Um herbicida altamente tóxico, paraquate deverá passar por revisão na Califórnia

paraquate

Por Carey Gillam para o “The New Lede”

Os esforços de alguns legisladores da Califórnia para proibir o controverso herbicida paraquate terminaram esta semana com a aprovação de uma lei que mantém o produto químico em uso, mas exige uma reavaliação pelos reguladores nos próximos cinco anos.

Os defensores da proibição citaram evidências científicas que ligam o paraquate a uma série de problemas de saúde, incluindo a doença cerebral incurável conhecida como Mal de Parkinson, como uma das principais razões para proibir o uso do paraquate no estado.

No início deste ano, a Assembleia Estadual da Califórnia aprovou o que foi chamado de “moratória” sobre o paraquate, que entraria em vigor em janeiro de 2026 e previa um processo que daria aos reguladores estaduais a oportunidade de reavaliar o paraquate e potencialmente reaprovar o produto químico com ou sem novas restrições.

Mas as emendas do Senado estadual eliminaram qualquer moratória ou restrição ao uso. O projeto de lei, conforme aprovado, agora exige apenas que os reguladores estaduais de agrotóxicos concluam uma reavaliação do paraquate até janeiro de 2029.

A deputada da Califórnia, Laura Friedman, disse que o fato de a legislatura ter aprovado requisitos para uma reavaliação regulatória ainda é uma vitória.

“Com a crescente evidência médica indicando que o paraquate é simplesmente muito tóxico para permanecer em uso amplo, estou muito confiante de que [os reguladores estaduais] não apenas farão uma reavaliação completa do paraquate, mas também o proibirão completamente ou colocarão maiores restrições ao seu uso”, disse Friedman em uma declaração.

“A legislatura falou alto e claro”, disse Bill Allayaud, vice-presidente de assuntos governamentais do Environmental Working Group (EWG), em um comunicado à imprensa . O EWG foi um dos principais apoiadores do projeto de lei. “Eles querem que a ciência sobre o paraquate seja considerada agora, enquanto os trabalhadores rurais e os moradores próximos são expostos – não mais para frente.”

Houve forte oposição à proibição do paraquate. Uma análise legislativa da lei cita uma “coalizão de oponentes, incluindo fabricantes de agrotóxicos, associações comerciais da indústria química e organizações comerciais agrícolas”, opondo-se à lei.

Os oponentes da indústria também se opõem a uma reavaliação regulatória do paraquate, dizendo que isso “constituirá um impacto fiscal significativo” sobre os reguladores estaduais que poderiam estar revisando outros produtos, de acordo com a análise.  

O governador da Califórnia, Gavin Newsom, tem até o final de setembro para assinar ou vetar a lei.

Neste verão, os legisladores estaduais aprovaram um projeto de lei relacionado que aumenta as taxas sobre vendas de pesticidas para ajudar a financiar programas aprimorados de supervisão regulatória dentro do estado.

O paraquate tem sido usado há décadas como um herbicida amplamente utilizado. Mas um grande corpo de evidências científicas vinculou o uso crônico do produto químico à doença de Parkinson, que se tornou uma das principais causas de morte nos Estados Unidos.

Vários milhares de agricultores, trabalhadores agrícolas e outros estão processando a fabricante de paraquate, Syngenta, alegando que desenvolveram Parkinson devido aos efeitos crônicos de longo prazo do paraquate e alegando que a Syngenta escondeu os riscos do público e dos reguladores.

O New Lede revelou anteriormente que a pesquisa interna da Syngenta encontrou efeitos adversos do paraquate no tecido cerebral décadas atrás, mas a empresa escondeu essa informação dos reguladores, trabalhando em vez disso para desacreditar a ciência independente que liga o produto químico a doenças cerebrais e desenvolvendo uma “equipe SWAT” para combater as críticas.  

“É simplesmente inconcebível que esse herbicida ainda exista e seja amplamente usado nos Estados Unidos”, disse o membro da Assembleia da Califórnia Rick Zbur em uma coletiva de imprensa em abril, discutindo os esforços para proibir o paraquate. “Não deveríamos pulverizar amplamente um herbicida conhecido por causar pressão alta, insuficiência cardíaca, insuficiência renal, doença de Parkinson, leucemia infantil e câncer.” 


Fonte: The New Lede

Agrotóxicos criam gerações de filhos doentes da agricultura brasileira

Investigação expõe a relação entre o uso de agrotóxicos e o aumento de condições graves entre bebês do campo

agrotoxicos bfAluna da escola rural Attilio Benedetti, em Vacaria, caminha diariamente em meio a plantações – Anna Ortega

Sílvia Lisboa e Carla Ruas para a  Dialogue Earth

Maria nasceu com uma grave anomalia congênita que limitou seu desenvolvimento. Embora os médicos tenham logo drenado o excesso de líquido acumulado ao redor de seu cérebro, um distúrbio conhecido como hidrocefalia, eles não conseguiram impedir danos severos à recém-nascida. Mais tarde, outras cirurgias tentaram corrigir seus pezinhos atrofiados, mas ela nunca andou, nem falou; e à medida que crescia perdia seus poucos movimentos. Seu olhar era distante, segundo a família. 

Em uma consulta médica assim que Maria nasceu, seus pais ouviram a possível causa da condição: contaminação por agrotóxicos. Eles são agricultores de frutas e hortaliças de Vacaria, município rural de 64 mil habitantes no nordeste do Rio Grande do Sul, e usam esses produtos em seu dia a dia. 

“Eles se sentem culpados, foi uma dor muito grande”, disse uma tia da menina que não quis se identificar para não expor os pais, que autorizaram a entrevista, mas ainda sofrem com o diagnóstico mesmo mais duas décadas depois. “Eles são vítimas, não há alerta sobre os riscos”.

Com o passar dos anos, Maria (seu nome foi trocado nesta reportagem) entrou em estado vegetativo e morreu aos 21 anos, em 2020. 

Esse não é um caso isolado. Uma investigação do Dialogue Earth em parceria com Tatiane Moraes, pesquisadora em saúde ambiental na Universidade de São Paulo, explorou os impactos de agrotóxicos na saúde infantil. A análise conduzida por Moraes para essa reportagem revela uma associação entre anomalias como a de Maria e de mortes fetais (após a 28ª semana de gestação) com a proximidade de áreas agrícolas do Brasil.

Pela plataforma Mapbiomas, Moraes identificou os estados onde mais da metade dos municípios têm ao menos 5% da área ocupada pela agricultura. Depois, com dados de 2013 a 2021 do sistema nacional de saúde Datasus, ela verificou se a taxa de anomalias congênitas e mortes fetais — condições já associadas à exposição de agrotóxicos — aumentou nessas cidades. 

A análise encontrou risco aumentado para essas condições no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, no Sul, além de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, no Centro-Oeste. Esses estados são grandes produtores de soja, milho e cana-de-açúcar, segundo o levantamento de Moraes. 

Os mesmos estados estão entre os que mais comercializam agrotóxicos, segundo dados do Ibama, órgão de fiscalização ambiental. Mato Grosso — líder nacional em produção agrícola — está no topo do ranking, enquanto Goiás, Mato Grosso do Sul, Santa Catarina e Rio Grande do Sul estão entre os dez primeiros colocados. 

“Os resultados reforçam a necessidade de reavaliar o uso massivo de agrotóxicos na agricultura brasileira”, disse Moraes, que foi bolsista do Departamento de Saúde Global e População da Universidade Harvard, nos Estados Unidos. 

No Mato Grosso, cidades como Sinop e Sorriso, onde o agronegócio domina a economia, foi identificado um risco 20% maior para anomalias congênitas e 30% para mortes fetais na comparação com cidades sem plantações.


Gestante aguarda consulta médica na sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Vacaria / Anna Ortega

Nas cidades gaúchas com mais da metade da área dedicada à agricultura, foi encontrado um risco de morte antes do nascimento 73% maior em comparação com os demais municípios. Já em cidades com até um terço da área agrícola, como Vacaria, onde Maria nasceu, foi visto um risco 2% maior de desenvolver anomalias congênitas entre 2013 e 2021.

Segundo Moraes, essa ampla variação do risco pode se dar por outros fatores como, por exemplo, o acesso à saúde em determinados municípios. Para entendê-los a fundo, seria necessário fazer novas investigações. “O importante foi demonstrar haver uma associação positiva e mensurar o risco de se viver em um município agrícola olhando para as crianças”, disse.

Glifosato, perigoso mas disseminado

O glifosato, mais usado no país, e outros químicos, como 2,4-D, atrazina, mancozebe, clorotalonil e acefato interferem na regulação hormonal e podem provocar anomalias, segundo o Atlas dos Agrotóxicos. Com exceção do glifosato e 2,4-D, os demais são proibidos na União Europeia.

Pesquisas no Brasil e no exterior vão ao encontro do trabalho de Moraes. Em um estudo de 2019, a Fundação Oswaldo Cruz revelou que microrregiões (ou seja, regiões dentro dos estados) com maior produção de grãos e de exposição a agrotóxicos têm taxas mais altas de anomalias congênitas.

Em estudo semelhante de 2023, pesquisadoras americanas encontraram índices acima da média de leucemia linfoblástica aguda em crianças por onde a soja está se expandindo na Amazônia e no Cerrado. As cientistas estimaram que, entre 2008 e 2019, houve 123 mortes adicionais entre pacientes com menos de 10 anos que vivem em áreas onde o cultivo do grão avançou.

Para uma das autoras, Kaitlyn Margaret Sims, professora de microeconomia e políticas públicas na Universidade de Denver, o resultado surpreendeu. “Já tínhamos ouvido rumores de que, quando a soja chega, o câncer vem logo atrás. Mas não pensávamos que encontraríamos resultados tão expressivos,” disse ao Dialogue Earth. 

