Na planície dos Goytacazes, pau que dá em Chico, quase nunca dá em Francisco

pesquisas eleitorais

Por Douglas Barreto da Mata

A jornalista Jane Nunes é uma das pessoas mais abalizadas para tecer comentários sobre pesquisas e disputas eleitorais.  Ela é um daqueles personagens com rara experiência no ramo, tanto como (ex) integrante de governos locais, como profissional de comunicação. É aquilo que se chama de “casca grossa”.

Já fomos mais próximos, hoje estamos bem afastados, mas é preciso dizer que tenho grande respeito por ela. Por isso, me chamou atenção um artigo em que Jane Nunes desanca pesquisas recentes sobre a eleição para prefeito em Campos dos Goytacazes. Aliás, há algumas considerações ali que eu mesmo faria, sim, há um mercado de pesquisas eleitorais, que se destina a “vender uma versão da realidade” que se auto confirme, sim, há. 

Ela mesma já conviveu em redações, onde os patrões eram agentes importantes desse mercado.  Porém, como Jane Nunes sabe, isso não é de hoje.  Nem é exclusividade desse ou daquele lado, já que ela também já militou em todos os espectros da política local, principalmente, a favor e contra a família Garotinho.

Isso não a desmerece, de forma nenhuma, nem as suas opiniões, e muito menos o fato de ter escrito no “diário oficial” da oposição.   Mas vamos ao argumento dela. Primeiro, o viés de Jane Nunes está claro.  Ela tentou desconstruir a ideia de que o atual prefeito, Wladimir Garotinho, candidato à reeleição, seja favorito, ou melhor, que vá se manter como tal.

E o que ela usa para legitimar essa narrativa?  Os mais de 50% de indecisos, apurados pelo Instituto Paraná/Jornal O Dia.  Ora, se fosse totalmente coerente o argumento, onde está a sondagem feita logo depois, pelo Instituto Big Data/Rede Record, que apontou um número de indecisos muito menos, na ordem de 30%?

Não é uma discrepância insignificante, a ponto de desmerecer por parte da articulista uma menção, até para descredibilizar um instituto ou dar mais ênfase ao outro.  Também Jane Nunes nada menciona que o instituto que mostrou 50% de indecisos fez sondagens por telefone, o que induz um número maior desse indicador (indecisos).

Por último, a jornalista não questiona os dados coincidentes de todos os demais resultados, com pequenas variações, justamente quando entram os 50% de indecisos.  Estranho mesmo é ela falar desse “mercado de pesquisas”, os seus possíveis usos, e usar um dado de…de…de…pesquisa para referendar a ideia de que o eleitor ainda não se decidiu, na faixa dos 50%…

Uai, é para acreditar na pesquisa, qual pesquisa, em toda pesquisa, ou só na parte que convém?  Eu não acho que tenha sido má fé dela.  É só paixão política mesmo, vontade de que a sua versão ou visão da realidade seja a que se confirme. Ops, justamente o que ela criticou, né?

Pois é.  Nós podemos usar um discurso, números, enfim, podemos usar tudo para justificar nossos interesses e defendê-los.  O que não se pode é usar dois pesos e duas medidas.  Até porque, a história ensina que nenhum candidato favorecido pelas sondagens eleitorais jamais questionou a validade das pesquisas, mesmo que, depois, possa ser surpreendido por elas.  Já os que são desfavorecidos pelos números, sempre os questionam.

É do jogo.

Pesquisadora da Unesp colabora com estudo internacional sobre mudanças em ecossistemas campestres ao longo de quase 40 anos

Levantamento combinou pesquisa de campo e imagens de satélite para monitorar transformações em escala global, abrangendo 84 áreas de seis continentes entre 1984 e 2020. Análises mostraram grandes variações locais na biomassa, que oscilaram de um crescimento de 51%, nas regiões mais úmidas, a uma diminuição de 34% em zonas mais secas

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 Ema passeando na área de pesquisa no cerrado brasileiro, em Três Lagoas (MS).Crédito: Lucíola Santos Lannes 

Por Malena Stariolo para o “Jornal da Unesp”

Quando se pensa em ambientes com rica biodiversidade, o mais comum é que venham à mente imagens exuberantes de florestas tropicais úmidas. O Brasil abriga dois exemplos celebrados mundialmente: a Amazônia, que abriga cerca de 10 mil espécies de árvores, e a Mata Atlântica, em que podem ser encontradas cerca de 140 diferentes espécies arbóreas compartilhando uma área relativamente pequena, pouco maior do que um campo de futebol. Porém, outra fonte importante de biodiversidade são as chamadas áreas campestres. Estudos chegaram a apontar que a biodiversidade presente nesses espaços é comparável àquela encontrada nas florestas tropicais e, em áreas menores do que 50 m², ela chega a apresentar uma maior variedade de espécies de plantas do que ambientes florestados.  

As áreas campestres estão em todos os continentes, com exceção da Antártica. Elas cobrem cerca de 40% de toda as terras emersas globais, e recebem muitos nomes, incluindo pradarias, pampas, estepes e savanas. Apesar de sua presença marcante, porém, as áreas campestres ainda são objeto de poucas pesquisas, o que prejudica diretamente a adoção de iniciativas e políticas públicas para a sua preservação. Segundo um estudo publicado em fevereiro deste ano pela Grasslands, Rangelands, Savannahs and Shrublands (GRaSS) Alliance, esses ecossistemas estão entre os menos protegidos globalmente ao mesmo tempo que mais da metade das áreas campestres sofreram com degradação dos seus espaços.

Em um esforço para compreender um pouco mais sobre esses ambientes, um grupo internacional de pesquisadores ligados à NutNet (Nutrient Network), uma rede global com foco em análises de áreas campestres, publicou um estudo analisando as variações desses ecossistemas nos seis continentes, ao longo de quase 40 anos. Intitulada Widening global variability in grassland biomass since the 1980s, a pesquisa foi publicada na revista científica Nature Ecology & Evolution, do grupo Nature, e contou com a colaboração da docente Lucíola Santos Lannes, da Faculdade de Engenharia da Unesp, campus de Ilha Solteira. Combinando análises de imagens de satélite e pesquisas de campo, o grupo pôde constatar que, enquanto regiões mais úmidas e quentes tiveram um aumento da biomassa das áreas campestres, locais secos e com menor biodiversidade apresentaram uma diminuição dessas áreas.

A biomassa é tudo o que conseguimos ver

De maneira geral, a biomassa vegetal de um ecossistema nada mais é do que a quantidade de plantas vivas presentes em uma determinada área. “Quando a planta recebe luz solar, produz fotoassimilados, como açúcares e outros componentes. Uma parte desse material é utilizada para as funções metabólicas e para a respiração, e outra é usada no crescimento da planta. A biomassa é a parte que cresce, a parte que nós conseguimos ver”, explica a bióloga.

Pela identificação dos padrões da biomassa os pesquisadores podem perceber de que maneira um ecossistema experimentou crescimento ou diminuição, e também estimar a duração da temporada do crescimento da vegetação, desde seu nascimento até a morte. Analisadas em conjunto com outros dados, como a variação de temperatura ou de chuvas, por exemplo, as informações sobre as variações da biomassa indicam tendências de desenvolvimento dos ecossistemas e apontam variações que podem ser utilizadas na elaboração de políticas públicas de preservação e restauração.

