Quo vadis DCE UENF?

quo vadis

Estou ausente do campus Leonel Brizola cumprindo um período de recesso que julgo ser muito merecido, após um primeiro semestre de grande intensidade de atividades, tanto como docente do Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais ou como chefe do Laboratório de Estudos do Espaço Antrópico.

Hoje tive a oportunidade de conversar com um colega que está em Campos dos Goytacazes, e acompanhando a situação envolvendo uma denúncia anônima de assédio sexual contra um estudante de graduação que teria ocorrido no centro em que eu trabalho, o de Ciências do Homem. 

Esse colega, sempre astuto, me compartilhou a sua perplexidade em torno não da denúncia em si, mas do silêncio cavernoso que vem sendo praticado pelos dirigentes do Diretório Central dos Estudantes da UENF. É que, como esse colega bem lembrou, essa questão deveria já ter tido uma ação pronta do DCE/UENF para exigir a apuração do caso, especialmente porque envolve supostamente uma discente do curso de Ciências Sociais, que, se de fato existir, deveria estar tendo seus direitos defendidos pelo sindicato dos estudanres de graduação.

Mas ao que parece que este caso não serviu para gerar uma cobrança do DCE/UENF em relação à reitora da UENF que, lembremos,  foi eleita com a bandeira do fortalecimento dos direitos das mulheres uenfianas. O que estará impedindo uma ação dos dirigentes do DCE cobrando explicações sobre este incidente foi a pergunta que meu astuto colega me fez.

E aí é que eu pergunto: Quo Vadis,  DCE/UENF?

Tubarões na costa brasileira testam positivo para cocaína, mostra estudo da Fiocruz

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O tubarão-de-nariz-afiado brasileiro é parente do tubarão-de-nariz-afiado do Atlântico (foto de arquivo de 2015)

Por George Wright para a BBC News

Cientistas dizem que tubarões na costa do Brasil testaram positivo para cocaína.

Biólogos marinhos testaram 13 tubarões-de-focinho-afiado brasileiros retirados da costa perto do Rio de Janeiro e descobriram que eles apresentavam altos níveis de cocaína em seus músculos e fígados.

As concentrações foram até 100 vezes maiores do que as relatadas anteriormente para outras criaturas aquáticas.

A pesquisa, realizada pela Fundação Oswaldo Cruz, é a primeira a constatar a presença de cocaína em tubarões.

Especialistas acreditam que a cocaína chega às águas por meio de laboratórios ilegais onde a droga é fabricada ou por meio de excrementos de usuários de drogas.

Pacotes de cocaína perdidos ou jogados no mar por traficantes também podem ser uma fonte, embora isso seja menos provável, dizem os pesquisadores.

Sara Novais, ecotoxicologista marinha do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente da Universidade Politécnica de Leiria, disse à revista Science que as descobertas são “muito importantes e potencialmente preocupantes”.

Todas as mulheres no estudo estavam grávidas, mas as consequências da exposição à cocaína para os fetos são desconhecidas, dizem os especialistas.

Mais pesquisas são necessárias para verificar se a cocaína está alterando o comportamento dos tubarões.

No entanto, pesquisas anteriores mostraram que os medicamentos provavelmente têm efeitos semelhantes em animais e humanos.

No ano passado, compostos químicos incluindo benzoilecgonina, que é produzida pelo fígado após o uso de cocaína, foram encontrados em amostras de água do mar coletadas na costa sul da Inglaterra.


Fonte: BBC News

Afinal, o que Ouvidoria da UENF ouve?

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Nas últimas semana, a “Ouvidoria da UENF” ganhou grande publicidade em função de não ter sido usada para a realização de uma denúncia sobre um suposto caso de assédio sexual contra uma estudante de graduação do curso de Ciências Sociais.  A grande reclamação da reitora da Uenf na reunião do Conselho Univeristário contra quem postou uma espécie de dazibao na porta de um banheiro  próximo de seu gabinete era de que a pessoa deveria ter procurado a Ouvidoria da Uenf em vez de usar, digamos assim, a via chinesa.

Rodrigo da Silva on X: "Em chinês se chama dazibao (大字報) e significa  “jornal mural afixado na rua”. Durante a Revolução Cultural, essa era a  rede social. Os chineses usavam esses murais

Em chinês se chama dazibao (大字報) e significa “jornal mural afixado na rua”

Pois bem, resolvi procurar a página da Ouvidoria da Uenf para saber mais das atividades desse que seria o mecanismo preferencial de encaminhamento de denúncias de supostos malfeitos que ocorram dentro da Universidade Estadual do Norte Fluminense.  Uma primeira coisa que me chamou a atenção na busca pela página da Ouvidoria é que não é uma coisa muito fácil encontrá-la, pois a mesma está depositada dentro do Portal da Transparência da Uenf, sem que esteja apartentemente visível em outros acessos.