Outra pesquisa, publicada no periódico Review of Economic Studies em 2023, mostrou que até as crianças vivendo longe de plantações podem ser afetadas, já que os resíduos do glifosato são transportados pelos rios. Os resultados mostraram um maior número de bebês que nascem prematuros e abaixo do peso normal, além de um aumento de 5% na mortalidade infantil entre 2000 e 2010 no Centro-Oeste e Sul.

“Mesmo em distâncias de até cem quilômetros da área de uso, nós ainda achamos algum efeito negativo”, explicou Mateus Dias, um dos autores do estudo e professor assistente de economia da saúde na Católica Lisbon School of Business and Economics.

Dados da Organização para Alimentação e Agricultura (FAO) indicam que o Brasil é o campeão mundial no uso de  agrotóxicos. Em 2022, o país aplicou mais de 800 mil toneladas de agrotóxicos nos mais diversos cultivos, superando o total usado por China e Estados Unidos juntos.

“Esses dados precisam ser lidos em um contexto: o Brasil é um país tropical muito sujeito a pragas. Além disso, plantamos quatro a cinco culturas por ano, diferentemente de países com invernos rigorosos que plantam apenas uma cultura”, explica o pesquisador Décio Karam, da Embrapa, órgão federal que atua na pesquisa agropecuária. “Ainda assim, há muito espaço para reduzir o uso de agrotóxicos com manejo adequado”.

O crescimento no uso de agrotóxicos no Brasil coincide com a introdução da soja transgênica e a adoção do glifosato no final dos anos 1990. Entre 2000 e 2022, dados da FAO mostram que seu consumo por hectare plantado quintuplicou no país.

Em Vacaria, a soja avançou 13 vezes entre 1985 e 2022, e hoje ocupa 70 mil hectares, um terço do município. Já a maçã, que também demanda a aplicação intensa de agrotóxicos, ocupa quase sete mil hectares.

No município, as lavouras ficam extremamente próximas às áreas residenciais. Quando visitamos o local em meados de junho, vimos o nabo forrageiro – que fertiliza e descompacta o solo, preparando-o para o plantio de soja – adentrando o pátio e a quadra da escola rural Attilio Benedetti.


Menino joga futebol na escola rural Attilio Benedetti, em Vacaria, instituição cercada por plantações de soja / Anna Ortega

A diretora Leila Tais Fernandes explicou que o terreno havia sido doado por um agricultor cujas fazendas são limítrofes ao colégio, e a maioria dos 75 alunos são filhos de funcionários.

Uma mãe em busca de respostas

Juliana Pedroso suspeita que o agrotóxico esteja por trás do diagnóstico de seu filho João Otávio, de 7 anos, que tem uma síndrome neurodegenerativa extremamente rara que provoca paraplegia, deficiência intelectual e obesidade. “Foi uma mutação genética na gestação, mas os médicos nunca dizem a causa. Já me perguntei se poderia ser agrotóxico que afetou o pai agricultor”, disse a técnica em enfermagem, que mora na área urbana de Vacaria, também circundada por lavouras.


João Otávio (à esquerda) e sua mãe Juliana Pedroso brincam com bexiga recheada de amido de milho na varanda de sua casa, em Vacaria / Anna Ortega

João Otávio nasceu prematuro e logo manifestou sintomas preocupantes. “Suas mãozinhas eram viradas para dentro, e ele não movia o lado esquerdo”, lembrou a mãe. Depois vieram as crises convulsivas e a peregrinação por médicos e hospitais. 

Apesar das dificuldades e graças ao empenho da família, ele desenvolveu bem a fala e os movimentos. Sua maior diversão é seu canal no YouTube dedicado a videogames. Em uma tarde fria quando o visitamos, João Otávio mostrou orgulhoso seu quarto repleto de bichos de pelúcia e se divertiu estourando um balão recheado de amido de milho que ele fez parecer neve. 

À frente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Vacaria há 23 anos, Sérgio Poletto está determinado a entender se o agrotóxico pode ter contribuído para o surgimento da síndrome que afeta João Otávio e a de condições de outras crianças que aguardam uma vaga na Apae, centro para a reabilitação e inclusão de pessoas com deficiência, no município.


Funcionário da Apae municipal de Vacaria trabalha com criança / Anna Ortega

A entidade viu explodir a busca por vagas nos últimos anos e convocou Poletto para investigar o que poderia estar contribuindo para isso. “Estamos muito preocupados com o aumento, de dez anos para cá, de crianças com deficiências”, disse Maria Aparecida Fabris, coordenadora pedagógica da Apae, que hoje atende 80 crianças, enquanto outras 20 seguem na fila de espera. “Não temos capacidade para receber mais, porque todos continuam conosco por um longo tempo”.

Com os ombros levemente curvados, o que lhe dá um ar tímido, mas que contrasta com sua atuação corajosa, Poletto assumiu a tarefa “de questionar o que ninguém questiona”, como ele mesmo diz. Em 2013, ajudou a organizar um amplo estudo que ouviu mais de 980 trabalhadores do campo: 95% disseram usar agrotóxico, e a maioria o aplicava com pulverizadores acoplados como mochilas, colados ao corpo e sem proteção. 

Em visitas às propriedades rurais, ele ficou estupefato com o uso intensivo dos químicos, com a falta de cuidados no seu manuseio e com o desconhecimento sobre seus riscos. A médica Neice Muller, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, liderou a pesquisa.


Sérgio Poletto, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Vacaria, iniciou uma campanha de conscientização sobre o uso de equipamentos de proteção individual ao pulverizar agrotóxicos / Anna Ortega

Poletto decidiu colocar toda a estrutura do sindicato para conscientizar seus sete mil membros sobre os riscos dos pesticidas. Imprimiu panfletos e organizou palestras sobre a importância do uso de equipamentos de proteção individual, além de nomear um técnico para orientar na migração de agricultores para o cultivo orgânico. Mas, com a resistência interna, passou a apenas auxiliá-los na redução do uso de agrotóxicos. “Tivemos de maneirar no discurso para não perder associados”, disse ele. 

Até Silvandro Fonseca, secretário de Saúde de Vacaria, confiou a Poletto a busca por explicações. Fonseca disse estar em alerta com os índices acima da média brasileira de óbitos fetais, cânceres e problemas renais no município, mas reconheceu que a prefeitura não tem programa de prevenção. “É difícil estabelecer uma causa, por isso também é difícil implementar algum programa”, disse o secretário, em uma reunião na prefeitura convocada por Poletto e acompanhada pela reportagem.

Médico no sindicato, o ginecologista Dirceu Trevisan também está atento ao alto índice de abortos e mortes fetais entre as assalariadas. “Em muitos casos, eu pergunto que produto ela aplica na lavoura, e ela não sabe dizer porque são misturas”, disse ele. “A vigilância sanitária precisa ter um controle disso, senão só trataremos a consequência”.

Ainda é um desafio quantificar a influência dos agrotóxicos sobre doenças graves no país. “Mas o fato de ser complexo não significa que não haja impacto, isto é, que os riscos não existam”, disse a geneticista Lavinia Schuler-Faccini, autoridade em anomalias congênitas na América Latina.

Schuler-Faccini diz que os riscos estão sendo cada vez mais demonstrados por estudos comparando populações expostas e não expostas e por análises em animais e células in vitro. “Um dos grandes desafios agora é sabermos o peso exato dos agrotóxicos no desenvolvimento de condições e doenças”, explica a professora do departamento de genética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.


Trabalhadores podam macieiras para o inverno em Vacaria. A cultura exige aplicação intensa de pesticidas e ocupa quase sete mil hectares no município / Anna Ortega

Os efeitos dos agrotóxicos sobre as crianças podem originar tanto do pai quanto da mãe, segundo Schuler-Faccini. A presença de pesticidas no organismo desregula hormônios e interfere nas sinalizações produzidas pelos genes, podendo desligar, enfraquecer ou ativar excessivamente sua expressão. “É um efeito a longo prazo, que ocorre muito antes de uma gestação”, diz a pesquisadora, que também lidera a vigilância de anomalias congênitas no estado.

Legislação flexível e batalhas judiciais

No Brasil, os agrotóxicos têm um caminho cada vez mais livre. Em 2020, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária reavaliou o glifosato e o considerou seguro, desde que não extrapole doses de contaminação aguda e crônica. 

Aprovada em 2023, a lei cujo projeto ficou conhecido como “PL do Veneno” afrouxou ainda mais o controle de agrotóxicos no país, apesar de duras críticas da comunidade científica. Em junho, o governo federal liberou 80 novos produtos com agrotóxicos, incluindo quatro a base de glifosato. Um deles será fabricado pela Monsanto no Brasil, enquanto os outros três, na China, um fornecedor de agrotóxicos cada vez mais relevante no mercado brasileiro.

O glifosato e outros produtos considerados perigosos também seguem sem restrições em vários países. Em 2023, a Comissão Europeia autorizou o uso do herbicida por mais dez anos, embora alguns países europeus tenham proibido seu uso em áreas residenciais e espaços públicos. 

Nos Estados Unidos, porém, a Monsanto tem contabilizado derrotas na Justiça. Vítimas de câncer têm conseguido provar que ficaram doentes por causa do Roundup, à base de glifosato. Até agora, 154 mil ações já chegaram às Cortes americanas, e a multinacional pagou cerca de US$ 11 bilhões em indenizações. Como resultado da ofensiva, a multinacional alemã Bayer, proprietária da Monsanto, retirou o glifosato de produtos para uso residencial no país – este uso segue autorizado no Brasil.

