Agro é tech, mas não é pop: as polêmicas da produção de algodão no Brasil

Enquanto as atenções do mundo se voltam para a destruição das florestas da Amazônia, o bioma do Cerrado vem sofrendo uma devastação galopante com a agricultura e o cultivo de algodão

colheira algodão

Colheita de algodão na Fazenda Horita, na propriedade Estrondo, Bahia, Brasil, junho de 2023

Por Yamê Reis para a “Carta Capítal” 

Recentemente, o agronegócio comemorou ter alcançado pela primeira vez a liderança da exportação mundial de algodão, superando os Estados Unidos. Desde os tempos coloniais essa liderança vem sendo disputada, num mercado que inclui a Índia e China, como grandes produtores e exportadores globais dessa commodity.

Esse resultado é fruto de um esforço conjunto dos produtores de algodão e da indústria agro-química para conquistar benefícios financeiros para investimentos em tecnologia, isenções fiscais e apoio institucional, que facilitassem sua expansão e consolidação no bioma do Cerrado nos últimos 25 anos.

Tal como a soja e o milho, o algodão é um dos motores de crescimento e rentabilidade do agronegócio, e adquire um status especial e diferenciado dos outros produtos pela “sustentabilidade” a ele atribuída
pelos seus produtores e certificações nacionais ABR e a internacional Better Cotton, com sede na Suíça.

Entretanto, um cultivo em monocultura com uso intensivo de fertilizantes e agrotóxicos, com expulsão do trabalhador do campo e sem beneficiar as comunidades locais não pode ser chamado de sustentável, inúmeros estudos acadêmicos nos últimos anos, revelando que o Movimento Sou de Algodão, criado pelos produtores para disseminar a cultura do algodão do agro, é mais um caso de Greenwashing da indústria da Moda.

O caso do algodão brasileiro tomou contornos graves em abril deste ano quando a ONG internacional com sede em Londres, Earthsight, publicou um relatório chamado “Crimes da Moda”. O documento demonstra que as maiores marcas varejistas de moda do mundo, Zara e H&M, usam algodão brasileiro certificado Better Cotton ligado a grilagem de terras, desmatamento ilegal, violência, violações de direitos humanos e corrupção. Por meio de vasta documentação, a investigação rastreou o algodão desde as fazendas SLC e Grupo Horita no oeste da Bahia, passando pelas fiações e confecções asiáticas, até chegarem às lojas da Europa.

Enquanto as atenções do mundo se voltam para a destruição das florestas da Amazônia, o bioma do Cerrado vem sofrendo uma devastação galopante e sistemática desde o começo dos anos 2.000. A agricultura em escala industrial já destruiu metade da vegetação nativa e temos visto o problema se agravar nos últimos anos com taxas de desmatamento aumentando em 43% em 2023 em comparação ao ano anterior.

A empresa investigada pela Eartsight, SLC, é o maior produtor de algodão do Brasil, e tanto ela quanto o Grupo Horita, um dos seis maiores produtores, têm sua produção ligada a uma série de ilegalidades. Ambas as famílias têm origem no Sul do Brasil e estão entre as mais ricas do país. Líderes da sociedade civil local relataram que é raro encontrar fazendas de soja ou algodão no oeste da Bahia que não sejam resultado da grilagem de terras, e isso pode ser constatado pelos inúmeros registros de processos de disputa de territórios desde o inicio da ocupação do Cerrado em 1970-1980,  desmatamento ilegal, casos de corrupção, violência e negligência do governo estadual.

Apesar das evidências dos fatos revelados no relatório da Earthsight, a Better Cotton certificou a produção do algodão de ambas as empresas e o produto contaminado pela violência e destruição do Cerrado é vendido no exterior como “sustentável”. A conclusão inevitável é de que os processos de certificação são extremamente falhos e ineficientes, não se preocupando com atestados de propriedade legal, monitoramento de desmatamento, e quantidades usadas de agroquímicos e contaminação das comunidades no entorno das áreas cultivadas.

E para piorar ainda mais o caso, a ONG mostrou, nas últimas semanas, revelações surpreendentes de um exfuncionário da Better Cotton sobre a manipulação de dados na plataforma online da certificadora, onde constam mais de 13.000 usuários em todo o mundo. De acordo com a fonte, a  ausência de verificação dos dados e as manipulações são de tal ordem que é possível que algumas quantidades de algodão convencional não auditados sejam inseridas na plataforma como“algodão sustentável certificado”.

Além disso, a Better Cotton raramente verifica as empresas da cadeia de suprimentos quanto à conformidade com suas diretrizes, bastando a autodeclaração dos produtores. Ao que tudo indica, a Better Cotton tem agido preocupada com seu crescimento e resultado financeiro, já que as taxas cobradas de seus clientes e associados são proporcionais aos volumes comprados, ou seja, quanto mais algodão, melhor.

Certificações são uma ferramenta essencial de garantia de rastreamento de origem de produtos sustentáveis, trazem confiança aos consumidores de que a cadeia produtiva é ética, respeita os Direitos Humanos e o trabalho digno. Porém, o que estamos vendo é que no caso da Better Cotton o rigor com os protocolos de auditoria e aprovação de registros de  produtores vem sendo afrouxados em prol do lucro da empresa, em não em nome de fomentar e incentivar cadeias produtivas éticas na indústria da Moda.

Para nós no Brasil, fica o alerta de que, enquanto clientes número um e consumidores de 100% de algodão brasileiro, estamos também submetidos ao descontrole e as fragilidades das certificações ABR e BCI. As marcas de moda associadas ao Movimento Sou de Algodão devem começar a exigir que as fazendas certificadas obtenham aprovação das comunidades para as atividades que os afetam, que o algodão cultivado não esteja ligado a áreas desmatadas antes de 2019, e que as auditorias sejam conduzidas por agentes imparciais.

Marcas de moda comprometidas com a sustentabilidade e a responsabilidade socioambiental devem perguntar de onde vem o algodão brasileiro e como ele foi produzido, mesmo que ele tenha a certificação Better Cotton ou ABR. Vamos fazer a nossa parte e subir a régua da sustentabilidade na Moda.

Yamê Reis é Mestre em Sociologia Política, Coordenadora de Design de Moda no Instituto Europeu de Design-Rio e Docente Embaixadora do Fashion Revolution Brasil.


Fonte: Carta Capital

Relatório científico revela ineficácia da lavagem de frutas contra agrotóxicos

washed-fruits_1723619625026

Por Terra Brasil

Um novo relatório científico reforça as preocupações dos consumidores sobre resíduos de agrotóxicos em alimentos. As evidências apontam que lavar as frutas antes de comê-las não remove vários produtos químicos tóxicos comumente usados na agricultura.