Passada a fase do encontrar onde está, passei a analisar o que está informado na página da Ouvidoria. Uma primeira coisa é que a mesma está defasada, pois os últimos relatórios depositados se referem ao ano de 2022. Além disso, o mesmo ocorrendo com o montante de atendimentos feitos pela Ouvidoria que teria recebido 45 reclamações em 2022 (contra 44 em 2021, 35 em 2020, e 47 em 2019).

Os relatórios estatísticos  assinados pelo ouvidor da Uenf se mostram particularmente bastante opacos, pois apenas apresentam porcentagens dos tipos de reclamação, sem que haja, por exemplo, maiores explicaçõessobre o que seriam as reclamações, as razões para terem arquivadas ou atendidas, ou as questões objetivas que foram reclamadas, na medida em que só foram apontados os itens gerais em que as mesmas foram classificadas.

Uma curiosidade nos quatro relatórios disponibilizados, em um total de 181 reclamações não foi apontado de forma explícita que alguma delas tenha se referido a casos de assédio (moral ou sexual). A única indicação é de que em 2 dos 4 quatro quadrimestres de 2022, as reclamações teriam sido feitas contra posturas de docentes, sem que fosse explicitado quais. Mas nada nos relatórios aponta que tenham sido casos de assédio. Assim, das duas uma, ou na Uenf inexistem casos de assédio ou os que eventualmente ocorreram no período relatado não foram denunciados. 

Por outro lado, a não ser que os relatórios da Ouvidoria da Uenf estejam depositados fora da sua página oficial, o que fica demonstrado é que a Uenf não possui efetivamente o que canal que tem sido propalado, abrindo a hipótese de que o universo de problemas suscetíveis a serem apurados sejam bem maiores do que aqueles que viram reclamações.  Aliás, quem é o atual ouvidor da Uenf e qual é a duração, digamos, do seu mandato?

Finalmente, um problema com uma ouvidoria aquém da demanda existente é exatamente abrir caminho para que os eventuais malfeitos apareçam por outros canais, goste a reitoria da Uenf ou não. E, sim, que a atual conformação desse canal não o torna a panacéia que se andou apregoando desde que a notícia do dazibao foi divulgada no apagar das luzes da última reunião do Conselho Universitário da Uenf.

Edição genética causa alterações genéticas não intencionais com implicações para a alimentação e a agricultura

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Por Sustainable Pulse

Um estudo publicado recentemente na Nature Genetics mostra que o uso de ‘tesouras genéticas’ CRISPR/Cas causa mudanças genéticas não intencionais que são diferentes de mutações aleatórias. De acordo com o estudo, grandes mudanças estruturais nos cromossomos ocorrem com muito mais frequência nas regiões genômicas visadas pelas ‘tesouras genéticas’ do que seria o caso de outra forma. Esses resultados também têm implicações para a avaliação de risco de plantas obtidas por nova engenharia genética (NGTs), relatou a TestBiotech .

De acordo com a Comissão da UE e a Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar (EFSA), alterações genéticas não intencionais resultantes do uso de ‘tesouras genéticas’ CRISPR/Cas não são diferentes de mutações aleatórias. No entanto, um novo método de avaliação de dados mostra que essa suposição está errada.

O uso de CRISPR/Cas interrompe completamente a fita dupla de DNA, fazendo com que alguns cromossomos sejam temporariamente separados da seção principal. Na seção separada (distal), os cromossomos podem se reestruturar, sequências maiores de DNA podem ser perdidas (deleções), revertidas (inversões) ou inseridas no lugar errado (inserções).

Estudos em células humanas, animais e vegetais mostraram que essas reestruturações ocorrem. No entanto, o estudo publicado recentemente na Nature Genetics é o primeiro a usar grandes conjuntos de dados para demonstrar uma dependência estatisticamente altamente significativa da ocorrência dessas mudanças indesejadas no uso de ‘tesouras genéticas’. Um programa especial com inteligência artificial foi usado para avaliar as grandes quantidades de dados. Isso revelou que a localização e a frequência das mudanças genéticas não intencionais não podem de forma alguma ser equiparadas à ocorrência de mutações aleatórias.

Embora os conjuntos de dados sejam originários de células humanas projetadas com a ‘tesoura genética’, deve-se presumir que efeitos semelhantes também ocorrem em células animais e vegetais. No entanto, as consequências são diferentes: em humanos e animais, esses tipos de mudanças são particularmente associados ao risco de câncer. No que diz respeito às plantas, os riscos são diferentes e incluem principalmente, por exemplo, efeitos ambientais negativos e uma mudança na composição dos alimentos derivados dessas plantas.