O Brasil tem visto poucas ações judiciais desse tipo, mas há algumas em andamento. Em um caso, a agricultora Lídia Maria do Prado, do Paraná, processou a multinacional Alliance One por ter desenvolvido polineuropatia tardia, uma disfunção de nervos periféricos associada ao contato com agrotóxicos da lavoura de tabaco. Até agora, ela vem vencendo a batalha nos tribunais. 

Agricultores gaúchos de Nova Santa Rita e Eldorado do Sul também buscaram na Justiça a proibição da pulverização aérea de agrotóxicos, que afetou plantações orgânicas e a saúde dos assentados, que relataram sintomas de intoxicação após a deriva. 

Mas nem todos buscam justiça ou respostas. Os pais de Maria preferem não mexer nas feridas do passado. Saber a causa do destino da filha ainda é insuportavelmente doloroso. Outra agricultora com quem conversamos relembrou sua sobrinha, nascida na década de 1990, quando os campos de Vacaria começaram a ser tomados pela soja. A menina, filha de agricultores, nasceu sem vida, vítima de anomalias congênitas. Agora, a mulher se pergunta se a vida da sobrinha teria sido abreviada, assim como a de Maria, pela exposição a agrotóxicos. 

Esta reportagem foi apoiada pelo Fundo Howard G. Buffett para Mulheres Jornalistas da International Women’s Media Foundation. 

Tatiane Moraes contribuiu para a reportagem com sua pesquisa sobre a associação entre o uso de agrotóxicos e as mortes fetais e anomalias congênitas.


Fonte:  Dialogue Earth

Preço dos medicamentos: muros de patentes abusivas impedem concorrência

public eye nov

Por Patrick Durisch para a Public Eye

As empresas farmacêuticas suíças frequentemente se destacam internacionalmente por acumular disputas legais com o objetivo de manter os concorrentes genéricos afastados e manter um preço alto para seus principais produtos. No entanto, essa estratégia coloca em risco o acesso a tratamentos acessíveis. Já passou da hora de agir contra a proliferação de patentes secundárias abusivas, que não fornecem nenhum valor terapêutico agregado e servem apenas para encher os cofres já bem abastecidos da Big Pharma. Uma verdadeira operação de extorsão nas costas do seguro social, que a Suíça deve denunciar em vez de apoiar cegamente.

Um novo medicamento não é protegido por uma única patente, mas por dezenas, ou às vezes até mais de uma centena de patentes, comumente chamadas de “ patente thickets ”. Elas também são arquivadas ao longo de um período de tempo, o que significa que a duração do monopólio de um produto frequentemente excede facilmente os 20 anos teóricos previstos pelo Acordo sobre Propriedade Intelectual (TRIPS) da Organização Mundial do Comércio (OMC). Uma estratégia de acumulação infinita de patentes descrita como “ evergreening ” . 

Deve ser feita uma distinção entre dois tipos de patente: 

  • patentes primárias relacionadas à(s) substância(s) e depositadas no início da fase de desenvolvimento, 

  • e patentes secundárias depositadas imediatamente antes ou durante a fase de comercialização, que prolongam o período de monopólio, mas sem qualquer valor terapêutico acrescentado real . 

Embora qualquer patente seja uma exceção ao livre mercado, as patentes secundárias são, sem dúvida, as que têm mais impacto na concorrência e nos preços – especialmente porque elas proliferaram nos últimos anos, principalmente nos Estados Unidos, onde são concedidas com mais facilidade. 

Patentes secundárias concedidas em massa

A Suíça se gaba de ser um dos “países mais inovadores” todos os anos, com base simplesmente no número de patentes registradas. No entanto, pelo menos no que diz respeito aos medicamentos, a grande maioria é injustificada e tem pouco a ver com o progresso real. Os grandes grupos farmacêuticos rapidamente perceberam as vantagens financeiras que poderiam obter com o uso abusivo de patentes para bloquear o caminho de seus concorrentes. Na outra ponta da cadeia de suprimentos, os pacientes têm que pagar altos preços de monopólio por seus tratamentos por mais tempo, sem nenhuma justificativa válida.

Vale lembrar que uma patente é um direito exclusivo que permite ao titular da invenção proibir terceiros de fabricá-la e comercializá-la. Mas é um direito territorial: se uma empresa farmacêutica quer proteger seu medicamento em vários países, ela tem que solicitá-lo em cada um deles – exceto na Europa, com o Escritório Europeu de Patentes (EPO) reunindo 39 países, incluindo a Suíça, e tendo um procedimento centralizado que se aplica simultaneamente em todas essas jurisdições.

Também deve ser lembrado que uma invenção deve atender a três requisitos gerais para ser patenteada: (1) ser nova; (2) envolver uma etapa inventiva; e (3) ser capaz de aplicação industrial. Um pedido de patente para um medicamento não é, portanto, julgado com base no benefício do tratamento – mas apenas com base no fato de que é uma “nova invenção” que é levada em consideração, mesmo que seja apenas uma pequena modificação de um produto já existente. 

O Acordo TRIPS deixa uma grande margem de manobra para os estados-membros da Organização Mundial do Comércio (OMC) decidirem qual invenção merece uma patente ou não, desde que os três requisitos sejam atendidos. Portanto, dependendo da legislação em vigor e de quão meticulosamente os pedidos são examinados, as patentes são concedidas em massa (como nos Estados Unidos), de forma um pouco mais restrita porque às vezes são contestadas (como na Europa), ou com parcimônia devido a cláusulas mais restritivas que visam evitar recompensar pseudo-inovações que colocam em risco o direito à saúde (como na Índia). Essas abordagens têm consequências muito diferentes em termos de concorrência e acesso a medicamentos, com os genéricos chegando ao mercado mais ou menos tarde, dependendo do país, e vendidos a preços mais baixos.

©2024 Bloomberg Finanças LP. Vas Narasimhan, CEO da Novartis e presidente do lobby farmacêutico dos EUA PhRMA, entrevistado em Nova York em fevereiro de 2024.

Estados Unidos – um verdadeiro paraíso para a indústria farmacêutica

Como em várias outras indústrias, os Estados Unidos dão o tom no setor farmacêutico. Com um faturamento de mais de US$ 600 bilhões anualmente, os EUA sozinhos respondem por mais da metade do mercado farmacêutico global. Este é um teatro de operações fundamental para a Roche e a Novartis, que estão classificadas em segundo e oitavo lugar, respectivamente, no mundo em termos de vendas em 2023.

As gigantes sediadas em Basileia são membros de longa data do poderoso lobby farmacêutico nos Estados Unidos (Pharmaceutical Research and Manufacturers of America ou PhRMA), que está bem estabelecido no Congresso e na Casa Branca. O CEO da Novartis está até mesmo presidindo-o desde 2023. Nos Estados Unidos, as empresas farmacêuticas se beneficiam de vários incentivos e grandes benefícios fiscais no campo da pesquisa, bem como de uma política de patentes muito generosa e um sistema legal propício para iniciar litígios a todo custo. O procedimento de autorização de comercialização também está intimamente ligado ao status das patentes, o que não é o caso na Europa. E a cereja do bolo: atualmente não há uma política governamental adequada de controle de preços. 

Por isso, as grandes corporações buscam lançar seus novos produtos primeiro nos Estados Unidos para poderem proteger sua invenção pelo maior tempo possível (às vezes por 40-50 anos) e obter um preço muito alto no mercado dos Estados Unidos, que depois usarão como base para negociação em outros países, por exemplo na Europa, onde os controles de preços são um pouco mais rígidos. 

Entresto é apresentado como o produto de crescimento mais rápido no último relatório trimestral da Novartis para investidores (Resultados do segundo trimestre de 2024, disponíveis gratuitamente no site da Novartis).

Entresto – sucesso de bilheteria da Novartis

Para destacar como o setor farmacêutico está explorando sua posição de força para espremer a concorrência, analisamos o caso do Entresto da Novartis. Após um início bastante lento, esse tratamento para insuficiência cardíaca, lançado em julho de 2015 nos Estados Unidos e logo depois na Suíça e no resto da Europa, viu suas vendas explodirem em 2021, após obter uma extensão de indicação para diferentes tipos de insuficiência cardíaca. Na Suíça, suas vendas anuais mais que dobraram de CHF 18 milhões para mais de CHF 39 milhões entre 2019 e 2023, de acordo com números da seguradora de saúde Helsana. Em 2023, o Entresto gerou a maior receita do grupo globalmente, registrando um valor superior a US$ 6 bilhões (cerca de 13% do total de vendas). Em apenas oito anos, a Novartis já arrecadou mais de US$ 20 bilhões em vendas com este produto.

Seu preço oficial na Suíça para um mês de tratamento é de cerca de CHF 130 francos (CHF 2,3 por comprimido). Como costuma ser o caso para medicamentos, é quatro vezes maior nos Estados Unidos: $ 668 por mês, enquanto é um pouco mais barato na Índia (10.200 rúpias ou cerca de CHF 103 por mês). Esse preço pode parecer irrisório comparado ao de medicamentos contra o câncer, mas a margem permanece substancial devido à alta demanda e a um custo de produção extremamente baixo de CHF 0,13 por comprimido.

Além disso, Entresto é uma combinação de duas substâncias antigas, incluindo valsartan, que tem sido um sucesso para a Novartis como um tratamento para hipertensão nos últimos 25 anos sob a marca Diovan, gerando mais de US$ 65 bilhões em receita até agora. De uma perspectiva comercial, Entresto é, portanto, uma tentativa da Novartis de estender as vendas impressionantes de seu antecessor Diovan, ao mesmo tempo em que expande seu público-alvo para pacientes que sofrem de insuficiência cardíaca. Em poucas palavras, ele acertou na loteria. 

