Indústria da carne age para distrair, atrasar e inviabilizar ação climática, diz relatório

Trabalho de organização europeia analisou 22 das maiores empresas de carne e laticínios em quatro continentes

meat industry“Os novos comerciantes da dúvida” foi lançado esta semana. Imagem: Divulgação/Changing MArkets Foundation

Por Cristiane Prizibiscki para o “Eco”

Relatório divulgado esta semana pela organização holandesa Changing Markets Foundation revela o que seriam as principais práticas empregadas sistematicamente pelos gigantes mundiais da carne e dos laticínios que resultam em distração, atraso e inviabilização do enfrentamento da crise climática. Intitulado “Os novos comerciantes da dúvida”, o trabalho analisou as ações de 22 das maiores empresas de carne e laticínios do mundo – incluindo a brasileira JBS – em quatro continentes.

Segundo o relatório, o setor tem inviabilizado ações climáticas significativas a nível global por meio de lobby junto a políticos, investimentos maciços em publicidade para públicos mais jovens e uso de ciência enganosa para minimizar o impacto que suas atividades têm nas emissões de metano e disseminar falsas alegações climáticas. 

Documentos obtidos via leis de acesso à informação revelam, por exemplo, o extraordinário acesso que o setor tem a políticos. Somente na última década, representantes da indústria da carne e laticínios tiveram mais de 600 reuniões de alto nível com a Comissão Europeia.

“Memorandos internos revelam como o principal grupo europeu da indústria láctea celebrou a manutenção do metano fora da legislação sobre qualidade do ar e está a preparar-se para mantê-lo assim nas próximas revisões da lei previstas para 2025”, diz trecho do relatório.

Fazendo uma comparação às táticas usadas pelas indústrias do tabaco e dos combustíveis fósseis, o relatório também revela que as grandes empresas do setor empregam táticas como a intimidação e o medo sobre consumidores e pequenos agricultores, ao alegarem que leis mais restritivas, por exemplo, implicariam em prejuízos para tais públicos.

A pesquisa envolveu mais de 15 investigadores especializados e jornalistas de investigação e decorreu entre fevereiro de 2023 e junho de 2024. 

A investigação mostra que as grandes indústrias do setor estão especialmente preocupadas com as gerações mais jovens, que consomem menos carne e laticínios do que as gerações anteriores. Elas visam, diz o documento, a “Geração Z” (nascidos entre 1995 e 2010) com campanhas publicitárias enganosas no TikTok e no Instagram, promovendo falsamente a carne e os laticínios como escolhas sustentáveis ​​e mais saudáveis ​​em países de alto consumo como os EUA e o Reino Unido, contra as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Os sistemas alimentares contribuem para aproximadamente um terço das emissões globais, sendo 60% provenientes da pecuária – a maior fonte de metano produzido pelo homem. No entanto, apenas 15 das 22 grandes empresas de carne e laticínios têm uma meta de emissões líquidas zero e nenhuma cumpre as normas da ONU. A Danone é a única empresa com uma meta específica de metano. 

“Tivemos as Grandes Indústrias do Tabaco, tivemos as Grandes Petrolíferas, agora temos as Grandes Carnes e Laticínios. ‘Os novos comerciantes da dúvida’ é uma exposição impressionante das táticas das grandes empresas de carne e laticínios. O relatório descreve exemplos específicos e flagrantes de campanhas de desinformação, greenwashing e interferência política. Esclarece como a indústria manipula o preço e os tipos de alimentos que comemos”, diz o pesquisador Paul Behrens, Professor Associado de Mudanças Ambientais na Universidade de Leiden, na Holanda.


Fonte: O (Eco)

COVID-19 pode impactar o cérebro de maneira semelhante à esquizofrenia e acelerar deficiências cognitivas

robina-weermeijer-IHfOpAzzjHM-unsplash-2Cientistas examinaram padrões de proteínas de cérebros de pessoas falecidas, que tinham esquizofrenia ou faleceram devido à COVID-19

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Ao infectar o cérebro, o vírus da COVID-19 afeta processos cerebrais também impactados por distúrbios como esquizofrenia e doença de Alzheimer. É o que aponta artigo publicado na sexta (19), na revista científica “European Archives of Psychiatry and Clinical Neurosciences”, assinado por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), do Instituto D’Or de Ensino e Pesquisa e do Centro Nacional de Pesquisas em Energia e Materiais (CNPEM). O achado pode colaborar para a compreensão e o tratamento dessas e de outras doenças com efeitos no cérebro.

Para investigar os mecanismos de atuação dessas condições, o grupo de pesquisadores examinou padrões de expressão de proteínas em cérebros de pessoas falecidas que tinham esquizofrenia ou que morreram devido à COVID-19, a partir de estudos prévios e de bancos de dados científicos. Eles identificaram uma espécie de assinatura cerebral proteica para cada uma das doenças. O segundo passo foi comparar esses padrões e entender quais funções do cérebro são afetadas pelas mudanças na quantidade e no tipo de proteínas presentes em relação a cérebros saudáveis.

“Nós esperávamos encontrar mais diferenças do que semelhanças, já que uma das condições é uma infecção viral aguda e a outra é uma doença que acontece desde o neurodesenvolvimento, com base genética”, explica Daniel Martins-de-Souza, pesquisador da Unicamp e autor do estudo. Contrariando as expectativas da equipe, os resultados mostram que diversas vias cerebrais em comum são afetadas pela COVID-19 e pela esquizofrenia, especialmente em termos de impactos moleculares e funcionais do cérebro.