Os pesquisadores publicaram o artigo sobre a ineficácia da lavagem de frutas na quarta-feira no periódico Nano Letters da American Chemical Society. Segundo o documento, as tradicionais “operações de limpeza de frutas não conseguem remover totalmente os agrotóxicos”.

Penetração Profunda dos Pesticidas nas Frutas

Os resultados da pesquisa são preocupantes. Utilizando uma técnica especializada para examinar uma maçã, os cientistas descobriram que os agrotóxicos penetram não apenas na camada da casca, mas também na camada da polpa. Esta penetração torna a simples lavagem ineficaz para a remoção completa dos produtos químicos.

Segundo os pesquisadores, “os resultados de imagem provam que os agrotóxicos penetram na camada da casca e na camada da polpa”. Isso significa que, mesmo após uma lavagem meticulosa, muitos resíduos podem ainda estar presentes dentro da fruta.

Os Riscos dos Agrotóxicos são reais?

Essa descoberta levanta uma preocupação importante: quão esses agrotóxicos afetam nossa saúde? Diversos estudos documentam os riscos à saúde relacionados aos agrotóxicos, mas a maioria das pesquisas foca na exposição ocupacional, ao invés da exposição dietética.

As principais agências de saúde mundial afirmam que resíduos de agrotóxicos em alimentos, quando dentro dos limites legais, não são geralmente uma preocupação para a saúde. No entanto, essa nova pesquisa poderia motivar uma revisão desses limites e práticas de segurança alimentar.

Como Minimizar a Exposição a Agrotóxicos?

Embora a remoção da casca da maçã tenha mostrado diminuir a contaminação por agrotóxicos, essa solução pode não ser prática ou desejável para todos, dado que a casca de muitas frutas contém nutrientes importantes.

  • Opte por alimentos orgânicos: Os alimentos orgânicos geralmente contêm menos pesticidas.
  • A utilização de soluções de lavagem específicas: Produtos de limpeza próprios para frutas podem ser mais eficazes do que a água simples.
  • Investigue métodos alternativos: Métodos como imersão em soluções de vinagre ou bicarbonato de sódio podem ajudar, mas exigem mais estudo para determinação de eficácia.
  • Consuma variedades de frutas: Diversificar os tipos de frutas consumidas pode ajudar a minimizar o risco de exposição a um único tipo de agrotóxico.

Higienização de Frutas Ainda É Necessária?

Enquanto a higienização não pode eliminar completamente os pesticidas, ela é fundamental para a segurança alimentar em geral. A lavagem com água corrente e a utilização de soluções apropriadas ajudam a remover a sujeira e microorganismos, como bactérias e vírus, que são prejudiciais à saúde.

Portanto, é importante continuar a higienizar bem todas as frutas e vegetais antes do consumo. Além disso, considerar a compra de produtos orgânicos e diversificar a dieta pode ajudar a reduzir ainda mais a exposição a pesticidas.

Em resumo, enquanto a lavagem não é a solução completa para os agrotóxicos, continuar com boas práticas de higienização e fazer escolhas informadas ao comprar frutas pode melhorar nossa saúde e bem-estar.


Fonte: Terra Brasil Notícias

Em meio à tormenta, o PT Campos está sem bússola, lenço ou documento

pt lenço

Por Douglas Barreto da Mata

Seguindo nossas reflexões recentes sobre o PT de Campos, aqui (Aqui!) e (Aqui!), eis que emergiu uma dúvida.  E se, em um cenário bem pouco provável, é verdade, houvesse um segundo turno entre o atual Prefeito Wladimir Garotinho, favorito à reeleição e a oposição da extrema-direita, representada na delegada candidata?

Como o PT orientaria seus eleitores, e mais, como se comportaria o partido neste improvável cenário?  É uma pergunta importante, apesar da pouca chance de que ela venha a ser feita, pelos motivos que já declinamos, isto é, o amplo favoritismo do atual prefeito.  No entanto, não é uma questão que deve ser desprezada para o day after tomorrow, ou, o dia depois de amanhã.

Encerradas as eleições, como se encaixa o PT de Campos dos Goytacazes neste futuro recente?  Afinal, há contingentes históricos importantes se aproximando, como a necessidade de Lula ter um  palanque forte no Estado, tudo indica com Eduardo Paes, além das demandas do partido em ampliar suas bancadas na Câmara Federal e no Senado. E aí?

A estratégia e as táticas da coordenação de campanha do “Professor Jefferson”, que parecem meio deslocadas da direção partidária e dos interesses de médio prazo do partido, a nível estadual e sim, no nível nacional também, parecem apontar para uma hostilidade flagrante contra o candidato que, hoje, se apresenta como centro-direita.  Ao se unir com a extrema-direita campista, o PT de Campos indica que está sem rumo. Perdido. 

Uma campanha acidentada, marcada pela estupidez de esperar alguém que não poderia ser candidata, e um candidato que parece desconhecer as reais chances que tem, que não são de vitória, mas sim de demarcar um campo progressista, estabelecendo as diferenças com a centro-direita representada no atual prefeito, porém, acima de tudo, execrando e isolando tudo o que significa a extrema-direita local.

A campanha atual me faz lembrar do ridículo : “Sou PT, voto Feijó”, uma passagem vergonhosa, onde, como de costume, para embarcar em um anti garotismo cego e tetraplégico, o partido se uniu ao que havia de pior no cenário local. Por estranha ironia, aquele que veiculava impropérios, foi cooptado.

O ressurgimento da Ku Klux Klan no ano de seu 150º aniversário - BBC News  Brasil

Já os petistas de antanho, os “feijoadas”, defendem atualmente a linha de adesão ao esforço da Ku Klux Klan local.  Burrice não é errar, burrice é cometer os mesmos erros e esperar resultados diferentes.

No país da COP 30, rios de chuva viraram corredores de fumaça

fumaça poa

Fumaça vinda da Amazônia asfixia população de Porto Alegre

Em 2025 o Brasil deveria sediar na cidade de Belém, capital do Pará, a 30a. Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP 30) onde supostamente tomadas decisões para conduzir o devido enfrentamento à crise climática.

O problema é que o país terá de recorrer a algo muito diferente para impedir que no exato momento da realização da COP 30, os participantes não sejam obrigados a utilizar máscaras de proteção contra a poluição oriunda das queimadas de áreas agrícolas e incêndios ocorrendo no interior de florestas, como está ocorrendo em 2024.

A situação é alarmante, mas está sendo colocada para debaixo dos  panos,  não apenas pelo governo Lula e pelos governos estaduais da Amazônia, mas também pela mídia corporativa nacional.  A ocorrência recorde de queimadas e incêndios florestais decorre de uma combinação de fatores climáticos e de manejo da terra que se retroalimentam para conduzir a situação de calamidade pública.

