Monocultura devastadora: as consequências ecológicas do boom da soja na América Latina

197887Soja a perder de vista (colheita em plantação no Rio Grande do Sul, abril de 2024).

Por Norbert Suchanek para o “JungeWelt”

Dificilmente qualquer outra cultura mudou tanto o sul da América Latina nos últimos 40 anos como a soja. O seu cultivo em grande escala para exportação transformou paisagens ricas em espécies em estepes agrícolas desertas, salpicadas de silos de armazenamento de aço que se elevavam ao céu, as novas catedrais do norte do Brasil ao norte da Argentina.

Na década de 1950, os campos de soja ainda eram uma raridade na América do Sul. Hoje eles se espalham por 1,2 milhão de hectares no Uruguai e 1,6 milhão de hectares na Bolívia. No Paraguai são 3,6 milhões de hectares, na Argentina 15,5 milhões e no Brasil gigantescos 46 milhões de hectares. Nem mesmo a Amazônia foi poupada do boom da soja. O feijão asiático cobre hoje uma área de mais de quatro milhões de hectares na Amazônia brasileira e boliviana.

Desmatamento e agrotóxicos

O impacto ambiental mais visível do cultivo da soja é a perda de biodiversidade através do desmatamento direto e da conversão de terras. Isto afeta os ecossistemas florestais da América do Sul: Amazônia, Mata Atlântica, Cerrado, Chaco, Chiquitânia, Pantanal, Caatinga e Pampas. De acordo com um estudo da Universidade de Maryland publicado em 2021, a perda florestal devido à conversão direta de terras para soja totalizou 3,4 milhões de hectares entre 2001 e 2016.

Ainda maior, mas mais difícil de quantificar, é a desflorestação indireta desencadeada pelo boom da soja. Apenas alguns produtores de soja limpam eles próprios a floresta. Em vez disso, compram ou assumem terras que já foram desmatadas a pequenos agricultores ou criadores de gado, que depois se deslocam e desmatam novas áreas. Grandes áreas do Cerrado eram anteriormente utilizadas para a pecuária extensiva, o que traz consequências menos danosas ao ecossistema do que o cultivo da soja, que é realizado com maquinário pesado e alto uso de agrotóxicos e fertilizantes.

O desmatamento também ocorre para a necessária expansão da infraestrutura. “A soja é ainda mais prejudicial do que outras monoculturas porque justifica projetos massivos de infraestrutura de transporte que desencadeiam uma cadeia de eventos que levam à destruição da natureza em vastas áreas, além das terras diretamente dedicadas ao cultivo da soja”, escreve o cientista Philip M. Fearnside. do Instituto de Pesquisas Amazônicos (INPA) em um estudo publicado em 2001 sobre as consequências da expansão da soja. O agronegócio necessita desta infra-estrutura para processar e transportar a colheita, bem como para fornecer pesticidas e fertilizantes artificiais. “Outros usos da terra, como a pecuária extensiva, também ocupam grandes áreas”, explica o pesquisador amazônico, “mas não têm peso político para incentivar o governo a construir hidrovias, linhas ferroviárias e uma ampla rede de estradas terrestres financiadas com recursos públicos. trazer dinheiro.”

Outras consequências ambientais incluem a erosão do solo, alterações no equilíbrio natural da água e uma redução de insectos, organismos que vivem no solo, peixes e crustáceos devido aos pesticidas utilizados, que são frequentemente prejudiciais para a fauna terrestre e para os seres humanos.

Os produtores de soja no Brasil aplicam em média 6,5 ​​quilogramas de  agrotóxicos por hectare, geralmente de avião: 69% deles são herbicidas, 16% inseticidas e 15% fungicidas. No entanto, o impacto ambiental desta carga tóxica ainda é em grande parte desconhecido, de acordo com o estudo de 2020 “A Pegada Tóxica da soja brasileira” da Universidade Chalmers da Suécia.

A soja não-OGM, que representa cerca de 10% da área plantada, recebeu tratamentos com vários herbicidas tóxicos diferentes, enquanto os campos de feijão geneticamente modificado receberam o controverso herbicida total glifosato. Quase todos os inseticidas pulverizados são tóxicos para as abelhas e organismos aquáticos. De acordo com o estudo sueco, a utilização de malatião, que é particularmente prejudicial para os organismos de água doce, aumentou significativamente durante o período de estudo de 2009 a 2018. Os fungicidas também são tóxicos para a fauna aquática. Além disso, podem resultar em mutações genéticas e danos aos fetos. Os pesquisadores já encontraram altas concentrações de toxinas agrícolas, especialmente glifosato, no sangue de animais selvagens e de pessoas na principal área de cultivo de soja, o Cerrado, no planalto central do Brasil.

Escassez aguda de água

Como esta região é a fonte mais importante do Brasil, os sistemas fluviais que ela alimenta, e em particular o Pantanal, também são afetados. Com as chuvas sazonais, a carga de  agrotóxicos e sedimentos provenientes das monoculturas atinge a maior planície aluvial tropical do mundo, cujas consequências ainda não foram estudadas.

Desde o início deste ano, o Pantanal está em chamas como nunca antes. Estes são os piores incêndios da história desta zona húmida rica em espécies. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) contou mais de 4.000 focos de incêndio de janeiro até o final de julho deste ano. A maioria dos incêndios são iniciados por seres humanos para obter pastagens ou terras agrícolas ou simplesmente para queimar lixo. Mas no Pantanal há uma escassez crescente de água a cada ano, razão pela qual os incêndios estão se espalhando mais amplamente e ficando fora de controle com mais frequência. O “mar da soja” também é parcialmente responsável por isto – e não apenas pelas alterações climáticas.

A erosão do solo causada pelas monoculturas assoreia os afluentes e o Pantanal. Os rios ficam mais rasos e mudam o ciclo da água, o nível da água cai. Segundo dados da rede científica Mapbiomas, em 1985 o Pantanal registrava uma superfície hídrica de 1,9 milhão de hectares há pelo menos seis meses. Em 2023 eram apenas 382 mil hectares. Um declínio de mais de 80 por cento. Durante um período semelhante, o estado do Rio Grande do Sul perdeu aproximadamente 3,5 milhões de hectares de vegetação natural, enquanto o cultivo de soja aumentou de 1,3 milhão de hectares para 6,3 milhões durante este período.


Fonte: JungeWelt 

O lobby mortal da indústria de agrotóxicos

Um novo estudo descobriu que a quantidade de agrotóxicos utilizada em propriedades rurais estava fortemente associada à incidência de câncer. Isso vem logo após um forte lobby da indústria de pesticidas para limitar sua responsabilidade nos processos judiciais relacionados aos impactos na saúde de seus produtos

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Um aviso colocado na borda de um campo de aipo para indicar que o campo não era seguro para entrada pouco depois da aplicação de pesticidas no Vale de Salinas, Califórnia, no dia 7 de julho de 2023. (Jack Clark / Design Pics Editorial / Universal Images Group via Getty Images)

Por Lois Parshley, Tradução Sofia Schurig, para a “Jacobina” 

Um novo estudo descobriu que a quantidade de agrotóxicos utilizada nas fazendas estava fortemente associada à incidência de muitos tipos de câncer — não apenas para os agricultores e suas famílias, mas para comunidades inteiras. Isso vem logo após lobby significativo da indústria de agrotóxicos na primavera para limitar sua responsabilidade por processos judiciais relacionados aos impactos na saúde de seus produtos.

A análise recém-lançada mostrou que “os agrotóxicos agrícolas podem aumentar seu risco para alguns tipos de câncer tanto quanto o tabagismo”, diz o coautor Isain Zapata, professor associado de pesquisa e estatísticas na Rocky Vista University, no Colorado. Por exemplo, viver em lugares com alto uso de pesticidas aumentou o risco de câncer de cólon e pâncreas em mais de 80%, resultados que surpreenderam até mesmo os pesquisadores.

“Na minha opinião, isso é loucura”, disse Zapata, acrescentando que eles não esperavam encontrar uma associação tão significativa.

A ideia para a pesquisa surgiu de um dos alunos de Zapata, um estudante de medicina que cresceu em uma fazenda. Os cientistas obtiveram dados sobre o uso de sessenta e nove pesticidas diferentes a partir de pesquisas conduzidas pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). Eles então compararam esses dados com as taxas de incidência de câncer por condado em todo o país, utilizando bases de dados do Instituto Nacional de Saúde e dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças de 2015 a 2019.

Finalmente, ajustaram a análise para outros fatores que poderiam ter contribuído, incluindo disparidades socioeconômicas. Os resultados foram publicados na quinta-feira no jornal acadêmico Frontiers in Cancer Control and Society (Fronteiras no Controle do Câncer e na Sociedade).

Os pesquisadores afirmam que este estudo é a primeira avaliação abrangente do risco de câncer associado aos agrotóxicos em nível populacional. Zapata explicou que eles foram cuidadosos para não atribuir danos a compostos ou empresas específicas, pois na realidade as pessoas frequentemente estão expostas a múltiplos agrotóxicos, complexos “coquetéis” que podem ter impacto muito além do local onde foram aplicados originalmente. O vento pode levar resíduos dos campos ou a água da chuva pode carregar substâncias químicas para o lençol freático, ele explica.

“Pense nisso como o escapamento em uma cidade”, diz ele. “Você pode ser exposto a ele mesmo sem estar dirigindo.”

Os pesticidas são atualmente parte integrante do sistema agrícola industrializado do país: de acordo com o USDA, cerca de um bilhão de libras de agrotóxicos são usados a cada ano, em quase todos os estados do país.

A indústria argumenta que as regulamentações atuais de pesticidas são rigorosas e que o governo deveria “controlar as ervas daninhas, não a agricultura”. No entanto, trabalhadores rurais relataram lesões após serem pulverizados por aviões agrícolas ou hospitalizações após colherem produtos recém-tratados. Enquanto isso, produtos químicos associados à infertilidade são amplamente encontrados em alimentos como Cheerios.

“Trabalhadores rurais relataram lesões após serem pulverizados por aviões agrícolas ou hospitalizações após colherem produtos recém-tratados.” 