Para o pesquisador, o que mais chama a atenção é a semelhança entre as duas condições nos processos que aceleram o envelhecimento cerebral. Além disso, ambas modificam os processos de obtenção de energia das células cerebrais e de comunicação com o organismo. A longo prazo, essa combinação pode contribuir para deficiências cognitivas e sintomas psiquiátricos, traços já observados em casos dessas doenças. “A infecção do vírus mostra um potencial de dessintonizar a maquinaria cerebral, deixando a pessoa mais propensa a eventos psiquiátricos e, aparentemente, também aos neurodegenerativos”, comenta o autor.

Outro efeito comum entre a COVID-19 e a esquizofrenia, destacado pelo estudo, é o aumento do risco de comorbidades metabólicas, como diabetes e síndrome metabólica, um grupo de condições que eleva o risco de ataques cardíacos e derrames. Isso porque essas condições alteram a maneira como o corpo processa carboidratos, como a glicose, resultando em dificuldades para regular os níveis de açúcar no sangue. Isso, por sua vez, aumenta a probabilidade de complicações graves e a taxa de mortalidade dos pacientes afetados.

As semelhanças encontradas pelo estudo na forma como as duas doenças atingem os mecanismos cerebrais podem levar a mais estudos e, no futuro, ao desenvolvimento de novas terapias para tratar pacientes afetados por uma ou ambas as condições. “Talvez a gente possa aprender mais sobre esquizofrenia com os dados de Covid e vice-versa”, ressalta Martins-de-Souza. “Acho que isso encurta caminhos para eventuais tratamentos, até mesmo na perspectiva de olhar para outras infecções virais que têm o potencial de afetar o cérebro, como o zika vírus, por exemplo”, conclui.


Fonte: Agência Bori

Análise realizada em farinha e arroz aponta altas taxas de toxinas fúngicas prejudiciais à saúde

Os alimentos estavam armazenados em residências de Ribeirão Preto e seriam consumidos por famílias participantes de pesquisa. Estudo é o primeiro do Brasil a usar biomarcadores para caracterizar o risco associado às micotoxinas na dieta

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A exposição a micotoxinas pela alimentação pode desencadear uma série de problemas de saúde, especialmente no caso de crianças e adolescentes (foto: André Borges/Agência Brasil)

Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP

Ao analisar amostras de farinha e de arroz armazenadas em residências de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) constataram a presença de altas quantidades de toxinas fúngicas (micotoxinas). Os resultados do estudo, que contou com apoio da FAPESP, foram divulgados no periódico Food Research International.

Como destacam os autores, a exposição a micotoxinas pela alimentação pode desencadear uma série de problemas de saúde, especialmente no caso de crianças e adolescentes. Os dados reforçam, portanto, a importância de armazenar alimentos como grãos e farinhas em locais secos e protegidos de insetos para evitar o risco de contaminação.

“Todos os microrganismos, incluindo os fungos, necessitam do chamado ‘binômio temperatura e tempo’ para se desenvolver em um substrato. Portanto, quanto mais tempo um alimento contendo fungos toxigênicos ficar armazenado em condições inadequadas, por exemplo, exposto ao ambiente, desprotegido, em local quente e úmido, maior a probabilidade de haver altas concentrações de micotoxinas”, afirma Carlos Augusto Fernandes de Oliveira, professor da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA-USP), no campus de Pirassununga, e coordenador do estudo.

Segundo o pesquisador, existem mais de 400 toxinas que os fungos produzem para se defender ou interagir com outros organismos. “Seis dessas substâncias, as quais chamamos de meninas superpoderosas, requerem mais atenção por serem carcinogênicas, imunossupressoras ou por atuarem como disruptores endócrinos [causarem alteração no equilíbrio hormonal do organismo]. É algo que demanda muita atenção pelos seus efeitos prejudiciais à saúde”, destaca.

Em todas as amostras analisadas foram encontradas as seis toxinas de preocupação: aflatoxinas (AFs), fumonisinas (FBs), zearalenona (ZEN), toxina T-2, desoxinivalenol (DON) e ocratoxina A (OTA). No caso das micotoxinas FBs, ZEN e DON as taxas estavam acima do limite de tolerância estabelecido pelos órgãos de saúde. Este estudo foi o primeiro no Brasil a usar biomarcadores para caracterizar o risco associado às micotoxinas na dieta de crianças e adolescentes.

Oliveira explica que a aflatoxina B1, descoberta na década de 1960, é o mais potente carcinógeno natural conhecido. A substância lesa o DNA dos animais, provocando mutações genéticas que podem levar ao desenvolvimento de carcinoma hepático. Há ainda outros efeitos, como imunossupressão, problemas reprodutivos e teratogênese (quando gestantes ou pessoas em amamentação transferem as toxinas para o embrião, feto ou criança, causando problemas de saúde).

“Não existe nenhuma substância conhecida pelo homem na natureza que tenha o poder cancerígeno dessa micotoxina, só raras exceções criadas em laboratório, como, por exemplo, dioxinas”, conta o pesquisador.

Já a desoxinivalenol, encontrada em altas taxas nas amostras analisadas, embora não seja carcinogênica, pode reduzir a imunidade de pessoas contaminadas. “Ela também tem efeito no sistema gastrointestinal. Nos animais, por exemplo, ela provoca tanta irritação que eles regurgitam. Por isso, ela é vulgarmente chamada de vomitoxina”, diz.

A fumonisina B1 é considerada um possível carcinógeno humano, podendo causar câncer esofágico e outros problemas hepatotóxicos, assim como a ocratoxina A, outro potencial carcinógeno. Já a zearalenona, encontrada em taxas elevadas nas amostras de alimento analisadas, possui uma estrutura idêntica à do hormônio feminino estrógeno, podendo produzir problemas relacionados ao excesso de estrógeno no organismo (hiperestrogenismo).