O melhoramento também pode ser afetado: se as mudanças não intencionais passarem despercebidas, elas podem se acumular no material genético das plantas e, assim, prejudicar tanto a estabilidade genética de futuras variedades de plantas quanto sua adequação para uso na agricultura.


Fonte: Sustainable Pulse

Indústria da carne age para distrair, atrasar e inviabilizar ação climática, diz relatório

Trabalho de organização europeia analisou 22 das maiores empresas de carne e laticínios em quatro continentes

meat industry“Os novos comerciantes da dúvida” foi lançado esta semana. Imagem: Divulgação/Changing MArkets Foundation

Por Cristiane Prizibiscki para o “Eco”

Relatório divulgado esta semana pela organização holandesa Changing Markets Foundation revela o que seriam as principais práticas empregadas sistematicamente pelos gigantes mundiais da carne e dos laticínios que resultam em distração, atraso e inviabilização do enfrentamento da crise climática. Intitulado “Os novos comerciantes da dúvida”, o trabalho analisou as ações de 22 das maiores empresas de carne e laticínios do mundo – incluindo a brasileira JBS – em quatro continentes.

Segundo o relatório, o setor tem inviabilizado ações climáticas significativas a nível global por meio de lobby junto a políticos, investimentos maciços em publicidade para públicos mais jovens e uso de ciência enganosa para minimizar o impacto que suas atividades têm nas emissões de metano e disseminar falsas alegações climáticas. 

Documentos obtidos via leis de acesso à informação revelam, por exemplo, o extraordinário acesso que o setor tem a políticos. Somente na última década, representantes da indústria da carne e laticínios tiveram mais de 600 reuniões de alto nível com a Comissão Europeia.

“Memorandos internos revelam como o principal grupo europeu da indústria láctea celebrou a manutenção do metano fora da legislação sobre qualidade do ar e está a preparar-se para mantê-lo assim nas próximas revisões da lei previstas para 2025”, diz trecho do relatório.

Fazendo uma comparação às táticas usadas pelas indústrias do tabaco e dos combustíveis fósseis, o relatório também revela que as grandes empresas do setor empregam táticas como a intimidação e o medo sobre consumidores e pequenos agricultores, ao alegarem que leis mais restritivas, por exemplo, implicariam em prejuízos para tais públicos.

A pesquisa envolveu mais de 15 investigadores especializados e jornalistas de investigação e decorreu entre fevereiro de 2023 e junho de 2024. 

A investigação mostra que as grandes indústrias do setor estão especialmente preocupadas com as gerações mais jovens, que consomem menos carne e laticínios do que as gerações anteriores. Elas visam, diz o documento, a “Geração Z” (nascidos entre 1995 e 2010) com campanhas publicitárias enganosas no TikTok e no Instagram, promovendo falsamente a carne e os laticínios como escolhas sustentáveis ​​e mais saudáveis ​​em países de alto consumo como os EUA e o Reino Unido, contra as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Os sistemas alimentares contribuem para aproximadamente um terço das emissões globais, sendo 60% provenientes da pecuária – a maior fonte de metano produzido pelo homem. No entanto, apenas 15 das 22 grandes empresas de carne e laticínios têm uma meta de emissões líquidas zero e nenhuma cumpre as normas da ONU. A Danone é a única empresa com uma meta específica de metano. 

“Tivemos as Grandes Indústrias do Tabaco, tivemos as Grandes Petrolíferas, agora temos as Grandes Carnes e Laticínios. ‘Os novos comerciantes da dúvida’ é uma exposição impressionante das táticas das grandes empresas de carne e laticínios. O relatório descreve exemplos específicos e flagrantes de campanhas de desinformação, greenwashing e interferência política. Esclarece como a indústria manipula o preço e os tipos de alimentos que comemos”, diz o pesquisador Paul Behrens, Professor Associado de Mudanças Ambientais na Universidade de Leiden, na Holanda.


Fonte: O (Eco)

COVID-19 pode impactar o cérebro de maneira semelhante à esquizofrenia e acelerar deficiências cognitivas

robina-weermeijer-IHfOpAzzjHM-unsplash-2Cientistas examinaram padrões de proteínas de cérebros de pessoas falecidas, que tinham esquizofrenia ou faleceram devido à COVID-19

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Ao infectar o cérebro, o vírus da COVID-19 afeta processos cerebrais também impactados por distúrbios como esquizofrenia e doença de Alzheimer. É o que aponta artigo publicado na sexta (19), na revista científica “European Archives of Psychiatry and Clinical Neurosciences”, assinado por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), do Instituto D’Or de Ensino e Pesquisa e do Centro Nacional de Pesquisas em Energia e Materiais (CNPEM). O achado pode colaborar para a compreensão e o tratamento dessas e de outras doenças com efeitos no cérebro.