As imagens abaixo mostram a ocorrência de um fenômeno climático que é causado pela ocorrência de incêndios na Amazônia que, por sua vez, geram o transporte de fumaça para o sul do Brasil.

fogo fumaça

O que temos diante de nossos olhos é a transmutação dos rios de chuva (ou rios voadores) em corredores de fumaça, fato que exemplifica os efeitos dramáticos do avanço das franjas de desmatamento e degradação florestal para áreas anteriormente intocadas da bacia Amazônica.

Diante dessa catástrofe, o que faz o governo Lula para ativar os mecanismos de comando e controle na Amazônia? Absolutamente nada. 

Por isso não é que não podemos nos deixar enganar com os anúncios governamentais em prol da tomada de posição em prol de compromissos climáticos durante a COP 30. Esse evento deverá ser apenas mais aonde se fala muito e se faz nada para mudar o processo de destruição da Amazônia.  E isso se dá porque a reprimarização da economia brasileira avança a passos largos, sob o beneplácito de Lula e Marina Silva.

A crise político-financeira na Uerj como um sinal para a Uenf: eu sou você amanhã

Estudantes da Uerj protestam contra mudanças nas regras para auxílios

A Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) vem sendo palco de uma revolta estudantil contra a reitoria da instituição que resolveu fazer um corte profundo na distribuição dos recursos destinados à chamada “assistência estudantil”. A alegação da reitoria da Uerj para tal corte é de que a Uerj simplesmente não tem recursos orçamentários para continuar atendendo nos limites estabelecidos por administrações anteriores.

Os estudantes da Uerj, que contam com a simpatia dos sindicatos de servidores e docentes, partiram para um modelo clássico enfrentamento que inclui a ocupação física de prédios e manifestações de rua. A intenção declarada é fazer a reitoria retroceder e continuar praticando o modelo anterior de distribuição de recursos. Por sua vez, a reitoria da Uerj também se mantém em uma posição clássica de para conter a o movimento dos estudantes, com o uso até aqui de seguranças patrimoniais para conter a revolta estudantil.

Enquanto isso, o governador Cláudio Castro (PL) se mantém completamente à vontade para, entre outras coisas, sair pelo estado fazendo campanha por seus candidatos a prefeito e vereador, a despeito do fato de que a educação fluminense afunda em crise profunda, ocupando o penúltimo lugar nos índices do IDEB que acabam de ser divulgados pelo MEC.  É como se Cláudio Castro sapateasse sorridente sobre a educação fluminense enquanto asfixia escolas e universidades para continuar praticando uma injustificada política bilionária de isenções fiscais.

Candidata do grupo Bacellar, Madeleine lança campanha à Prefeitura de Campos  - Campos 24 Horas | Seu Jornal Online.

Enquanto o Rio de Janeiro ocupa o penúltimo lugar no IDEB, um Cláudio Castro sorridente faz campanha para sua candidata em Campos dos Goytacazes

O curioso é que até agora o quadro conflagrado da Uerj não está se repetindo na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf). Alguém mais distraído poderia achar que Cláudio Castro está sendo mais benevolente com a Uenf por causa de sua localização estratégica em Campos dos Goytacazes, onde o ainda governador do Rio de Janeiro esteve fazendo campanha pela sua candidata a prefeita, em companhia de uma numerosa delegação de deputados estaduais que chegaram na cidade em uma espécie de revoada de aviões de carreira.

O meu diagnóstico é que a situação de paz aparente na Uenf não tem nada a ver com uma suposta benevolência de Cláudio Castro. A coisa na Uenf se explica mais pela indisposição de seus sindicatos, especialmente os dos estudantes (DCE e Associação de Pós-Graduandos) e dos servidores técnicos (Sintuperj) de se comportarem como representantes não dos interesses de seus dirigentes, mas daqueles que dizem representar. 

Agora, como o torniquete que aperta a Uerj também arrocha e asfixia a Uenf, o corte de bolsas que começou nos projetos de extensão, ceifando ações estratégicas para beneficiar a população, poderá em um futuro não muito distante chegar à outras modalidades de bolsas estudantis e também nos auxílios que deram um refresco na penosa situação causada pela corrosão inflacionária dos salários.

E aí pode ser que a paz aparente reinante na Uenf se transmute nas cenas de enfrentamento que estão ocorrendo na Uerj em uma espécie de “eu sou você amanhã”.  Curioso vai ser acompanhar a reação da reitoria da Uenf que, ao contrário do que ocorreu na Uerj, se elegeu com o apoio explícito de dirigentes sindicais de estudantes e servidores técnico-administrativos. 

O IDEB separa a Califórnia da Louisiana, mas aproxima o PT da extrema-direita em Campos

ideb 2024

Ministério da Educação divulga dados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica – (crédito: Mila Ferreira/DA/CBPress)

Por Douglas Barreto da Mata

A corrida eleitoral já começou, e confesso que imaginei que nada mais me surpreenderia.  Engano meu.

Desde 1982, já me chamava a atenção o jornal “O Nacional”, que o PDT de Leonel Brizola editou, na época, com a logomarca do seu correspondente francês progressista, o Libération.  Ali comecei a me interessar pela política, para, finalmente, passar a militar no PT, a partir de 1986.

Achava que o pleito deste ano não traria novidades, e dado o favoritismo do atual prefeito de Campos dos Goytacazes, que concorre à reeleição, e a pouca densidade eleitoral e política de sua oposição, parecia que não haveria novidade.

Como já disse, errei feio.

Na última semana, houve a divulgação dos índices do IDEB, com a cidade campista revelando uma recuperação inédita, alcançando índice jamais registrado, de 5,4.  Enquanto isso, o Estado do Rio de Janeiro alcançou apenas 3,3, e se consolidou como o pior da região Sudeste, sendo o responsável pelo rebaixamento da média da região, e pior, colocando os fluminenses na penúltima colocação no Brasil, algo que retrocede a 2011, quando o estado apresentou os mesmos índices.

Ideb: estados não bateram meta — Foto: Editoria de arte com dados do Inep

Pois bem, mas em relação às eleições, qual foi a novidade?

Para meu espanto, consolidou-se uma estranha aliança na cidade de Campos dos Goytacazes, onde o PT e a extrema-direita se uniram para atacar os dados positivos do município, formando um estranho e impensável coro.

Todos sabemos que índices estatísticos, ou índices de avaliação são referências, importantes sim, mas referências que indicam aspectos que não podem ser levados como a totalidade dos processos aos quais se referem, e nem resumem toda a complexidade dos objetos que são avaliados.

Em outras palavras, sim, é preciso avançar mais e manter o foco na melhoria das condições da rede de ensino, investimento em pessoal, modernização e acesso às novas plataformas, etc.

Aqui um parêntese:

Há um outro componente que a “esquerda” desprezou, que reside no aspecto simbólico de um índice positivo na educação, que motiva alunos, pais, e profissionais a apostarem na forma pública de gestão, quebrando o nefasto argumento de que os esforços estatais são sempre ineficientes. Em suma, quando se aliou à extrema-direita, a “esquerda” ajudou a consolidar o discurso de que o que é público, não presta.

