Número de queimadas em agosto está muito acima da média em diversas áreas da América do Sul com muita fumaça

Número de queimadas neste mês de agosto está muito acima da média em diversas áreas da América do Sul com muita fumaça

burning amazon

Por Metsul.com

O mês de agosto comumente é de muitas queimadas na América do Sul, mas neste ano o período de fogo chegou mais cedo e o número de incêndios em vegetação está muito acima do normal. Com correntes de vento, a fumaça das queimadas se espalha por muitas áreas do continente.

A animação acima mostra a projeção para a América do Sul de aerossóis com dispersão da fumaça gerada pelas queimadas a partir de dados do modelo europeu CAMS do Sistema Copernicus entre os dias 6 e 10 de agosto.

Como se observa, há uma grande quantidade de fumaça sendo liberada na atmosfera nestes dias por queimadas que ocorrem em grande número no Chaco, Bolívia, Pantanal e principalmente a região da Amazônia.

Uma corrente de jato (vento) em baixos níveis da atmosfera, entre 1000 e 2000 metros de altitude, que avança de Norte para Sul pelo interior do continente, acabou por levar a fumaça vinda de lugares tão distantes quanto o estado do Amazonas para o Rio Grande do Sul.

Foi possível ver da superfície a fumaça ontem na Metade Norte do Rio Grande do Sul, onde o tempo estava mais aberto. No final da tarde, sob a presença do material particulado na atmosfera, o entardecer chamou a atenção pela coloração do sol sob a presença de fumaça.

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Agora, com o avanço de uma frente fria e o ingresso de ar frio e limpo de Sul durante a segunda metade desta semana, a atmosfera passará a ficar livre de fumaça no Sul do Brasil que será deslocada para o Centro-Oeste e o Sudeste do Brasil.

Somente ontem, terça-feira, o monitoramento de satélites do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais identificou 1244 focos de calor na Amazônia. Nos primeiros seis dias do mês, o bioma anotou mais de cinco mil focos de calor. No Pantanal, o número de queimadas já supera a média histórica do mês todo. A Bolívia já tem mais de 4 mil focos de calor nos primeiro seis dias do mês, mais da metade da média histórica mensal.


Fonte: Metsul.com

Entre a lei e o direito, a luta de classes

luta de classes

Por Douglas Barreto da Mata

Um importante texto veiculado pelo Blog do Pedlowski (Aqui!) me pareceu uma oportuna lembrança.  No entanto, leigo que sou, me aventuro a trazer lacunas importantes do debate.  A positivação de um regulamento (lei, norma administrativa, portaria, etc) não garante a pronta efetivação de um direito correspondente na esfera jurídica das pessoas. Simplificando: a lei por si não basta para o gozo de um direito.

A Lei 11.340/2006, como outras tantas, seja a Lei 8.069/90 (ECA), ou a Lei Ambiental, Lei 9.605/98, e etc, etc, apesar de trazerem em suas estruturas previsões legais e dispositivos e mecanismos administrativos para repressão de condutas, prevenção e proteção de bens jurídicos (direitos de crianças e adolescentes, mulheres e ambiente), e enfim, para garantia de implementação de ferramentas jurídicas capazes de acolher pessoas em risco, ou, no caso do ambiente, da prevenção/reparação dos danos, não refletem, na realidade, uma aplicação isonômica desses diplomas normativos.

Novamente simplificando: a lei não é igual para todos, e não no sentido constitucional de tratar de forma desigual os desiguais, mas no caso brasileiro (e talvez de todo mundo capitalista), a aplicação e execução dessas leis se mostra no sentido contrário: Aumenta a desigualdade ao tratar os desiguais de forma igual, ou pior dizendo, de dar tratamento pior aos que mais necessitam de proteção.

Na esfera ambiental, é mais ou menos desse jeito, seja no Brasil, seja no mundo: O que é meu é meu (ricos), o que é de vocês (pobres) é nosso.

Assim, depois de esgotarem todos os recursos ambientais para concentrar montanhas de riquezas, as elites chamam os pobres para arcarem com custos e responsabilidades ambientais.  Já no caso da violência pessoal, seja qual for sua natureza, e a de gênero contra mulheres não é diferente, ela se manifesta nas sociedades de formas distintas, obedecendo sempre um viés hierárquico de classes. Quanto mais pobre, maior a possibilidade de ser vítima.  Quanto mais pobre, pior será o socorro.

Desta forma, apesar de ser um dado estatístico que a violência contra mulher seja um fenômeno transclassista, a reparação, proteção, punição se dá de forma diferente.  Mulheres negras e pobres raramente conseguirão usufruir das raras casas de abrigo, ou poderão contar com auxílio financeiro para reconstruírem suas vidas, abandonando o agressor e a dependência econômica.

Mulheres brancas e ricas contam com advogados caros, e podem movimentar seus processos com muito mais rapidez que as mulheres pretas e pobres, e claro, para se abrigarem nas várias propriedades disponibilizadas pela condição social, além da rede de apoio social de classe (família e amigos). O não funcionamento das medidas de proteção, e da lei em si,  não se vincula apenas à leniência policial ou do judiciário, embora esses aparatos tratem, também, as mulheres por um filtro de classe e cor.

A questão está entranhada na gênese do próprio Estado capitalista.

