Venezuela e a volta dos intelectuais consentidos

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Um dos aspectos que de tempos em tempos noto neste blog é a existência de um tipo de personagens que possuem treinamento acadêmico e são tolerados pela mídia corporativa nacional e local por expressarem o mesmo tipo de conservadorismo emperdenido que caracteriza também os donos dos veículos que lhes dão voz. São o que eu caracterizo de “intelectuais consentidos’.

Alguns dos personagens aceitos nacionalmente incluem o ex-esquerdista Demétrio Magnoli e o filósofo Luiz Felipe Pondé, mas também existem aqueles que circulam na mídia local, até porque seus currículos acadêmicos magérrimos só os habilita para o consumo digno das províncias.

O último episódio que está assanhando os intelectuais consentidos são os resultados das eleições presidenciais na Venezuela. Esses intelectuais consentidos estão não apenas reproduzindo a retórica vinda dos centros de poder ocidental, mas se omitindo em fazer qualquer análise sobre as condições em que esse processo se deu, visto que a Venezuela se encontra sob pressão das sanções econômicas ditadas pelos EUA e seguidas por um grande número de países europeus.

Particularmente não nutro simpatia por Nicolas Maduro, mas não há como ignorar qual é o tipo de oposição com que ele se debate. Se olharmos o passado imediato da situação venezuelana, veremos que o mesmo tipo de cantilena sendo para tentar emplacar  Edmundo González como presidente já foi usada para fazer o mesmo com o agora irrelevante Juan Guaidó.

O interessante é que quando os intelectuais consentidos falam sobre a Venezuela temos sempre chamados em prol de um tipo democracia que é hoje apenas uma miragem.  Esse clamor democrático não se vê, por exemplo, em relação ao presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy que adiou eleições e se manteve no poder sem que se veja a mesma rotulação de ditador que se aplica a Maduro.  A grande diferença aparente é que Zelenskyy, que baniu a maioria dos partidos que lhe faziam oposição, é chancelado pelos mesmos países que querem impor González  na Venezuela.

Por essas e outras é que temos que sempre desconfiar do fervor democrático seletivo dos intelectuais consentidos. É que esse fervor seletivo serve apenas para esconder uma adesão às ideias que percolam dos centros decisórios que manipulam a democracia sempre que necessário para impor interesses estratégicos das grandes empresas monopolistas.

Uma pergunta muito simples pode ajudar a compreender certas análises consentidas: qual é o programa de governo que Edmundo González propõe para a Venezuela? E sobre as famigeradas guarimbas, alguma coisa a dizer? Nesse caso, só se ouve o mais profundo silêncio.

Casos da febre do oropouche aumentaram quase 200 vezes neste ano comparados à última década

Dados preliminares publicados por pesquisadores brasileiros mostram que o patógeno passou por alterações que o tornaram mais agressivo, contribuindo para o ressurgimento da doença no Brasil entre 2023 e 2024

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Em território nacional, foram detectadas infecções autóctones em áreas anteriormente não endêmicas nas cinco regiões, com casos relatados em 21 unidades federativas e aumento de quase 200 vezes na incidência (imagem produzida pela Agência FAPESP com base em gráficos do artigo)

Julia Moióli | Agência FAPESP 

A epidemia atual de oropouche é causada por uma nova variante do arbovírus OROV capaz de se replicar até cem vezes mais do que a original e de evadir parte da resposta imune. As conclusões são de um estudo divulgado em versão pre-print (artigo sem revisão por pares) no repositório medRxiv.

A febre do oropouche faz parte do rol de doenças negligenciadas, como a malária e outras arboviroses (dengue, por exemplo). É transmitida por moscas hematófogas da espécie Culicoides paraensis e causa dor de cabeça, artralgia, mialgia, náusea, vômito, calafrios e fotofobia – mas também pode levar a complicações mais graves, como hemorragia, meningite e meningoencefalite.

Apesar de documentada na América do Sul desde a década de 1950, a doença apresentou um aumento substancial de casos entre novembro de 2023 e junho de 2024 no Brasil, Bolívia, Colômbia e Peru. Em território nacional, foram detectadas infecções autóctones em áreas anteriormente não endêmicas nas cinco regiões, com casos relatados em 21 unidades federativas e aumento de quase 200 vezes na incidência em comparação com a última década.

Para investigar os fatores virológicos por trás desse ressurgimento, pesquisadores das universidades Estadual de Campinas (Unicamp), de São Paulo (USP), do Kentucky, do Texas (Estados Unidos) e da Federal de Manaus (Ufam), além do Imperial College London (Reino Unido) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), combinaram dados genômicos, moleculares e sorológicos de OROV do período entre 1º de janeiro de 2015 e 29 de junho de 2024, além de caracterização in vitro e in vivo, em um estudo financiado pela FAPESP (projetos 18/14389-022/00723-122/10408-6 e 23/11521-3).

O primeiro passo foi testar por PCR um grupo de 93 pacientes do Amazonas com doença febril não identificada e negativos para Malária, entre dezembro de 2023 e maio de 2024. O resultado foi positivo para OROV em 10,8% dos casos e, posteriormente, foi isolado o soro de sete pacientes em culturas de células.

Em seguida, esses isolados foram usados para avaliar a capacidade replicativa em diferentes células – de primatas e humanos – sempre em comparação com um isolado antigo de OROV. Por fim, foi avaliada a capacidde de ambos os vírus serem neutralizados por anticorpos presentes no soro de camundongos previamente infectados com o OROV e de humanos convalescentes para linhagens anteriores, infectados até 2016. Para isso, foi feito um teste de neutralização por redução de placas (PRNT50), que mede a redução do número de partículas virais viáveis formadas após a incubação com diferentes diluições do soro dos pacientes ou de camundongos.