Na pesquisa, o grupo utilizou imagens de satélite para observar as alterações na biomassa de 84 regiões diferentes do planeta, coletadas entre 1984 e 2020. Para medir as alterações que ocorreram no período, foi empregado um índice de vegetação chamado NDVI, sigla para Normalized Difference Vegetation Index, ou Índice de Vegetação por Diferença Normalizada, em português. Esse indicador é utilizado em observações via sensoriamento remoto que medem a quantidade, saúde e vigor da vegetação em uma determinada área. Basicamente, o NDVI funciona como um “termômetro” da vegetação, indicando quão viva ela está a partir de cores de luz que as plantas refletem. Quando a planta está saudável, ela reflete muito infravermelho e pouco vermelho, informação que é identificada pelo NDVI para gerar uma pontuação: quanto mais alto o número, mais viva a planta está e, quando a área não tem vegetação ou a vegetação está morrendo, o número é baixo ou mesmo negativo.

Para complementar as análises feitas a partir das imagens geradas via satélite, equipes de pesquisadores espalhadas pelas 84 áreas estudadas em todo o planeta conduziram estudos de campo com o objetivo de garantir a precisão obtida pelo NDVI. “O trabalho de campo consiste em selecionar uma parcela da área estudada, cortar a biomassa e deixá-la secando no laboratório. Com a biomassa seca, nós fazemos uma pesagem e podemos identificar, por exemplo, que a biomassa de uma área é de 900 gramas por metro quadrado”, explica Lannes. Entre 2007 e 2020 o grupo realizou uma coleta anual em cada uma das regiões, comparando os resultados do campo com os obtidos pelo NDVI. Isso funcionou como uma garantia de que aquilo que era observado no satélite estava, de fato, acontecendo na terra.

Os resultados revelaram que as áreas campestres sofreram variações no mundo inteiro, e chegando a índices bastante expressivos, indo de um aumento de biomassa em até 51% em alguns lugares a um decréscimo de 34% em outros. As regiões com maiores aumentos de biomassa incluem o Ártico, noroeste do Pacífico e Europa Ocidental, enquanto áreas áridas na Austrália, Argentina e Califórnia apresentaram maiores declínios.

Embora a constatação de que o crescimento expressivo da biomassa possa parecer, inicialmente, uma boa notícia, Lannes destaca que, do ponto de vista do equilíbrio ecológico, não é necessariamente uma variação desejável. “A gente quer que a biomassa permaneça estável, não que aumente ou diminua”, diz a bióloga. Ela enfatiza que é preciso estar atento, também, aos motivos ensejando alterações. Esse é o tema de uma pesquisa que ela conduz. “A diminuição geralmente ocorre por conta da degradação ambiental. Por outro lado, o aumento da biomassa em áreas campestres não costuma ocorrer na forma de expansão da vegetação nativa, e sim por meio da sua substituição por vegetação cultivada. Em geral, são grandes monoculturas, como soja e milho. Isso não é algo desejável porque diminui a biodiversidade do ecossistema.”

O ecossistema depende da biodiversidade

“A biomassa é um dos principais componentes para a sobrevivência dos ecossistemas e para diversos processos ecológicos que ocorrem no planeta”, diz Lannes. Entre as diversas funções associadas está a ciclagem de nutrientes. Neste ciclo, a morte das plantas gera a queda das suas folhas que se depositam no solo e começam a se decompor. Isso resulta na liberação dos nutrientes que, até então, estavam contidos dentro delas, e serviam aos processos internos de respiração e crescimento. Estes nutrientes nutrem o solo, preparando o espaço para uma nova temporada de crescimento.

Outro papel importante desempenhado pela biomassa é sua ação na captura do gás carbônico, um dos principais gases de efeito estufa. Isso ocorre naturalmente durante o processo de fotossíntese das plantas, quando elas absorvem o dióxido de carbono (CO2) da atmosfera e liberam oxigênio. Estima-se que as áreas campestres armazenem aproximadamente um terço dos estoques globais de carbono terrestre, o que faz desses ecossistemas importantes aliados na regulação e na mitigação das mudanças climáticas.

Para que possam cumprir de forma adequada essas e outras funções, entretanto, é essencial que essas áreas preservem sua biodiversidade, uma vez que esse fator será responsável por permitir que o ecossistema se desenvolva de maneira saudável, em especial por meio de um processo ecológico conhecido como “facilitação”. A facilitação ocorre quando características específicas de determinadas espécies permitem e favorecem o crescimento de outras. “Plantas com raízes profundas conseguem captar água em camadas subterrâneas e trazê-la à superfície. As gramíneas, com raízes curtas, podem então aproveitar essa água para facilitar seu crescimento. Além disso, elas produzem uma enzima chamada fosfatase, que libera fósforo no solo, permitindo que outras plantas se beneficiem desse nutriente para o próprio desenvolvimento”, explica.

Savana africana, em Serengeti, na Tanzania. O local é considerado uma das áreas campestres mais biodiversas no mundo. Crédtio: NutNet

A genética de cada espécie irá permitir que ela realize processos específicos, seja a captura de água, a liberação de enzimas, a fixação de nitrogênio ou algum outro. Por isso, explica Lannes, um sistema que seja biodiverso se mostrará mais resiliente às alterações climáticas. Essa resiliência permitirá que ele desempenhe funções que são aproveitadas também por atividades humanas – como no caso do sequestro de carbono ou da fixação de nutrientes no solo, que propiciam boas condições para a agricultura. Porém, quando a área é ocupada por monoculturas, o quadro é diferente. Uma vez que todas as plantas neste caso apresentam as mesmas características, elas competem pelos mesmos recursos. O resultado é um ambiente mais vulnerável, como um todo, a pragas, doenças e condições climáticas.

Padrão internacional

Um dos desafios enfrentados no campo dos estudos ecológicos é a falta de padronização na metodologia. Isso dificulta análises globais porque, ao seguir técnicas e métodos diferentes, uma pesquisa no Cerrado, por exemplo, não pode ser comparada com uma investigação feita na Tundra. Buscando solucionar essa problemática, em 2007 foi criada a Nutrient Network (NutNet), no Departamento de Ecologia, Evolução e Comportamento da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos.

O projeto, que é responsável pela publicação do novo artigo, tem como foco ecossistemas de áreas campestres e é composto por ecólogos e biólogos ao redor do mundo que definiram padrões de coleta e análise específicos. O objetivo é que todos os integrantes sigam esses padrões, o que permite obter resultados comparáveis entre si, mesmo quando feitos por pesquisadores diferentes e áreas distintas.

Atualmente, a rede também conta com mais de 130 áreas campestres, em mais de 25 países espalhados nos seis continentes do globo. Lannes, que integra a rede desde 2015, é responsável por coordenar a única área brasileira da rede, localizada em Três Lagoas, em Mato Grosso do Sul, que se encontra a pouco mais de 60 km de Ilha Solteira.

Legenda: Coleta de biomassa no campo de Três Lagoas.Crédito: NutNet

Esses espaços são monitorados periodicamente, e forneceram os dados para o artigo. “Nós mantemos os protocolos padronizados, então os métodos que uso aqui são exatamente os mesmos adotados nessas mais de cem áreas. Com a coleta feita, alimentamos um banco de dados com informações como quantidade de biomassa, variedade de espécies, características do solo e incidência luminosa, entre outras informações que depois, são utilizadas nas pesquisas”, relata a docente.

