O futuro da UENF em jogo

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Por Carlos Eduardo de Rezende*

À medida que a Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF) se aproxima de seu 31º aniversário, ela enfrenta uma série de desafios críticos que ameaçam seu legado e progresso em ajudar o norte e noroeste do estado do Rio de Janeiro a avançar.

Entre os problemas mais evidentes estão a falta de um “Plano de Cargos e Vencimentos” atualizado, a não remuneração de direitos trabalhistas como periculosidade e insalubridade, e a pendência de concursos para servidores técnicos e docentes. Após 30 anos a instituição ainda não conseguiu preencher mais do que 55% de seu quadro de docentes permanentes, um fator que limita severamente a expansão acadêmica na formação de talentos e a criação de novos cursos alinhados com a realidade  regional e nacional. Além disso, a UENF enfrenta a inadequação de salas de aula e equipamentos didáticos para atender aos desafios contemporâneos de uma educação moderna, juntamente com instalações precárias, ultrapassadas, e como exemplo, banheiros em obras há meses e salas de aula sem refrigeração.

Recentemente, o vice-reitor exaltou os investimentos de R$ 30 milhões em equipamentos de pesquisa, mas a gestão que ele pertence esqueceu que falta transparência quanto à distribuição de recursos na universidade (Aqui!), pois não basta informar os montantes por centro e sim os critérios de distribuição que nunca foram apresentados ou discutidos no CONSUNI.  O vice-reitor também não mencionou os  R$14 milhões investidos em uma obra de acessibilidade cuja relevância e aplicação efetiva dos recursos são questionáveis, nem os R$ 7,5 milhões, em reformas nos telhados que afetaram negativamente várias salas de aula, sem uma avaliação dos impactos durante período de intensas chuvas na cidade (ver imagem abaixo).

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Outra omissão significativa foi quanto ao recurso substancial deixado pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ) para a recuperação das instalações do Arquivo Municipal. Todos estes pontos, foram consultados no portal de transparência da instituição e parece não estar devidamente registrado (Aqui!). Cabe ressaltar, que esta é uma gestão de continuidade e, portanto, embora com 5 meses, não pode alegar desconhecer tais demandas da comunidade.

Embora a sintonia da administração superior da UENF com as redes sociais locais beneficie a imagem pública da instituição, essa percepção “positiva” externa corre o risco de nos distrair das demandas internas críticas, frequentemente destacadas pela nossa comunidade acadêmica. É essencial reconhecer que soluções temporárias podem obscurecer os problemas mais profundos relacionados às condições de trabalho e ao ambiente acadêmico interno.

Os atuais padrões de gastos gerenciados pela atual gestão da Reitoria, não só comprometem o presente, mas também colocam em risco o futuro da UENF – A universidade do terceiro milênio. Uma gestão excessivamente focada em projeções “científicas”, mas agem em detrimento de uma administração prática, estratégica e visionária, que pode deteriorar a qualidade acadêmica e operacional da universidade, prejudicando a formação de recursos humanos qualificados, a sustentabilidade financeira e a reputação da instituição a longo prazo.

Os riscos associados a quebra da liturgia interna com as normas e regulamentações são uma preocupação crescente. A falta de transparência nos registros, critérios e distribuição de recursos e a não observância das práticas de governança adequadas podem resultar em sérios problemas assim como a perda de credibilidade da UENF perante o governo estadual e a sociedade campista. Esse descumprimento pode culminar na desconfiança das partes interessadas, isto é, comunidade acadêmica, estado, órgãos de fomento e a comunidade em geral, comprometendo ainda mais a integridade e o desempenho da universidade. A implementação de políticas de conformidade nos processos não é apenas uma necessidade legal, mas a base essencial para garantir a operação contínua e o sucesso futuro da UENF.

É importante que a administração da UENF adote medidas urgentes para reavaliar e fortalecer seus processos de tomada de decisão com base em critérios transparentes para toda a comunidade acadêmica, porque atualmente a UENF parece um navio à deriva, perigosamente próximo a ter dificuldades em águas turbulentas. Por fim, não podemos permitir que a UENF, continue a ser negligenciada a ponto de enfrentar dificuldades irreversíveis. Cabe a nós, membros da comunidade acadêmica e cidadãos comprometidos com esta instituição, erguer nossa voz e cobrar mudanças imediatas. É momento de agir, de reivindicar um futuro melhor e mais seguro para a UENF, pois o futuro da UENF está em nossas mãos, e vamos juntos salvá-la antes que seja tarde demais.


Carlos Eduardo de Rezende é professor titular do Laboratório de Ciências Ambientais (LCA) do Centro de Biociências e Biotecnologia (CBB) da UENF. Ele também é membro do Conselho Universitário da UENF e  bolsista de produtividade em pesquisa 1A do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Estudo encontra altos níveis de glifosato em amostras de esperma humano

Pesquisa encontrou evidências de impactos no DNA e uma correlação entre os níveis de glifosato e o estresse oxidativo no plasma seminal, um dos fatores mais importantes na fertilidade masculina

espermaIlustração 3D de espermatozoides nadando em direção ao óvulo — Foto: Getty Images 

Por Redação, do Um Só Planeta

Um novo estudo científico conduzido a partir de dados de uma clínica de fertilidade francesa revelou que mais de 55% das amostras de esperma continham níveis elevados de glifosato, o herbicida mais comum do mundo, levantando novas questões sobre o impacto do produto químico na saúde reprodutiva.

O artigo surge num momento em que os investigadores procuram respostas para a razão pela qual as taxas de fertilidade globais estão caindo, e muitos suspeitam que a exposição a produtos químicos tóxicos como o glifosato é um fator significativo do declínio. A nova investigação também encontrou evidências de impactos no DNA e uma correlação entre os níveis de glifosato e o estresse oxidativo no plasma seminal.

O estresse oxidativo “é considerado um dos fatores mais importantes na fertilidade masculina, regulando a vitalidade e a funcionalidade dos espermatozóides dos mamíferos”, escreveram os autores.

O glifosato é usado em uma ampla variedade de culturas alimentares e em ambientes residenciais em diversos países. O produto à base de glifosato mais popular hoje é o herbicida Roundup, que tem estado no centro de batalhas legais e regulatórias nos últimos anos. Uma pesquisa do governo dos EUA de 2023 encontrou genotoxicidade em agricultores com altos níveis do herbicida no sangue, sugerindo uma associação entre ele e o câncer.

Brasil lidera consumo de agrotóxicos, incluindo produtos proibidos na Europa

O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo e dobrou a quantidade dessas substâncias químicas utilizadas nas lavouras do país em pouco mais de uma década: de 360 mil toneladas em 2010 saltou para 720 mil toneladas em 2021.

O país também ocupa o topo do ranking global em termos de uso por área: gastou 10,9 quilos de agrotóxicos por hectare em 2021 – mais do que o triplo dos Estados Unidos (2,8 quilos por hectare) e mais do que o dobro da Itália (5,4 quilos por hectare), segundo dados da FAO (agência da ONU para alimentação).

O glifosato é agrotóxico mais vendido no Brasil. O resíduo autorizado desse herbicida na água potável por aqui é cinco mil vezes maior do que o permitido no bloco europeu.


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Fonte: Um só planeta

Dos pampas à planície, a hegemonia da mentira

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Por Douglas Barreto da Mata

Uma grande discussão nacional (e internacional) se instalou desde que as redes sociais avançaram do entretenimento para a produção de conteúdo “informativo”.  Esse processo já estava em andamento nas mídias empresariais, com o caso clássico do Canal FOX nos EUA, que, rapidamente, virou padrão neste hemisfério.  No caso das mídias digitais, nem sempre foi possível separar as coisas, e a veiculação de “notícias” pareciam mais com shows de variedades (horrores, para ser exato).

De certa forma, esse fenômeno se acelerou e contaminou todas as mídias chamadas tradicionais que, desesperadas pelo derretimento de sua relevância (audiência), correram atrás de formato de veiculação de notícias e conteúdos chamados “informativos”.

Hoje, é possível dizer que tanto a mídia digital alimenta as redes empresariais, quanto o contrário, e esta simbiose, por sua vez, alimenta uma nova disputa:  a hegemonia da mentira.

Os meios de comunicação tradicionais nunca estiveram a serviço de nenhum interesse público, pelo menos não o interesse da coletividade entendido como a representação das demandas reais (e não as inventadas) da sociedade e dos mais pobres, como por exemplo, a luta contra as desigualdades sociais.