O novo estudo contribui para um longo debate científico sobre quão prejudiciais os pesticidas podem ser, um corpo de pesquisa que alguns cientistas afirmam ter sido prejudicado pela indústria, retardando a regulamentação. Leland Glenna, um professor que estuda os impactos sociais e ambientais da ciência e tecnologias agrícolas na Penn State, e que não esteve envolvido no estudo da Frontiers, disse que esse tipo de análise epidemiológica é crucial porque é “difícil contestar tendências populacionais amplas”.

Frequentemente, a toxicidade dos pesticidas é determinada em estudos controlados com animais, já que existem preocupações éticas com testes de produtos químicos em pessoas. Mas expor ratos de laboratório a pesticidas não necessariamente demonstra o que essas substâncias podem fazer com seres humanos que vivem e trabalham regularmente com elas.

Para complicar ainda mais, a Agência de Proteção Ambiental (Environmental Protection Agency – EPA), que monitora e aprova pesticidas, estuda apenas ingredientes ativos isoladamente. Eles ignoram outros ingredientes inertes que podem ainda conter substâncias nocivas como PFAS (conhecidos como “produtos químicos eternos”) e não examinam as formulações finais do produto — apesar de evidências substanciais de que a combinação de ingredientes pode torná-los mais tóxicos.

Veneno sob medida

Um dos pesticidas mais controversos em uso hoje é o glifosato, também conhecido pelo nome comercial Roundup. Sua fabricante original, a Monsanto, sediada no Missouri, foi adquirida pela empresa multinacional de biotecnologia Bayer em 2018, desenvolvendo interesse por herbicidas durante os anos 1960.

Eles foram um dos principais fabricantes do Agente Laranja, um desfolhante amplamente utilizado durante a Guerra do Vietnã para eliminar a cobertura vegetal para o Viet Cong, que o Exército dos EUA estava combatendo. (Cientistas levantaram preocupações sobre o Agente Laranja já em 1965; mais tarde foi comprovado que causava impactos severos à saúde, incluindo defeitos de nascimento e câncer. Um dos ingredientes do Agente Laranja, o 2,4-D, ainda é amplamente usado como herbicida nos Estados Unidos, incluindo em produtos comuns de cuidado com o gramado.)

Após a guerra, a Monsanto desenvolveu o Roundup, que foi promovido como uma alternativa mais segura a outros herbicidas. O glifosato mata as plantas inibindo uma enzima que as plantas usam para produzir energia. Embora os humanos não possuam essa enzima, algumas pesquisas descobriram que ela compartilha caminhos com as bactérias intestinais, perturbando nosso microbioma. Isso pode levar à inflamação e estresse oxidativo, danificando o DNA celular.

Com o tempo, esses danos podem se acumular, desencadeando mutações que causam câncer. Mesmo em níveis muito baixos de exposição, o glifosato pode perturbar o sistema endócrino, acelerando o crescimento de tumores.

Nos anos 1990, a Monsanto começou a vender sementes geneticamente modificadas para que os agricultores pudessem pulverizar o Roundup sobre as colheitas, e apenas as ervas daninhas morressem. Quanto à toxicidade de pesticidas, diz Lori Ann Burd, diretora do programa de saúde ambiental da organização sem fins lucrativos Center for Biological Diversity, o glifosato está longe de ser o pior. Mas ela acrescenta que o veneno está na quantidade da dose. “Desenvolvemos todo um sistema agrícola em torno das culturas resistentes ao Roundup”, diz Burd, “e por causa disso, usamos uma quantidade tão absurdamente grande que está causando danos enormes”.

O glifosato é agora o  agrotóxico mais usado nos EUA, com um mercado global de 10 bilhões de dólares. Ele foi detectado em níveis inseguros em águas pluviais e em mulheres grávidas sem exposição conhecida. E assim como o Agente Laranja, a Monsanto negou publicamente os riscos associados por muitos anos — mesmo que documentos internos da empresa mostrem que tinha razões para acreditar que o glifosato era perigoso desde pelo menos 1983.

Em um estudo de 2021, Glenna da Penn State descobriu que a Monsanto, agora de propriedade da Bayer, anteriormente tentou manipular o processo de revisão por pares científicos. Ele documentou os esforços da empresa usando e-mails internos divulgados durante um processo judicial, mostrando que a Monsanto usou autores fantasmas e conduziu campanhas para influenciar decisões editoriais em revistas acadêmicas, com o objetivo aparente de “manipular o processo regulatório para poder continuar vendendo um produto que a pesquisa da própria empresa indicava ser perigoso”.

“A Monsanto utilizou autores fantasmas e conduziu campanhas para influenciar decisões editoriais em revistas acadêmicas.” 

Em resposta a um pedido de comentário, Jessica Christiansen, chefe de comunicações de ciência da colheita da Bayer, escreveu em uma declaração por e-mail: “Nós apoiamos um sistema regulatório previsível e baseado na ciência e a certeza e disponibilidade que ele proporciona aos agricultores americanos”.

Glenna explicou que tanto o público quanto os reguladores tendem a confiar em estudos revisados por pares e desconfiar de pesquisas patrocinadas por empresas. Por isso, em um e-mail, um funcionário da Monsanto explicitamente diz que o objetivo de não listar pessoas da empresa como autores é “ajudar a aumentar a credibilidade”. Outros e-mails mostram interpretações seletivas de resultados de toxicidade e mais preocupação em evitar estudos de acompanhamento do que com a segurança pública.

A EPA baseou-se nesses tipos de estudos quando concluiu em 2016 que o glifosato “provavelmente não é carcinogênico para os humanos” e emitiu uma decisão de reaprovação do agrotóxico em 2020. Isso contradiz diretamente a pesquisa das principais autoridades globais na Organização Mundial da Saúde (OMS), que encontraram o glifosato como um provável carcinógeno em 2015. A EPA dependeu muito de estudos regulatórios não publicados, enquanto a organização de saúde internacional baseou-se principalmente em trabalhos revisados por pares.

Em 2022, o Tribunal de Apelações do Nono Circuito determinou que a decisão da EPA foi baseada em procedimentos defeituosos, observando que o próprio painel consultivo científico da agência havia criticado os critérios que ela utilizou. Eles exigiram que a EPA reavaliasse o pesticida; dois anos depois, isso ainda não foi feito.

Liberdade sem fiscalização

Essas revisões de registro de agrotóxico são rotineiramente atrasadas. Parte do problema, segundo Glenna, é que os reguladores precisam depender das indústrias para liberar informações toxicológicas porque estas são consideradas informações proprietárias. “[É] propriedade intelectual”, diz ele, “então cientistas de universidades ou financiados pelo público simplesmente não têm a capacidade de realizar essa pesquisa”.

Quando um agrotóxico é registrado pela primeira vez com os reguladores federais, a grande maioria das informações disponíveis sobre ele é científica e conduzida pela empresa que o fabricou. “A presunção nos EUA é a favor da segurança do produto químico”, diz Burd. Em outros lugares, como na União Europeia, “os produtos químicos não são considerados seguros por padrão; adotam uma abordagem muito mais precaucionária”.

Na verdade, dacordo com a legislação federal, a EPA só pode recusar o registro de um pesticida se seus riscos forem maiores do que os benefícios que ele proporciona, medidos pela produtividade ou qualidade das colheitas. Como resultado, cerca de um terço do uso de agrotóxicos nos EUA envolve produtos químicos proibidos na China, Brasil e União Europeia.

Há também uma porta giratória entre a agência e a indústria que regula. Alexandra Dunn, ex-administradora assistente do Escritório de Segurança Química e Prevenção da Poluição, por exemplo, agora lidera a CropLife America, o principal grupo de lobby da indústria de pesticidas. Ela é apenas a mais recente; desde 1974, todos os diretores do escritório passaram a trabalhar para empresas de agrotóxicos.

Esta influência da indústria dentro da agência é exacerbada pelo fato de que cerca de 40% do financiamento do Escritório de Segurança Química e Prevenção da Poluição da EPA vem de taxas de registro — pagas pelas próprias empresas.

“O Projeto 2025 deseja garantir que as regulamentações químicas dos EUA permaneçam ‘baseadas em risco, em vez de adotar abordagens precaucionárias baseadas em perigos’.”

Monsanto descreveu a maneira como aproveitou esse ambiente regulatório como “Liberdade para Operar”, um princípio operacional que definiu em e-mails internos da empresa como “as ações regulatórias, técnicas, de marketing e comunicação para estabelecer um ambiente mais favorável para garantir as autorizações de nossos produtos e tecnologias”.

Essas ações incluíram premiar funcionários por defender a empresa após a designação do Roundup como cancerígenos pela OMS, e manipular relatórios de exposição no local de trabalho de funcionários doentes.

Os reguladores podem em breve estar dando um passo adicional para trás. O Projeto 2025, um relatório de políticas conservadoras desenvolvido por interesses corporativos para moldar uma futura administração de Donald Trump, afirma que os programas da EPA “são constantemente pressionados para banir o uso de certos produtos químicos, geralmente baseados no medo como resultado de ciência mal caracterizada ou incompleta”. Ele deseja garantir que as regulamentações químicas dos EUA permaneçam “baseadas em risco, em vez de adotar abordagens precaucionárias baseadas em perigos”.

Em última análise, ele advoga que “[os] agricultores e o sistema alimentar devem estar livres de qualquer intervenção governamental desnecessária” e que os reguladores agrícolas deveriam priorizar “a liberdade pessoal, a propriedade privada e o Estado de Direito”.

Ameaça existencial

Embora a Bayer insista que o produto que herdou de sua fusão de 2018 com a Monsanto é seguro, enfrenta mais de 170.000 processos judiciais relacionados ao glifosato, mesmo após um acordo de $10 bilhões em 2020 com milhares de vítimas que afirmam que o pesticida causou suas doenças. Nesta primavera, a gigante de biotecnologia tem feito lobby no Congresso para restringir sua responsabilidade por processos judiciais relacionados à exposição ao glifosato, incluindo o trabalho para redigir uma linguagem sobre o assunto no próximo projeto de lei agrícola.

Segundo o Washington Post, os deputados Dusty Johnson (R-SD) e Jim Costa (D-CA) trabalharam em estreita colaboração com a empresa para redigir a medida que impede futuros pagamentos por processos judiciais relacionados ao glifosato, que foi posteriormente adicionada ao projeto de lei agrícola, responsável por definir a política agrícola do país a cada cinco anos e previsto para votação neste outono. O comitê de ação política da empresa também contribuiu para as campanhas de Johnson e Costa por várias eleições.