Para investigar os mecanismos de atuação dessas condições, o grupo de pesquisadores examinou padrões de expressão de proteínas em cérebros de pessoas falecidas que tinham esquizofrenia ou que morreram devido à COVID-19, a partir de estudos prévios e de bancos de dados científicos. Eles identificaram uma espécie de assinatura cerebral proteica para cada uma das doenças. O segundo passo foi comparar esses padrões e entender quais funções do cérebro são afetadas pelas mudanças na quantidade e no tipo de proteínas presentes em relação a cérebros saudáveis.

“Nós esperávamos encontrar mais diferenças do que semelhanças, já que uma das condições é uma infecção viral aguda e a outra é uma doença que acontece desde o neurodesenvolvimento, com base genética”, explica Daniel Martins-de-Souza, pesquisador da Unicamp e autor do estudo. Contrariando as expectativas da equipe, os resultados mostram que diversas vias cerebrais em comum são afetadas pela COVID-19 e pela esquizofrenia, especialmente em termos de impactos moleculares e funcionais do cérebro.

Para o pesquisador, o que mais chama a atenção é a semelhança entre as duas condições nos processos que aceleram o envelhecimento cerebral. Além disso, ambas modificam os processos de obtenção de energia das células cerebrais e de comunicação com o organismo. A longo prazo, essa combinação pode contribuir para deficiências cognitivas e sintomas psiquiátricos, traços já observados em casos dessas doenças. “A infecção do vírus mostra um potencial de dessintonizar a maquinaria cerebral, deixando a pessoa mais propensa a eventos psiquiátricos e, aparentemente, também aos neurodegenerativos”, comenta o autor.

Outro efeito comum entre a COVID-19 e a esquizofrenia, destacado pelo estudo, é o aumento do risco de comorbidades metabólicas, como diabetes e síndrome metabólica, um grupo de condições que eleva o risco de ataques cardíacos e derrames. Isso porque essas condições alteram a maneira como o corpo processa carboidratos, como a glicose, resultando em dificuldades para regular os níveis de açúcar no sangue. Isso, por sua vez, aumenta a probabilidade de complicações graves e a taxa de mortalidade dos pacientes afetados.

As semelhanças encontradas pelo estudo na forma como as duas doenças atingem os mecanismos cerebrais podem levar a mais estudos e, no futuro, ao desenvolvimento de novas terapias para tratar pacientes afetados por uma ou ambas as condições. “Talvez a gente possa aprender mais sobre esquizofrenia com os dados de Covid e vice-versa”, ressalta Martins-de-Souza. “Acho que isso encurta caminhos para eventuais tratamentos, até mesmo na perspectiva de olhar para outras infecções virais que têm o potencial de afetar o cérebro, como o zika vírus, por exemplo”, conclui.


Fonte: Agência Bori

Análise realizada em farinha e arroz aponta altas taxas de toxinas fúngicas prejudiciais à saúde

Os alimentos estavam armazenados em residências de Ribeirão Preto e seriam consumidos por famílias participantes de pesquisa. Estudo é o primeiro do Brasil a usar biomarcadores para caracterizar o risco associado às micotoxinas na dieta

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A exposição a micotoxinas pela alimentação pode desencadear uma série de problemas de saúde, especialmente no caso de crianças e adolescentes (foto: André Borges/Agência Brasil)

Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP

Ao analisar amostras de farinha e de arroz armazenadas em residências de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) constataram a presença de altas quantidades de toxinas fúngicas (micotoxinas). Os resultados do estudo, que contou com apoio da FAPESP, foram divulgados no periódico Food Research International.

Como destacam os autores, a exposição a micotoxinas pela alimentação pode desencadear uma série de problemas de saúde, especialmente no caso de crianças e adolescentes. Os dados reforçam, portanto, a importância de armazenar alimentos como grãos e farinhas em locais secos e protegidos de insetos para evitar o risco de contaminação.

“Todos os microrganismos, incluindo os fungos, necessitam do chamado ‘binômio temperatura e tempo’ para se desenvolver em um substrato. Portanto, quanto mais tempo um alimento contendo fungos toxigênicos ficar armazenado em condições inadequadas, por exemplo, exposto ao ambiente, desprotegido, em local quente e úmido, maior a probabilidade de haver altas concentrações de micotoxinas”, afirma Carlos Augusto Fernandes de Oliveira, professor da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA-USP), no campus de Pirassununga, e coordenador do estudo.

