Diário de bordo em Buenos Aires

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Por Douglas Barreto da Mata

É a terceira vez que venho à cidade portenha.  Com certeza, virei quantas forem possíveis.  Aqui temos a chance de ver como é possível uma cidade funcionar para seus munícipes e visitantes.  Em Buenos Aires, cidade é cidadania.

A despeito da Cidade Autônoma de Buenos Aires, que compreende o distrito federal deles, a capital argentina, ser uma unidade administrativa separada da província de Buenos Aires (cuja capital é La Plata), o fato é que é impossível não morrer de inveja. Não se trata de adentrarmos a polêmica entre esquerda ou direita, peronistas ou anti peronistas, até porque Buenos Aires tem sido governada, repetidamente, por governos de direita há alguns anos.

A questão central, pelo que meus dias de Buenos Aires me mostraram, assim como duas experiências em Santiago e uma em Montevidéu, é o processo histórico e seus contingentes, que construíram povos latinoamericanos muito distintos daquele que fala português (os brasileiros). 

Há um senso de coletividade entranhado nesses povos, que se não conseguiu remover suas elites e as elites estrangeiras da posição de parasitas dessas populações, ao menos dotaram estas sociedades de capacidade de mobilização tal, que a subtração de direitos seja muito mais dramática e lenta que no Brasil.

Dentro desta perspectiva, é correto afirmar que essa combatividade social permitiu alcançar uma esfera de proteção social muito mais avançada que no Brasil, apesar de ser indiscutível que nosso país seja muito mais rico que o conjunto de países vizinhos do sul. Não é preciso ser um gênio para concluir que riqueza e tamanho do PIB signifiquem, no aspecto humanitário, mais sucesso proteger pessoas. EUA, e Brasil estão entre as principais economias do planeta.Estão dentre os mais desiguais e violentos também.

Voltemos à capital argentina.  O regime ultraliberal de Javier Milei jogou Buenos Aires em uma situação que deteriorou a olhos vistos.  Muita gente em situação de rua, coisa que não vi nas duas viagens anteriores, ambas na gestão Fernandez. 

Aqui um detalhe:  não sou um assistente social, mas há nítida diferença entre essa população em situação de rua, que se percebe nas roupas, pertences e nos grupos.  Há aqueles que parecem estar há muito nas ruas, com poucos pertences e aparência degradada, e outros com roupas mais novas ou íntegras, com mochilas com itens que parecem indicar que foram recém despejados de duas casas.

Os que parecem que estão nas ruas há mais tempo, geralmente, estão sozinhos, já os últimos e mais recentes, estão com crianças, famílias inteiras.  Uma tensão social quase sufocante, e que dá a sensação que vai explodir em breve.  Faixas de sindicatos em fachadas em todo canto. Ao contrário de outras épocas, vi poucas manifestações de rua, embora tenha andado a pé, sistematicamente, pelas ruas de vários bairros.

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Isso (ausência de manifestações), na Argentina, nem sempre quer dizer paz social, ao contrário, indica uma enorme panela de pressão, pronta para expelir os valores acumulados.  Preços mais altos, porém, ao contrário de antes, serviços públicos mais caros, e muito piores, como a coleta de lixo. 

A segurança permanece, e isso também por aquilo que mencionamos antes, ou seja, há um legado de direitos e prerrogativas arraigados no portenho (e nos argentinos, nos uruguaios e chilenos), que são donos de suas cidades, usam-nas como donos que são, sem limites ou territórios proibidos, sem impedimentos de classe ou hierarquias sociais, embora saibamos que a desigualdade e as diferenças ali estejam.

Mas nada como o Brasil, como o Rio de Janeiro, Campos dos Goytacazes, ou qualquer outra cidade grande ou de porte médio, por exemplo. Somos um proto capitalismo, e do pior tipo, proto estadunidense. A adesão automática de todas as políticas públicas estadunidenses, todas com receitas liberais, com destaque para o modelo de gestão de segurança e de distribuição de renda, levou esse país a um beco sem saída, ao desastre total e irreversível. 

Não, Lula nem o PT conseguiram apontar um caminho, que era o esperado. Atribuir o fracasso aos limites da governabilidade é uma resposta cínica e não dá conta de descrever as escolhas feitas.  Quais escolhas de Lula e do PT?  Não escolher nada, seguir o modelo pré estabelecido, como se isso garantisse uma estabilidade política. O resultado? Nós assistimos. Os governos do PT são obedientes ao extremo ao “mercado”, mas não foram poupados do assédio dos golpistas, que levaram à ruptura, como em 2016, e que continuou a assombrar até 08 de janeiro de 2023. Ainda que Lula tenha sido sempre gentil e cordato com a mídia comercial, ele foi tratado com desdém e desrespeito tão severos quanto ao dedicado a Jair Bolsonaro.

No quesito mídia fica o registro sobre Buenos Aires: a Argentina está em frangalhos, mas nada se ouve nos noticiários e nas redes sociais da direita. Enfim, sinto muita inveja dos argentinos, ainda que estejam experimentando uma solução ultraliberal, personificada no espantalho Milei, que, como Bolsonaro, é apenas uma distração para a imposição de mais do mesmo, isto é, tentativa de espremer ainda mais o que resta de riqueza nacional pelos abutres internacionais e carniceiros nacionais.  Esse sentimento (de inveja) deriva da certeza de que eles não vão aceitar, por muito tempo, o rebaixamento daquilo que foi conquistado.

Se no Brasil, qualquer coisa agrada, como algumas poucas linhas de ônibus ou de metrô em funcionamento, ou um dia sem tiros de fuzil em vias públicas, creio que na Argentina ninguém, nem em seus piores pesadelos sociais, vai imaginar situações parecidas.  Definitivamente, brasileiros são uma prova de que há uma involução civilizatória neste canto do planeta.

Uso excessivo de água no Matopiba pode comprometer até 40% da demanda agrícola local por irrigação

Pesquisa liderada pelo Inpe mostra que superexploração dos recursos hídricos para a agricultura, aliada às mudanças climáticas, está reduzindo as vazões subterrâneas, provenientes do aquífero Urucuia, e dos corpos d’água superficiais da bacia do rio Grande, afluente do São Francisco

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Monocultura em São Desidério (BA), na região conhecida como Matopiba (foto: Palácio do Planalto/Wikimedia Commons)

Luciana Constantino | Agência FAPESP

Considerada uma das fronteiras agrícolas que mais crescem no Brasil e a área com maior taxa de emissão de gases de efeito estufa no Cerrado, a região conhecida como Matopiba corre o risco de enfrentar falta de água já nos próximos anos. Entre 30% e 40% da demanda por irrigação de terras agricultáveis pode não ser atendida no período de 2025 a 2040 devido à superexploração dos recursos hídricos.