Durante um discurso em uma conferência nesta primavera, o CEO da Bayer, Bill Anderson, chamou a potencial responsabilidade legal pelos impactos à saúde de seus pesticidas de uma “ameaça existencial”. Agora, está considerando usar uma estratégia chamada Texas two-step“. Nesse movimento legal, uma empresa se divide em duas, sendo que uma metade mantém os ativos e a outra os passivos. Esta última então entra com pedido de falência, forçando as pessoas que buscam compensação a entrar na justiça de falências, o que frequentemente resulta em acordos adiados ou menores.

Além de seu lobby federal, a Bayer intensificou seus esforços de lobby estado por estado. Ela forneceu linguagem semelhante para projetos de lei apresentados este ano eMissouriFlóridaIdaho e Iowa, que protegeriam as empresas de pesticidas de futuros processos judiciais relacionados ao glifosato, em parte excluindo essas empresas dos requisitos estaduais de informação sobre seus potenciais perigos ou riscos.

Em sua declaração ao Lever, Christiansen da Bayer escreveu que o “apoio da empresa a legislações como essa, tanto em nível federal quanto estadual, ajuda a proteger a integridade do processo regulatório e garante que as conclusões minuciosas e baseadas cientificamente da EPA sejam a base para os rótulos de proteção de cultivos”.

Em Idaho, o vice-presidente de assuntos governamentais estaduais e locais da Bayer apresentou pessoalmente o projeto de lei que a empresa esperava aprovar em um comitê do Senado. Para angariar apoio ao projeto de lei, a empresa aumentou seus gastos no estado, gastando mais de US$8.000 e empregando pelo menos três pessoas. Ela veiculou anúncios em jornais locais proclamando: “Apoie os Agricultores de Idaho, Não Advogados de Julgamento”. A Bayer também criou uma coalizão multiestadual chamada Modern Ag Alliance, afirmando que oitocentos empregos em Idaho estão ligados à produção de glifosato, juntamente com quinhentos em Iowa.

As iniciativas legislativas foram derrotadas em Idaho e Flórida, mas passaram pelo Senado estadual em Iowa e ainda estão tramitando na casa legislativa de Missouri.

Essas táticas fazem parte do plano de cinco partes da empresa para lidar com sua responsabilidade, o qual está sendo usado para tranquilizar acionistas preocupados. Segundo documentos da empresa, o primeiro passo é “buscar uma decisão positiva da Suprema Corte dos EUA”.

Assim como em seus projetos de lei estaduais propostos, a empresa argumenta que, como a EPA até agora concluiu que o glifosato não causa câncer e não exige um rótulo de aviso, as leis estaduais de falha em avisar devem ser preteridas. Eles entraram com duas ações judiciais federais com esse objetivo, que atualmente estão em tramitação nos tribunais.

Burd diz que não está surpresa com as manobras da Bayer, mas “o que é decepcionante é que há tantos legisladores dispostos a apoiá-las”.

Embora o glifosato tenha um perfil alto, Zapata, da Rocky Vista University, diz que o problema final é muito mais complexo do que apenas um pesticida, ou mesmo uma empresa tão influente como a Bayer.

“O fato de não ouvirmos sobre outras coisas não significa que não seja um problema”, ele diz. É por isso que seu estudo recente tentou capturar o quadro geral de como, coletivamente, esses compostos estão de fato influenciando a saúde das pessoas.

Ele afirma que suas motivações são apolíticas — e que há muita responsabilidade a ser compartilhada. “Se queremos ir ao supermercado e comprar tomates baratos, provavelmente eles serão produzidos usando um sistema muito industrializado”, ele diz.

Ao mesmo tempo, ele reconhece que divulgar esse tipo de risco tem um valor econômico e ético. “Se você compra terra em uma área com alta capacidade agrícola, está assumindo também parte desse risco”, ele explica. E as pessoas que têm a capacidade de escolher viver em outro lugar, ou que têm recursos suficientes para não precisar trabalhar em empregos mal remunerados com maior exposição, estão simplesmente terceirizando esse perigo.

“Se você não mora naquele lugar, outra pessoa terá que morar”, diz Zapata.


Você pode se inscrever no projeto de jornalismo investigativo de David Sirota, o Leveraqui.

Sobre a autora:  Lois Parshley é uma jornalista investigativa premiada. Seu trabalho já foi publicado na New Yorker, no New York Times, na Harper’sNational Geographic e mais.


Fonte: Jacobina

Brasil em chamas: aumento de focos de queimadas no primeiro semestre de 2024

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Por Guilherme Borges para o “Climatempo”Os dados recentes sobre focos de queimadas no Brasil mostram um aumento alarmante nos primeiros 7 meses de 2024 em comparação com o mesmo período de 2023. Segundo dados do programa de monitoramento de queimadas no Brasil BDqueimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais o Mato Grosso do Sul lidera o ranking com um crescimento impressionante, passando de 1.138 focos em 2023 para 5.354 em 2024, o que representa uma diferença absoluta de 4.216 focos e um aumento percentual de 370,47%. Mato Grosso também apresentou um aumento significativo, com os focos subindo de 7.541 em 2023 para 11.242 em 2024, resultando em um aumento absoluto de 3.701 focos e uma diferença percentual de 49,08%.

Figura 1

Figura 1 -Estados com maior aumento absoluto nos focos de queimadas. Comparação realizada para os primeiros 7 meses de cada Ano.Mato Grosso do Sul e Mato Grosso são os estados com os aumentos mais significativos. Fonte: BDqueimadas 

Faixa Norte apresenta crescimento

Roraima teve um aumento preocupante, com os focos passando de 1.273 para 4.630, uma diferença absoluta de 3.357 focos e um aumento percentual de 263,71%. O Amazonas seguiu a mesma tendência, com os focos subindo de 2.337 para 4.738, um aumento absoluto de 2.401 focos e percentual de 102,74%. Tocantins também apresentou um aumento significativo, de 3.918 focos em 2023 para 5.481 em 2024, uma diferença absoluta de 1.563 focos e um aumento percentual de 39,89%.

Estados do Centro-oeste e Norte na liderança

Entre os maiores aumentos percentuais, Mato Grosso do Sul e Roraima estão no topo, seguidos por Rondônia com um aumento percentual de 175,95% e Acre com 161,92%, enquanto São Paulo teve um crescimento percentual de 135,61%. Roraima Amazonas  e Mato Grosso do Sul já registram o maior números de focos de queimadas em 26 anos desde 1998.

Figura 2 -

Figura 2 -Este gráfico apresenta os 10 estados com o maior aumento percentual nos focos de queimadas. Mato Grosso do Sul, Roraima e Rondônia destacam-se com os maiores aumentos percentuais. Fonte: BDqueimadas

Análise regional

A análise regional revela que a Região Norte, com estados como Amazonas, Roraima e Pará, apresentou aumentos acentuados, indicando uma possível intensificação das queimadas nessa área. Na Região Centro-Oeste, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul continuam a mostrar números alarmantes, especialmente Mato Grosso do Sul, com um aumento impressionante. Na Região Sudeste, Minas Gerais e São Paulo também apresentaram aumentos significativos.

Parte do Sudeste com focos em alta

São Paulo teve um aumento absoluto de 1.032 focos, subindo de 761 em 2023 para 1.793 em 2024, o que representa um crescimento percentual de 135,61%. Minas Gerais, por sua vez, registrou um aumento absoluto de 927 focos, passando de 1.744 em 2023 para 2.671 em 2024, resultando em um aumento percentual de 53,15%. Esses dados refletem uma escalada preocupante dos focos de queimadas em ambos os estados, com São Paulo destacando-se pelo crescimento percentual mais acentuado.

Figura 3

Figura 3 – Este gráfico compara os focos de queimadas entre os anos de 2023 e 2024 para os estados de São Paulo e Minas Gerais. Ambos os estados tiveram aumentos significativos, com São Paulo registrando um aumento absoluto de 1032 focos e Minas Gerais um aumento absoluto de 927 focos. Fonte: BDqueimadas

Fatores para explosão dos casos

Os primeiros sete meses de 2024 foram notavelmente mais quentes do que 2023. A atuação de massas de ar quente na região central do Brasil foram as principais causadoras da irregularidade das chuvas e do aumento das temperaturas, o que contribuiu para o aumento no número de focos de queimadas. Desde o começo do ano, ocorreram cinco períodos de temperatura extrema no Brasil: três ondas de calor e dois veranicos. Destaca-se a onda de calor que durou de 22 de abril até 10 de maio, uma das mais longas registradas nos últimos anos, com cerca de 18 dias de temperaturas acima da normalidade, variando entre 3ºC e 7ºC acima da média. É importante considerar que a atuação do fenômeno El Niño desde o segundo semestre de 2023 até junho, somada com o aquecimento do Atlântico, favoreceu a intensificação dessas massas de ar quente e a irregularidade das chuvas. Em contraste, os primeiros sete meses de 2023 foram caracterizados por uma transição, sem efeitos climáticos mais notáveis no Brasil.


Fonte: ClimaTempo

Web Rádio Maíra e os 31 anos da UENF: é preciso inventar o Brasil que queremos

webradiomaira

Por Luciane Soares da Silva

Dois livros animam o espírito de nossa rádio: Comunicação ou Extensão, escrito por Paulo Freire no Chile, em 1968 e o romance Maíra do antropólogo Darcy Ribeiro. Sua primeira publicação data de 1976. Podemos traçar aproximações entre ambos. São documentos de um tempo histórico específico. A Ditadura brasileira e processos ditatoriais em outros países latino americanos. Adotam perspectivas críticas nas quais o ato de comunicar é em si, elemento de transformação social

O questionamento central em Comunicação e Extensão é o lugar daqueles que pretendem realizar uma ação transformadora por meio do ensino: devemos “estender” nosso conhecimento aos grupos ou orientar nossa ação a partir de uma comunicação que efetivamente troque com o outro? Educar e educar-se afirmava Freire. Devemos compreender seu ponto de vista. Ao olharmos atentamente para populações indígenas (povos originários), camponeses e trabalhadores fabris, questionamos o ato de ensinar a ler, ensinar as técnicas modernas de produção e adotar o estilo de vida urbano. Que princípios deveriam reger nosso ensino? A partir destes questionamentos podemos alcançar o que significava a substituição de uma concepção de ensino que leva saberes aos que não o tem, por uma relação na qual o diálogo altere estruturalmente a visão do educador e do grupo com o qual ele atua.