Os resultados publicados até aqui representam um passo no sentido de formular uma compreensão, obtida de forma padronizada, e em um contexto global, desses ecossistemas que, de maneira geral, ainda são pouco estudados. Essas informações estão permitindo identificar as tendências gerais de mudança em diferentes partes do mundo, e assinalar regiões onde as áreas campestres estão diminuindo ou aumentando. Os próximos passos do estudo devem se debruçar sobre as causas por trás dessas alterações, e identificar quais podem ser os impactos caso as tendências continuem a evoluir da mesma maneira.


Fonte: Jornal da Unesp

Estudos apontam chances de poluição do ar representar riscos ao cérebro

Neurocirurgião e pesquisador da Unicamp aborda os efeitos da poluição no sistema vascular cerebral e os riscos a longo prazo para a saúde mental

cérebro poluição

No mês de agosto, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o estado de São Paulo registrou mais queimadas do que nos últimos dois anos, contrariando um padrão histórico. A gravidade dos danos ambientais gerou preocupações urgentes sobre a qualidade do ar. As densas nuvens de fumaça, especialmente no interior, alarmaram a população e provocaram reflexões sobre os impactos dessa poluição no corpo humano, incluindo o cérebro.

Estudos destacam que, mesmo com exposição a níveis considerados seguros de poluentes, existem chances de o funcionamento cerebral sofrer impactos a longo prazo, principalmente nas funções cognitivas, aumentando o risco de doenças neurodegenerativas.

Uma pesquisa realizada na Keck School of Medicine1, da Universidade do Sul da Califórniaavaliou dados de cerca de 9 mil participantes, a fim de investigar os impactos da exposição à poluição do ar no desenvolvimento cerebral de adolescentes. Os resultados indicaram que, mesmo nos casos em que níveis de poluição são considerados “seguros”, há alterações significativas na conectividade funcional do cérebro, influenciando o desenvolvimento cognitivo e emocional.

Outra publicação no Neurology Journals2 investigou a relação entre o contato com a poluição atmosférica e o risco de comprometimento cognitivo leve e demência. Os pesquisadores acreditam que a exposição prolongada a níveis mais altos está associada ao risco de desenvolvimento de problemas cognitivos, com implicações significativas para a saúde pública.

Dr. Marcelo Valadares, neurocirurgião e pesquisador da Disciplina de Neurocirurgia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ressalta a necessidade de olhar além dos efeitos mais óbvios da poluição. “O ar que respiramos não afeta apenas nossos pulmões. A longo prazo, essas agressões ao sistema nervoso central podem contribuir para o declínio cognitivo e aumentar o risco de demência, como evidenciam as pesquisas mais recentes,” afirma Dr. Valadares.

Existem riscos vasculares associados à poluição do ar?

A curto prazo, a poluição do ar, incluindo a fumaça das queimadas, pode também aumentar o risco de acidentes vasculares cerebrais (AVCs) e de outros problemas vasculares3. A exposição aos poluentes atmosféricos está associada a um aumento da inflamação sistêmica e do estresse oxidativo, que podem danificar os vasos sanguíneos e levar a problemas cardiovasculares e cerebrovasculares.

“As partículas finas podem penetrar profundamente nos pulmões e entrar na corrente sanguínea, provocando respostas inflamatórias que afetam o coração e o cérebro”, explica o Dr. Valadares.

3 medidas essenciais de proteção

Para se proteger da poluição intensa, confira três dicas importantes a seguir:

  1. Monitore a qualidade do arem tempos de poluição intensa, existem aplicativos e sites que informam a qualidade do ar em tempo real, como o do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Quando a qualidade do ar estiver ruim, siga as recomendações de saúde pública para proteger-se adequadamente.
  2. Evite atividades ao ar livre: evite ou minimize o tempo ao ar livre, especialmente durante o pico de poluição mais intensa. Se precisar sair, tente reduzir o tempo de exposição, principalmente se fizer parte de grupos de risco, como crianças, idosos, ou pessoas com problemas respiratórios.
  3. Mantenha ambientes internos saudáveis: em casa, mantenha janelas e portas fechadas para evitar que a poluição entre. Utilize purificadores de ar com filtros HEPA para melhorar a qualidade do ar.
  4. Use máscaras apropriadas: em ambientes com alto nível de poluição, especialmente em dias de muita fumaça ou poeira, como aconteceu nos últimos dias em diversos pontos do estado, utilize máscaras que filtrem partículas finas, como as do tipo N95 ou PFF2. Essas máscaras são capazes de bloquear a inalação de partículas perigosas que podem afetar tanto o sistema respiratório, quanto o cardiovascular.

Referências:

1: Even “safe” air pollution levels can harm the developing brain, study finds. Acesso clicando aqui.

2: Association of Long-term Exposure to Air Pollution and Dementia Risk. Acesso clicando aqui

3: Impact: Air pollution. Acesso clicando aqui.

Qual será a opção academia diante do fascismo: ação ou omissão?

queima de livros10 de maio de 1933: nazistas começam a queimar livros por toda a Alemanha (Foto: reprodução)

Por Douglas da Barreto da Mata

Em conversa reservada com um amigo, professor universitário e estudioso da ciência política, chegamos a uma conclusão.  Os intelectuais e acadêmicos dessa cidade têm uma responsabilidade histórica, refletida na tarefa de estabelecer um limite que parece turvo, nesses tempos de realidade “líquida”, e de relativizações permanentes, aquilo que se convencionou chamar de pós-verdade.

Eu fui um pouco além, e lhe disse que diagnosticar essa pós-verdade, e com ela a ameaça ao que se chama de processo democrático, não basta, fica parecendo aquele alcoólatra que reconhece o vício, mas nada faz para aderir a algum tipo de tratamento. 

Consensuamos que a “democracia” não é algo acabado, e que por isso mesmo, requer, sempre, um cuidado permanente, e que há um perigo mundial, nacional e local rondando todos aqueles que, de uma forma ou de outra, estão no campo do antifascismo. 

Aqui na planície temos a Ku Klux Kampos, uma franquia municipal atualizada da extrema-direita nacional, representada na candidatura da delegada. Um fenômeno que se corresponde com o imbecil que diz que, dentre outras bizarrices, vai ressuscitar gente, em um misto de estelionato religioso e eleitoral.  Esta figura atende pelo nome de Marçal, mas que bem poderia ter uma alcunha adicionada, Marçal, o boçal.

Neste ponto da conversa avançamos para a demanda urgente que se impõe para a academia de Campos dos Goytacazes, tão ensimesmada recentemente, incapaz de praticar o que diz ser correto fazer, isto é, debater, refletir e influir no jogo político.

Há uma hierarquia infértil no pensamento acadêmico, que confina as melhores mentes em estado de narcisismo e individualismo muito parecido com as raízes do pensamento liberal que tanto criticam.  É mais ou menos assim, somos os melhores entendedores da realidade, mas somos tão bons que não vale a pena nosso esforço em mudá-la (a realidade), ou isso não é tarefa para gente tão boa como nós. 

Chegou a hora de botar o pé na porta, eu argumentei com o meu estimado interlocutor.  Não é possível que a academia campista se exonere do dever de dizer o que ninguém mais diz:  A tolerância não pode ser usada com os  intolerantes, enfim, o Estado de Direito resguarda aos defensores da democracia os meios para afastar essa gente. 

A política também carrega em si, por sua definição, as possibilidades de negação dos fascistas, e a negativa em tratar politicamente com eles.

Caberá aos intelectuais, doutores, mestres, professores, a missão de dizer que há opções mais ou menos ao centro, ou mais ou menos à esquerda, dependendo da referência de quem olha.