A Novartis há muito tempo recuperou seu investimento no desenvolvimento do Entresto, gerando uma enorme margem de lucro na barganha. No entanto, a gigante suíça ainda está faminta por mais e iniciou uma saga jurídica em 2019 nos Estados Unidos e na Índia com o objetivo de atrasar a entrada no mercado de concorrentes genéricos pelo maior tempo possível. É aqui que as patentes secundárias entram em jogo. 

©Shutterstock. Entresto, uma combinação de sacubitril e valsartana, é um medicamento cardíaco usado para insuficiência cardíaca crônica.

Uma onda de patentes frívolas

A Novartis obteve pelo menos 13 patentes sobre este produto nos Estados Unidos, teoricamente garantindo exclusividade de mercado por quase 40 anos, o dobro do padrão previsto pelas regras da OMC (veja a tabela abaixo). Além do número envolvido, outro aspecto marcante é o tipo de patentes e suas datas de depósito. O medicamento, uma combinação de duas substâncias, permaneceu exatamente o mesmo desde o início. As únicas mudanças feitas foram na indicação, dosagem e outros aspectos, como seu método de uso. No entanto, em cada ocasião, novas patentes secundárias foram depositadas e concedidas. Onde estão os benefícios terapêuticos disso? Praticamente nenhum. Por outro lado, o período de monopólio foi estendido por 18 anos, até 2042.

Na Europa, há pelo menos nove pedidos de patentes, três dos quais estão sob exame pelo EPO. Apenas três patentes são válidas até o momento (veja a tabela abaixo). A patente primária da Entresto expirou em 2023, mas sua proteção foi estendida na Suíça até janeiro de 2028 pelas autoridades suíças. A proteção da Entresto na Europa, com todas as patentes concedidas juntas, teoricamente vai até maio de 2036, mas se os três pedidos pendentes forem bem-sucedidos, esse período será de 40 anos – o dobro do padrão da OMC. Duas patentes secundárias foram revogadas (uma pelo titular e a outra após oposições), demonstrando que elas não deveriam ter sido concedidas se tivessem sido examinadas mais de perto pelo EPO.

O cenário é diferente na Índia, onde cinco patentes foram concedidas para o Entresto (comercializado sob a marca Vymada), quatro das quais são secundárias (veja a tabela abaixo). A patente primária (expirada em janeiro de 2023) foi contestada em tribunal em vão em 2019 por quatro fabricantes de genéricos. A segunda patente, registrada em 2006, foi objeto de nove oposições antes de ser concedida, conforme autorizado pela lei indiana, mas acabou sendo concedida. Novos recursos foram então registrados, e os procedimentos ainda estão pendentes. Quanto às outras três patentes, elas podem muito bem ser contestadas posteriormente em tribunal por empresas indianas. Em jogo estão atrasos na comercialização de equivalentes genéricos mais acessíveis (pelo menos 50% mais baratos que o original) e na melhoria do acesso a este produto em um país onde a maioria dos pacientes paga pelo tratamento médico do próprio bolso. 

Com suas patentes primárias expiradas e mais de US$ 85 bilhões gerados em 25 anos, graças a Diovan e Entresto, é hora de a Novartis finalmente abrir caminho para produtos genéricos. Mas a corporação suíça não se importa com isso e continua a tomar medidas legais sistematicamente para bloquear seus concorrentes com base em suas patentes secundárias abusivas.

Uma onda de ações judiciais nos Estados Unidos

Nossas extensas investigações nos permitiram rastrear as inúmeras reclamações que a Novartis apresentou nos Estados Unidos por suposta violação de suas patentes Entresto, com base em documentos judiciais que conseguimos acessar (veja o cronograma abaixo).

Uma observação marcante esteve na origem desta investigação: na última década, as empresas farmacêuticas suíças tomaram medidas legais quase rotineiramente nos Estados Unidos ou na Índia com o objetivo de excluir – ou pelo menos atrasar significativamente – a concorrência, seja para Entresto ou Gilenya (usado para tratar esclerose múltipla) em relação à Novartis, ou para Esbriet (usado para tratar fibrose pulmonar) ou seus tratamentos contra câncer de mama (Herceptin no passado, Perjeta atualmente) em relação à Roche. Examinamos cada um desses casos, mas vamos nos concentrar aqui no caso emblemático de Entresto. 

Nos Estados Unidos, a Novartis apresentou nada menos que 25 queixas por suposta violação de nove de suas patentes sobre o Entresto entre outubro de 2019 e outubro de 2022 contra 18 empresas farmacêuticas que haviam sinalizado sua intenção de comercializar versões genéricas. Deve-se notar que todas essas queixas, antes da comercialização, eram puramente preventivas. Na época, as empresas envolvidas não vendiam nenhuma forma genérica do Entresto no mercado dos EUA, mas simplesmente iniciaram o longo processo de aprovação com a Food and Drug Administration (FDA), para estarem prontas quando a exclusividade comercial terminasse. Esses litígios preventivos são uma característica particular da lei dos Estados Unidos, conhecida como “vinculação de patentes”, que vincula o status das patentes ao procedimento de autorização de comercialização. Felizmente, essa situação não existe na Europa. O papel de uma agência de medicamentos como a Swissmedic é garantir que os tratamentos a serem aprovados sejam seguros e eficazes, não desempenhar o papel de cão de guarda da concorrência.

Das 18 empresas processadas pela Novartis, três tiveram a queixa contra elas rejeitada devido à ausência de infração. Onze outras chegaram a um acordo confidencial negociado com a Novartis, provavelmente se comprometendo a não comercializar seu produto genérico antes de uma data acordada entre as partes, em troca de uma suspensão do processo.

Este tipo de acordo geralmente assume duas formas no setor farmacêutico: 

  • concessão de licença mediante pagamento de royalties, válida a partir de determinada data; 

  • “pagar por atraso”, uma tática tradicional, especialmente quando uma patente é precária. O fabricante de um medicamento original então paga uma quantia específica a uma empresa concorrente para incentivá-la a adiar o lançamento de seu produto genérico. Essa prática, que também é comum na Europa, foi fortemente criticada em várias ocasiões pelas autoridades de concorrência. Também é muito cara para os sistemas de saúde, já que o medicamento continua a ser vendido a um preço alto até que um produto genérico chegue. No caso do Entresto, parece que acordos de licenciamento foram concluídos, embora isso não possa ser estabelecido com certeza, já que os documentos judiciais são lacrados ou redigidos. 

Linha do tempo sobre as reclamações apresentadas pela Novartis nos EUA por suposta violação de patente da Entresto. Baixe o PDF aqui .

Em julho de 2023, foram proferidos os únicos dois veredictos até o momento nesta saga jurídica:

  • No primeiro caso, após quatro anos de litígio com muitos especialistas e advogados, uma das nove patentes da Entresto envolvidas foi invalidada pelo Tribunal de Delaware ( In re: Entresto (Sacubitril/Valsartan) Patent Litigation , Case No. 1:20-md-02930, US District Court of Delaware, 21/07/2023). A Novartis entrou com um recurso imediato no tribunal federal (os processos estão pendentes).

  • No segundo caso, o veredito foi dado pelo Tribunal da Virgínia Ocidental em favor da empresa suíça para confirmação de uma violação de duas patentes pela empresa Mylan. Esta última não apresentou um recurso e nenhuma outra informação pode ser obtida dos documentos do tribunal, mas é concebível que um acordo confidencial tenha sido alcançado. Deve-se notar que foi decidido com base em meia molécula de água na fórmula química entre o produto original da Novartis e o produto genérico da Mylan quando se tratava de inclinar a balança da justiça para um lado ou para o outro, de acordo com o veredito do tribunal emitido em 6 de julho de 2023. Isso destaca a natureza complexa dos procedimentos, mas também o tempo considerável que as gigantes farmacêuticas podem ganhar graças à apresentação de tais queixas legais.

No momento, as reclamações da Novartis “apenas” dizem respeito a quatro empresas e se relacionam a uma suposta violação de quatro patentes (cinco se a Novartis vencer sua apelação). Não está claro quando os próximos vereditos serão entregues, mas os procedimentos ainda podem levar muito tempo.

Entre maio e agosto de 2024, seis versões genéricas do Entresto finalmente receberam sinal verde do FDA, mas essa aprovação ainda não significa que elas poderão ser comercializadas e disponibilizadas aos pacientes em breve. A Novartis está mais uma vez tomando medidas legais em 30 de julho, desta vez com uma queixa civil contra o FDA por violar seus procedimentos de aprovação ( Novartis Pharms Corp. v. Xavier Becerra ¬ Robert Califf, Caso nº 1:24-cv-02234, Tribunal Distrital dos EUA de Columbia, 30/07/2024 ). Embora o tribunal tenha negado o pedido da Novartis de suspender a aprovação do FDA em primeira instância, essas empresas podem muito bem ver a comercialização de seu Entresto genérico nos Estados Unidos ainda mais adiada, dependendo do resultado final deste caso e de outros litígios de patentes pendentes.

Enquanto isso, a Novartis pode continuar a arrecadar bilhões de dólares a mais com suas patentes secundárias frívolas – um exemplo perfeito de “evergreening” e uma verdadeira extorsão feita às custas dos pacientes e da previdência social.

Saga jurídica também na Índia

Como a Índia sempre se recusou a introduzir um sistema que vinculasse o status das patentes ao procedimento de aprovação (“vinculação de patentes”), versões genéricas do Vymada (o nome da marca Entresto na Índia) receberam autorização de comercialização em 2019. As perspectivas são realmente suculentas, com um mercado de cardiologia estimado em CHF 2,5 bilhões e mais de 650.000 novos casos de insuficiência cardíaca diagnosticados a cada ano. Em 2019, a Novartis processou os quatro fabricantes indianos de genéricos envolvidos, que então revidaram solicitando a revogação da patente primária (IN 229051). O Tribunal Superior de Déli finalmente decidiu a favor da corporação suíça em 2021, proibindo empresas locais de fabricar e comercializar suas versões genéricas, pelo menos até o vencimento da patente primária (janeiro de 2023).