“Percebemos que o novo OROV apresenta replicação aproximadamente cem vezes maior em comparação com o protótipo”, explica Gabriel C. Scachetti, pesquisador do Laboratório de Estudos de Vírus Emergentes (Leve) da Unicamp e um dos autores do estudo. “Além disso, produziu 1,7 vez mais placas, de tamanhos 2,5 vezes maiores, um indício de maior virulência.”

“Também infectamos camundongos com as duas cepas e vimos que o vírus antigo não protege contra o novo – a redução na capacidade de neutralização foi de pelo menos 32 vezes”, completa Julia Forato, também autora e pesquisadora do Leve.

Saúde pública

“Além de traçar um panorama da epidemia de oropouche, o trabalho apresenta possíveis explicações para o aumento no número de casos, servindo de base para ações de controle epidemiológico”, afirma José Luiz Proença Módena, professor do Instituto de Biologia da Unicamp (IB-Unicamp), líder do Leve e um dos coordenadores do estudo. “Se o novo vírus escapa da proteção em áreas com alta soroprevalência, há maior probabilidade de infecções e transmissão, inclusive com disseminação para outras regiões do Brasil, portanto precisamos confirmar e monitorar casos positivos e lançar mão de ferramentas para diminuir o risco de transmissão.”

“Essa epidemia está longe de acabar e tem potencial de causar estragos em áreas onde não havia qualquer circulação do vírus”, alerta o pesquisador.

As professoras Ester Sabino e Camila Romano, ambas da Faculdade de Medicina da USP, participaram do estudo. William Marciel de Souza(Universidade de Kentucky) e Pritesh Jaychand Lalwani (Ufam e Fiocruz Manaus) também são coautores.

O artigo Reemergence of Oropouche virus between 2023 and 2024 in Brazil pode ser lido em: www.medrxiv.org/content/10.1101/2024.07.27.24310296v1.


Fonte: Agência Fapesp

Plantações de eucalipto reduzem a riqueza de insetos aquáticos de nascentes de rios, mostra estudo

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Monocultura de eucalipto reduz biodiversidade em até 30% em nascentes

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Prática comum no território brasileiro, a substituição de vegetação nativa por monoculturas como o eucalipto provoca mudanças na estrutura do solo, que podem afetar o ambiente e a fauna de nascentes de rios próximas. Um estudo da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) mostra que plantações de eucalipto reduziram em quase 30% o número de espécies de organismos aquáticos, entre eles insetos, encontrados em nascentes da Mata Atlântica. Os resultados da análise, publicados na sexta (2) na revista “Acta Limnologica Brasiliensia”, reforçam a qualidade ambiental de nascentes em áreas de mata preservada.

Os pesquisadores analisaram dez nascentes da bacia do rio Paraíba do Sul, em Minas Gerais, durante a estação seca de 2017 — metade em áreas com plantações de eucaliptos e a outra, com vegetação nativa. Eles coletaram amostras da água e sedimento em pontos diferentes das nascentes e analisaram a presença de macroinvertebrados aquáticos, incluindo insetos e vermes.

A pesquisa encontrou 8.474 macroinvertebrados aquáticos em áreas de florestas nativas e 5.261 em áreas de plantações de eucalipto, de 58 grupos. Embora a abundância total de macroinvertebrados não tenha diferido significativamente entre os dois tipos de vegetação, a riqueza de espécies foi significativamente menor nas áreas com plantações de eucalipto. Organismos aquáticos de seis grupos, como os trichoptera (friganídeos), psychodidae (família das moscas-de-banheiro) e tipulidae (pernilongos-gigantes), foram encontrados exclusivamente em nascentes de florestas nativas.

A presença desses grupos, especialmente sensíveis a alterações ambientais, indica que as nascentes com vegetação nativa possuem condições ecológicas mais favoráveis. Além dos macroinvertebrados, outros indicadores como cobertura vegetal, presença de matéria orgânica, pH, oxigênio dissolvido e condutividade elétrica foram analisados para avaliar a qualidade da água.

As florestas plantadas ocupam 9,5 milhões de hectares do país, sendo que 77,3% dessa área é de eucalipto, segundo dados de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O Brasil é o principal exportador de celulose, e Minas Gerais se destaca como o estado com maior área de plantação de eucalipto, de 29%. Em 2022, a produção florestal foi responsável por 1,3% do PIB do país, segundo o Ministério de Agricultura e Pecuária. Embora reconheça a importância do setor, a pesquisadora Sheila Peixoto, da UFJF, autora do estudo, aponta que os impactos negativos do eucalipto são bem conhecidos pela ciência. “Além dos impactos terrestres, com esse trabalho, percebemos que esse tipo de plantação afeta também as nascentes”, analisa.

Para Peixoto, a pesquisa pode incentivar as tomadas de decisão sobre a autorização, regulamentação e licenciamento de plantações de eucalipto, principalmente em áreas com nascentes. Além disso, os dados podem ser usados em futuros estudos sobre bioindicadores ambientais, que medem a qualidade da água desses ambientes.

Agora, os cientistas da UFJF pretendem focar em grupos biológicos mais sensíveis aos impactos ambientais, por meio de uma abordagem voltada para o biomonitoramento da qualidade das águas. “Vamos aumentar a coleta de dados para conseguirmos comparar a biodiversidade em nascentes com diferentes condições ecológicas”, antecipa a pesquisadora.


Fonte:  Agência Bori

Fundação Heinrich Böll lança edição atualizada do “Atlas dos Agrotóxicos”

Atlas dos Agrotóxicos: Fatos e dados do uso dessas substâncias na agricultura

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Por Fundação Heinrich Böll 

Nas frutas, nos vegetais, no leite materno, no ar e até mesmo nos solos de territórios protegidos – vestígios de agrotóxicos usados na agricultura podem ser encontrados em toda parte. Os agrotóxicos deterioram a saúde humana, a biodiversidade, a água e o solo, mas isso não é, de jeito algum, novidade. Em 1962, por exemplo, tivemos a publicação do livro mundialmente aclamado Primavera Silenciosa, da bióloga Rachel Carson, que descreveu os efeitos nocivos do uso desses produtos. O trabalho foi inovador para o movimento ambiental e levou à proibição de agrotóxicos altamente tóxicos, como o DDT (diclorodifeniltricloroetano).