Esse problema, somado às mudanças climáticas, está reduzindo as vazões subterrâneas – provenientes do aquífero Urucuia – e dos corpos d’água superficiais da bacia do rio Grande, afluente do São Francisco. A redução desse fluxo pode comprometer o atendimento a demandas como o abastecimento urbano, de populações ribeirinhas e o próprio agronegócio, sem contar a diminuição de disponibilidade para toda a bacia.

A conclusão é de um estudo liderado por cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) que analisou a sustentabilidade de longo prazo da expansão agrícola em meio à crescente escassez de água na região. O trabalho, idealizado pela cientista do Inpe Ana Paula Aguiar e realizado em parceria com o Centro de Resiliência de Estocolmo (Suécia), aponta que deve haver um aumento de até 40% de energia para irrigação, pressionando ainda mais o sistema.

Acrônimo formado pelas siglas de quatro Estados – Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia –, o Matopiba está inserido predominantemente no Cerrado (91% da área ou 665 mil km2), tendo apenas 7,3% na Amazônia e 1,7% na Caatinga. Em sua parte sudeste, é abastecido pela bacia do rio Grande, que cobre cerca de 76 mil km2.

Para fazer a análise, os pesquisadores usaram um modelo de dinâmica de sistemas – uma ferramenta que permite representar as complexas interações e feedbacks entre uso da terra, energia e água, além de simular diferentes cenários, vendo como é a reação ao longo do tempo. Com isso, ajuda na tomada de decisões e na implementação de políticas públicas mais eficazes.

“A dinâmica de sistemas considera uma visão holística, simulando as relações e as várias demandas – irrigação, energia elétrica, consumo – que existem simultaneamente na região. Isso nem sempre é considerado em análises realizadas por órgãos públicos”, diz o pesquisador do Inpe Celso von Randow, um dos autores do trabalho.

O artigo foi publicado na Ambio – Journal of Environment and Society e é parte do projeto Nexus – Caminhos para a Sustentabilidade, coordenado por Jean Ometto, pesquisador do Inpe e membro da coordenação do Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG). O projeto buscou propor estratégias para viabilizar a transição para um futuro sustentável nos biomas Cerrado e Caatinga por meio de uma abordagem participativa, integrando métodos qualitativos e quantitativos.

relatório técnico do Nexus, que traz informações da pesquisa do grupo e de outras desenvolvidas na região, foi lançado agora em outubro e apresentado no seminário “Contribuições da comunidade científica brasileira para a temática de combate à desertificação”, realizado na Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene). Pesquisadores do grupo estarão juntamente com a delegação brasileira na Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD), na Arábia Saudita, em dezembro.

“A ideia do estudo nasceu de uma das oficinas do projeto Nexus, realizada no município de Barreiras. Havia uma preocupação com a sustentabilidade do sistema de irrigação. Desenvolvemos um modelo de dinâmica de sistemas para a região, mas ele pode ser aplicado a outras áreas adaptando algumas variáveis de acordo com a necessidade”, explica a engenheira agrícola Minella Alves Martins, primeira autora do artigo e orientanda de von Randow no Inpe com o apoio da FAPESP.

Durante a oficina, os principais desafios relatados na bacia do rio Grande estavam relacionados à disponibilidade de água – tanto do ponto de vista quantitativo como qualitativo – e aos conflitos socioambientais motivados por seu uso e pela posse irregular da terra. Mais de 90% das retiradas de água na bacia são destinadas à irrigação, de acordo com dados da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA).


Uma das oficinas realizadas em Barreiras para montar o escopo da pesquisa (foto: Projeto Nexus) 

Nos últimos dez anos, o Matopiba – com 337 municípios – registrou um salto na produção de grãos – 92%, passando de 18 milhões de toneladas (safra 2013/14) para cerca de 35 milhões de toneladas. Na Bahia, as culturas de soja, milho e algodão são destaque, tendo o município de Barreiras como um dos principais produtores no Estado.

Estima-se que na próxima década o crescimento agrícola do Matopiba ainda seja de 37%, com a produção atingindo 48 milhões de toneladas em uma área plantada de 110 mil km2. Os números fazem parte do estudo Projeções do Agronegócio, elaborado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

Por outro lado, a seca severa que vem atingindo o país reduziu a previsão de produção de grãos na safra 2023/2024, especialmente no Matopiba. Para agravar a situação, o Cerrado bateu recorde de focos de incêndio neste ano. Foram 68.868 entre janeiro e 25 de setembro, superando todo o ano de 2023. É o maior desde 2015.

Com esse cenário, além de registrar aumento da temperatura, o Matopiba emitiu 80% dos 135 milhões de toneladas de CO2 liberadas para a atmosfera por causa do desmatamento no Cerrado entre janeiro de 2023 e julho de 2024, segundo levantamento do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam).

A destruição da vegetação nativa pelo fogo e o desmatamento para outros usos levam a uma redução da evapotranspiração das plantas, diminuindo a quantidade de chuva. Há ainda o fato de a água, sem a cobertura vegetal, chegar com mais força ao solo, escorrendo superficialmente e deixando de formar os canais subterrâneos.

Projeções

O modelo de dinâmica de sistemas usado pelos pesquisadores para a região mostrou que as vazões superficiais e subterrâneas tendem a diminuir até 2040. Eles levaram em consideração os usos de água atuais, as mudanças climáticas e feedbacks econômicos. Em contrapartida, haverá um aumento na demanda de água, principalmente impulsionada pela expansão da irrigação. Deve passar de 1,53 m³/s (2011-2020) para 2,18 m³/s (2031-2040).

Por isso, os pesquisadores apontam a possibilidade de estagnação da expansão da agricultura irrigada na região, levantando preocupações sobre a sustentabilidade de longo prazo do setor na bacia do rio Grande.

