Preparando o desastre: Como o Brasil se tornou um laboratório de agroinvestimentos financeiros

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Por Grain

“Agro é pop, agro é tech, agro é tudo” é um popular slogan transmitido desde 2016 em anúncios veiculados pela maior emissora de TV no Brasil. Financiadas pelo agronegócio, as peças mostram, de um lado, imagens de trabalhadores rurais felizes em plantações de soja, milho, algodão e cana-de-açúcar, e, de outro, famílias satisfeitas nas cidades por poderem comer, vestir-se e abastecer seus carros graças à agroindústria, sugerindo uma espécie de ciclo virtuoso.

Como parte do marketing, a grande mídia repete como mantra que o setor responderia por cerca de 25% do PIB brasileiro e, portanto, seria a grande fonte da riqueza nacional.

Essa imagem triunfalista do agronegócio combina perfeitamente com a estratégia dos relativamente novos Fundos de Investimentos nas Cadeias do Agronegócio, os Fiagros, que prometem que qualquer um poderia ficar com parte da riqueza do setor, tornando-se “sócio” do agronegócio. Criados em 2021, os Fiagros oferecem cotas de participação a partir de apenas R$ 10 (US$ 2), dando ao investidor uma rentabilidade, no geral, acima dos juros exercidos no país (em média 12% ao ano) e isenta de impostos[1].

O fenômeno não se restringe ao Brasil. No México, as Agritechs, que prestam assessoria de investimentos agrícolas, principalmente na produção de frutas vermelhas, agave e abacate para exportação, multiplicaram-se nos últimos anos. Através de aplicativos de celular, muitos jovens investidores nas cidades entram em pools de semeadura para se converterem “em donos de seu próprio lote de ouro verde” ou em “coproprietários de ativos, beneficiando-se dos rendimentos gerados”, mas se mantendo bem distantes das consequências desse lucro fácil, como a captura ilegal de terras, água e exploração de mão de obra análoga à escravidão[2] [3].

Embora ainda sem o atual esforço pela popularização dos investimentos financeiros, nos anos 2000 a Argentina introduziu milhares de hectares para produção, principalmente, de soja transgênica, cotada em dólar nos mercados de capitais, para garantir a rentabilidade dos investidores dos pools de siembra, que chegava 38% ao ano em 2008[4].

Com o sistema, uma nova figura, a de “gestor agrícola”, passa a organizar a produção argentina desde escritórios em qualquer parte do mundo, a partir de recursos levantados por meio de fundos comuns de investidores. Esses tipos de fundos aumentaram em 270% entre 2004 e 2008, contribuindo para colocar um quarto da superfície agricultável do país nas mãos de sociedades anônimas[5] [6]. A partir de 2008, a grave crise Argentina afugentou os rentistas, reduzindo significativamente a atuação dos pools de siembra. E, embora as atuais políticas ultraliberais do recém-eleito presidente Javier Milei prometam “Todo poder a los pools”, e ao capital financeiro, o país assiste a manifestações contundentes de amplos setores da população – de setores do agronegócio nacional a camponeses, de indígenas a parte das forças armadas-, contra a venda das riquezas nacionais e a estrangeirização das terras[7].

Nos Estados Unidos, uma estrutura muito parecida aos atuais Fiagros no Brasil foi proposta em fins dos 1970, o AG-Land Trust. Um fundo especializado na compra de terras com objetivo de inflacionar seu valor para vendê-las com lucro, para distribuição de ganhos de capital isentos de impostos aos cotistas – nesse caso, apenas investidores institucionais. A iniciativa encontrou forte oposição dos agricultores e logo foi bloqueada no Congresso americano – e posteriormente por várias leis agrícolas estaduais anticorporativas -, já que foi vista como uma estratégia de Wall Street para gerar bolhas financeiras sobre o preço das terras, e resultar em uma maioria de agricultores expropriados, submetidos a pagar altos arrendamentos para uma pequena elite financeira rentista[8].

Mas, a partir dos anos 1980, vários instrumentos passaram a facilitar a aquisição de terras por investidores institucionais nos EUA, como os fundos de investimentos em terras florestais e agrícolas, os chamados REITs (Real Estate Investments Trust). Até março de 2023, o valor das terras agrícolas controladas ou de propriedade de investidores institucionais no país era de mais de US$ 15 bilhões, um aumento em 66% em relação a 2008, quando estas terras passam a funcionar mais como um ativo financeiro destinado à rentabilidade dos investidores, rendendo, em 2022, 9,64%[9]. Já o valor total de mercado das propriedades de terras florestais até março de 2023 foi de mais US$ 24 bilhões, com rentabilidade de 12,9%[10]. Enquanto isso, o número de fazendas familiares em 2023 nos EUA é quase quatro vezes menor que em 1935, de 6,8 milhões de fazendas para 1,8 milhões[11].

O Brasil pode estar seguindo o mesmo caminho. Três anos depois de lançados os primeiros Fiagros no país, especialistas apontam que o resultado dessa operação pode ser catastrófico[12]. E que, sob o slogan do “agro é pop, agro é tech, agro é tudo”, agentes financeiros e do agronegócio tentam vender gato por lebre para encobrir o estado de falência econômica, ecológica e social do setor, além do alto risco desses investimentos.

Ao lançar um mecanismo de empréstimo privado para atrair amplos setores da população, o tal pujante setor, em realidade, mostra que só se sustenta através da emissão de dívida sobre dívida, de subsídios estatais e do constante achatamento dos custos de produção, o que significa exploração de trabalho, expropriação de terras, água e outros recursos naturais[13].

Com a ideia de que todos podem ser “sócios do Agro”, esses fundos tentam abocanhar a poupança popular para socializar os riscos e as dívidas do setor e financiar a expansão da agroindústria e tudo que a acompanha historicamente. Capturar as economias da população para financiar mais cercamentos de terras, exploração do trabalho e expropriação de recursos naturais, pode ser uma das mais perversas consequências desta nova estratégia financeira do agronegócio.

Sócios de dívidas

Atualmente, o Brasil possui três tipos de Fiagros: 1) o Fiagro Participação (Fiagro-FIP), que investe principalmente em ações de empresas do agronegócio; 2) o Fiagro-FIDC, constituído por direitos creditórios, ou seja, pelos instrumentos de dívidas do setor (“títulos do agronegócio”);e 3) o Fiagro Imobiliário (Fiagro-FII), que investe em imóveis rurais, direitos de crédito imobiliários até os direitos creditórios do agronegócio.

Enquanto o Fiagro de partipações e o Fiagro de terras são fechados à investidores milionários, o Fiagro de dívidas é aberto a todos. O Fiagro Imobiliário, por ter um leque maior de tipos de ativos, são os mais procurados, contando com 60 fundos, 69 mil contas, e representando quase metade do total do patrimônio dos Fiagros (R$ 17,1 bilhões). Até setembro de 2023, 66% dos seus investimentos eram em títulos de dívida e 20% em bens imóveis, segundo Boletim CVM agronegócio de setembro de 2023.

Desde a alteração da lei dos títulos do agronegócio em 2020 e a criação dos Fiagros em 2021, o volume do mercado de dívida e instrumentos de captação do agronegócio no mercado financeiro mais que duplicou, segundo Boletim de Finanças Privadas do Agronegócio do Ministério da Agricultura.

Os títulos de dívida do agronegócio dominam as carteiras dos Fiagros. O principal deles, o Certificado de Recebível do Agronegócio (CRA), emitido apenas por securitizadoras, representa 55% do total do patrimônio dos Fundos, segundo a CVM. Com rentabilidade atrelada aos altos juros exercidos no país, resgate do valor investido em curto prazo e pagamentos de dividendo mensais sem impostos, vem sendo a opção mais procurada. Mas também a que envolve maior risco, já que depende dos pagamentos dos produtores que, com os preços da soja e milho em baixa e os custos dos insumos em alta, começam a atrasar pagamentos e anunciar calotes contra os Fundos, ou melhor, contra os novos ‘sócios” (de dívidas) do Agro.[14]

Em maio de 2023, por exemplo, uma das Usinas de açúcar emissoras de CRA que compõe parte do portfólio dos Fiagros XPAG1 e XPCA11 administrados pela XP investimentos, a Usina Ester S.A, requereu recuperação judicial por um endividamento de mais R$ 650 milhões (US$ 130 milhões), comprometendo o pagamento mensal dos CRAs, que compõem os patrimônios dos fundos[15]. Mesmo os Fundos ajuizando pedido de apreensão de parte da produção armazenada pela Usina e com acordo judicial para o pagamento, a rentabilidade das cotas foi afetada. O XPCA11, com mais de 100 mil investidores, que pagava rentabilidade 176% do índice vinculado aos juros em fevereiro de 2023, em junho de 2023 entregou 127%[16].

Democratização das finanças ou captura das poupanças populares?

Até março de 2024, 98 Fiagros estavam registrados na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) do Brasil, acumulando um patrimônio líquido de R$ 34 bilhões (US$ 6,8 bilhões), distribuídos por 690 mil contas, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais (Anbima)[17]. Desse total, apenas 43 fundos, que somam um patrimônio de R$ 20,5 bilhões (US$ 4,1 bilhões), estão listados na Bolsa de Valores B3, reunindo 490 mil investidores. Desses investidores na bolsa, 94% são pessoas físicas, participando com 83% do volume dos investimentos[18].

Isto significa que mais da metade destes Fundos, com 60% de seu patrimônio total, não estão listados em bolsa, e estão concentrados nas mãos de apenas 29% de investidores, sobre os quais nada se sabe, já que não têm obrigação de divulgar relatórios mensais. O único tipo de Fiagro que não está listado em Bolsa é o que investe na compra de ações para participação em empresas do agronegócio (Fiagro-FIP), que, embora representem quase 40% do patrimônio total dos Fiagros (R$ 13,5 bilhões, ou US$ 2,7 bilhões) contam com apenas 73 investidores. Como esse tipo de Fundo pode investir até 20% de seu capital em ativos no exterior, este Fiagro, longe dos holofotes, pode constituir um relevante mecanismo de remessa dos lucros e dividendos, sem pagamento de impostos, para fora do país.

Se de um lado esses Fundos fechados beneficiam especialmente famílias super ricas, que podem formar um fundo apenas para escapar do pagamento de impostos, por outro, a oferta pública de cotas com alta rentabilidade a todos os tipos de investidores, livre de impostos, também torna os Fiagros uma opção de investimento atrativa e acessível à população[19].

Mas a elevada rentabilidade está sempre associada a um alto risco. Os Fiagros são considerados um investimento arriscado, já que têm seu patrimônio lastreado em ativos suscetíveis a fatores externos, como o clima, pragas, quebras de safra, crédito e seguro, direitos de propriedade das terras, problemas com infraestrutura logística e de transportes. Por isso, a “democratização” dos investimentos visa atrair as economias de pessoas físicas de todas as classes para fazer os Fundos ganharem musculatura e criarem um patrimônio suficiente para dissipar desconfianças de investidores mais graúdos, como fundos de pensão e de investimentos.

Os Fiagros vêm pagando dividendos expressivos, uma média de 1,13% ao mês, segundo relatório de novembro de 2023 [20][21]. Tal rentabilidade se deve porque a maior parte do patrimônio desses fundos é composta por títulos de dívida que remuneram segundo os juros exercidos no país, hoje em 11,25% anuais[22]. Até agora, portanto, os Fiagros surfaram na onda dos maiores juros reais do mundo, enquanto produtores rurais rolam suas dívidas a um custo estratosférico, ampliando o ciclo vicioso de endividamento do setor.

