A dança dos ex-portos de Eike Batista não para: Trafigura e Mubadala exploram venda do Porto Sudeste

Empresas conversaram com bancos sobre a potencial venda da operadora de portos comprada de Eike Batista há uma década, segundo pessoas ouvidas pela Bloomberg News

porto sudesteTrafigura e Mubadala planejam vender Porto Sudeste, dizem fontes | Porto Sudeste opera terminal localizado na Baía de Sepetiba, no Rio de Janeiro, e embarcou 26,1 milhões de toneladas de minério de ferro no ano passado (Photographer: Dado Galdieri/Bloo/Dado Galdieri)

Por Rachel Gamarski – Vinícius Andrade para a Bloomberg

Bloomberg — O Trafigura Group e o Mubadala Capital exploram a venda da operadora brasileira de terminal portuário que compraram de Eike Batista há cerca de uma década, segundo pessoas com conhecimento do assunto ouvidas pela Bloomberg News. O gigante global de trading de commodities e o braço de investimento do fundo soberano de Abu Dhabi conversaram com bancos sobre a potencial venda de até a totalidade de sua participação na companhia, disseram as pessoas, que pediram
anonimato porque as discussões não são públicas.

Em 2014, o Trafigura e o Mubadala compraram o controle acionário do Porto Sudeste da MMX Mineração & Metálicos, empreendimento de Batista.

No âmbito dessa operação, também assumiram instrumentos híbridos vinculados a royalties do terminal. Os dois detêm cerca de 85% desses títulos, disseram as pessoas. Trafigura, Mubadala e Porto Sudeste não comentam.

A Porto Sudeste opera terminal localizado na Baía de Sepetiba, no Rio de Janeiro. O porto embarcou 26,1 milhões de toneladas de minério de ferro no ano passado, acima dos 17,4 milhões de toneladas do ano anterior, mas ainda abaixo da sua capacidade de 50 milhões de toneladas, segundo dados trimestrais divulgados.

O Mubadala planeja utilizar os recursos para aumentar o seu investimento em uma refinaria na Bahia que pretende produzir diesel verde e querosene de aviação sustentável, disse uma das pessoas.


Fonte: Bloomber Línea

A mão nada invisível dos think tanks na vida dos brasileiros comuns

Como institutos, empresários e organizações supostamente isentas influenciam na política, na economia, na educação e até em golpe de Estado

think thank

Ilustração gerada por IA / Canva

Por Elstor Hanzen

O nome em inglês think tanks, traduzido como tanques de ideias, pode enganar, parecer distante ou vago, mas seus efeitos são concretos e próximos de todos nós. Empresários como Jorge Gerdau Johannpeter e Jorge Paulo Lemann (das Lojas Americanas, Ambev e 3G Capital, entre outros empreendimentos), organizações como Instituto Ling, Instituto de Estudos Empresariais, Movimento Brasil Livre (MBL), Movimento Todos pela Educação e Fundação Lemman, mais políticos e até professores, todos estão entre as forças que atuam para transformar essas ideias em realidade.

Os atores por atrás dessas instituições e ideias costumam maquiar seus interesses sob o manto da suposta neutralidade. Contudo, são de perfil ideológico claro e atuam com diversos braços, desde a educação até os golpes de Estado, representando uma forma de fazer política que vem se tornando cada vez mais importante nos últimos anos.

A partir da visão política ideológica liberal, eles influenciam sobre quem paga mais ou menos impostos; tipo de educação que as crianças recebem; serviços públicos que devem ser privatizados; o que é corrupção e o que não é.

“São grupos de interesses que se organizam para divulgar determinadas ideias, em geral, por fora das instituições políticas tradicionais, como partidos e sindicatos. Com isso, aparentam uma certa neutralidade, maquiando interesses próprios e setoriais. Representam, assim, uma forma de fazer política que vai se tornando cada vez mais importante nos últimos anos”, assegura o professor e pesquisador da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, que atua nos programas de Pós-graduação em História e Filosofia, Hernan Ramirez.

Essa é uma rede global com uma infinidade de fundações, institutos e associações, que promovem uma agenda compartilhada, além de movimentar grandes somas de dinheiro para combater as políticas de bem-estar social e fomentar a exploração econômica e a concentração de riquezas.

Segundo Ramirez, o empenho desses atores em formar candidatos em várias esferas para atuarem de acordo com suas premissas, dá-se pela dificuldade histórica que os burgueses têm para chegar ao poder mediante o voto.

“Por exemplo, impor ajustes não é um programa popular. Só na Argentina parece que eles venceram essa barreira com Milei, mas é um caso excepcional”, compara Ramirez.