A atenção então se voltou para a segunda patente secundária (IN 414518), que havia sido concedida na Índia apesar de nove oposições pré-concessão bem argumentadas, e que estendeu o monopólio de mercado da Novartis até novembro de 2026. Várias empresas genéricas, portanto, entraram com ações legais, já em 2022, para tentar revogar essa patente secundária após ela ter sido concedida. Inicialmente, o Tribunal Superior de Déli suspendeu a patente secundária em questão em janeiro de 2023, antes de reverter sua decisão alguns dias depois, confirmando sua validade. O que se seguiu foi ainda mais confuso, entre um contra-ataque de empresas de produtos genéricos para tentar revogar a patente secundária e apelações da Novartis sobre as quais – até onde sabemos – nenhum veredito foi proferido ainda. E a questão das outras três patentes secundárias, com um prazo teórico de proteção até fevereiro de 2037, também não foi resolvida. 

Mesmo que este não tenha sido o caso até agora para a Entresto, as empresas farmacêuticas suíças, no passado, quebraram os dentes várias vezes com essas oposições de patentes pré-concessão. Começando com o caso simbólico do medicamento contra o câncer Glivec da Novartis, que teve sua patente primária recusada pelas autoridades indianas. Apenas alguns países, como a Índia ou a Tailândia, usam essa flexibilidade legal consagrada nos acordos da OMC. A Europa (com exceção de Portugal) e os Estados Unidos não preveem esses procedimentos de pré-concessão, pois irritam a Big Pharma ao ir contra seus negócios. Em seu acordo bilateral de livre comércio concluído recentemente com a Índia, a Suíça também conseguiu minar essas oportunidades de intervir em um estágio inicial do procedimento. Esta é uma péssima notícia em termos de acesso a medicamentos e saúde pública.

Novartis processa governo Biden

Nos Estados Unidos, o caso Entresto não se limita a um cabo de guerra entre empresas farmacêuticas. A Novartis também pressionou o FDA diretamente para garantir que o órgão regulador de medicamentos dos EUA não aprove nenhuma versão genérica de seu produto durante seu período de exclusividade de mercado, buscando constantemente ganhar mais tempo.

Em setembro de 2021, o Departamento de Justiça dos EUA anunciou a abertura de um inquérito civil sobre possível remuneração paga a médicos para impulsionar as vendas do Entresto. A Novartis já estava na linha de fogo das autoridades dos EUA por práticas de marketing. Em 2020, a empresa sediada em Basel teve que pagar uma multa de mais de US$ 670 milhões para resolver um caso de propina envolvendo vários de seus produtos (incluindo o antecessor do Entresto, Diovan). Nenhuma outra comunicação sobre a última investigação sobre o Entresto foi tornada pública desde então. 

Em agosto de 2022, a Novartis recebeu uma dose de seu próprio remédio. A empresa foi processada pelas universidades de Michigan e do Sul da Flórida por uma potencial violação de sua patente cobrindo uma técnica de fabricação usada para produzir Entresto. O resultado deste caso não é conhecido, mas pode ter sido resolvido pela Novartis pagando uma compensação financeira a ambas as universidades. 

Finalmente, por meio da adoção do Inflation Reduction Act (IRA), alcançado após um grande esforço do governo Biden em agosto de 2022 contra o poderoso lobista farmacêutico PhRMA, o seguro público Medicare (para maiores de 65 anos) obteve, pela primeira vez na história, a possibilidade de negociar diretamente o preço dos tratamentos mais caros em termos de cobertura. Um ano depois, a lista dos primeiros 10 medicamentos a passar por esse novo procedimento foi tornada pública, com um novo preço regulamentado aplicável a partir de 2026. Esses produtos prioritários incluem o Entresto da Novartis, que custou ao Medicare cerca de US$ 2,9 bilhões em 2023 para cerca de 600.000 pacientes. O Medicare pretendia reduzir seu preço em pelo menos 25%. 

A resposta não demorou a chegar. A Novartis entrou com uma ação judicial contra o Governo dos Estados Unidos em 1º de setembro de 2023 , chamando essa reforma de inconstitucional. A corporação suíça acredita que isso equivale a “expropriação de propriedade privada” e corre o risco de “colocar em risco a pesquisa de medicamentos inovadores”.

Todos os participantes da Big Pharma envolvidos, assim como sua organização guarda-chuva, também levaram o assunto ao tribunal, gritando lobo. Até mesmo a Roche, cujo nome não aparece nesta primeira seleção, protestou, ameaçando atrasar a comercialização de novos produtos vitais devido a esta reforma. Como é frequentemente o caso, a Big Pharma está colocando uma frente unida para evitar qualquer precedente infeliz que possa ir contra seu modelo de negócios – ainda mais em sua terra de leite e mel, os Estados Unidos, onde as empresas têm sido até agora todo-poderosas em termos de definição de preços. 

No entanto, uma pesquisa realizada pela ONG Public Citizen indicou que, em 2022, as empresas farmacêuticas envolvidas nessas negociações investiram em média US$ 10 bilhões a mais em recompras de ações, pagamentos de dividendos a acionistas e remuneração de executivos do que em pesquisa e desenvolvimento (P&D) — no caso da Novartis, foram US$ 18 bilhões contra US$ 10 bilhões para P&D. Isso coloca sua ameaça à inovação muito claramente em perspectiva.

A Novartis finalmente se resignou a entrar em negociações, apesar de sua reclamação pendente. O motivo para isso é que os impostos poderiam aumentar para 95% do faturamento do produto relevante se não o fizesse. Também foi capaz de apresentar uma contraproposta ao preço sugerido pelo Medicare. Este último eventualmente Este último finalmente revelou os preços recém-negociados em meados de agosto de 2024, indicando uma redução de mais de 50% do preço do Entresto (US$ 295), o que levou a Novartis a criticá-los publicamente . Embora duas outras reclamações da Big Pharma já tenham sido rejeitadas, a reclamação da Novartis contra o governo Biden ainda está pendente.

A Suíça deve tomar medidas contra o uso abusivo de patentes

“ Evergreening ” ou o acúmulo de patentes secundárias abusivas em produtos terapêuticos é um obstáculo ao acesso a medicamentos, bem como um enorme custo adicional para pacientes e sociedade. Na Suíça, os medicamentos respondem por quase 1 em cada 4 francos suíços de despesas com seguro de saúde obrigatório, 75% dos quais são atribuíveis a produtos patenteados, de acordo com uma análise do Conselho Federal. Qual proporção destes são frívolos permitindo que um monopólio seja mantido – e o alto preço que o acompanha – muito mais longo do que a duração prevista pelas regras da OMC? É impossível quantificar isso, devido à falta de estudos precisos sobre o assunto na Europa. No entanto, podemos apostar que esta é uma proporção alta, se compararmos o número limitado de novos medicamentos lançados no mercado a cada ano com todas as patentes farmacêuticas registradas. 

De acordo com a ONG americana I-MAK , o abuso de patentes envolvendo os 10 medicamentos mais vendidos nos Estados Unidos equivale a dezenas de bilhões de dólares em custos adicionais para o sistema de saúde todos os anos. O governo dos Estados Unidos finalmente se manifestou contra esses matagais de patentes que alimentam a ganância da Big Pharma e está considerando reformas. A maré está finalmente mudando do outro lado do Atlântico? 

A Suíça, por sua vez, se recusa sistematicamente a agir contra abusos de propriedade intelectual relativos ao acesso a medicamentos em fóruns multilaterais, como vimos durante a crise da COVID (na OMC) e atualmente no contexto do acordo pandêmico, que está sendo negociado na Organização Mundial da Saúde (OMS). Pior ainda, as autoridades suíças estão buscando fortalecer ainda mais a propriedade intelectual ou, se falharem, limitar o espaço de manobra dos países de baixa e média renda no combate a abusos, como vimos como parte do acordo bilateral de livre comércio concluído em março com a Índia. 

Como membro do EPO, que concede patentes europeias para produtos farmacêuticos, a Suíça poderia agir neste nível para pedir um exame mais meticuloso dos pedidos. Embora a Europa conceda menos do que os Estados Unidos, muitas patentes imerecidas ainda são concedidas, como ilustrado por nossa oposição de 2019 ao tratamento de câncer Kymriah, após o qual a Novartis revogou a patente disputada antes de qualquer debate contencioso. É melhor evitar que patentes abusivas sejam concedidas, em vez de ter que contestá-las em litígios longos e custosos depois. Para conseguir isso, é essencial definir e aplicar regras de patenteabilidade mais rigorosas.


Fonte: Public Eye

Cientistas querem banir o termo “savanização” para colapso da Amazônia

Expressão associaria o Cerrado a florestas desmatadas ou degradadas e reforçaria preconceitos contra as savanas naturais

paisagem desmatadaA Amazônia concentra metade das perdas de vegetação nativa no Brasil, desde 1985. Foto: ESA/Alexander Gerst/Creative Commons 

Por Aldem Bourscheit para o O(eco)

O Brasil perdeu ⅓ da vegetação natural só nas últimas quatro décadas e metade dessa destruição se concentrou na Amazônia, demonstram alarmantes dados do MapBiomas divulgados esta semana por ((o))eco. 