“São, portanto, toxinas com repercussões pesadas. Diferentemente do chumbo ou de outros contaminantes químicos, como o bisfenol [encontrado em alguns materiais plásticos], essas micotoxinas não são cumulativas. No entanto, elas têm efeito progressivo. Isso quer dizer, por exemplo, que, com a exposição a moléculas de B1, em algum momento não será mais possível reparar o DNA que foi lesado pela micotoxina. É a partir daí que pode surgir o câncer. Por isso, a nossa preocupação com crianças e adolescentes, que tendem a ser mais sensíveis a toxinas em geral”, afirma.

As análises foram realizadas por cromatografia líquida de ultraeficiência acoplada à espectrometria de massa em tandem (UPLC-MS/MS, método que permite discriminar diferentes substâncias em uma mistura com base no peso molecular). As 230 amostras de alimentos analisadas estavam disponíveis para consumo nos domicílios de 67 crianças, incluindo 21 pré-escolares (3 a 6 anos), 15 escolares (7 a 10 anos) e 31 adolescentes (11 a 17 anos).

O grupo está realizando uma segunda etapa do trabalho para identificar mais a fundo o grau de contaminação. Amostras de urina das crianças e adolescentes foram coletadas e os pesquisadores estão em fase de análise do resultado do material.

“A partir da análise de biomarcadores encontrados na urina é possível avaliar a exposição a micotoxinas, uma vez que a excreção de biomarcadores se correlaciona bem com a ingestão de algumas micotoxinas. Com isso poderemos antever potenciais efeitos da contaminação”, adianta Oliveira à Agência FAPESP.

O artigo Exposure assessment of children to dietary mycotoxins: A pilot study conducted in Ribeirão Preto, São Paulo, Brazil pode ser lido em: www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0963996924001571.


Fonte: Agência Fapesp

Desmatamento da Amazônia é ainda mais impactado por demandas do centro-sul do que pelas exportações

Estudo da USP mostra que a expansão da pecuária, pressionada pelo aumento do consumo interno, foi o fator que mais contribuiu para a eliminação ou degradação da cobertura vegetal da região. Produção agrícola vem em segundo lugar

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Atualmente, 23% da área correspondente à Amazônia Legal Brasileira já foi desmatada e mais de 1 milhão de km2 encontram-se degradados (foto: Ibama)

José Tadeu Arantes | Agência FAPESP 

A Amazônia Legal Brasileira (ALB) – que compreende toda a parte da Bacia Amazônica situada no Brasil e vastas porções adjacentes do Cerrado, estendendo-se por nove Estados – soma mais de 5 milhões de quilômetros quadrados (km2) e corresponde a quase 60% do território nacional. Atualmente, 23% dessa área já foi desmatada e mais de 1 milhão de km2 encontram-se degradados, colocando a região em risco de atingir um ponto de inflexão ecológica que poderia colapsar os ecossistemas e liberar bilhões de toneladas de carbono na atmosfera. Algumas regiões da ALB, especialmente nas franjas do Cerrado e no chamado “Arco do Desmatamento”, já são emissoras líquidas de carbono. A manutenção da área preservada e a recuperação de porções degradadas são necessidades urgentes, que mobilizam diferentes atores da comunidade global.

A demanda estrangeira por commodities é frequentemente considerada a motivação principal do desmatamento. Mas, embora esta constitua um fator muito relevante, os mercados domésticos exercem pressão ainda maior. Foi o que constatou um estudo realizado por Eduardo Haddad e colaboradores, publicado na revista Nature Sustainability.

“O desmatamento é frequentemente avaliado a partir da perspectiva da oferta, ou seja, quais setores produtivos estão promovendo a substituição das florestas por outros usos da terra, como agricultura e pecuária. A metodologia que adotamos permite ver o fenômeno do desmatamento também a partir da perspectiva da demanda, identificando as fontes de estímulos econômicos para que os setores produtivos se envolvam no desmatamento. Com base nesse critério, nosso estudo mostrou que 83,17% do desmatamento foi desencadeado por demandas de fora da Amazônia e apenas 16,83% por demandas da própria região. Na composição dos 83,17%, verificamos que 59,68% foram decorrentes de demandas do restante do Brasil e 23,49% de demandas do comércio internacional”, relata Haddad.

O pesquisador é professor titular da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA-USP) e consultor de agências internacionais de desenvolvimento, como o Banco Mundial (BM), Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e o Joint Africa Institute (JAI).

A metodologia adotada no estudo baseou-se principalmente na chamada Matriz de Insumo-Produto (MIP). Criada pelo russo naturalizado norte-americano Wassily Leontief (1906-1999), a MIP (Input-Output Matrix, em inglês) representa matricialmente as relações entre os diversos setores da economia, registrando os fluxos de bens e serviços e possibilitando conhecer os impactos que as alterações em um setor produzem nos outros.

“No Brasil, a MIP mais recente foi feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística [IBGE] em 2015. Devido à complexidade matemática e à restrição de acesso aos dados de milhões de empresas e suas estruturas comerciais, não houve atualização depois disso. Usar dados de 2015 poderia ser inadequado se não fosse pelo fato de que, infelizmente, a estrutura da economia brasileira mudou muito pouco desde então. A década de 2010 foi a pior na série histórica de 120 anos do Produto Interno Bruto do país, com crescimento de apenas 0,3% ao ano. Por isso, utilizamos a MIP de 2015 adaptada para a Amazônia Legal Brasileira, combinada com dados setoriais e regionais de desmatamento e de emissões de gases de efeito estufa, para medir os impactos diretos e indiretos da demanda doméstica e internacional por insumos e produtos finais da ALB, com foco em setores intensivos em desmatamento, como a agricultura e a pecuária”, explica Haddad.