“Em outros tempos, a chegada ao poder desses grupos era por meio de golpes, hoje é através dos think tanks”, afirma o professor da Unisinos.

Ele acrescenta ainda que por causa da crise dos partidos e do próprio Estado, que se transformaram em máquinas eleitorais e incapazes de formular políticas públicas como antes, tudo acaba facilitando a atuação destas estruturas alternativas.

Antony Fisher, empreendedor britânico e fundador da Atlas Network, é um pioneiro na venda do libertarianismo econômico à opinião pública. A estratégia era simples: nas palavras de um colega de Fisher, a missão era “encher o mundo de think tanks que defendam o livre mercado”.

Origem golpista

Um dos primeiros think tanks brasileiros foi o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), que esteve no comando do golpe de 1964. De lá para cá, outros surgiram, em especial, durante a transição democrática. Entre 1983 e 1986 se fundam os Institutos Liberais que, de certo modo, foram a continuidade do IPES e se tornaram nos mais atuantes, geradores de outros centros que advogam por tais ideias.

Em 2016, por exemplo, “vimos como surgiu o MBL no contexto do golpe contra Dilma Rousseff, liberado por Kim Kataguiri, que tivera financiamento do Liberty Fund. Muitos desses thinks tanks agem propulsando “talentos” que crescem como outsiders, amparados pela descrença na política tradicional, algo que eles mesmo têm ajudado a instalar”, lembra Ramirez.

Conforme Ramirez, esse renascimento coincide com a mudança política na Sociedade Mont Pèlérin, o mais importante think tank neoliberal, que assumia um papel mais ativo na disseminação de tal ideário, “agora numa sorte de cruzada, que, na América Latina, vai na contracorrente da onda que se abre com a recuperação democrática, pois suas políticas estavam associadas com as ditaduras, em particular a chilena e argentina”, avalia.

“Em tempos mais recentes, foram importantes em diversos momentos políticos, como na época de FHC e, claro, nos governos Temer e Bolsonaro, pois, na maioria dos casos, são antipopulares e contra o desenvolvimentismo, pois representam os interesses das nossas elites associadas ao capital estrangeiro”, afirma o professor da Unisinos.

Raízes transnacionais

Pesquisador da Unisinos, Ramirez enfatiza que o maior mentor de think tanks vivo é, sem dúvida, Jorge Gerdau Johannpeter, empresário e presidente do conselho de administração da Gerdau.

Ele esteve presente na fundação dos Institutos Liberais e diversas outras ramificações, como Junior Achievement, que propaga o empreendedorismo, ou o Movimento Todos pela Educação, conhecido por pregar pela introdução de parâmetros neoliberais nas escolas.

Outra frente dessa linhagem, aclamada até há pouco, eram os acionistas das Americanas, J.P. Lemann, Beto Sicupira e Marcel Telles, cuja loja agora está envolvida em uma fraude de R$ 25 bilhões, conforme investigação da Polícia Federal (PF).

Na década de 1990, o trio lançou a Fundação Estudar, que já formou mais de 70 mil alunos, informa site da organização. Na parte de apresentação da instituição, em Valores, há uma espécie de roteiro de autoajuda, desde sonhe alto até como deixar um legado. Lemann também está à frente da Fundação Lemann.

Jessé Souza, escritor, doutor em sociologia e professor universitário, observa que o trio sempre foi festejado como exemplos de empresários astutos e inovadores.

“Lehman, muito especialmente, é talvez o mais festejado multimilionário brasileiro e frequentemente tido como inspiração de muitos. A blindagem dos acionistas principais nos crimes e fraudes gigantescas é a marca distintiva do capitalismo brasileiro”, referindo que eles agora estão sendo poupados, tanto na investigação da PF como na divulgação dos seus nomes pela mídia brasileira.

“Aqui, no Rio Grande do Sul, temos o Instituto Ling, fundado pela família Ling, em que se destaca o herdeiro Winston Ling,  também um núcleo de relevância, que deu suporte ao bolsonarismo, inclusive na propagação de fake news”, cita Ramirez. Winston é autor da célebre frase “o Brasil precisa de mais desigualdade” e responsável por fazer a ponte entre Paulo Guedes e Jair Bolsonaro nas eleições de 2018.

Essa aliança é típica, segundo o especialista, porque o liberalismo que pregam é o de mercado, não titubeando em se aliar com personalidades antidemocráticas, como o fez Friedrich Hayek, vinculando-se a Augusto Pinochet ou Jorge Rafael Videla, mesmo quando sabia que atentavam contra os direitos humanos.