Embora o mercado de capitais e os investimentos financeiros sejam concentrados pela fatia mais rica da população, o número de investidores no Brasil vem aumentando. Seriam hoje 60 milhões de pessoas, com aumento de investidores em todas as classes sociais, com destaque para a classe C – domicílios que ganham entre R$ 2,9 mil e R$ 7,1 mil – (aumento de 29% para 36%)[23]. A chamada financeirização da economia aposta nesta transferência gradual das economias populares da caderneta de poupança (que lidera as aplicações hoje no país) e da previdência pública (fonte de renda de 90% da população aposentada) para mecanismos financeiros como os fundos de investimentos.

O marketing pesado do “Agro é tudo” vem funcionando como um dos principais mecanismos de popularização do mercado de capitais, e que conta com influencers nas redes sociais e YouTube que ensinam a identificar o tipo de aplicação e investir de forma simples e rápida através de poucos cliques em aplicativos de celular[24]. Entre aplicar suas economias na previdência pública, na poupança ou mesmo em negócios próprios, muitos trabalhadores vêm caindo na tentação de buscar retornos rápidos através destes mecanismos financeiros.

O maior aumento do número de investidores ocorreu entre a população que vive no Cerrado brasileiro, de 33% para 43% do total da população, justamente onde estão situadas as principais “cidades do agronegócio”[25]. Os que hoje podem estar aplicando suas economias em títulos de dívida do agronegócio e em cotas dos Fiagros, podem ser filhos e netos dos 30% da população rural que, entre 1980 e 2010, tiveram de migrar para as cidades ou outras áreas, em grande medida devido aos deslocamentos forçados gerados pela massiva tomada de terras da região para expansão dos monocultivos de soja[26].

“Fiagros de terras”: financeirizar para concentrar

Embora os imóveis rurais representem apenas 17% dos ativos investidos pelos Fiagros, o volume de investimentos em terras quase dobrou de junho para setembro de 2023, passando de R$ 1,8 bilhões para R$ 3 bilhões[27]. Os chamados “Fiagros de terras” que têm 100% dos investimentos em terras agrícolas são, no geral, fechados a investidores profissionais (com investimentos acima de R$ 10 milhões/US$2 milhões) e qualificados (acima de e R$ 1 milhão/US$ 200 mil), com o objetivo de valorização da terra a médio e longo prazo – de 8 a 10 anos-, e pagamento de dividendos anuais.

Além da isenção fiscal sobre os rendimentos, a lei também prevê o não pagamento de impostos no momento da venda de um imóvel rural para esses fundos. O pagamento se dá apenas sobre o lucro com a revenda de cada cota no mercado de capitais, e não sobre toda a propriedade no ato da venda. Grandes proprietários podem constituir esses Fundos como estratégia de transferência de herança sem pagar os impostos ou mesmo para simular negócios com as terras para fraudar dívidas.

Mas mais grave: essa renúncia fiscal na negociação de terras através dos Fiagros tem o potencial de concentrar a propriedade nas mãos desses fundos, alterando a própria lógica de composição do preço da terra. Além da avaliação sobre fatores concretos como a qualidade do solo, o relevo, a presença de água e de infraestrutura, o preço também passa a ser influenciado pelos interesses desta nova classe de rentistas da terra e a dinâmica de compra e venda das cotas.

Para perseguir maior rentabilidade, os fundos passam a arrendar as terras a produtores e empresas especializadas em perseguir uma produção com maior valor de mercado e retornos rápidos, geralmente commodities negociadas em dólar em mercados futuros (e não comida), e agora não só agropecuárias, mas também “agroambientais”. Os arrendamentos visam a valorização das terras até o momento da venda, com direitos de preferência de compra para o arrendatário, e a distribuição dos lucros aos investidores. Os Fiagros, portanto, podem ser usados como mecanismos para se criar bolhas especulativas sobre os preços, como através da compra e venda de terras entre si. (Ver Box 2 Fiagro Verde: especialização financeira na inflação das terras).

Fiagro Verde lucra com recuperação questionável de pastagens

Em 2023, foi criado o primeiro Fiagro Verde, o fundo AGBI III Carbon Fiagro FIP, administrado pela gestora AGBI real assets, com status de “fundo verde” ou “fundo art.9” do Acordo de Paris (certificação acima de fundos ESG), seguindo os critérios da Climate Bonds Iniciative (CBI) e da Sustainable Finance Disclosure Regulation (SFDR), utilizados como padrão na União Europeia[28].

O objetivo do fundo é a recuperação de pastagens, com aplicação de questionáveis técnicas e tecnologias para fixação de carbono no solo (carbon farming), a fim de gerar a emissão e comercialização de créditos de carbono, certificados pela Verra – uma das mais conhecidas no mundo, mas também por seu envolvimento com projetos de carbono altamente controversos[29] [30].

A estratégia de regeneração do solo de áreas de pastos degradados parte de uma conta muito mais econômica que ambiental, já que acaba por intensificar a degradação dos solos e o desmatamento, enquanto inflaciona o preço das terras. Por um lado, a expansão dos monocultivos agrícolas ou de árvores plantadas sobre áreas de pastos já “limpas” é bem mais econômica do que desmatar e destocar florestas[31]. Por outro, pressiona a pecuária para que avance sobre as florestas e vegetação nativa. Além de quadruplicar o valor das terras ao converter pastos de baixo rendimento em terras agrícolas (ver gráfico preços das terras aumentam no Brasil), essa especialização na “modernização verde” das terras agrícolas feita pelos Fundos pretende inflacionar ainda mais o preço das terras com seu histórico de “descarbonização”.

Outros dois Fundos da gestora que realizaram recuperação de pastagens venderam duas fazendas com valorização de 451% em oito anos e de 517% em sete anos[32]Mesmo com a cotação da arroba do boi para baixo e os negócios com terras estagnados frente aos anos anteriores, as terras de pastagens se valorizaram quatro vezes mais que as terras agrícolas no Brasil em 2023[33].

É de se esperar um aumento do número da compra de terras degradadas pelos Fiagros verdes sobre os 30 milhões de hectares que o Brasil se comprometeu a “recuperar” entre 2020-2030, através do Plano Agricultura de Baixo Carbono+.

Dentre as cotas mais rentáveis dos Fiagros estão justamente as de terras agrícolas. A remuneração dessas cotas depende do valor dos arrendamentos, no geral, vinculados ao valor da saca de soja por hectare, que também varia conforme a disponibilidade de água para irrigação[34]. O que demonstra tanto a alta vinculação entre o preço das terras e das commodities agrícolas nas regiões produtoras, como também a precificação indireta da água pelos agentes financeiros, o que também impacta, por sua vez, no valor dos arrendamentos, da terra e agora também das cotas dos fundos.

Dentre esses “Fiagros de terras” estão os três administrados pela XP investimentos, que juntos somam 35 mil hectares, na região do Matopiba, arrendados para a SLC Agrícola para produção principalmente de soja, mas também milho, algodão e braquiária[35]. A empresa é a maior produtora de soja do país, e não por acaso, também responsável pelo desmatamento de pelo menos 30 mil hectares de vegetação nativa no Cerrado[36] [37]. Duas destas fazendas estão situadas em Correntina na Bahia, palco dos conflitos mais intensos por água da história do país, cada vez mais capturada por corporações e projetos de irrigação[38].

Se a rentabilidade das cotas é rapidamente impactada com a expectativa de calote nos pagamentos das dívidas, o mesmo não ocorre com a violência extraeconômica. Mesmo em tempos de “finanças verdes”, na prática, o mercado de capitais e os investidores perseguem a maior rentabilidade, e isso geralmente vem acompanhado por negócios com terras griladas, desmatadas, com extração ilegal de água ou com presença de trabalho escravo. (Ver Tabela: “Fiagros de terras”: captura de terras agrícolas, água e desmatamento).

Os agentes do mercado de terras avaliam que o atual período traz grande oportunidade para compras de terras baratas. Após uma intensa valorização nos últimos três anos, com preços médios das terras para a produção de grãos subindo 128%, em 2023 essa curva estagnou[39]. A perda de rentabilidade dos produtores com a queda das commodities e aumento dos custos de produção pode inserir um bom estoque de terras com descontos no mercado. Contexto que pode levar a um próximo período de concentração da propriedade das terras nas mãos dos Fiagros e de seus investidores milionários, retirando-as das mãos de produtores endividados ou sem capital para manter suas terras.

Fonte: Colussi J., G. Schnitkey, N. Paulson, and J. Baltz. “Farmland Prices in Brazil More than Doubled in the Last Three Years.” farmdoc daily (13): 79, Department of Agricultural and Consumer Economics, University of Illinois at Urbana-Champaign, April 28, 2023.

O próprio governo brasileiro estuda a criação de “Fiagros de terra de dívida”, em que de um lado os credores – revendas, fornecedores, bancos, tradings – se tornam sócios do Fundo, e de outro o produtor, que transfere a fazenda tornando-se arrendatário do Fiagro. O pagamento das dívidas seria feito com a produção até que ao final do prazo, o produtor teria direito de recomprar as cotas e recuperar o imóvel. Algo pouco provável se o período de concentração de terras se confirmar, facilitando a criação de bolhas especulativas sobre seu preço[40].

Por trás do véu da “democratização” das finanças e da propriedade, esta financeirização das terras tende a gerar justamente seu contrário: mais concentração de capital e de terras como propriedade de elites financeiras.

Grilagem e blindagem para investidores, inclusive estrangeiros

Para conferir segurança aos investidores, os instrumentos de dívida do agronegócio e os Fiagros contam com garantias privilegiadas para o seu pagamento. Com a criação do chamado “patrimônio de afetação”, a Lei do Agro permite separar o todo ou partes de imóveis rurais proporcionais à dívida, como garantia para pagar especificamente as obrigações das empresas do agronegócio. Caso não haja pagamento, as terras afetadas pela dívida devem ser transferidas para o nome do credor diretamente no cartório de registro de imóveis, não sendo necessário acionar a justiça. E se o credor for um investidor estrangeiro, a Lei dos títulos do Agro passa a autorizar a transferência das terras para estrangeiros em caso de execução de dívida, independentemente dos limites de acesso à terra por estrangeiros. Uma burla à Lei que limita o controle das terras por estrangeiros no país[41].

Essas terras afetadas para o pagamento específico do mercado de dívidas do agronegócio não podem ser objeto de compra e venda, doação, recuperação judicial ou falência, e tampouco servir para pagar outras dívidas, a não ser as dívidas fiscais, previdenciárias e trabalhistas do produtor ou empresa devedora. Portanto, embora haja esse mecanismo de blindagem das terras em favor do pagamento aos investidores, o Estado e os trabalhadores mantêm a preferência na fila dos credores, podendo deixar os novos rentistas a ver a navios.

Cabe ainda ressaltar que essas terras afetadas como garantia de dívidas podem ser, na realidade, terras públicas e coletivas griladas[42]. Como denunciado por diversas organizações, o Brasil vem permitindo uma legalização massiva da grilagem histórica de terras públicas, principalmente após golpe institucional de 2016, com a chamada Lei da grilagem, e que vem sendo replicada nos estados, inclusive no Matopiba.[43] Isso significa que a inadimplência de muitos produtores pode levar não à expropriação do patrimônio privado de produtores, mas de terras públicas – de toda a população- e das comunidades locais griladas, e que podem parar nas mãos desses fundos.