O desmate imparável e a crise do clima empurram o bioma ao “ponto de não retorno”, quando ele poderá colapsar e perder a capacidade atual de manter biodiversidade, fontes de água e chuva e populações urbanas e rurais.

Essa drástica mudança foi taxada de “savanização”, apostando que a floresta se tornaria algo similar à “savana brasileira”, o Cerrado. Contudo, cientistas de instituições brasileiras e internacionais querem o termo banido.

Em artigo na revista Perspectives in Ecology Conservation, eles encontraram 481 estudos onde a “savanização” era associada a florestas desmatadas ou degradadas, “reforçando os preconceitos contra as savanas naturais”. 

Os pesquisadores lembram que o Cerrado é a maior e mais rica savana do mundo, “mas recebe menos atenção e recursos para a conservação”, e que há uma negligência multissetorial com o bioma, mesmo ocupando ¼ do Brasil. 

“Propomos abandonar o uso de ‘savanização da Amazônia’, promovendo o apoio e a atenção que o Cerrado precisa”, ressaltam os cientistas.

Paisagem típica de Cerrado conservado. Foto: Hudson Pontes da Silva/Creative Commons

Críticas à expressão já constavam em artigo dos pesquisadores Annabelle Stefânia Gomes e Fabian Borghetti, da Universidade de Brasília (UnB), na obra ‘Uma viagem pelo sertão: 200 anos de Saint-Hilaire em Goiás (2021)’.

Os autores lembram que o desmate e outros impactos não levam a “uma simples troca de matas nativas por savanas nativas”, como “tem sido amplamente difundido nos meios sociais e acadêmicos”.

Pelo contrário, para eles isso resultaria numa vegetação que não representaria nem uma floresta e nem uma verdadeira savana, sendo mais pobre em biodiversidade e mais fraca para manter fontes de água e regular o clima.

“Savanas que se formam com desmatamento, fogo e invasão de espécies exóticas apresentam baixa riqueza de espécies, não representam a vegetação nativa e tampouco executam seus serviços ecossistêmicos”, avisam.


Fonte:  O(eco)

Invasão do mar no Norte Fluminense: muito além de Atafona

Erosão na praia de Atafona pode ter solução federal | São João da Barra | O  Dia

Como sempre acontece, até por falta de redações dignas deste nome, a mídia corporativa local resolveu dar repercussão a um relatório técnico produzido pela Organização das Nações Unidas (ONU) sobre a elevação do nível do mar, o chamado “Surging seas in a warming world” que em uma das suas tabelas inclui o Distrito de Atafona como um dos pontos críticos a serem atingidos em um futuro não muito distante (ver imagens abaixo).

O problema é que a situação envolvendo a inevitável elevação do nível do mar associada às mudanças climáticas e ao degelo das calotes polares e geleiras terrestres vai muito além de um ponto individual na costa fluminense. No mapa abaixo que está incluso do relatório da ONU, o que vemos é que todas as áreas costeiras do nosso planeta já vem sofrendo com níveis variados de elevação das águas oceânicas.

oceans map

Com isso, os alarmes de emergência já deveriam estar soando com bastante força, na medida em que boa parte da população humana não apenas está vivendo em cidades, mas também em cidades costeiras. No caso do Brasil, cidades importantes como Rio de Janeiro, Recife, Salvador, Santos e Florianópolis estão com o futuro ameaçado, na medida em que as estimativas existentes é que terão partes importantes tomadas pelas águas do mar. No entanto, esse problema está completamente ausente das plataformas dos candidatos a prefeito, o que não chega a ser surpresa porque a questão ambiental é uma ilustre ausente nos programas e debates eleitorais.

Em relação à parte que nos toca, tenho que lembrar que no dia 24 de junho de 2022, compartilhei aqui neste blog a notícia da publicação de um artigo científico em que fui co-autor com o meu ex-orientando e hoje doutor em Ecologia e Recursos Naturais, José Luiz Pontes da Silva Junior, que apresentava previsões (otimistas e pessimistas) para a invasão das águas oceânicas em todo o município de São João da Barra e não apenas para Atafona como acabou de fazer o relatório preparado pela ONU (ver imagens abaixo).

A repercussão baixa daquela publicização se deu provavelmente por dois fatores: a) a prevalência da máxima de que santo de casa não faz milagres, e b) a informação de que boa parte do município de São João da Barra poderá ficar debaixo d’água, incluindo parcelas do V Distrito onde está localizado o Porto do Açu.

O fato inescapável é de que precisamos nos preparar para um futuro em que a linha da costa deverá se mover para locais onde já esteve em um passado não muito distante, engolindo áreas urbanas e estruturas portuárias. Essa preparação deverá incluir o deslocamento de populações inteiras das áreas em que se encontram neste momento, bem como a construção de estruturas de proteção que minimizem a entrada e ação erosiva das águas oceânicas em determinadas regiões. 

E aqui não se trata de um cenário de filme de catástrofe, mas de uma previsão baseada naquilo que as pesquisas científicas já indicam com um nível confiável de estimativa.  É que, como diz o relatório da ONU, desde o início do Século XX,  o nível médio global do mar subiu mais rápido do que nos últimos 3.000 anos e a taxa de elevação continua aumentando. Assim, é se preparar ou se afogar, e os dados já estão rolando.

Como o beabá de Christopherson desvela as causas do processo de erosão em curso no Porto do Açu

Por força das minhas tarefas docentes na disciplina de Geografia I do curso de Ciências Sociais coloquei as mãos nesta semana no livro “Geosystems: An introduction to Physical Geography” do geógrafo estadunidense Robert Christopherson. O livro é uma espécie de pedra filosofal para iniciantes dos estudos de geografia física, e é um deleite para quem, como eu, precisa dar aulas de geografia física para alunos de Ciências Sociais.

Pois bem, ao examinar o que eu precisa para dar a minha próxima, eis que ei dei de cara com a figura abaixo que ilustra como determinadas construções costeiras alteram a trânsito de sedimentos em sistemas praiais (isto é, molhes, esporões e quebra-mares)

estruturas costeiras

Pois bem, fica demonstrado que na presença de um jetty (em português, molhe), o que ocorre é deposição de areia na área mais próxima e erosão na área mais afastada.  Na figura em questão, eu circulei a entrada de um canal para enfatizar que do seu lado esquerda, o que está acontecendo é deposição, seguido de erosão mais ao sul do molhe.

Agora, vejamos a figura abaixo que representa o que se tem observado ao sul do Terminal 2 do Porto do Açu

canal principal

A minha pergunta básica para meus estudantes será a seguinte: com Christopherson em mãos, o que pode ser dito sobre a causa mais provável da acumulação ao lado do molhe e erosão na Praia do Açu? 

Eu só espero sinceramente que as respostas que eu ouvirei sejam melhores do que as de alguns especialistas contratados a peso de ouro tem dito nos últimos anos.

Em carta, cientistas alertam que falhas na proteção do Cerrado podem levar a perdas irreversíveis

cerrado boriProlongamento da estação seca por conta da destruição do Cerrado deve afetar diretamente safras de soja, alertam cientistas

bori conteudo

Desde que assumiu, em 2023, o governo Lula conseguiu diminuir as taxas de desmatamento na Amazônia. Pouca atenção, no entanto, tem sido dada ao Cerrado, que vem perdendo áreas significativas de floresta no último ano. O alerta vem de cientistas, em carta publicada na revista científica “BioScience nesta quarta (28). Segundo eles, a falta de valorização deste bioma por políticas ambientais está levando a impactos irreversíveis no clima e no abastecimento de água no país, que atingirá um dos principais setores econômicos brasileiros: o agronegócio.

O texto, assinado por pesquisadores do Centro de Conhecimento em Biodiversidade na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e da Universidade Internacional da Flórida (EUA), ressalta que a agenda ambiental de Lula tem apresentado poucos resultados no Cerrado. Enquanto Amazônia brasileira teve uma queda de 23% no desmatamento em comparação com o ano anterior, o Cerrado teve um aumento de 3% no desmatamento anual no mesmo período. Com isso, a Amazônia — que tem o dobro do tamanho do Cerrado — perdeu 9 mil quilômetros quadrados de floresta em 2023. Já o Cerrado perdeu 11 mil quilômetros de vegetação.

“O menor esforço de proteção é, em parte, devido à aparência menos imponente da vegetação do Cerrado, com estatura muito inferior à da floresta amazônica”, ressalta Philip Fearnside, pesquisador do Inpa, especialista em mudanças climáticas e coautor da carta.

Além do apelo estético, o menosprezo pela preservação do Cerrado também está ligado a interesses econômicos, segundo os especialistas. Na carta, eles mencionam que existe uma pressão, vinda principalmente do agronegócio, para relaxar as restrições ambientais no bioma, permitindo a substituição da vegetação por pastagens e plantios de soja. Para Fearnside, ceder a essa pressão é um tiro no pé. “A perda do Cerrado é irreversível na prática e terá repercussões na estabilidade de parte da Amazônia, nos países vizinhos e no agronegócio, que depende das águas desse bioma”.

Segundo Fearnside, a destruição do Cerrado gera ganhos de curto prazo para grandes produtores, como os que investem na soja. Mas, a perda da vegetação é contrária até mesmo ao interesse do setor agrícola. “O aquecimento global é uma ameaça para todo o Brasil, incluindo o agronegócio. Por exemplo, a região do Matopiba, considerada a grande fronteira agrícola nacional, deixará de existir como área para agricultura se esse fenômeno escapar do controle”, alerta o cientista.

Também já é possível observar as consequências da devastação do bioma, de acordo com o pesquisador. Ele dá como exemplo o prolongamento da estação seca no norte do Mato Grosso que já chegou a quase um mês a mais que o habitual. “A seca não só ameaça o trunfo do Brasil de obter duas safras de soja na mesma área todos os anos, mas também favorece a savanização do sul da Amazônia. A savana que substituiria a floresta amazônica não seria biodiversa como o Cerrado”.