A configuração atual da Amazônia Legal Brasileira (imagem: IBGE)

Mudanças no uso da terra

A Amazônia passou por enormes transformações no último meio século. Inovações técnicas, investimentos em infraestrutura e mudanças políticas facilitaram a expansão do cultivo de soja: da região central do Cerrado para vastos segmentos da ALB. A produção local de soja, que era inferior a 200 toneladas em 1974, representando apenas 0,02% do montante nacional, alcançou 50 milhões de toneladas em 2022, 41,5% do total brasileiro. Igualmente vertiginoso foi o crescimento da pecuária: de 8,9 milhões de cabeças de gado em 1974 (9,5% do rebanho brasileiro) para 104,3 milhões de cabeças em 2022 (44,5% do total).

“A expansão da pecuária atendeu principalmente ao crescimento do consumo de carne, produtos lácteos e couro em outras regiões do país. Impulsionado pelo aumento da renda média per capita e pela rápida urbanização, o consumo de carne no Brasil subiu acima da média global após os anos 1960. Dos 1,4 milhão de hectares desmatados pela pecuária, 61,63% visaram atender, direta ou indiretamente, à demanda interna de fora da Amazônia e 21,06% à demanda internacional. O desmatamento por atividades agrícolas mostra um padrão diferente, com 58,38% atendendo à exportação e 41,62 ao mercado interno”, informa Haddad.

O estudo ressalta que, apesar de afetar diferentes biomas da Amazônia Legal, o desmatamento ocorrido até agora no Brasil se concentrou geograficamente nessa região. Em 2015, a ALB respondia por 65,7% do total do desmatamento acumulado no país. A pecuária foi a principal causa imediata (93,4% do total regional), seguida pela produção agrícola, principalmente de soja, milho e algodão (6,4%), e pela mineração (0,2%). A construção de infraestrutura e o processo intensivo de urbanização também fazem parte dos fatores antrópicos diretamente ligados à eliminação ou à degradação da cobertura vegetal original da Floresta Amazônica e do Cerrado.

“Atividades ilegais, como a grilagem de terras, são muito relevantes no contexto. Um estudo recente mostrou que metade do desmatamento da ALB nas últimas duas décadas ocorreu em terras públicas ocupadas ilegalmente por grileiros. Disputas legais têm levado décadas e não impedem que a maioria das áreas ilegais ou do desmatamento ilegal em propriedades privadas participe tanto do mercado de terras quanto do processo de produção”, acrescenta Haddad.

O estudo em pauta demonstra que a demanda econômica originada no centro-sul mais desenvolvido do Brasil impõe uma pressão ainda maior sobre o desmatamento na Amazônia do que as exportações internacionais. Esse conhecimento é muito relevante para orientar políticas públicas e ações da sociedade civil voltadas para preservação ou regeneração. E, como as mudanças no uso da terra, por meio da pecuária e da agricultura, continuam sendo as principais fontes de emissões de dióxido de carbono (CO2) no Brasil, o controle do desmatamento e da degradação torna-se imperativo para que o país possa cumprir suas metas de redução de emissões de gases de efeito estufa.

Além de Haddad, participaram do estudo Inácio Fernandes de Araújo Junior, Rafael Feltran Barbieri, Fernando Salgueiro Perobelli, Ademir Rocha, Karina Simone Sass e Carlos Afonso Nobre.

O grupo recebeu apoio da FAPESP por meio de dois projetos (14/50848-9 e 21/12397-9).

O artigo Economic drivers of deforestation in the Brazilian Legal Amazon pode ser acessado em: www.nature.com/articles/s41893-024-01387-7.


Fonte: Agência Fapesp

Uenf e a disseminação de fake news: o que há de novo sob o sol de Parador?

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Desde a última 6a. feira (13/7) a comunidade universitária da Uenf permanece imersa em um debate que foi iniciado por anúncio feito pela reitora Rosana Rodrigues de que uma denúncia anônima sobre um suposto caso de assédio sexual seria uma espécie de prova de que estamos sob a influência de uma campanha fake news (ou em português, notícias falsas). 

Essa associação entre uma denúncia anônima que teria sido colocada em um banheiro no andar em que a reitora possui seu gabinete e uma campanha de fake news contra a Uenf foi materializada pela apresentação de uma proposta de moção de repúdio proposta na reunião do Conselho Universitário, e que ainda está por ser tornada pública.

Particularmente mantenho reservas sobre a associação que está sendo feita pela reitoria da Uenf entre denúncia anônima e uma campanha orquestrada para a criação e disseminação de fake news. Por que digo isso? É que este blog foi o primeiro espaço público a tratar do uso de fake news dentro da Uenf, ainda no mês de abril de 2023. Logo no 1o. de abril,  escrevi uma postagem dando conta do risco de que as eleições que ocorreriam no segundo semestre para eleger o novo reitor da universidade fossem marcadas por uma intensa campanha de fake news.

A postagem de abril funcionou como uma espécie de premonição, pois a campanha eleitoral para a reitoria acabou efetivamente sendo maculada pelo uso explícito de fake news contra a chapa formada pelos professores Carlos Eduardo de Rezende e Daniela Barros. A situação chegou a tal ponto que o professor Rezende teve que produzir uma série de vídeos para explicar o que não pretendia fazer o que as “fake news” diziam que ele estaria pretendendo fazer, caso fosse eleito. Analisei aquela situação em nova postagem que foi publicada em agosto de 2023.