“Ouvimos muito na região que as retiradas de água são acima dos níveis de outorga. Então, o primeiro ponto de recomendação seria a revisão dessas permissões, justamente para que estejam de acordo com o novo normal climatológico que estamos vivendo. A série histórica pode estar defasada, levando a uma permissão acima do que é possível ofertar. Observamos por meio de dados de monitoramento de poços da CPRM que os níveis de águas subterrâneas estão caindo, mas esse sistema ainda é muito utilizado. Por isso, outra necessidade seria a fiscalização para proibir poços clandestinos e o monitoramento da exploração de novos locais de perfuração, visando um uso racional dos recursos hídricos”, afirma Martins à Agência FAPESP.

O grupo recomenda também que seja aprimorada a fiscalização das mudanças de uso e cobertura do solo para que áreas de recarga do aquífero não sejam comprometidas, além de incentivar estratégias mais eficientes e racionais da utilização de água na agricultura. Para estudos futuros, os cientistas sugerem a exploração de outros caminhos para adaptação às condições atuais, como a possibilidade de conectar o subsistema elétrico local à rede nacional e a criação de canais adicionais para garantir o abastecimento.

O artigo Long-term sustainability of the water-agriculture-energy nexus in Brazil’s MATOPIBA region: A case study using system dynamics pode ser lido em: https://link.springer.com/article/10.1007/s13280-024-02058-9#Ack1.


Fonte: Agência Fapesp

Sai pesquisador, entra empresário bolsonarista: troca na presidência da Faperj causa repentino e amargo acordar na comunidade científica fluminense

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O futuro presidente da Faperj, Alexandre Valle,  desfilando em carro aberto em companhia do ex-presidente Jair Bolsonaro durante a campanha eleitoral de 2024

Estou vendo uma série de manifestações e mobilizações em torno da demissão do Professor Jerson Lima do cargo de presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) e sua substituição pelo empresário do ramo de seguros, Alexandre Valle, que também é ex-deputado federal e ex-secretário estadual de Educação. De quebra, Valle foi recentemente derrotado como candidato a prefeito de Itaguaí, apesar do apoio explícito do ex-presidente Jair Bolsonaro de quem é aliado.

Ainda que eu entenda e apoie as demandas para a permanência de um pesquisador à frente da Faperj (afinal faz sentido que um pesquisador dirija uma fundação de amparo à pesquisa), eu não vejo nenhuma surpresa nessa substituição. 

Além disso, considero essa troca menos grave do que ter desde junho como secretário de Ciência e Tecnologia, o deputado Anderson Moraes, que em 2021 propôs a extinção da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), sob a alegação de que a instituição era muito cara para os cofres do Rio de Janeiro.

Eu não me recordo de ter ouvido ou lido a ocorrência do mesmo tipo de reação, o que considero um erro óbvio, na medida em que, como secretário de Ciência e Tecnologia, Moraes está hierarquicamente acima do presidente da Faperj.

O que me ocorre é que enquanto o cargo de secretário de Ciência e Tecnologia há muito tempo é daqueles que sobra para quem não quer efetivamente sentar na cadeira, a presidência da Faperj possui uma capacidade de alavancagem  política que é dada pela sua capacidade de financiamento. Mas se esse movimento tivesse ocorrido quando a nomeação de Moraes ocorreu, é muito provável que Cláudio Castro teria pensado melhor antes de mexer na Faperj.

A minha expectativa é que essa troca na Faperj sirva como alerta para os problemas que existem no tratamento da ciência e tecnologia no estado do Rio de Janeiro sob a égide de um governo claramente de direita, e sem quaisquer compromissos com o desenvolvimento científico e tecnológico.

Afinal, como se pode esperar mar de almirante com uma figura como Cláudio Castro sentada na cadeira de governador? A mim me parece que sempre estaremos mais para mar revolto. Que essa troca esdrúxula no comando da Faperj sirva para acordar quem ainda conseguia dormir em berço esplêndido. Afinal,  o cenário me parece claro: a Faperj corre grave risco sob a mãos de um empresário/político com laços claros 

Springer Nature “despublica” 75 artigos ligados a Juan Manuel Corchado, reitor da Universidade de Salamanca

Os artigos contêm centenas de referências ao reitor da Universidade de Salamanca, Juan Manuel Corchado

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Juan Manuel Corchado, pego em escândalo da fábrica de citações, apresentando um seminário na Universidade de Salamanca

Por Cathleen O´Grady para a Science

Em resposta às preocupações levantadas por vários cientistas e um importante meio de comunicação espanhol, a editora científica Springer Nature retirou 75 artigos de conferências relacionados ao cientista da computação Juan Manuel Corchado, reitor da Universidade de Salamanca (Usal), que foi acusado de inflar drasticamente as citações de seu próprio trabalho.

Os avisos de retratação — o último dos quais foi publicado hoje — observam “comportamento de citação incomum”, entre outros problemas. Os artigos citam Corchado 1772 vezes, com mais 559 referências ao periódico que ele edita, o Advances in Distributed Computing and Artificial Intelligence Journal ( ADCAIJ ), e outras 329 citações a membros do grupo de pesquisa de Corchado. Corchado foi o autor de 14 dos artigos, mas a maioria incluiu pelo menos um autor da Usal.

O padrão de citações no lote de artigos é “muito suspeito”, diz Ludo Waltman, um bibliometrista da Universidade de Leiden que não está envolvido no caso. A revisão por pares para os anais de uma conferência é frequentemente conduzida à distância de seu editor, ele diz, o que pode tornar a qualidade mais difícil de controlar.

A retratação em massa é “sem precedentes” na Espanha, diz o bibliometrista da Universidade de Granada Alberto Martín Martín, que no mês passado publicou um relatório com o colaborador Emilio Delgado López-Cózar mostrando evidências de manipulação de citações em anais de conferências que citaram Corchado, bem como em textos curtos enviados para o ResearchGate e o repositório de Usal. A dupla originalmente sinalizou os artigos agora retratados para o jornal espanhol El País em maio, que posteriormente os relatou à Springer Nature. As retratações são “um resultado agridoce”, diz Martín Martín, porque confirmam comportamento inapropriado, mas “pelo menos houve algumas medidas para corrigi-lo”.

Nos avisos de retratação, a Springer Nature também relata preocupações com “manuseio editorial” e “interesses conflitantes não revelados”. A editora descobriu que “conexões profissionais ou pessoais diretas [eram] responsáveis ​​pela revisão editorial do trabalho de seus colegas”, disse Chris Graf, diretor de integridade de pesquisa da Springer Nature, em uma declaração enviada por e-mail à Science . Muitos dos artigos são publicados em anais de conferências organizadas pelo grupo de pesquisa de Corchado.