Foi como se o PT desse um sonoro tapa na cara de alunos, pais e profissionais de ensino.  Não foi só isso.

Esconder o fato de que a cidade não apresentou dados à avaliação anterior, simplesmente porque a gestão de Rafael Diniz destroçou o sistema educacional que existia, parece adequado ao modelo fascista de fazer política.

Mas não combinaria muito com o PT.  Não combinaria, é verdade, se não fosse o fato de que PT de Campos dos Goytacazes e esta mesma extrema-direita estiveram juntos no governo Rafael Diniz.

Isto é, olhando com de uma perspectiva histórica mais ampla, o PT de Campos dos Goytacazes sempre serviu como linha auxiliar de um tipo de conservadorismo macabro, justificando essa posição como combate ao “populismo da família Garotinho”.

Aqui um mea culpa, não me eximo de ter compartilhado, em algum tempo, essa noção.  A atual “aliança” do PT com a extrema-direita é como se o partido unisse a Família Manson (Aqui!).

O PT e a extrema-direita pretendem não ver o rotundo fracasso (licença, Brizola) do Estado do Rio de Janeiro, que deu marcha à ré até 2011, quando o Rio obteve o mesmo índice, 3,3.  13 anos de volta para o passado.

Enquanto isso, no Nordeste, muito mais pobre e muito menos glamoroso que o Rio Mil Maravilhas, as maiores notas de matemática, as cidades com maiores notas no Brasil, e as maiores médias estaduais se concentram, em um prenúncio virtuoso de que a região poderá reforçar uma tendência mundial: As empresas de alta tecnologia caçam locais com níveis de excelência em matemática para instalarem suas plantas e seus investimentos. 

Pois é.

Mal comparando, tipo a Califórnia e o Vale do Silício, que surfa na onda de um progressismo educacional e cultural, iniciado lá na década de 50/60, do século anterior, que afastou por completo o ressentimento e violência cultural e política, comum nos estados do sul dos EUA e do meio oeste.

Resultado?

O sul dos EUA patina, mesmo rico em petróleo, e desperdiça a vocação multicultural de cidades como New Orleans, dentre outras, e confina as chances de aproveitamento desse capital social riquíssimo em redutos de fascistas brancos de pouca ou nenhuma instrução.

Parece familiar? Copacabana? Pelinca? Pois é.

No entanto, eu imagino que com todas as semelhanças desses locais, e guardadas as enormes diferenças também, a verdade é que parece inimaginável que os setores mais progressistas da política no sul dos EUA se aproximem, ou se unam, aos neonazistas da Ku Klux Klan (a famigerada KKK).

kkk

Pois é justamente, o que acaba de acontecer em Campos dos Goytacazes.

Para uma crítica do identitarismo

No frigir dos ovos, ele atrela-se à dinâmica do “não há alternativas”, pois é reativo e nichado. O encontrar em-si de si trava os sentidos de pertencimento e da luta comum, o que convém ao capitalismo – em especial, no século XXI. Além disso suas bandeiras podem ser muito lucrativas…

Imagem publicada no site Disparada

Por Douglas Barros

É evidente que o colonialismo, enquanto constituição imaginária, se perpetuou nas formas que organizam a vida contemporânea. Durante o século XX, porém, inúmeras apostas se deram no sentido de que a modernização seria capaz de suplantar a desigualdade racial, ou de gênero, curando as feridas abertas pela tragédia colonial. Hoje, século XXI, já se pode dizer que essas promessas tornaram-se ilusões perdidas.

Com o desenvolvimento do capitalismo, o caráter excludente da máquina do mundo moderno só se tornou maior. Para legitimar a exclusão, a noção racial tornou-se o onipresente azeite a lubrificar a máquina de um inconsciente que naturalizou a separação humana entre raças. Basta olhar o levante de extrema direita no Reino Unido, ocorrido na semana passada, para entender como a noção racial é sempre a alavanca privilegiada dos fascismos.

Não bastasse isso, o capitalismo do século XXI aprendeu que, distante da tensão do senhor e do escravo, o trabalhador podia ser conduzido à colaboração. Para tanto, sequestrar sua demanda atrelando-a ao consumo seria fundamental ao passo que na gestão da vida social era preciso um reconhecimento unilateral das demandas de pertencimento de grupos que serviriam para encobrir a dimensão concreta das lutas.

Talvez para dar resposta a esse quadro seja importante lembrar uma crítica dialética, ocorrida desde pelo menos metade do século passado, na qual se percebia que racialismo e racismo formavam um todo dinâmico. O próprio racialismo não apenas gera a sua contraparte – como Stuart Hall dizia; é a raça que produz o racismo – como ele depende do racismo para garantir a manutenção de seu sentido. Foi assim, me parece, que o tema da identidade, sequestrado pela lógica neoliberal, sofreu uma deflação ao se adequar aos limites necessários dessa gestão. Aqui temos problemas centrais e não podemos fugir de discuti-los. Começo pelo seguinte:

  1. Se não podemos duvidar que a identidade, tomada como finalidade última do sujeito, é uma objetificação de si mesmo, não podemos também deixar de observar que o horizonte histórico da modernidade promoveu a identificação de diversos grupos humanos. Isso estabeleceu a noção racial no colonialismo.
  2. É nessa terrível contradição que a história moderna é constituída: numa dialética em que a afirmação singular, por ter sido excluída dos processos de organização do status quo, tem a potencialidade de destituir a lógica social que organiza a relação de reprodução da vida responsável por essa exclusão.

O problema atual é que os impactos da gestão neoliberal precisam ser observados, pois, a noção da identidade baseada na ideia de encontrar um em-si de si mesmo totalmente transparente é uma violência objetificadora que serve como uma luva numa sociedade nichada como se tornou a nossa. Nichada?

Não é absurdo afirmar que na forma de gestão do capitalismo do século XXI a identidade passou a ser referendada como algo privado; uma reserva de mercado na qual se impôs as formas corretas para se expressar. Podemos reclamar de nossas dores desde que ela não se globalize no tecido social, desde que ela permaneça algo de grupos específicos. E, assim, o outro é somente a identificação que há do eu consigo porque expressa de maneira fantasiosa aquilo que sou e esse encontro é mediado pela nossa relação no mercado e sua competição.

Tudo se reduz ao campo da jurisdição e assim a identidade é sequestrada no campo da gestão e reativada como modo de pertencimento organizado pelo mercado. Mas, o mais problemático é que a mobilização identitária se torna profundamente reativa porque elimina não só a necessária mutação subjetiva, cabível na experiencia humana, mas repõe o status quo ao organizar uma competição de todos contra todos delimitada pelo mercado.