“Por isso, não é uma casualidade que em Porto Alegre tenha lugar o maior convescote neoliberal do Brasil, o declinante Fórum da Liberdade, que todos os anos faz um desfile de algumas das suas figuras de maior relevo”, exemplifica Ramirez.

Em geral, o financiamento provém do capital mais concentrado de grandes empresas. Além disso, essas organizações recebem aportes ou auxílio organizativo do capital transnacional.

“Isso remonta a épocas do IPES e tem se mantido de diversas formas, pois existe uma forte circulação, agindo em redes que perpassam as fronteiras nacionais”, destaca o professor Ramirez. Para ele, assim colonizam estruturas sociais e estatais, em particular universidades e órgãos internacionais de fomento, mas sempre o discurso da neutralidade.

A mão nada invisível dos think tanks na vida dos brasileiros comuns
Wagner Lenhart (Millenium, IFL e IEE), Jorge Gerdau Johannpeter (IE, Junior Achievement /Todos pela Educação), Hélio Beltrão (Mises) , Winston Ling (IEE) e Jorge Paulo Lemann (Lemman e Educar)

Fotos: Divulgação

Falta transparência

Doutor em Ciência Política e professor do Departamento de Ciência Política e dos Programas de Pós-Graduação em Ciência Política e em Estudos Estratégicos Internacionais da Ufrgs, Eduardo Munhoz Svartman produziu diversos estudos sobre os think tanks e orientou o trabalho de mestrado Na batalha de ideias: objetivos, meios e ações da Atlas Network no Brasil”, publicado em 2020.

Svartman afirma que essas instituições liberais brasileiras não têm transparência em relação a suas fontes de financiamento, nem quanto aos atores e interesses por trás de suas ações.

Entretanto, segundo o cientista político, sabe-se que grande parte das receitas dos think tanks vem de doações privadas e organizações internacionais.

Atlas Network, por exemplo, é uma dessas instituições que recebe recursos e os repassam para cerca de 500 think tanks espalhadas mundo afora, 15 delas no Brasil. Ela também é uma das poucas que divulga essas informações.

Atlas repassou um montante de aproximadamente US$ 35 milhões para promoção de atividades de think tanks e financiamento de ações de institutos espalhados por quase todas as regiões do mundo, de 2010 até 2018, conforme dados divulgados na dissertação por Lucas Araldi, na pesquisa orientada por Svartman.

Um dos 15 think tanks a receber dólares para vender suas ideias junto a políticos e convencer a opinião pública sobre a importância do individualismo e do liberalismo econômico foi o Instituto de Estudos Empresariais (IEE) de Porto Alegre.

O IEE foi fundado em 1984, formado por uma comissão de 20 integrantes. O Instituto se apresenta como um centro de formação de lideranças, que se concentra na promoção de princípios de liberdade e responsabilidade individuais, Estado de direito e propriedade privada. O principal produto que oferece é o Fórum da Liberdade, que reúne empresários, intelectuais e políticos, e ocorre na capital gaúcha desde 1988.

Um dos líderes do IEE é o diretor de Comunicação José Pedro Gomes, que publicou um artigo no meio da pior tragédia climática da história do RS defendendo o Estado mínimo e atribuindo aos voluntários todas as soluções.

“Durante os resgates, vimos que o voluntariado foi o grande responsável pelo salvamento da maioria das vidas, com pessoas de todas as classes sociais se mobilizando, em um tom de igualdade e de forma descentralizada, arregaçando as mangas e se dedicando a ajudar o próximo, doando seu tempo e dinheiro. Enquanto isso, vimos o Estado agir de forma ineficiente (como de praxe)”, escreveu.

Outra organização bastante influente é o Instituto Millenium, também conhecido pelo acrônimo Imil (ou IMIL). Trata-se de um think tank brasileiro, com sede no Rio de Janeiro. Foi criado em 2005 pela economista Patrícia Carlos de Andrade e pelo filósofo Denis Rosenfield – conhecido professor da Ufrgs – para difundir uma visão de mundo liberal bem mais à direita do espectro político.

Entre os patrocinadores temos nomes como a  Editora Abril (de Veja), O Estado de S. Paulo, Grupo RBS, Universidade Estácio de Sá, Gerdau, Suzano, Porto Seguro Seguros.

Também, fortemente ligados ao Imil temos o ex-ministro Paulo Guedes, o comentarista Rodrigo Constantino (ex-VejaO GloboValorIsto É e Jovem Pan), o jornalista José Roberto Guzzo e os comentaristas da Rede Globo Demétrio Magnoli e Carlos Alberto Sardenberg, entre outros.