Há que se dizer que os membros da chapa derrotada foram ainda alvo de uma intensa campanha que grassou livre nas redes sociais e mais livremente ainda em grupos de Whatsapp que contribuíram diretamente para que eles tivessem que passar muito tempo se explicando em relação a uma série de mentiras deslavadas (ou seja, fake news) que implicaram em um forte desgaste pessoal para Carlos Rezende e Daniela Barros, e também, obviamente, em suas chances eleitorais.

Logo após as eleições vencidas pela chapa formada pelos professores Rosana Rodrigues e Fábio Olivares, voltei a abordar os problemas que marcaram as eleições para a reitoria da Uenf no dia 21 de setembro de 2023, quando analisei as atividades de um perfil na rede social Instagram que se intitula “Uenfspotted“. Naquela postagem em específico, tratei de uma “boca de urna” eletrônica que teria sido feita com indicações óbvias de que fora feita mais para influenciar do que para captar preferências.

Pois bem, como procurei demonstrar em minhas postagens ao longo de 2023 foi que eleições que deveriam ter sido marcadas por um debate calcado apenas em compromissos com a consolidação de uma universidade dentro de padrões democráticos foram, na verdade, mais um palco para o uso de ferramentas que utilizaram esquemas que visavam claramente manchar reputações a partir do uso explícito de fake news.

O curioso é que nem no momento ou depois das eleições se viu por parte da reitoria da Uenf, a denúncia de fake news como algo que estaria ameaçando a manutenção de um “ambiente universitário saudável, ético e baseado na verdade”. Em relação ao que ocorreu durante as eleições, o silêncio foi próprio daquele que ocorre em ambientes repletos de sepulcros.

Mas vá lá, como uma pessoa otimista que sou, a minha expectativa é que agora a reitora e o vice-reitor da Uenf tenham acordado para o risco posto pela disseminação de fake news em um ambiente universitário. E mais ainda que  também cuidem de apurar eventuais denúncias de assédio (em todas as suas formas) com o devido rigor e que punam os eventuais responsáveis nas formas previstas pela lei.

 

A Uenf sob o manto da confusão (II): antes da apuração, o veredito via mídia corporativa?

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Notei aqui neste blog uma situação esquisita que está ocorrendo neste momento no campus Leonel Brizola envolve a denúncia até agora anônima de um suposto caso de assédio sexual. Como escrevi, esse caso deveria ter sido cuidadosamente apurado pela reitoria antes que houvesse qualquer pronunciamento público ou publicização via a mídia corporativa local.

Eis que hoje o assunto continua sendo veiculado em um veículo da mídia corporativa campista com a apresentação de diversas manifestações sobre o caso, inclusive da reitora Rosana Rodrigues. No caso específico da reitora, ela não deveria estar se colocando em uma posição pública antes de ter sequer tomado a iniciativa básica de fazer instaurar uma comissão especial de sindicância. 

E pior, é que se alguém cometeu um delito e uma infração administrativa, ao caluniar alguém, a reitora incorreu em um grave erro, ao divulgar as diligências que eventualmente estejam em andamento, o que pode favorecer o(a) infrator (a). E mais ainda, se realmente houve um assédio, a ação da reitora é pior ainda porque o que está se fazendo é re-vitimizar a vítima, e coagir (o) a noticiante.

Por outro lado, uma coisa que salta aos olhos nessa cobertura continuada do caso é que não há uma apuração mínima em torno do objeto da denúncia anônima, que seria a ocorrência de um caso de assédio. Mais interessante ainda é que um dos citados na denúncia anônima é um frequentador assíduo da programação do referido veículo da mídia corporativa, o que deveria ter suscitado uma ação mais cuidadosa por parte dos seus proprietários, e principalmente algo que se assemelhasse a uma apuração imparcial dos fatos.

Há que se lembrar ainda que a Uenf está localizada na mesma cidade onde ocorreu o rumoroso caso das “Meninas de Gurarus, o que deveria ter acendido luzes de cuidado nas redações locais. Mas, pelo jeito, mais uma vez parece que não se aprendeu nada com a história. Mas, pensando bem, esperar o contrário seria demais em se tratando de quem se trata.

Uma coisa é certa: as possibilidades de apuração imparcial desse caso estão completamente contaminadas pela cobertura jornalística pobre de um caso que deveria ter ficado sigiloso. Com isso, a reitora Rosana Rodrigues está perdendo uma excelente oportunidade para mostrar que sua propaganda eleitoral virou prática de governo. E com isso,  perde a Uenf, mas principalmente suas estudantes e professoras que terão ainda mais dificuldade de expor casos de assédio dentro do campus Leonel Brizola.

Por onde anda Wally?

Por Douglas Barreto da Mata
Onde está Wally? Não, mesmo que você procure, você não vai encontrar Wally na foto abaixo.
wallyAliás, não é Wally que deveria estar na imagem, mas sim a deputada estadual Carla Machado.

Afinal, depois de ser a quase-ex-futura-candidata à prefeita pelo PT, e de juras de amor e fidelidade mútuas entre os petistas e a parlamentar, soa, no mínimo, intrigante o fato dela não estar na fotografia de convocação da Convenção do PT, ao lado de outras figuras proeminentes.

O PT, que poderia se chamar, no caso da deputada, de PG (porta giratória), parece que vai ter que sofrer para herdar as intenções de votos que deseja, e que estão no patrimônio político da deputada.

Ao que nos parece, a deputada recolheu “todos seus pertences”, e só não deixou o “lar” (partidário), por medo de ficar sem mandato. Assim, vão manter um “casamento de aparências”, sem qualquer laço de afinidade eleitoral. 