Para ter uma dimensão desse processo basta observar o antirracismo identitário que não busca a superação definitiva da racialização. O curioso é que não faz isso por uma escolha consciente, mas porque o racismo tornou-se o motivo de sua sobrevivência. Quer dizer é aquilo que possibilita sua própria existência como sentido e ação – isso sem falar que a pauta racial se tornou bem lucrativa… Por isso, trata-se de um antirracismo racialista, totalmente atrelado à dinâmica do “não há alternativas”. Para ele resta tão somente a disputa da gestão interna aos pressupostos lógicos do capitalismo contemporâneo.

Como mostra Haider: a expressão “política identitária” partiu de um grupo de militantes negras e lésbicas que tinham como horizonte o socialismo revolucionário1. Na argumentação que o Combate River tece – coletivo negro e feminista – fica explícita a marcação da identidade como uma construção e não simplesmente como uma descoberta.

Nele se trata de identificações que, apesar de não evocarem nenhuma essência, nem por isso deixam de dar sentido à pratica política do coletivo: “não são apenas mulheres, não são unicamente negras, não são apenas lésbicas” se lê no manifesto que continua, “não são apenas da classe trabalhadora”. O que são? “pessoas que incorporam todas essas identidades2”. Se nenhuma identificação determina a essência de um sujeito, pois, aquilo que o sujeito é, reside na sua capacidade de transitar por todas as identificações3, o coletivo reivindica tais identificações para dar materialidade à transformação que propõe.

Como essa posição rica e complexa foi transfigurada no seu contrário? Como a transformação social do capitalismo tornou a noção de identidade um fim em si mesmo? Esse é um problema que não deixa de ser fundamental. Apesar de sua fantasia, a identidade designa um problema concreto cujas implicações na vida subjetiva são centrais. Na sociedade atual, porém, existe uma falsa percepção de que o racismo e o sexismo são problemas que remetem única e exclusivamente à identidade/diferença.

A conclusão, que se esconde nessa ideia, é a de que a resolução dos conflitos da diferença se dê na gestão do próprio capitalismo. Temos nessa crença a manutenção do imaginário que garante o status quo neoliberal; esquece-se que o problema do negro está na injustiça racial necessária à desigualdade social – ou seja, a raiz do seu problema repousa na radical exploração a que foi submetido – para atrelá-lo à negridão e as formas de reconhecimento estatal.

Contra essa perspectiva – uma resolução do “conflito social” no nível da identidade excluída dos processos sociais e históricos – está o paradigma fanoniano que não se reduz à ideia de uma analítica na qual a opressão gera a resistência. O martinicano vai além; a resistência é só um momento da reorganização simbólica do racializado que lhe fornece uma identidade evanescente, é a ponte que ele atravessa para superar de maneira radical a própria estrutura social que divide a humanidade em raças. A identidade é só uma passagem rápida que consolida a experiência da subjetividade e torna o indivíduo um sujeito capaz de dar sentido a suas ações.

No espaço ideológico atual, entretanto, o sofrimento, com causas materiais e simbólicas, é reduzido à noção narcísica individual. O identitarizado o experimenta como algo exclusivo e a gestão desse sofrimento opera uma estetização política ligada às noções de competência e meritocracia. Na engenharia social atual, é preciso que a identidade tenha um caráter essencialista. Ela é alardeada diuturnamente numa sociedade hiperconectada em que a imagem aparece imediatamente como a verdade. A voz que humaniza esse sofrimento passa então a ser objetificada e reduzida à defesa do seu lugar.

No interior da operacionalização do lugar, como um lugar protegido, espera-se passivamente a gestão do sofrimento encarnada no representante como um vencedor que se mostra como uma exceção. Trata-se de uma redução à ideologia da eficácia que abafa a obscenidade da violência que sustenta a ordem através de alguns negros que venceram. E assim se oferece à lógica da ideologia do capitalismo as ferramentas necessárias: a ideia de que o problema é da gestão e que, portanto, é preciso se criarem espaços e ferramentas para a absorção da diferença.

Criam-se espaços livres da hostilidade do contraditório, propaga-se uma transgressão, estatisticamente calculada, e se fornecem elementos para a satisfação de não se ver negado. O corpo se torna algo no qual se exprime uma fantasiada divindade e a gestão identitária se torna a neutralização de movimentos potencialmente revolucionários em nome da nomeação dos gestores e representantes do grupo específico.

Para compreender essa engenharia social é preciso voltar ao colonialismo. É nisso que o identitarismo, inventado pelos colonizadores, se balizou: o fechamento da identidade numa identificação externa para controlar o processo escravagista de colonização de vários territórios. Que esse fechamento seja necessário à gestão atual diz muito sobre aquilo que Mbembe chama, com muita razão, de neoescravismo. A novidade é que esse processo tem tanta sutileza que quase passa sem ser observado criticamente.

O fechamento da identidade, narcisicamente apoiada na identificação de si através de um grupo, sem a necessidade da diferença como mediação do eu, expressa de maneira radical como a ideologia identitária se apossou de formas de lutas que partiam da identidade para questionar o todo social. O identitarismo, portanto, mais do que uma opção, trata-se na verdade de um modelo de gestão, ele nos atravessa de cabo a rabo.

Assim, os grupos, historicamente subalternizados, tornam-se reféns dessa lógica que é, acima de tudo, uma lógica de sobrevivência dramática numa crise permanente e em meio à eterna vigilância de câmeras, algoritmos e ponto 40 do policial. A perversidade do processo é tornar parte dos identitarizados (negros, latinos, muçulmanos, LBGTQIA+, etc.,) não só engajados no processo de identificação como muitas vezes nas suas formas de controle.

Importa lembrar que o identitarismo é o assassinato da alteridade desde que a Europa construiu identidade para todas as populações de além-mundo no início da modernidade. Na contemporaneidade, o esvaziamento das potencialidades transformadoras da identidade foi se consolidando de maneira vagarosa com o capitalismo do século XXI ao reidentitarizar as identidades para geri-la. Apostar no identitarismo como saída dos problemas atuais, que envolvem o massacre em nome da raça, mais do que ingenuidade, trata-se de colaboração ao que está posto.

Contra essa posição está Fanon que nos impõe a necessidade de pensar sobre o negro, não para reduzi-lo àquele organizado pelo identitarismo colonial, mas para entender de maneira radical a fonte dos sofrimentos e das agruras mantidas pela herança colonial afim de superá-las ao superar a forma como reproduzimos nossa vida social. Essa posição só pode ser assumida pensando o que há de dialético na lógica da identidade tendo em vista que, além de uma fantasia, ela precisa ser ruida.

Felizmente, muitos antes de nós se debruçaram nessa questão, não é um problema novo. Asad Haider, por exemplo, demonstra uma singular conversa de Malcom X na qual ele teria dito em 1964: “não se pode ter capitalismo sem racismo”. O desnudamento da estrutura que organiza o racialismo como gestão da racialidade, propicia a Malcom se orientar para a saída da identidade ofertada pela reprodução social que organiza os espaços raciais.