Porém, sessenta anos após o lançamento do livro de Carson, os agrotóxicos estão sendo usados no mundo inteiro em quantidades cada vez maiores, mesmo com regulamentações de aprovação mais rígidas – e acordos voluntários e obrigatórios sobre o manuseio desses produtos. O cultivo de plantas geneticamente modificadas como a soja, criadas pelas mesmas corporações que estão produzindo agrotóxicos, tem contribuído para o aumento do uso de herbicidas, principalmente em países ricos em biodiversidade. O mercado global de agrotóxicos é altamente lucrativo. Algumas empresas agroquímicas influentes estão expandindo seu controle sobre o mercado e prosperando com lucros cada vez maiores. Na vanguarda: empresas europeias como Bayer e BASF. A União Europeia (UE) é o maior mercado de exportação de agrotóxicos do mundo, e vem investindo cada vez mais em países do Sul Global. As empresas da região exportam agrotóxicos que são proibidos em seus próprios territórios, devido aos seus efeitos nocivos na saúde humana e no meio ambiente.

O Brasil é um dos países mais importantes para esse mercado, ocupando o pódio dos maiores consumidores e importadores de agrotóxicos. O país permite limites de resíduos em água e alimentos muito superiores aos da UE. Isto possibilita o registro cada vez maior de novos agrotóxicos, com recordes sendo batidos a cada ano, além do crescimento da importância das commodities na economia brasileira, a partir da ampliação da área plantada e da produção de culturas mais dependentes desses produtos. Este processo gera uma série de problemas nacionais relativos ao uso de agrotóxicos, que por sua vez são sui generis, como o crescimento dos registros de conflitos no campo envolvendo a contaminação de comunidades da agricultura familiar ou de povos tradicionais.

Em contrapartida ao consumo cada vez maior desses produtos, multiplicam-se também os movimentos sociais e organizações da sociedade civil que pesquisam e denunciam os impactos dos agrotóxicos, para combater o seu avanço e apresentar alternativas a este modelo, como a agroecologia. Pesquisas recentes indicam um aumento no consumo de alimentos orgânicos entre brasileiros durante os últimos anos, o que mostra que as pessoas estão cada vez mais conscientes em relação à importância do acesso aos alimentos cultivados sem o uso de agrotóxicos. O debate sobre os riscos do consumo de agrotóxicos não cresce apenas em solo brasileiro. O tema tem visibilidade mundial, a partir do avanço de graves A União Europeia é o maior mercado de exportação de agrotóxicos do mundo, e vem investindo cada vez mais em países do Sul Global.”

“Diante do papel central do Brasil no debate sobre os impactos dos agrotóxicos, o escritório da Fundação Heinrich Böll considerou fundamental produzir uma edição brasileira do Atlas dos Agrotóxicos. impactos. A morte massiva de abelhas causada por agrotóxicos à base de fipronil em diferentes partes do planeta e a contaminação de escolas por produtos aplicados via pulverização aérea são dois exemplos que ilustram os riscos do uso dessas substâncias. Assim, diante do papel central do Brasil no debate sobre os impactos dos agrotóxicos, o escritório da Fundação Heinrich Böll considerou fundamental produzir uma edição brasileira do Atlas dos Agrotóxicos, publicado originalmente na Alemanha, em 2022. Este material faz um raio-x sobre a questão dos agrotóxicos no Brasil a partir de um conjunto de artigos traduzidos e outros originais, escritos por autores que são referência na pesquisa do tema no Brasil. Todos os textos apresentam dados e fatos sobre o uso e o impacto dos agrotóxicos na agricultura e na saúde humana.

Desde seu lançamento, o Atlas dos Agrotóxicos já foi adaptado e lançado pelos escritórios das Fundação Heinrich Böll em mais de oito países e cinco línguas. Este movimento contribui com as ações para a costura de acordos internacionais que buscam enfrentar o avanço do uso de agrotóxicos. Na União Europeia, a Estratégia Farm to Fork (do campo ao garfo) foi elaborada para pedir que os Estados-Membros reduzam o uso de agrotóxicos e os riscos associados em 50% até 2030. Em paralelo, organizações internacionais como o Programa Mundial de Alimentos (WFP) e a Organização para Agricultura e Alimentação (FAO) enfatizam a necessidade da transição para sistemas alimentares mais sustentáveis.

As mudanças climáticas têm se tornado um tema central em qualquer debate sobre políticas e direitos humanos, e a redução de insumos de agrotóxicos na agricultura é um ponto chave dessa discussão. A Fundação Heinrich Böll já publicou uma série de materiais voltados para os impactos sociais e ambientais dos sistemas alimentares, entre elas o Atlas do Agronegócio, o Atlas da Carne e o Atlas dos Insetos. É crucial que alternativas mais sustentáveis sejam ampliadas, trabalhando com a natureza – e não contra ela. Temos que definir o curso agora. A agroecologia e o manejo integrado de pragas (MIP), além da produção de mais pesquisas com biopesticidas, podem ajudar nesse processo.

Para a Fundação Heinrich Böll e muitos parceiros, comer é um ato político. Porque debater as origens dos alimentos e como eles são produzidos é condição fundamental para que todes tenham garantido o direito ao acesso a alimentos saudáveis e de qualidade. Acreditamos que este atlas fornece material que contribui para um debate dinâmico e para uma transformação em nossa forma de produzir e consumir.