Isso não é surpresa, afinal, a mídia empresarial, como o nome mesmo diz, é constituída de empresas que visam o lucro, mas também têm por como objetivo principal sustentar ideologicamente o sistema que permite e amplia sua existência, o capitalismo.

A mídia sempre mentiu, seja em debate presidencial em 1989, seja no caso Escola Base ou Bar Bodega, seja em tantos outros episódios de “condenações” apressadas, injustas e ilegais, funcionando como um tribunal inquisitório, onde as edições “prendem, processam, julgam e executam sentenças”.

O caso da farsa jato é só o mais recente.

Essa natureza intrínseca da mentira também é comum às mídias digitais, originadas a partir de plataformas gigantescas, que espreitam para engolirem as últimas formas de mídias consideradas tradicionais. Tudo se acentua com o avanço de outra forma de digitalização, neste caso a econômica, através do avanço de fundos de investimentos que movimentam trilhões e trilhões de dólares irresistíveis.

Se antes havia pouca chance de que algum conteúdo fosse de interesse social e público, de verdade, com um ou outro canal de comunicação que ousasse resistir, hoje é quase impossível.  A migração da comunicação do universo dos espaços de concessão para o território da internet é um duro golpe na capacidade estatal de controlar e regulamentar estes meios, e isso parece fácil de identificar, não só nas bravatas no imbecil cretino Elon Musk, como nos efeitos reais do poder e monopólio econômico de sua empresa e de outras do setor, que sequestram e ameaçam bloquear dados e acessos necessários, inclusive, a gestão estatal.

Vale a pena mencionar as graves intervenções em processos eleitorais, como o dos EUA, ou do Brasil, e, de fato, essas intervenções também se deram pelas mídias tradicionais.  A chamada liberdade de imprensa ou de expressão, agora sem controle algum, como sempre advogaram as elites e seus lacaios da mídia, colocam parte dessas elites e os seus jornalistas de coleiras sob um regime de medo. 

Mas não se enganem, não haverá nenhum pobre ou trabalhador beneficiado dessa luta. Nem há uma luta sincera para que haja um controle social capaz de beneficiar a toda sociedade, e não só a parte endinheirada dela. O que se pretende é o controle da fábrica de inverdades.

É uma disputa pela primazia de distorcer, mentir e colocar nas cordas qualquer governo ou representação que, de forma pálida, estabeleça uma agenda um pouco mais progressista.  Alguém disse, e não me recordo ontem, que esse é o “totalitarismo democrático capitalista”, o ápice do controle, onde você escolhe dentre as possibilidades que já determinaram antes.

Lá nos pampas alagados, as redes digitais têm uma tabela forte com as mídias empresariais.

Enquanto as redes digitais fazem o trabalho mais bruto, mas porco de saturar a audiência com boatos e imagens falsas, o sistema de comunicação concedido (TV) e outros geram conteúdos um pouco mais sofisticados, mas que, sem dúvida, são complementares aos boatos grotescos, como o helicóptero da empresa de varejo em salvamento dos atingidos.

Você pergunta:  mas como uma coisa tem a ver com a outra?  Explico: a construção da narrativa dos pampas alagados, o gauchoquistão, é levar a crer que o Estado, ou os poderes constituídos não fazem nada pelos desabrigados.

Junto a esta imagem, um governador impotente, pedinte, chorão, exaltando os voluntários (privados), e ignorando os esforços de centenas e centenas de servidores públicos, de todos os cantos do país, e a montanha de recursos federais que receberá, enquanto pede mais e mais.

Bem, no meio de tudo, a mídia esconde, criminosamente, o debate sobre as causas do desastre, o setor agro, o setor industrial e os fundamentalistas que militam contra as leis ambientais e licenciamentos, enfim, o pessoal do “passa boi, passa a boiada”, que obtiveram do governador chorão a “licença para devastar” o bioma do gauchoquistão, e fazer com que afundasse nos charcos.

Esse discurso casa perfeitamente com a boataria das redes sociais, que distraem a choldra, enquanto incutem as noções mais caras ao jornalismo mais sofisticado, mas igualmente criminoso, e vice-versa, pois, como dissemos, são complementares.

Voando até a planície campista, a indústria midiática também faz das suas.  Com o início das eleições, ou pelo menos, do período pré-eleitoral, as redes digitais e televisivas afiam as garras e o apetite.  É a hora que governantes e postulantes ao governo, parlamentares e candidatos a sê-lo ficam mais frágeis.

Não é novidade que há dois grupos políticos em disputa na cidade, e cada um com seu tratamento de mídia, com suas equipes.  A tarefa dos comunicadores do governo parece ter sido mais bem sucedida, tanto pela gestão que resultou na aprovação do Prefeito Wladimir Garotinho, como pela própria capacidade dele mesmo (o prefeito) em se veicular, a partir de suas redes sociais.

A luta dos oposicionistas parece mais inglória.  Um dos profissionais envolvidos, que já fez parte de um veículo local, pode-se dizer um azarado.  Afinal, ele, Alexandre Bastos, foi Secretário de Comunicação do pior governo da história de Campos dos Goytacazes, e isso logo depois desse governo ter sido eleito com uma votação acachapante, e ter derrubado o candidato da família Garotinho. Do céu ao inferno em quatro anos, podemos dizer.

Como prêmio, Bastos, que todos dizem ser uma boa pessoa, simpático e de trato pessoal polido, ganhou um cargo na Assembleia Legistativo do Rio de Janeiro (Alerj), para cuidar da comunicação do atual presidente Rodrigo Bacellar.  Pois bem, novamente, que azar.  O presidente da Alerj está perto da cassação, porém isso não pode ser, totalmente, imputado ao Bastos. 

Já na cidade de Campos dos Goytacazes a coisa aperta mais um pouco.  Mesmo sem vínculo institucional, é pública e notória a liderança do presidente da Alerj, que subordina seu irmão presidente da Câmara local, e escalado para ser o antagonista principal do prefeito Wladimir. 

Por óbvio, a estratégia de comunicação fica a cargo de Bastos, que controla, direta ou indiretamente, alguns canais digitais, e indiretamente, através da influência sobre a TV e outras mídias, manejando as verbas publicitárias generosas que foram colocadas à disposição dele.

É aí que a porca torce o rabo.  O resultado é pífio, hoje o presidente da Câmara está menor que ao assumir a presidência, e o grupo político que representa patina, fazendo leilão de candidaturas ou melhor, um ENEM de candidatos, que insistem em não se mostrarem viáveis.

O  uso dos truques conhecidos, com distorção e manipulação só parecem funcionar em ambientes e conjunturas específicas, e aqui em Campos dos Goytacazes não deram, até o momento, resultado.

Um exemplo:  hoje, dia 18/05/2024, no telejornal da repetidora da Globo, na hora do almoço, os âncoras chamaram uma matéria sobre um veículo aéreo não tripulado, “drone”, que custou a quantia “X”, e deveria ser usado pela Defesa Civil em desastres naturais, e que, embora licitado e contratado, não foi entregue. Sugestão da matéria ao espectador:  a prefeitura pagou e não levou. 

Porém, isso foi desmentido no curso da reportagem, quando soubemos que o material não foi entregue, mas não foi pago, e a empresa só receberá mediante apresentação, enquanto a municipalidade adota medidas jurídicas para a infração contratual.

Funciona? Em alguns casos sim, mas não tem funcionado.

Assim como a desesperada utilização dessa mesma rede de TV, junto com o sítio de um jornal local, para alavancar o interesse da população pelas ações da DEAM, elevando casos diários de violência contra mulher e violência doméstica ao grau de interesse máximo.

São assuntos importantes e necessários?  Óbvio, mas a pergunta é: não foram sempre? Por que o repentino interesse?

Ora, o arranjo aqui é a tal da mensagem subliminar (na certa os comunicadores modernos têm um anglicismo para isso), quando a mídia destaca um assunto, e depois, por milagre, esse assunto é vinculado a um produto, neste caso o produto é a candidatura da ex titular da Delegacia da Mulher (DEAM).

Um olhar rápido, na página do jornal, mostrará que o assunto DEAM/violência doméstica, em certos dias, têm três matérias acumuladas, de cima a baixo na “geografia do site”, desde as chamadas em destaque, para os leitores de manchetes, até o pé da página, onde vão os leitores mais atentos.

Neste caso, da violência contra mulher, há um dado curioso e grotesco. Essas mesmas redes de comunicação, que fazem uma blitz sobre o tema, diariamente, parecem ter um olhar seletivo (como sempre?).