Segundo o pesquisador, existem mais de 400 toxinas que os fungos produzem para se defender ou interagir com outros organismos. “Seis dessas substâncias, as quais chamamos de meninas superpoderosas, requerem mais atenção por serem carcinogênicas, imunossupressoras ou por atuarem como disruptores endócrinos [causarem alteração no equilíbrio hormonal do organismo]. É algo que demanda muita atenção pelos seus efeitos prejudiciais à saúde”, destaca.

Em todas as amostras analisadas foram encontradas as seis toxinas de preocupação: aflatoxinas (AFs), fumonisinas (FBs), zearalenona (ZEN), toxina T-2, desoxinivalenol (DON) e ocratoxina A (OTA). No caso das micotoxinas FBs, ZEN e DON as taxas estavam acima do limite de tolerância estabelecido pelos órgãos de saúde. Este estudo foi o primeiro no Brasil a usar biomarcadores para caracterizar o risco associado às micotoxinas na dieta de crianças e adolescentes.

Oliveira explica que a aflatoxina B1, descoberta na década de 1960, é o mais potente carcinógeno natural conhecido. A substância lesa o DNA dos animais, provocando mutações genéticas que podem levar ao desenvolvimento de carcinoma hepático. Há ainda outros efeitos, como imunossupressão, problemas reprodutivos e teratogênese (quando gestantes ou pessoas em amamentação transferem as toxinas para o embrião, feto ou criança, causando problemas de saúde).

“Não existe nenhuma substância conhecida pelo homem na natureza que tenha o poder cancerígeno dessa micotoxina, só raras exceções criadas em laboratório, como, por exemplo, dioxinas”, conta o pesquisador.

Já a desoxinivalenol, encontrada em altas taxas nas amostras analisadas, embora não seja carcinogênica, pode reduzir a imunidade de pessoas contaminadas. “Ela também tem efeito no sistema gastrointestinal. Nos animais, por exemplo, ela provoca tanta irritação que eles regurgitam. Por isso, ela é vulgarmente chamada de vomitoxina”, diz.

A fumonisina B1 é considerada um possível carcinógeno humano, podendo causar câncer esofágico e outros problemas hepatotóxicos, assim como a ocratoxina A, outro potencial carcinógeno. Já a zearalenona, encontrada em taxas elevadas nas amostras de alimento analisadas, possui uma estrutura idêntica à do hormônio feminino estrógeno, podendo produzir problemas relacionados ao excesso de estrógeno no organismo (hiperestrogenismo).

“São, portanto, toxinas com repercussões pesadas. Diferentemente do chumbo ou de outros contaminantes químicos, como o bisfenol [encontrado em alguns materiais plásticos], essas micotoxinas não são cumulativas. No entanto, elas têm efeito progressivo. Isso quer dizer, por exemplo, que, com a exposição a moléculas de B1, em algum momento não será mais possível reparar o DNA que foi lesado pela micotoxina. É a partir daí que pode surgir o câncer. Por isso, a nossa preocupação com crianças e adolescentes, que tendem a ser mais sensíveis a toxinas em geral”, afirma.

As análises foram realizadas por cromatografia líquida de ultraeficiência acoplada à espectrometria de massa em tandem (UPLC-MS/MS, método que permite discriminar diferentes substâncias em uma mistura com base no peso molecular). As 230 amostras de alimentos analisadas estavam disponíveis para consumo nos domicílios de 67 crianças, incluindo 21 pré-escolares (3 a 6 anos), 15 escolares (7 a 10 anos) e 31 adolescentes (11 a 17 anos).

O grupo está realizando uma segunda etapa do trabalho para identificar mais a fundo o grau de contaminação. Amostras de urina das crianças e adolescentes foram coletadas e os pesquisadores estão em fase de análise do resultado do material.

“A partir da análise de biomarcadores encontrados na urina é possível avaliar a exposição a micotoxinas, uma vez que a excreção de biomarcadores se correlaciona bem com a ingestão de algumas micotoxinas. Com isso poderemos antever potenciais efeitos da contaminação”, adianta Oliveira à Agência FAPESP.

O artigo Exposure assessment of children to dietary mycotoxins: A pilot study conducted in Ribeirão Preto, São Paulo, Brazil pode ser lido em: www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0963996924001571.


