ao mesmo tempo em que minimizam o impacto ambiental. Isso é triste, trágico, malicioso e errado.”

Tanto o Lighthouse Reports quanto um dos autores deste artigo, Carey Gillam, também são apresentados na plataforma.

“Coletar informações pessoais sobre indivíduos que se opõem à indústria vai muito além dos esforços regulares de lobby”, disse Dan Antonowicz, professor associado da Wilfrid Laurier University no Canadá, que pesquisa e dá palestras sobre conduta corporativa. “Há muito com o que se preocupar aqui.”

A CropLife International, o principal grupo de defesa dos agrotóxicos, disse que “analisaria” as questões levantadas neste artigo, depois que repórteres perguntaram sobre as dezenas de funcionários da CropLife ao redor do mundo que estão listados como membros do Bonus Eventus.

Ações em África

v-Fluence e Byrne desenvolveram pessoalmente amplas conexões com autoridades governamentais que ele aconselhou sobre tentativas de introduzir regulamentações de pesticidas fora dos EUA.

Em 2018, Byrne participou de uma reunião com o representante comercial dos EUA para discutir “maneiras concretas e acionáveis ​​de auxiliar” a agência em suas políticas de agrotóxicos. Após a reunião, Byrne foi convidado a se encontrar com o principal negociador comercial agrícola do governo.

Na mesma época, Byrne foi convidado pelo USDA para aconselhar um grupo interinstitucional encarregado de limitar regras internacionais que reduziriam agrotóxicos. Byrne instruiu o grupo sobre os esforços para promulgar regulamentações mais rigorosas de agrotóxicos e se referiu a uma “ameaça politizada” do “movimento agroecológico”.

Uma região importante para o trabalho do v-Fluence tem sido a África.

De acordo com os contratos governamentais, a v-Fluence deveria trabalhar com o programa da USAid para elevar a mensagem de cultivo pró-GM na África e combater oponentes dos GM. Ela se concentrou em particular no Quênia .

Byrne nega que a v-Fluence tenha quaisquer contratos passados ​​ou atuais com o governo dos EUA. Ele disse que os EUA financiam “outras organizações com as quais trabalhamos”, e ao longo de mais de 20 anos “tivemos vários projetos financiados pelos EUA e outros governos”.

A oposição a culturas GM e agrotóxicos tem sido forte no Quênia, onde aproximadamente 40% da população trabalha na agricultura. Trabalhadores rurais quenianos usam muitos pesticidas que são proibidos na Europa e são rotineiramente expostos a esses produtos, frequentemente sem equipamento de proteção adequado ou acesso a assistência médica.

Cerca de 300 indivíduos e organizações africanas, principalmente no Quênia, são retratadas no Bonus Eventus.

O Bonus Eventus lista mais de 30 membros quenianos com acesso à sua rede privada, mais do que qualquer outro país fora da América do Norte. Os membros do Quênia incluem um alto funcionário do Ministério da Agricultura, Pecuária e Pesca, e um ex-executivo-chefe da National Biosafety Authority.

Como parte de sua campanha no Quênia, Byrne e a v-Fluence se envolveram em esforços para minar uma conferência que seria realizada em Nairóbi em junho de 2019, organizada pelo World Food Preservation Center, uma organização que fornece educação sobre tecnologia agrícola em países em desenvolvimento.

Os palestrantes programados incluíam cientistas cujo trabalho expôs os impactos ambientais e de saúde dos agrotóxicos, e aconteceram no momento em que os legisladores quenianos estavam prestes a iniciar um inquérito parlamentar sobre agrotóxicos perigosos.

Os registros mostram que, no início de fevereiro de 2019, Byrne enviou seu boletim semanal aos membros do Bonus Eventus. O boletim alertou que os palestrantes da próxima conferência incluíam “críticos anticientíficos da agricultura convencional” e que “os materiais promocionais incluem alegações de que OGMs e pesticidas podem causar câncer e outras doenças”. O e-mail mencionou os patrocinadores da conferência e fez um link para o perfil do Bonus Eventus do World Food Preservation Center.

No dia seguinte ao envio do e-mail, membros importantes da rede Bonus Eventus agiram.