O exercício feito por Darcy Ribeiro, adota a perspectiva dos índios com os quais conviveu para contar a história de sua destruição, “ o gozo e a dor de seu índio” Estruturalmente crítico ao processo civilizador, Darcy ambiciona transformar seus olhos nos olhos da tribo Mairum. Um ato apaixonado mas calibrado por seu conhecimento dos hábitos e da cultura destes grupos. O romance Maíra desloca a visão de um índio como uma página em branco para que os catequistas escrevessem para o índio-problema. Avá, mairum destinado a ser chefe guerreiro de sua tribo, é levado a Roma e educado para ser padre e missionário. A tragédia de Avá-Isaías é a tragédia dos povos originários, a perda de sua identidade e a impossibilidade completa de integração ao mundo dos brancos.

Os dois livros animas esta rádio que aceita o desafio da comunicação como troca a partir de uma perspectiva situada: o Brasil, a América Latina e a diáspora africana constituem a base de toda nossa programação. Em um mundo globalizado e dominado por redes sociais, redes de televisão e rádio, sabemos da importância desta decisão.

Ao olharmos para esta obra de Darcy saudamos os trinta e um anos de nossa Universidade .Seria possível ver a UENF  como obra estética de um homem brasileiro e latino-americano. E a poética deste desafio está na atualização de uma memória literária que é política. Ao lado da rádio, nosso projeto de extensão Arte e Memória na Escola realiza o ideal de Paulo Freire. A produção em sala de aula, de materiais que possibilitem aos alunos das escolas públicas de Campos dos Goytacazes construírem saberes sobre música, movimentos socias, identidade cultural e seu lugar na história.

Nenhum destes homens foi neutro diante de seu tempo. Da mesma forma, nossa programação conversa com repentistas do nordeste, rappers de Guarus, fazedores de cultural local. Ao mesmo tempo, aceitamos que a troca também deve dar espaço a trilhas de música para o dia das Mães, Correio Elegante para o dia dos Namorados e o cardápio diário do Restaurante Universitário. Ou seja, acolher a vida cotidiana da UENF.

Este trabalho só é possível pela qualidade e identidade do grupo que o compõe. E pela autonomia dada a cada um para apresentar sua pauta. Espaços como o Centro de Convenções, a Villa Maria, o Bandejão e os saguões de nossos Centros, são nossos pontos de ancoragem para produção de conteúdos.

Um exemplo de nossa programação: começamos as seis da manhã com “Bom dia proletariado”, vinheta e música. Após, cardápio do Bandejão, momento ciência e mulheres na ciência. Ao longo de semana temos programas de entrevistas com artistas, pesquisadores, programação de reggae, o que ocorre na cidade e nas Universidades. Divulgamos o Cine Darcy e temos o Clube da Encruza, um programa de temáticas abertas sobre temas de interesse dos integrantes.

Toda esta programação é idealizada e executada pelos alunos do projeto. O Clube do Som, por exemplo, consiste em uma metodologia extremamente simples. Cada participante apresenta algumas músicas de um álbum de preferência. De punk ao Clube da Esquina, somos convidados a ouvir conjuntamente estas músicas. É um exercício de escuta coletiva guiada.

O espírito que anima Maíra é o espirito que pode animar a Universidade brasileira. Ao acolhermos os saberes de forma a experimentar um fazer-comunicação, temos uma rádio com o potencial de dinamizar um espaço por vezes árido. A autonomia impressa em nosso trabalho é anti-burocrática e nem por isto, menos efetiva em seus resultados. Apenas deixamos que as pessoas façam o que sabem fazer. E possam aprender sobre os instrumentos técnicos de construção. Acredito que realizamos plenamente a proposta de Paulo Freire. Transformamos uns aos outros na construção de uma rádio. E aí reside a potência de nossa extensão que é comunicação.

Para seguir Maíra basta acessar webradiomaira.

Proteção ambiental na Colômbia: operação sob medo da morte

Os conservacionistas na Colômbia vivem perigosamente. O país tem a maior taxa de homicídios de ativistas ambientais do mundo

197903A mineração legal e ilegal causa grandes danos na Colômbia (Magüí Payán, 20 de abril de 2021)

Por Sara Meyer, Bogotá, para o “JungeWelt”

Qualquer pessoa na Colômbia que defenda água potável, alimentos e solo para a população local vive perigosamente. O país latino-americano tem a maior taxa de homicídios de ambientalistas do mundo. Só em 2022, 60 ativistas foram mortos – quase o dobro do ano anterior. Uma grande parte dos assassinatos fica impune. Os ativistas ambientais enfrentam não só ataques mortais, mas também ameaças, vigilância e criminalização.

O caso mais conhecido é o da mina de carvão El Cerrejón, da qual a Alemanha também obtém carvão mineral . Os relatos de doenças e mortes causadas pela poluição da água estão aumentando. Os ativistas que fazem campanha contra a mina são assediados – não são incomuns visitas domiciliares noturnas de pessoas mascaradas exigindo que parem de resistir ao negócio.

Não é apenas a mina de carvão que põe em perigo a subsistência de muitos colombianos: a mineração ilegal de terras raras, ouro e esmeraldas, o desmatamento das florestas tropicais e o cultivo de monoculturas estão destruindo a delicada ecologia da região. Freqüentemente, são bens produzidos para exportação.

O vencedor deste ano do Prêmio de Direitos Humanos da Amnistia Internacional, Yuly Velásquez, é um dos que faz campanha contra a exploração da natureza. A pescadora de 39 anos é presidente da associação pesqueira Fedepesana e vive pela proteção do maior rio do país, o Rio Magdalena. Ela está se rebelando contra a maior empresa petrolífera do país, a Ecopetrol, e a tomar medidas legais com a sua associação contra a poluição e a extinção de espécies nas águas adjacentes.

Ela realiza essa missão com medo da morte: Velásquez já sofreu três tentativas de assassinato e seu segurança levou um tiro no rosto na sua frente, relata. Ela já deixou sua vila de pescadores e vive sob proteção policial na cidade grande mais próxima, Barrancabermeja. Houve momentos de desespero, dias em que ela não queria sair da cama, momentos em que queria fugir, mas no final das contas desistir não era uma opção para a pescadora. »Venho de uma região que foi gravemente afetada pela guerra civil. Hoje, a violência dos grupos armados e a falta de controlo estatal causam pânico e medo na condução do nosso trabalho. “As mulheres, em particular, que se defendem publicamente contra a poluição ambiental estão entre as que correm maior risco”, diz Velásquez, explicando o seu trabalho. Mesmo assim, o ambientalista demonstra confiança. Ela tira forças para seguir em frente do sentimento de “nunca ser deixada sozinha”. Ela está sempre acompanhada de outros pescadores, dos filhos ou do marido.

Ela atribui ao primeiro presidente de esquerda do país, Gustavo Petro, que está no cargo há dois anos, “a vontade de fazer as coisas de forma diferente”, mas ainda encontra muita resistência.

A luta dos ativistas ambientais na Colômbia não é apenas uma luta contra a destruição da natureza, mas também uma luta pela justiça social e pelos direitos das comunidades indígenas e agrícolas. Muitas das comunidades afectadas pertencem às populações mais pobres e marginalizadas do país. Sem área cultivada e acesso a água próxima, eles não conseguem colocar comida na mesa. Para eles, trata-se de sobrevivência.

Apesar dos muitos desafios, os ativistas ambientais na Colômbia também alcançaram sucesso. Os tribunais suspenderam repetidamente projetos mineiros e petrolíferos devido a danos ambientais e violações dos direitos das comunidades indígenas. Uma conhecida decisão da Suprema Corte de 2018 reconheceu a floresta amazônica como uma entidade legal, exigindo que o governo tomasse medidas para proteger o ecossistema amazônico.

Velásquez descreve como a sua comunidade respondeu de forma criativa aos desafios das alterações climáticas e da pesca excessiva. O foco está no empoderamento das mulheres, no estabelecimento de fontes alternativas de renda e no compromisso com a proteção da natureza. “Nós, pescadoras, desempenhamos um papel crucial na proteção do nosso planeta”, enfatiza a ativista. »Fortalecemos as mulheres na nossa comunidade e desenvolvemos novas fontes de rendimento sustentáveis ​​para além da pesca – por exemplo, através da gastronomia e do ecoturismo. Desta forma, podemos compensar o declínio dramático dos recursos haliêuticos e, ao mesmo tempo, preservar a natureza da qual todos dependemos.«


Fonte: JungeWelt

A ‘torre de marfim’ brasileira é de palha?

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Imagem: Benny Stæhr

Há uma boa dose de elitismo no meio acadêmico, sem dúvida alguma, mas a universidade brasileira nunca foi uma torre, muito menos de marfim

Em memória de M. E. (1965-2023), cuja orientadora um dia reclamou que ela era uma aluna com iniciativa.

Por Felipe A.P.L. Costa para “A Terra é Redonda”

O presidente da República esteve em Campinas (SP), em 2 de julho de 2024. Participou, entre outras coisas, do lançamento da pedra inaugural do Projeto Orion (ver aqui). Foi para mim uma grata surpresa, pois eu não tinha ideia de que um projeto dessa natureza e magnitude estivesse a ser implantado.

Os leitores não familiarizados com o assunto talvez não saibam, mas os melhores e mais seguros laboratórios existentes hoje no país não ultrapassam o chamado nível 2 de segurança (BSL-2, na sigla convencional em inglês). Nunca houve por aqui algo parecido com os níveis 3 ou 4 (BSL-3 e BSL-4).[1]. Garantir o funcionamento de laboratórios BSL-3 e BSL-4 é um empreendimento delicado; depende, entre outras coisas, de protocolos rigorosos cujo nível de exigência está muito além do nível que os laboratórios BSL-2 são capazes de atender. Laboratórios BSL-4, por exemplo, manipulam organismos potencialmente letais e contra os quais nós ainda não dispomos de qualquer tipo de defesa (e.g., vacinas).