Atualmente o Millenium tem como CEO Wagner Lenhart, ex-diretor Institucional do Banrisul (governo Leite), Secretário Nacional de Gestão de Pessoas no Governo Bolsonaro, ao lado de Paulo Guedes no Ministério da Economia. Ele preside o Conselho de Administração do BDMG, além de conselheiro deliberativo de think tank, o Instituto de Formação de Líderes (IFL-SP), e é associado honorário do Instituto de Estudos empresariais (IEE).

Disputas

Lucas Araldi aponta em sua pesquisa que a maioria dessas instituições se volta para a produção de conteúdo para sensibilizar e obter o apoio da opinião pública em prol das ideias neoliberais.

“Todos os think tanks vinculados à Atlas, no Brasil, desenvolvem atividades de cooptação, na medida em que mantêm publicações em redes sociais, blogs atualizados e promovem eventos regularmente. Isso envolve publicação de textos de opinião, produção de podcastswebinars e discussões sobre livros e artigos”.

Para o professor de pós-graduação em História e Filosofia da Unisinos Hernan Ramirez, a ideia de tudo é simples e efetiva, criminalizar a política, partidos e movimentos sociais tradicionais que estariam contaminados, seriam “ideológicos” e, portanto, os think tanks e seus membros estariam mais capacitados para prover soluções “técnicas”, “livres” da ideologia.

“Exemplo mais que manjado é a ladainha da independência do Banco Central, que vemos sempre puxar para os interesses mais concentrados e se aliar com personagens autoritárias”, cita.

Como um time de futebol

O presidente do Instituto Mises Brasil (IMB) Hélio Beltrão, outro think tank brasileiro, afirmou em entrevista em 2016 que essas instituições devem atuar como um time de futebol.

Segundo ele, a defesa seria a academia – professores e pesquisadores; os políticos, os atacantes; o meio de campo seria “o pessoal da cultura”, aqueles que formam a opinião pública.

Hernan Ramirez destaca, no caso Hélio Beltrão, filho do ex-ministro do Planejamento, Previdência e Desburocratização dos governos militares na Ditadura, o Hélio Beltrão pai.

“O pai dele foi membro do IPES, ou seja, a burguesia também herda cargos nas estruturas ideológicas. Campos Neto que o diga. E Beltrão pai e Campos avô foram filhotes da ditadura. Beltrão chegou a ser, pasmem, ministro da desburocratização! Sim, os neoliberais criam uma estrutura burocrática para acabar com estruturas burocráticas”, lembra.

De todo modo, mesmo se arvorando um think tank, pouco tem de criação de pensamento próprio, analisa Ramirez.

“A maioria deles só regurgita fórmulas vindas de fora, algo que os diferencia dos seus pares chilenos e argentinos, que têm sido mais originais, ou até guatemaltecos, pois naquele país centro-americano tem sede a instituição mais qualificada da todas”. A Universidad Francisco Marroquín, por exemplo, tem sido pioneira em formatar modelos dessa nova forma de fazer política.

Sonho brasileiro

Um dos produtos midiáticos mais bem-sucedidos dos think tanks é a cientista política guatemalteca Gloria Álvarez. Para os cientistas políticos ouvidos pela reportagem, ela é um exemplo que Kim Kataguiri e o MBL buscam imitar, característica comum a todas essas experiências.

“Se nos atemos aos títulos, os livros de Leandro Narloch remetem a bestsellers instalados no Continente por essa turma, tendo no Manual del Perfecto Idiota Latinoamericano sua obra mais acabada”, ressalta o pesquisador Hernan Ramirez.

Conforme os especialistas, há uma limitação criativa constante no pensamento neoliberal local. O Plano Real seria um caso tardio, que surfou na onda do Plano Brady.

“E de lá para cá parece que a fadiga de materiais nos pensadores neoliberais brasileiros só foi decrescendo. Paulo Guedes serve como ilustração, algo que nos alerta para sua dificuldade em construir um projeto hegemônico, tendo que se amarrar ou parasitar lideranças autoritárias”, conclui o professor de pós-graduação da Unisinos.


Fonte:  Extra.Classe

A bolha da Inteligência Artificial está estourando?

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Por Jacob Weindling para “Splinter”

Se você olhasse para o gráfico da Nvidia, a garota-propaganda dessa bolha de inteligência artificial (IA) que está competindo com a Apple e a Microsoft para ser a empresa mais valiosa do mundo, você pensaria que esse título é uma loucura. No momento em que escrevo, ela está quase desafiando sua alta histórica anterior e parece pronta para subir mais, enquanto todo o mercado continua essa surpreendente corrida de alta das cinzas da quebra de 2022.