Fonte: Agência Fapesp

Desmatamento da Amazônia é ainda mais impactado por demandas do centro-sul do que pelas exportações

Estudo da USP mostra que a expansão da pecuária, pressionada pelo aumento do consumo interno, foi o fator que mais contribuiu para a eliminação ou degradação da cobertura vegetal da região. Produção agrícola vem em segundo lugar

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Atualmente, 23% da área correspondente à Amazônia Legal Brasileira já foi desmatada e mais de 1 milhão de km2 encontram-se degradados (foto: Ibama)

José Tadeu Arantes | Agência FAPESP 

A Amazônia Legal Brasileira (ALB) – que compreende toda a parte da Bacia Amazônica situada no Brasil e vastas porções adjacentes do Cerrado, estendendo-se por nove Estados – soma mais de 5 milhões de quilômetros quadrados (km2) e corresponde a quase 60% do território nacional. Atualmente, 23% dessa área já foi desmatada e mais de 1 milhão de km2 encontram-se degradados, colocando a região em risco de atingir um ponto de inflexão ecológica que poderia colapsar os ecossistemas e liberar bilhões de toneladas de carbono na atmosfera. Algumas regiões da ALB, especialmente nas franjas do Cerrado e no chamado “Arco do Desmatamento”, já são emissoras líquidas de carbono. A manutenção da área preservada e a recuperação de porções degradadas são necessidades urgentes, que mobilizam diferentes atores da comunidade global.

A demanda estrangeira por commodities é frequentemente considerada a motivação principal do desmatamento. Mas, embora esta constitua um fator muito relevante, os mercados domésticos exercem pressão ainda maior. Foi o que constatou um estudo realizado por Eduardo Haddad e colaboradores, publicado na revista Nature Sustainability.

“O desmatamento é frequentemente avaliado a partir da perspectiva da oferta, ou seja, quais setores produtivos estão promovendo a substituição das florestas por outros usos da terra, como agricultura e pecuária. A metodologia que adotamos permite ver o fenômeno do desmatamento também a partir da perspectiva da demanda, identificando as fontes de estímulos econômicos para que os setores produtivos se envolvam no desmatamento. Com base nesse critério, nosso estudo mostrou que 83,17% do desmatamento foi desencadeado por demandas de fora da Amazônia e apenas 16,83% por demandas da própria região. Na composição dos 83,17%, verificamos que 59,68% foram decorrentes de demandas do restante do Brasil e 23,49% de demandas do comércio internacional”, relata Haddad.

O pesquisador é professor titular da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA-USP) e consultor de agências internacionais de desenvolvimento, como o Banco Mundial (BM), Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e o Joint Africa Institute (JAI).

A metodologia adotada no estudo baseou-se principalmente na chamada Matriz de Insumo-Produto (MIP). Criada pelo russo naturalizado norte-americano Wassily Leontief (1906-1999), a MIP (Input-Output Matrix, em inglês) representa matricialmente as relações entre os diversos setores da economia, registrando os fluxos de bens e serviços e possibilitando conhecer os impactos que as alterações em um setor produzem nos outros.

“No Brasil, a MIP mais recente foi feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística [IBGE] em 2015. Devido à complexidade matemática e à restrição de acesso aos dados de milhões de empresas e suas estruturas comerciais, não houve atualização depois disso. Usar dados de 2015 poderia ser inadequado se não fosse pelo fato de que, infelizmente, a estrutura da economia brasileira mudou muito pouco desde então. A década de 2010 foi a pior na série histórica de 120 anos do Produto Interno Bruto do país, com crescimento de apenas 0,3% ao ano. Por isso, utilizamos a MIP de 2015 adaptada para a Amazônia Legal Brasileira, combinada com dados setoriais e regionais de desmatamento e de emissões de gases de efeito estufa, para medir os impactos diretos e indiretos da demanda doméstica e internacional por insumos e produtos finais da ALB, com foco em setores intensivos em desmatamento, como a agricultura e a pecuária”, explica Haddad.


A configuração atual da Amazônia Legal Brasileira (imagem: IBGE)

Mudanças no uso da terra

A Amazônia passou por enormes transformações no último meio século. Inovações técnicas, investimentos em infraestrutura e mudanças políticas facilitaram a expansão do cultivo de soja: da região central do Cerrado para vastos segmentos da ALB. A produção local de soja, que era inferior a 200 toneladas em 1974, representando apenas 0,02% do montante nacional, alcançou 50 milhões de toneladas em 2022, 41,5% do total brasileiro. Igualmente vertiginoso foi o crescimento da pecuária: de 8,9 milhões de cabeças de gado em 1974 (9,5% do rebanho brasileiro) para 104,3 milhões de cabeças em 2022 (44,5% do total).