Ouso dizer que os riscos decorrentes da operação desses laboratórios são comparáveis aos riscos associados à operação de uma usina nuclear. Desconfio — apenas desconfio — que ainda não haja gente qualificada em quantidade suficiente para conduzir com sucesso um empreendimento dessa magnitude em terras brasileiras. Ao contrário do que imaginam alguns, diplomar mestres e doutores não equivale a produzir cientistas. E o que nós fazemos hoje é distribuir diplomas.

A rigor, levando em conta que (i) o número de pós-graduados diplomados a cada ano não para de crescer; e (ii) o tempo de formação dos novos diplomados é cada vez menor; deveríamos nos preocupar mais com o efeito contrário: há uma progressiva deterioração na formação dos novos mestres e doutores, assim como na qualidade dos trabalhos acadêmicos produzidos por eles. A situação me parece delicada e preocupante. Mantidas as circunstâncias atuais, e na hipótese de que as instalações do Projeto Orion sejam concluídas, prevejo que será necessário recrutar gente (brasileiros ou não) que hoje trabalha fora do país.

Literatura científica

Incontáveis artigos científicos são publicados todos os anos, seja em versão impressa, seja em versão eletrônica. Poucos deles, porém, estão destinados a adquirir peso e relevância; um número ainda menor irá se converter em referência instrutiva (ainda que por tempo limitado) para outros autores.

A comunidade científica abriga uma variada gama de autores, desde gente laureada com o Nobel a gente encarcerada em presídios. A boa literatura científica funciona como um gigantesco sistema de irrigação. Repleto de ramificações e interconexões, esse sistema nutre e estimula o desenvolvimento de novas ideias, sobretudo no caso da ciência pura.[2]

Publicar artigos em revistas técnicas é o modo como os estudiosos anunciam os seus achados. É o jeito que se tem para atestar e reivindicar prioridade sobre um achado em particular. Tem sido assim desde os primórdios da ciência moderna. De resto, é também a oportunidade que os autores têm para demarcar um pequeno território, deixando ali a sua marca, ainda que nenhuma dessas marcas possa reivindicar para si o rótulo de definitiva.

Três tipos de pesquisa

A comunidade científica avalia a relevância de uma publicação em razão do impacto que ela tem sobre o corpo de conhecimento já estabelecido. Esse impacto em geral não ultrapassa os limites de uma área específica. Às vezes, porém, a novidade transborda os limites convencionais e atinge áreas vizinhas.

A depender da natureza e do alcance dos resultados, nós podemos identificar ao menos três tipos de pesquisa: (1) Em primeiro lugar, nós temos as pesquisas que promovem avanços conceituais; (2) Em seguida, as que promovem inovações metodológicas; e (3) Por fim, os estudos de caso — pesquisas ordinárias que atestam ou ajudam a sedimentar algum conceito ou método já existente.

Essas categorias diferem entre si em mais de um aspecto.

Pesquisas que promovem avanços conceituais, por exemplo, costumam ter um impacto amplo, profundo e duradouro. É graças a esse tipo de avanço que nós aprendemos a diferenciar o joio do trigo, o que nos permite subir um pouco mais na rampa do conhecimento.

Rupturas são excepcionalidades

Considere, para fins de comparação, a magnitude das mudanças históricas ocorridas em razão do trabalho dos seguintes autores: (1) Nicolau Copérnico (1473-1553) e a substituição (a posteriori) do modelo geocêntrico pelo heliocêntrico; (2) Gregor Mendel (1822-1884) e o surgimento (a posteriori) da genética; (3) Georges Lemaître (1894-1966) e o modelo do Estrondão [3] para explicar a origem do nosso Universo; e (4) Francis Crick (1916-2004) e James Watson (nascido em 1928) e o modelo em dupla hélice para descrever a estrutura da molécula de ADN.[4]

Rupturas dessa magnitude são excepcionalidades capazes de mudar o rumo da história. Exatamente por isso, tais rupturas são reconhecidamente raras. A grande maioria das pesquisas é apropriadamente descrita pelo rótulo de estudos de casos. No âmbito da ciência pura, essas pesquisas não têm a pretensão de mudar o mundo. O propósito delas é quase sempre protocolar: por à prova alguma ideia ou método já proposto por outros autores. Às vezes ocorrem surpresas, claro, e as coisas tomam um rumo algo inesperado.

Obter resultados inesperados (digo: resultados que não se enquadram em nenhum dos modelos explicativos existentes) pode ser algo promissor. Ocorre que essas reviravoltas dependem muito do preparo e do traquejo de quem está à frente da pesquisa. No mais das vezes, não há surpresas e os resultados servem apenas para atestar o que já está em circulação. O bordão chover no molhado serve bem para descrever o impacto da ciência ordinária.

Multiplicando a irrelevância

A literatura científica não para de crescer, caracterizando aquilo que nós poderíamos chamar de avalanche bibliográfica. De fato, como foi dito no parágrafo de abertura, muita coisa nova é publicada todos os anos. Ocorre que a relevância dessa literatura primária (e.g., artigos e teses) é muito desigual. Umas poucas publicações se tornam leitura obrigatória em sua área de pesquisa, de sorte que são lidas por quase todos que atuam naquela área. Muitas publicações, no entanto, são lidas por muito pouca gente ou sequer são lidas. Significa dizer que boa parte da literatura dita científica permanece escondida, com pouco ou nenhum impacto no avanço do conhecimento.[5]

No caso das teses, especificamente, estamos a falar dos trabalhos que são produzidos no âmbito dos chamados programas de pós-graduação (mestrado e doutorado).[6] A relevância delas é igualmente desigual, com o agravante de que nesse caso o número total de leitores é ainda menor.[7] Portanto, a importância das teses para o avanço do conhecimento tende a ser igualmente menor.

Capa vs. miolo

Em maior ou menor grau, as teses padecem daquilo que nós poderíamos rotular aqui de obsolescência programada. Os fatores que concorrem para isso podem ser divididos em duas categorias: os formais e os de conteúdo.

No primeiro caso, caberia chamar a atenção para o peso excessivo que às vezes se atribui às normas editoriais que definem a aparência das teses. Os formalistas costumam argumentar que as regras visam padronizar e facilitar a leitura. É uma preocupação válida, mas que não deveria ter todo o peso que costuma ter. Afinal, trata-se de algo absolutamente secundário.

De mais a mais, seguir as normas não é garantia de que a tese abrigará um texto coerente e consistente. Digo: obediência às normas pode até gerar um trabalho visualmente limpo e agradável, mas sequer evita que o texto seja tortuoso, prolixo e repleto de inconsistências. Como argumentam os conteudistas, por mais inteligentes que sejam as normas — e esse não costuma ser o caso —, elas são incapazes de garantir um conteúdo consistente e de qualidade.

É bom lembrar que nós, brasileiros, temos uma tendência a sobrevalorizar as aparências das coisas.[8] Todavia, ao menos no âmbito acadêmico, esse é um costume nocivo que deveria ser combatido com mais vigor.

Quantidade vs. qualidade

O que de fato deveria ocupar o primeiro lugar na fila das preocupações dos nossos professores é o nível de formação dos seus orientandos, incluindo aí a qualidade dos trabalhos que os estudantes estão a produzir.[9]

A julgar apenas pelas amostras que eu pude ler ao longo dos anos, o nível médio das teses está na contramão: enquanto o número de pós-graduandos não para de crescer,[10] o peso e a relevância das teses parecem seguir em sentido contrário.

Com relação especificamente ao universo da pesquisa básica (notadamente em áreas como física, química e biologia), apresento a seguir três generalizações (a rigor, três hipóteses sujeitas a exame) sobre o atual estado de coisas, a saber: (i) Ao longo das últimas décadas (de 1990 para cá, digamos), os temas e os assuntos abordados nas teses estão a se revelar cada vez mais provincianos e triviais.

(ii) A maioria das teses é desprovida de ideias inovadoras ou sequer audaciosas, do tipo que consegue mobilizar a atenção ou inspirar o trabalho de outros pesquisadores; e (iii) Como cresceu muito o número de teses, cresceu muito o número de revistas bancadas pelos próprios programas de pós-graduação. O principal objetivo desse tipo de iniciativa é dar vazão a um volume crescente de artigos (extraídos daquelas teses) que dificilmente seriam aceitos para publicação em revistas internacionais conceituadas.

Teses instantâneas

Para além da proliferação de teses protocolares, há um aspecto ainda mais preocupante: a formação e o nível das novas gerações de mestres e doutores. O clima geral parece ser de acomodação e nivelamento por baixo.

A origem do problema talvez tenha a ver com o calendário: o tempo médio de duração dos cursos está cada vez mais espremido — são dois anos para concluir o mestrado e quatro para concluir o doutorado. Se o aluno não consegue concluir tudo dentro do prazo, perde o apoio financeiro (bolsa) e o programa de pós ao qual ele está ligado passa a ser penalizado.

Durante a pós (mestrado ou doutorado), cabe ressaltar, os estudantes devem atender a algumas exigências, três das quais seriam as seguintes[11]: (1) Cursar um número mínimo de disciplinas; (2) Conduzir um trabalho de pesquisa original (leia-se: não vale plágio nem roubo, como é comum ocorrer no mundo dos negócios); e, por fim, (3) Escrever um relatório fidedigno e minimamente compreensível (ao menos por parte de colegas da área) a respeito da pesquisa realizada.

É nesse contexto que (i) os bolsistas correm para não perder a sua bolsa; e (ii) os programas correm contra a penalização e o rebaixamento.

O resultado dessa dupla corrida, fruto da dupla pressão exercida pelas agências de fomento, é o estado de coisas que estamos a presenciar: redução ao mínimo da carga de disciplinas e simplificação ao máximo das teses, de sorte que o aluno se livre de suas obrigações o mais depressa possível. E assim tem sido, para deleite de gestores que privilegiam a quantidade, pouco ou nada se importando com a formação dos estudantes ou com a qualidade das teses que estão a ser produzidas por eles.

Os efeitos colaterais são amargos e nocivos. Temas mais complexos ou procedimentos mais demorados são deixados de lado. A parte prática das pesquisas (laboratório ou campo) é abreviada ou simplificada ao máximo. A situação é particularmente preocupante — e corre o risco de se tornar caricata — em áreas que exigem trabalho de campo, atividade que outrora consumia meses ou até um ano inteiro (às vezes mais).