Onde está o acusado de assédio sexual contra as colegas em ambiente de trabalho, que até bem pouco tempo comandava este mesmo telejornal, e não raras vezes se mostrou indignado contra abusadores e agressores?

É este tipo de hipocrisia que parece ter subtraído a legitimidade, “o lugar de fala” dos comunicadores da oposição que, até hoje não se explicaram porque apoiaram o pior governo da História (como se não fosse com eles), e porque insistem em reeditar essa aliança retrógrada para destruir o que foi recuperado.

Como diz a propaganda famosa de uma montadora italiana: “está no hora de (Bastos) rever seus conceitos”.

O CCH como canário da mina: incêndio é alerta para a Uenf adotar medidas de segurança básicas

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Incêndio em sala de secretaria causou pânico e danos materiais no CCH/Uenf

Passei quase 7 anos em espaços de ensino e pesquisa nos EUA onde os cuidados com a segurança dos prédios era muito forte. No Laboratório Nacional de Oak Ridge que realizava pesquisas até com radiação nuclear tinhamos que passar por treinamentos rotineiros de saída organizada dos prédios para casos de incêndios e acidentes químicos.  Na Virginia Tech onde realizei o meu doutorado havia uma brigada de incêndio que tinha capacidade superior à da cidade de Blacksburg onde fica o campus principal da universidade.

Passados mais de 26 anos desde que cheguei na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), eis que ao longo do tempo cumpri o papel de Cassandra, oferecendo avisos que na maioria dos casos são solenemente ignorados, pois tal como a Cassandra original sou visto com um profeta das coisas em que ninguém acredita.

Pois bem, uma das coisas que sempre me vem à cabeça é que na Uenf somos todos muito sortudos porque vivemos riscos diários como se eles não existissem, nos tornando naquele violanista que insistia em tocar seu instrumento enquanto o Titanic afundava. Por exemplo, a instituição, ao contrário da Virginia Tech, não possui nem uma brigada de incêndios ou uma Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA). Além disso, há alguns anos, após o roubo de algumas mangueiras de incêndio, algum sábio dirigente decidiu que o problema seria resolvido retirando todas as que sobraram dos locais em que deveriam estar.  Além disso, há alguns atrás constatei que a maioria dos extintores estava vencida e que ninguém havia sido treinado para fazer uso daqueles que ainda estivessem funcionais.

Não posso esquecer da instalação de grades de ferro após alguns furtos pontuais de computadores em que um diretor do Centro de Ciências do Homem (CCH) decidiu instalar grades de ferro nos dois andares para impedir que os computadores roubados pudessem ser movidos sem que isso fosse percebido. Na época disse ao emérito dirigente que ele estava nos condenando a não estar vias de escapa caso um incêndio acontecesse no prédio.  Como uma boa Cassandra, fui ignorado e as grades permaneceram e acabaram normalizadas como se não oferecessem qualquer risco para a segurança de professores, estudantes, servidores técnicos e trabalhadores terceirizados.

O problema é que na mitologia grega, como na vida real, algumas profecias funestas acaba trazendo um quê de acerto. E eis que na noite de ontem, um incêndio destruiu completamente a sala que abriga a secretaria do Laboratório de Estudos da Educação e Linguagem (LEEL), responsável principal pelo funcionamento do curso de Pedagogia, cujas aulas são majoritariamente oferecidas no período norturno.  A falta de alarmes e a inexistência de sinalização para a evacuação do prédio acabou resultando em um cenário caótico em que professores estudantes acabaram saindo de forma completamente desorganizada do andar onde o incêndio ocorreu, mostrando um despreparo que poderia ter sido fatal (ver vídeo abaixo).

Uma rápida visita à sala incendiada me deixou com a impressão de que a Uenf ontem passou muito perto de uma tragédia, pois felizmente o fogo não se espalhou e a ação do Corpo de Bombeiros foi rápida e eficiente, contendo o incêndio no seu ponto de origem. Mas uma rápida olhada no que sobrou do que estava na sala incendiada indica que realmente passamos muito perto de algo muito sério, especialmente em função do despreparo institucional com o quesito segurança (ver imagens abaixo).

Há ainda que se observar que o CCH é o prédio de menor risco, pois não possuímos produtos químicos capazes de gerar explosões, como é o caso de diversos prédios que abrigam laboratórios que utilizam esses insumos em suas pesquisas Nesse sentido, esse incêndio tornou o CCH uma espécie de canário na mina, pois mostra que a possibilidade de grandes incêndios não se trata apenas de uma profecia de Cassandra.

E agora, o que fazer?

Certos acontecimentos servem como alertas para que medidas procrastinadas por uma mensuração equivocada dos riscos sejam finalmente adotadas.  Como já conversei informalmente com a reitora da Uenf, professora Rosana Rodrigues, esse incêndio coloca a instituição diante da necessidade de ações emergenciais, a começar pela criação de uma brigada de incêndios devidamente equipada e treinada.  Além disso, há que se retomar o funcionamento efeito de uma CIPA, de forma a que se identifiquem as áreas de maior necessidade para ações preventivas.

Mas há também que se instalar sistemas de alarme e orientação para todos os prédios, de modo a que na repetição do que aconteceu no CCH, a resposta seja mais rápida e efetiva, de modo a que se evite o pior cenário que envolveria grande destruição de estruturas e mortes de membros da comunidade universitária.

Recentemente, a Assessoria de Comunicou divulgou e a mídia corporativa campista repercutiu uma nota em que a reitoria da Uenf divulgava gastos de R$ 30 milhões com equipamentos de pesquisa. Se tivéssemos veículos de imprensa de verdade, a pergunta que teria sido feita à reitora da Uenf é de qual teria sido o investimento em medidas de segurança que haviam sido adotadas para proteger esse patrimônio e aqueles que realizam suas pesquisas neles. A resposta mais provável é que o gasto na área de segurança teria sido zero, o que explicitaria o desequilíbrio de investimentos. Afinal, como dizia Darcy Ribeiro, o que faz uma universidade ser grande não são prédios novos ou equipamentos caros, mas as pessoas que trabalham nela. Nesse sentido, a proteção das pessoas deveria ser, e claramente não tem sido, a prioridade máxima.

A minha expectativa é que as ações necessárias recebam o grau de urgência que elas exigem. Do contrário, não me restará nada a mais a fazer a não ser continuar cumprindo o papel de Cassandra. Pelo menos assim, ninguém poderia fingir ignorância.

Para tristeza da Syngenta, Califórnia avança com planos para proibir o Paraquat

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Por Carey Gillamo para o “The New Lede”

A Califórnia deu um passo mais perto de proibir o polêmico paraquat, uma grotóxico que mata ervas daninhas, depois que um importante comitê legislativo estadual permitiu na quinta-feira que a medida prosseguisse.

A proibição entraria em vigor em 1º de janeiro de 2026, proibindo o “uso , fabricação, venda, entrega, detenção ou oferta para venda no comércio” de qualquer agrotóxico que contenha paraquat. O projeto de lei prevê um processo que permite aos reguladores estaduais reavaliar o paraquat e potencialmente reaprová-lo com ou sem novas restrições.

A principal preocupação citada pelos defensores do projeto de lei é a pesquisa que liga a exposição crônica ao paraquat à doença de Parkinson, uma doença cerebral incurável e debilitante considerada uma das principais causas de morte nos Estados Unidos.

Vários milhares de agricultores, trabalhadores agrícolas e outros estão processando a fabricante de paraquat Syngenta, alegando que desenvolveram Parkinson devido aos efeitos crônicos de longo prazo do paraquat.

“A Califórnia é o celeiro da nação. Os trabalhadores agrícolas colocam comida na nossa mesa e devemos fazer tudo o que pudermos para tornar os seus empregos mais seguros”, disse Laura Friedman, deputada da Califórnia. “Ninguém deve correr o risco de exposição química no trabalho, levando à contração da doença de Parkinson.”

Friedman, que fez parceria com o Grupo de Trabalho Ambiental (EWG) para introduzir a medida, disse que ela foi aprovada “não apenas porque proibir o paraquat é a coisa certa a fazer”, mas também porque existem “alternativas prontamente disponíveis, mais seguras e acessíveis”.

A retirada do projeto de lei do comitê de dotações esta semana agora o prepara para votação pelo plenário da Assembleia na próxima semana. A votação deve ser concluída até sexta-feira, 24 de maio, para que a medida seja encaminhada ao Senado estadual para apreciação. É necessária uma maioria de 80 membros da Assembleia para manter o projeto de lei vivo.