A Springer Nature não confirmou se está investigando artigos adicionais relacionados ao caso ou se planeja continuar publicando os anais dessas conferências.

Em uma declaração enviada por e-mail à Science , um membro do grupo de pesquisa de Corchado diz que, desde junho, o grupo tem trabalhado com a Springer Nature para corrigir uma série de artigos com erros editoriais, mas que a editora decidiu retratá-los. Os artigos representam apenas uma porcentagem muito pequena do trabalho de Corchado e do grupo de pesquisa, diz a declaração, e as acusações são “maliciosas e visam unicamente desacreditar o grupo de pesquisa”. Corchado não respondeu diretamente ao pedido de comentário.

Mas o trabalho de Martín Martín e Delgado López-Cózar é “muito preciso e muito exaustivo”, diz José María Díaz Mínguez, um geneticista da Usal que serviu como vice-presidente sob o reitor anterior. Corchado deve explicar como os artigos sinalizados acabaram com números excessivos de referências a ele e seus colaboradores, diz Díaz Mínguez.

O bibliotecário Domingo Docampo, ex-reitor da Universidade de Vigo que não esteve envolvido na investigação, ressalta que em muitos dos artigos as referências não estão relacionadas ao texto; em um artigo intitulado “ Atividade física programada para idosos como motor do envelhecimento ativo ”, por exemplo, algumas das 43 citações ao trabalho de Corchado incluem referências a artigos sobre derramamentos de petróleo, Twitter (agora X) e oceanografia.

As retratações são “terríveis” para a universidade, diz Díaz Mínguez, mas “não vejo nenhuma consequência no futuro próximo”. A menos que Corchado decida renunciar, ele diz, não há como a universidade removê-lo, já que reitor é o cargo mais alto da escola. Embora o Comitê Espanhol de Ética em Pesquisa tenha recomendado uma ação disciplinar, isso teria que ser instigado pelo próprio Corchado.

Em uma declaração publicada hoje, o Conselho de Administração da Conferência de Reitores de Universidades Espanholas disse — sem mencionar Corchado ou Springer Nature — que relatórios recentes de má conduta e retratações “prejudicam a reputação internacional da ciência em nosso país e podem lançar dúvidas sobre a confiança da sociedade no trabalho científico”. O conselho “apela ao comportamento responsável dos pesquisadores que representa”, continuou a declaração.

Corchado pode perder apoio com o passar do tempo, diz Docampo. Embora as retratações reflitam mal sobre Usal, se Corchado não for responsabilizado, ele diz, o caso se tornará “um passivo para o sistema universitário na Espanha”.


Fonte: Science

Relatório afirma que os novos produtos Roundup da Bayer são mais tóxicos do que as formulações anteriores

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Por Carey Gillam para o “The New Lede”

Novos tipos de produtos herbicidas Roundup comercializados para consumidores dos EUA contêm produtos químicos que representam maiores riscos à saúde das pessoas do que formulações anteriores suspeitas de causar câncer, de acordo com uma análise de um grupo de defesa da saúde ambiental. O relatório foi contestado pela Bayer, que chamou a análise de “profundamente falha”.

A Friends of the Earth (FOE) informou na terça-feira que descobriu que quatro produtos químicos foram adicionados recentemente aos produtos Roundup e que comprovadamente causam uma variedade de problemas de saúde, incluindo defeitos reprodutivos, danos renais e hepáticos e neurotoxicidade.

A análise foi feita depois que a empresa agroquímica Bayer prometeu que removeria o glifosato de seus populares produtos herbicidas Roundup, vendidos para uso residencial em gramados e jardins a partir de 2023.

A Bayer, que comprou a Monsanto em 2018, fez a mudança para tentar reduzir o registro de futuros litígios enquanto enfrenta milhares de ações judiciais movidas contra a Monsanto por pacientes com câncer que alegam ter desenvolvido linfoma não-Hodgkin pelo uso do Roundup da Monsanto e outros herbicidas à base de glifosato.

Mas a FOE disse que descobriu que os produtos químicos usados ​​nas novas formulações do Roundup são, em média, 45 vezes mais tóxicos para humanos com exposição crônica do que o Roundup à base de glifosato. Os produtos químicos eram aproximadamente quatro vezes mais agudamente tóxicos, disse o grupo.

Notavelmente, todos os quatro produtos químicos adicionados apresentam maior risco de problemas de saúde reprodutiva e/ou de longo prazo do que o glifosato, com base na avaliação de estudos de segurança da Agência de Proteção Ambiental (EPA), disse a FOE.

Dos quatro produtos químicos encontrados nos produtos – diquat dibromide, fluazifop-P-butyl, triclopyr e imazapic – o “pior infrator”, de acordo com a FOE, é o diquat dibromide. Ele é 200 vezes mais tóxico do que o glifosato quando a exposição ocorre por um longo período de tempo, disse o grupo, e é proibido na União Europeia . Ele é 27 vezes mais tóxico em exposições agudas, disse o grupo.

Kendra Klein, vice-diretora de ciências da FOE e autora do relatório, disse que a Agência de Proteção Ambiental (EPA) deveria fornecer uma supervisão mais forte.

“As pessoas precisam perceber que a EPA há muito tempo coloca os lucros de empresas como a Bayer à frente de sua saúde quando se trata de pesticidas”, disse Klein. “E agora, eles permitiram que a Bayer trocasse silenciosamente os produtos químicos do Roundup, tornando-o muito mais tóxico para a saúde das pessoas, sem alterar a embalagem ou alertar os consumidores sobre os riscos aumentados.”

A Bayer disse que o relatório estava factualmente errado e fora de sintonia com as avaliações regulatórias para medição de risco.

Em uma declaração, a empresa disse: “Um relatório recente e profundamente falho contém alegações falsas sobre os ingredientes ativos nos produtos Roundup Lawn & Garden. Os ingredientes ativos em todos os produtos Roundup Lawn & Garden foram cuidadosamente estudados, revisados ​​e aprovados por especialistas independentes da Agência de Proteção Ambiental (EPA) e usados ​​com segurança e eficácia em muitos produtos diferentes de controle de ervas daninhas de uma variedade de empresas por décadas. O relatório chega à sua conclusão enganosa por meio de uma metodologia que é totalmente inconsistente com a forma como os principais especialistas regulatórios e de saúde medem o risco em como as pessoas usam esses produtos no mundo real e de acordo com o rótulo. Simplificando, os consumidores podem se sentir confiantes usando os produtos Roundup com segurança.”