Annette von Schönfeld

Diretora do escritório da Fundação Heinrich Böll no Brasil

Marcelo Montenegro

Coordenador de programas e projetos de Justiça Socioambiental

Julia Dolce

Co-Editora do Atlas dos Agrotóxicos


Fonte: Fundação Heinrich Böll

Cientistas precisam de tempo para pensar

Chamadas de vídeo. Mensagens instantâneas. Chamadas de voz. E-mails. Mídias sociais. Smartphones. Tablets. Laptops. Desktops. Mais dispositivos digitais equivalem a menos tempo para se concentrar e pensar

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Por Nature

Os efeitos negativos disso sobre os pesquisadores são abordados pelo cientista da computação Cal Newport em seu último livro, Slow Productivity1. O título do livro desafia a ideia, comum a muitos locais de trabalho, de que a produtividade deve sempre aumentar. Um estudo mostrou que a ciência está se tornando menos disruptiva, embora agora haja mais artigos sendo publicados e bolsas concedidas do que nunca2. Newport, que estuda tecnologia no local de trabalho na Georgetown University em Washington DC, diz que pesquisadores e outros trabalhadores do conhecimento precisam desacelerar e gastar mais tempo pensando, para se concentrar em manter e melhorar a qualidade em seu trabalho.

Newport presta um serviço à comunidade de pesquisa ao destacar uma força de trabalho sobrecarregada. As instituições já deveriam estar acessando a expertise que existe dentro de suas paredes na busca por respostas, mas não estão fazendo isso. Novas tecnologias de comunicação têm enormes benefícios, incluindo acelerar a pesquisa, como foi necessário durante a pandemia da COVID-19. Mas elas também estão espremendo o tempo de pensamento. O livro de Newport nos lembra que há pesquisadores que saberão como ajudar. Tempo de pensar — ​​o tempo necessário para se concentrar sem interrupções sempre foi essencial para o trabalho acadêmico. É essencial para projetar experimentos, compilar dados, avaliar resultados, revisar literatura e, claro, escrever. No entanto, o tempo de pensar é frequentemente subvalorizado; raramente, ou nunca, é quantificado nas práticas de emprego.

Uma maneira de pensar sobre a prática de fazer malabarismos com pesquisa, e-mail e mensagens instantâneas é visualizar alguém trabalhando ao lado de uma caixa de correio física. Imagine abrir e ler cada carta assim que ela chega e começar a redigir uma resposta, mesmo que mais cartas caiam na caixa

— o tempo todo tentando fazer seu trabalho principal. Pesquisadores dizem que suas listas de tarefas tendem a aumentar, em parte porque os colegas podem contatá-los instantaneamente, geralmente por bons motivos. Pesquisadores também frequentemente precisam escolher o que priorizar, o que pode fazer com que se sintam sobrecarregados.

Newport dá sugestões sobre como recuperar o tempo de reflexão, incluindo limitar o número de itens em listas de tarefas e equipes de projeto reservando tempo para concluir tarefas que exigem todos os membros, evitando assim que membros individuais enviem e-mails uns aos outros. Para instituições, Newport recomenda um sistema transparente de gerenciamento de carga de trabalho

— uma maneira de os gerentes verem tudo o que um colega deve fazer — e então ajustar a carga de trabalho se houver mais tarefas do que tempo disponível.

O tempo de reflexão é frequentemente subvalorizado; raramente, se é, quantificado em práticas de emprego.”

Sem dúvida, um bom conselho, isso pode ser mais fácil de implementar em ambientes industriais do que em acadêmicos. Em muitos laboratórios de pesquisa acadêmica, os pesquisadores se reportam a um único pesquisador principal, com pouca estrutura de gestão. Isso ocorre em parte porque é difícil justificar aos financiadores acadêmicos o orçamento para pagar por funções de gestão e administração.

Mas Felicity Mellor, pesquisadora de comunicação científica no Imperial College London, é cética sobre dar aos gerentes uma função no tempo de reflexão. Em muitos casos, os pesquisadores já estão sentindo o peso dos sistemas de monitoramento e avaliação de suas instituições. Mellor argumenta que incluir mais uma caixa em um formulário de avaliação pode não cair bem. Ela também acha que as instituições não aceitarão isso. “Você consegue imaginar a resposta se um cientista preenchesse uma planilha de ponto onde diz ‘oito horas gastas pensando’?” Em última análise, ela diz, criar uma cultura de pesquisa mais favorável precisa de uma mudança muito mais fundamental. Isso sugere uma reformulação ainda mais radical do modelo de financiamento atual para pesquisa acadêmica, como escrevemos no mês passado (veja Nature 630, 793; 2024), juntamente com mudanças em outros aspectos da ciência acadêmica.

Verificação de qualidade

A tese de Newport levanta uma questão muito mais fundamental: qual é o impacto do tempo de concentração perdido na ciência — não apenas na estrutura e no processo da ciência, mas também no conteúdo e na qualidade da pesquisa?

Em 2014, Mellor coliderou um projeto de pesquisa, financiado pelo Conselho de Pesquisa em Artes e Humanidades do Reino Unido, chamado The Silences of Science, publicado como um livro dois anos depois3. Os pesquisadores discutiram essa questão e outras em uma série de workshops, mas o trabalho não continuou após o término da bolsa. Essas explorações precisam ser revividas, mas também precisam incorporar o impacto das tecnologias de inteligência artificial. Essas ferramentas estão sendo implementadas em ritmo acelerado em todo o mundo para automatizar muitas tarefas administrativas de rotina. Os pesquisadores precisam avaliar se essas ferramentas podem liberar mais tempo de pensamento para os pesquisadores; ou se elas podem ter o efeito oposto.

As tecnologias de comunicação certamente evoluirão ainda mais e continuarão distraindo os pesquisadores de seu trabalho. Mais estudos investigando o efeito dessas tecnologias na ciência são necessários urgentemente, assim como estudos sobre como o tempo de pensamento pode ser protegido em um mundo de comunicação instantânea. Esse conhecimento ajudará pesquisadores e líderes institucionais a tomar melhores decisões sobre a implantação das tecnologias — e, esperançosamente, permitirá que os pesquisadores criem aquele espaço e tempo tão importantes para pensar.