Maquiagem verde das dívidas e serviços ambientais como “produto rural”

A nova tendência entre os Fiagros é a de ampliar o portfólio para atividades tidas como de baixo impacto ambiental, com a compra de ativos ou dívidas de empresas de bioenergia ou que utilizam práticas agrícolas “regenerativas”, como a recuperação de pastagens ou o plantio industrial de árvores[44].

Esse interesse nos chamados “títulos verdes” (green bonds) acompanha o movimento global de “limpeza” da imagem das corporações e agentes financeiros, como também aproveita a tendência de crescente valorização desses ativos “baseados na natureza”. Está em franca disputa legal nos países a definição da titularidade, ou seja, quem são os donos dos créditos de carbono florestais e do solo e de outros serviços ambientais, como de conservação das águas.

A lei dos títulos do agronegócio, alterada em 2022, passou a considerar a prestação de serviços ambientais nas fazendas como um novo tipo de “produto rural”, autorizando a emissão de título de dívida sobre bens até então comuns- que não poderiam ser apropriados, negociados ou executados por dívidas, como qualquer outra mercadoria[45]. Passam a ser considerados “produto rural”: os “serviços” de conservação e recuperação de florestas nativas, redução do desmatamento, conservação das águas e solos, e redução de emissões ou manutenção e aumento dos estoques de carbono florestal, entre outros benefícios ecossistêmicos, quando certificados por terceira parte[46].

Isto significa a exclusão das maiorias da presente e futuras gerações do acesso à integridade ambiental necessária à qualidade de vida, e a introdução dos serviços ambientais como garantia de dívidas dos produtores rurais. Precedente que pode influenciar as legislações em outros países para inserir o agronegócio como setor fornecedor de créditos de carbono e de outros serviços ambientais.

Além disso, o compromisso social e ambiental do agronegócio é um desastre, e os Fundos – e quem investe neles – são importantes mecanismos para maquiar de verde este histórico. E pior, passa a vincular, de modo perverso, a expectativa de renda desses novos inventores desavisados à expansão da fronteira agrícola e tudo que a acompanha [47].

O maior Fiagro em patrimônio (R$ 1,6 bilhões de reais, ou US$ 337 milhões), o Fundo Kinea Agro, com 37 mil cotistas, tem 37% de seu patrimônio em CRAs de usinas de açúcar e etanol. Um desses CRAs foi emitido pela Usina Itamarati, no Estado do Mato Grosso, que mesmo com o nome incluído na lista suja de trabalho análogo ao de escravo em 2008, além de várias infrações ambientais, alavancou R$ 150 milhões na emissão de “CRAs verdes”[48]. O Fundo também investiu na compra de três CRAs da Usina Rio Amambai Agroenergia, no Mato Grosso do Sul, da gestora americana Amerra, que teve 2.000 hectares embargados pelo órgão ambiental em 2022 e é investigada por despejos de resíduos de cana em uma lagoa. O que não impediu a emissão e captação de R$ 60 milhões (US$ 12,6 milhões) em CRAs “verdes”[49].

Já o Fiagro XPAC11, administrado pela XP investimentos, com 62 mil cotistas, tem em seu portfólio uma debênture “verde” emitida pela Aço Verde Brasil (AVB), do grupo Ferroeste, que teria 100% de carvão vegetal oriundos de florestas plantadas. A perda de diversidade, esgotamento hídrico, grilagem de terras e expulsões de comunidades locais em todo o mundo, gerados pela expansão dos monocultivos industriais de florestas, não retira a qualidade de “verde” do investimento. Além disso, o XPAC11 tem investimentos nas maiores produtoras de carnes do mundo, como Minerva, Mafrig e BRF, grandes responsáveis pelo avanço do desmatamento, grilagem de terras públicas e também maior setor responsável por manutenção de trabalhadores em situação análoga a de escravos no Brasil[50].

Furando a bolha financeira: revalorização dos comuns para barrar futura geração de expropriados

Não é difícil concluir que o “Agro é dívida!”, dívida histórica econômica, social e ecológica, no Brasil.

Mesmo se considerarmos como verdadeira a conta dos inflacionados 25% do PIB produzidos pelo Agronegócio, o povo não come PIB! O saldo das exportações – e das exportações de soja – é irrelevante para analisar o desenvolvimento social, ou seja, a redução da pobreza, das desigualdades, da fome, do dano ecológico. Mesmo se o PIB fosse algum indicador útil, nessa conta do PIB do agronegócio entram, por exemplo, os ganhos de corporações transnacionais de sementes, agrotóxicos, fertilizantes, maquinário, além dos serviços financeiros que, em grande medida, são remetidos aos países sede, e, portanto, não ficam no país[51].

Além disso, desse número não é deduzida a enorme dívida do setor, da ordem de trilhões de reais, tampouco o que se deixa de arrecadar com isenções fiscais[52] [53]. Só a soja, por exemplo, que representa metade do valor da produção do agronegócio no país, custa quase R$ 60 bilhões (US$ 12 bilhões) ao ano em renúncia fiscal, o dobro do custo da desoneração da cesta básica.[54] Se ainda forem incluídos na balança os custos dos danos irreversíveis ao meio ambiente com contaminação dos territórios e dos corpos doentes, a poluição e erosão genética e dos solos causados pela cadeia industrial do agronegócio, a dívida é impagável.

Mas é importante nos atentar de que não se trata de Fiagros ou apenas da financeirização do agronegócio, das terras e dos sistemas alimentares. Essa aliança entre capital financeiro, bens imobiliários – urbanos e rurais – e seguradoras, faz com que uma cada vez mais restrita e violenta classe de rentistas transformem direitos em propriedade privada e mercadoria, assumindo um peso determinante para a composição do preço da moradia, das terras, dos alimentos, dos transportes, da previdência, da energia, da água e do esgoto.

Barrar a privatização de bens até então comuns e sua posterior valorização financeira, recuperando o significado do que sejam os chamados bens públicos e os âmbitos comuns das economias comunitárias, nas cidades e no campo, que devem ser voltados para a produção de uma vida digna para as pessoas, pode dar boas pistas para se evitar uma futura geração de expropriados: sem tetos, sem terras, sem acesso. Maiorias com direito a apenas uma renda, e isso se financiarem quem os expropriou.