Ora, se o Estado brasileiro sequer consegue cobrar tributos dos ricos para distribuir aos pobres, como imaginar que vá ter condições de acolher mulheres pobres e pretas vítimas de violência, alocar viaturas e dispositivos confiáveis de monitoramento em medidas protetivas.

Enfim, se o Estado já está alicerçado em bases desiguais, como imaginar que os serviços de proteção policial-judicial sejam isonômicos? Impossível.

Infelizmente, a maioria de nossa sociedade, e nela está inclusa uma parte da academia, não consegue escapar da armadilha ideológica das elites, e tende a atacar os aparatos policiais e jurídicos existentes, sem, no entanto, adentrar o núcleo do problema: a desigualdade.

Fazem coro com o cinismo dessas elites, que sabem o motivo e a razão da seletividade do Estado, que chamam de “ineficiência” para buscar nos servidores (e alguns deles merecem até essa culpa) a justificativa para o não funcionamento institucional, dando contornos “morais” às escolhas estatais.

Triste, porque sem esse questionamento, vai continuar tudo na mesma.

Feminicídio e a maioridade da Lei Maria da Penha

maria da penha

Por Luciane Soares da Silva

Estudos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam para um aumento alarmante dos casos de violência de gênero no Brasil[1]. Podemos destacar a violência física, psicológica, patrimonial, sexual e o aumento do número de feminicídios. A Lei Maria da Penha[2] atinge sua maioridade no próximo dia 7 de agosto e representa um avanço mundial no enfrentamento destas violências. No entanto, o Estado ainda não consegue prover segurança às mulheres e meninas. Entre alguns dos obstáculos enfrentados cotidianamente por vítimas de violência estão as condições de atendimento nas delegacias especializadas: tratamento pouco acolhedor, tentativa de desconstrução dos casos obstruindo a efetivação do registro, dificuldade de acesso a advogados. Por fim, após a decisão de sair de um relacionamento indesejado, a dificuldade de acesso a casas de acolhimento. Os aparelhos públicos são suficientes diante da escalada que assistimos de violência de gênero? Não são. Nem as viaturas, tampouco efetivo para realização deste trabalho. Toda a precariedade vivida pela população em sua busca por acesso a direitos é intensificada em situações que precisam de ações planejadas e antecipação de proteção deste grupo. Além disto, podemos afirmar que variáveis como classe e raça impactam o quantitativo de casos registrados pelo Estado[3].

Romper com uma relação violenta sem a garantia/efetivação de proteção tem levado muitas mulheres à morte, mesmo com medidas restritivas em vigor. Como alterar a ainda vigente percepção de que em briga de marido e mulher, ninguém deve meter a colher? Aqui devemos observar que a luta de Maria da Penha explicita a gravidade de relações privadas que naturalizam agressões, perseguições, ameaças. Vítima de uma dupla tentativa de feminicídio, ela teve de recorrer a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (CIDH/OEA). A omissão do Estado Brasileiro só foi “interrompida” após quatro notificações da CIDH/OEA.  A morosidade no reconhecimento destas formas de violência possibilita compreender porque o Brasil bate recordes de feminicídio.

Se olharmos a cidade de Campos dos Goytacazes e a relação da população com a Justiça, podemos perguntar quantas mulheres em nosso círculo de relações conhecem as medidas protetivas de urgência e entre as que conhecem, quantas conseguem acessar os meios para sua implementação. A questão são as condições mais amplas de acesso a cidadania traduzidas aqui pelo acesso à justiça para aquelas que não podem pagar.

As interpretações de atos violentos cometidos contra mulheres enquanto atos de loucura, passionalidade, perda da capacidade de raciocínio, doença ou qualquer tipo de explicação que tenha base em qualquer ideia de “anormalidade” segue prejudicando uma compreensão mais precisa do fenômeno. No passado recente a tese de um homem que “matou em defesa da honra” era socialmente aceita em países como o Brasil. O assassinato de Ângela Diniz[4] em 1976 representa este período. Doca Street, defendido por Evandro Lins e Silva, teve em seu primeiro julgamento a tese de “legítima defesa da honra” como base de argumentação para sua liberdade. Foi preciso que o país mudasse para que em um segundo julgamento, com pressão dos movimentos sociais e particularmente movimentos feministas, Doca fosse condenado a 15 anos de prisão.

A Universidade deve ser uma aliada do Estado nas pesquisas sobre violência doméstica. Sabemos que o tema é delicado e que pesquisas com vítimas são fundamentais para compreensão de padrões, perfis, relações de parentesco e no caso de meninas e adolescentes, pesquisas sobre estupro de vulneráveis e outras formas de violação que exigem a atuação de uma equipe multidisciplinar. Campanhas de conscientização deveriam ter espaço em condomínios, prédios, vizinhanças, locais de trabalho e estudo, espaços públicos de transporte. Isto porque parte das mulheres não compreende estar em uma relação violenta até  acessar conteúdos de identificação. “Este caso é igual ao meu” costuma ser uma frase ouvida quando decidem fazer uma denúncia.  Frequentemente subestimam o risco a que estão expostas porque aprenderam que comportamentos violentos são características masculinas naturais. Este é um processo educacional geracional aprendido dentro da família. 