Registros secretos da Syngenta  

O paraquat é um dos herbicidas mais amplamente utilizados no mundo. Os agricultores utilizam-no tanto para controlar ervas daninhas antes de plantar as suas culturas como para secar as culturas para a colheita. Nos EUA, o paraquat é usado em pomares, campos de trigo, pastagens onde o gado pasta, campos de algodão e outros lugares.

A Syngenta fabrica e vende paraquat há mais de 50 anos e afirma que as evidências científicas não apoiam uma ligação causal entre o paraquat e a doença de Parkinson.

A Syngenta afirma em seu site que se os usuários seguirem as instruções e usarem roupas de proteção adequadas, incluindo luvas e botas, “não há risco para a segurança humana”. O paraquat “não representa um risco de neurotoxicidade” e “ não causa a doença de Parkinson ”, afirma a empresa.

Ao defender o projeto de lei, no entanto, o gabinete de Friedman citou documentos internos da Syngenta descobertos pelo The New Lede em colaboração com  o The Guardian, mostrando que a Syngenta tem conhecimento há muito tempo de pesquisas científicas que mostram ligações entre o paraquat e a doença de Parkinson. Esses documentos, relatados numa série de artigos, revelaram anos de esforços empresariais para encobrir provas de que o paraquat pode causar a doença de Parkinson. 

Os  documentos  obtidos pelo The New Lede também mostraram evidências de esforços para manipular e influenciar a EPA, bem como a publicação de literatura científica que apoia a segurança do paraquat. Os documentos também mostram como a empresa trabalhou para enganar o público sobre os perigos do paraquat, entre outras estratégias secretas.

Taxas de Mal de Parkinson estão subindo

Aproximadamente 60.000 americanos são diagnosticados todos os anos com o Mal de Parkinson e, nos últimos anos, esta doença  foi classificada  entre as 15 principais causas de morte nos Estados Unidos, de acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças. Além disso, a taxa de mortalidade por Mal de Parkinson aumentou mais de 60% nos Estados Unidos nas últimas duas décadas,  segundo pesquisas . 

Apesar das alegações de segurança da empresa, dezenas de países proibiram o paraquat, tanto por causa dos perigos agudos como devido às evidências crescentes de ligações a riscos para a saúde, como o Mal de Parkinson, decorrentes da exposição crónica a longo prazo. Atualmente, a Syngenta ainda vende produtos de paraquat em mais de duas dúzias de países 

O paraquat foi proibido na União Europeia em 2007 depois que um tribunal concluiu que os reguladores erraram ao descartar preocupações de segurança, incluindo evidências científicas que ligavam o Mal de Parkinson ao paraquat.  O paraquat também é proibido no Reino Unido, embora seja fabricado lá. O produto químico foi proibido na Suíça, país de origem da Syngenta, em 1989. E é proibido na China, sede da ChemChina, que  comprou a Syngenta há vários anos.

O especialista em neurologia Timothy Greenamyre , que dirige o Instituto de Doenças Neurodegenerativas de Pittsburgh, disse acreditar que “não há dúvida” de que o paraquat causa Parkinson e que o paraquat deveria “ser absolutamente banido” nos Estados Unidos.

Existem fortes dados de estudos em animais e fortes evidências epidemiológicas que apoiam a associação causal, bem como o mecanismo de ação relevante, disse ele.

“O paraquat causa degeneração seletiva precisamente daqueles neurônios que degeneram no Mal de Parkinson (dentre bilhões de outros neurônios); não causa neurodegeneração aleatória ou não seletiva”, disse Greenamyre. “Da mesma forma, a exposição ao paraquat causa acúmulo e agregação da proteína exata (entre milhares de outras), a alfa-sinucleína, que define a patologia do Mal de Parkinson. Neste contexto, a capacidade do paraquat, em qualquer dose, de modelar estas características da doença fornece um apoio convincente para o seu papel na ocorrência do Mal de Parkinson

A Califórnia tem um histórico de agir mais rapidamente do que a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) na restrição de agrotóxicos que têm sido associados a sérios problemas de saúde no processo de investigação científica.

Depois que a EPA não conseguiu seguir os planos de proibir o inseticida clorpirifós em 2017, por exemplo, a Califórnia anunciou sua própria proibição em 2019. O estado citou evidências de que o clorpirifós “está associado a graves efeitos à saúde em crianças e outras populações sensíveis em níveis mais baixos”. de exposição do que o anteriormente compreendido, incluindo comprometimento do desenvolvimento cerebral e neurológico”.

A EPA assumiu a posição de que as evidências são “insuficientes para vincular a exposição ao paraquat proveniente do uso de agrotóxicos aprovados nos EUA ao Mal de Parkinson em humanos”.


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Fonte: The New Lede

Entrevistas com funcionários da fábrica refutam as promessas de Shein de fazer melhorias

Dois anos após a nossa investigação pioneira sobre as fábricas da Shein no sul da China, uma investigação de acompanhamento destaca o valor da retórica de sustentabilidade do gigante da moda online. As horas de trabalho ilegais e os salários por peça continuam a ser uma característica típica da vida quotidiana dos trabalhadores entrevistados. Daí a dúvida lançada sobre uma auditoria de fábrica encomendada por Shein. A empresa de moda ultrarrápida, que tem estado sob pressão, também levanta suspeitas devido às suas finanças opacas e porque o seu fundador desapareceu de cena.
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“Trabalho todos os dias das 8 da manhã às 10h30 da noite e tiro um dia de folga por mês. Não posso me permitir mais dias de folga porque custa muito caro.” Esta afirmação foi feita por um homem que trabalha com máquinas de costura há mais de 20 anos e, no momento das entrevistas, fazia as costuras dobradas particularmente visíveis para os produtos Shein por peça. Os nossos parceiros de investigação conversaram com ele e com outros 12 trabalhadores têxteis que trabalham para fornecedores do grupo de moda chinês no final do verão de 2023. As entrevistas foram realizadas em instalações de produção localizadas a oeste da vila de Nancun, mas ainda na área metropolitana de Guangzhou, no sul da China.

Visão geral da investigação de acompanhamento

Período da pesquisa: final do verão de 2023.
Entrevistados: 13 funcionários (7 mulheres, 6 homens) com idades entre 23 e 60 anos.

Seis fábricas: Parque Industrial Chen Bian Garment, Parque Industrial Yuangang, Li Village, Zhi Village e Parque Industrial Tangxi. Todos eles estão localizados no distrito de Panyu, em Guangzhou, na província de Guangdong, China.

Ao contrário de algumas outras empresas de moda, a Shein não revela seus fornecedores. Os processos de produção da Shein foram estabelecidos com base nas respostas dos entrevistados e nos produtos Shein visíveis durante a fabricação.

Na própria Nancun, onde está localizada a sede da Shein e onde as entrevistas para o nosso relatório “ Trabalhando para a Shein ” ocorreram dois anos antes, a atmosfera era muito arriscada para realizar quaisquer entrevistas de acompanhamento significativas . Os meios de comunicação acompanharam nossa investigação e se aprofundaram neste assunto, o que colocou o lado negro do brilhante mundo digital de Shein no centro das atenções em todo o mundo, exercendo assim forte pressão sobre a empresa em rápida expansão para se justificar.

Trabalhadores costurando roupas para Shein. 2023, Cantão. ©anônimo

Semana de 75 horas ainda é a norma

Os seis locais de produção visitados nesta ocasião incluíam, na sua maioria, pequenas oficinas que empregavam entre 40 e 80 trabalhadores, mas também incluíam duas fábricas maiores com até 200 trabalhadores. Em ambos os casos, os entrevistados afirmaram trabalhar em média 12 horas por dia – sem intervalos para almoço e jantar – pelo menos seis, mas geralmente até sete dias por semana. Descobriu-se que uma empresa fechava oficialmente à noite – mas apenas às 23 horas. A horrenda carga de trabalho mencionada pelo trabalhador citado acima parece continuar a ser a norma. Em outras palavras, as semanas de 75 horas que descobrimos há cerca de dois anos ainda parecem ser comuns na Shein. Na sua resposta detalhada* a esta descoberta e às nossas perguntas, a empresa afirmou que “as longas horas de trabalho são um problema bem conhecido e de longo prazo”. De acordo com o seu Código de Conduta para fornecedores, estes não devem trabalhar mais de 60 horas semanais (incluindo horas extras). Sem falar que os funcionários deveriam ter pelo menos um dia de folga por semana.