No entanto, a candidatura da Ku Klux Kampos, da delegada que solidariza com Marçal, o boçal, deve ser execrada de todas as formas por essa frente intelectual.

hitler saudações

Lembrei, por fim, que a diferença entre um palhaço e Hitler é o resultado. A omissão, lembramos, também é crime.

Cientistas monitoram com preocupação a chegada do La Niña após recordes de calor

La-Nina-996x567O fenômeno La Niña cria uma massa de águas mais frias ao longo do Equador no Pacífico central e oriental, o que altera frequentemente as condições meteorológicas em diversas regiões do mundo, incluindo a América Latina. Crédito da imagem: Universidade Nacional de La Plata , sob licença Creative Commons CC BY 2.5

La Niña está associada à diminuição das temperaturas superficiais no Pacífico equatorial e a mudanças nas condições climáticas em diversas regiões do mundo. Mas os especialistas não têm certeza sobre como será o fenômeno este ano.

“Os modelos climáticos previam que teríamos um forte El Niño em 2023, com aumento das temperaturas das águas do Pacífico equatorial e da temperatura média global de até 1,3 graus Celsius [°C] acima da média do período pré- -período industrial ”, disse o climatologista Carlos Nobre, do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP), no Brasil, SciDev.Net . “No entanto, foi um cenário muito mais dramático.”

Em grande parte da Bacia do Atlântico, as temperaturas da superfície em 2023 estiveram até 2°C acima da linha de base de 1971-2000. Nas águas da África do Sul, Japão e Holanda, a anomalia atingiu 3°C ou mais, segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) dos Estados Unidos.

Segundo dados do Serviço de Mudanças Climáticas do Programa Copernicus da União Europeia, entre julho de 2023 e junho de 2024, a temperatura média do planeta – impulsionada pelo El Niño – foi pelo menos 1,5°C superior à média do período pré-industrial. . “A Terra nunca esteve tão quente”, acrescentou Nobre.

Evolução das anomalias térmicas no planeta. Crédito da imagem: Berkeley Earth , licenciado sob Creative Commons CC BY-NC 4.0 Deed .

Os cientistas ainda não sabem o que causou este pico de calor em 2023. “Os níveis de gases com efeito de estufa continuaram a aumentar, mas a carga adicional de 2022 poderia explicar um aquecimento adicional de apenas 0,02°C”, disse o climatologista. “A anomalia de temperatura de 2023 revelou uma lacuna de conhecimento sem precedentes, talvez pela primeira vez em cerca de 40 anos.”

De Lima, no Peru, o oceanógrafo físico Antonio Salvá alertou que 2024 também poderá atingir recordes de temperatura. De acordo com o que ele disse ao SciDev.Net , junho foi o mês mais quente desde que os registros de temperatura começaram em 1850 e a temperatura média global de julho de 2023 a junho de 2024 atingiu +1,68°C acima da média medida de 1850 a 1900.

Para o físico Paulo Artaxo, do Instituto de Física da USP, o aquecimento global pode estar alterando a dinâmica atmosférica, comprometendo a capacidade dos modelos climáticos de prever com precisão o comportamento climático. “Isso torna mais difícil saber exatamente como se comportará o próximo La Niña, quais serão sua intensidade e efeitos”, disse ele ao SciDev.Net. “Estamos em território incerto.”

“Esperamos um La Niña moderado, mas dada a anomalia de temperatura do ano passado, as previsões para o fenômeno em 2024 podem não ser suficientemente precisas.”

Carlos Nobre, climatologista do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP), no Brasil

“Muitos modelos climáticos não consideraram o impacto que o aquecimento global pode ter. Em longos períodos de previsão, 10, 20, 30 anos, fica claro como o aquecimento global está afetando os modelos de previsão. Nos modelos de curto prazo, de dois ou três meses, logicamente esse impacto não aparece. Penso que estes modelos terão de ser ajustados a esta situação de aquecimento global”, refletiu Salvá, professor titular da Faculdade de Oceanografia, Pesca e Ciências Alimentares da Universidade Nacional Federico Villarreal, em Lima.

Nos anos de La Niña, os ventos alísios, que sopram de leste a oeste nos trópicos, intensificam-se e empurram as águas superficiais quentes do Pacífico Tropical das Américas em direção à Oceania, fazendo com que as águas frias mais profundas do leste subam à superfície perto do equatorial. costas da América do Sul. Isto cria uma massa de águas mais frias ao longo do equador no Pacífico central e oriental, o que altera frequentemente as condições climáticas em várias regiões do mundo, incluindo a América Latina.

Na Colômbia, por exemplo, há chuvas acima da média, que se tornam mais intensas e podem causar inundações, enquanto há redução das chuvas na metade norte da Argentina e no Chile, Peru, Paraguai, Equador e Uruguai. No Brasil, o fenômeno costuma desencadear chuvas mais intensas nas regiões Norte e Nordeste. Secas severas são observadas na região sul. No Sudeste e Centro-Oeste os efeitos são mais imprevisíveis, com possíveis secas, inundações e tempestades.

“Esperamos um La Niña moderado, mas dada a anomalia de temperatura do ano passado, as previsões para o fenómeno em 2024 podem não ser suficientemente precisas”, disse Nobre.

O fenômeno geralmente dura entre 9 e 12 meses, mas às vezes pode durar até três anos. “É difícil prever a sua duração quando ainda não está completamente estabelecido e principalmente porque não sabemos o que mudou do ponto de vista da sua dinâmica com o El Niño”, disse Artaxo.

Para Madeleine Renom, meteorologista da Faculdade de Ciências do Uruguai, tudo indica que o La Niña será moderado, mas ainda não se pode prever sua duração ou intensidade real. Sobre seus efeitos, disse ao SciDev.Net que o Uruguai vem de alguns meses de déficit pluviométrico (julho e agosto), portanto a chegada do La Niña, geralmente associada a menos chuvas entre outubro e dezembro, pode acentuar as condições de baixa. disponibilidade de água.

“O aquecimento global está a alterar o clima tal como o conhecemos e isso leva a altos e baixos: se [La Niña] vai ocorrer, ou se for adiado, se for um evento moderado, a única certeza é que o aquecimento global o aquecimento “continua”, disse Salva. Ele estima que, embora haja um resfriamento das águas no Pacífico Central, “não é exatamente La Niña como está definido” e que, caso ocorra, será um evento moderado.

Mas o meteorologista Micael Amore Cecchini, do Departamento de Ciências Atmosféricas do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas do IAG-USP, disse ao SciDev.Net que também há 50 ou 60 por cento de chance de o La Niña perder força entre fevereiro e maio de 2025.


Fonte: SciDev.Net [Aqui!].

Lerdeza e discursos vazios retardam a adaptação climática e agravarão os custos da elevação do mar no Brasil

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Com as evidências irrefutáveis de que nas próximas décadas teremos uma elevação importante no nível médio do mar seria de se esperar que os governantes brasileiros estivessem soando os alarmes de emergência.  Afinal, a previsão de que regiões inteiras estão destinadas a serem invadidas pelas águas oceânicas é algo que não se pode dar simplesmente de ombros, pois os custos econômicos e humanos prometem ser colossais.

Mas o que se vê é uma combinação de ignorância premeditada e a aplicação de fórmulas que são uma espécie de enxuga gelo debaixo de temperaturas equatoriais.  Isso, é preciso que se diga, é uma completa irresponsabilidade já que os estudos científicos estão trazendo informações que deveriam ser levados com a devida seriedade.