Fonte: Nature

Circling the wagon: os muitos amigos da Águas do Paraíba e o esforço para esconder a crise hídrica em Campos

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Circle the wagons é uma expressão idiomática da língua inglesa que pode se referir a um grupo de pessoas que se unem por um propósito comum. Historicamente, o termo era usado para descrever uma manobra defensiva que era empregada pelos americanos no século XIX. O termo evoluiu coloquialmente para significar pessoas defendendo umas às outras.

Pois bem, os campistas acabaram de assistir uma demonstração prática do “circle the wagons” com a crise detonada pelo excesso de geosmina na água servida aos campistas pela eterna concessionária “Águas do Paraíba”.  O que se viu de gente apontando o dedo para todos os lados, menos para quem deveria (até pelo preço que cobra) entregar água seguindo padrões máximos de ser “inodora, insípida e incolor”.

Uma olhada pelas páginas dos diversos veículos da mídia corporativa campista pode verificar uma série de manifestações que, ao contrário do que poderia se esperar, se esmeraram em procurar defender a concessionária, mesmo levando em conta o fato de que se o cheiro, o sabor e a cor não tivessem entregue o trabalho mal feito, nunca teríamos descoberto que estavam nos servindo uma solução aquosa contendo, entre outras coisas, geosmina. É importante notar que a geosmina foi a melhor amiga dos campistas, pois pelo cheiro soubemos do que estava acontecendo. Se tivéssemos dependido dos dados postados pelas Águas do Paraíba ou da fiscalização que deveria estar sendo feita pelos órgãos ambientais, teríamos continuado a receber gato por lebre.

O curioso é que até o momento quem deveria ser o maior interessado em fiscalizar a água servida com olhos de lince parece estar mantendo um silêncio típico dos ambientes que hospedam sepulcros. Falo tanto do prefeito de Campos dos Goytacazes, como do presidente da Câmara Municipal de Vereadores. Sempre tão loquazes e agudos na hora de se atacarem, os dois têm mantido uma posição para lá de discreta. Tanto silêncio em um caso tão caro aos campistas (e bota caro nisso quando se trata das tarifas cobradas por serviços duvidosos como os prestados pela concessionária das tarifas exorbitantes) deveria ser bem aproveitado pelos oposicionistas. Aliás, se não for, isso deverá indiciar que a expressão “circle the wagons” inclui também o mundo partidário. Falando nisso, por onde os partidos políticos que nada falaram até agora sobre a crise hídrica em curso? Estão todos tomando água mineral? Parece que sim.

Os destoantes do grande círculo: O MPRJ e o Laboratório de Ciências Ambientais da Uenf

Uma nota positiva nessa crise que parece interminável foi a ação do Ministério Público do Rio de Janeiro e do Laboratório de Ciências Ambientais da Uenf. Ao primeiro procurar o segundo é tivemos um mínimo de transparência sobre a situação, o que se aprofundou com a visita de uma equipe de promotores às instalações da Águas do Paraíba,

É preciso que se diga que a partir da ação do MPRJ e do LCA/Uenf, possamos ver ações mais contundentes de órgãos como a Agência Nacional de Águas, Ibama, Inea e o Comitê Baixo Paraíba do Sul e Itabapoana saiam da inércia em que se encontram e comecem a fazer o que deles se espera que é olhar de muito perto o que anda fazendo a concessionária, especialmente no que se refere ao tratamento de água e esgotos pelo qual os campistas são cobrados de forma salgada.

Aliás, uma das missões do MPRJ poderá ser investigar o porquê de tanta inércia e ineficácia desses órgãos todos em cumprir a missão básica de garantir que a Águas do Paraíba seja fiscalizada e não defendida em momentos em que a baixa qualidade dos seus serviços fica evidente,.

A Águas do Paraíba e a obrigação de mostrar os dados que realmente importam

Uma das coisas mais trombeteadas pela mídia amiga da Águas do Paraíba é que a empresa publiciza os dados do tratamento que é feito da água que chega na casa dos campistas.  Quem for procurar por esses dados na página da empresa vai notar que não é bem assim, e que só são mostrados dados que são convenientes.

Dados sobre agrotóxicos, micropoluentes emergentes, presença de cianabactérias? Isso nem pensar, como se não fosse obrigação da empresa informar de forma ampla o que é servido na água que chega nas residências, escolas e unidades hospitalares do município.

Aliás, uma boa medida do MPRJ seria exigir que dados mais amplos e completos sejam disponibilizados pela concessionária em sua página. Sem esse mínimo de transparência, não há como se saber o que está, de fato, acontecendo. E eu diria que até pelo que se paga, os campistas merecem ter esse acesso garantido.

Produção científica brasileira cai pelo segundo ano consecutivo

Queda foi de 7,2% em 2023 comparada com 2022, segundo relatório da editora Elsevier e da Agência Bori

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Segundo o documento, os investimentos públicos federais em pesquisa e desenvolvimento no Brasil vêm diminuindo desde 2013 (foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP)

Enrico Di Gregorio | Revista Pesquisa FAPESP 

A produção científica no Brasil caiu 7,2% em 2023 comparada a 2022, ano que havia registrado a primeira queda desde 1996. As informações são do relatório da editora científica Elsevier e da Agência Bori divulgado na terça-feira (30/07). É a primeira vez que a produção científica do Brasil, quantificada em 2023 em 69.656 artigos, cai por dois anos seguidos. Outros 34 países sofreram retração no mesmo setor, um aumento de 12 nações em relação ao ano anterior. Enquanto isso, 17 países tiveram alta na produção científica e apenas a Áustria não variou. A redução em massa impactou na produção científica mundial, que concentrou o maior número de países em decréscimo desde 1997. No total, o relatório avaliou 53 países que publicaram mais de 10 mil artigos científicos entre 2022 e 2023.