“A expansão da pecuária atendeu principalmente ao crescimento do consumo de carne, produtos lácteos e couro em outras regiões do país. Impulsionado pelo aumento da renda média per capita e pela rápida urbanização, o consumo de carne no Brasil subiu acima da média global após os anos 1960. Dos 1,4 milhão de hectares desmatados pela pecuária, 61,63% visaram atender, direta ou indiretamente, à demanda interna de fora da Amazônia e 21,06% à demanda internacional. O desmatamento por atividades agrícolas mostra um padrão diferente, com 58,38% atendendo à exportação e 41,62 ao mercado interno”, informa Haddad.

O estudo ressalta que, apesar de afetar diferentes biomas da Amazônia Legal, o desmatamento ocorrido até agora no Brasil se concentrou geograficamente nessa região. Em 2015, a ALB respondia por 65,7% do total do desmatamento acumulado no país. A pecuária foi a principal causa imediata (93,4% do total regional), seguida pela produção agrícola, principalmente de soja, milho e algodão (6,4%), e pela mineração (0,2%). A construção de infraestrutura e o processo intensivo de urbanização também fazem parte dos fatores antrópicos diretamente ligados à eliminação ou à degradação da cobertura vegetal original da Floresta Amazônica e do Cerrado.

“Atividades ilegais, como a grilagem de terras, são muito relevantes no contexto. Um estudo recente mostrou que metade do desmatamento da ALB nas últimas duas décadas ocorreu em terras públicas ocupadas ilegalmente por grileiros. Disputas legais têm levado décadas e não impedem que a maioria das áreas ilegais ou do desmatamento ilegal em propriedades privadas participe tanto do mercado de terras quanto do processo de produção”, acrescenta Haddad.

O estudo em pauta demonstra que a demanda econômica originada no centro-sul mais desenvolvido do Brasil impõe uma pressão ainda maior sobre o desmatamento na Amazônia do que as exportações internacionais. Esse conhecimento é muito relevante para orientar políticas públicas e ações da sociedade civil voltadas para preservação ou regeneração. E, como as mudanças no uso da terra, por meio da pecuária e da agricultura, continuam sendo as principais fontes de emissões de dióxido de carbono (CO2) no Brasil, o controle do desmatamento e da degradação torna-se imperativo para que o país possa cumprir suas metas de redução de emissões de gases de efeito estufa.

Além de Haddad, participaram do estudo Inácio Fernandes de Araújo Junior, Rafael Feltran Barbieri, Fernando Salgueiro Perobelli, Ademir Rocha, Karina Simone Sass e Carlos Afonso Nobre.

O grupo recebeu apoio da FAPESP por meio de dois projetos (14/50848-9 e 21/12397-9).

O artigo Economic drivers of deforestation in the Brazilian Legal Amazon pode ser acessado em: www.nature.com/articles/s41893-024-01387-7.


Fonte: Agência Fapesp

Uenf e a disseminação de fake news: o que há de novo sob o sol de Parador?

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Desde a última 6a. feira (13/7) a comunidade universitária da Uenf permanece imersa em um debate que foi iniciado por anúncio feito pela reitora Rosana Rodrigues de que uma denúncia anônima sobre um suposto caso de assédio sexual seria uma espécie de prova de que estamos sob a influência de uma campanha fake news (ou em português, notícias falsas). 

Essa associação entre uma denúncia anônima que teria sido colocada em um banheiro no andar em que a reitora possui seu gabinete e uma campanha de fake news contra a Uenf foi materializada pela apresentação de uma proposta de moção de repúdio proposta na reunião do Conselho Universitário, e que ainda está por ser tornada pública.

Particularmente mantenho reservas sobre a associação que está sendo feita pela reitoria da Uenf entre denúncia anônima e uma campanha orquestrada para a criação e disseminação de fake news. Por que digo isso? É que este blog foi o primeiro espaço público a tratar do uso de fake news dentro da Uenf, ainda no mês de abril de 2023. Logo no 1o. de abril,  escrevi uma postagem dando conta do risco de que as eleições que ocorreriam no segundo semestre para eleger o novo reitor da universidade fossem marcadas por uma intensa campanha de fake news.

A postagem de abril funcionou como uma espécie de premonição, pois a campanha eleitoral para a reitoria acabou efetivamente sendo maculada pelo uso explícito de fake news contra a chapa formada pelos professores Carlos Eduardo de Rezende e Daniela Barros. A situação chegou a tal ponto que o professor Rezende teve que produzir uma série de vídeos para explicar o que não pretendia fazer o que as “fake news” diziam que ele estaria pretendendo fazer, caso fosse eleito. Analisei aquela situação em nova postagem que foi publicada em agosto de 2023.