É urgente localizar na sociedade e não em fatores biológicos, passionais ou de qualquer ordem psicológica, o problema. As formas de violência são formas sociais que devem ser socialmente combatidas. São relações de poder construídas historicamente. Por mais estranho que possa parecer, o fortalecimento de políticas públicas, da justiça e da garantia de direitos para as mulheres seria capaz de alterar indicadores inaceitáveis de violência. O desafio reside em reconhecer que relações violentas privadas não devem ser naturalizadas.

Agência de Proteção Ambiental dos EUA emite rara suspensão emergencial de herbicida perigoso

dcpa

Por Benjamin Purper para o “The New Lede”

A Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) disse na terça-feira que estava tomando a rara medida de emitir uma suspensão emergencial  de um produto químico usado para matar ervas daninhas em fazendas, campos de golfe e campos de atletismo, citando riscos para crianças ainda não nascidas.

O pesticida dimetil tetraclorotereftalato, conhecido como DCPA ou Dacthal, tem sido objeto de escrutínio regulatório nos últimos anos em meio a evidências crescentes de danos à saúde decorrentes da exposição.

“O DCPA é tão perigoso que precisa ser removido do mercado imediatamente”, disse Michal Freedhoff, administrador assistente do Escritório de Segurança Química e Prevenção da Poluição da EPA, em um comunicado à imprensa . “É trabalho da EPA proteger as pessoas da exposição a produtos químicos perigosos. Neste caso, mulheres grávidas que talvez nem saibam que foram expostas podem dar à luz bebês que apresentam problemas de saúde irreversíveis ao longo da vida.”

Freedhoff disse que a suspensão marca a primeira vez em quase 40 anos que a agência usou sua autoridade de suspensão emergencial para bloquear o uso contínuo de um  agrotóxico.

O DPCA é usado principalmente em culturas como brócolis, couve de Bruxelas e repolho, mas também é usado em alguns ambientes não agrícolas, como campos de golfe e campos de atletismo.

A decisão de hoje vem após  anos de pesquisa e ações menores  da EPA para limitar o impacto do DCPA na saúde pública.  Em abril, a agência emitiu um raro aviso  de que o agrotóxico representava “riscos sérios, permanentes e irreversíveis à saúde”, especialmente para trabalhadores rurais envolvidos em tarefas como transplante, capina e colheita após o  produto ter sido aplicado.

A EPA disse que o DCPA representa o maior risco para o desenvolvimento de bebês de mães grávidas expostas ao agrotóxico, levando a condições como baixo peso ao nascer, comprometimento do desenvolvimento cerebral, diminuição do QI e comprometimento das habilidades motoras mais tarde na vida.

A AMVAC Chemical Corporation, a única fabricante de DCPA,  propôs várias mitigações  em resposta às investigações da EPA. Elas incluíam o aumento de zonas de proteção, a exigência de equipamento de proteção individual máximo para manipuladores e a redução das taxas máximas de aplicação.

Mas em sua ordem de emergência, a EPA disse que as mudanças propostas eram inadequadas para abordar os “sérios riscos à saúde das pessoas” que poderiam ser expostas ao produto químico.

Não há “medidas práticas de mitigação que possam ser colocadas em prática para permitir o uso contínuo do DCPA”, disse a EPA.

Mily Treviño Sauceda, diretora executiva do grupo de defesa dos trabalhadores rurais Alianza Nacional de Campesinas, disse em uma declaração que as mulheres trabalhadoras rurais “conhecem intimamente” os danos que agrotóxicos como o DCPA causam em “nossos corpos e comunidades”.

Ela aplaudiu a ação da EPA como um “grande primeiro passo” para melhorar a saúde dos trabalhadores rurais.

Uma  análise do Environmental Working Group descobriu que até 9 toneladas de DCPA foram pulverizadas em alguns anos no estado da Califórnia, o maior produtor agrícola do país.

(Foto em destaque de Tim Mossholder no  Unsplash .)


Fonte: The New Lede

Quando as citações científicas se tornam desonestas: descobrindo ‘referências furtivas’

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Ler e escrever artigos publicados em periódicos acadêmicos e apresentados em conferências é uma parte central de ser um pesquisador. Quando pesquisadores escrevem um artigo acadêmico, eles devem citar o trabalho de colegas para fornecer contexto, detalhar fontes de inspiração e explicar diferenças em abordagens e resultados. Uma citação positiva por outros pesquisadores é uma medida essencial de visibilidade para o próprio trabalho de um pesquisador.

Mas o que acontece quando esse sistema de citação é manipulado? Um artigo recente do Journal of the Association for Information Science and Technology por nossa equipe de detetives acadêmicos – que inclui cientistas da informação, um cientista da computação e um matemático – revelou um método insidioso para inflar artificialmente as contagens de citações por meio de manipulações de metadados: referências furtivas.

Manipulação oculta

As pessoas estão se tornando mais conscientes das publicações científicas e de como elas funcionam, incluindo suas falhas potenciais. Só no ano passado, mais de 10.000 artigos científicos foram retratados . Os problemas em torno do jogo de citações e os danos que ele causa à comunidade científica, incluindo danos à sua credibilidade, estão bem documentados.

Citações de trabalhos científicos obedecem a um sistema de referência padronizado: Cada referência menciona explicitamente pelo menos o título, nomes dos autores, ano de publicação, nome do periódico ou conferência e números de página da publicação citada. Esses detalhes são armazenados como metadados, não visíveis diretamente no texto do artigo, mas atribuídos a um identificador de objeto digital, ou DOI – um identificador exclusivo para cada publicação científica.