Coletar dados é de fato uma atividade arriscada (o reagente não chegou e o experimento vai atrasar ou a chuva não veio e a árvore não floresceu), razão pela qual essa etapa foi reduzida ao mínimo indispensável. Assim, o que outrora durava meses ou até um ano, mas gerava dados expressivos, hoje é uma questão de horas ou dias e está a gerar dados quase que meramente decorativos.

Feijão com arroz

Uma lei informal parece vigorar hoje em todos os programas de pós-graduação: a lei do feijão com arroz — “Vamos optar pelo caminho mais curto, nada de querer complicar, nada de querer abraçar o mundo; vamos respeitar os prazos, preencher os formulários e defender logo a tese”.

Os projetos que deram certo ou que foram elogiados em passado recente estão agora a ser adotados como modelo. Os candidatos de hoje já não são desafiados como os de outrora. Muitos orientadores, sobretudo os mais jovens (eles próprios malformados) se desincumbiram do trabalho pedagógico e agora se contentam em apontar atalhos para os seus orientandos. Estes, por sua vez, ficam felizes ao saber que podem terminar tudo em um piscar de olhos.

Não há ânimo nem vocação que resista: a criatividade é inibida, as ideias ousadas são banidas e a originalidade, combatida. No fim das contas, não há como evitar que o nível das pesquisas decline, ano após ano. Nesse contexto, é possível entender como até mesmo as teses mais fracas se tornam dignas de certificação — é só respeitar as normas editorias do programa.[12]

A força das agências

Em meio a uma série de argumentos falaciosos[13] e, sobretudo, em razão da forte pressão financeira, os programas de pós de todo o país deram a mão à palmatória e terminaram por adotar a cartilha das agências de fomento; a começar, claro, por aquelas que estão mais entranhadas no ensino superior (CNPq e Capes).

Ao longo dos anos, as agências (federais e estaduais) adquiriram densidade política — além de corpo técnico — e hoje praticamente mandam e desmandam no dia a dia dos programas de pós. Como o grosso da pesquisa científica conduzida no país está atrelado aos programas de mestrado e doutorado, não seria exagero dizer que a pauta e a agenda da ciência brasileira são definidas pelos patrocinadores.

Não me parece que a situação seja de todo confortável. É como se estivéssemos todos dentro de um ônibus a cruzar um extenso deserto; dentro do ônibus, as condições são desconfortáveis; do lado de fora, porém, a morte é quase certa, razão pela qual dificilmente alguém irá saltar e seguir a viagem por conta própria. No caso da comunidade científica, o xis da questão é mais ou menos este: dificilmente os pesquisadores ou os grupos de pesquisa que dependem de financiamento — mesmo os mais veteranos — irão levantar a voz e anunciar que o rei está nu. É melhor permanecer sentado e se adequar às normas impostas pelo motorista. Os passageiros continuarão a discutir e a brigar entre si, mas a viagem seguirá adiante, em uma jornada que parece nos levar do nada a lugar nenhum.

Catraca enferrujada

A pós-graduação brasileira não forma cientistas. A rigor, o propósito inicial era qualificar minimamente os professores dos cursos de graduação. Os meus professores de graduação, por exemplo, com uma ou outra exceção, não sabiam o que era pós-graduação. Mas isso foi no final da década de 1970. De lá para cá, como tentei mostrar ao longo deste artigo, as coisas mudaram bastante. Algumas coisas mudaram para melhor, claro, mas outras não. Em minha opinião, os rumos da pós começaram a degringolar a partir da década de 1990 (leia-se: governos FHC I e II). Foi quando a qualidade foi empurrada para debaixo do tapete e a quantidade tomou as rédeas do jogo.

Em condições normais de temperatura e pressão, o propósito da pós deveria ser a formação de uma nova geração de gente bem-pensante. Parte dessa preocupação deveria estar voltada para a formação de novos cientistas. Estou a pensar em cientistas de verdade, gente com autonomia e senso crítico, a ponto de ser capaz de conduzir pesquisas inovadoras por conta própria, seja na área em que foi treinada, seja em áreas afins.

O que presenciamos hoje, no entanto, não é exatamente isso.

Involuntariamente ou não, o que a pós está a fazer é servir de catraca para ingresso no serviço público, notadamente o ensino superior. A partir do momento em que os concursos para seleção de docentes passaram a exigir como pré-requisito um ou mais diplomas de pós (mestrado e, logo depois, doutorado), a demanda por esses cursos cresceu e se consolidou.[14] A situação hoje é mais ou menos esta: os programas de pós estão a distribuir bilhetes para os futuros candidatos ao magistério superior.

A rigor, os programas estão a produzir apenas e tão somente gente diplomada (leia-se: gente formada às pressas e de qualquer jeito, que vive a repetir a receita de bolo que lhe foi imposta durante a pós-graduação, mas que talvez não seja capaz de planejar e conduzir pesquisas de modo autônomo e por conta própria). Um testemunho da situação absurda que vivemos é o crescente número de doutores desempregados (aqui).

Pois é. Muitos pós-graduados estão a sair da universidade pensando em como voltar o mais depressa possível, mas agora para receber um salário de professor, não apenas uma bolsa de doutorado ou de pós-doutorado. Ainda há também aqueles que saem da universidade imaginando que logo irão ingressar em uma carreira de cientista em alguma instituição de pesquisa ou em alguma empresa.

No primeiro caso, o que se passa é que as instituições dedicadas à pesquisa são relativamente raras e as poucas que existem, com uma ou outra exceção, foram esquecidas ou mesmo atacadas pelos dois governos anteriores (2016-2018 e 2019-2022). Outras sequem em uma trajetória histórica de abandono e sucateamento, como se fossem cometas a fugir do Sol. Veja, por exemplo, a história de penúria dos nossos museus de história natural (e.g., Nacional e Goeldi) ou a situação de algumas repartições que prestam um serviço de relevância óbvia e imediata (e.g., Inmet, Inpe e Embrapa).

O Inmet, por exemplo, acumula um número crescente de estações meteorológicas inativas ou abandonadas (aqui). No plano estadual, além da situação geral estar ainda mais tenebrosa, a falta de perspectivas é uma coisa desoladora. Veja o caso da Fundação Zoobotânica, por exemplo, que o governo gaúcho achou por bem destruir de vez (aqui).

Coda

Uma das ideias falaciosas mais antigas que conheço a respeito da universidade brasileira é a imagem alegórica de uma torre de marfim. Pessoalmente, eu gostaria muito que houvesse alguma torre. Não precisava ser de marfim, podia ser de madeira ou de bambu, bastava ter alguma solidez.

Há uma boa dose de elitismo no meio acadêmico, sem dúvida alguma, mas a universidade brasileira nunca foi uma torre, muito menos de marfim. Somos desde sempre uma sociedade assentada em uma economia extrativa e agroexportadora.[15] Não estranha, portanto, que as classes dominantes sejam tão atrasadas — além de profundamente corruptas e preguiçosas. As universidades brasileiras, claro, refletem isso, assim como outras instituições que lidam ou deveriam lidar com o mundo das ideias (e.g., Academia Brasileira de Letras). Seja porque a universidade interage com a classe dominante, seja porque está a forjar os membros da próxima geração.

Ao longo das últimas quatro décadas, o que eu encontrei de melhor em nosso meio acadêmico se parece mais com um galpão.[16] Um galpão de madeira; simples, mas sóbrio e espaçoso. No cômputo final, as nossas instituições de ensino superior — com destaque para as arapucas de natureza privada — me fazem pensar, não na imprópria alegoria de uma torre de marfim, mas sim em um monte de palha seca ao relento. Palha tão seca e miúda que qualquer ventinho leva embora.

*Felipe A. P. L. Costa é biólogo e escritor. Autor, entre outros livros de O que é darwinismo.

Referências


Balbachevski, E. 2005. A pós-graduação no Brasil: novos desafios para uma política bem-sucedida. In: Schwartzman, S & Brock, C, orgs. Os desafios da educação no Brasil. RJ, Nova Fronteira.

Bunge, M. 1987 [1980]. Epistemologia, 2ª ed. SP, TA Queiroz.

CGEE. 2024. Brasil: Mestres e Doutores 2024. Brasília, Centro de Gestão e Estudos Estratégicos. (Disponível em: https://mestresdoutores2024.cgee.org.br.)

Costa, FAPL. 2017. O evolucionista voador & outros inventores da biologia moderna. Viçosa, Edição do Autor.

Costa, FAPL. 2019. O que é darwinismo. Viçosa, Edição do Autor.

Garrett, L. 1995 [1994]. A próxima peste. RJ, N Fronteira.

Inep. 2024. Resumo técnico do Censo da Educação Superior 2022. Brasília, Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira / MEC. (Disponível aqui: https://www.gov.br/inep/pt-br.)

Koestler, A. 1989 [1959]. O homem e o universo. SP, Ibrasa.

Larivière, V. & mais 2. 2008. The declining scientific impact of theses: Implications for electronic thesis and dissertation repositories and graduate studies. Scientometrics 74: 109-21.

Losee, J. 1979 [1972]. Introdução histórica à filosofia da ciência. BH, Itatiaia & Edusp.

Romeiro, AR. 1998. Meio ambiente e dinâmica de inovações na agricultura. SP, Annablume & Fapesp.

Singh, S. 2006 [2004]. Big bang. RJ, Record.

Soares, DSL. 2002. A tradução de Big Bang. Sítio do Autor. (Disponível aqui.)

Schwartzman, S. 2022. Pesquisa e pós-graduação no Brasil: duas faces da mesma moeda? Estudos Avançados 36: 227-54.

Watson, JD. 1987 [1968]. A dupla hélice. Lisboa, Gradiva.

Notas


[1] Um guia comparativo dos quatro tipos de laboratório pode ser lido aqui. Para uma instrutiva leitura (em port.) sobre a importância dos laboratórios de alta segurança, ver Garrett (1995).

[2] Ciência aplicada não difere de ciência pura ou básica em termos de qualidade intelectual, precedência epistemológica ou prioridade histórica. A diferença é de foco: a ciência aplicada visa atender necessidades específicas. Para detalhes e discussões, ver Losee (1979) e Bunge (1987).

[3] Adoto aqui a proposta de Soares (2002), segundo a qual a tradução mais apropriada de Big Bang seria Estrondão; para uma introdução ao modelo, ver Singh (2006).