A EPA não respondeu a um pedido de comentário.

Comparando os dados

Ao conduzir sua análise, a FOE disse que coletou informações sobre ingredientes dos rótulos dos produtos Roundup vendidos na Lowe’s e na Home Depot — dois dos maiores varejistas de gramados e jardins dos EUA — entre junho e o final de setembro deste ano.

Vários produtos Roundup nas prateleiras das lojas ainda continham glifosato, disse a organização. Mas oito produtos herbicidas da marca Roundup foram feitos sem glifosato.

A FOE disse que sua análise comparativa da toxicidade dos ingredientes químicos ativos nas formulações novas e antigas do Roundup é baseada na avaliação da EPA da toxicidade crônica de ingredientes ativos de pesticidas individuais. A EPA não avalia rotineiramente as combinações de produtos químicos frequentemente usadas nas formulações acabadas vendidas aos clientes, destacou a FOE.  

Mas ele define o que chama de “dose de referência crônica” para produtos químicos individuais. A agência define uma dose de referência como uma exposição oral diária que os humanos podem experimentar por um longo período de tempo sem qualquer “risco apreciável” de efeitos nocivos. A medição é o único dado disponível da EPA sobre toxicidade crônica dos diferentes produtos químicos, disse a FOE.

Fonte: Amigos da Terra

Além de comparar os dados de dose de referência crônica, a FOE disse que levou em consideração os níveis de concentração de cada um dos ingredientes químicos ativos nas formulações.

As novas formulações do Roundup também são mais prejudiciais ao meio ambiente do que os produtos à base de glifosato, de acordo com a FOE. Os produtos químicos que substituem o glifosato são “significativamente mais propensos a prejudicar abelhas, pássaros, peixes, minhocas e organismos aquáticos”, disse o grupo.

 Um produto generalizado 

O glifosato é o herbicida mais aplicado na história, tanto nos EUA quanto globalmente, e tem sido usado por fazendeiros e consumidores por mais de 40 anos. O produto químico tem sido tão amplamente usado que os resíduos são disseminados no meio ambiente – estudos o encontraram em alimentos e água potável, até mesmo na chuva . Também é comumente encontrado na urina humana .

Um novo estudo publicado em outubro ressaltou a natureza ubíqua do produto químico, encontrando o produto químico herbicida presente em cada uma das 99 amostras de ar coletadas dentro de residências urbanas em Nova York e 15 outros estados. Estudos anteriores também encontraram resíduos de glifosato na poeira doméstica, apesar do fato de o produto químico não ser usado em ambientes fechados.

Autoridades da Monsanto e da Bayer sempre garantiram ao público e aos reguladores que, quando usado conforme as instruções, a exposição ao herbicida não representa uma ameaça à saúde humana.

Mas dezenas de estudos descobriram o contrário, e em 2015 a Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer (IARC) classificou-o como um provável carcinógeno humano. Mais de 100.000 pessoas entraram com ações judiciais após a decisão da IARC culpando seus cânceres pelo uso dos produtos de glifosato da Monsanto/Bayer, como o Roundup. A Bayer resolveu milhares de casos, e ganhou e perdeu vários outros em julgamentos nos EUA.

Em julho deste ano, a Bayer havia resolvido cerca de 114.000 dos 172.000 casos de câncer relacionados ao Roundup.

No ano passado, uma coalizão de trabalhadores rurais, defensores da saúde pública e do meio ambiente entrou com uma petição legal na Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) exigindo que a agência suspendesse a autorização do glifosato. A petição afirma que o produto químico não atende ao padrão de segurança exigido pela lei federal.

A EPA apoia a posição da Bayer de que o glifosato é seguro quando usado conforme as instruções.


Fonte: The New Lede

Façam suas apostas: quando a baronesa vai pular da barca petista?

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Carla Machado, uma deputada que sempre foi mais amiga do Porto do Açu do que as vítimas da desapropriação no V Distrito de São João da Barra

No dia 12 de outubro publiquei um texto do Douglas Barreto da Mata onde ele tecia uma análise precisa sobre as incongruências existentes na relação da ex-prefeita de São João da Barra, e atual deputada estadual, Carla Machado, com o Partido dos Trabalhadores (PT).

Essas incongruências ficaram ainda mais explícitas com adesão que eu julguei meio tresloucada à candidatura da Delegada Madeleine (do direitista União Brasil) em detrimento daquela oficialmente apoiada pelo PT, a do Professor Jefferson Azevedo.

Quiserem as urnas que o resultado eleitoral do Professor Jefferson fosse muito melhor do que esperavam os próprios petistas, o que o elevou a uma condição de pleiteante natural a uma vaga para concorrer a deputado estadual em 2026.

Diante deste cenário tão adversa que, convenhamos foi criado pela própria Carla Machado, eu fico me perguntando quando é que a deputada sanjoanense irá pular da barca petista e se encaminhar para, por exemplo, o da União Brasil com quem ela tem claramente mais alinhamento ideológico. Se isso acontecer, Carla Machado ainda poderá trocar figurinhas com a que candidata que ela apoiou cujo destino pós-eleições foi exatamente a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

Então, quem se arrisca a um prognóstico?  Com a palavra, o Diretório do PT Campos que, em minha modesta opinião, já deveria ter mostrado a porta da rua para a deputada.

O poderoso lobby tóxico da Bayer é desmascarado

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Por Hans van Scharen para o “The New Lede”

Grandes empresas de combustíveis fósseis como Shell, Exxon, BP ou Total não são sua fonte confiável para obter conselhos sólidos sobre como impedir urgentemente que o clima mude cada vez mais rápido. Mas para deter a disseminação do câncer e de todos os tipos de doenças degenerativas, ajudar fazendeiros a saírem de seus pesadelos socioeconômicos coletivos, combater a fome ou como evitar um colapso ainda maior da biodiversidade , os formuladores de políticas acham completamente normal se envolver com poderosas empresas agroquímicas como Bayer e BASF. 

No entanto, essas empresas produzem muitos produtos químicos que são ruins para a nossa saúde, para o meio ambiente e, cada vez mais, para a própria democracia, como mostra o novo relatório Bayer’s Toxic Trails , do Corporate Europe Observatory .

Seja sobre glifosato,  organismos geneticamente modificados ou aquecimento global, mostramos como a empresa tenta capturar políticas públicas para perseguir seus interesses privados. 