Em relação aos salários, também quase não houve alterações, segundo os entrevistados. Eles forneceram números de ganhos semelhantes aos do relatório de 2021. Dependendo da fábrica, da estação e do nível de especialização (e incluindo apenas horas extras excessivas!), os salários dos trabalhadores comuns flutuam entre 6.000 e 10.000 yuans por mês (equivalente a CHF  4.260,00-7.100,00), embora haja fortes flutuações sazonais e o salário ainda depende do número de itens produzidos.

Qualquer pessoa com quase 30 anos ainda é considerada jovem para trabalhar na produção desses fornecedores da Shein. Isso ocorre porque eles precisam ter bastante experiência profissional para lidar com pequenas quantidades e padrões em constante mudança. É por isso que especialistas como o mencionado anteriormente, especializados em pontos de cobertura, às vezes recebem mais de R$ 7.100,00 por mês. Outros costureiros relataram salários entre R$ 4.260,00 e  R$5.700,00 yuans, enquanto os verificadores de qualidade relataram cerca de R$ 4.970,00

Céu noturno acima de Guangzhou. ©panoramas

Auditoria obscura e “que tal” flagrante

Após a nossa investigação pioneira publicada em meados de novembro de 2021, o recém-contratado gestor de sustentabilidade de Shein garantiu aos meios de comunicação que a sua empresa estava a levar a sério as terríveis descobertas. No entanto, a empresa reagiu explicitamente somente depois que “ Inside the Shein Machine ” foi transmitido pelo Canal 4, um ano depois. A resposta da empresa a esta reportagem investigativa da TV também mencionou uma auditoria destacando que tudo era completamente diferente e muito melhor nas fábricas da Shein em Guangzhou. Isto despertou a nossa curiosidade e deu o ímpeto para estas entrevistas de acompanhamento. Especificamente, a “Auditoria de investigação salarial de fábrica de fornecedores” encomendada no início de 2022 afirmou que os salários pagos pelos fornecedores Shein no sul da China estavam acima da média. Isto é o que diz o conciso  resumo online do relatório. Para nos permitir compreender como se chegou a esta conclusão, pedimos primeiro a Shein e depois às três organizações de auditoria SGS, TÜV Rheinland e Intertek, que realizaram a auditoria em conjunto, que nos permitissem ver o relatório completo – mas sem sucesso.

O resumo online parece mais uma mensagem reativa de relações públicas do que uma análise profissional. Isto não se deve apenas à escassez de detalhes, mas principalmente à falta de dois elementos-chave, sem os quais uma auditoria salarial simplesmente não faz sentido. Em primeiro lugar, não há menção ao horário de trabalho. Quando indagamos mais, Shein confirmou que os salários cotados eram os valores totais pagos. No entanto, avaliar o rendimento auferido sem ter em conta as horas trabalhadas é tão significativo como medir a velocidade numa corrida com cronómetro, mas sem referência à extensão do percurso. E, no entanto, o que foi criticado foi e é precisamente o horário de trabalho excessivamente longo e – também segundo a lei chinesa – ilegal suportado. Ignorar completamente esta questão principal e referir-se, em vez disso, a níveis salariais supostamente acima da média é “que tal” na sua forma mais pura.

A segunda deficiência da auditoria é a falta de menção ou ocultação dos salários mais baixos. No entanto, eles – e não, por exemplo, o salário médio – seriam o indicador mais relevante de potenciais violações de direitos e da ameaça de pobreza. O fato de esses dados terem sido coletados é sugerido pela primeira, mas agora excluída, versão do resumo online de Shein. Esta versão mencionava montantes salariais específicos, mas em cada caso apenas os mais elevados, não os mais baixos.

Uma investigação salarial posterior, que também foi publicada apenas como  resumo , destaca, entre outros pontos, que o pagamento de horas extras representa em média 37 por cento dos salários pagos, o que é uma proporção enorme.

Cotações e relatórios de CSR excluídos

Isto pode explicar por que as três empresas de auditoria retiraram do site mencionado os elogios que faziam ao seu cliente. Afirmou: “A Shein assume claramente a sua responsabilidade em garantir que os trabalhadores empregados pelas fábricas dos seus fornecedores recebam salários justos pelo trabalho concluído”. 

Esta suposta citação foi excluída do site de Shein. (Captura de tela do site de Shein)

Desde o início de 2023, resta apenas uma captura de tela desta citação. Durante a investigação, Shein não conseguiu explicar por que o documento desapareceu do site. Enquanto isso, a TÜV Rheinland disse que “nunca emitiu ou aprovou tal declaração”. Tal como a SGS e a Intertek, esta empresa realiza milhares de auditorias deste tipo todos os anos para todos os tipos de clientes e é um dos fornecedores líderes nesta indústria controversa. É controverso porque as auditorias sociais não são transparentes e muitas vezes não detectam adequadamente problemas genuínos que afetam os locais de trabalho. É por isso que são frequentemente utilizados como folha de figueira para encobrir, especialmente pelas empresas têxteis.

Os dois relatórios de sustentabilidade anteriores também foram removidos do site da Shein. O primeiro parecia ser uma reacção precipitada ao escândalo das 75 horas, enquanto o segundo, publicado em meados de 2023, era mais detalhado, mas não reconheceu o enorme problema das horas extraordinárias – muito menos forneceu detalhes de medidas específicas para o remediar. Segundo Shein, uma “redesenho” da seção relevante de seu site causou essa exclusão.

Mas voltando a Guangzhou. Alguns entrevistados observaram um aumento significativo no número de câmeras de vigilância instaladas dentro e no entorno dos fornecedores. Eles acreditavam que as imagens são encaminhadas à Shein em tempo real para permitir que a empresa faça cumprir seus regulamentos. Uma delas é a proibição do trabalho infantil. Estávamos em férias de verão quando realizávamos as nossas entrevistas e também podíamos ver crianças e jovens nas oficinas. A babá costumava ser realizada no local de trabalho, especialmente nas pequenas empresas não regulamentadas. Os adolescentes, que tinham 14 ou 15 anos, segundo estimativas dos investigadores, realizavam tarefas simples, como embalar, ou sentavam-se eles próprios nas máquinas de costura, instruídos pelos pais, presumivelmente para aprenderem o seu ofício. Ainda não está claro se eles foram pagos para isso. Shein sublinha a sua “estrita tolerância zero” para o uso de trabalho infantil e promete financiar 25 creches neste ano. Em 2023 já montaram 10 desses locais. Shein também nega qualquer acesso às imagens da câmera de vigilância.

Grande risco de incêndio e alterações não pagas

Com base nas observações feitas durante a investigação, a proibição oficial de fumar também não é aplicada. Os investigadores encontraram trabalhadores com cigarros acesos nas escadas e até nas entradas dos armazéns de tecidos. O fato de a maior parte dos produtos e restos de tecido terem sido simplesmente empilhados no chão aumenta o risco de incêndio. Segundo os entrevistados, apenas os equipamentos de trabalho e as rotas de fuga são verificados durante as inspeções esporádicas nas fábricas, mas não o cumprimento da proibição de fumar.

Mais temidos entre os costureiros do que estas inspeções são os controles de qualidade aparentemente rígidos, o que é bastante surpreendente para um fabricante de moda de baixo custo como a Shein. Se a qualidade não corresponder às expectativas da empresa, pode custar caro. Um supervisor de verificação de qualidade afirmou que sua empresa seria “punida” com o cancelamento de um pedido para cada lote defeituoso. E qualquer costureiro cujo trabalho não esteja à altura (e que possa ser facilmente identificado pelas pequenas encomendas) tem que fazer alterações sem remuneração, segundo os entrevistados. “Quem comete o erro é responsável por corrigi-lo. Você tem que resolver o problema no seu horário de trabalho”, explica um supervisor de 50 anos. Uma pessoa mencionou que controladores de qualidade descuidados teriam até que pagar uma multa entre 300 e 1.000 yuans, dependendo da condição do lote defeituoso. Esta prática provavelmente aumentará significativamente a pressão sobre a força de trabalho, que já é remunerada apenas de acordo com a quantidade de itens produzidos.

O modelo de fornecimento da Shein em Guangzhou parece ser voltado para empresas menores, que tradicionalmente produzem mais para o mercado chinês. O grupo anuncia essas empresas em feiras e em um site especial, mencionando que não é necessária experiência em exportação.