Malcom X foi morto justamente porque queria ir além dos limites identitários. Retornar à sua resposta é mais do que necessário, é urgente num mundo no qual o futuro do capitalismo ameaça nos levar à extinção. Se o racismo será superado com uma nova forma de sociabilidade… Isso eu não sei. O que sei, com toda certeza, é que nessa forma que vivemos, ele nunca será porque é parte fundante do sistema e nesse momento ele tece um genocídio horripilante em Gaza. Aliás, esse é o local onde o identitarismo se mostra em toda sua potencialidade catastrófica.


Notas:

1 HAIDER, A. Armadilha da identidade: raça e classe nos dias de hoje. Tradução Leo Vinicius Liberato. São Paulo: Veneta, 2019, p.31

2 HAIDER, 2012, p.32

3 BEAUVOIR, S. O segundo sexo: fatos e mitos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016

Douglas Barros é psicanalista e Doutor em Ética e Filosofia Política pela Unifesp

O comércio global de lixo é uma nova forma de colonialismo

Uma breve explicação sobre o comércio de  lixo no Sul Global e como ele é uma nova forma de colonialismo de resíduos ao perpetuar a injustiça ambiental e social

pare o lixo

Por Mageswari Sangaralingam para  o “Break Free from Plactic”

Em 2017, a China anunciou a interrupção da importação de 24 tipos de resíduos a partir de 1º de janeiro de 2018. Essa decisão, somada ao fato de que, sob a Operação Espada Nacional da China, o contrabando ilegal de resíduos também seria monitorado, revelou o lado feio do colonialismo de resíduos.

O que é comércio de lixo?

A prática de exportar lixo de países de renda mais alta para países de renda mais baixa, que muitas vezes são mal equipados para lidar com esses resíduos, é uma forma de racismo ambiental ou colonialismo do lixo. O comércio de lixo é frequentemente chamado de “colonialismo do lixo devido à dinâmica desigual e exploradora envolvida no movimento global de resíduos. O termo destaca o desequilíbrio de poder entre os países economicamente desenvolvidos do Norte Global, tipicamente os exportadores de resíduos, e as nações menos ricas que servem como recipientes.

Em vez de encontrar melhores soluções para gerenciar seu problema de resíduos, os países desenvolvidos colocam o fardo de seus resíduos no meio ambiente e nas comunidades, especialmente no Sul Global. Externalizar seu problema do lixo para outros países usando a terra do recipiente  para descarte de lixo é uma forma de colonialismo.

Por exemplo, após o mandato da China, novos locais de despejo foram identificados em países do Sudeste Asiático, como Malásia, Tailândia e Indonésia. À medida que o lixo começou a se acumular no Norte Global, esses países se tornaram o principal destino para o lixo no mundo, tanto legais quanto ilegais, onde o último envolve declaração falsa no conhecimento de embarque, descrição falsa dos resíduos comercializados, evasão de controles alfandegários ou ocultação total na remessa.

Por décadas, comunidades e organizações da sociedade civil têm destacado os impactos adversos do despejo indiscriminado de resíduos na saúde e no meio ambiente. O colonialismo de resíduos também contribui para o surgimento de usinas de reciclagem ilegais que operam sem licenças, usando tecnologia de ponta e métodos de descarte ambientalmente prejudiciais, como despejo a céu aberto e queima.

Um exercício de mapeamento sobre tráfico de lixo apresentado no relatório do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) mostra como atores criminosos exploraram brechas regulatórias e vulnerabilidades ambientais para ganho financeiro. O setor de lixo é relatado como altamente vulnerável à corrupção, pois os criminosos veem oportunidades de subornar autoridades para emitir licenças, falsificar documentos, ignorar violações e obstruir inspeções.

Além da poluição do ar causada pela queima de resíduos e emissões de usinas de reciclagem, o solo e os corpos d’água também são poluídos. Os países receptores também lidam com as consequências dos microplásticos produzidos no processo de reciclagem que, em última análise, se infiltram nos corpos d’água. Como sabemos, os microplásticos são disseminados e estão presentes em praticamente todos os cantos do mundo, e em nossos corpos, causando impactos adversos.

Nações desenvolvidas, como Japão, Estados Unidos da América e países europeus devem ser capazes de gerenciar resíduos gerados em seus países. No entanto, eles continuam a descartar seus resíduos em países em desenvolvimento e com recursos limitados sob o pretexto de reciclagem ou doações. Além disso, as famílias em países desenvolvidos que separam seus resíduos não têm ideia de que os “recicláveis” são enviados para o mundo todo para serem reciclados ou despejados, impactando severamente as comunidades locais e indígenas e levando à degradação ambiental e riscos à saúde.

O que impulsiona o comércio de lixo?

Capitalismo, práticas de produção insustentáveis ​​e consumismo estão entre os principais impulsionadores da crescente geração de resíduos. O sistema capitalista fabrica mais produtos do que precisamos, atrai os consumidores para comprar mais e então descarta esses produtos quando novos são introduzidos.

Da fast fashion e gadgets a itens de uso único, o desperdício está crescendo a uma taxa sem precedentes. Isso leva a milhões de toneladas de lixo sendo enviadas anualmente. Em alguns casos, enviar o lixo é muito mais barato do que gerenciá-lo ou descartá-lo de forma ambientalmente correta nas regiões onde é produzido.

Apesar de implementar restrições de importação, proibições e medidas de proteção para salvaguardar seus ambientes, e até mesmo acordos ambientais multilaterais como a Convenção de Basileia, as nações asiáticas tiveram que arcar com o peso dos resíduos plásticos da União Europeia (UE) , chegando por canais ilícitos e legais. O relatório ETC CE 2/2023 The Fate of Plastic Waste indica que os resíduos plásticos que saem da UE são de qualidade muito inferior aos comercializados dentro da UE.

Os resíduos não devem ser enviados para economias que não têm capacidade para gerenciá-los. Por exemplo, o Japão, que tem uma reputação de boas práticas de gerenciamento de resíduos, é um dos principais exportadores de resíduos plásticos para países não pertencentes à OCDE que têm menos capacidade para lidar com resíduos e sistemas de gerenciamento de resíduos mais fracos. Dos 606 milhões de kg de resíduos plásticos exportados pelo Japão para outros países em 2023, 189 milhões de kg foram enviados para a Malásia, aumentando de 179 milhões de kg em 2022. O gerenciamento de resíduos eficaz e justo deve ser baseado no princípio da proximidade.