As referências em uma publicação científica permitem que os autores justifiquem escolhas metodológicas ou apresentem os resultados de estudos anteriores, destacando a natureza iterativa e colaborativa da ciência.

No entanto, descobrimos por meio de um encontro casual que alguns atores inescrupulosos adicionaram referências extras, invisíveis no texto, mas presentes nos metadados dos artigos, quando os submeteram a bancos de dados científicos. O resultado? As contagens de citações para certos pesquisadores ou periódicos dispararam, embora essas referências não tenham sido citadas pelos autores em seus artigos.

Descoberta casual

A investigação começou quando Guillaume Cabanac, professor da Universidade de Toulouse, escreveu um post no PubPeer , um site dedicado à revisão por pares pós-publicação, no qual cientistas discutem e analisam publicações. No post, ele detalhou como havia notado uma inconsistência: um artigo de periódico Hindawi que ele suspeitava ser fraudulento porque continha frases estranhas tinha muito mais citações do que downloads, o que é muito incomum.

A postagem chamou a atenção de vários detetives que agora são os autores do artigo JASIST . Usamos um mecanismo de busca científica para procurar artigos citando o artigo inicial. O Google Scholar não encontrou nenhum, mas o Crossref e o Dimensions encontraram referências. A diferença? O Google Scholar provavelmente dependerá principalmente do texto principal do artigo para extrair as referências que aparecem na seção de bibliografia, enquanto o Crossref e o Dimensions usam metadados fornecidos pelos editores.

Um novo tipo de fraude

Para entender a extensão da manipulação, examinamos três periódicos científicos publicados pela Technoscience Academy, a editora responsável pelos artigos que continham citações questionáveis.

Nossa investigação consistiu em três etapas:

  1. Listamos as referências explicitamente presentes nas versões HTML ou PDF de um artigo.
  2. Comparamos essas listas com os metadados registrados pelo Crossref, descobrindo referências extras adicionadas nos metadados, mas que não apareciam nos artigos.
  3. Verificamos o Dimensions, uma plataforma bibliométrica que usa o Crossref como fonte de metadados, e encontramos mais inconsistências.

Nos periódicos publicados pela Technoscience Academy, pelo menos 9% das referências registradas eram “referências furtivas”. Essas referências adicionais estavam apenas nos metadados, distorcendo as contagens de citações e dando a certos autores uma vantagem injusta. Algumas referências legítimas também foram perdidas, o que significa que não estavam presentes nos metadados.

Além disso, ao analisar as referências furtivas, descobrimos que elas beneficiaram muito alguns pesquisadores. Por exemplo, um único pesquisador que estava associado à Technoscience Academy se beneficiou de mais de 3.000 citações ilegítimas adicionais. Alguns periódicos da mesma editora se beneficiaram de algumas centenas de citações furtivas adicionais.

Queríamos que nossos resultados fossem validados externamente, então publicamos nosso estudo como uma pré-impressão , informamos a Crossref e a Dimensions sobre nossas descobertas e demos a elas um link para a investigação pré-impressa. A Dimensions reconheceu as citações ilegítimas e confirmou que seu banco de dados reflete os dados da Crossref. A Crossref também confirmou as referências extras no Retraction Watch e destacou que esta foi a primeira vez que foi notificada de tal problema em seu banco de dados. A editora, com base na investigação da Crossref, tomou medidas para corrigir o problema.

Implicações e soluções potenciais

Por que essa descoberta é importante? A contagem de citações influencia fortemente o financiamento de pesquisas, promoções acadêmicas e classificações institucionais. Manipular citações pode levar a decisões injustas com base em dados falsos. Mais preocupante, essa descoberta levanta questões sobre a integridade dos sistemas de medição de impacto científico, uma preocupação que tem sido destacada por pesquisadores há anos. Esses sistemas podem ser manipulados para promover uma competição doentia entre pesquisadores, tentando-os a tomar atalhos para publicar mais rápido ou obter mais citações.

Para combater esta prática sugerimos várias medidas:

  • Verificação rigorosa de metadados por editores e agências como a Crossref.
  • Auditorias independentes para garantir a confiabilidade dos dados.
  • Maior transparência no gerenciamento de referências e citações.

Este estudo é o primeiro, até onde sabemos, a relatar uma manipulação de metadados. Ele também discute o impacto que isso pode ter na avaliação de pesquisadores. O estudo destaca, mais uma vez, que a dependência excessiva de métricas para avaliar pesquisadores, seu trabalho e seu impacto pode ser inerentemente falha e errada.

Tal excesso de confiança provavelmente promoverá práticas de pesquisa questionáveis, incluindo hipóteses após os resultados serem conhecidos, ou HARKing ; divisão de um único conjunto de dados em vários artigos, conhecido como fatiamento de salame; manipulação de dados; e plágio. Também dificulta a transparência que é a chave para uma pesquisa mais robusta e eficiente . Embora os metadados de citação problemáticos e as referências furtivas tenham sido aparentemente corrigidos, as correções podem ter acontecido tarde demais , como geralmente é o caso com correções científicas .

Este artigo foi publicado em colaboração com o Binaire , um blog para entender questões digitais.

Este artigo foi publicado originalmente em francês .