O Brasil seguia uma tendência de crescimento constante até 2021, quando registrou uma queda que não ocorria desde 1996. Os primeiros sinais dessa tendência apareceram em 2020, quando o ritmo de crescimento desacelerou. “A primeira hipótese para explicar essa queda é a falta de verbas. Sem dinheiro não se faz pesquisa”, diz o cientometrista Estêvão Gamba, cientista de dados da Agência Bori. “A segunda é a pandemia: houve um boom de publicações naquele período e depois veio uma queda.”

Para Dante Cid, vice-presidente de Relações Acadêmicas da Elsevier para a América Latina, a pandemia também teve outros efeitos. “A queda em um grande número de países a partir de 2022 nos leva a considerar que a pandemia pode ter impactado a continuidade de diversos projetos de pesquisa e, portanto, a publicação de seus resultados”, afirma.

Segundo o documento, os investimentos públicos federais em pesquisa e desenvolvimento (P&D) no Brasil vêm diminuindo desde 2013. No caso das instituições estaduais, a redução orçamentária foi registrada desde 2015. Em 2023, a quantidade de dinheiro público destinada para P&D foi 76% do aplicado em 2015. O menor valor foi em 2021, quando só foram investidos 71% do valor de 2015.

O filósofo Renato Janine Ribeiro, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), concorda com o impacto dos cortes. Para ele, o financiamento é o que está por trás da retração. “A ciência precisa de investimento constante, tanto em equipamentos, laboratórios, material de consumo quanto em recursos humanos. Há instituições que carecem de centenas ou até milhares de funcionários”, comenta Janine.

Nesse cenário, o Brasil foi o 14° colocado no ranking mundial de publicações científicas. Entre 2019 e 2023, o país publicou 376.220 artigos. As únicas áreas que registraram crescimento nesse período, contudo, foram as ciências sociais, com aumento de 11,6%, e humanidades, com uma alta de 82% em artigos publicados. De 2022 para 2023, todas as ciências registraram queda na produção. A área com maior diminuição foi ciências médicas, com 10% de retração.

O relatório também avaliou o número de artigos nas instituições de ensino e pesquisa que publicaram mais de mil artigos em 2022. Ao todo, foram 31 universidades e centros de pesquisa analisados, mas somente a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) registrou crescimento de 0,3%.

Das instituições que sofreram queda, as mais afetadas foram as universidades Federal de Lavras (Ufla), em Minas Gerais, Estadual de Maringá (UEM), no Paraná, e Federal do Espírito Santo (Ufes). É uma mudança em relação ao ano anterior, quando a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e a Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) estavam no fim da lista.

Em São Paulo, as universidades de São Paulo (USP), Estadual de São Paulo (Unesp), Estadual de Campinas (Unicamp) e Federal de São Paulo (Unifesp) figuram todas na lista de queda na produção científica. O cenário chama a atenção pela maior quantidade de verbas destinadas à pesquisa no Estado, por meio da FAPESP.

Para o geneticista Marcio de Castro, diretor científico da Fundação, o impacto da pandemia nas pesquisas é inegável, mas há outros fatores. “Acho que esse decréscimo reflete um cenário maior que afeta principalmente a pós-graduação”, diz ele, que foi pró-reitor de pós-graduação na USP. Castro explica que, nos últimos anos, houve um declínio significativo na relação candidatos-vaga nos programas de mestrado e doutorado em São Paulo. “Precisamos refletir sobre outras causas dessa baixa”, sugere.

Uma das razões é um formato definido por ele como “muito rígido e tradicional” nas pós-graduações, em que os jovens cientistas são formados somente para trabalhar na academia, sem muita abertura para uma formação destinada ao serviço público, empresas, organizações não governamentais e outros meios. “Na USP, dois terços dos jovens que terminam o mestrado não seguem para o doutorado. Vão fazer outras coisas”, explica Castro.

Outros países

No ranking mundial, Taiwan e Etiópia foram os países que tiveram as maiores reduções de produção científica, logo abaixo do Brasil. Em 2022, o país tinha sido o último da lista, enquanto o penúltimo foi a Ucrânia. “São dois anos seguidos no fim da lista”, constata Gamba. “Não podemos olhar para o aumento dos países em decréscimo e achar que é normal o Brasil estar nessa posição”, alerta.

No ano passado, a Ucrânia conseguiu reverter o quadro, apesar de estar em guerra, e ficou em 10° lugar na lista dos que tiveram aumento da produção científica. A lista foi liderada pelos Emirados Árabes Unidos, Iraque e Indonésia, com incremento de 15%. Em 2022, foi encabeçada pela China, seguida por Estados Unidos e Índia – naquele ano, a Índia cresceu 19%, e superou pela primeira vez o Reino Unido na lista anual de acréscimo.

De acordo com Gamba, a subida dos novos líderes também pode ser explicada pela pandemia. Enquanto em algumas nações, como Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, França e Alemanha, a elevada produção científica no período pré-pandemia teve um boom no período de alta da contaminação e depois uma queda, nos países onde a produção era baixa, a elevação impulsionada pela pandemia se manteve.

Um terceiro fator são os problemas econômicos, como baixo crescimento, alta inflacionária e endividamento externo, que afetam países de todos os continentes. “Não tem como esses problemas deixarem de impactar”, diz Gamba. Apesar do cenário de recessão, as perspectivas são positivas. “Calculamos que, com o distanciamento da pandemia e a redução nos cortes, a situação deva melhorar daqui a dois ou três anos no Brasil.” Isso não significa que não haverá desafios. “Vimos mudanças no orçamento para melhor, mas a carência ainda é muito grande”, finaliza Janine.

No relatório deste ano, “2023: ano de queda na produção científica de 35 países, inclusive o Brasil”, foi utilizada a ferramenta analítica Scival, da Elsevier, para coletar dados da base Scopus, que guarda informações de mais de 85 milhões de publicações editadas por mais de 7 mil editoras científicas no mundo.