Agora, segundo o que foi divulgado por um veículo da mídia corporativa campista, o que teria declarado a Prefeitura Municipal de São João da Barras após a forte repercussão de um relatório da ONU que prevê que Atafona é um hotspot  no processo de intrusão de águas marinhas nas regiões costeiras do planeta:

“Dentro desse contexto, a orientação foi para a elaboração de um estudo de viabilidade técnica e econômica para que seja analisado o atual cenário para as possíveis soluções. O município já contratou a elaboração do termo de referência e está nas fases finais da elaboração do edital de licitação para a contratação deste estudo. Há um processo de aquisição de uma área em Atafona para construir casas populares para essas pessoas que foram atingidas”.

Atafona, distrito do RJ que vem sendo engolido pelo mar, serve de alerta  para erosão costeira - 13/11/2021 - Ambiente - Folha

O Distrito de Atafona vem sendo engolido pelo mar,  mas até agora nada foi feito para conter o processo

Essa resposta parece ser uma mistura da tática do enxugar gelo com a ideia tosca de que vai bastar mover casas de um ponto para outro para que os impactos da chegada das águas marinhas seja resolvido.  Além disso, falar a estas alturas na contratação de um estudo de viabilidade técnica e econômica para definir possíveis soluções é como aquele sujeito que fala em em comprar detectores de fumaça logo após a sua casa ser totalmente consumida por um incêndio.

Sem ter lido os programas de governo dos candidatos a prefeito de São João da Barra, a começar pelo da atual prefeita, Carla Caputi, eu sou capaz de prever que não há nenhuma menção de que será adotada a adoção de uma política pública voltada para preparar o município para a necessária adaptação ao irreversível processo de mudança climática que está ocorrendo na Terra neste momento, mas cujos efeitos mais drásticos serão sentidos nos próximos anos e décadas.

O mais lamentável é essa lerdeza em adotar medidas urgentes ainda custará muito dinheiro e vidas com o tipo de postura que se verifica nos governantes dos estados e municípios costeiros do Brasil.

Mas como não quero dizer que não dei dicas propositivas e apenas critiquei, republico abaixo os mapas contendo as previsões para as áreas que serão inundadas em São João da Barra com diferentes cenários de elevação do nível médio do mar. Como se pode inferir a partir desses mapas,  o problema da intrusão das águas marinhas está longe de estar restrito a Atafona.

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MG tem 400 minas abandonadas e especialistas falam em “bomba-relógio”

Duas das instalações seriam mais perigosas do que a barragem que se rompeu em Brumadinho

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Tragédia em Brumadinho acendeu alerta sobre a segurança de barragens no país 

O rompimento da barragem da Vale em Brumadinho reacendeu o debate sobre a eficiência da fiscalização da atividade de mineração no país, trazendo a reboque outra questão: o que fazer se uma tragédia no futuro envolver não a gigante multinacional, com recursos para pagar multas bilionárias, mas uma empresa de pequeno porte, desativada ou até falida?

Trata-se de um perigo real, destaca O Estado de S. Paulo após ouvir especialistas do setor. As barragens mais vulneráveis de Minas Gerais, segundo a Agência Nacional de Mineração (ANM), pertencem a empresas que hoje estão com as atividades paralisadas.

A barragem de mais alto risco de Minas Gerais é a da Mina Engenho, da Mundo Mineração, companhia que deixou de operar no município de Rio Acima há mais de seis anos. Sem manutenção desde então, a única sinalização que a barragem recebeu foram placas que alertam para a presença de material tóxico usado na extração de ouro, como arsênico e mercúrio.

É a situação mais grave, mas longe de ser a única: o Estado apurou que outras duas minas com atividades paralisadas também são consideradas mais perigosas que a instalação da Vale em Brumadinho. A situação já chamou a atenção do Ministério Público de Minas Gerais, que investiga algumas dessas operações.

Abandono

A questão das minas abandonadas em Minas Gerais não é desconhecida do poder público. Em 2016, a Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam), do governo mineiro, detectou nada menos do que 400 minas abandonadas ou desativadas no estado. Embora o levantamento concentre apenas os sítios inoperantes, e não a situação das barragens, cita casos de barragens que não apresentaram relatórios de segurança sobre seus rejeitos.

O levantamento da fundação traz três casos listados como preocupantes: Mundo Mineração, Minar Mineração Aredes e Topázio Imperial Mineração. Quem entende do setor garante que as minas desativadas de Minas Gerais são uma “bomba-relógio”.

Para Carlos Martinez, professor da Universidade Federal de Itajubá (Unifei), a situação é “desesperadora”. “A conta um dia vai chegar e tem o potencial de quebrar de vez o estado”, diz ele. “Muitas dessas mineradoras sequer existem mais. E quem vai pagar a conta do desastre ambiental e social? O poder público.”

Professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Bruno Milanez diz que a legislação brasileira deveria prevenir que “aventureiros” se lançassem na mineração e deixassem para trás perigos ambientais e sociais. “Vários países com atividade minerária relevante exigem que as empresas provem sua viabilidade econômica antes de iniciar a exploração de uma determinada área.”

A mina da Minar Mineração Aredes, companhia de Itabirito, município da Grande BH próximo a Brumadinho, fica dentro de uma área de preservação ambiental e não funciona há quase uma década. O atual dono, o empresário Lucas Cabalero, já foi notificado pelo Ministério Público Federal (MPF) a apresentar um relatório de estabilidade. Como a mina está parada, o proprietário afirma que os rejeitos estão secos e que o reservatório não corre risco de romper. Já o MP diz ter cobrado providências e classifica o caso como “urgente”.

Outro mina desativada que preocupa é a da Topázio Imperial Mineração, no distrito Rodrigo Silva, em Ouro Preto (MG). A reportagem esteve em Rodrigo Silva e, segundo os moradores, a mina não é explorada há vários anos. Guilherme Capanema Gonçalves, que se identificou como filho de um dos sócios da companhia, disse que as atividades da mina estão paralisadas desde 2017, quando o MP entrou com ação contra a empresa.


Fonte: Correio do Povo

Avanço do mar: veja quais praias são ameaçadas pela erosão costeira no litoral de São Paulo

Litoral de São Paulo pode ser “engolido” pelo avanço do mar. Saiba quais são as praias com maior risco de erosão costeira

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Por Isabela Thurmann para o “Metrópoles” 

São Paulo

 Se confirmadas as previsões de aumento de temperatura disponíveis em um estudo da organização não governamental norte-americana Climate Central, todo o litoral deSão Paulo estará em risco de ser engolido pelo mar por causa da erosão costeira.

De acordo com o Mapa de Risco à Erosão Costeira do Estado de São Paulo, feito pelo Instituto Geológico do Estado de São Paulo, com dados de 2017, as praias com maiores riscos de sofrerem com o avanço do mar são: Ubatumirim, Barra Seca, Itaguá, Praia Grande, Fortaleza e Maranduba, em Ubatuba; Tabatinga, Massaguaçu e Caraguatatuba, em Caraguatatuba; Enseada, São Francisco, Pontal da Cruz e Baraqueçaba, em São Sebastião; Perequê, em Ilhabela; Itaguaré e São Lourenço, em Bertioga; Pernambuco e Astúrias, em Guarujá; Gonzaguinha e Capitão, em São Vicente; Itanhaém, em Itanhaém; Peruíbe e Guaraú, em Peruíbe; Itacolomi, Jureia e Leste, em Iguape; Ilha Comprida, em Ilha Comprida; e Itaguaçu, em Ilhabela.