Tabela “Fiagro de terras”: captura de terra agrícolas, água e desmatamento

Fundo/Administradora
Descrição
Fiagro GRWA11 (Greenwich Agro)
Banco Daycoval S.A
(taxa de administração de 1,15% sobre o patrimônio líquido e de 10% de participação nos lucros)
2.590 cotistas pessoas físicas, 2 pessoas jurídicas não financeiras, 2 fundos de investimentos.
Patrimônio líquido: R$ 24,8 milhões (US$ 5 milhões), 55% em bens imóveis
40% em CRAs.
Cota valorizou 15% desde seu lançamento até novembro de 2023. Valor da cota R$ 10 reais (US$2).
*O Fundo não fornece informações sobre os R$ 13 milhões (US$ 2,6 milhões) aplicados em bens imóveis.
Fiagro FZDB11
XP Investimentos S.A
(taxa de administração e gestão de 0,80% sobre o patrimônio liquido inicial corrigido pela inflação e 15% de participação nos lucros)
75 investidores com aplicações acima de R$ 1 milhão (US$ 200 mil). Até janeiro de 2024 o fundo era fechado apenas para investidores com aplicações acima de R$ 10 milhões (US$ 2 milhões)
Patrimônio líquido: R$ 357,7 milhões (US$ 72 milhões) em 13,5 mil ha da Fazenda Tabuleiro I, Correntina/Bahia.
Arrendamento de 9,3 mil há para soja, milho e pouco de algodão até safra 2035/2036 para SLC Agrícola.
Valores em saca de soja por hectare (sc/há), em média, R$ 120 (U$$ 24) a saca. Para área não irrigada: R$ 13 sc/ha.; Área irrigada R$ 22,75 sc/ha e Área de expansão da irrigação R$ 14 sc/ha.
Cota valorizou 10% de seu lançamento até novembro 2023. Valor da cota R$ 100,00 (US$ 20).
Fiagro FLEM1
XP investimentos S.A
(taxa de administração e gestão de 0,80% sobre o patrimônio líquido inicial corrigido pela inflação e 15% de participação nos lucros)
14 investidores profissionais com patrimônio acima de R$ 10 milhões (US$ 2 milhões)
Patrimonio liquido de R$ 283,5 milhões (US$57 milhões) em 12,4 mil há da Fazenda Tabuleiro II, também em Correntina na Bahia, divididas em 13 matrículas.
Arrendamento de 9,3 mil ha com 4 mil ha de soja, 4 mil ha de algodão e 1,3 mil brachiaria semente até safra de 2035/2036 para SLC Agrícola.
Valores em sacas de soja negociadas em média a R$ 120 a saca. Area não irrigada por R$ 13 a sc/ha.
Cotas permanecem com os valores de lançamento de R$ 96,00 (US$ 19), sem valorização.
Fiagro FZDA11
XP investimentos S.A
(taxa de administração e gestão de 0,80% sobre o patrimônio líquido inicial corrigido pela inflação e 15% de participação nos lucros)
477 cotistas qualificados com aplicações acima de R$ 1 milhão (US$ 200 mil). Até janeiro 2024 fechado apenas para investidores com aplicações acima de R$ 10 milhões (US$ 2 milhões).
Patrimônio liíquido de R$ 345,4 milhões (US$ 69,4) com 9 mil ha de
6 Fazendas Xingu em Balsas /Maranhão
Arrendamento de 5,5 mil ha para soja e pouco de milho para SLC Agrícola.
Valores em sacas negociadas a R$ 159 (US$ 32) a saca. 5 sc/ha até 2023/2024 e 13 sc/há até 2035/2036.
Cota se valorizou 22% do lançamento a janeiro 2024. Cota no valor de R$ 96,00 (US$ 19).
Fonte: Relatórios financeiros dos fundos e Boletins mensais dos Fiagros da B3.
IIustração: Matheus Ribs
Designer de infografia: Kartine Ribeiro Gomes
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[1] Conversão 1 U$ = R$ 4,97, utilizando conversor de moeda Oanda em 11 de março de 2024.
[3] GRAIN, “Avocados de la Ira”, 26 de Abril de 2023. https://grain.org/e/6983
[4] Gastón Caligaris, “Acumulación de capital y sujetos sociales en la producción agraria pampeana (1996-2013)”, capítulo El caso de los “grandes pooles de siembra”, Buenos Aires: UbaSociales, 2017. https://www.teseopress.com/produccionagraria/
[5] A lei 24.083/1992 e a Lei 24.441/94 regulamentam os fundos comuns de investimento e os fideicomissos, viabilizando os pools de semeadura como nicho privilegiado do capital financeiro. Frederico y C. Gras. “Globalização financeira e land grabbing: constituição e translatinização das megraempresas argentinas”. In: Bernardes et al. (coord), 2017, p. 11-32.
[6] Censo Nacional Agrário, 2018. Disponível em: https://cna2018.indec.gob.ar/informe-de-resultados.html
[7] Pedro Pereti, “Todo el poder a los pools”, 12 de Dezembro de 2023. https://www.pagina12.com.ar/694385-todo-el-poder-a-los-pools
[8] Madeleine Fairbairn, “Fields of Gold: financing the global land rush”, Ithaca [New York]: Cornell University Press, 2020, p. 30-32.
[9] NCREIF Farmland Index. https://user.ncreif.org/data-products/farmland/ . O retorno acumulado das terras agrícolas entre 1983 e 2010 foi acima de 15% em alguns mercados, ver em: Andrew Gunnoe, “The Political Economy of Institutional Landownership: Neorentier Society and the Financialization of Land”, Rural Sociology, 79 (4); 2014. P. 478–504, 2014: p. 492 e 493.
[10] NCREF Timberland Property Index. https://user.ncreif.org/data-products/timberland/.Estas terras chegaram a taxas de retorno cumulativas de 26.75% ao ano. Ver em Andrew Gunnoe. Ibid.
[12] Lei 14.130/2021 altera Lei 8.668 dos Fundos de investimentos para criar os Fiagros. Ver: Larissa Vitória, “Primeiro Fiagro do Brasil e outros credores de CRA decretam vencimento do título após calote parcial e podem executar garantias”, Seu dinheiro, 7 de março de 2024. https://www.seudinheiro.com/2024/bolsa-dolar/primeiro-fiagro-do-brasil-e-outros-credores-de-cra-decretam-vencimento-do-titulo-apos-calote-parcial-lvit/
[13] Governos militares nos anos 80 e depois na crise cambial dos anos 90, realizaram a securitização das dívidas do agronegócio e de agentes financeiros por meio da substituição dos títulos privados impagáveis por títulos da dívida pública do Tesouro, o que colocou o Estado brasileiro como garantidor das dívidas do agronegócio. Guilherme Delgado, “Do Capital Financeiro na Agricultura à Economia do Agronegócio”, Porto Alegre, UFRGS editora, 2012, p.86-87.
[15] O Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA) é um título de crédito que representa promessa de pagamento em dinheiro ou ainda em produção ou imóvel rural, emitidos exclusivamente por companhias securitizadoras. O estoque de CRAs tiveram um aumento de 92% entre janeiro de 2022 e janeiro de 2024, segundo o Boletim do Ministérios da Agricultura.
[16] Luiz Henrique, “Usina Ester fa acordo com detentores de CRAs”, The AgriBiz, 06 Junho de 2023 https://www.theagribiz.com/agribuzz/usina-ester-faz-acordo-com-detentores-de-cras/ e Relatório XPCA11 Janeiro 2024. https://fnet.bmfbovespa.com.br/fnet/publico/visualizarDocumento?id=609370&flnk
[17] Conta é distinto de CPF. O mesmo investidor pode ter mais de uma conta, resultando em concentração dos investimentos.
[19] Investidores pessoas físicas não pagam imposto sobre a rentabilidade das cotas desde que os Fiagros tenham mais de 100 cotistas e detenham até 10% das cotas emitidas ou dos rendimentos distribuídos pelo fundo. A partir de 2024, para isenção de impostos, o cotista não pode acumular junto com outros parentes mais de 30% das cotas do fundo ou de 30% dos rendimentos auferidos.
[20] Dividendos são parte dos lucros distribuídos para os cotistas do fundo ou sócios de uma empresa, que podem ser pagos anualmente ou mesmo mensalmente, a depender da regulamentação. Já os dividend yield seriam a divisão do dividendo anual pelo valor atual da ação, o que dá a taxa de retorno do investimento no mês.
[22] De agosto de 2022 até agosto de 2023 a taxa Selic, referência para os juros no país, estava em 13,75% ao ano.
[23] Anbima, “Raio X do investidor Brasileiro 6º edição”, 2023. https://www.anbima.com.br/pt_br/especial/raio-x-do-investidor-2023.htm
[24] Bruna Bronoski, “Boom de pessoas físicas no mercado financeiro vira alvo de capitalização do agronegócio”, O Joio e o Trigo, 03 de março de 2023. https://ojoioeotrigo.com.br/2023/07/boom-de-pessoas-fisicas-mercado-financeiro-agronegocio/
[26] Carlos Walter Porto-Gonçalves. “Dos Cerrados e de suas riquezas: De saberes vernaculares e de conhecimento científico”, FASE, 2019: p.26-27. https://fase.org.br/wp-content/uploads/2019/12/PUBLICACAO_CERRADO-2.pdf
[28] Nayara Figueiredo, “AGBI busca R$ 150 milhões para Fiagro “verde” e áreas para comprar”, Valor Econômico, 23 de junho de 2023. https://valor.globo.com/agronegocios/noticia/2023/06/23/agbi-busca-r-150-milhoes-para-fiagro-verde-e-areas-para-comprar.ghtml
[29] GRAIN, “From land grab to soil grab – the new business of carbon farming”, 24 de fevereiro de 2022. https://grain.org/e/6804
[30] “Uber utilizo créditos de carbono generados en una granja que empleaba mano de obra esclava”, Timis, 19 de fevereiro de 2024. https://timis.es/uber-utilizo-creditos-de-carbono-generados-en-granja-mano-de-obra-esclava/e Carolina Bataier, “Projeto Jari de créditos de carbono engana comunidades e invade terras públicas no Pará”, De Olho nos Ruralistas, 19 de fevereiro de 2024.

[31]Thimothy Killeen, “¿Qué es más conveniente en la distribución de tierras? | LIBRO”, Mongabay, 4 de Março de 2024.

[32] Relatório AGBI Real Assets Agronegóciohttps://agbi.com.br/agronegocio/
[33] Márcia De Chiara. “Supersafra derruba valorização de terra agrícolas em 2023, depois de ciclo de alta. Estadão: 06 de fevereiro 2024.https://www.farmlandgrab.org/post/view/31999-brasil-supersafra-derruba-valorizacao-das-terras-agricolas-em-2023-depois-de-um-ciclo-de-alta
[34] Top 10 Variação do preço de fechamento desde a data de lançamento do Boletim Mensal de Fundo de Investimento em cadeias agroindustriais (FIAGRO) da B3 de Novembro de 2023 e Janeiro de 2024.
[35] Matopiba é acrônimo para os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, região definida como uma das últimas fronteiras agrícolas do mundo, o que já resultou no desmatamento de 50% do bioma.
[36] Entre agosto de 2022 e julho de 2023, 11 mil Km² foram desmatados no Cerrado, maior taxa dos últimos 8 anos, 75% na região do Matopiba. A Bahia teve o maior incremento de 38% do desmatamento. Dados Prodes Cerrado: https://www.gov.br/ibama/pt-br/assuntos/noticias/2023/mma-divulga-prodes-cerrado-e-plano-para-o-bioma#:~:text=No%20per%C3%ADodo%20Prodes%20(agosto%20de,de%2026%25%20e%2027%25
[37] GRAIN, “A Aliança suja entre agronegócio e grande capital financeira é tudo, menos verde”, 07 de Outubro de 2021. https://grain.org/e/6748
[38] Em 2017 uma multidão de 12 mil pessoas – de um total de 12.600 habitantes (Censo 2010) – saíram às ruas de Correntina com o lema “Ninguém morrerá de sede às margens do Rio Arrojado” contra a captura excessiva de água pelas grandes fazendas. Lu Sodré, “Águas cercadas: como o agronegócio e a mineração secam rios no Brasil”. Brasil de Fato, 30 de julho de 2020.https://www.brasildefato.com.br/2020/07/30/aguas-cercadas-como-o-agronegocio-e-a-mineracao-secam-rios-no-brasil
[39] Márcia De Chiara. “Supersafra derruba valorização de terra agrícolas em 2023, depois de ciclo de alta”, Estadão: 06 de fevereiro 2024.https://www.farmlandgrab.org/post/view/31999-brasil-supersafra-derruba-valorizacao-das-terras-agricolas-em-2023-depois-de-um-ciclo-de-alta
[40] Leandro Gottems, “Ministério da Agricultura dá sinal verde a Fiagros”. Agrolink, 01 de março de 2024. https://www.agrolink.com.br/noticias/ministerio-da-agricultura-da–sinal-verde–a-fiagros_488754.html
[41] Alteração da Lei 13.986/2020 dos títulos do Agro na Lei 5.709/71, que impõe limites de aquisição de terras por estrangeiros.
[42] O termo grilagem surgiu de uma prática de fraude de documentos de terras, inserindo os papéis dentro de uma caixa fechada com grilos, que corroíam e amarelavam os papéis, dando a aparência de envelhecimento. É o grilo ou grilagem das terras públicas e coletivas roubadas.
[43] GRAIN, CPT, AATR, ABRA. “Do golpe político ao golpe fundiário no Brasil”, 26 de dezembro de 2020.
[44] GRAIN, “Regenerative agriculture was a good idea, until corporations got hold of it”. 1 de dezembro de 2023. https://grain.org/e/7067
[45] Lei nº 13.986/2020, posteriormente alterada pela Lei 14.421/22.
[46] A Cédula do Produto Rural (CPR), primeiro título do agronegócio criado em 1994 (Lei 8929), é título que representa a produção rural exigível em produto ou liquidação financeira na data do seu vencimento. A Lei foi alterada tanto para ampliar o rol de quem pode emitir os títulos (passando a incluir além do produtor rural, também as empresas de insumos, comercializadoras, processadores), como ampliar o conceito de “produto rural”, com a regulamentação da CPR verde pelo Decreto 10.828/2021. A CPR alcançou os R$ 309 bilhões, aumento de 144% entre janeiro de 2022 e janeiro 2024. Boletim Finanças Privadas do Agro, fevereiro 2024. https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/politica-agricola/boletim-de-financas-privadas-do-agro/boletim-de-financas-privadas-do-agro-fev-2024.pdf/view
[47] GRAIN, “An agribusiness greenwashing glossary”, 7 de setembro de 2022. https://grain.org/e/6877
[48] João Peres, “Fundos do agro impulsionam empresas com histórico de destamatamento, escravidão e grilagem”, O Joio e o Trigo, 20 de julho de 2023.https://ojoioeotrigo.com.br/2023/07/fundo-do-agro-impulsiona-desmatamento
[49]Camila Ramos, “Usina Rio Amambaí capta R$ 60 milhões com “CRA verde”, Valor Economico, 15 de março 2021.https://valor.globo.com/um-so-planeta/noticia/2021/03/15/usina-rio-amambai-capta-r-60-milhoes-com-cra-verde.ghtml
[50]Pecuária industrial foi responsável por 46% dos 63 mil trabalhadores resgatados em situação análoga ao de escravos desde 1995. Environmental Justice Fundation, “Trabalho escravo no setor pecuarista: o caso de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul”, novembro, 2023https://ejfoundation.org/resources/downloads/Trabalho-escravo-no-setor-pecuarista-o-caso-de-Mato-Grosso-e-Mato-Grosso-do-Sul.pdf
[51] Os dados do PIB do Agronegócio são produzidos pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq), da Universidade de São Paulo (USP), financiado pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) – maior entidade de classe do setor. É possível ver a metodologia empregada aqui: https://www.cepea.esalq.usp.br/br/pib-do-agronegocio-brasileiro.aspx
[52] Em 2016, a dívida do setor somava R$ 1,2 trilhões de reais (ao redor de 310,8 bilhões de dólares), segundo a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN). Oxfam, Brasil. “Terrenos da desigualdade: Terra, agricultura e desigualdades no Brasil rural”, São Paulo, novembro de 2016. p. 18 e 19https://oxfam.org.br/wp-content/uploads/2019/08/relatorio-terrenos_desigualdade-brasil.pdf
[53] A chamada Lei Kandir (Lei complementar 87/1996) veda a tributação de imposto sobre a circulação da produção agrícola e minerária para exportação. O agronegócio pagou menos de R$ 16 mil reais (US$ 3,2 mil) em imposto de exportação em 2019. Apenas com os agrotóxicos, cerca de R$ 6.8 bilhões (US$ 1,3 bilhões) deixaram de entrar nos cofres públicos entre 2011 e 2016. Maurício Angelo, “Uma sugestão para Paulo Guedes: acabar com a mamata das isenções fiscais bilionárias para agrotóxicos”. The Intercept, 7 janeiro 2019. https://www.intercept.com.br/2019/01/07/agrotoxicos-isencoes-fiscais-bilionarias