Fast fashion de avião. Shein recruta novos fornecedores em seu site. (Captura de tela do site de Shein)

Embora as expectativas de moda de baixo custo em termos de qualidade no mercado interno correspondam ao preço, a Shein aparentemente quer impor padrões mais elevados para o mercado internacional – provavelmente para se livrar da má reputação dos seus produtos . Mas se você espera que o trabalho seja executado com cuidado, você precisa reservar tempo para isso e pagar preços correspondentemente mais altos aos fornecedores. A Shein impõe exigências rigorosas não apenas aos seus costureiros, mas também a outros  prestadores de serviços . Por exemplo: os fotógrafos devem ser capazes de capturar de 70 a 80 estilos em uma sessão fotográfica de oito horas, quatro a cinco vezes por semana; os modelistas devem entregar mais de 20 rascunhos exclusivos por mês; e os editores de retoque de imagens devem recolorir 90 fotos por dia. Então, se você está se perguntando como a Shein pode lançar tantos produtos novos: tudo se resume a um trabalho por peça em todos os níveis.

Fundador desaparecido e vendas misteriosas

Shein também continua a mostrar falta de transparência sobre sua estrutura, lucros e proprietários. Tem presença no mercado em mais de 150 países, 19 escritórios com 11.000 funcionários e parcerias com 4.600 designers e mais de 5.000 fornecedores: estes são os escassos números da empresa que aparecem no seu site. Para uma empresa global que supostamente se prepara para um  IPO e que, segundo a  Bloomberg , valeu 45 mil milhões de dólares em Janeiro deste ano, estes são poucos factos preciosos.

É por isso que também atualizamos a nossa  análise de 2021 da complexa estrutura do Grupo. Como já ficou evidente na época, a Roadget Business em Cingapura tornou-se agora a sede global.  

A estrutura de grupo atualizada de Shein em 2024.

Segundo dados do registo comercial, este ainda é propriedade da Beauty of Fashion Investment. Mas ainda não está claro quem é o dono desta empresa, que está registrada nas Ilhas Virgens Britânicas. De acordo com o registro de lobby dos Estados Unidos  , o fundador da Shein, Xu Yangtian, tem uma participação de 37 por cento no grupo, mas também não está claro se esta é detida na Beauty of Fashion ou em outra empresa offshore.

E depois a surpresa: Xu, que ainda atua como CEO de acordo com vários  relatos da mídia , deixou o Conselho de Administração da Roadget já em março de 2023. Isso é confirmado por documentos do Registro Comercial de Cingapura. No entanto, Shein nunca deu publicamente qualquer razão para a retirada de uma figura estratégica importante. Leonard Lin Zhiming e o cofundador Gu Xiaoqing agora gerenciam as principais subsidiárias no lugar do lendário patrono Shein. E há novas subsidiárias surgindo o tempo todo. Uma delas é a Fashion Choice, que foi fundada em outubro de 2021 e também realiza vendas na Suíça.

Os números do volume de negócios do grupo aninhado de empresas são igualmente vagos. Os relatórios anuais das subsidiárias à nossa disposição mostram que, em 2022, a Shein gerou vendas combinadas de 13,8 mil milhões de dólares nos três principais mercados da União Europeia, dos EUA e do Reino Unido. Este valor é significativamente inferior à estimativa de receitas totais fornecida pelo  Financial Times para esse ano (22,7 mil milhões de dólares), com base numa apresentação confidencial aos investidores. A Shein realmente gera um volume de negócios tão grande no resto do mercado global? Ou será que os números elevados que têm circulado têm algo a ver com o planeado IPO? Segundo  relatos do final de Fevereiro, isto poderá não acontecer em Wall Street, mas sim em Londres, ao contrário do que foi originalmente planeado.

Os políticos estão alarmados, mas (ainda) não tomaram nenhuma atitude

A falta de mudança em termos de horas extraordinárias excessivas e outras conclusões das nossas investigações indicam: Shein só assumirá mais responsabilidade social quando sujeita a pressão externa. Um IPO forçaria a empresa de moda descartável a tornar-se mais sustentável? Dificilmente. Os recentes investimentos de milhares de milhões de dólares mostram que ainda há apoiantes suficientes que vêem o modelo de negócio da Shein como uma oportunidade de lucro e que não consideram o greenwashing como um risco de investimento.

Contudo, os parlamentos e os governos dispõem da alavanca mais eficaz para remediar as queixas acima destacadas. Na altura da nossa investigação pioneira em 2021, Shein ainda era uma estrela relativamente nova e muito brilhante neste setor. Três anos depois, os políticos já não podem ignorar os problemas causados ​​por este grupo – também porque Temu seguiu agora os passos online de Shein, oferecendo uma gama ainda mais ampla de produtos de baixo custo. Na verdade, várias iniciativas introduzidas na França , na UE, nos Estados Unidos e também  na Suíça reflectem o alarme sentido pelos legisladores. Mas será que eles também têm coragem de finalmente colocar as empresas de fast fashion em seu lugar? E não apenas aprovando uma fraca “Lex Shein” para manter afastado o concorrente de baixo custo da China para proteger a indústria da moda, que está sob pressão, mas tomando medidas eficazes. Porque o que precisamos é de uma indústria da moda onde ninguém tenha mais que costurar roupas 12 horas por dia – roupas que primeiro voam ao redor do mundo e depois acabam no lixo, quase sem serem usadas.

* Para garantir transparência e boa legibilidade, fornecemos o e-mail de resposta completo de Shein em um documento separado .

Imagem 1: A imagem da capa foi tirada da pesquisa Public Eye de 2021 sobre Shein ©panos

Imagem 2: A imagem dos trabalhadores em Guangzhou foi tirada secretamente durante a nossa visita em 2023.

Imagem 3: A imagem do céu noturno sobre Guangzhou foi tirada da pesquisa Public Eye de 2021 sobre Shein ©panos


color compass

Pequenos microplásticos inundam a costa nordeste da Venezuela

O estudo também encontrou microplásticos menores que cinco micrômetros do Caribe ao Ártico, Esses materiais afetam a nutrição correta dos peixes para consumo humano. .Polímeros minúsculos resultam da fragmentação de plásticos maiores

microplasticos-Venezuela-996x567Os resíduos plásticos prejudicam corpos d’água em todo o mundo, mas há um risco maior: microplásticos menores que 5 micrômetros, invisíveis aos olhos. Crédito da imagem: rorozoa/Freepik .

Um estudo publicado este mês na revista Marine Pollution Bulletin revela que 60% do plástico encontrado em amostras de água são partículas menores que cinco micrômetros, uma unidade de medida mil vezes menor que um milímetro.

Em aproximadamente onze a quinze litros de três locais – perto do rio Manzanares, na costa nordeste da Venezuela, do Mar Chukchi, no Oceano Pacífico Ártico, e da Corrente do Golfo entre a Flórida e Nova Iorque – foram encontradas 304 partículas.

Nenhum deles tinha mais de 53 micrômetros, e o material da Venezuela revelou-se aproximadamente dez vezes mais numeroso do que nas outras regiões. Segundo o estudo, muito provavelmente por se tratar de uma região costeira com maior atividade humana.

“ “[…] pedaços maiores de plástico provavelmente estão se decompondo e se degradando no meio ambiente, produzindo partículas menores que também se decompõem .”

Luis Medina Faull, Escola de Ciências Marinhas e Atmosféricas, Stony Brook University, Estados Unidos

Essa constatação contrasta com pesquisas anteriores que conseguiram capturar partículas maiores que 300 micrômetros com mais facilidade, devido às técnicas de análise utilizadas.

“Os polímeros mais abundantes foram o polipropileno (PP), o poliestireno (PS) e o tereftalato de polietileno (PET), em linha com a composição dos resíduos plásticos gerados em todo o mundo”, destaca a equipe.

Segundo o biólogo marinho Luis Medina Faull, primeiro autor do trabalho que é vinculado à Universidade Stony Brook de Nova York, Estados Unidos, a hipótese principal é que este material muito pequeno seja resultado da fragmentação de plásticos maiores que tenha estado na natureza durante mais tempo.

“Após análise, é mais provável que pedaços maiores de plástico estejam se fragmentando e se degradando no meio ambiente , produzindo partículas menores que também se decompõem”, explica Faull.

Geralmente, as técnicas disponíveis filtram a água e utilizam reações químicas para identificar os elementos, que não são perceptíveis ao olho humano. Isso geralmente funciona com partículas maiores de plástico.

Porém, plásticos menores que 300 micrômetros se misturam a outros elementos, como a matéria orgânica, o que dificulta muito sua identificação. Os cientistas também utilizaram uma metodologia específica de laser para fazer o material reagir à luz e assim conseguir identificá-lo.