Margaret Karembu, uma influente formuladora de políticas quenianas e membro inicial do Bonus Eventus, enviou um alerta por e-mail a um grupo que incluía funcionários do setor agroquímico e autoridades do USDA, muitos dos quais também eram membros do Bonus Eventus.

“[A conferência sobre agrotóxicos] é uma grande preocupação e precisamos criar estratégias”, escreveu Karembu, iniciando longas discussões sobre como eles poderiam “neutralizar a mensagem negativa” da conferência, como descreveu um participante.

pessoa usando luvas turquesas segura ferramenta cinza enquanto está de pé sob uma árvore
Uma pessoa pulveriza agrotóxicos em uma área infestada por bandos de gafanhotos do deserto perto de Lokichar, condado de Turkana, no Quênia, em 2020. Fotografia: Luis Tato/FAO/AFP/Getty Images

Poucos dias depois, os organizadores da conferência receberam e-mails informando que seus financiadores estavam se retirando. O Dr. Martin Fregene, diretor de agricultura e agroindústria do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), escreveu a eles: “Temo que a conferência mencionada acima seja unilateral e envie uma mensagem errada sobre a posição do BAD sobre tecnologias agrícolas aprovadas para uso por órgãos reguladores .”

Na semana seguinte, Byrne enviou um alerta de notícias para sua rede dizendo que o AfDB e outro patrocinador haviam retirado seu apoio à conferência. Mais tarde, ele compartilhou a informação pessoalmente com funcionários selecionados da USAid e do USDA.

Byrne disse que não teve envolvimento na perda de financiamento para a conferência.

“Não tivemos nenhum papel na ‘retirada’ de apoio de nenhum doador a esta conferência”, disse ele.

Nem o USDA nem a USAid responderam a perguntas sobre a conferência.

Um porta-voz do BAD disse que a alta administração do banco tomou a decisão de retirar o financiamento da conferência após ter sido contatada pela Syngenta, que expressou preocupações de que a conferência fosse “unilateral”.

O diretor do Centro Mundial de Preservação de Alimentos, Charles Wilson, ex-cientista pesquisador do USDA, disse que sentiu “forças invisíveis” operando contra a conferência, mas ficou surpreso ao saber os detalhes.

“Ao rotular certos palestrantes como ‘anticientíficos’, esta empresa parece estar tomando emprestado um antigo manual da indústria – para tentar esmagar áreas legítimas de investigação científica antes que elas criem raízes”, disse ele.

Dr. Million Belay, coordenador geral da organização sem fins lucrativos de Uganda Alliance for Food Sovereignty in Africa (AFSA), que estava programado para falar na conferência, disse que as descobertas eram “profundamente preocupantes”, descrevendo-as como uma “tentativa flagrante de silenciar e desacreditar movimentos que defendem a soberania alimentar da África”. O Bonus Eventus criou perfis tanto no Belay quanto no AFSA.

Além de tentar minar a conferência, os associados da v-Fluence e os membros do Bonus Eventus tentaram espalhar alegações controversas sobre pesticidas e tentativas de limitar seu uso.

Em 2020, uma petição para proibir pesticidas perigosos foi reenviada ao parlamento queniano. Ao mesmo tempo, uma série de artigos escritos por membros do Bonus Eventus começou a circular sobre a suposta devastação que a proibição proposta causaria na segurança alimentar do Quênia.

Em fevereiro de 2020, por exemplo, James Wachai Njoroge, que atualmente está listado como conselheiro sênior no site da v-Fluence, publicou um artigo no site European Scientist com o título, A praga anticientífica da Europa desce sobre a África. Ele argumentou: “Ativistas europeus estão colocando vidas em risco na África Oriental, transformando uma praga de insetos em uma perspectiva real de fome generalizada.”

Os artigos de Njoroge foram republicados em vários sites importantes de negação climática, e artigos escritos por membros do Bonus Eventus fazendo as mesmas alegações foram publicados em jornais dos EUA, incluindo o Wall Street Journal o Town Hall .