Custo ambiental do desmatamento e da soja no leste da Amazônia chega a R$ 10 bilhões, revela estudo

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Bacia do Gurupi, entre o Pará e o Maranhão, aumentou 92% da área agrícola em 36 anos; na foto, vista áerea de área desmatada no Pará. Foto: Vinicius Mendonça/IBAMA 

bori conteudo

O desmatamento na Amazônia e o aumento de áreas agrícolas têm diminuído a capacidade da floresta de oferecer benefícios à população, como produtividade da terra e melhor qualidade do clima, do ar e da água. Em artigo publicado nesta segunda (27) na revista científica “Ambiente & Sociedade”, pesquisadores do Museu Paraense Emílio Goeldi e da Universidade Federal do Pará (UFPA) estimam que, em 36 anos, houve uma perda de cerca de R$ 10 bilhões em serviços ecossistêmicos na região da bacia do Gurupi, leste da Amazônia, devido ao aumento de áreas de plantio de soja. O valor foi corrigido para o ano corrente.

O grupo quantificou perdas econômicas geradas pelo desmatamento de 1985 a 2021 na bacia do Gurupi, que fica entre os estados do Pará e do Maranhão. O cálculo foi feito a partir de levantamento de uso de terras na área de 35 mil km2, usando a base de dados MapBiomas, que mantém um registro anual de mudanças da região desde 1984. Para facilitar o trabalho, os pesquisadores classificaram o uso da terra em cinco categorias: florestas, formações naturais não florestais, agricultura, áreas sem vegetação e região de águas. A valoração dos serviços ecossistêmicos foi feita a partir de base de dados global que mapeia a economia dos ecossistemas e da biodiversidade. Foram selecionados 210 valores para 15 tipos de serviços ecossistêmicos.

A partir do cruzamento de dados levantados, os pesquisadores observaram que, em 36 anos, houve perda de 25% de área florestal e aumento de 92% de áreas agrícolas. O plantio de soja corresponde a 84% do terreno destinado à agricultura na região. “Toda essa produção vai para exportação, pois a soja não alimenta pessoas”, comenta Ima Vieira, coautora do estudo e pesquisadora do Museu Goeldi.

De acordo com a especialista, a redução do plantio de produtos voltados para a alimentação humana provocado pelo aumento de áreas de soja pode aumentar o risco de insegurança alimentar na região, além de prejudicar o ecossistema. “Todo esse plantio enfraquece as funções dos ecossistemas naturais, como a regulação do clima, a qualidade da água e a polinização, que são serviços importantes prestados pela floresta. Se a área de floresta é reduzida, esses serviços também se reduzem”, explica.

A maior parte da produção agrícola no Pará, segundo os autores do artigo, depende de serviços ecossistêmicos como a polinização – e, por isso, é considerado um serviço valioso. Além da vida humana, outras espécies de animais podem ser ameaçadas pelas mudanças no uso da terra na região, assim como a regulação do clima.

Os pesquisadores esperam que esse tipo de estudo de valoração dos serviços ecossistêmicos possa ser útil não apenas para informar a população e os tomadores de decisão, mas também possa mobilizar políticas públicas de conservação e estímulo a atividades econômicas mais aderentes à manutenção biodiversidade dos biomas tropicais. “Comunidades locais, como as populações quilombolas que vivem na região do Gurupi, podem se beneficiar de políticas nacionais de pagamentos por serviços ambientais”, comenta Vieira, salientando que incentivos financeiros podem promover atividades produtivas mais sustentáveis e com maior capacidade de geração de benefícios econômicos e socias às comunidades.

Após a publicação do artigo, que fez parte da tese de doutorado da pesquisadora Fabiana da Silva Pereira no Programa de Ciências Ambientais, parceria entre o Museu Goeldi, a UFPA e a Embrapa, o grupo está trabalhando em pesquisas qualitativas sobre a percepção dos, quilombolas, sobre as mudanças do uso da terra e dos serviços ecossistêmicos e as ameaças aos seus territórios.


compass black

Fonte: Agência Bori

Do lote à feira: um estudo sobre a resiliência dos assentados e quilombolas em face do flagrante abandono pelo Estado

horta zumbi ivHorta instalada na agrovila do Núcleo IV do Assentamento Zumbi dos Palmares

Uma das tarefas mais plenas de dificuldades, contratempos, mas também de resultados que dão sentido à labuta de professore universitário é quando um orientando conclui um estudo sobre algo que tem sentido o potencial de trazer conhecimento transformador da realidade que nos envolve.  Esse é o caso da dissertação de Mestrado recentemente concluída pela minha orientanda Mariana de Souza Batista no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da Uenf.

Intitulada “Investigando os canais e gargalos do processo de comercialização dos alimentos produzidos pela reforma agrária em Campos dos Goytacazes/RJ”, esta dissertação reflete uma pesquisa que envolveu o uso de métodos múltiplos de pesquisa que resultou na aplicação de questionários em uma amostra de assentados do Assentamento Zumbi dos Palmares, e a aplicação de entrevistas com lideranças de quatro assentamentos, e agricultores que participam de duas feiras livres que são realizadas na área urbana de Campos dos Goytacazes.

Os resultados apontam para uma realidade complexa na qual a maioria dos assentados depende da ação dos chamados atravessadores para escoar boa parte da produção, na medida em que inexistem canais coletivos de comercialização. Esta dependência gera um diminuição na margem de remuneração que os assentados obtém pela produção de alimentos. No entanto, a pesquisa também mostra que a realidade é heterogênea entre os diferentes assentamentos, e mesmo no Zumbi dos Palmares os assentados possuem estratégias para aumentar a margem de remuneração a partir da adoção de mecanismos de venda direta que diminuem a hegemonia dos atravessadores.

Um dos pontos de maior interesse na pesquisa foi analisar se as feiras livres (Feira da Roça e a  Feira Agroecológico e Solidária de Campos, a FAS-Campos) são canais efetivos para a venda direta dos alimentos produzidos nos assentamentos à população de Campos dos Goytacazes.  A pesquisa que esse não é o caso, pois poucos assentados possuem as condições necessárias para transportar a produção até os locais em que as feiras ocorrem (ver o mapa abaixo).

mapa feiras

Uma razões para que as feiras, especialmente a tradicional Feira da Roça, não sejam os canais que os assentados necessitam para melhorar a remuneração obtida com a venda dos seus produtos é que, na prática, inexiste um apoio efetivo do governo municipal para que a produção chegue até as feiras.  Uma descoberta importante é que em ambas as feiras, a única coisa que a Prefeitura Municipal faz, por meio da Secretaria Municipal de Agricultura, Pecuária e Pesca, é emprestar as barracas (obviamente todas paramentadas com os símbolos municipais) nas quais os alimentos são comercializados.  Já a Secretaria de Estado da Agricultura, Abastecimento, Pesca e Desenvolvimento do estado do Rio de Janeiro oferece também um apoio pontual a partir da ação de técnicos da EMATER que apoiam a realização da FAS-Campos. Já em relação ao INCRA, a quem competiria apoiar mais fortemente os assentamentos de reforma agrária que ficam sob sua jurisdição, nada se apurou. Como resultado, as feiras acabam acontecendo apenas pela resiliência dos agricultores e assentados envolvidos.

FAS Campos

Mosaico de fotografias dos diferentes pontos da FAS – Campos

Um fato que salta aos olhos especialmente no tocante às ações do governo de Wladimir Garotinho no tocante ao apoio à comercialização da produção dos assentamentos (mas também dos quilombos existentes no municípios) é que os resultados deste estudo colocam em questão o objetivo real da prometida criação de um suposto complexo comercial dos feirantes na Praça da República.  É que se não existe um apoio efetivo para que a produção local chegue às feiras de rua, o que poderia se esperar em termos desse tal complexo? O abandono dos assentamentos e quilombos vai continuar? Se for assim, quem é que vai vender alimentos nesse complexo? Parte dos resultados da pesquisa da Mariana Batista sugere que serão os atravessadores que monopolizam a compra da produção gerada nos assentamentos de reforma agrária.

Mas daí resta uma pergunta ao prefeito Wladimir Garotinho: esse complexo comercial dos feirantes vai precisar de um apoio mais efetivo para que a produção dos assentamentos e quilombos chegue à população. Do contrário, o que poderemos ter é mais um colossal desperdício de dinheiro público que ainda arruinará um pouco o patrimônio arquitetônico da cidade de Campos dos Goytacazes.

Enchentes no RS: a entrevista que não foi publicada porque entrevistado se recusou a confirmar a pauta do repórter

Jurandir-Malerba-arquivo-pessoal(Foto: Jurandir Malerba / Arquivo Pessoal)

Por Jurandir Malerba

Sou Professor Titular de História da UFRGS e reporto a seguir um episódio revelador do modus operandi de certos veículos de imprensa brasileiros. Em meio à tragédia que vivemos no Rio Grande Sul, semana passada um jornalista de veículos reacionários da grande imprensa entrou em contato pedindo uma entrevista sobre a recente tragédia climática no Rio Grande do Sul, quando choveu, em uma semana, dez vezes a média histórica para todo o mês de maio, causando mortes e destruição. As perguntas enviesadas já evidenciavam para onde o jornalista queria levar a matéria: uma crítica da atuação do Estado, louvando ações individuais da “sociedade civil”, reproduzindo a fake de que o “povo” salvou o povo. Em minha devolução, posicionei-me contra o viés inscrito no questionário, não obstante tenha me disposto a respondê-lo, até como um contraponto àqueles que atenderiam às expectativas do editorial. Segue a reprodução integral das perguntas e respostas:

1. Por que o brasileiro tem sido tão solidário com os gaúchos?

Uma tragédia dessa dimensão, uma das maiores da história do Brasil, ao lado do rompimento da barragem em Brumadinho (2019) e da hecatombe da pandemia de Covid no Brasil (2020-2021) não há como passar incólume à população brasileira, que sempre foi majoritariamente solidária, exceto uma fração, nada desprezível numericamente, de classe média. Por outro lado, não se pode desconsiderar o efeito “poderia ser comigo”, já que a incompetência e a má gestão pública, principalmente nos níveis municipal e estadual, é de conhecimento de todos. Pesquisa da Confederação Nacional de Municípios desta semana revelou que 8 em cada 10 prefeitos do país assumem despreparo para lidar com eventos climáticos extremos. E todos sabem, até os negacionistas, que os eventos vão se intensificar em número e potência

2. Houve momentos parecidos na nossa história? Quando?

Certamente, como a enchente histórica aqui mesmo em Porto Alegre de 1941. Desconsiderando o modelo de urbanização criminoso europeu de avançar a cidade sobre o rio, aquela enchente foi um fenômeno natural. Mas esta, de 2024, não! Entre 1950 e começo da década de 1970, Porto Alegre investiu na construção de um sofisticado sistema contra enchentes. O que acaba de acontecer é o resultado criminoso de sucessivas gestões que, além de não inovar o sistema, o sucatearam, sem investimento e manutenção. Os números estão disponíveis e há documentos que comprovam a negligência das últimas administrações estaduais e municipais. Para ficar em outros três desastres recentes, com o mesmo caráter criminoso, basta lembrar os rompimentos de barragem em Mariana (2015) e Brumadinho (MG), o primeiro o maior em impacto ambiental e o segundo em número de vítimas; e os 700 mil brasileiros e brasileiras vítimas não só do vírus SARS-Cov-2, mas da gestão criminosa da crise de saúde pelo então governo negacionista. Com 2,7% da população mundial, o Brasil concentrou 13% das mortes por COVID no planeta. O relatório final CPI da COVID abunda em dados e a sociedade aguarda o indiciamento, pela Justiça, dos culpados.