Há que se dizer que os membros da chapa derrotada foram ainda alvo de uma intensa campanha que grassou livre nas redes sociais e mais livremente ainda em grupos de Whatsapp que contribuíram diretamente para que eles tivessem que passar muito tempo se explicando em relação a uma série de mentiras deslavadas (ou seja, fake news) que implicaram em um forte desgaste pessoal para Carlos Rezende e Daniela Barros, e também, obviamente, em suas chances eleitorais.

Logo após as eleições vencidas pela chapa formada pelos professores Rosana Rodrigues e Fábio Olivares, voltei a abordar os problemas que marcaram as eleições para a reitoria da Uenf no dia 21 de setembro de 2023, quando analisei as atividades de um perfil na rede social Instagram que se intitula “Uenfspotted“. Naquela postagem em específico, tratei de uma “boca de urna” eletrônica que teria sido feita com indicações óbvias de que fora feita mais para influenciar do que para captar preferências.

Pois bem, como procurei demonstrar em minhas postagens ao longo de 2023 foi que eleições que deveriam ter sido marcadas por um debate calcado apenas em compromissos com a consolidação de uma universidade dentro de padrões democráticos foram, na verdade, mais um palco para o uso de ferramentas que utilizaram esquemas que visavam claramente manchar reputações a partir do uso explícito de fake news.

O curioso é que nem no momento ou depois das eleições se viu por parte da reitoria da Uenf, a denúncia de fake news como algo que estaria ameaçando a manutenção de um “ambiente universitário saudável, ético e baseado na verdade”. Em relação ao que ocorreu durante as eleições, o silêncio foi próprio daquele que ocorre em ambientes repletos de sepulcros.

Mas vá lá, como uma pessoa otimista que sou, a minha expectativa é que agora a reitora e o vice-reitor da Uenf tenham acordado para o risco posto pela disseminação de fake news em um ambiente universitário. E mais ainda que  também cuidem de apurar eventuais denúncias de assédio (em todas as suas formas) com o devido rigor e que punam os eventuais responsáveis nas formas previstas pela lei.

 

A Uenf sob o manto da confusão (II): antes da apuração, o veredito via mídia corporativa?

uenf sos

Notei aqui neste blog uma situação esquisita que está ocorrendo neste momento no campus Leonel Brizola envolve a denúncia até agora anônima de um suposto caso de assédio sexual. Como escrevi, esse caso deveria ter sido cuidadosamente apurado pela reitoria antes que houvesse qualquer pronunciamento público ou publicização via a mídia corporativa local.

Eis que hoje o assunto continua sendo veiculado em um veículo da mídia corporativa campista com a apresentação de diversas manifestações sobre o caso, inclusive da reitora Rosana Rodrigues. No caso específico da reitora, ela não deveria estar se colocando em uma posição pública antes de ter sequer tomado a iniciativa básica de fazer instaurar uma comissão especial de sindicância. 

E pior, é que se alguém cometeu um delito e uma infração administrativa, ao caluniar alguém, a reitora incorreu em um grave erro, ao divulgar as diligências que eventualmente estejam em andamento, o que pode favorecer o(a) infrator (a). E mais ainda, se realmente houve um assédio, a ação da reitora é pior ainda porque o que está se fazendo é re-vitimizar a vítima, e coagir (o) a noticiante.

Por outro lado, uma coisa que salta aos olhos nessa cobertura continuada do caso é que não há uma apuração mínima em torno do objeto da denúncia anônima, que seria a ocorrência de um caso de assédio. Mais interessante ainda é que um dos citados na denúncia anônima é um frequentador assíduo da programação do referido veículo da mídia corporativa, o que deveria ter suscitado uma ação mais cuidadosa por parte dos seus proprietários, e principalmente algo que se assemelhasse a uma apuração imparcial dos fatos.

Há que se lembrar ainda que a Uenf está localizada na mesma cidade onde ocorreu o rumoroso caso das “Meninas de Gurarus, o que deveria ter acendido luzes de cuidado nas redações locais. Mas, pelo jeito, mais uma vez parece que não se aprendeu nada com a história. Mas, pensando bem, esperar o contrário seria demais em se tratando de quem se trata.

Uma coisa é certa: as possibilidades de apuração imparcial desse caso estão completamente contaminadas pela cobertura jornalística pobre de um caso que deveria ter ficado sigiloso. Com isso, a reitora Rosana Rodrigues está perdendo uma excelente oportunidade para mostrar que sua propaganda eleitoral virou prática de governo. E com isso,  perde a Uenf, mas principalmente suas estudantes e professoras que terão ainda mais dificuldade de expor casos de assédio dentro do campus Leonel Brizola.