“Do ponto de vista biológico, essas partículas menores representam um risco maior que as maiores, porque podem aderir, por exemplo, a bactérias patogênicas, transportando-as pelo caminho. Pedaços maiores de plástico se acumulam e bloqueiam os órgãos dos peixes, citando outra situação, mas partículas menores podem passar pelos tecidos”, alerta Faull.

Na Venezuela, um estudo de 2023 publicado na Revista de Biologia Tropical já havia encontrado no estado de Sucre – mesmo local de coleta do estudo do Boletim de Poluição Marinha – microplásticos menores que um milímetro em cerca de 600 de um total de 800 espécimes analisados ​​de um espécie de peixe amplamente comercializada para consumo humano, Sardinella aurita .

“Provavelmente, a maior parte dos materiais plásticos que inundam os ambientes marinhos são esses muito pequenos, mais difíceis de filtrar em amostras. O animal ingere muitas dessas partículas pela água, e estas dão a impressão de que o peixe está satisfeito. Ou seja, leva à má nutrição do animal”, alerta Ivis Fermín, autor do estudo sobre a Sardinella e investigador do Instituto Oceanográfico Venezuelano da Universidade de Oriente.

Com a investigação de 2024 a alertar que os plásticos maiores estão a fragmentar-se, é provável que vários países latino-americanos também enfrentem a mesma situação. Na Corrente do Golfo, por exemplo, a água é transportada para norte, o que contribui para a dispersão de materiais.

Um relatório de 2023 do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) estima que até 2021, Brasil, México, Argentina, Venezuela e Colômbia foram os países que mais produziram materiais sólidos por ano, incluindo plásticos. Muitos deles desembocam em rios que deságuam no mar, como o Manzanares.

O engenheiro Joaquín Benítez Maal, diretor de Sustentabilidade Ambiental da Universidade Católica Andrés Bello, na Venezuela, que não participou do estudo de 2024, alerta que é preciso reduzir o uso de plásticos de descarte rápido e melhorar a coleta de lixo urbano .

“É necessário um grande investimento para que esse material chegue a aterros bem administrados. E, claro, a reciclagem deve se tornar um hábito diário nas cidades ”, enfatiza.

Embora a reciclagem deva ser uma atividade rotineira, apenas 2% do lixo venezuelano é separado e reciclado corretamente, segundo dados de 2022 da ONG Transparência Venezuela.

“Se encontrarmos tantas partículas pequenas em quase quinze litros de água, encontrando entre cinco e seis vezes mais elementos do que em estudos anteriores, é possível estimar a quantidade em volumes maiores. Educar as pessoas é importante, mas a indústria do plástico deve ser a principal responsável”, alerta Faull.

Link para o estudo no  Marina Pollution Bulletin


Este artigo foi produzido pela edição América Latina e Caribe do  SciDev.Net [Aqui!].

Apocalipse anunciado: Syngenta volta a vender o Tiametoxam, conhecido por exterminar abelhas

tiametoxam

Ibama havia proibido a pulverização do tiametoxam por considerá-lo uma ameaça potencial a abelhas e a outros insetos polinizadores — Foto: Divulgação

Graças a uma decisão obtida no dia 24 de abril na justiça do Rio Grande do Sul, a multinacional suiço/chinesa Syngenta voltou a comercializar o agrotóxico neonicotinóide Tiametoxam que é conhecido por exterminações massivas de polinizadores, incluindo as abelhas.

Lembremos que a Syngenta conseguiu reverter na justiça as restrições que o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) impôs, em fevereiro, sobre a produção, a venda e a aplicação do Tiametoxam no Brasil. O IBAMA havia proibido a pulverização do insumo por considerá-lo uma ameaça potencial a abelhas e a outros insetos polinizadores. O processo de reavaliação do defensivo no Ibama estendeu-se por quase dez anos quando, finalmente, houve a proibição para o uso de Tiametoxam.

O caso do Tiametoxam é apenas o primeiro exemplo dos efeitos danosos da aprovação do Pacote do Veneno que foi sancionado pelo presidente Lula no dia 28 de dezembro. Com isso, a Syngenta poderá continuar vendendo esse assassino de abelhas.

Quem paga pelas apostas do Lula?

lula dança

Por Douglas Barreto da Mata

Apesar de todas as minhas críticas, algumas com tom até deselegante, reconheço, uma coisa não se pode subtrair da biografia de Lula:

Sua incrível capacidade de perceber o ambiente ao seu redor, e de tomar decisões para influir nesse ambiente.

A despeito dos chavões e lugares comuns acerca da sua origem, e o quão inédito seria um migrante de pau de arara possuir tais “dons”, como se inteligência e sabedoria para viver fossem qualidades exclusivas dos ricos e letrados (mito despedaçado na ótima obra de Suassuna, O Auto da Compadecida), o fato é que o “baiano” (como era pejorativamente apelidado nos tempos de ABC) é um cabra arretado, quando se trata de sobreviver e mudar a realidade.

Talvez por isso, justamente por isso, que eu seja tão ríspido com ele, porque se ele fosse um imbecil qualquer, eu diria: “está dentro do previsto”.

Se fosse um FHC estava tudo certo, não dava para esperar muito daquele sujeito mesmo.

Mesmo toda essa genialidade política de Lula não o salvou de si mesmo.

Explico:  Lula, como todo líder genial e carismático, é ameaçado constantemente pela sua própria figura, e Lula sendo Lula, com sua origem e sua carreira política, tende a ser massacrado pelas elites, e cobrado por sua base social.

O assédio das elites é auto explicativo, ainda que Lula tenha passado boa parte de seus anos e anos de vida pública tentando convencê-los de que é “confiável”.

Já o descontentamento da sua base social é diretamente ligado ao cumprimento ou a frustração das expectativas que ele mesmo, Lula, criou em torno de si.

Então, aqui um momento de pausa dramática:

Lula não é vítima, não é um coitado incompreendido que sofre por ser rejeitado pelos ricos, e acossado pelos mais à esquerda que ele, e/ou pelos pobres e classe média ingratos, como alguns querem acreditar.

Nem tampouco, é um refém da “governabilidade” ou de um tipo de fatalismo que o coloca como um boneco imóvel no cargo que ocupa.

Seu incômodo é resultante da conta política que ele fez, ao pretender ser o eterno conciliador, e com o seu sonho de ser um JK mais contundente, ou um Vargas menos autoritário. Não deu, não foi nem uma coisa, nem outra.

Por certo, não dá para colocar a culpa só nele, sim, há contingentes históricos poderosos, mas o fato que ele é a variável principal dessa equação, inclusive para alterar a realidade que o cerca.

Nesse quesito, Lula falhou ao se adequar a esta realidade, sem ao menos tentar propor um debate de desconstrução, de ineditismo institucional, e limitou-se a fazer o permitido, e mesmo assim, teve sua sucessora golpeada, com a mão de Obama que lhe deu tapas nas costas, e que cuja administração cevou e treinou os golpistas de togas e anéis de doutores que o prenderam.

Lula renunciou ao seu fazer histórico, que pode ser (mal) definido como a nossa capacidade de entender que há coisas que nos cercam, e nos empurram para uma direção, mas que há espaço para que assumamos certo controle para mudar estas coisas.

Ceder (sempre) à “governabilidade” é uma postura cretina, porque Lula sabe que a “governabilidade” é um saco sem fundo, que se alimenta do medo dos que não querem perdê-la, enquanto ela pede mais e mais concessões.  Lula é assim, um desperdício, um desperdício calculado, porém.

Agora, nesse triste episódio no Rio Grande do Sul (RS), que era mais previsível e certo que a morte e os impostos, Lula faz uma aposta.

Como não conseguiu definir no seu terceiro mandato qualquer agenda política viável, nem mesmo a defesa de seu mandato, quando bárbaros assistidos, carinhosamente, por militares vandalizaram Brasília, Lula “entregou” a pauta à uma “defesa da democracia” para o judiciário.

O judiciário que anos antes alimentou esse mesmo pessoal, quando se omitiu na cassação de Dilma, e o sequestrou na sede da Polícia Federal no Paraná

Os militares? Bem, os militares acolheram de volta dos vândalos, logo depois dos crimes, em flagrante associação ou bando (Artigo 288 do Código Penal), e mesmo assim, nada. A cena de blindados das forças armadas impedindo os policiais de efetuarem prisões dos acampados (em frente ao Comando Militar) é o retrato trágico do governo Lula, que desde ali seria marcado para sempre, como está.

Dúbio, fraco, acovardado, acossado.

No RS, Lula enxergou a sua possibilidade de recuperar terreno.  No Rio de Janeiro também.