A Bayer tenta legitimar esse lobby caro sendo mais ou menos transparente sobre ele e chamando-o de “ advocacia política ”. Na verdade, é graças aos seus bolsos fundos e influência econômica que ela é capaz de mudar leis e regulamentos que devem servir ao interesse geral. A Bayer simplesmente quer manter o controle monopolista dos mercados de sementes e  agrotóxicos, e luta contra os desafios regulatórios de seus produtos tóxicos, enquanto tenta limitar sua responsabilidade legal e exerce influência política .

Primeiro, há o elemento do poder de mercado global e a concentração cada vez maior, tornando-os uma parte essencial de um pequeno clube de Food Barons globais . Apenas quatro dessas multinacionais – Bayer, BASF , Corteva e Syngenta – controlam mais de 65% do comércio global de agrotóxicos e pelo menos metade do comércio mundial de sementes. Isso representa um mercado multibilionário de euros, co-controle sobre a produção mundial de alimentos e profunda influência política nas políticas agrícolas e ambientais. 

Só para constar: a bem-sucedida campanha de lobby para derrubar a estratégia do Prado ao Prato, uma parte crucial do Acordo Verde da União Europeia (UE), foi trabalho dessas empresas, suas consultorias e associações comerciais como a Croplife (com uma pequena ajuda de seus amigos políticos , é claro).  

A Bayer e seus aliados também estavam liderando a campanha para prolongar a autorização da  UE para o glifosato por mais 10 anos, apesar de uma série de indicações científicas que mostram que o produto é um desastre para a saúde, a biodiversidade, o solo e a água .

Vários estudos científicos independentes mostram que o glifosato pode ser cancerígeno. Como escreveu a Pesticide Action Network (PAN), “reaprovar o glifosato é uma violação da Lei de Pesticidas da UE que diz que a saúde e o meio ambiente devem vir em primeiro lugar”. Várias ONGs estão levando a Comissão Europeia ao tribunal sobre a decisão do glifosato.  

A Bayer e seus amigos poderosos gostam de falar sobre “inovação” e ” políticas baseadas na ciência “, desde que consigam determinar o que é ciência correta e o que não é.

Em uma carta aberta de abril deste ano, a Bayer chama todas as descobertas independentes de cientistas sobre o glifosato, incluindo aquelas da Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC), de “ciência lixo”. É um lembrete da campanha ativa e cara da Monsanto  para fabricar “indignação”  contra a IARC sobre sua classificação de câncer. 

As táticas de lobby da Bayer incluem  manipular a ciência , financiar campanhas de desinformação , influenciar reguladores, usar a política comercial como uma forma de intimidar terceiros países a mudar suas leis e atrasar e distrair os formuladores de políticas com promessas de investimento. A Bayer, que comprou a Monsanto, sediada nos EUA, em 2018, fez lobby duro (às vezes com sucesso) para mudar ou influenciar leis, regulamentos e políticas, não apenas na UE, mas também na Tailândia , México , África e agora também nos EUA .

A campanha de lobby intensiva que a Bayer encenou nos EUA é ultrajante de uma perspectiva democrática. A Bayer está ativamente fazendo lobby para mudar a lei dos EUA . De acordo com relatos da mídia, ela coescreveu algumas emendas, tanto em nível federal quanto estadual, para evitar mais litígios do RoundUp movidos por pacientes com câncer.

Como os rótulos dos produtos que contêm glifosato não alertaram suficientemente os usuários sobre seus perigos potenciais, a Bayer/Monsanto enfrenta nada menos que 170.000 processos até agora, dos quais 60.000 ainda estão pendentes. A empresa concordou em pagar mais de US$ 11 bilhões em acordos e foi condenada a pagar grandes somas adicionais pelos júris.

Bayer lobbies Congress to help fight lawsuits tying Roundup to cancer - The  Washington Post

Uma nova investigação da mídia global acaba de revelar que “os contribuintes dos EUA financiaram uma campanha secreta para minimizar os riscos dos  agrotóxicos e desacreditar ambientalistas na África, Europa e América do Norte”. O The New Lede e outros veículos revelaram como uma empresa do Missouri fundada por um ex-executivo da Monsanto ajudou a tentar conter os críticos dos pesticidas e outros, incluindo cientistas ambientais ou ativistas da sustentabilidade. 

Todo esse tipo de batalha jurídica e operações de lobby custam muito dinheiro, o que seus acionistas não apreciam. 

Nos últimos dois anos, a Bayer se tornou um dos maiores gastadores de lobby na UE e no mundo.

De acordo com o registro de lobby da UE, a Bayer AG gastou entre € 7 milhões e € 8 milhões em 2023 em lobby para influenciar decisões da União Europeia.

Para o ano de 2022, a empresa autodeclarou ter gasto € 6,5 milhões em lobby na UE, € 2,5 milhões na Alemanha e € 4 milhões em taxas para associações comerciais e de lobby baseadas na UE, como a Croplife Europe. Isso faz com que o orçamento total estimado para lobby na UE seja bem acima de € 10 milhões. 

Para o ano de 2022, a Bayer declarou gastar € 49 milhões em lobby no mundo todo, além de € 26 milhões extras em taxas de associações comerciais, o que totaliza impressionantes € 75 milhões (embora a empresa não indique claramente as taxas como custos de lobby, o que é exigido pelo Registro de Transparência da UE).

A Bayer fabrica produtos que são ruins para nossa saúde e ecossistemas e, ao defender agressivamente seus interesses comerciais, também está prejudicando a democracia. Não deve ser permitido que continue seu negócio destrutivo, na UE ou em outro lugar. É hora de uma política livre de tóxicos.

Hans van Sharen é pesquisador e ativista do Corporate Europe Observatory, especializado em agronegócio e alimentos, pesticidas, OGM e lobby na União Europeia.

As colunas de opinião publicadas no The New Lede representam as opiniões dos indivíduos que as escrevem e não necessariamente as perspectivas dos editores da TNL .)


Fonte: The New Lede

Desmatamento fragmenta Amazônia e isola quase um quarto da floresta

fire degradationDesaparecimento de corredores ecológicos impede a livre circulação de animais em busca de alimento, acasalamento, migração em épocas de seca ou refúgio de incêndios florestais

Por ClimaInfo

Uma área de 193 milhões de hectares da Floresta Amazônica, quase do tamanho do território do México, foi isolada pelo avanço do desmatamento e da mineração na região. São milhões de hectares de cobertura amazônica cercados por terras agrícolas, pastagens, minas e estradas, o que acaba com a conectividade ecológica, impedindo a interação entre habitats.