[4] Sobre Copérnico, ver Koestler (1989); sobre os demais, Costa (2017, 2019). O caso de Watson e Crick é particularmente ilustrativo: os dois foram agraciados com o Nobel (1963) por um achado cujo relato inicial ocupava tão somente duas páginas de uma edição da revista Nature (1953; 171: 737-8). Para um relato em primeira pessoa, ver Watson (1987).

[5] Que não haja dúvidas: Não é exatamente o fato de não ser lido que explica o fato de um artigo permanecer nas sombras. O xis da questão é a relevância. O sentido correto da relação causa-efeito aqui seria o seguinte: Muitos artigos permanecem na sombra porque são pouco ou nada relevantes e, por isso mesmo, pouco ou nada importam em termos de amparo ou inspiração para outros autores. Nos termos de quem vive e respira a corrida competitiva que caracteriza a arena científica, ler artigos pouco ou nada relevantes é visto tão somente como uma perda de tempo.

[6] A pós-graduação no país é uma experiência relativamente recente. Nas palavras de Schwartzman (2022, p. 228-9): “O sistema de cursos de pós-graduação no Brasil foi criado na década de 1970 por meio de dois estímulos relativamente independentes, um proveniente da área de educação, a partir da Reforma Universitária de 1968 e seus desdobramentos, e outro da área da ciência e tecnologia, sobretudo a partir do Ministério do Planejamento e suas agências de desenvolvimento, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). Na área da educação, a origem deste sistema foi a Lei n. 5.540, de 28.11.1968 (Lei da Reforma Universitária) que estabeleceu que a admissão e promoção de professores nas universidades deveriam ser feitas em razão de sua titulação e produção científica e que as universidades deveriam ampliar progressivamente o número de professores contratados em regime de dedicação exclusiva.”

[7] As teses estão a ser cada vez menos citadas como referência bibliográfica. De resto, as tradicionais teses monográficas estão sendo substituídas por outros modelos. Por exemplo, alguns programas (no Brasil, inclusive) estimulam que a tese seja repartida em capítulos minimamente coerentes e autônomos, cada um dos quais seria então redigido como um manuscrito independente a ser submetido para publicação em algum periódico. Nas palavras de Larivière et al. (2008, p. 110; trad. livre): “Embora o doutorado exista desde a Idade Média, foi apenas no início do século 19, quando o ministro da Educação prussiano, Wilhelm von Humboldt, estabeleceu um novo modelo universitário na Universidade de Berlim, que o grau de Doutor se tornou um diploma associado à produção de pesquisa científica original e ao treinamento de novos pesquisadores.”

[8] Não é à toa, por exemplo, que as editoras brasileiras se disponham a gastar muito mais dinheiro com a capa do que com o miolo dos livros.

[9] Alguns professores olham para seus alunos e veem neles apenas e tão somente uma mão de obra barata e minimamente qualificada a ser usada em certas etapas da pesquisa. Outra coisa: não são raros os professores que não têm uma linha própria de pesquisa; assim, caso os orientandos venham a falhar na produção de uma tese, essa turma não terá o que publicar.

[10] A partir de 1980 (ano em que eu entrei na pós), testemunhei um aumento expressivo em todas as estatísticas — e.g., número de programas de pós e número de alunos matriculados em cursos de mestrado e doutorado. Para ter uma ideia da velocidade e da magnitude desse crescimento, eis aqui um exemplo numérico. Nos Estados Unidos, ao longo de todo o século 20, o número de doutores diplomados a cada ano aumentou de modo quase que ininterrupto. Entre 1900 e 2000, a ordem de grandeza dos números saltou de +500 para +50.000 (Larivière 2008), o que equivaleria a uma taxa de crescimento anual de 4,7%. Os únicos anos de queda coincidiram com a Primeira e a Segunda Guerra Mundial. No Brasil, embora a série histórica seja bem mais curta (por aqui, os primeiros programas só tiveram início na segunda metade do século 20), o crescimento tem sido muito mais rápido. Entre 1996 e 2021, por exemplo, o número de novos doutores saltou de 2.854 para 20.679 (CGEE 2024), uma taxa de crescimento anual de 8,2%. É um exagero. Para mim, soa como uma abóbora gigante que não se pode comer. Considere o seguinte: no ritmo brasileiro, os EUA teriam chegado ao ano 2000 com a diplomação de ~1,4 milhão de doutores a cada ano, um número bem superior aos +50 mil referidos antes.

[11] Ou, para citar Balbachevski (2005, p. 279): “À medida que a pós-graduação se institucionalizava, o modelo dominante passava a ser aquele que exige do candidato a conclusão de número mínimo de disciplinas especializadas, sua qualificação junto a uma banca de professores e a defesa pública de uma tese diante de uma banca em que é norma a presença de pelo menos um professor externo ao departamento, no caso do mestrado, e dois, no caso do doutorado.”

[12] Um exemplo do tipo de tolice que os editores de algumas das nossas revistas técnicas fazem questão de alardear: “Em artigos científicos, nós não usamos a primeira pessoa do singular [Eu fiz] e sim a primeira pessoa do plural [Nós fizemos], mesmo quando o artigo só tem um autor”.

[13] Ladainhas do tipo: “Os doutores brasileiros estão a se diplomar em idade avançada”, “O país é pobre e está a desperdiçar recursos em programas demorados de pós-graduação”, ou “Precisamos acelerar a formação dos nossos doutores, só assim o país irá se tornar uma potência mundial”.

[14] Para um balanço recente, ver CGEE (2024).

[15] Sobre a história da agricultura brasileira, ver, e.g., Romeiro (1998).

[16] Em 2022, o país abrigava 2.595 IES, sendo 312 públicas e 2.283 privadas (Inep 2024). Entre as públicas, 115 eram universidades (37% das 312); entre as privadas, apenas 90 eram universidades (4% das 2.283). De 1977 até hoje, estive em 29 IES (18 universidades públicas e quatro privadas; um centro universitário público e seis faculdades ou centros universitários privados). Estudei em três dessas universidades públicas (UFJF, Unicamp e UnB).


Fonte: A Terra é Redonda

Em meio à crise hídrica em Campos, o que diz o secretário de Saúde sobre a garantia de segurança para os pacientes de hemodiálise?

agua-de-Hemodialise-1Em cada sessão de hemodiálise em torno de 120 a 200 litros de água são consumidos

Como filho de alguém que faleceu por insuficiência renal, após uma luta dura em uma clínica de hemodiálise, me ocorre perguntar ao secretário municipal de Saúde de Campos dos Goytacazes: o que está sendo feito para garantir que não haja nenhum comprometimento nos serviços prestados para os pacientes renais a partir do eventual comprometimento da qualidade da água utilizada nos procedimentos?

É preciso lembrar que no processo de filtragem feito durante a hemodiálise, um elemento é fundamental: a água tratada. Ali, a água é misturada com alguns solutos na máquina e se torna a solução de diálise. É essa solução que entrará em contato com o sangue na máquina para fazer a filtragem e manter a concentração do sangue correta.  Um fato ainda mais marcante: em uma única sessão de hemodiálise consome de 120 a 200 litros de água por paciente.

Assim, que passos já teram sido adotados pela Secretaria Municipal de Saúde de Campos dos Goytacazes após o reconhecimento de que a água tratada distribuída pela concessionária Águas do Paraíba está chegando aos pontos de consumo com, pelo menos, geosmina? Se para pessoas com condição clínica em que os rins estão saudáveis, o que isso pode significar para o tratamento de pacientes renais?

Voltando ao meu pai, quando em tratamento de hemodiálise e já na fase final da sua vida, ele podia consumir apenas um copo de água por dia, algo que o deixava particularmente angustiado. A partir da experiência do meu pai, me vem a pergunta de como os pacientes de hemodiálise de Campos dos Goytacazes podem ter certeza que seu volume máximo diário vai estar adequado? Com a palavra, o secretário municipal de Saúde!

E antes que eu me esqueça: a Águas do Paraíba poderia vir a público confirmar se o seu “produto” é próprio para uso em clínicas e pacientes de hemodiálise?

Giuliano Tinoco e a saída de mestre: se não consumiu a água fornecida, já foi ressarcido

agua geosmina

Ouvi antentamente a entrevista que o Diretor Executivo da concessionária Águas do Paraíba, Giuliano Tinoco, concedeu esta manhã ao radialista Cláudio Nogueira e uma declaração me chamou a atenção. Perguntado sobre o possível ressarcimento aos consumidores que optaram por comprar água mineral à luz das alterações percebidas na água fornecida pela empresa.

Tinoco respondeu à pergunta com uma saída de mestre. Ele deu a entender que o ressarcimento já se deu no momento em que o consumidor deixou de consumir a água fornecida pela sua empresa, diminuindo assim o valor da fatura a ser paga em algum momento do futuro.

Genial, não? Seria se não fosse pelo fato básica de que existe algo chamado como fatura mínima que seria a cobrança de um consumo de 10 m3, independente do que se tenha consumido menos. Eu, por exemplo, mensalmente consumo menos de que o valor da fatura mínima, mas invariavelmente pago pelos ditos 10 m3.

Algo que também precisa ser lembrado é que em Campos dos Goytacazes, há a cobrança pelo tratamento de esgoto, mesmo em bairros em que não há o efetivo tratamento do que é coletado (quando é coletado).

Assim, me vem a dúvida sobre o que já deveria estar fazendo o Procon-Campos para fazer garantir o direito dos milhares de consumidores cativos da Águas do Paraíba que continuam pagando uma das tarifas mais caras do Brasil para ainda ter que ouvir o tipo de sugestão oferecido por Tinoco que, nas condições atuais, é um verdadeiro tapa na cara dos campistas.

Fimalmente, não sei quantos mais ouviram as declarações de Tinoco, mas eu não me senti nem um pouco mais aliviado com as garantias dadas sobre a real qualidade da água que está sendo servida aos campistas nos dias atuais. Como foi citado que vários vereadores receberam os laudos que a concessionária teria para provar que tudo está certo, vamos aguardar as manifestações dos que tiveram acesso aos mesmos.