3. Até então, falava-se muito da polarização política e do individualismo, coisas que estariam minando o nosso senso de comunidade e a união entre as pessoas. Por que essas coisas não atrapalharam tanto?

A polarização política, como pessoas de boa-fé sabem, não existe, pois não há “polos”. Há uma extrema-direita fascista, globalmente articulada e muito ativa na disseminação de fake news inclusive nesta crise do Rio Grande do Sul, espalhando concertadamente que o Estado (em âmbito federal) está inativo, ou mesmo atrapalhando e que é o “povo” que está socorrendo o povo. Eu vivo em Viamão, na área metropolitana de Porto Alegre e estive na linha de frente da crise, voluntariando, e garanto que, sem suporte do Estado, a sociedade civil, sozinha, não teria conseguido salvar um décimo das vítimas, pessoas e animais. No entanto, vemos a proliferação de fakes, como bloqueio de estradas por polícias e Exército e assim por diante. As razões do ataque às FFAA pela extrema direita são de público conhecimento: retaliação pela não adesão ao golpe falido em 8 de janeiro de 2023.

4. Muita da ajuda foi prestada pela própria sociedade civil, e não pelo governo/Estado. Isso terá consequências para o futuro? Teremos uma população mais unida e mais cética com o Estado no futuro?

Como eu disse, essa afirmação é falaciosa. Sem dúvidas, o voluntariado foi importante no socorro imediato, durante as chuvas torrenciais e inundações. Mas o Estado (tanto no âmbito municipal, como Estadual e, principalmente, Federal) também foi decisivo no socorro às vítimas desde o primeiro momento. E o será na reconstrução do estado do RS. A “sociedade civil” não aportará centenas de bilhões necessários à reconstrução da infraestrutura logística, de socorro às empresas e às famílias. Neste ponto entra o problema central da comunicação. Se não houver um controle responsável das mídias digitais, est aremos todos sob o risco do enfraquecimento do Estado.

5. Por que as narrativas políticas para tentar dividir a população durante esse momento parecem não ter prosperado?

Essa proposição não é inteiramente verdadeira. A extrema-direita tem logrado algum êxito na propagação de mentiras. Por outro lado, é preciso uma percepção sociológica mais aguçada para pensar a “população”. Ela não é coesa. Bastará observar, conforme as estatísticas ficarem disponíveis, quem são proporcionalmente os segmentos mais afetados pelo desastre. São os pobres, os periféricos, das cidades-satélites de Eldorado do Sul e Guaíba, das periferias de São Leopoldo e Canoas; dos bairros pobres de Porto Alegre como São Geraldo, dos baixadões do Humaitá e da Zonal Sul, onde se concentram muitas “vilas” (como aqui se chamam as favelas). E não será de egressos desses extratos que a produção de fake news acontecerá, mas das classes médias não atingidas.

Imediatamente, sem emitir juízo algum sobre minhas respostas, o jornalista pediu para aprofundar a comparação à tragédia climática do RS com a Covid no Brasil, em relação a seu caráter histórico, questionando se as enchentes deste ano, aqui, poderiam mudar o modo de ver os eventos climáticos no Brasil. E assim me dei ao trabalho de responder:

Vai depender de uma série de fatores. Os negacionismos são uma realidade deletéria nos últimos anos, potencializados e usados politicamente pelas/nas redes sociais. Foi assim na pandemia, e assim é em relação à ciência, à história, à política, às religiões. Então, em uma época em que pessoas acreditam que a terra é plana e tentam convencer outras pessoas disso, e em que setores criminosos manipulam essa ignorância ativamente produzida, a coibição veemente das fake news negacionistas por parte das autoridades judiciais será um elemento decisivo para que as pessoas entendam que estamos no ponto de não retorno em relação ao meio ambiente e ao clima.

Depois de ter atendido ao jornalista, respondendo até pergunta extra, sua resposta foi a de que não incluiria minha contribuição no texto que produzia, que já estava quase finalizado, porque “Nós realmente estamos indo por caminhos muito distintos, uma pena” e que esperava que eu conseguisse “publicar suas reflexões em outro lugar”.

Agradeço ao jornalista dos veículos reacionários a oportunidade de organizar minhas reflexões e publicá-las em outro lugar, ao mesmo tempo desnudando essa forma perniciosa de fazer imprensa, infelizmente, ainda corrente no Brasil. Ao confirmar que seguíamos por “caminhos muito distintos”, os veículos revelam que simplesmente procuravam por alguém, com alguma chancela institucional, que endossasse sua perspectiva liberal, anti-Estado, mercadófila, individualista e negacionista. Não se tratava de matéria jornalística, mas uma busca de material para a pregação ideológica. Se não responder o que o veículo quer, não se publica. Esse tipo de “cobertura” é tragédia em cima de tragédia!

*** 

Jurandir Malerbaé Professor Titular de História da UFRGS.


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Fonte: Observatório da Imprensa

Países fecham acordo sobre recursos genéticos, patentes e biopirataria

Como o tratado só entra em vigor após os 15 integrantes o ratificarem em lei nacional, os bancos genéticos, como a Amazônia, seguem na mira de interesses internacionais. China e EUA têm mais da metade dos 44 mil pedidos de patente registrados no INPI

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10% dos pedidos ou depósitos de patentes de bioinsumos referem-se ao açaí

Por Cida de Oliveira, da RBA

São Paulo – A comunidade internacional finalmente chegou a um acordo para regular o uso de recursos genéticos, o registro de patentes e combater a biopirataria. O tratado firmado após 25 anos de negociações estabelece regras para utilização de plantas medicinais, produtos das florestas e conhecimentos tradicionais ao serem patenteados por grandes empresas.

Segundo comunicado da Organização Mundial de Propriedade Intectual, o acordo é o primeiro a tratar de recursos genéticos. Com ele, empresas interessadas em apresentar um pedido de patente terá de revelar a origem dos recursos genéticos usados. O inventor ou a empresa terá de fornecer também dados sobre os povos indígenas que forneceram o conhecimento tradicional para tal patente.

“Estávamos esperando por esse momento por 25 anos”, disse o embaixador brasileiro Guilherme Patriota, que conduziu o processo no âmbito da organização. Segundo ele, o texto final, que resultou de um calhamaço de 5 mil páginas, foi “cuidadosamente equilibrado”. “Trata-se do melhor compromisso possível e uma solução cuidadosamente calibrada, que busca unir e equilibrar uma variedade de interesses. Alguns muito apaixonados e assiduamente expressos e defendidos ao longo de décadas”, disse.

Ao longo desses 25 anos de discussões, os países emergentes e os ricos evidentemente ficaram em lados opostos. De um lado, países como o Brasil, a Colômbia, nações africanas e asiáticas. Todos têm seus recursos genéticos e conhecimentos ancestrais utilizados na fabricação de cosméticos, medicamentos, biotecnologia e suplementos alimentares para lucro de outros.

China e EUA dominam pedidos de patente

Nesses anos todos de discussões, os países emergentes insistiam na revogação de uma patente caso o inventor não informasse a origem dos recursos. Mas os países ricos, onde estão as indústrias farmacêuticas, argumentam impacto na capacidade de inovação.

Com o acordo, que tem entre as metas principais o combate à biopirataria, as comunidades locais terão de concordar com o uso de seu conhecimento tradicional.E também de seus recursos genéticos. E o inovador que não apresentar as informações sobre a origem dos recursos utilizados terão chance para isso antes de sofrer penalidades. O tratado entrará em vigor, porém, somente quando os 15 países ratificarem o texto em suas legislações nacionais.

Enquanto isso, bancos de recursos biológicos seguem na mira de interesses internacionais, que se aproveitam da falta de regulamentação. No caso da Amazônia brasileira, empresas dos Estados Unidos e da China estão por trás de mais da metade dos 44 mil pedidos de patente registrados no Instituto Nacional da Propriedade Intelectual (INPI). Desse total, as empresas chinesas respondem por 44%. e as dos Estados Unidos, por 9%.

Direito de propriedade intelectual

Segundo o professor da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), Marcos Pedlowski, dos pedidos ou depósitos de patentes de maior número com bionsumos estão relacionados ao Açaí (10,1%), Cupuaçu (5,6%) e Babaçu (4,9%). “Como se sabe que empresas chinesas estão produzindo até peixes amazônicos em cativeiro, não será surpresa nenhuma descobrirmos que há mais recursos amazônicos que chineses e estadunidenses já patentearam”, ponderou em publicação recente em seu blog.

À RBA, Pedlowski considerou que as patentes envolvem direito de propriedade intelectual, com implicações diretas no comércio, especialmente internacional. Com isso, o Brasil e os estados amazônicos perdem as melhores condições de usufruir dos benefícios dos produtos gerados a partir da biodiversidade amazônica.

“Além disso, tenho que lembrar que a China está hoje com uma forte penetração econômica na Amazônia para projetos de infraestrutura e de controle das monoculturas da soja. Ao deter mais patentes que o Brasil no tocante a produtos naturais amazônicos, o que estamos vendo é a repetição de um modelo desigual de obtenção de divisas, na qual o Brasil será mantido em uma condição de economia dependente”, disse.


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Fonte: Rede Brasil Atual

PUCRS realiza pesquisa emergencial sobre situação dos desabrigados

Pesquisadores dos cursos de Ciência da Computação e de Arquitetura e Urbanismo fazem pesquisa colaborativa

Abrigo-do-Parque-Esportivo-da-PUCRS---Foto-Giordano-Toldo-PUCRS

Os cursos de Ciência da Computação e de Arquitetura e Urbanismo, da Escola Politécnica da PUCRS, convocaram estudantes e se uniram com o objetivo de avaliar as dimensões das enchentes, os deslocamentos populacionais, as condições dos abrigos emergenciais, as perspectivas de continuidade, analisando o espaço físico e demandas para projetar alternativas futuras. O trabalho colaborativo, liderado pelas professoras Soraia Musse e Cibele Figueira, também conta com doutores, doutorandos e graduandos do VHLab da PUCRS e outras instituições de ensino, pesquisadores da UFRGS e o arquiteto Rodrigo Marsillac, da prefeitura de Porto Alegre.    

“Utilizando-se modelos computacionais de dinâmica populacional, pretende-se simular o cenário atual e cenários futuros que ainda possam ocorrer em decorrência de aumentos de chuvas, novos bairros alagados e evacuados, ou ainda imigração de pessoas de fora de Porto Alegre para os abrigos”, explica a professora de Ciência da Computação, Soraia Musse.    