Erosão costeira

A Fundação Florestal define a erosão costeira como um fenômeno natural que ocorre nas áreas costeiro-marinhas e no litoral sul do estado de São Paulo.

O avanço do mar provoca a perda de áreas de praia, impacta a vegetação de restinga e ameaça casas e edificações próximas. O fenômeno, intensificado por fatores humanos, afeta diretamente a biodiversidade e as comunidades locais.

Segundo o professor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP)Alexander Turra, cerca de 40% da região costeira brasileira vivencia um severo processo de erosão. Os dados constam em um documento publicado pelo Ministério do Meio Ambiente em 2018.

“A erosão costeira tem várias causas: desde a retirada de areia rio acima, a construção de barragens, o aumento ou a diminuição de chuva, até as mudanças climáticas, o padrão de ocupação local”, explica o docente.

Na Barra do Una, em Peruíbe, um dos processos erosivos é a ocupação da bacia hidrográfica da região, que altera a desembocadura do rio. “Esse é um movimento natural que ocorre no passado geológico ou em momentos em que não ocorria ocupação humana”, confirma Turra.


Fonte: Metrópoles

Um herbicida altamente tóxico, paraquate deverá passar por revisão na Califórnia

paraquate

Por Carey Gillam para o “The New Lede”

Os esforços de alguns legisladores da Califórnia para proibir o controverso herbicida paraquate terminaram esta semana com a aprovação de uma lei que mantém o produto químico em uso, mas exige uma reavaliação pelos reguladores nos próximos cinco anos.

Os defensores da proibição citaram evidências científicas que ligam o paraquate a uma série de problemas de saúde, incluindo a doença cerebral incurável conhecida como Mal de Parkinson, como uma das principais razões para proibir o uso do paraquate no estado.

No início deste ano, a Assembleia Estadual da Califórnia aprovou o que foi chamado de “moratória” sobre o paraquate, que entraria em vigor em janeiro de 2026 e previa um processo que daria aos reguladores estaduais a oportunidade de reavaliar o paraquate e potencialmente reaprovar o produto químico com ou sem novas restrições.

Mas as emendas do Senado estadual eliminaram qualquer moratória ou restrição ao uso. O projeto de lei, conforme aprovado, agora exige apenas que os reguladores estaduais de agrotóxicos concluam uma reavaliação do paraquate até janeiro de 2029.

A deputada da Califórnia, Laura Friedman, disse que o fato de a legislatura ter aprovado requisitos para uma reavaliação regulatória ainda é uma vitória.

“Com a crescente evidência médica indicando que o paraquate é simplesmente muito tóxico para permanecer em uso amplo, estou muito confiante de que [os reguladores estaduais] não apenas farão uma reavaliação completa do paraquate, mas também o proibirão completamente ou colocarão maiores restrições ao seu uso”, disse Friedman em uma declaração.

“A legislatura falou alto e claro”, disse Bill Allayaud, vice-presidente de assuntos governamentais do Environmental Working Group (EWG), em um comunicado à imprensa . O EWG foi um dos principais apoiadores do projeto de lei. “Eles querem que a ciência sobre o paraquate seja considerada agora, enquanto os trabalhadores rurais e os moradores próximos são expostos – não mais para frente.”

Houve forte oposição à proibição do paraquate. Uma análise legislativa da lei cita uma “coalizão de oponentes, incluindo fabricantes de agrotóxicos, associações comerciais da indústria química e organizações comerciais agrícolas”, opondo-se à lei.

Os oponentes da indústria também se opõem a uma reavaliação regulatória do paraquate, dizendo que isso “constituirá um impacto fiscal significativo” sobre os reguladores estaduais que poderiam estar revisando outros produtos, de acordo com a análise.  

O governador da Califórnia, Gavin Newsom, tem até o final de setembro para assinar ou vetar a lei.

Neste verão, os legisladores estaduais aprovaram um projeto de lei relacionado que aumenta as taxas sobre vendas de pesticidas para ajudar a financiar programas aprimorados de supervisão regulatória dentro do estado.

O paraquate tem sido usado há décadas como um herbicida amplamente utilizado. Mas um grande corpo de evidências científicas vinculou o uso crônico do produto químico à doença de Parkinson, que se tornou uma das principais causas de morte nos Estados Unidos.

Vários milhares de agricultores, trabalhadores agrícolas e outros estão processando a fabricante de paraquate, Syngenta, alegando que desenvolveram Parkinson devido aos efeitos crônicos de longo prazo do paraquate e alegando que a Syngenta escondeu os riscos do público e dos reguladores.

O New Lede revelou anteriormente que a pesquisa interna da Syngenta encontrou efeitos adversos do paraquate no tecido cerebral décadas atrás, mas a empresa escondeu essa informação dos reguladores, trabalhando em vez disso para desacreditar a ciência independente que liga o produto químico a doenças cerebrais e desenvolvendo uma “equipe SWAT” para combater as críticas.  

“É simplesmente inconcebível que esse herbicida ainda exista e seja amplamente usado nos Estados Unidos”, disse o membro da Assembleia da Califórnia Rick Zbur em uma coletiva de imprensa em abril, discutindo os esforços para proibir o paraquate. “Não deveríamos pulverizar amplamente um herbicida conhecido por causar pressão alta, insuficiência cardíaca, insuficiência renal, doença de Parkinson, leucemia infantil e câncer.” 


Fonte: The New Lede

Agrotóxicos criam gerações de filhos doentes da agricultura brasileira

Investigação expõe a relação entre o uso de agrotóxicos e o aumento de condições graves entre bebês do campo

agrotoxicos bfAluna da escola rural Attilio Benedetti, em Vacaria, caminha diariamente em meio a plantações – Anna Ortega

Sílvia Lisboa e Carla Ruas para a  Dialogue Earth

Maria nasceu com uma grave anomalia congênita que limitou seu desenvolvimento. Embora os médicos tenham logo drenado o excesso de líquido acumulado ao redor de seu cérebro, um distúrbio conhecido como hidrocefalia, eles não conseguiram impedir danos severos à recém-nascida. Mais tarde, outras cirurgias tentaram corrigir seus pezinhos atrofiados, mas ela nunca andou, nem falou; e à medida que crescia perdia seus poucos movimentos. Seu olhar era distante, segundo a família. 

Em uma consulta médica assim que Maria nasceu, seus pais ouviram a possível causa da condição: contaminação por agrotóxicos. Eles são agricultores de frutas e hortaliças de Vacaria, município rural de 64 mil habitantes no nordeste do Rio Grande do Sul, e usam esses produtos em seu dia a dia. 

“Eles se sentem culpados, foi uma dor muito grande”, disse uma tia da menina que não quis se identificar para não expor os pais, que autorizaram a entrevista, mas ainda sofrem com o diagnóstico mesmo mais duas décadas depois. “Eles são vítimas, não há alerta sobre os riscos”.

Com o passar dos anos, Maria (seu nome foi trocado nesta reportagem) entrou em estado vegetativo e morreu aos 21 anos, em 2020. 

Esse não é um caso isolado. Uma investigação do Dialogue Earth em parceria com Tatiane Moraes, pesquisadora em saúde ambiental na Universidade de São Paulo, explorou os impactos de agrotóxicos na saúde infantil. A análise conduzida por Moraes para essa reportagem revela uma associação entre anomalias como a de Maria e de mortes fetais (após a 28ª semana de gestação) com a proximidade de áreas agrícolas do Brasil.