Hans Dreyer, ex-chefe de proteção de cultivos da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, disse que, em sua opinião, os artigos de Njoroge eram “completamente tendenciosos e altamente enganosos” e pareciam tentativas de desencorajar novas regulamentações de pesticidas.

O parlamento queniano ordenou que várias agências governamentais conduzissem uma ampla revisão das regulamentações de agrotóxicos do país, mas o processo estagnou. Mais de 20 agrotóxicos proibidos na Europa continuam sendo usados no Quênia.

“Defenda-se ou seja condenado”

Uma ação judicial nomeando Byrne e v-Fluence como réus junto com a Syngenta foi movida no Missouri por uma mulher e seu filho, Donna e James Evitts, que sofrem de doença de Parkinson e alegam que a doença está relacionada a décadas de uso do herbicida paraquate na fazenda da família.

O processo contém alegações específicas sobre o papel do v-Fluence em esconder os perigos do paraquat, que foi proibido na UE, no Reino Unido, na China e em dezenas de outros países, embora não nos EUA. Houve vários estudos ligando o paraquat ao Parkinson; um dos mais recentes foi publicado em fevereiro no periódico revisado por pares International Journal of Epidemiology .

O processo Evitts é um dos milhares de casos movidos por pessoas alegando que desenvolveram Parkinson por usar produtos de paraquat da Syngenta. Originalmente aberto no Missouri, o caso está pendente no tribunal distrital dos EUA para o distrito sul de Illinois, onde milhares de casos de paraquat foram consolidados. O primeiro julgamento de paraquat dos EUA está programado para começar em fevereiro.

O marido de Donna, George Evitts, também tinha Parkinson e morreu em 2007, aos 63 anos. Ele havia pulverizado paraquate em sua fazenda de 1971 até pouco antes de seu diagnóstico e morte, de acordo com o processo.

Donna foi diagnosticada com Parkinson dois anos após a morte do marido. O filho deles, que cresceu na fazenda, foi diagnosticado com a mesma doença em 2014.

fileira de plantadores amarelos pulverizando produtos químicos no chão

Uma plantadeira de 12 fileiras planta algodão e aplica um herbicida pré-emergente. Fotografia: Design Pics Editorial/Universal Images Group/Getty Images

O processo cita registros judiciais lacrados ao alegar que a Syngenta assinou um contrato com a v-Fluence em 2002 para ajudar a empresa a lidar com informações negativas que vieram à tona sobre seus herbicidas de paraquate. O processo alega que a v-Fluence passou a ajudar a Syngenta a criar conteúdo online falso ou enganoso que era “amigável ao paraquate”, usou otimização de mecanismos de busca para suprimir informações negativas sobre o paraquate em pesquisas na internet e investigou as páginas de mídia social de vítimas que relataram ferimentos à linha direta de crise da Syngenta.

De acordo com o processo, Byrne viajou para Bruxelas em setembro de 2003 para se encontrar com executivos da Syngenta, onde eles concordaram em proteger os produtos de paraquate de preocupações crescentes e ações regulatórias. Os participantes da reunião concordaram em adotar uma abordagem de “defender ou ser condenado”, alega o processo.

Um dos supostos trabalhos da v-Fluence era desenvolver um site chamado “Paraquat Information Center” em paraquat.com que carregava uma mensagem tranquilizadora sobre a segurança do paraquat e afirmava que não havia nenhuma ligação científica válida entre o produto químico e o Parkinson. O site tinha vários artigos em destaque incentivando o uso do paraquat, como um intitulado: Por que a África precisa do paraquat.

O site não tinha um logotipo da marca Syngenta como suas outras páginas da web, e operava com um domínio que era separado da Syngenta. Ele só era identificado como afiliado à Syngenta em uma fonte pequena na parte inferior do site. Foi somente neste ano — conforme o litígio contra a empresa se acelerava — que a Syngenta colocou o site sob seu endereço da web da empresa e adicionou seu logotipo ao topo da página, deixando claro que as informações vinham da Syngenta.