Fonte: The Conversation

Planos de combate às mudanças climáticas em regiões costeiras ignoram desigualdades sociais, aponta livro

costeirasSão Sebastião (SP) é um dos municípios cuja população mais pobre está suscetível a aumento do nível do mar, inundações e deslizamentos de terra

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No litoral brasileiro, a população mais pobre, que vive em áreas suscetíveis ao aumento do nível do mar, a inundações e a deslizamentos de terra, sentirá de forma mais intensa os impactos das mudanças climáticas. Por isso, as ações de adaptação e mitigação devem ter foco nessas comunidades – o que não acontece atualmente. É o que aponta o livro “Justiça Climática em Regiões Costeiras no Brasil”, organizado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), lançado na segunda (5).

A obra identifica, por exemplo, a vulnerabilidade da comunidade Brasília Teimosa, de Recife (PE), frente a uma maior recorrência de eventos climáticos extremos na cidade. Tradicionalmente ocupado por construções populares como palafitas, o bairro é apontado por políticas públicas municipais de adaptação às mudanças do clima como uma área que pode sofrer com erosões costeiras e inundações. Porém, os planos oficiais ainda carecem de metas eficazes para proteger a população local e garantir justiça climática – ou seja, o direito de habitarem o território com segurança conservando suas tradições e cultura.

O livro começou a ser produzido em agosto de 2023, motivado por uma lacuna de informações sobre o tema no Brasil. Os organizadores acompanharam os desdobramentos de casos de  racismo ambiental evidentes após episódios de chuvas intensas, como as que atingiram o litoral de São Paulo no início de 2023. A obra foi concluída durante a ocorrência de outro evento climático extremo: as fortes chuvas que atingiram o Rio Grande do Sul em maio de 2024. Além de relatos de experiências de injustiças climáticas na costa brasileira, o livro analisa a presença do assunto em documentos e planos para lidar com as consequências do aquecimento global em nível local.

O pesquisador da USP Pedro Henrique Campello Torres, um dos organizadores da obra, explica que os capítulos dão visibilidade aos casos de injustiça climática na zona costeira considerando os registros e denúncias da população e a proposição de alternativas. “O livro possibilita o fortalecimento de uma agenda que articule teoria e prática e que una atores acadêmicos e não-acadêmicos, como gestores públicos, povos e comunidades tradicionais e movimentos sociais”, afirma o especialista, que também ressalta a importância da publicação como aliada no planejamento de medidas de mitigação.

A publicação é organizada em sete capítulos escritos por 21 autores, com foco na demonstração de que os efeitos das mudanças climáticas são sentidos de formas diferentes e desencadeiam reações distintas para cada parcela da população. “O capítulo sobre a Vila do Sahy, em São Sebastião, São Paulo, exemplifica isso: passados seis meses da tragédia-crime que aconteceu na região, os territórios periféricos atingidos estavam ainda com escombros e marcas do evento climático, enquanto, na parte mais nobre, à beira mar, a realidade era oposta”, relata Torres.

Segundo o organizador, a produção do livro evidenciou a necessidade de ações institucionais que andem juntas com as demandas da sociedade. Conforme Torres, é preciso garantir uma maior participação da população na construção da agenda climática, “aproximando essas inovações da vida cotidiana e, principalmente, dos saberes locais e dos territórios”. Para o pesquisador, a população deve ser incluída nas diversas esferas da formulação e aplicação de iniciativas pró-justiça climática, desde o planejamento até a fiscalização. “Não existem políticas públicas para promoção dela sem a participação popular como centralidade”, conclui.


Fonte: Agência Bori

Venezuela e a volta dos intelectuais consentidos

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Um dos aspectos que de tempos em tempos noto neste blog é a existência de um tipo de personagens que possuem treinamento acadêmico e são tolerados pela mídia corporativa nacional e local por expressarem o mesmo tipo de conservadorismo emperdenido que caracteriza também os donos dos veículos que lhes dão voz. São o que eu caracterizo de “intelectuais consentidos’.

Alguns dos personagens aceitos nacionalmente incluem o ex-esquerdista Demétrio Magnoli e o filósofo Luiz Felipe Pondé, mas também existem aqueles que circulam na mídia local, até porque seus currículos acadêmicos magérrimos só os habilita para o consumo digno das províncias.

O último episódio que está assanhando os intelectuais consentidos são os resultados das eleições presidenciais na Venezuela. Esses intelectuais consentidos estão não apenas reproduzindo a retórica vinda dos centros de poder ocidental, mas se omitindo em fazer qualquer análise sobre as condições em que esse processo se deu, visto que a Venezuela se encontra sob pressão das sanções econômicas ditadas pelos EUA e seguidas por um grande número de países europeus.

Particularmente não nutro simpatia por Nicolas Maduro, mas não há como ignorar qual é o tipo de oposição com que ele se debate. Se olharmos o passado imediato da situação venezuelana, veremos que o mesmo tipo de cantilena sendo para tentar emplacar  Edmundo González como presidente já foi usada para fazer o mesmo com o agora irrelevante Juan Guaidó.

O interessante é que quando os intelectuais consentidos falam sobre a Venezuela temos sempre chamados em prol de um tipo democracia que é hoje apenas uma miragem.  Esse clamor democrático não se vê, por exemplo, em relação ao presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy que adiou eleições e se manteve no poder sem que se veja a mesma rotulação de ditador que se aplica a Maduro.  A grande diferença aparente é que Zelenskyy, que baniu a maioria dos partidos que lhe faziam oposição, é chancelado pelos mesmos países que querem impor González  na Venezuela.