Os votos dela? Acho que o PT não vai ficar com nada, senão com as lembranças das promessas não cumpridas de “amor”. Porém, o que nos espanta não são essas conjecturas. Nada disso.

Espantosa é a falta de qualquer profissionalismo, de qualquer engenhosidade política, e permitir que se produza um material sem a deputada estadual, justamente ela que se dizia a referência de viabilidade do partido.

Ou seja, mesmo em um “casamento de aparências”, são necessárias certas formalidades, certos modos e salamaleques. E aqui, sim, entre a deputada e o PT tudo é o que parece ser. Enfim, por onde quer que se olhe, foi uma tragédia essa relação.

Pelo jeito, agora nem eu te ligo, nem você me telefona. Triste sina desse partido na cidade de Campos dos Goytacazes, e no Estado do Rio de Janeiro. Fazendo um trocadilho com os temas matrimoniais, um “péssimo partido”.

Vitória da Bayer em julgamento sobre Glifosato é anulada por tribunal do Oregon

Bayer Monsanto

Por Carey Gillam para “The New Lede”

Um tribunal de apelações do Oregon anulou na quarta-feira uma vitória judicial da proprietária da Monsanto, a Bayer AG, em uma decisão que se soma a um debate em andamento sobre os esforços da empresa para criar uma proteção legal e legislativa nacional contra ações judiciais alegando que o herbicida Roundup causa câncer.    

O tribunal concluiu que o juiz de primeira instância no caso proibiu indevidamente que evidências importantes sobre a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) fossem apresentadas ao júri, o que poderia ter levado o júri a decidir em favor do reclamante. E, notavelmente, o tribunal rejeitou argumentos da empresa de que alegações sobre os perigos de seus produtos deveriam ser proibidas porque esses produtos carregam o selo de aprovação da EPA.

Outros tribunais rejeitaram de forma semelhante os chamados argumentos de “preempção” da Bayer, que comprou a Monsanto em 2018. Mas, depois de não conseguir apoio judicial, a Bayer tem pressionado os legisladores estaduais e federais a darem a ela e a outros fabricantes de agrotóxicos a proteção que os tribunais rejeitaram. Uma medida proposta está sendo considerada pelos legisladores para inclusão no US Farm Bill. A Bayer/Monsanto argumentou sem sucesso ao tribunal de apelações que o caso nunca deveria ter ido a um júri porque as alegações deveriam ter sido preemptivas.

Em uma declaração emitida após a decisão, a Bayer disse que discordava da decisão do tribunal e estava considerando suas opções legais. “Continuamos confiantes de que o Roundup não foi responsável pelos supostos ferimentos neste caso com base no peso esmagador de pesquisas científicas e avaliações de reguladores de saúde e cientistas líderes em todo o mundo, incluindo a EPA e a União Europeia, que apoiam a segurança de produtos à base de glifosato”, disse a empresa na declaração. A Bayer disse que “alcançou resultados favoráveis ​​em 13 dos últimos 19 julgamentos, incluindo os últimos quatro, e resolveu a esmagadora maioria das reivindicações neste litígio. 

O advogado Andrew Kirkendall, que representou o autor no caso, disse que acolheu a decisão do tribunal e estava ansioso para julgar novamente o caso com as evidências sobre a EPA incluídas.

“Não é inofensivo” 

O depoimento que o juiz de primeira instância se recusou a permitir deveria ter vindo de Charles Benbrook, um ex-professor pesquisador que serviu como diretor executivo do conselho de agricultura da Academia Nacional de Ciências. Benbrook é autor de artigos críticos sobre o tratamento da EPA com os herbicidas de glifosato, observando que a agência deu pouco peso à pesquisa independente sobre os produtos realmente vendidos no mercado e usados ​​por milhões de pessoas ao redor do mundo. Em vez disso, a EPA se baseou principalmente em estudos pagos pela Monsanto e outras empresas que vendem herbicidas de glifosato que não encontraram preocupações com câncer.

“Há uma nova ciência importante para compartilhar com o júri que esclarece por que e como o Roundup pode causar câncer”, disse Benbrook esta semana após saber da decisão do tribunal.

Excluir o depoimento de Benbrook foi um erro que “não foi inofensivo”, disse o tribunal de apelação em sua decisão.

“A Bayer/Monsanto se defendeu alegando que cumpria os regulamentos da EPA, e o depoimento do Dr. Benbrook teria ajudado o júri a entender a estrutura regulatória aplicável — o que a EPA faz e não faz, o que fabricantes como a Monsanto são obrigados a fazer, etc. Como o Dr. Benbrook foi excluído, nenhuma testemunha do reclamante abordou a estrutura regulatória. Tal depoimento teria sido relevante para a teoria do caso do Autor e qualitativamente diferente das outras evidências apresentadas”, concluiu o tribunal de apelação do Oregon.

A Bayer disse em sua declaração pós-decisão que continua a acreditar que a exclusão de Benbrook foi apropriada. A Bayer “não acredita que ele esteja qualificado para testemunhar sobre questões científicas ou o processo regulatório da EPA”, disse a empresa.

O tratamento dado pela EPA à Monsanto e seus produtos de glifosato tem sido alvo de muita análise nos últimos anos, já que documentos internos revelaram muitas interações questionáveis ​​e negócios secretos que, segundo os críticos, minam a credibilidade da supervisão da agência.

Em 2022, um tribunal federal concluiu que a EPA não seguiu as diretrizes estabelecidas para determinar o risco de câncer, ignorou estudos importantes e desconsiderou o aconselhamento especializado de um painel consultivo científico em sua supervisão do glifosato.