Vazamentos de gás em frigoríficos intoxicam funcionários e preocupam autoridades

Amônia é usada para refrigeração de carnes; especialistas ainda não sabem dimensionar a extensão dos impactos sobre a saúde, mas relatos de empregados sugerem consequências inclusive de longo prazo

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POR ISABEL HARARI | COLABORAÇÃO FRANCE JÚNIOR | EDIÇÃO NAIRA HOFMEISTER PARA A REPÓRTER BRASIL

Deu um estouro alto e todo mundo começou a gritar, correr, tinha gente caindo em cima das cadeiras, foi uma correria só. E aquele cheiro forte, entrando goela adentro” – é assim que João*, que até o ano de 2022 trabalhava no frigorífico da JBS em Pimenta Bueno, Rondônia, se refere a um vazamento de amônia que deixou ao menos 25 funcionários intoxicados em fevereiro de 2021. “Foi a pior experiência da minha vida. Eu morri e ressuscitei”, conta, lembrando como sua garganta foi fechando no trajeto entre o seu posto de trabalho e a área externa da fábrica – e como desmaiou e só acordou, horas depois, no hospital.

A amônia é um gás tóxico usado para refrigerar as carnes nos frigoríficos. A intoxicação provocada pela substância pode causar dificuldades respiratórias, queimaduras na mucosa do nariz, faringe e laringe, dor no peito, edemas no pulmão, náusea, vômitos e inchaço na boca. Também pode levar à morte, provocando asfixia. 

“Há grande preocupação com os recorrentes, e cada vez mais frequentes, episódios de vazamento de amônia, que em alguns eventos levam dezenas de trabalhadores aos hospitais, infelizmente com número considerável de óbitos”, afirma Leomar Daroncho, procurador do Ministério Público do Trabalho (MPT). As informações estão detalhadas no relatório Fábrica de acidentes, desenvolvido pelo programa de Pesquisa da Repórter Brasil em parceria com a organização dos Países Baixos, SOMO

Autoridades e fiscais do trabalho se dizem preocupados com frequência de acidentes com amônia e com as sequelas de longo prazo sobre atingidos (Foto: Isabel Harari/Repórter Brasil)

Entre 2014 e o final de 2020, foram noticiados ao menos dez casos, com 316 trabalhadores atingidos. O acidente mais recente ocorreu em abril, no município de Paraíso do Tocantins (TO). Antes disso, em dezembro do ano passado, 11 funcionários da JBS em Nova Andradina (MS) foram socorridos após um vazamento, e em junho de 2023, dezenas de empregados da JBS tiveram que ser hospitalizados após outro escape de gás ser registrado na unidade de Marabá (PA) da empresa.

Procurada pela Repórter Brasil, a JBS afirmou que suas políticas internas seguem a legislação brasileira e são revisadas anualmente com base em indicadores de saúde e segurança.  

Em outra ocorrência, em 2017, uma pessoa morreu e oito ficaram feridas após um vazamento na Minerva em Barretos (SP). A empresa diz que busca garantir um ambiente de trabalho seguro para seus funcionários, e destaca possuir certificações que atestam a saúde e segurança nas fábricas.  

Nesse mesmo ano houve um caso na Marfrig em Bataguassu (MS): “Todos correram para fora, mas mesmo assim acabaram intoxicados. Parece que o gás persegue a gente”, conta Anderson*, que era funcionário da planta na ocasião e foi entrevistado pela Repórter Brasil para esta série. Ao todo, 21 trabalhadores foram atingidos. A empresa, entretanto, diz que o acidente não teve “maiores consequências para a saúde e a segurança dos colaboradores” e reforça que “adota todas as medidas para a prevenção e a detecção de vazamento de amônia”.

A resposta completa da empresa pode ser lida aqui.

Vídeo vazamento de amônia na JBS em Marabá (PA) [Aqui!].

Por ser um método de refrigeração relativamente barato e eficiente, a substituição da amônia por produtos menos perigosos, como o uso do glicol, acontece a passos lentos.

Até que um novo sistema seja amplamente incorporado pelas empresas, o jeito é investir fortemente em medidas de prevenção e precaução, defende Daroncho. “Sinalização, detecção precoce, treinamento de utilização das rotas de fuga, incorporação do corpo de bombeiros na dinâmica dos treinamentos e, na hipótese de alguma ocorrência, que haja o socorro rápido e efetivo”, exemplifica.

‘Morri e ressuscitei’, diz trabalhador da JBS que foi uma das vítimas de vazamento de gás tóxico em 2021, me Rondônia (Foto: Isabel Harari/Repórter Brasil)

Efeitos de longo prazo são pouco estudados

A maioria dos estudos sobre a saúde do trabalhador exposto à amônia se debruça sobre os efeitos imediatos de uma exposição aguda, mas há pouca literatura científica abordando sequelas de longo prazo, como as provocadas por exposição crônica – que ocorre por micro vazamentos que não são detectados pelos sistemas da empresa nem chegam a ser percebidos pelo nariz humano já que em pequenas quantidades a amônia é inodora. Já há indicações de que este tipo de exposição repetida à amônia pode causar bronquite crônica.

Também ainda não há informações sobre as sequelas de longo prazo de quem sofreu uma exposição aguda, como a que ocorreu em Pimenta Bueno.

Depois de inalar amônia, João ficou oito dias internado no hospital e até hoje sofre de falta de ar, pressão alta, fraqueza muscular e dores. “Meu coração acelera por qualquer coisa e tem dias que eu acordo com muita dor de cabeça”, conta. Meses depois do vazamento ele foi dispensado pela empresa e hoje trabalha como autônomo.

Pedro também afirma que enfrenta sequelas da intoxicação. “Sinto fadiga constante, fraqueza nos ossos. Antes desse vazamento eu não tinha esses problemas, não sabia nem o que era um hospital, o que era um remédio”, desabafa. Ele tem pouco mais de vinte anos.

Roberto Ruiz, médico do trabalho da Universidade Federal de Santa Catarina e consultor de saúde da União Internacional de Trabalhadores da Alimentação (Uita), não descarta que os problemas possam estar relacionados à intoxicação pelo gás tóxico na fábrica.

“As consequências dependem do grau de exposição que a pessoa sofreu. Pode ter quadros leves, apenas irritação na garganta e nos olhos, até quadros mais graves, como pneumonite, uma inflamação do pulmão que, dependendo do grau, pode se tornar perene”, explica o médico.

“Quais seriam as sequelas crônicas dessa exposição aguda? Precisa estudar mais”, conclui.

Excesso de peso na linha de produção foi causa

Em Pimenta Bueno, uma decisão judicial sobre o caso aponta que o excesso de peso das 150 carcaças de boi penduradas na câmara de maturação forçou as tubulações de amônia, levando ao seu rompimento por volta das 10h da manhã. “Se você não for ligeiro e correr para fora, você morre lá dentro”, contou Ítalo, que também foi vítima do acidente em 2021. Os relatos em Pimenta Bueno incluem trabalhadores com sequelas, crises de pânico e ansiedade. 

No mês seguinte ao vazamento, o Ministério Público do Trabalho entrou com uma Ação Civil Pública pedindo uma série de ajustes na infraestrutura da planta, como o controle na quantidade e peso das carcaças armazenadas e o reforço nas estruturas das câmaras de resfriamento.

A Justiça acatou a demanda, e condenou a JBS, mas a empresa recorreu da decisão. À Repórter Brasil, a empresa comentou apenas que o pedido de indenização foi julgado improcedente pelo Tribunal de Justiça de Rondônia. As íntegras das respostas podem ser lidas aqui.

*Nomes fictícios para proteger a identidade do trabalhador


Fonte: Repórter Brasil

A luta por moradia digna: uma homenagem ao professor Antonio Godoy

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Antonio Godoy deixa um legado de excelência acadêmica e de compromisso com a construção de uma cidade mais justa, mas saudável e menos desigual

Por Luciane Soares da Silva

No ano de 2021 tive a oportunidade de unir forças com o Instituto Federal Fluminense no edital de seleção pública de projetos de apoio à assistência técnica em habitação de interesse social (ATHIS)  para patrocínio pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo  (CAU/RJ) Demetre Anastassakis. Fomos contemplados com o primeiro e segundo lugares e iniciamos a construção de instrumentos que possibilitassem a compreensão da urgência de acesso a moradia. O território escolhido foi a  Ocupação Novo Horizonte. Perto do Aeroporto de Campos dos Goytacazes este território continha à época aproximadamente 700 famílias. Sem luz, água e vivendo em condições de grande vulnerabilidade, abrigava principalmente mulheres e crianças. Desde então me aproximei do curso de Arquitetura e Urbanismo, seus professores, alunos e seu coordenador, o professor Antonio Godoy.

Nestes anos nossa cooperação se estreitou na troca de aprendizados, bancas, produção de artigos, trabalho de campo e envolvimento direto na divulgação de ATHIS, compreendendo a moradia como um processo muito mais amplo do que acesso à casa. As situações de vulnerabilidade urbana em Campos têm sido objeto de pesquisa ao mesmo tempo em que uma equipe multidisciplinar atua em áreas como a Chatuba, Margem da Linha e Novo Horizonte.

Antonio esteve presente na articulação de todas estas frentes, na relação com a Universidade Federal Fluminense e com a Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro. Como professor, pesquisador e orientador entusiasmado, experiente, engajado, era especialmente cativante sua generosidade em compartilhar a vida como aposta de trabalho. Árduo. A rede construída a partir destas colaborações, frutifica não apenas na produção de conhecimento mas na possibilidade de impactar diretamente as políticas públicas municipais.

Em 2021, defendeu a tese “O resultado da aplicação dos royalties do petróleo na intensificação da segregação espacial e nas transformações de Campos dos Goytacazes/RJ (1997-2020)” no Programa de Pós Graduação em Arquitetura, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Ao tratar da expansão urbana da cidade de Campos, abordou os conflitos que geram a cidade que conhecemos hoje. A valorização do solo, o crescimento da especulação imobiliária, a forma desigual da distribuição da produção habitacional. Godoy problematizou em sua tese a construção de conjuntos habitacionais em áreas periféricas, com  “menor oferta de equipamentos e serviços públicos”.

Recentemente estivemos juntos construindo coletivamente propostas que coloquem a assistência técnica em habitação de interesse social no centro de uma política municipal de governo para Campos. A possibilidade de “ouvir a sociedade” o motivava. E deve seguir motivando alunos, pesquisadores e toda população interessada em construir uma cidade mais justa, mas saudável e menos desigual.

Seu legado como professor e pesquisador seguirá conosco.