Por essas e outras é que temos que sempre desconfiar do fervor democrático seletivo dos intelectuais consentidos. É que esse fervor seletivo serve apenas para esconder uma adesão às ideias que percolam dos centros decisórios que manipulam a democracia sempre que necessário para impor interesses estratégicos das grandes empresas monopolistas.

Uma pergunta muito simples pode ajudar a compreender certas análises consentidas: qual é o programa de governo que Edmundo González propõe para a Venezuela? E sobre as famigeradas guarimbas, alguma coisa a dizer? Nesse caso, só se ouve o mais profundo silêncio.

Casos da febre do oropouche aumentaram quase 200 vezes neste ano comparados à última década

Dados preliminares publicados por pesquisadores brasileiros mostram que o patógeno passou por alterações que o tornaram mais agressivo, contribuindo para o ressurgimento da doença no Brasil entre 2023 e 2024

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Em território nacional, foram detectadas infecções autóctones em áreas anteriormente não endêmicas nas cinco regiões, com casos relatados em 21 unidades federativas e aumento de quase 200 vezes na incidência (imagem produzida pela Agência FAPESP com base em gráficos do artigo)

Julia Moióli | Agência FAPESP 

A epidemia atual de oropouche é causada por uma nova variante do arbovírus OROV capaz de se replicar até cem vezes mais do que a original e de evadir parte da resposta imune. As conclusões são de um estudo divulgado em versão pre-print (artigo sem revisão por pares) no repositório medRxiv.

A febre do oropouche faz parte do rol de doenças negligenciadas, como a malária e outras arboviroses (dengue, por exemplo). É transmitida por moscas hematófogas da espécie Culicoides paraensis e causa dor de cabeça, artralgia, mialgia, náusea, vômito, calafrios e fotofobia – mas também pode levar a complicações mais graves, como hemorragia, meningite e meningoencefalite.

Apesar de documentada na América do Sul desde a década de 1950, a doença apresentou um aumento substancial de casos entre novembro de 2023 e junho de 2024 no Brasil, Bolívia, Colômbia e Peru. Em território nacional, foram detectadas infecções autóctones em áreas anteriormente não endêmicas nas cinco regiões, com casos relatados em 21 unidades federativas e aumento de quase 200 vezes na incidência em comparação com a última década.

Para investigar os fatores virológicos por trás desse ressurgimento, pesquisadores das universidades Estadual de Campinas (Unicamp), de São Paulo (USP), do Kentucky, do Texas (Estados Unidos) e da Federal de Manaus (Ufam), além do Imperial College London (Reino Unido) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), combinaram dados genômicos, moleculares e sorológicos de OROV do período entre 1º de janeiro de 2015 e 29 de junho de 2024, além de caracterização in vitro e in vivo, em um estudo financiado pela FAPESP (projetos 18/14389-022/00723-122/10408-6 e 23/11521-3).

O primeiro passo foi testar por PCR um grupo de 93 pacientes do Amazonas com doença febril não identificada e negativos para Malária, entre dezembro de 2023 e maio de 2024. O resultado foi positivo para OROV em 10,8% dos casos e, posteriormente, foi isolado o soro de sete pacientes em culturas de células.

Em seguida, esses isolados foram usados para avaliar a capacidade replicativa em diferentes células – de primatas e humanos – sempre em comparação com um isolado antigo de OROV. Por fim, foi avaliada a capacidde de ambos os vírus serem neutralizados por anticorpos presentes no soro de camundongos previamente infectados com o OROV e de humanos convalescentes para linhagens anteriores, infectados até 2016. Para isso, foi feito um teste de neutralização por redução de placas (PRNT50), que mede a redução do número de partículas virais viáveis formadas após a incubação com diferentes diluições do soro dos pacientes ou de camundongos.

“Percebemos que o novo OROV apresenta replicação aproximadamente cem vezes maior em comparação com o protótipo”, explica Gabriel C. Scachetti, pesquisador do Laboratório de Estudos de Vírus Emergentes (Leve) da Unicamp e um dos autores do estudo. “Além disso, produziu 1,7 vez mais placas, de tamanhos 2,5 vezes maiores, um indício de maior virulência.”

“Também infectamos camundongos com as duas cepas e vimos que o vírus antigo não protege contra o novo – a redução na capacidade de neutralização foi de pelo menos 32 vezes”, completa Julia Forato, também autora e pesquisadora do Leve.

Saúde pública

“Além de traçar um panorama da epidemia de oropouche, o trabalho apresenta possíveis explicações para o aumento no número de casos, servindo de base para ações de controle epidemiológico”, afirma José Luiz Proença Módena, professor do Instituto de Biologia da Unicamp (IB-Unicamp), líder do Leve e um dos coordenadores do estudo. “Se o novo vírus escapa da proteção em áreas com alta soroprevalência, há maior probabilidade de infecções e transmissão, inclusive com disseminação para outras regiões do Brasil, portanto precisamos confirmar e monitorar casos positivos e lançar mão de ferramentas para diminuir o risco de transmissão.”

“Essa epidemia está longe de acabar e tem potencial de causar estragos em áreas onde não havia qualquer circulação do vírus”, alerta o pesquisador.