Fonte: Agência Fapesp
 

Pescadores artesanais usam aplicativo para monitorar Baía de Guanabara

Tecnologia vai facilitar denúncias de vazamento de petróleo e gás

ahomar app

O aplicativo faz o mapeamento de onde estão os pescadores artesanais da Baía de Guanabara e onde estão ocorrendo violações socioambientais. | Imagem: Reprodução

Por Redação Ciclo Vivo

A tecnologia vai ajudar pescadores artesanais a proteger a Baía da Guanabara, símbolo do Rio de Janeiro e fonte de subsistência para milhares de famílias. Por meio do aplicativo “De Olho na Guanabara”, pescadores de toda a baía terão, ao alcance das mãos, uma forma de denunciar irregularidades ambientais ligadas, sobretudo, à indústria de petróleo e gás na região.

O aplicativo, desenvolvido pela 350.org e pela Associação dos Homens e Mulheres do Mar da Baía de Guanabara (Rede Ahomar), foi lançado na última sexta-feira (26), em um evento na Ilha de Paquetá, no Rio de Janeiro, com a presença de lideranças das comunidades pesqueiras e representantes dos governos municipal e estadual e do Ministério Público.

Baía de Guanabara
A Baía de Guanabara é um dos cartões postais do Rio de Janeiro e um ecossistema ameaçado pela poluição. Foto: Lucas Campoi na Unsplash

Dezenas de derrames e irregularidades ambientais ligadas à produção e ao transporte de combustíveis fósseis foram registrados na baía nos últimos anos, de maneira dispersa, pelos pescadores artesanais que circulam pelo local. No entanto, a maioria sequer foi investigada, por questões como a dificuldade em precisar o ponto do vazamento e a ausência de um canal que reúna os vários órgãos que precisam ser informados das ocorrências.

A ideia é que, pelo celular, os pescadores, moradores e ambientalistas tenham uma ferramenta de registro e denúncia dos frequentes impactos ambientais na Baía da Guanabara provocados pelo setor de petróleo e gás na região. Será possível compartilhar com as autoridades competentes fotos e vídeos dos vazamentos, bem como identificar por georreferenciamento o local exato dos derrames e em tempo real.

A denúncia, após verificação da coordenadoria da Rede Ahomar, ficará registrada no mapa e em um passo seguinte, será encaminhada para os órgãos de fiscalização oficiais do governo brasileiro (IBAMA, ICMbio, Marinha, entre outros).

Como denunciar

Desde o lançamento do aplicativo em prol da proteção e preservação da Baía de Guanabara, algumas denúncias já foram aprovadas e podem ser vistas neste mapa – destacadas em laranja. Isso porque cada ponto publicado foi verificado antes de se tornar público.

aplicativo Baía de Guanabara
Imagem: Reprodução

Para aproveitar ao máximo a ferramenta, os pescadores estão recebendo treinamento e acompanhamento do uso do aplicativo pela Rede Ahomar. Para registrar as denúncias, é preciso ser membro das associações de pescadores artesanais da região, se inscrever no site e receber uma senha de acesso. É uma forma de garantir a credibilidade dos registros. Outro ponto importante é que os dados dos denunciantes são protegidos, de forma a impedir que sofram represálias.

Veja como saber mais sobre o projeto De Olho na Guanabara, acompanhar as denúncias e ajudar a propagar as irregularidades, de forma a preservar este importante patrimônio natural. 


Fonte: Ciclo Vivo

Temperaturas na Antártica sobem 10°C acima da média em onda de calor

As temperaturas relatadas no continente no meio do inverno chegam a 28 °C acima das expectativas em alguns dias de julho

degelo polo sulCientistas do clima dizem que os recentes aumentos de temperatura na Antártica confirmam o que os modelos preveem. Fotografia: Anadolu/Getty Images

Por Damien Gayle e Dharna Noor para o “The Guardian”

As temperaturas do solo em grandes áreas das camadas de gelo da Antártica subiram em média 10 °C acima do normal no mês passado, no que foi descrito como uma onda de calor quase recorde.

Enquanto as temperaturas permanecem abaixo de zero na massa terrestre polar, que fica envolta em escuridão nesta época do ano, nas profundezas do inverno do hemisfério sul, as temperaturas atingiram 28°C acima do esperado em alguns dias.

O globo vivenciou 12 meses de calor recorde, com temperaturas excedendo consistentemente o aumento de 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais, que tem sido apontado como o limite para evitar o pior do colapso climático.

Michael Dukes, diretor de previsão do MetDesk, disse que, embora as altas temperaturas diárias individuais tenham sido surpreendentes, muito mais significativo foi o aumento médio ao longo do mês.

Os modelos dos cientistas do clima há muito preveem que os efeitos mais significativos das mudanças climáticas antropogênicas ocorreriam nas regiões polares, “e este é um ótimo exemplo disso”, disse ele.

“Normalmente, você não pode olhar apenas para um mês para uma tendência climática, mas está bem alinhado com o que os modelos preveem”, Dukes acrescentou. “Na Antártica, geralmente, esse tipo de aquecimento no inverno e continuando nos meses de verão pode levar ao colapso das camadas de gelo.”

Um mapa fornecido mostra dados provisórios de calor sobre a Antártida em julho. Muitas partes do continente estavam 5-10 °C acima da média climática de 1991-2020

Um mapa fornecido mostra dados provisórios de calor sobre a Antártica em julho. Muitas partes do continente estavam 5-10C acima da média climática de 1991-2020. Fotografia: metdesk

“A Antártica como um todo aqueceu junto com o mundo nos últimos 50 anos, e para esse assunto 150 anos, então qualquer onda de calor está começando dessa linha de base elevada”, ele disse. “Mas é seguro dizer que a maioria do pico no último mês foi impulsionada pela onda de calor.”