Está em andamento uma estratégia que passa pela cassação do governador e dos seus aliados, e Lula imagina que o PT seria maior beneficiado, ao mesmo tempo que força Eduardo Paes a “convidar” um petista para a vice na chapa à prefeitura neste ano, pois desse modo, o PT herdaria a prefeitura em 2026, quando Paes renunciaria para concorrer ao governo do estado.

Como uma parte das grandes forças não sobreviverá no RJ para concorrer ao cargo de governador tampão nestas eleições extraordinárias, com a cassação do governador, vice e presidente da Alerj, o PT apresentaria um candidato em condições de se eleger, e tentar a reeleição em 2026, ou ceder a vaga para Paes, em uma acordo que garantiria a vice-governadoria para o PT (e espaço no governo), além de uma vaga na chapa de senador.

Pois bem, no Sul a jogada de Lula parece ser outra.  É emotiva, é a pieguice com a qual Lula imagina dominar a cena. Os vídeos de Lula beijando e abraçando as pessoas no abrigo, com o fotógrafo onipresente Stuckert ensaiando os desabrigados para o melhor “take” destruíram até essa coisa cafona, porém genuína de Lula, o seu trato com os mais pobres. Ficou feio.

Esta mesma pieguice cafona, que contaminou a todos, que parece ser um fetiche do Brasil caboclo pelos seus compatriotas de sangue europeu e olhos azuis, se materializou em uma “semi intervenção” federal, com a criação de um ministério da reconstrução. Como assim? O resto do país perguntará? Está tudo certo nas terras da Amazônia? No Cerrado? No Nordeste?

Será que essas regiões precisam se auto imolar para que tenham tamanha atenção? Ué, não é o “agro” a solução de tudo?

Por que um estado que se orgulha de sua incansável capacidade de gerar riquezas, dentro da narrativa da herança de organização rigorosa alemã e italiana, de uma ética de perfeição, frente a um país de mamelucos preguiçosos e corruptos, não conseguiu impedir o cataclisma, e pior, não conseguiu planejar como sair do lamaçal onde eles mesmos se meteram?

Por que um dos estados mais “agro” do país não consegue se reerguer com as suas próprias pernas, sendo certo que os estragos foram muito mais violentos, justamente, por causa da devastação causada por essa atividade econômica?

Não seria justo debater que este setor ajude a pagar a conta com impostos de reparação?

Não seria papel do líder máximo do país ajudar, principalmente os mais pobres, e simultaneamente cobrar responsabilidades dos ricos que causaram a tragédia, ou ao menos, concorreram fortemente para que ela acontecesse?

Lula tenta suprir sua carência de afeto, alimento principal dos líderes carismáticos, com a exploração rasteira de um fenômeno que um governo chamado de esquerda, ou progressista, ou vá lá, responsável, deveria estudar, debater e propor saídas, sem repetir as velhas fórmulas popularescas de crianças no colo, algum dinheiro nas contas, e bilhões para empresas e contratos.

Até quando Lula vai seguir matando Lula?

Silêncio sepulcral nos Pampas, onde até o Minuano virou tornado.

Queda na locomoção e falhas no sistema imune: estudo mostra como agrotóxicos afetam abelhas nativas

Após 48 horas de exposição aos agrotóxicos imidacloprido, piraclostrobina e glifosato, insetos da espécie Melipona scutellaris apresentaram alterações morfológicas e comportamentais que podem levar ao enfraquecimento das colmeias, comprometendo a polinização e a produção de alimentos

51678O grupo de abelhas alimentado com solução contaminada caminhou menos, se movimentou mais lentamente e apresentou alterações morfológicas no corpo gorduroso (foto: Graziele Luna)

Julia Moióli | Agência FAPESP 

Estudo conduzido por pesquisadores das universidades Estadual Paulista (Unesp), Federal de São Carlos (UFSCar) e Federal de Viçosa (UFV) revelou como três agrotóxicos comumente utilizados na agricultura – imidacloprido, piraclostrobina e glifosato – afetam a espécie de abelha nativa sem ferrão Melipona scutellaris: sozinhos ou em combinação, os compostos modificam a atividade locomotora dos animais e reduzem suas defesas. Os resultados do trabalho foram publicados recentemente na revista científica Environmental Pollution.

O uso indiscriminado de agrotóxicos e suas consequências para a sobrevivência das abelhas são um tema cada vez mais debatido e estudado em todo o mundo. No entanto, a maioria dos trabalhos científicos relacionados envolve espécies europeias e norte-americanas. Aqui no Brasil, o foco tem sido espécies nativas sem ferrão, como a Melipona scutellaris, que desempenham papel vital na polinização de diversas plantas silvestres e culturas com relevância econômica.

Neste trabalho, conduzido no âmbito do Programa BIOTA-FAPESP e apoiado por meio de dois projetos (17/21097-3 e 21/09996-8), um grupo de pesquisadores avaliou os efeitos subletais – ou seja, que não causam a morte – dos pesticidas imidacloprido, piraclostrobina e glifosato no comportamento, na morfologia e na fisiologia da espécie. Para isso, em laboratório, expuseram oralmente os animais às substâncias de forma isolada e em combinação por 48 horas e, em seguida, compararam os resultados aos de um grupo-controle.

O perigo desses agrotóxicos para as abelhas ficou claro: o grupo alimentado com solução contaminada caminhou menos, se movimentou mais lentamente e apresentou alterações morfológicas no corpo gorduroso, órgão relacionado ao sistema imunológico desses insetos.

“Observamos que, tanto em combinação quanto isolados, os agrotóxicos interferiram seriamente no comportamento das abelhas, causaram danos no corpo gorduroso e comprometeram as atividades tanto de proteínas importantes para o sistema imune quanto para a sobrevivência celular”, conta Cliver Fernandes Farder-Gomes, pesquisador do Centro de Ciências Agrárias (CCA) da UFSCar e primeiro autor do estudo.

Segundo Farder-Gomes, tais resultados indicam que, mesmo que essas abelhas sobrevivam à exposição, elas passarão a ter sistemas imunes deprimidos, que não funcionam adequadamente no combate a bactérias, o que pode aumentar a propensão a infecções.

“A mortalidade das abelhas sempre causa um choque, mas é importante lembrar que, muitas vezes, sobreviver aos agrotóxicos pode ser ainda mais problemático porque enfraquece e diminui as colmeias, impactando não só a produção de mel como a de frutas e legumes, por conta do déficit de polinização”, destaca Roberta Cornélio Ferreira Nocelli, professora do CCA-UFSCar, coordenadora do grupo de trabalho para o desenvolvimento de métodos para testes de toxicidade em abelhas nativas brasileiras junto à Comissão Internacional para as Relações Planta-Polinizador (ICPPR, na sigla em inglês) e coautora do trabalho.

Políticas públicas

Para complementar esses resultados e estabelecer um panorama completo dos malefícios dos três pesticidas, os pesquisadores pretendem agora analisar sua influência na expressão de outras proteínas e também testar a ação das substâncias em espécies distintas de abelhas nativas.

De acordo com Osmar Malaspina, professor do Instituto de Biociências (IB) da Unesp de Rio Claro, a ideia é que, por revelar impactos com consequências de longo prazo tanto na biodiversidade quanto na segurança alimentar, o estudo realizado por Farder-Gomes dê suporte aos órgãos públicos para o estabelecimento de políticas mais restritivas, como tem acontecido nas últimas décadas com outras pesquisas do Grupo de Pesquisa em Ecotoxicologia e Conservação de Abelhas (Leca) e o Grupo de Pesquisa Abelhas e os Serviços Ambientais (ASAs), liderados por ele e por Nocelli.

“Nossos mais de 80 artigos e livros, entre outros trabalhos, têm sido utilizados ao longo dos anos, principalmente pelo Ibama [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis], para restringir o uso de agrotóxicos – foi o caso, por exemplo, do inseticida fipronil, que tem sido o maior responsável pela mortalidade de abelhas”, diz Malaspina.

Nocelli faz questão de destacar que não se trata de comprometer a agricultura brasileira – pelo contrário, a função dos estudos científicos é melhorá-la. “Nosso objetivo é sempre pensar em uma produção agrícola mais sustentável, harmonizando agricultura e conservação, pois só assim teremos segurança alimentar no futuro”, finaliza.

O artigo Exposure of the stingless bee Melipona scutellaris to imidacloprid, pyraclostrobin, and glyphosate, alone and in combination, impair its walking activity and fat body morphology and physiology pode ser lido em: www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0269749124004974?dgcid=rss_sd_all.


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Fonte: Agência Fapesp