As professoras Ester Sabino e Camila Romano, ambas da Faculdade de Medicina da USP, participaram do estudo. William Marciel de Souza(Universidade de Kentucky) e Pritesh Jaychand Lalwani (Ufam e Fiocruz Manaus) também são coautores.

O artigo Reemergence of Oropouche virus between 2023 and 2024 in Brazil pode ser lido em: www.medrxiv.org/content/10.1101/2024.07.27.24310296v1.


Fonte: Agência Fapesp

Plantações de eucalipto reduzem a riqueza de insetos aquáticos de nascentes de rios, mostra estudo

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Monocultura de eucalipto reduz biodiversidade em até 30% em nascentes

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Prática comum no território brasileiro, a substituição de vegetação nativa por monoculturas como o eucalipto provoca mudanças na estrutura do solo, que podem afetar o ambiente e a fauna de nascentes de rios próximas. Um estudo da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) mostra que plantações de eucalipto reduziram em quase 30% o número de espécies de organismos aquáticos, entre eles insetos, encontrados em nascentes da Mata Atlântica. Os resultados da análise, publicados na sexta (2) na revista “Acta Limnologica Brasiliensia”, reforçam a qualidade ambiental de nascentes em áreas de mata preservada.

Os pesquisadores analisaram dez nascentes da bacia do rio Paraíba do Sul, em Minas Gerais, durante a estação seca de 2017 — metade em áreas com plantações de eucaliptos e a outra, com vegetação nativa. Eles coletaram amostras da água e sedimento em pontos diferentes das nascentes e analisaram a presença de macroinvertebrados aquáticos, incluindo insetos e vermes.

A pesquisa encontrou 8.474 macroinvertebrados aquáticos em áreas de florestas nativas e 5.261 em áreas de plantações de eucalipto, de 58 grupos. Embora a abundância total de macroinvertebrados não tenha diferido significativamente entre os dois tipos de vegetação, a riqueza de espécies foi significativamente menor nas áreas com plantações de eucalipto. Organismos aquáticos de seis grupos, como os trichoptera (friganídeos), psychodidae (família das moscas-de-banheiro) e tipulidae (pernilongos-gigantes), foram encontrados exclusivamente em nascentes de florestas nativas.

A presença desses grupos, especialmente sensíveis a alterações ambientais, indica que as nascentes com vegetação nativa possuem condições ecológicas mais favoráveis. Além dos macroinvertebrados, outros indicadores como cobertura vegetal, presença de matéria orgânica, pH, oxigênio dissolvido e condutividade elétrica foram analisados para avaliar a qualidade da água.

As florestas plantadas ocupam 9,5 milhões de hectares do país, sendo que 77,3% dessa área é de eucalipto, segundo dados de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O Brasil é o principal exportador de celulose, e Minas Gerais se destaca como o estado com maior área de plantação de eucalipto, de 29%. Em 2022, a produção florestal foi responsável por 1,3% do PIB do país, segundo o Ministério de Agricultura e Pecuária. Embora reconheça a importância do setor, a pesquisadora Sheila Peixoto, da UFJF, autora do estudo, aponta que os impactos negativos do eucalipto são bem conhecidos pela ciência. “Além dos impactos terrestres, com esse trabalho, percebemos que esse tipo de plantação afeta também as nascentes”, analisa.

Para Peixoto, a pesquisa pode incentivar as tomadas de decisão sobre a autorização, regulamentação e licenciamento de plantações de eucalipto, principalmente em áreas com nascentes. Além disso, os dados podem ser usados em futuros estudos sobre bioindicadores ambientais, que medem a qualidade da água desses ambientes.

Agora, os cientistas da UFJF pretendem focar em grupos biológicos mais sensíveis aos impactos ambientais, por meio de uma abordagem voltada para o biomonitoramento da qualidade das águas. “Vamos aumentar a coleta de dados para conseguirmos comparar a biodiversidade em nascentes com diferentes condições ecológicas”, antecipa a pesquisadora.


Fonte:  Agência Bori

Fundação Heinrich Böll lança edição atualizada do “Atlas dos Agrotóxicos”

Atlas dos Agrotóxicos: Fatos e dados do uso dessas substâncias na agricultura

atlas 2024

Por Fundação Heinrich Böll 

Nas frutas, nos vegetais, no leite materno, no ar e até mesmo nos solos de territórios protegidos – vestígios de agrotóxicos usados na agricultura podem ser encontrados em toda parte. Os agrotóxicos deterioram a saúde humana, a biodiversidade, a água e o solo, mas isso não é, de jeito algum, novidade. Em 1962, por exemplo, tivemos a publicação do livro mundialmente aclamado Primavera Silenciosa, da bióloga Rachel Carson, que descreveu os efeitos nocivos do uso desses produtos. O trabalho foi inovador para o movimento ambiental e levou à proibição de agrotóxicos altamente tóxicos, como o DDT (diclorodifeniltricloroetano).