Quando os países asiáticos começaram a reagir e a fazer campanha contra o despejo de  lixo, descobrimos que os resíduos plásticos simplesmente mudavam para destinos como Mianmar e Laos. Uma investigação da redação colaborativa Lighthouse Reports e seis parceiros descobriu que parte dos resíduos despejados em Mianmar vem do Ocidente, com base em amostras coletadas de um bairro em Yangon. Os investigadores identificaram exportadores nos EUA e Canadá por meio de bancos de dados de registros alfandegários. Eles analisaram como os países de trânsito subnotificam o plástico que enviam para Mianmar com base em conhecimentos de embarque e dados de remessa.

A fast fashion, onde a produção e o consumo de roupas se aceleraram, leva a um aumento no desperdício têxtil. Roupas de baixa qualidade estão chegando no Sul Global disfarçadas de doações de caridade ou para serem vendidas em mercados têxteis de segunda mão. Por exemplo, toda semana, Gana é inundada com impressionantes 15 milhões de peças de vestuário, uma parcela significativa das quais até 6 milhões acabam como lixo , sendo despejadas em aterros sanitários ou queimadas.

Além disso, há plásticos ocultos que vêm com outros materiais, como plásticos em importações de fardos de papel, plásticos em produtos eletrônicos e elétricos, resíduos têxteis, borracha e resíduos de pneus. Há também o comércio de combustível derivado de resíduos — em suma, resíduos processados ​​que são incinerados para geração de energia — que pode incluir até 30 a 50 por cento de resíduos plásticos.

O IPEN relata que as tendências nas últimas décadas mostram que a quantidade de resíduos plásticos aumentou junto com o comércio de resíduos em categorias que incluem plásticos compostos de produtos químicos tóxicos, como resíduos elétricos e eletrônicos.

A Basel Action Network descobriu que, apesar das regulamentações comerciais de resíduos perigosos da Convenção de Basileia, algumas empresas de reciclagem questionáveis ​​intermediam a exportação de resíduos eletrônicos para países menos desenvolvidos. Essas empresas cortam custos transferindo o desmantelamento e a reciclagem para países empobrecidos com leis trabalhistas frouxas, regulamentações ambientais fracas e históricos ruins de direitos humanos.

A Convenção de Basileia sobre o Controle de Movimentos Transfronteiriços de Resíduos Perigosos e Seu Descarte tem disposições sobre geração e minimização de resíduos. No entanto, essas disposições são orientações voluntárias que falharam em conter a crise de resíduos.

O que deve ser feito a seguir?

Reconhecendo os impactos do seu comércio de resíduos, a UE, que exportou 35 milhões de toneladas de resíduos em 2023, estabeleceu controles mais rigorosos sobre o comércio de líxo com seu novo Regulamento de Remessas de Resíduos , que entrou em vigor em 20 de maio de 2024. Isso aconteceu após anos de defesa por organizações da sociedade civil europeias e dos países receptores de resíduos.

Para ser eficaz, o Waste Shipment Regulation deve ser acompanhado por medidas de monitoramento e execução robustas e adequadamente financiadas, tanto nos países exportadores quanto importadores. As brechas devem ser tapadas e, esperançosamente, a implementação deste regulamento ajudará a pôr fim aos danos ambientais e à saúde humana nos países destinatários.

No entanto, essas medidas são somente da UE. E quanto a outras grandes economias?

O relatório Turning the Tide do UNODC recomenda que os governos devem adotar uma abordagem holística e identificar vulnerabilidades em toda a cadeia de suprimentos do comércio de resíduos. Isso inclui desenvolver políticas eficazes, tomar medidas de execução decisivas e construir capacidades institucionais. A corrupção e o envolvimento de grupos criminosos organizados no tráfico de resíduos exigem uma forte resposta da justiça criminal.

A Convenção de Basileia com poderes de governança e implementação mais fortes é necessária para conter o comércio de resíduos tóxicos. O Tratado Global de Plásticos, atualmente em meio a negociações internacionais antes de sua finalização em 2025, tem o potencial de ser um instrumento juridicamente vinculativo para abordar a poluição por plástico de muitas maneiras, incluindo regras internacionais para design, produção e descarte de plástico para proteger a saúde, os direitos humanos e o meio ambiente.

O colonialismo do lixo perpetua a injustiça social e ambiental. Para acabar com o colonialismo do lixo, as nações desenvolvidas devem ser responsabilizadas por sua própria gestão e descarte de resíduos e garantir que os sistemas de gestão de resíduos sejam ambientalmente e socialmente sólidos.

Acabar apenas com o comércio injusto de resíduos não é suficiente, o mundo precisa reduzir imensamente a produção insustentável e os consumidores precisam estar atentos às escolhas que fazem para minimizar os impactos de seu comportamento de consumo sobre os outros e o meio ambiente. Políticas e sistemas de desperdício zero são o caminho a seguir para acabar com a crise de resíduos.

Mageswari Sangaralingam é Diretor Executivo da Associação de Consumidores de Penang e Secretário Honorário do Sahabat Alam Malaysia (Amigos da Terra)


Fonte: Break Free from Plastic

Denso corredor de fumaça se forma entre a Amazônia e o sul do Brasil

Correntes de vento de Norte trazem grande quantidade de fumaça da região amazônica para o Rio Grande do Sul

Extenso corredor de fumaça entre a Amazônia e o sul do Brasil

Por Metsul

Um extenso e denso corredor de fumaça, resultante do grande número de queimadas que vem se registrando nestes dias na Amazônia do Brasil e em países vizinhos, podia ser visto nas imagens de satélites desta quinta-feira pelo interior da América do Sul da região amazônica até o Rio Grande do Sul.

O corredor percorre milhares de quilômetros e abrange uma área que vai da região amazônica até o Rio Grande do Sul, passando pelos territórios da Bolívia, Paraguai e o Nordeste da Argentina.

A origem principal da fumaça está no Sul da região amazônica, em particular no Sul do estado do Amazonas, assim como na Bolívia, onde o número de queimadas tem sido bastante elevado neste mês de agosto, cobrindo de fumaça cidades como Manaus e Porto Velho.

O corredor de fumaça é trazido para o Sul por uma corrente de jato em baixos níveis, um corredor de vento a cerca de 1.500 metros de altitude, que se origina no Sul da Amazônia e desce até o território
gaúcho.

É justamente esse corredor de vento quente e seco que transporta a fumaça para o Sul juntamente com o ar tropical que eleva a temperatura. É o que fez a temperatura nesta quinta-feira atingir 28ºC em Campo Bom, na Grande Porto Alegre. Normalmente, nesta época do ano, estes corredores de fumaça alcançam o Sul do Brasil. Isso se dá quando as correntes de vento passam a ser de Norte. Às vezes, a fumaça da Amazônia desce até mais ao Sul e alcança a região de Buenos Aires e mais raramente o Norte da Patagônia. Diferentemente da região amazônica, onde a fumaça atua mais perto da superfície e traz piora da qualidade do ar com problemas respiratórios para a população local, no Sul do Brasil está em suspensão na atmosfera.