A onda de calor é a segunda a atingir a região nos últimos dois anos, com a última, em março de 2022, levando a um pico de 39 °C e causando o colapso de uma parte da camada de gelo do tamanho de Roma.

O aumento das temperaturas na Antártica em julho ocorreu após um El Niño particularmente forte, o fenômeno climático que leva ao aquecimento em todo o mundo, e provavelmente também foi um efeito retardado disso, em combinação com o aumento geral nas temperaturas causado pelo colapso climático, disse Dukes.

Cientistas disseram que a causa próxima da onda de calor foi um vórtice polar enfraquecido, uma faixa de ar frio e baixa pressão que gira na estratosfera ao redor de cada polo. A interferência de ondas atmosféricas enfraqueceu o vórtice e levou ao aumento das temperaturas em altitudes elevadas este ano, disse Amy Butler, cientista atmosférica da National Oceanic and Atmospheric Administration, ao Washington Post .

Jamin Greenbaum, geofísico da Instituição Scripps de Oceanografia da Universidade da Califórnia em San Diego, disse que estava “certamente preocupado com o que o futuro reserva para esta região nos próximos anos”.

“A maioria das minhas expedições de campo foram para a Antártica Oriental, onde vi um derretimento crescente ao longo dos anos”, ele disse. “Embora eu esteja, é claro, alarmado ao ver esses relatos do vórtice polar enfraquecido causando a tremenda onda de calor lá, também não estou surpreso, considerando que isso é, infelizmente, um resultado esperado da mudança climática.”

Jonathan Overpeck, um cientista climático da Escola de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Universidade de Michigan, disse no X que a onda de calor foi um “sinal revelador de que as mudanças climáticas estão realmente começando a transformar o planeta”.

Edward Blanchard, um cientista atmosférico da Universidade de Washington, disse ao Post que foi um evento quase recorde. “É provável que ter menos gelo marinho e um Oceano Antártico mais quente ao redor do continente antártico ‘carregue os dados’ para um clima de inverno mais quente sobre a Antártica”, disse Blanchard.

“Desta perspectiva, pode ser um pouco ‘menos surpreendente’ ver grandes ondas de calor na Antártida este ano, em comparação com um ano ‘normal’ com condições médias de gelo marinho.”

Jonathan Wille, pesquisador que estuda ciências climáticas na ETH Zürich, uma universidade pública de pesquisa em Zurique, Suíça, disse que a onda de calor foi atribuída a um “evento de aquecimento estratosférico do sul” com duração de semanas na região.

“Eles são realmente raros na Antártica, então não estava muito claro como isso afetaria as condições de superfície no continente”, ele disse. “Tem sido interessante ver quão disseminados os efeitos têm sido.”

Embora ele tenha dito que “parece haver ondas de calor cada vez mais frequentes no continente”, ele disse que ainda não estava claro o quanto a crise climática foi um fator na criação deste evento em particular.

“Teremos que esperar pelos estudos de atribuição para descobrir”, ele disse. “É um cenário de ‘esperar para ver.” 


Fonte: The Guardian

MPRJ reúne-se com dirigentes da Uenf para tratar das investigações sobre supostas ingerência e manipulação no programa de bolsas em curso de Pós-Graduação

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Por ASCOM MPRJ 

O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ), por meio da 1ª Promotoria de Tutela Coletiva do Núcleo Campos dos Goytacazes, com a presença da titular Olívia Venâncio Rebouças, participou, na quarta-feira (31/07), de reunião com a reitora da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), Rosana Rodrigues, o vice-reitor, Fábio Lopes Olivares, e o advogado Humberto Nobre, assessor jurídico da instituição de ensino superior. O objetivo da reunião foi o de apurar a notícia de ingerência e a manipulação, pelo professor e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Cognição e Linguagem da Uenf quanto aos critérios para concessão e manutenção de bolsas..

Foi explicitado aos participantes que o Ministério Público, para efetivar uma investigação exitosa, precisa da colaboração da reitoria, até mesmo pelo dever administrativo de coibir atos ilegais praticados no âmbito da instituição. Os representantes da universidade demonstraram a intenção de colaborar com as investigações. Ao final da reunião, o MPRJ recomendou que a Reitoria proceda à análise, sob a sua autonomia universitária e diante dos documentos apresentados, acerca da pertinência de afastamento do investigado das funções de coordenação e chefia durante as investigações.

Foi recomendado ainda que a Uenf elabore documento contendo a listagem dos integrantes e Coordenadores da Comissão Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Cognição e Linguagem; o elenco compilado dos requisitos de concessão de bolsas; a declaração de cumprimento dos termos da Resolução COLAC nº 34/2024 e demais normas de regência impostas pelas agências de fomento; a declaração de ausência de parentesco, afinidade ou amizade íntima com membros da Comissão sob investigação, convocando todos os bolsistas do Programa a assinarem tal documento em até 30 dias corridos a partir do ato convocatório; que, igualmente, sejam os membros da Comissão sob investigação convocados a firmar documento atestando absoluta isenção quanto aos bolsistas contemplados sob suas gestões, em qualquer Programa de Pós-Graduação da Uenf, notadamente se participaram da etapa (classificatória e eliminatória) de entrevista, dado o seu inerente subjetivismo.

Também foi recomendado à Reitoria que, no exercício de sua autonomia, afaste os membros das Comissões Coordenadoras dos Programas de Pós-Graduação da Uenf que apresentem incompatibilidades com o desempenho de tais funções, a exemplo de parentesco ou afinidade com bolsistas; abuso de poder; conduta incompatível com a esperada de um servidor público; falta de urbanidade no trato profissional (ainda que em redes sociais) e desprovimento de lisura na administração de recursos públicos. A Reitoria da Uenf tem o prazo de dez dias para se manifestar quanto às recomendações feitas. As investigações tramitam sob o número ICP 030/24 – MPRJ 2024.00550138 e denúncias podem ser endereçadas ao email protptcocgo@mprj.mp.br.


Fonte: MPRJ