É o que mostra um estudo da Rede Amazônica de Informações Socioambientais Georreferenciadas (RAISG) e Aliança NorAmazônica (ANA) que será apresentado na COP16, na próxima semana, que foi antecipado pela AFP. O levantamento usa dados de satélite obtidos entre 1987 e 2022 pelo MapBiomas, informam O GloboCarta CapitalIstoÉ e 18horas, e ainda aponta que outros 108 milhões de hectares também correm o risco de ficar isolados.

O desaparecimento dos corredores ecológicos impede a livre circulação dos animais em busca de alimento, acasalamento, migração em épocas de seca ou refúgio de incêndios florestais. Isso ameaça não apenas a sobrevivência dos animais, mas também toda a cadeia ecológica, desde a dispersão de sementes de árvores, parasitas do solo e pólen nas flores, até o equilíbrio das populações determinado por predadores, alerta o relatório.

A falta de conexão não só mudará a Amazônia de ecossistema florestal para campos sujos empobrecidos, mas pode acelerar a chegada do ponto de não retorno da floresta, explicou o biólogo Néstor Espejo, que participou do estudo. A degradação irreversível afetaria diretamente os 47 milhões de habitantes da Bacia Amazônica nos 9 países pan-amazônicos, bem como as populações andinas que são abastecidas com sua água, enfatizou Adriana Rojas, que liderou o trabalho.

Os efeitos negativos não são apenas locais. A fragmentação pressiona a capacidade dos ecossistemas amazônicos de regular os ciclos de vida do oxigênio, da água doce e do clima global. Ou seja, todo o planeta paga a conta da destruição da Floresta Amazônica, por conta de seu importante papel na regulação climática em todo o mundo.

Em tempo

 Lei do retorno: o desequilíbrio climático provocado pelo desmatamento na Amazônia gerou um prejuízo de US$ 1,03 bilhão na produção de soja e milho na região de 2006 a 2019, aponta novo estudo da UFMG. Em média, as perdas anuais foram de US$ 73 milhões, informa a Folha. Os pesquisadores analisaram o impacto da destruição da floresta no clima da Amazônia e descobriram que, desde 1980, há um atraso na chegada da temporada de chuvas e redução no volume anual, além de aumento nas temperaturas. Com isso, a soja é plantada mais tarde, e a safrinha de milho, cultivada na mesma área após a colheita da soja, não tem tempo suficiente para se desenvolver plenamente.

ClimaInfo, 17 de outubro de 2024.


Fonte: ClimaInfo

Contaminação de água potável com metabólito persistente de agrotóxicos causa alarme na Europa

tfa sampling

Por PAN Europa

A água potável está em perigo. Em toda a Europa, o trifluoroacetato (TFA)  é encontrado na superfície e na água potável. Alarmada pelos relatórios prduzidos pela PAN Europa, a região belga da Valônia pediu à Companhia de Distribuição de Água para monitorar a água para este pequeno PFAS (PFAS são conhecidos como “forever chemicals” (químicos eternos) porque são persistentes, ou seja, não se degradam facilmente). Aguardamos ansiosamente os resultados. Uma autoridade local fez o mesmo e seus resultados estão longe de ser tranquilizadores. Três cidades em áreas agrícolas encontraram altos níveis de TFA em sua água potável. Em um relatório recente, a Agência Alemã do Meio Ambiente (UBA) reitera seu alerta sobre o problema do TFA. Enquanto alguns países já monitoram a substância, muitos outros, como a França, ainda não começaram. Nosso membro Générations Futures revelou que 12 metabólitos de agrotóxicos com alto risco de contaminação não são medidos nos testes de água, incluindo o TFA.

Em dois relatórios, a PAN Europe e membros em 11 países europeus alertam sobre a ocorrência generalizada de TFA em águas superficiais, subterrâneas e de torneira. [1, 2, 3]. Este pequeno PFAS é um produto de decomposição de muitos agrotóxicos que contém PFAS e também de alguns gases  usados ​​para refrigeração. Há mais de 20 anos, a Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar, a EFSA e os Estados-Membros da UE declararam-no um “metabólito não relevante”, alimentado por alegações da indústria de que, devido à sua alta solubilidade em água, não se acumulará no corpo humano. 

No entanto, 20 anos após essa suposição, enfrentamos um grande problema. O TFA está em todos os lugares em nossos recursos hídricos. Ele é altamente solúvel e móvel, é muito persistente no ambiente, com evidências crescentes apontando para sua toxicidade. As autoridades alemãs agora o consideram uma provável substância reprotóxica. 

As empresas de água estão alarmadas. Elas fornecem água potável limpa, mas enfrentam um desafio crescente. Até o momento, apenas a osmose reversa pode ser usada para filtrar TFA da água. Este é um sistema exorbitantemente caro para as comunidades e levaria à água completamente desmineralizada.

Enquanto isso, a União Europeia (UE) revisou a diretiva sobre água destinada ao consumo humano. Este regulamento limita o “PFAS Total” a 500 nanogramas por litro a partir de janeiro de 2026. Em nosso relatório, documentamos que 96% da quantidade de PFAS na água é TFA. Em muitas áreas, especialmente em zonas agrícolas, esse limite é excedido apenas para TFA. Somente uma proibição rápida de agrotóxicos PFAS e gases F que emitem TFA pode resolver esse problema em algum momento. Portanto, a PAN Europa e seus membros defendem que a proibição de todos os agrotóxicos PFAS ocorra agora.

Resultados alarmantes de medições recentes na Valônia

Após a atenção da mídia em torno de nossos relatórios, a região belga da Valônia lançou um programa de monitoramento de TFA em toda a região em água destinada ao consumo humano. Os resultados são esperados em breve, mas os resultados já foram apresentados pela cidade de Ciney, na área com agricultura intensiva, especialmente cereais, são alarmantes:

  • 1100 ng/l na cidade de Ciney
  • 1600 ng/l na cidade de Pessoux
  • 2400 ng/l na cidade de Braibant

Após a comunicação destes resultados, a Câmara Municipal decidiu na sua reunião de Setembro passado:

  • Exigir a aplicação da nova norma na Diretiva Europeia de Água Potável, limitando a presença de todos os PFAS [incluindo TFA] a 500 ng/l.
  • Solicitar aos Ministros da Saúde, do Ambiente e da Agricultura que apliquem o princípio da precaução até que seja comprovada a não toxicidade das moléculas de PFAS contidas nestes pesticidas

Nosso membro Nature & Progres está pedindo a proibição das 29 substâncias ativas PFAS autorizadas em produtos pesticidas na Bélgica, como flufenacete, diflufenican e fluazinam, para proteger nossa água e nossa saúde.