Para os pesquisadores, o governo brasileiro é a principal entidade que precisa tomar decisões para preservar o Cerrado. Na carta, eles recomendam a criação urgente de um fundo, assim como esforços para aumentar a visibilidade internacional do bioma. “A atenção internacional pode influenciar as decisões do governo brasileiro. Além disso, ela pode incentivar possíveis restrições ambientais de países que importam commodities como a soja, o que impacta diretamente nos interesses sobre o bioma”, finaliza Fearnside.


Fonte: Agência Bori

A montanha pariu um rato: como a extrema-direita tentou iludir os eleitores de Campos dos Goytacazes

montanha

Por Douglas Barreto da Mata

A montanha

Um dos mais caros ensinamentos praticados pela extrema-direita é a distorção da realidade. O espancamento dos fatos até que estes se apresentem como uma versão favorável.  Nos últimos dias, como é de costume em campanhas eleitorais, o exército nazicampista (termo da lavra do meu amigo Gustavo Landim Soffiati), representado na candidatura da delegada, tentou, sem conseguir, apresentar um viés favorável dos números obtidos em uma pesquisa realizada pelo Jornal O Dia/Instituto Paraná Pesquisas.

Como comprovamos em várias publicações na plataforma Instagram (@douglasbarretodamata), o pessoal da KKK da planície usou um expediente maroto.  Em resumo, o instituto realizou as entrevistas por telefone, o que em si já traz um prejuízo das amostras e dos dados.

Neste caminho, a pesquisa revelou um dado inédito, 53% de indecisos, que deu à delegada um surpreendente índice de intenções de voto, no quesito votos válidos, que são, justamente, aqueles que descontam os indecisos, brancos e nulos.  Logo percebemos o “truque”, que é a ordem dos questionários, associada com a má vontade do eleitor entrevistado em atender telefonema, ainda mais na era digital, das mensagens por aplicativos.

Pois bem, se oferecida por último a pergunta no quesito espontâneo (o eleitor fala em quem votará, sem nenhuma indicação ou informação prévia do entrevistador), é certo que muitos dos entrevistados irão falar que “não sabem”, no desejo de encerrar logo a conversa telefônica.  Isso aumenta os indecisos, e claro, altera os números apurados.

Bem, dias depois, outro instituto, desta vez o Big Data, contratado pela Rede Record, fez outra sondagem, e surpresa (?):  o número de indecisos caiu para 30%.  Não digo aqui que o Jornal O Dia quisesse agradar o grupo político que patrocina a candidatura de oposição, já que esse grupo está instalado no Governo do Estado do RJ, um cliente poderoso.

Nada disso.  Acredito na seriedade do veículo e do seu contratado.  No entanto, não podemos desprezar que a discrepância entre os indecisos nos dois casos é relevante, a ponto de nos autorizar a conclusão de que métodos diferentes foram empregados, um mais preciso, neste caso o Big Data, e outro menos preciso, como o Instituto Paraná.

Outra coisa interessante, é que mesmo com essa ligeira diferença, que atendeu a uma demanda dos nazicampistas, os resultados de aprovação do prefeito, seus índices de intenções (63%), e enfim, rejeição (16%), não se alteraram tanto.

Insisto:  Se houvesse uma variação significativa de todos os demais resultados, poderíamos dizer que tal diferença seria fruto de metodologias diferentes, e claro, cada um escolhe a sua.  O que se viu não foi isso, e só em uma variável (a de indecisos) houve distorção.

Novamente, afirmamos que a discrepância de número de indecisos está na base do “aumento” de intenções de voto da delegada.

O rato

Vamos falar, agora, do quadro eleitoral atual, tendo como referência a pesquisa mais próxima da realidade, a do Instituto Big Data/Rede Record.

O prefeito Wladimir Garotinho parece sedimentado em um patamar bem elevado, que converge e reflete a aprovação da sua gestão (governo), e a diferença entre intenções dos votos válidos e aprovação de gestão ainda permitem um pouco de crescimento, a ser verificado nestes últimos 30  dias de campanha, ou não.

A TV tende a atingir uma faixa de eleitorado que usa pouco internet, mais pobre e mais do interior, menos escolarizada.  Justamente o eleitorado cativo da família Garotinho.  A rejeição do prefeito bate, quase que exatamente, com a soma dos eleitores que dizem preferir os candidatos adversários.

Guarde essa informação, vai ser útil ali adiante.

É uma rejeição que pode ser traduzida no sentimento anti garotista mais renhido, que não se move, e se dispõe a votar em qualquer um que se apresente como antagonista da família Garotinho.

Assim, é certo dizer que haveria um certo espaço para o PT dobrar, ou até mesmo passar dos dois dígitos, desbancando os nazicampistas do segundo lugar, se não insistisse em evitar este confronto com a extrema-direita, preferindo o ataque ao prefeito.

Para ser honesto, a recente polêmica do prefeito com o candidato petista sobre o IDEB conferiu ao petista um pouco de holofote, e lhe permitiu avançar, um pouco, sobre o eleitorado indeciso.  Sabemos que as intenções de Wladimir ficaram intactas, sendo óbvio que Jefferson Azevedo cresceu sobre os indecisos, já que não ganhou eleitores da delegada.

Esse expediente tem um limite, que não parece claro ao petista e sua coordenação, que animada por esse ligeiro, mas importante crescimento, imagina que manter as baterias sobre o prefeito trará mais eleitores.  O limite é a rejeição do prefeito, e alcançado esse teto, que, como já falamos acima, que já está bem próximo.  Este patamar consiste na soma das intenções dos adversários do prefeito face à rejeição. Além dele, o petista não avançará mais, nem ele, nem os demais.

Ao contrário, tendem a perder votos, já que atacar um prefeito e uma gestão bem avaliados é antipático, e mais ainda, interdita a nominata de vereadores, que passa a perder votos de eleitores híbridos (que votam em vereadores da oposição e no prefeito), o que esvazia mais a campanha do candidato majoritário.

A rejeição, na verdade, é a segunda colocada nas intenções de voto.

Nenhum dos adversários do prefeito conseguiu ter mais intenções que as suas rejeições, e é essa a barreira que os impede de avançar dentro dos votos do prefeito, como imaginam os coordenadores do PT.  Observar a série histórica das rejeições mostra que, exceto Wladimir, que, inclusive já é muito conhecido, todos os demais angariaram muito mais rejeições que intenções de votos, com o passar do tempo, na medida que se tornaram mais conhecidos.

Podemos dizer, no caso da delegada em destaque, e dos demais com menos variações, que quanto mais conhecidos se tornaram, mais rejeitados ficaram.

Deste modo, repito, cabe ao PT tentar canibalizar os votos da extrema-direita, por mais paradoxal que pareça, é uma possibilidade dentro da lógica dos anti garotistas, e ao mesmo tempo demarcar um campo/território, mostrando aos indecisos quem é o verdadeiro adversário do prefeito.  Se mantiver o ataque ao prefeito, o PT vai solidificar a polarização dele (prefeito) com os nazicampistas.

Qualquer dos dois cenários é bom para o prefeito, que do alto da sua enorme aprovação, e de suas intenções, pode escolher quem bater, ou melhor, quem ignorar.

Permitir isso é um revés trágico, ainda que o PT eleja um vereador, olhando a perspectiva de médio e longo prazos do partido na região.  É repetir erros passados, esperando resultados diferentes, como já cansamos de falar. 

Porto do Açu: um enclave isolado que é uma ameaça à mobilidade urbana em Campos

Sobre o Porto do Açu - Portogente

Construído como enclave portuário, o Porto do Açu só tem acesso viável pelo mar

No dia 7 de julho de 2024 (quase três meses atrás) publiquei neste espaço um mosaico de imagens produzidas no portão principal da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) mostrando um pouco do caos causado no trânsito campista pelos caminhões indo e vindo do Porto do Açu.  Aquela postagem atraiu pouca atenção e foi ignorada por quem deveria estar cuidando da segurança dos usuários das vias urbanas campistas, os dirigentes do Instituto Municipal de Trânsito e Transporte (IMTT).

A verdade é que, mesmo funcionando de forma muito abaixo da sua capacidade construída, o Porto do Açu e sua falta de conexão viária ou ferroviária vem causando fortes impactos na mobilidade urbana em Campos dos Goytacazes, colocando em risco motoristas, motociclistas, ciclistas e pedestres que precisam se aventurar pelas mesmas vias em que se locomovem caminhões super pesados que as utilizam como se estivessem em Interlagos.

Apesar do recente atropelamento e morte de uma ciclista ter causado forte repercussão, ao longo dos últimos meses já era possível verificar que o perigo causado pelo trânsito de caminhões vem aumentando significativamente. A causa disso é uma combinação de vários fatores, a começar pelo tamanho e peso desses super caminhões (ver exemplos abaixo na mesma entrada principal da Uenf).

Outra coisa é que a cidade de Campos continua com um sistema de sistema e controle de tráfego ultrapassado e abaixo das necessidades impostas pela realidade de uma cidade média. Aqui inexistem radares de velocidade ou outros mecanismos de controle já existentes até em cidades menores. Com isso, se fomenta uma forte indisciplina no trânsito de veículos e se estimula uma situação do salve-se quem puder. E nesta situação quem mais pode se salvar são os caminhões vindos do Porto do Açu, sendo ciclistas e pedrestres os principais alvos para tragédias.