Pela plataforma Mapbiomas, Moraes identificou os estados onde mais da metade dos municípios têm ao menos 5% da área ocupada pela agricultura. Depois, com dados de 2013 a 2021 do sistema nacional de saúde Datasus, ela verificou se a taxa de anomalias congênitas e mortes fetais — condições já associadas à exposição de agrotóxicos — aumentou nessas cidades. 

A análise encontrou risco aumentado para essas condições no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, no Sul, além de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, no Centro-Oeste. Esses estados são grandes produtores de soja, milho e cana-de-açúcar, segundo o levantamento de Moraes. 

Os mesmos estados estão entre os que mais comercializam agrotóxicos, segundo dados do Ibama, órgão de fiscalização ambiental. Mato Grosso — líder nacional em produção agrícola — está no topo do ranking, enquanto Goiás, Mato Grosso do Sul, Santa Catarina e Rio Grande do Sul estão entre os dez primeiros colocados. 

“Os resultados reforçam a necessidade de reavaliar o uso massivo de agrotóxicos na agricultura brasileira”, disse Moraes, que foi bolsista do Departamento de Saúde Global e População da Universidade Harvard, nos Estados Unidos. 

No Mato Grosso, cidades como Sinop e Sorriso, onde o agronegócio domina a economia, foi identificado um risco 20% maior para anomalias congênitas e 30% para mortes fetais na comparação com cidades sem plantações.


Gestante aguarda consulta médica na sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Vacaria / Anna Ortega

Nas cidades gaúchas com mais da metade da área dedicada à agricultura, foi encontrado um risco de morte antes do nascimento 73% maior em comparação com os demais municípios. Já em cidades com até um terço da área agrícola, como Vacaria, onde Maria nasceu, foi visto um risco 2% maior de desenvolver anomalias congênitas entre 2013 e 2021.

Segundo Moraes, essa ampla variação do risco pode se dar por outros fatores como, por exemplo, o acesso à saúde em determinados municípios. Para entendê-los a fundo, seria necessário fazer novas investigações. “O importante foi demonstrar haver uma associação positiva e mensurar o risco de se viver em um município agrícola olhando para as crianças”, disse.

Glifosato, perigoso mas disseminado

O glifosato, mais usado no país, e outros químicos, como 2,4-D, atrazina, mancozebe, clorotalonil e acefato interferem na regulação hormonal e podem provocar anomalias, segundo o Atlas dos Agrotóxicos. Com exceção do glifosato e 2,4-D, os demais são proibidos na União Europeia.

Pesquisas no Brasil e no exterior vão ao encontro do trabalho de Moraes. Em um estudo de 2019, a Fundação Oswaldo Cruz revelou que microrregiões (ou seja, regiões dentro dos estados) com maior produção de grãos e de exposição a agrotóxicos têm taxas mais altas de anomalias congênitas.

Em estudo semelhante de 2023, pesquisadoras americanas encontraram índices acima da média de leucemia linfoblástica aguda em crianças por onde a soja está se expandindo na Amazônia e no Cerrado. As cientistas estimaram que, entre 2008 e 2019, houve 123 mortes adicionais entre pacientes com menos de 10 anos que vivem em áreas onde o cultivo do grão avançou.

Para uma das autoras, Kaitlyn Margaret Sims, professora de microeconomia e políticas públicas na Universidade de Denver, o resultado surpreendeu. “Já tínhamos ouvido rumores de que, quando a soja chega, o câncer vem logo atrás. Mas não pensávamos que encontraríamos resultados tão expressivos,” disse ao Dialogue Earth. 

Outra pesquisa, publicada no periódico Review of Economic Studies em 2023, mostrou que até as crianças vivendo longe de plantações podem ser afetadas, já que os resíduos do glifosato são transportados pelos rios. Os resultados mostraram um maior número de bebês que nascem prematuros e abaixo do peso normal, além de um aumento de 5% na mortalidade infantil entre 2000 e 2010 no Centro-Oeste e Sul.

“Mesmo em distâncias de até cem quilômetros da área de uso, nós ainda achamos algum efeito negativo”, explicou Mateus Dias, um dos autores do estudo e professor assistente de economia da saúde na Católica Lisbon School of Business and Economics.

Dados da Organização para Alimentação e Agricultura (FAO) indicam que o Brasil é o campeão mundial no uso de  agrotóxicos. Em 2022, o país aplicou mais de 800 mil toneladas de agrotóxicos nos mais diversos cultivos, superando o total usado por China e Estados Unidos juntos.

“Esses dados precisam ser lidos em um contexto: o Brasil é um país tropical muito sujeito a pragas. Além disso, plantamos quatro a cinco culturas por ano, diferentemente de países com invernos rigorosos que plantam apenas uma cultura”, explica o pesquisador Décio Karam, da Embrapa, órgão federal que atua na pesquisa agropecuária. “Ainda assim, há muito espaço para reduzir o uso de agrotóxicos com manejo adequado”.

O crescimento no uso de agrotóxicos no Brasil coincide com a introdução da soja transgênica e a adoção do glifosato no final dos anos 1990. Entre 2000 e 2022, dados da FAO mostram que seu consumo por hectare plantado quintuplicou no país.

Em Vacaria, a soja avançou 13 vezes entre 1985 e 2022, e hoje ocupa 70 mil hectares, um terço do município. Já a maçã, que também demanda a aplicação intensa de agrotóxicos, ocupa quase sete mil hectares.

No município, as lavouras ficam extremamente próximas às áreas residenciais. Quando visitamos o local em meados de junho, vimos o nabo forrageiro – que fertiliza e descompacta o solo, preparando-o para o plantio de soja – adentrando o pátio e a quadra da escola rural Attilio Benedetti.


Menino joga futebol na escola rural Attilio Benedetti, em Vacaria, instituição cercada por plantações de soja / Anna Ortega

A diretora Leila Tais Fernandes explicou que o terreno havia sido doado por um agricultor cujas fazendas são limítrofes ao colégio, e a maioria dos 75 alunos são filhos de funcionários.

Uma mãe em busca de respostas

Juliana Pedroso suspeita que o agrotóxico esteja por trás do diagnóstico de seu filho João Otávio, de 7 anos, que tem uma síndrome neurodegenerativa extremamente rara que provoca paraplegia, deficiência intelectual e obesidade. “Foi uma mutação genética na gestação, mas os médicos nunca dizem a causa. Já me perguntei se poderia ser agrotóxico que afetou o pai agricultor”, disse a técnica em enfermagem, que mora na área urbana de Vacaria, também circundada por lavouras.


João Otávio (à esquerda) e sua mãe Juliana Pedroso brincam com bexiga recheada de amido de milho na varanda de sua casa, em Vacaria / Anna Ortega

João Otávio nasceu prematuro e logo manifestou sintomas preocupantes. “Suas mãozinhas eram viradas para dentro, e ele não movia o lado esquerdo”, lembrou a mãe. Depois vieram as crises convulsivas e a peregrinação por médicos e hospitais. 

Apesar das dificuldades e graças ao empenho da família, ele desenvolveu bem a fala e os movimentos. Sua maior diversão é seu canal no YouTube dedicado a videogames. Em uma tarde fria quando o visitamos, João Otávio mostrou orgulhoso seu quarto repleto de bichos de pelúcia e se divertiu estourando um balão recheado de amido de milho que ele fez parecer neve. 