O simulador LODUS, criado por Gabriel Fonseca, doutorando orientado por Soraia no Programa de Pós–Graduação em Ciência da Computação (PPGCC), foi utilizado para simular situações reais e que ainda não ocorreram, tanto da dinâmica de movimentação das populações, quanto dos seus perfis, em caso de bairros afetados. Também é possível estimar as necessidades de provisões por pessoa, no tempo e no espaço, estimar necessidades de abrigos que precisam ser abertos e até simular pessoas nos abrigos.    

“Fazemos projeções com base em dados reais e abertos, disponibilizados no site AbrigosRS, criado por voluntários, prevendo futuros que esperamos que não aconteçam. Quero ser otimista e dizer que nossas projeções estão sendo pessimistas”, ressalta a professora.    

Os dados fornecidos pelo site também permitem que os pesquisadores realizem um trabalho de simulação de deslocamento, nos casos de pessoas que precisam ir para um abrigo ou mudar de local, por exemplo. Os mais de 100 abrigos da cidade estão no mapa, com sua taxa de lotação indicada, e última data de atualização disponível.    

Outra frente deste amplo trabalho de pesquisa é observar e relatar a situação atual dos abrigos de Porto Alegre, como um primeiro foco, para que fique de registro para eventuais cenários que possam voltar a acontecer no futuro. Pensando que muitos dos locais que servem de abrigo funcionando normalmente, como escolas, clubes, igrejas e outros, o grupo também pensará alternativas de acolhimento para quem não conseguir sair do abrigo até o prazo de reabertura de atividades. 

Nesta parte, os pesquisadores de Arquitetura e Urbanismo também pensam em como adaptar construções para que sirvam ao propósito de receber centenas de pessoas. Um dos objetivos é criar um guia para construção de abrigos, contendo as necessidades mínimas para ocupação de pessoas, assim como previsão de insumos necessários para a população abrigada. Com a evolução da pesquisa, a ideia é apresentar os resultados ao poder público. 

Acabou a bonança do agronegócio brasileiro: dívidas das 10 maiores recuperações judiciais somam R$ 5 bilhões

Segundo especialistas, número de pedidos de RJ deve subir nos próximos meses em ambiente de commodities em queda, perdas de safras com o clima e juros ainda altos

Campo de soja no Brasil

Empresas do agro somam bilhões em dívidas e recuperações judiciais devem crescer em 2024 |Em cenário de queda dos preços de commodities agrícolas, como a soja, e custos em alta, produtores enfrentam dificuldades(Bloomberg Creative/Bloomberg Creative Photos)

Por Juliana Estigarríbia para a Bloomberg Línea

Bloomberg Línea — Depois de anos de bonança ininterrupta, a crise chegou ao agronegócio.

Dívidas das 10 maiores recuperações judiciais do agro somam R$ 5 bilhões

Os efeitos causados pelo El Niño, combinados com inflação dos insumos, queda dos preços de commodities e juros elevados persistentes, criaram um cenário adverso para o setor, que deve enfrentar um avanço do número de recuperações judiciais em 2024, segundo fontes ouvidas pela Bloomberg Línea.

As dez maiores dívidas de empresas do setor que já estão em recuperação judicial (RJ) atualmente no país somam cerca de R$ 5 bilhões, de acordo com levantamento do Diamantino Advogados Associados, especializado em direito agrário e do agronegócio, para a Bloomberg Línea.

Os dados foram compilados a partir de informações processuais públicas nos tribunais em que correm as ações e consideram apenas recuperações judiciais já autorizadas pela Justiça ou planos aprovados pelos credores que já estejam em andamento.

O número de pedidos de recuperação judicial no setor deve crescer neste ano. Há uma perda de valor no mercado de commodities e, além disso, o agronegócio é cíclico e estamos em um ciclo de baixa”,
afirmou o sócio do Diamantino Advogados Associados, Eduardo Diamantino.

Entre as justificativas das empresas para os pedidos de recuperação judicial estão os efeitos da pandemia, da guerra na Ucrânia e as condições climáticas, segundo a análise dos processos. 

As duas maiores recuperações judiciais do agronegócio atualmente superam um passivo individual de R$ 1 bilhão cada uma, segundo o levantamento. A Sperafico Agroindustrial, do Paraná, tem uma dívida de R$ 1,07 bilhão. Já a Usina Maringá, que integra um grupo de empresas com atuação no Estado de São Paulo, acumula dívida de R$ 1,02 bilhão (confira o ranking abaixo).

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A terceira maior dívida nesse ranking, de R$ 664,8 milhões, pertence à Elisa Agro. A empresa alegou em petição inicial que uma conjunção de fatores levou ao pedido de RJ: os impactos da covid-19, a guerra na Ucrânia que afetou o fornecimento global de insumos, a queda dos preços de commodities agrícolas e a estiagem em setembro de 2020 contribuíram para o quadro de dificuldades.

A quarta maior dívida do levantamento, da Usina Açucareira Ester, de R$ 651,7 milhões, também tem como pano de fundo os efeitos da pandemia e a guerra na Ucrânia, além de dificuldades relacionadas sao clima. O grupo foi fundado em 1898 e tem a produção de açúcar e etanol como principal operação.

Na avaliação do sócio da consultoria Virtus BR Partners, Douglas Bassi, o cenário para o agronegócio estava positivo há cerca de dois anos, em razão dos altos preços de commodities como soja, milho e algodão. De lá para cá, as cotações estão mais baixas e houve restabelecimento dos níveis de estoques, ao mesmo tempo em que os custos subiram de forma significativa.

Bassi ressaltou que, no geral, muitas empresas do agronegócio têm enfrentado dificuldades de capital de giro, principalmente quando há mudança abrupta de preços e consequente pressão de margens. “Temos um cenário de estresse de estrutura de capital. Banco do governo ou agências de desenvolvimento não vão conceder empréstimos para empresas com esse tipo de problema.”

Para companhias listadas na bolsa brasileira (B3), como SLC Agrícola (SLCE3), BrasilAgro (AGRO3) e 3tentos (TTEN3), a situação está mais estável, disse Bassi. “Essas empresas podem acessar o mercado de ações ou emitir debêntures, os recursos estão mais disponíveis. Já aquelas que faturam até R$ 100 milhões, que são as mais representativas no Brasil, não têm o mesmo acesso a crédito.”

Para um dos sócio do Leite, Tosto e Barros Advogados, Rodrigo Quadrante, as recuperações judiciais no campo estão começando a aumentar. “Certamente esse movimento deve se intensificar no segundo semestre, em meio à queda da produtividade por causa do El Niño e a inflação dos insumos”,  avaliou. Ele acrescentou que, no agro menos profissionalizado, a tendência deve ser ainda mais acelerada.

Em sua visão, os negócios que envolvem produtos com menor valor agregado, como grãos, devem sofrer mais. “O aumento do preço dos insumos, o El Niño e a quebra da safra vão machucar o setor.”

Crise espraiada

De usinas de etanol a diversas culturas de alimentos, o setor tem registrado avanço de recuperações judiciais. Segundo levantamento divulgado nesta semana pela Serasa Experian, a demanda por recuperação judicial de empresas de produtos e serviços que se relacionam diretamente com o agronegócio (exceto produtores rurais que atuam com perfis jurídicos) cresceu de forma significativa em 2023.

No total, foram 321 pedidos no ano passado, ante 176 requisições em 2022, um aumento de 82%. As empresas estão inseridas em segmentos como produção e revenda de insumos, agroindústrias, comércios atacadistas, serviços de apoio à agropecuária, fábricas e revendas de máquinas agrícolas, entre outros.

Ainda segundo a Serasa Experian, também houve aumento dos pedidos de RJ por parte dos produtores rurais que atuam com perfis jurídicos (PJ), de 90 (em 2022) para 116 ao longo de 2023.

Quadrante, do Leite, Tosto e Barros, explicou que, em muitos casos, a pessoa física se mistura com o empresário do agronegócio. “Nesse tipo de situação, não estamos falando de uma empresa, mas, sim, de uma pessoa física como produtor. Existem RJs de produtores com dívidas extremamente altas”.

Bassi, da Virtus, apontou que a China está crescendo menos em um cenário global de consumo mais restrito. “Uma série de empresas do agronegócio vai continuar com dificuldades, algumas vão poder renegociar com bancos de maior porte, mas essas instituições não são soberanas em todos os casos.” Ele disse acreditar que, em discussões com bancos menores, o desgaste será ainda maior. “É inevitável: o setor vai continuar com um número crescente de empresas que vão aderir a renegociações de dívida, seja do ponto de vista judicial ou não, pelos próximos seis meses.”

Diamantino disse que, muitas vezes, a recuperação judicial é uma medida necessária para a sobrevivência da empresa. “O cenário mostra que nem mesmo um setor forte e sólido como o agronegócio está imune a dificuldades. A recuperação judicial é um mal necessário, ninguém deseja estar nesse processo, mas muitas vezes é o único caminho possível para devedores e credores”, afirmou.


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Fonte: Bloomberg Línea

Belo Monte: renovação de licença sem mudanças na sua governança é assinar catástrofe, alertam especialistas

BM Bori

O desvio de água do rio Xingu pela usina de Belo Monte (PA) deixou a região de Volta Grande com menos de 30% de sua vazão natural anual

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Optar pela renovação da licença da hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, vencida em 2021, sem mudanças expressivas na governança e operação das barragens seria o semelhante a assinar pela continuidade de uma catástrofe ambiental e humana na região. O alerta, publicado em artigo de perspectiva na revista científica “Perspectives in Ecology and Conservation” na sexta (24), é de pesquisadores de dez instituições, entre elas, o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), a Universidade Federal do Pará (UFPA), a Universidade de São Paulo (USP), o Instituto Socioambiental (ISA) e o Ministério Público Federal (MPF) de Altamira, no Pará.

Além de sugerir mudanças na governança de Belo Monte, os especialistas defendem que hidrelétricas com 10 MW ou mais de capacidade instalada não devem mais ser construídas na região amazônica.

O trabalho contextualiza os impactos da usina hidrelétrica de Belo Monte, que fica próxima ao município de Altamira (PA), com dados da literatura científica e de ações do MPF. Desde a inauguração da última das 18 turbinas, em 2019, a hidrelétrica desvia água do rio Xingu através de um canal que deixou um trecho de 130 quilômetros de uma região do rio, conhecida como Volta Grande, com menos de 30% de sua vazão natural anual. Isso, segundo a análise, evita a inundação em determinada época do ano de 86% da área total originalmente coberta por igapós, um tipo de vegetação sazonalmente inundada.

Dentre as consequências desse desvio, relatadas pelos especialistas, está o declínio da reprodução dos peixes e quelônios da região, diminuindo rendimentos pesqueiros, perda de vegetação adaptada às cheias e aumento do risco de extinção de espécies endêmicas, além de mudanças nos padrões de sedimentação do rio que afetam a qualidade da água. Estima-se, também, que esse processo causou impactos sociais, com o deslocamento de cerca de 40 mil pessoas para assentamentos urbanos na periferia da cidade de Altamira, segundo dados do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB).

O biólogo Philip Fearnside, pesquisador titular do INPA e coautor do texto, comenta que outro problema urgente é a ameaça à segurança alimentar de três grupos indígenas e diversas populações ribeirinhas que habitam a Volta Grande. “Essas comunidades dependem dos peixes e quelônios para sua alimentação, além de serem grupos evoluídos culturalmente para viver com o ritmo do rio. A água é o recurso-rei desses povos e isso está sendo perdido”, enfatiza.