Por isso, seus efeitos se percebem pelo tom mais acinzentado do céu com aspecto fosco e ainda por cores realçadas do sol ao amanhecer e no fim da tarde. Excepcionalmente, a fumaça vinda do Norte pode descer a altitudes menores e prejudicar a qualidade do ar de forma mais significativa no território gaúcho.

Satélite confirma fumaça no Rio Grande do Sul  

A chegada do corredor de fumaça ao Rio Grande do Sul foi confirmada pela divisão de aerossóis da NOAA, a Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera, em Washington. A agência climática norte-americana gerou imagens de hoje dos sensores ABI de aerossóis de profundidade ótica do satélite GOES-16.

O marrom na imagem de satélite mostra uma alta densidade de aerossóis, o que se verifica quando há muita fumaça. No caso do território gaúcho, como a imagem é de mais cedo nesta quinta, a fumaça recém ingressava e as condições pioraram durante a tarde.

Modelo prevê mais fumaça chegando

A tendência é que a quantidade de fumaça de queimadas no Norte da América do Sul chegando ao Rio Grande do Sul aumente neste fim de semana e no começo da semana que vem. Os mapas mostram as projeções do modelo de dispersão de aerossóis CAMS da União Europeia para sexta, sábado, domingo e segunda.

O aumento da fumaça previsto se deve à intensificação da corrente de jato que canaliza a fumaça de Norte para Sul até o território gaúcho e o Uruguai. A intensificação do jato em baixos níveis acompanhará a chegada de ar mais quente ao Rio Grande do Sul com maior elevação da temperatura na Metade Norte gaúcha.

Muito fogo na Amazônia

Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais mostram que somente nos primeiros 14 dias de agosto foram identificados por satélites 14388 focos de calor na Amazônia brasileira. O número supera a metade da média histórica mensal de 26218 focos de calor no bioma. O número de queimadas tem sido muito alto nos últimos dias. Somente nesta semana os satélites usados pelo Inpe identificaram na Amazônia 788 focos de calor no domingo, 1199 na segunda, 1368 na terça e 1476 ontem. 

Só nos primeiros 14 dias de agosto o número de focos de calor no estado do Amazonas chegou a 4548, número acima da média histórica de agosto inteiro de 3606. Houve dias neste mês com 500 a 600 focos em apenas um dia no Amazonas. As queimadas nos últimos dias aumentaram muito ainda em Rondônia.


Fonte: MetSul

O Professor Jefferson, a raposa, e as uvas

raposa

Por Douglas Barreto da Mata

Quase todo mundo conhece ou já ouviu falar dessa fábula. A raposa desejosa das uvas que não conseguia alcançar, desdenhava dizendo-as verdes.  É a fábula do recalque.

A primeira vez que ouvi falar de Jefferson Azevedo foi através da minha filha, aluna do segundo grau do IFF, onde o professor concorria ao cargo de reitor.  Ela veio me cobrar, porque conhecia minha militância, e imaginava no candidato ao reitor uma coerência à esquerda, sobre a qual pairava a dúvida dela: “Pai, o candidato Jefferson foi na sala, e prometeu, caso ganhasse, pizza no bandeijão”.

Eu sou amante da comida italiana, brinquei, opa, vou me matricular.  Brincadeiras à parte, ali se revelava, pela surpresa de minha filha, e minha também, um certo trejeito do então candidato, que ali se expressava como fisiologismo.

Hoje, continuo a me assustar com o moço.  Não que ele não possa utilizar armas de outros para alavancar seus projetos eleitorais. O que me assombra é a falta de sofisticação.

Prometer pizza? Certo! Mas e os laboratórios, condições da escola, garantia de professores em sala (o que na época foi difícil).

De certa forma, toda eleição é um pacto fisiológico mesmo, com um candidato prometendo atender demandas dos eleitores. Se elas são de curto, médio ou longo prazo, aí é outra coisa, e não me cabe aqui entrar nesse jogo de valoração.

O fato é que o professor Jefferson acabou seu ciclo, melancolicamente, no IFF, sem fazer sucessor, e logo no reinício do governo Lula.

Como me disse um interlocutor muito mais sábio que eu, com quem tive o prazer de conversar na última segunda: “o problema foi o candidato”. Discordo, mas, polidamente, retruquei, pois acho que, nesse caso, tanto o padrinho como o afilhado eram os problemas.

Pois bem, hoje, me deparei com a fala do Jefferson em sua rede social, descendo a mamona na nota do IDEB da PMCG.

Eu já me posicionei sobre o que eu achava factível para o PT nessas eleições, como você pode ler  [Aqui! ].

É complicado, e até vergonhoso, assistir ao papel assumido pelo professor, de linha auxiliar da extrema-direita na cidade.  Não, o governo Wladimir não é um sonho, óbvio. Mas eu não consigo entender a resistência em entender em que ajuda ao PT agudizar as críticas a um governo, que se esforça para ir para o centro, justamente onde todos que lutam contra o fascismo recente gostariam que ele se deslocasse.

Sobre a nota do IDEB? O professor usou o mesmo argumento chulo das redes sociais da extrema-direita local, a tal aprovação “automática”. Esconderam, claro, que a aprovação não é o único vetor que direciona o índice (IDEB), e que dentre eles está o SAEB, a avaliação bienal dos alunos.

Há outros quesitos.  Pois bem, o professor fez revirar no túmulo o cadáver de Paulo Freire ao colocar toda a pedagogia, e os métodos de avaliação de sucesso dos ciclos pedagógicos, resumidos na questão de ser ou não aprovado “automaticamente” (os especialistas não usam mais essa expressão).

Sabe o professor que não é esse o problema, e mais, não mencionou que foi o governo federal que recomendou esse método para esse ciclo do IDEB (2021/2023), para aplacar os efeitos da pandemia.

Ou seja, sim, a aprovação “automática” é uma ferramenta sim, e como todas ferramentas não são um fim em si, nem para o bem, nem para o mal, como quis reduzir o professor. Assim como pizzas.

Outra questão surrupiada pelo professor foi o fato de que Campos dos Goytacazes foi na contramão do Estado do Rio, esse sim, um desastre que arrastou para baixo os índices do Sudeste.

Talvez para não desagradar a deputada estadual, e “embaixatriz” do governo estadual dentro do PT Campos. Ah, e falando nela, São João da Barra, feudo onde ela é monarca soberana, ficou abaixo de Campos dos Goytacazes, mesmo tendo três vezes mais orçamento per capita para investimentos.

E antes que eu me esqueça: o governo federal deu zero de aumento para os professores universitários esse ano.

Dizem que os aumentos estão presos para sempre no calabouço fiscal do Paulo Guedes de boas maneiras, o ministro Fernando Haddad.