 Questão de preempção

O caso no cerne da nova decisão é apenas um dos mais de 100.000 movidos em tribunais dos EUA por pessoas que alegam que seu uso de herbicidas da Monsanto feitos com um produto químico chamado glifosato fez com que desenvolvessem linfoma não-Hodgkin (NHL). O litígio começou depois que a Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer  (IARC) classificou o glifosato  como um provável carcinógeno humano, encontrando  evidências “fortes”  de genotoxicidade e uma “associação estatisticamente significativa entre linfoma não-Hodgkin e exposição ao glifosato”. 

Nos últimos anos, a Bayer foi condenada por júris — ou acordada em acordos — a pagar bilhões de dólares em danos a muitos dos demandantes.

Mas a empresa também ganhou vários casos em julgamento, incluindo o caso do Oregon que é o assunto da decisão desta semana. O autor nesse caso é o morador do Oregon, Larry Johnson, que começou a usar Roundup à base de glifosato na década de 1990 para matar ervas daninhas ao redor de sua casa. Johnson continuou usando Roundup por mais de 20 anos até ser diagnosticado com NHL em 2019, de acordo com o processo.

Johnson alegou, assim como outros demandantes no litígio Roundup em andamento, que a Monsanto sabia há muito tempo de estudos científicos conectando seus herbicidas à base de glifosato ao câncer e deveria ter alertado os clientes sobre os riscos. Os processos alegam que a Monsanto se envolveu em uma série de atividades fraudulentas para ocultar evidências da conexão com o câncer, incluindo estudos de ghostwriting para perpetuar suas alegações de que os produtos são seguros e se envolver em negociações secretas com a EPA para proteger sua capacidade de vender produtos à base de glifosato.   

A Monsanto cita a determinação da EPA de que o glifosato não é provável” que cause câncer em sua defesa  e afirma que a Lei Federal de Inseticidas, Fungicidas e Raticidas (FIFRA) prevalece sobre as alegações da lei estadual porque a EPA aprovou os rótulos do Roundup e de outros produtos com glifosato sem a necessidade de um aviso sobre câncer.  

Mas o tribunal de apelações foi o mais recente de vários tribunais a rejeitar esse argumento da Bayer/Monsanto.

A Bayer/Monsanto “confia na aprovação da EPA do selo Roundup e afirma que essa aprovação – que não inclui um aviso sobre câncer – preempta as alegações do autor”, afirma o tribunal em sua decisão. “Mas, em nossa opinião a aprovação da EPA de um selo sob a FIFRA não preempta as alegações da lei estadual.” A FIFRA permite especificamente que os estados tenham um papel na regulamentação de pesticidas para produtos vendidos dentro de seus limites, a menos que o uso do produto seja proibido pela FIFRA, disse o tribunal.

O tribunal observou que, juntamente com a proibição do testemunho de Benbrook, o juiz de primeira instância – a pedido da Monsanto – instruiu especificamente o júri do caso a levar em conta a supervisão da EPA. O tribunal ordenou que a vitória do julgamento para a Monsanto fosse “revertida e reenviada”.

Um novo julgamento não é automaticamente acionado pela decisão – a proprietária da Monsanto, Bayer, pode pedir reconsideração pelo tribunal de apelação e pode buscar uma revisão pela Suprema Corte do Oregon. Mas Kirkendall disse que estava confiante de que seu cliente teria outro dia no tribunal.

“Assim que superarmos esses obstáculos, o Sr. Johnson terá um novo julgamento”, disse ele. 


Fonte: The New Lede

Bayer retira contestação legal à proibição do México ao glifosato e aos OGMs

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As subsidiárias da Bayer/Monsanto, Semillas y Agroproductos Monsanto e Monsanto Comercial, ratificaram sua retirada em 25 de junho

Por Sustainable Pulse

No que está sendo chamado de uma vitória significativa para o México, a Monsanto retirou seu desafio legal contra o decreto presidencial de 2020 que visava proibir o glifosato e o milho geneticamente modificado (GM) para consumo humano, informou o Mexico News Daily . O Conselho Nacional de Humanidades, Ciências e Tecnologias (Conahcyt) do governo mexicano anunciou a decisão como um triunfo para a vida, a saúde e a soberania alimentar“.

A Monsanto da Bayer produz o herbicida Roundup, um dos vários produtos à base de glifosato que são usados ​​no cultivo de organismos geneticamente modificados (OGM), como milho, algodão e soja Roundup Ready. Uma modificação genética comum torna as plantações resistentes ao glifosato, permitindo que os agricultores apliquem grandes quantidades do herbicida em plantações OGM.

A batalha jurídica foi iniciada em resposta ao  decreto de 2020 do presidente Andrés Manuel López Obrador  para proibir o herbicida amplamente utilizado, mas controverso, que a Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou como um “provável cancerígeno”, embora sua segurança continue sendo um assunto de debate.

A batalha incluiu mais de 30  ações de amparo  (ordem de proteção judicial) visando declarar o decreto inconstitucional. Em julho de 2022, por exemplo, a Bayer, que adquiriu a Monsanto há seis anos,  obteve uma ordem judicial contra a aplicação do decreto.

No entanto, a maioria dos casos concluiu com decisões desfavoráveis ​​às corporações envolvidas. Conahcyt forneceu defesas científicas e legais,

A decisão do juiz Francisco Rebolledo Peña de julho de 2022 em favor da Monsanto foi apelada pelo Ministério do Meio Ambiente e Recursos Naturais (Semarnat), pela Comissão Federal de Proteção contra Riscos Sanitários (Cofepris) e pela Conahcyt.