Monitorização inadequada da qualidade da água em França

Nossa organização membro Générations Futures analisou os dados oficiais de monitoramento de água na França. Dos 79 metabólitos de agrotóxicos que provavelmente contaminam as águas subterrâneas, eles identificaram, apenas 23 foram monitorados em 2022/2023. Em contraste, 56 metabólitos não são monitorados nas águas subterrâneas ou na água potável. A organização conclui que a poluição da água na França por metabólitos de agrotóxicos é amplamente subestimada. Entre os monitorados estão 12 metabólitos particularmente de alto risco. Oito desses metabólitos vêm de substâncias ativas que são cancerígenas, mutagênicas, reprotóxicas ou desreguladoras endócrinas. Um dos metabólitos ainda não medidos é o TFA. [3]

Relatório alemão sobre águas subterrâneas 2017-2021

A Alemanha é um dos poucos países que monitoram ativamente o TFA. Um relatório de 2017-2021 do Umweltbundesamt alemão (UBA) revelou que, embora a poluição da água por substâncias ativas de pesticidas tenha diminuído, a detecção de produtos de decomposição de pesticidas, incluindo TFA, está se multiplicando.

“A contaminação de águas subterrâneas com agrotóxicos diminuiu. Isso é demonstrado por um estudo nacional recente de mais de 16.000 pontos de medição. O declínio diz respeito principalmente a substâncias que não são mais autorizadas e cuja concentração em águas subterrâneas está agora diminuindo lentamente. Metabólitos, por outro lado, estão aparecendo com muito mais frequência – agora em mais de 70 por cento dos locais de monitoramento.”

O instituto expressa preocupações sobre o TFA, incluído no relatório anual pela primeira vez. “Dados de monitoramento abrangentes para ácido trifluoroacético (TFA) não degradável foram analisados ​​pela primeira vez. O TFA é um metabólito de vários agrotóxicos, mas também pode ter outras causas além da agricultura. A substância é encontrada em águas subterrâneas em 76 por cento dos locais de monitoramento e, portanto, em quase todos os lugares. Essas descobertas representam um grande desafio, pois a substância dificilmente pode ser removida tecnicamente durante o tratamento.” [5]

Conclusão

A contaminação por TFA é um problema enorme e crescente. Como não há meios eficazes para removê-la da água potável, há apenas uma solução viável: uma proibição imediata de todos os pesticidas PFAS e outras substâncias que se decompõem em TFA. A PAN Europe e seus membros pedem a proibição desses produtos químicos para proteger nossa água e nossa saúde.

Notas:

[1] TFA na água: legado sujo de PFAS sob o radar , PAN Europe e membros, maio de 2024

[2] TFA: O produto químico eterno na água que bebemos , PAN Europe e membros, julho de 2024

[3] Campanha PAN Europa: Proibir pesticidas PFAS e TFA

[4] Relatório sobre metabólitos de agrotóxicos, a ponta do iceberg(link externo), Générations Futures, 9 de outubro de 2024

[5]  Pestizide im Grundwasser: Weniger Wirkstoffe, mais Metaboliten(link externo), Umweltbundesamt UBA, outubro de 2024


Fonte: PAN Europa

PT Campos: um compromisso férreo com a derrota

caravana 3

Por Douglas Barreto da Mata

Eu assisti ao programa do Igor José Alves com o professor  Luciano D’ Angelo: triste, lamentável, por onde quer que se olhe.  Não apenas pelos erros analíticos do fracasso eleitoral do PT local, afinal, ele tem o direito legítimo de defender as escolhas que fez. 

A narrativa não é execrável por essa razão.  Mas sim pela hipocrisia.  Ora pelotas, participar do jogo e reclamar depois do placar e do juiz é algo lamentável.  Ouvir o professor Luciano D’ Angelo falar de dinheiro e abuso de poder econômico em Campos dos Goytacazes, enquanto o partido governa Maricá, e um oceano de dinheiro, é de doer os ouvidos.

Fica a questão, quer dizer que no município de Maricá, que é governado pelo PT desde 2008,  a política é feita por frades e freiras?  Por lá, a população votou no PT pelo programa, princípios de esquerda e por uma execução orçamentária acima de qualquer problema? Entendo.

Porém, eu não gostaria de entrar por este campo movediço, até mesmo porque, há alguns anos, quando eu declarava minha crença em aspectos moralistas da política, fui advertido pelo mesmo professor Luciano D’ Angelo que me disse: “A questão da corrupção ou do moralismo não devem ser o principal norte da política”.

Anos depois, com a devassa hipócrita da Lava-Jato, entendi aquele argumento como uma premonição corretíssima.  Eis que, agora, me deparo com o professor Luciano D’ Angelo fazendo o discurso oposto do que fez antes.  Pior, faz um discurso oposto ao que praticou nessa eleição, porque até as placas de mármore da Praça 4 Jornadas sabem que o PT local funcionou como linha auxiliar da oposição, e pelo que se diz, teve bons motivos para tanto.

Alguns chamam essa conduta de hipocrisia. Eu chamo de esquizofrenia moral, para não usar termo mais pesado.  Enfim, parece que a surra que o PT de Campos levou nessa eleição de nada serviu.  A proposta de criar um grupo com o (derrotado, com meros 372 votos) ex-reitor da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) para dar conta de fiscalizar o atual governo é de dar vergonha alheia.

Ótimo.  Mas o problema é um ex-gestor público que sentou em cima de 20 milhões de verbas da Alerj, por anos, dinheiro destinado para restauração do Solar do Colégio (Arquivo Público), e que, por completa ineficiência, quase houve o desabamento daquele patrimônio histórico, ter legitimidade para apontar erros de gestão em uma prefeitura do tamanho da campista, ou de quem quer que seja. O ex-gestor de universidade pública, que não deu conta de 20 milhões de verbas, vai poder tecer críticas sobre um orçamento de 3 bilhões?  Algo parecido com Jefferson Azevedo criticando o IDEB, quando sua gestão rebaixou drasticamente o aproveitamento dos alunos do IFF no Enem/Enad.

Enfim, a caravana seguirá, e os cães permanecerão ladrando.  Lamentável.