Porém, sessenta anos após o lançamento do livro de Carson, os agrotóxicos estão sendo usados no mundo inteiro em quantidades cada vez maiores, mesmo com regulamentações de aprovação mais rígidas – e acordos voluntários e obrigatórios sobre o manuseio desses produtos. O cultivo de plantas geneticamente modificadas como a soja, criadas pelas mesmas corporações que estão produzindo agrotóxicos, tem contribuído para o aumento do uso de herbicidas, principalmente em países ricos em biodiversidade. O mercado global de agrotóxicos é altamente lucrativo. Algumas empresas agroquímicas influentes estão expandindo seu controle sobre o mercado e prosperando com lucros cada vez maiores. Na vanguarda: empresas europeias como Bayer e BASF. A União Europeia (UE) é o maior mercado de exportação de agrotóxicos do mundo, e vem investindo cada vez mais em países do Sul Global. As empresas da região exportam agrotóxicos que são proibidos em seus próprios territórios, devido aos seus efeitos nocivos na saúde humana e no meio ambiente.

O Brasil é um dos países mais importantes para esse mercado, ocupando o pódio dos maiores consumidores e importadores de agrotóxicos. O país permite limites de resíduos em água e alimentos muito superiores aos da UE. Isto possibilita o registro cada vez maior de novos agrotóxicos, com recordes sendo batidos a cada ano, além do crescimento da importância das commodities na economia brasileira, a partir da ampliação da área plantada e da produção de culturas mais dependentes desses produtos. Este processo gera uma série de problemas nacionais relativos ao uso de agrotóxicos, que por sua vez são sui generis, como o crescimento dos registros de conflitos no campo envolvendo a contaminação de comunidades da agricultura familiar ou de povos tradicionais.

Em contrapartida ao consumo cada vez maior desses produtos, multiplicam-se também os movimentos sociais e organizações da sociedade civil que pesquisam e denunciam os impactos dos agrotóxicos, para combater o seu avanço e apresentar alternativas a este modelo, como a agroecologia. Pesquisas recentes indicam um aumento no consumo de alimentos orgânicos entre brasileiros durante os últimos anos, o que mostra que as pessoas estão cada vez mais conscientes em relação à importância do acesso aos alimentos cultivados sem o uso de agrotóxicos. O debate sobre os riscos do consumo de agrotóxicos não cresce apenas em solo brasileiro. O tema tem visibilidade mundial, a partir do avanço de graves A União Europeia é o maior mercado de exportação de agrotóxicos do mundo, e vem investindo cada vez mais em países do Sul Global.”

“Diante do papel central do Brasil no debate sobre os impactos dos agrotóxicos, o escritório da Fundação Heinrich Böll considerou fundamental produzir uma edição brasileira do Atlas dos Agrotóxicos. impactos. A morte massiva de abelhas causada por agrotóxicos à base de fipronil em diferentes partes do planeta e a contaminação de escolas por produtos aplicados via pulverização aérea são dois exemplos que ilustram os riscos do uso dessas substâncias. Assim, diante do papel central do Brasil no debate sobre os impactos dos agrotóxicos, o escritório da Fundação Heinrich Böll considerou fundamental produzir uma edição brasileira do Atlas dos Agrotóxicos, publicado originalmente na Alemanha, em 2022. Este material faz um raio-x sobre a questão dos agrotóxicos no Brasil a partir de um conjunto de artigos traduzidos e outros originais, escritos por autores que são referência na pesquisa do tema no Brasil. Todos os textos apresentam dados e fatos sobre o uso e o impacto dos agrotóxicos na agricultura e na saúde humana.

Desde seu lançamento, o Atlas dos Agrotóxicos já foi adaptado e lançado pelos escritórios das Fundação Heinrich Böll em mais de oito países e cinco línguas. Este movimento contribui com as ações para a costura de acordos internacionais que buscam enfrentar o avanço do uso de agrotóxicos. Na União Europeia, a Estratégia Farm to Fork (do campo ao garfo) foi elaborada para pedir que os Estados-Membros reduzam o uso de agrotóxicos e os riscos associados em 50% até 2030. Em paralelo, organizações internacionais como o Programa Mundial de Alimentos (WFP) e a Organização para Agricultura e Alimentação (FAO) enfatizam a necessidade da transição para sistemas alimentares mais sustentáveis.

As mudanças climáticas têm se tornado um tema central em qualquer debate sobre políticas e direitos humanos, e a redução de insumos de agrotóxicos na agricultura é um ponto chave dessa discussão. A Fundação Heinrich Böll já publicou uma série de materiais voltados para os impactos sociais e ambientais dos sistemas alimentares, entre elas o Atlas do Agronegócio, o Atlas da Carne e o Atlas dos Insetos. É crucial que alternativas mais sustentáveis sejam ampliadas, trabalhando com a natureza – e não contra ela. Temos que definir o curso agora. A agroecologia e o manejo integrado de pragas (MIP), além da produção de mais pesquisas com biopesticidas, podem ajudar nesse processo.

Para a Fundação Heinrich Böll e muitos parceiros, comer é um ato político. Porque debater as origens dos alimentos e como eles são produzidos é condição fundamental para que todes tenham garantido o direito ao acesso a alimentos saudáveis e de qualidade. Acreditamos que este atlas fornece material que contribui para um debate dinâmico e para uma transformação em nossa forma de produzir e consumir.

Annette von Schönfeld

Diretora do escritório da Fundação Heinrich Böll no Brasil

Marcelo Montenegro

Coordenador de programas e projetos de Justiça Socioambiental

Julia Dolce

Co-Editora do Atlas dos Agrotóxicos


Fonte: Fundação Heinrich Böll