Citando preocupações com direitos humanos e segurança ambiental, o recurso eventualmente levou a Quarta Corte Colegiada de Assuntos Administrativos do México a rejeitar os argumentos da Monsanto. No início deste ano, o mesmo órgão  rejeitou um apelo movido pelo Walmart México contra a lei de controle de tabaco atualizada do país,  que adicionou proibições promocionais e de publicidade à proibição nacional contra fumar em áreas públicas.

O recuo da Monsanto não é seu primeiro revés legal. A empresa enfrentou um extenso litígio nos Estados Unidos, pagando bilhões em danos punitivos e acordos ligados aos riscos cancerígenos do glifosato.

Documentos internos revelados durante os testes no México indicaram que a Monsanto estava ciente dos riscos de câncer do glifosato e se envolveu em práticas científicas enganosas e desacreditando pesquisadores independentes.

O decreto de 2020 foi substituído por um decreto de 2023, que reafirmou a proibição inicial e introduziu restrições adicionais ao milho transgênico.

Isso levou o México a também enfrentar a ira dos Estados Unidos, que não ficaram felizes com o plano mexicano de proibir a importação de milho transgênico para uso em massas e tortilhas até 2024 e, então, eliminar gradualmente as importações de milho transgênico para qualquer tipo de consumo humano e, depois, para uso como ração animal.

Em 2023, o governo dos EUA anunciou que havia solicitado a criação de um painel de solução de controvérsias para resolver o problema.

A Monsanto também queria suspender o decreto de 2023 e, alguns meses atrás,  o México parecia estar cedendo um pouco quando adiou a proibição do glifosato, alegando falta de alternativas disponíveis.

Ao rejeitar os últimos desafios legais da Monsanto, a juíza Elizabeth Trejo Galán enfatizou a precedência do interesse público sobre o privado.

A Conahcyt observou em um comunicado à imprensa  que continua apoiando práticas agrícolas alternativas e bioinsumos, destacando sua eficácia em diversas regiões.

Observando que a vitória legal sobre a Monsanto ressalta o comprometimento do México em proteger a saúde pública e a integridade ambiental, a Conahcyt prometeu continuar seus esforços para garantir que o milho transgênico e o glifosato sejam removidos do fornecimento de alimentos mexicano.


Fonte: Sustainable Pulse

Uenf sob o manto da confusão: a publicização precoce de fatos internos sem a devida apuração serve a quais propósitos?

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Estou na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) desde janeiro de 1998 e já presenciei vários eventos esquisitos, mas um que ganhou as manchetes da mídia corporativa local está no topo das esquisitices. Falo aqui de uma denúncia assédio sexual que foi divulgada de forma que eu considerei incorreta na última reunião do Conselho Universitário que ocorreu no dia 12 de julho.

A denúncia colocada de forma anônima nas paredes do prédio da reitoria da Uenf envolve dirigentes universitários e, por isso mesmo, já deveria ter resultado na abertura de uma comissão especial de sindicância (CES) que é o mecanismo institucional para apurar fatos e decidir pela tomada de uma série de medidas que podem resultar ou não em um inquérito administrativo.

Estranhamente, o fato foi divulgado pela reitora Rosana Rodrigues sem que ela nos informasse se já tinha determinado a abertura de uma CES. Ao verificar a edição desta segunda-feira (15/7) do Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro, não verifiquei que uma CES tenha ainda sido aberta.

Por outro lado, o fato ainda sem apuração ganhou ares públicos com a publicação de um artigo de opinião em um veículo local com uma manchete que é, no mínimo, dúbia: “Denúncia de assédio na Uenf ou tentativa de difamação?“.

O problema de confundir denúncia com difamação, como faz a manchete deste artigo de opinião, é que o caso relatado agora na mídia corporativa pela reitoria da Uenf não é o único que emergiu na nossa comunidade universitária recentemente, sendo que uma delas foi feita de forma identificada por quem denunciou e disse estar disposto a ir até as últimas consequências para que o suposto assediador seja punido.

Mas mais importante ainda, a forma que a reitoria está divulgando o caso sem a devida apuração, mas colocando no campo das “fake news”  pode estar servindo como um indulto precoce de um possível assediador. Além disso, assumindo que é possível que alguém tenha sido efetivamente assediado, estaremos diante da possibilidade de que esteja não apenas se garantindo a impunidade, mas incorrendo em um evento de revitimização. 

Pessoalmente considero grave que a reitoria da Uenf tenha tornado essa situação pública, na prática emitindo um pré-julgamento sobre o mérito de uma denúncia que deveria ter sido tratada de forma muito cuidadosa, principalmente por causa da existência de uma possível vítima de assédio sexual, sem ter em mãos uma rigorosa apuraração dos fatos. Esse caso deveria ter ficado reservado aos limites do Conselho Universitário, onde o caso foi apresentado pela reitora Rosana Rodrigues, e não tornado público sem que qualquer apuração tenha sido aparentemente iniciada.

Agora que a situação está exposta de forma precoce, a reitora da Uenf acabou se colocando em uma exposição que nada serve aos interesses estratégicos da universidade. Não sei se essa era a intenção, mas é o que esta publicidade acabou fazendo foi fragilizar a figura da reitora. 

De toda forma, a minha expectativa é de que os instrumentos internos existentes sejam imediatamente acionados para que sejam feitas as devidas apurações, de modo a separar fato de fake news, e punir os eventuais responsáveis pelas ações que deverão ser meticulosamente investigadas, e da forma sigilosa que a situação requer.

Finalmente, eu espero que a Uenf passe a fortalecer a sua governança interna , visto que vivemos um período em que se exige cada vez mais a adoção de mecanismos internos  que fortaleçam integridade, ética e accountability.