À frente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Vacaria há 23 anos, Sérgio Poletto está determinado a entender se o agrotóxico pode ter contribuído para o surgimento da síndrome que afeta João Otávio e a de condições de outras crianças que aguardam uma vaga na Apae, centro para a reabilitação e inclusão de pessoas com deficiência, no município.


Funcionário da Apae municipal de Vacaria trabalha com criança / Anna Ortega

A entidade viu explodir a busca por vagas nos últimos anos e convocou Poletto para investigar o que poderia estar contribuindo para isso. “Estamos muito preocupados com o aumento, de dez anos para cá, de crianças com deficiências”, disse Maria Aparecida Fabris, coordenadora pedagógica da Apae, que hoje atende 80 crianças, enquanto outras 20 seguem na fila de espera. “Não temos capacidade para receber mais, porque todos continuam conosco por um longo tempo”.

Com os ombros levemente curvados, o que lhe dá um ar tímido, mas que contrasta com sua atuação corajosa, Poletto assumiu a tarefa “de questionar o que ninguém questiona”, como ele mesmo diz. Em 2013, ajudou a organizar um amplo estudo que ouviu mais de 980 trabalhadores do campo: 95% disseram usar agrotóxico, e a maioria o aplicava com pulverizadores acoplados como mochilas, colados ao corpo e sem proteção. 

Em visitas às propriedades rurais, ele ficou estupefato com o uso intensivo dos químicos, com a falta de cuidados no seu manuseio e com o desconhecimento sobre seus riscos. A médica Neice Muller, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, liderou a pesquisa.


Sérgio Poletto, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Vacaria, iniciou uma campanha de conscientização sobre o uso de equipamentos de proteção individual ao pulverizar agrotóxicos / Anna Ortega

Poletto decidiu colocar toda a estrutura do sindicato para conscientizar seus sete mil membros sobre os riscos dos pesticidas. Imprimiu panfletos e organizou palestras sobre a importância do uso de equipamentos de proteção individual, além de nomear um técnico para orientar na migração de agricultores para o cultivo orgânico. Mas, com a resistência interna, passou a apenas auxiliá-los na redução do uso de agrotóxicos. “Tivemos de maneirar no discurso para não perder associados”, disse ele. 

Até Silvandro Fonseca, secretário de Saúde de Vacaria, confiou a Poletto a busca por explicações. Fonseca disse estar em alerta com os índices acima da média brasileira de óbitos fetais, cânceres e problemas renais no município, mas reconheceu que a prefeitura não tem programa de prevenção. “É difícil estabelecer uma causa, por isso também é difícil implementar algum programa”, disse o secretário, em uma reunião na prefeitura convocada por Poletto e acompanhada pela reportagem.

Médico no sindicato, o ginecologista Dirceu Trevisan também está atento ao alto índice de abortos e mortes fetais entre as assalariadas. “Em muitos casos, eu pergunto que produto ela aplica na lavoura, e ela não sabe dizer porque são misturas”, disse ele. “A vigilância sanitária precisa ter um controle disso, senão só trataremos a consequência”.

Ainda é um desafio quantificar a influência dos agrotóxicos sobre doenças graves no país. “Mas o fato de ser complexo não significa que não haja impacto, isto é, que os riscos não existam”, disse a geneticista Lavinia Schuler-Faccini, autoridade em anomalias congênitas na América Latina.

Schuler-Faccini diz que os riscos estão sendo cada vez mais demonstrados por estudos comparando populações expostas e não expostas e por análises em animais e células in vitro. “Um dos grandes desafios agora é sabermos o peso exato dos agrotóxicos no desenvolvimento de condições e doenças”, explica a professora do departamento de genética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.


Trabalhadores podam macieiras para o inverno em Vacaria. A cultura exige aplicação intensa de pesticidas e ocupa quase sete mil hectares no município / Anna Ortega

Os efeitos dos agrotóxicos sobre as crianças podem originar tanto do pai quanto da mãe, segundo Schuler-Faccini. A presença de pesticidas no organismo desregula hormônios e interfere nas sinalizações produzidas pelos genes, podendo desligar, enfraquecer ou ativar excessivamente sua expressão. “É um efeito a longo prazo, que ocorre muito antes de uma gestação”, diz a pesquisadora, que também lidera a vigilância de anomalias congênitas no estado.

Legislação flexível e batalhas judiciais

No Brasil, os agrotóxicos têm um caminho cada vez mais livre. Em 2020, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária reavaliou o glifosato e o considerou seguro, desde que não extrapole doses de contaminação aguda e crônica. 

Aprovada em 2023, a lei cujo projeto ficou conhecido como “PL do Veneno” afrouxou ainda mais o controle de agrotóxicos no país, apesar de duras críticas da comunidade científica. Em junho, o governo federal liberou 80 novos produtos com agrotóxicos, incluindo quatro a base de glifosato. Um deles será fabricado pela Monsanto no Brasil, enquanto os outros três, na China, um fornecedor de agrotóxicos cada vez mais relevante no mercado brasileiro.

O glifosato e outros produtos considerados perigosos também seguem sem restrições em vários países. Em 2023, a Comissão Europeia autorizou o uso do herbicida por mais dez anos, embora alguns países europeus tenham proibido seu uso em áreas residenciais e espaços públicos. 

Nos Estados Unidos, porém, a Monsanto tem contabilizado derrotas na Justiça. Vítimas de câncer têm conseguido provar que ficaram doentes por causa do Roundup, à base de glifosato. Até agora, 154 mil ações já chegaram às Cortes americanas, e a multinacional pagou cerca de US$ 11 bilhões em indenizações. Como resultado da ofensiva, a multinacional alemã Bayer, proprietária da Monsanto, retirou o glifosato de produtos para uso residencial no país – este uso segue autorizado no Brasil.

O Brasil tem visto poucas ações judiciais desse tipo, mas há algumas em andamento. Em um caso, a agricultora Lídia Maria do Prado, do Paraná, processou a multinacional Alliance One por ter desenvolvido polineuropatia tardia, uma disfunção de nervos periféricos associada ao contato com agrotóxicos da lavoura de tabaco. Até agora, ela vem vencendo a batalha nos tribunais. 

Agricultores gaúchos de Nova Santa Rita e Eldorado do Sul também buscaram na Justiça a proibição da pulverização aérea de agrotóxicos, que afetou plantações orgânicas e a saúde dos assentados, que relataram sintomas de intoxicação após a deriva. 

Mas nem todos buscam justiça ou respostas. Os pais de Maria preferem não mexer nas feridas do passado. Saber a causa do destino da filha ainda é insuportavelmente doloroso. Outra agricultora com quem conversamos relembrou sua sobrinha, nascida na década de 1990, quando os campos de Vacaria começaram a ser tomados pela soja. A menina, filha de agricultores, nasceu sem vida, vítima de anomalias congênitas. Agora, a mulher se pergunta se a vida da sobrinha teria sido abreviada, assim como a de Maria, pela exposição a agrotóxicos. 

Esta reportagem foi apoiada pelo Fundo Howard G. Buffett para Mulheres Jornalistas da International Women’s Media Foundation. 

Tatiane Moraes contribuiu para a reportagem com sua pesquisa sobre a associação entre o uso de agrotóxicos e as mortes fetais e anomalias congênitas.


Fonte:  Dialogue Earth