Em uma carta enviada pelo advogado de Byrne aos advogados de Evitts como parte do litígio em andamento, o advogado confirmou que a v-Fluence havia trabalhado para a Syngenta por mais de 20 anos, mas disse: “A Syngenta nunca contratou a v-Fluence para realizar qualquer trabalho sobre o paraquate além de monitorar informações publicamente disponíveis, fornecer avaliações de referência de conteúdo e fontes de partes interessadas e fornecer análise contextual suplementar”.

Byrne disse que não responderia a perguntas sobre o litígio pendente, que ele caracterizou amplamente como contendo alegações “fabricadas e falsas”.

Quando solicitada a comentar, a Syngenta negou as alegações feitas no processo e disse que estudos científicos “não apoiam a alegação de uma ligação causal entre a exposição ao paraquat e o desenvolvimento da doença de Parkinson”. A empresa não respondeu a perguntas sobre Bonus Eventus e v-Fluence, dizendo que abordaria essas alegações no tribunal.

O New Lede e o Guardian revelaram anteriormente que a pesquisa interna da Syngenta encontrou efeitos adversos do paraquate no tecido cerebral décadas atrás, mas a empresa escondeu essa informação dos reguladores, trabalhando em vez disso para desacreditar a ciência independente que liga o produto químico a doenças cerebrais e desenvolvendo uma ” equipe Swat ” para combater as críticas.

Em sua resposta às histórias, a Syngenta não comentou sobre essas alegações específicas. Ela afirmou que nenhuma “publicação científica revisada por pares estabeleceu uma conexão causal entre paraquat e doença de Parkinson”. 

A década de 2020


placa preta dizendo 'Departamento de Agricultura' em frente a um prédio
A sede do Departamento de Agricultura dos EUA em Washington DC. Fotografia: J David Ake/Getty Images

A v-Fluence tinha novas perspectivas com o governo dos EUA na década de 2020.

Em 2020, o USDA contratou uma “empresa de comunicações estratégicas” chamada White House Writers Group (WHWG) por até US$ 4,9 milhões. Era parte de uma estratégia do USDA para minar o Farm to Fork da Europa, uma política ambiental que visava reduzir o uso de pesticidas em 50% até 2030.

A v-Fluence deveria fornecer serviços de “dados” como parte do contrato do WHWG, que também incluía acesso ao Bonus Eventus, de acordo com registros obtidos do USDA. Os registros não especificam como o dinheiro seria dividido entre as empresas.

O contrato foi planejado para durar até 2025, mas relatórios de gastos públicos sugerem que apenas um pagamento foi feito sob o contrato – de US$ 50.000 para o WHWG. O USDA disse que estava revisando o acordo.

Clark Judge, diretor administrativo do White House Writers Group, disse que sua organização tentou reativar o contrato, sem sucesso. Ele declarou: “Bonus Eventus era, e presumo que ainda seja, uma comunidade online para acadêmicos, jornalistas e afins que compartilham perspectivas e informações sobre tópicos agrícolas.”

Quando questionado sobre as descobertas desta investigação, Byrne disse: “Não há nenhuma atividade antiética, ilegal ou inapropriada de divulgação, lobby ou atividades relacionadas por parte de nossa organização de qualquer tipo.”

“Não acho que a maioria das pessoas perceba o grau de espionagem corporativa e a cumplicidade do USDA com ela”, disse Austin Frerick, que atuou como copresidente do comitê de política antitruste agrícola da campanha de Joe Biden e recentemente escreveu um livro sobre concentração de poder no sistema alimentar. “A coordenação aqui — o fato de o USDA fazer parte disso — é realmente assustadora.”

O Bonus Eventus esteve ativo nos últimos dias.

Cinco dias antes desta história ser publicada, depois que repórteres pediram comentários a Byrne e outros, o portal Bonus Eventus alertou os membros sobre o próximo projeto de reportagem investigativa. Eles forneceram aos membros um artigo descrevendo o projeto como “um desastre ético sem nenhum conceito de integridade jornalística”.

  • Esta história foi produzida em colaboração com Lighthouse Reports, Africa Uncensored (Quênia), New Lede (EUA), Le Monde (França), The Continent (África do Sul), The New Humanitarian (Suíça), ABC News (Austrália) e The Wire News (Índia)


Fonte: The Guardian