Mas mesmo se a estrutura de monitoramento e controle de trânsito não fosse tão precária, o risco continuaria.  Isso se deve ao fato de que o Porto do Açu foi constituído como um enclave portuário desprovido de vias de acesso que comportassem o fluxo de veículos que sua existência causaria, mesmo em na versão ociosa que é a que temos neste momento.  Beirou a irresponsabilidade completa se colocar essa estrutura portuária em uma área que não possui nem uma rodovia ou ferrovia que pudesse facilitar a logística de transportes.  Com isso, a chegada de caminhões de carga vindos de diferentes direções certamente está causando impactos não apenas na cidade de Campos dos Goytacazes, mas nas rodovias de Minas Gerais e do Espírito Santo.

Agora que, premido pelas evidências dos riscos criados pelo Porto do Açu na mobilidade urbana em Campos, o prefeito Wladimir Garotinho se viu obrigado a fazer o óbvio: proibir o trânsito dos caminhões do Porto do Açu nas vias internas da cidade, e o bode está exposto no meio da sala, digamos assim.  É que sem poder transitar por vias como as avenidas Arthur Bernardes e Alberto Lamego, por onde irão fluir as cargas do enclave conhecido como Porto do Açu? É uma verdadeira sinuca de bico, onde ninguém quer ser pai desse filho feio.

Não posso deixar de notar a anedótica nota da seção local da moribunda Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan) que alertar para o impacto de se tirar supostos 12.000 caminhões da circulação interna da cidade de Campos. Primeiro que 12.000 caminhões é um número fantasioso destinado, muito provavelmente, a tentar agradar os donos do Porto do Açu. É que se tivéssemos 400 caminhões indo e vindo do Porto do Açu, o caos seria muito maior do que é.  Mas passado esse aspecto, o que salta aos olhos dessa nota é a completa falta de preocupação com a população de Campos que precisa circular pelas mesmas vias que os caminhões.  Não li na nota nenhuma cobrança pela melhoria dos sistemas de monitoramento e controle da velocidade, aumento de policiamento nas ruas, ou coisas do gênero.  O que a Firjan parece propor é que se deixe tudo como dantes no quartel de Abrantes, e que se salvem aqueles que forem mais hábeis.

Como antevejo que as pressões vindas do Porto do Açu e dos seus apoiadores governamentais fatalmente imporão o retorno do trânsito dos caminhões super pesados nas artérias principais da cidade, o que eu espero do prefeito Wladimir Garotinho é que coloque o IMTT para fazer o que não fez até hoje que é implantar um sistema de monitoramento e controle de velocidade em toda a cidade de Campos. É passada a hora de que se tome as providências necessárias para melhorar o grau de segurança nas ruas e avenidas.  

Ah sim, e que se mande a conta para o Porto do Açu porque até aqui desse enclave só se teve promessas vazias e externalização de seus impactos sociais e ambientais para a nossa cidade. 

Orquídea paranaense recém-descoberta corre risco de extinção

Analisada por pesquisadores de laboratório de Botânica da UFPR, planta coletada na Serra do Mar faz parte de um gênero dos trópicos e subtrópicos do planeta com poucas espécies no Brasil

orquidea ufprEncontrada em área montanhosa de difícil acesso, a 𝘔𝘢𝘭𝘢𝘹𝘪𝘴 𝘦𝘯𝘨𝘦𝘭𝘴𝘪𝘪 está em situação que pode ser considerado de risco, por sua raridade e seu habitat restrito e vulnerável. Fotos: Mathias E. Engels/LSEMP/UFPR

Por Aline Fernandes França para a Ciência UFPR 

Uma pequena orquídea de flores verdes chamou a atenção do botânico Mathias Engels durante uma trilha na Serra do Mar, próximo ao Pico Paraná, cujas montanhas estão entre as mais altas do Sul do Brasil. “Pensei: não conheço esta Malaxis [gênero da família de orquídeas], que planta distinta”, conta à Ciência UFPR o pesquisador da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que não imaginava se tratar de uma nova espécie.

Engels já coletou mais de dez mil amostras para coleções científicas em expedições botânicas em diferentes regiões do Brasil. Somente na Amazônia Mato-grossense, chegou a passar 60 dias. Uma pequena fração das amostras, depois de um minucioso estudo, vieram a ser reconhecidas como novas. Esse é o caso daquela pequena orquídea encontrada pelo botânico em Campina Grande do Sul, município de 48 mil habitantes na Região Metropolitana de Curitiba.

A planta já havia sido encontrada em 1947 pelo botânico curitibano Gerdt Hatschbach — formado em química e, depois doutor honoris causa pela UFPR —, na região do município de Piraquara, também no Paraná. Porém, na época, o material coletado era insuficiente para ser reconhecido como uma nova espécie. Em 2019 a coleta de Engels, 72 anos após a de Hatschbach, permitiu o reconhecimento e a descrição completa da planta.

Marca da orquídea são as inflorescências em formato de guarda-chuva, com flores dispostas em círculo
 
A amostra coletada por Engels e depositada no Herbário UPCB do Departamento de Botânica da UFPR — um dos mas antigos do Brasil  foi fonte de pesquisa do grupo CNPq “Sistemática e Ecologia Molecular de Plantas”, sob coordenação do professor Eric de Camargo Smidt. A espécie pertence à família de orquídeas do gênero Malaxis e, agora, homenageia também o doutorando de Botânica, Mathias Engels, sendo batizada de Malaxis engelsii.

As duas localidades em que as amostras foram encontradas são ambientes de florestas nebulosas alto-montanas, conhecidas por serem de difícil acesso, e pertencem à Serra do Mar paranaense — um conjunto de elevações formadas por processos tectônicos que se originaram durante a Era Cenozóica, iniciada há 65,5 milhões de anos.

Associado à alta umidade, a floresta abrange uma área composta por árvores de pequeno porte, fornecendo habitat em abundância para plantas epífitas. De acordo com Smidt, docente da UFPR e orientador da pesquisa, a Malaxis é um gênero de Orchidaceae (maior família botânica do grupo das Monocotiledôneas).

O gênero está distribuído pelos trópicos e subtrópicos do planeta com cerca de 170 espécies. Destas, cerca de dez ocorrem no Brasil.

A maioria das espécies da família Orchidaceae, especialmente nos trópicos, são epífitas — plantas de que vivem sobre outras usando-as como suporte.

“Em relação à Malaxis, o gênero possui tanto espécies epífitas, quanto terrestres. Aparentemente esta é a primeira espécie epífita do gênero descrita para o Brasil”, destaca.

As características mais visíveis da Malaxis engelsii envolvem a inflorescência densa, com flores bem coloridas, que variam entre laranja, branco e verde, dependendo da peça floral.

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Registrada em artigo publicado recentemente na revista científica Lankesteriana, a descoberta é assinada por Smidt e pelo doutorando da Unesp, Thiago Faria do Santos, que fez uma revisão do gênero Malaxis no Brasil.

A parceria foi possível pelo credenciamento do docente Smidt, que atualmente orienta em três programas de pós-graduação, sendo dois na UFPR (PPG Botânica e PPG Ecologia e Conservação) e um na Unesp (PPG Biologia Vegetal). Smidt coordena na UFPR o Laboratório de Sistemática e Ecologia Molecular de Plantas (LSEMP), do qual todos fazem parte.

O pesquisador Santos afirma que as Malaxis são plantas pouco conhecidas pela ciência, com registros raros na natureza. Também possuem características exóticas se comparadas a outras orquídeas, principalmente pela sua morfologia.

“Elas possuem inflorescências que lembram um guarda-chuva e têm flores bem pequenas, além de ocorrerem no chão da floresta, o que as torna ainda mais peculiares”, detalha.

O pesquisador ainda descreve o habitat da nova espécie como “um ambiente místico, quase proibido para a exploração humana. É onde as nuvens abraçam a floresta, um tipo de ambiente caracterizado pelo alto grau de endemismo [espécies restritas ao habitat], com plantas especializadas para viverem ali”.

A descoberta amplia a compreensão sobre a biodiversidade e é considerada de alta relevância pelos pesquisadores por contribuir diretamente com o progresso científico.

“Conhecer as características únicas de uma planta pode levar, por exemplo, ao desenvolvimento de novos medicamentos, materiais ou tecnologias. Assim, a descrição da natureza não é tarefa secundária; ela é o desenvolvimento tecnológico e científico”, diz Santos.

Espécie é exemplo da biodiversidade que falta ser conhecida para guiar preservação

Apesar de recém-descoberta, na avaliação dos cientistas a espécie Malaxis engelsii está apta a ser enquadrada pelo sistema da IUCN (União Internacional para Conservação da Natureza) como “em perigo”, baseado no número de registros da espécie, da qualidade e da abrangência de seu habitat.

A condição serve como guia para identificação de áreas que mais necessitam de ações de preservação voltadas para proteção da biodiversidade.

Smidt explica que, de modo geral, isso significa a necessidade de medidas de conservação para esta espécie, seja protegendo o habitat, seja produzindo conhecimento sobre suas características e ecologia, como polinizadores e fungos associados ao seu crescimento, por exemplo.

O fato de a descoberta ser registrada na Mata Atlântica também funciona como um alerta para os pesquisadores.

“O Brasil é o país mais biodiverso do planeta e uma em cada cinco plantas no mundo só ocorrem aqui. Dentro do país, o bioma mais rico e ameaçado é a Mata Atlântica. Descobrir espécies novas nesse bioma, cuja área atual é cerca de 10% de sua área original, mostra o quanto ainda precisamos estudá-lo para protegê-lo”.

Edição: Camille Bropp

➕ Leia o artigo Malaxis engelsii (Malaxidinae), a new species from the upper montane forest of the Atlantic Rainforest in southern Brazil, publicado no Lankesteriana (International Journal on Orchidology)


Fonte: Ciência UFPR