Segundo explicam os especialistas, o desvio de Volta Grande é mantido para priorizar a plena capacidade de geração da casa de força principal de Belo Monte e faz parte do plano de engenharia original, elaborado pela Norte Energia, empresa que administra o complexo. A legalidade do processo de licenciamento da hidrelétrica, no entanto, é contestada em 22 ações movidas pelo Ministério Público Federal. Em uma delas, de setembro de 2022, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que a construção de Belo Monte violou a lei brasileira ao não realizar consultas com os povos indígenas e tradicionais da Volta Grande para a instalação das barragens.

A preocupação é se o governo atual seguirá com a renovação da licença de Belo Monte, e se alguma mudança na operação da barragem será exigida. “As administrações dos últimos anos têm passado por cima, forçando a continuidade da hidrelétrica, e sem que muitas das condicionantes que a empresa prometeu fazer tenham sido cumpridas. E sem nenhuma penalidade”, diz Fearnside.

Para mitigar os impactos de Belo Monte, segundos os especialistas, seria preciso mudanças na operação que garantam que uma quantidade adequada de água volte a fluir pela Volta Grande, de forma que seu trajeto se aproxime do ciclo e duração natural das cheias do rio. Além disso, uma mudança na governança da hidrelétrica também seria necessária, de modo a envolver povos indígenas e ribeirinhos locais no monitoramento das operações e no processo de licenciamento da hidrelétrica. “É evidente que a barragem não será destruída, mas se quisermos preservar os ecossistemas e povos existentes na região, as comunidades locais e a sociedade civil devem ter maior participação”, finaliza Fearnside.


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Fonte: Agência Bori

Pesquisa encontra agrotóxicos em biscoito maisena, macarrão instantâneo, empanado e hambúrguer à base de plantas

Idec apresenta resultados do terceiro volume do estudo ‘Tem Veneno Nesse Pacote’, que analisou 24 ultraprocessados e identificou resíduos de agrotóxicos em metade das amostras

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Por Idec

De 24 alimentos ultraprocessados produzidos no Brasil, com destaque para aqueles com apelo ao público infantil, foram encontrados resíduos de agrotóxicos em metade das amostras.

O número alarmante está no terceiro volume da pesquisa “Tem Veneno Nesse Pacote”, realizada pelo Instituto de Defesa de Consumidores (Idec) e que identifica a presença de resíduos de agrotóxicos em produtos alimentícios ultraprocessados comuns na rotina dos brasileiros. 

O estudo está disponível gratuitamente na página idec.org.br/veneno-no-pacote, juntamente com os dois primeiros volumes, lançados em 2021 e 2022. 

Na terceira edição, foram analisados 24 ultraprocessados de oito categorias: macarrão instantâneo, biscoito maisena, presunto cozido, bolo pronto sabor chocolate, sobremesa petit suisse sabor morango, bebida láctea sabor chocolate, hambúrguer à base de plantas e empanado à base de plantas com sabor de frango. 

Em cada categoria, foram selecionados os três produtos mais vendidos do mercado. Os testes foram realizados por um laboratório certificado pela Coordenação Geral de Acreditação (CGCRE) do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro), credenciado junto ao Ministério da Pecuária e Abastecimento (MAPA) e utilizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em testes de resíduos de agrotóxicos. 

Tem Veneno nesse Pacote | Idec - Instituto Brasileiro de Defesa do  Consumidor

O teste escolhido é um dos mais abrangentes, com capacidade de detectar resíduos de até 563 agrotóxicos diferentes. 

A coordenadora do Programa de Alimentação Saudável e Sustentável do Idec, Laís Amaral, explica que as categorias com produtos à base de plantas foram incluídas no estudo mais recente em razão do avanço da indústria, que se apropria de uma fatia do mercado considerada “novidade”, apresentada como alternativa ao consumo de carne, enquanto vende uma variação dos mesmos ultraprocessados de sempre, e ainda utilizando matérias-primas produzidas com o uso de agrotóxicos.

“Precisamos alertar para o perigo duplo do consumo de ultraprocessados. Eles são produtos com excesso de nutrientes críticos, relacionados ao desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes, doenças do coração e hipertensão, além da presença de aditivos alimentares. E também temos consistentemente encontrado traços de contaminação com agrotóxicos nesses produtos, ou seja, são venenos tão potentes que continuam ali mesmo depois dos processos de produção nas indústrias”, explica Amaral. 

Resultados

Ao final do estudo, 12 dos 24 produtos analisados apresentaram resíduos de agrotóxicos. Os ultraprocessados com mais traços de agrotóxicos, com quatro tipos diferentes em cada amostra, foram: 

  • biscoito maisena Marilan
  • biscoito maisena Triunfo

Foram encontrados resíduos de três agrotóxicos diferentes nos produtos: 

  • Hambúrguer à base de plantas Sadia
  • Empanado à base de plantas sabor frango Seara
  • Macarrão instantâneo Nissin
  • Macarrão instantâneo Renata
  • Bolo pronto sabor chocolate Ana Maria

Foram encontrados resquícios de dois agrotóxicos no produto: 

  • Empanado à base de plantas sabor frango Sadia

E foi identificada a presença de um tipo de agrotóxico nos seguintes produtos: 

  • Hambúrguer à base de plantas Fazenda Futuro
  • Empanado à base de plantas sabor frango Fazenda Futuro
  • Presunto cozido Aurora
  • Bolo pronto sabor chocolate Panco
  • Bebida láctea sabor chocolate Pirakids

O glifosato foi o agrotóxico que mais apareceu nos testes, em sete das 24 amostras. Laís Amaral explica que o glifosato é o herbicida mais vendido no mundo, tido como “provavelmente carcinogênico ou capaz de causar câncer”, de acordo com a Agência Internacional para Pesquisa sobre Câncer (IARC) da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Apenas a categoria de sobremesa petit-suisse sabor morango não apresentou resíduos de agrotóxicos em nenhuma das amostras analisadas.

E a farinha de trigo, encontrada tanto na crosta dos empanados, quanto no biscoito maisena e no macarrão instantâneo continua sendo um ingrediente com alta prevalência de contaminação por agrotóxicos, como já havia apontado a análise do volume 2 do “Tem Veneno Nesse Pacote”. 

“Os testes que não indicaram resíduos de agrotóxicos não significam, comprovadamente, que esses ultraprocessados não utilizam matérias-primas com uso de venenos agrícolas. Mostram apenas que as amostras analisadas não contêm resíduos de agrotóxicos”, explica Amaral. 

Leonardo Pillon, advogado do Programa de Alimentação Saudável e Sustentável do Idec, lembra que o instituto vem criticando a flexibilização do uso dessas substâncias há muitos anos. Junto a outras organizações, o Idec integra a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida. 

“Cabe a crítica também aos deputados federais e senadores que, mesmo no meio de uma catástrofe climática diretamente relacionada com o ritmo de desmatamento e a manutenção de retrocessos na legislação ambiental, derrubaram vetos no Pacote do Veneno para concentrar poderes nas mãos do MAPA. Isso deve fazer com que as decisões futuras passem a ser facilmente controladas pelo lobby ruralista e corporações de agrotóxicos, acelerando ainda mais o descontrole desses produtos”, afirma. 

O advogado do Idec reforça que quem pagará o preço é a própria população, em especial pessoas negras, periféricas, mulheres, crianças e povos originários e tradicionais, seja por serem mais atingidos em eventos climáticos extremos, ou por serem cada vez mais expostos a uma carga maior de agrotóxicos. 

Com a finalização do volume 3 do estudo “Tem Veneno Nesse Pacote”, o Idec enviou notificações para todas as empresas responsáveis pelos produtos analisados em que foram encontrados agrotóxicos. Os dados também foram enviados à Anvisa.

Os interessados em baixar apenas o Volume 3, podem clicar [Aqui!].


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Fonte: Idec

Conservação de vegetação nativa é fundamental para combate às mudanças climáticas, advertem cientistas

amazonia-5406522Mudanças climáticas podem levar à perda de biodiversidade: imagem mostra vista panorâmica de floresta nativa

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A mitigação do impacto das mudanças climáticas na perda de biodiversidade passa por adotar medidas que preservem a vegetação e o solo nativos, já que eles são responsáveis por estocar carbono. Seria preciso evitar a fragmentação desses ambientes e realizar a correta recuperação de áreas degradadas. É o que dizem pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e do Centro de Conhecimento em Biodiversidade, em parceria com colegas de instituições estrangeiras, em reflexão publicada na revista científica “BioScience” nesta quinta (23).

Dentre as principais recomendações dos especialistas, estão a coibição do plantio de florestas baseadas em espécies exóticas, como pinus ou eucalipto, e a promoção de um uso mais consciente da terra para atividades agrícolas, o que evitaria a expansão de áreas de cultivo.

Com uso da literatura científica recente, os pesquisadores elencam seis pontos-chave para mitigar as mudanças climáticas: a conservação de estoques e sumidouros de carbono, a restauração adequada de áreas degradadas, a conservação integrada de fauna e flora locais, o investimento em mais produtividade agrícola em vez da devastação de novas áreas naturais para cultivo, a incorporação de medidas práticas para sustentabilidade por empresas e instituições financeiras e a colaboração entre especialistas para alinhar políticas e ações necessárias aos desafios ambientais. Esse último ponto poderia ser feito por meio da união das Conferências  das Nações Unidas (COPs) sobre Biodiversidade e Clima, que atualmente têm calendários distintos de realização.

A substituição de ecossistemas originais por florestas plantadas, por exemplo, pode aumentar as emissões de gases causadores do efeito estufa. Isso acontece porque o processo de tirar a vegetação original deixa o solo exposto, o que faz com que ele libere mais carbono. Por consequência, isso pode ampliar o impacto dos eventos climáticos extremos, como secas e enchentes. Os autores alertam: “ao introduzirmos um número limitado de espécies não nativas em uma determinada região, podemos, inadvertidamente, destruir a funcionalidade ecológica do ambiente, o que pode refletir na capacidade de fornecer nascentes de água, manter polinizadores para agricultura, controlar a umidade e o clima e influenciar o regime de chuvas”.

Em áreas como a Amazônia, os cientistas enfatizam a prioridade absoluta de parar o desmatamentoe a degradação da floresta remanescente – e avaliam que a restauração só se tornará prioridade depois destes objetivos serem alcançados. “Para o Brasil, a mensagem seria a necessidade de elevar muito a prioridade de áreas desmatadas. Apesar de discurso do governo, elas ainda não são tão prioritárias quanto áreas com grandes impactos ambientais de mineração ou energia, agricultura e infraestrutura de transportes”, avalia o pesquisador do Inpa Philip Fearnside, um dos autores do artigo.

Os pesquisadores também recomendam aos formuladores de políticas públicas que não aprovem projetos de lei que descaracterizem as áreas de proteção e promovam a expansão de áreas agrícolas. “O Brasil precisa largar de planos de extrair petróleo até a foz do rio Amazonas, de abrir vastas áreas de floresta com rodovias como a BR-319 e AM 366, de legalizar reivindicações de posses em terras públicas, de subsidiar pastagem e soja e de construir mais barragens amazônicas”, conclui Fearnside.


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Fonte: Agência Bori