Is there an AI bubble and will it burst?

Mas se você perguntar ao Goldman Sachs, sim, absofrigginloutely. Eles divulgaram um relatório mordaz de 31 páginas na semana passada intitulado “Gen AI: muito gasto, pouco benefício?”

“Gigantes da tecnologia e além” gastarão mais de um trilhão de dólares em despesas de capital de IA nos próximos anos “com até agora pouco a mostrar por isso”, diz o famoso Vampire Squid que só vê o mundo em dólares e centavos. Fomos enganados por comerciantes de propaganda enganosa se passando por tecnólogos como Sam Altman da OpenAI, e agora que a IA existe há algum tempo, suas alegações hiperbólicas estão entrando em contato com a realidade. Altman realmente pediu US$ 7 trilhões para fazer seu chatbot funcionar do jeito que ele afirma que pode, mas Goldman joga água fria na noção de que a OpenAI poderia gerar essa mesma receita para justificar o investimento. O fato de ainda levarmos esse palhaço a sério depois de solicitar um terço do PIB anual dos EUA com uma cara séria é uma acusação da superficialidade da maioria da cobertura da mídia de tecnologia e negócios.

Não é apenas o gigante do banco de investimento que está duvidando do que está começando a parecer a classe de ativos mais superfaturada desde a bolha tecnológica do início dos anos 2000, mas ontem a Microsoft surpreendentemente deixou o conselho da OpenAI agora que os reguladores estão examinando um negócio cujo modelo inteiro depende de pegar o conteúdo de outras pessoas e reproduzir uma versão Frankenstein dele, e então rotulá-lo como “inteligência”.

Alex Haffner, sócio de concorrência do escritório de advocacia britânico Fladgate, disse em uma declaração à Forbes que “É difícil não concluir que a decisão da Microsoft foi fortemente influenciada pelo escrutínio contínuo da concorrência/antitruste de sua influência (e de outros grandes players de tecnologia) sobre os players emergentes de IA, como a Open AI”.

Relatórios como este da 404 Media destacam a ladainha de questões legais que a IA cria para si mesma. Não é difícil ver como até mesmo um leve toque regulatório poderia destruir partes de uma indústria que produz resultados como estes:

Este mês, “Christina Warren” começou a blogar novamente para o The Unofficial Apple Weblog (TUAW), um lendário e extinto blog de notícias tecnológicas centrado na Apple, no qual ela trabalhou há mais de uma década. Warren foi por anos uma jornalista de tecnologia muito conhecida e muito boa, antes de trabalhar para a Microsoft e o GitHub. A verdadeira Christina Warren não tem escrito essas novas postagens no zumbi TUAW, no entanto. Os novos donos do site roubaram  sua identidade, substituíram sua foto por uma gerada por IA e têm publicado o que parecem ser artigos gerados por IA sob seu nome.

Além disso, a Microsoft não é a única gigante da tecnologia se afastando dessa indústria superaquecida e superestimada, já que a Oracle não conseguiu chegar a um acordo com o grande idiota Elon Musk sobre a expansão de um acordo existente em que a xAI de Musk aluga chips de IA da Nvidia da Oracle. As peculiaridades centradas em Elon influenciaram esse acordo, pois ele fracassou devido à sua demanda para construir supercomputadores mais rápido do que a Oracle considerou possívelde acordo com o The Information . No entanto, a Oracle se recusar a ceder a um dos comerciantes de hype de IA é outro ponto de dados de que os grandes players existentes estão batendo os freios em vários graus nessa tecnologia que ainda não produziu um produto real de mercado de massa.

A Wendys introduziu um sistema de pedidos “FreshAI” e 14% de seus pedidos exigiram intervenção humana para realmente serem concluídos, já que empresas ao redor do mundo estão começando a realmente examinar como a IA realmente impacta seus negócios. Redatores que perderam seus empregos para a IA agora estão sendo pagos para fazer o texto da IA ​​parecer mais humano . As próprias empresas de IA também estão emagrecendo , usando modelos menos poderosos, já que os custos gigantescos de servidor e energia aumentam. No mínimo, estamos testemunhando algum tipo de mudança radical nesta indústria nascente, já que as grandes promessas de robôs ultrainteligentes deram lugar a aplicativos específicos mais baseados na realidade .

Muitas pessoas que trabalham com IA se irritam com a hostilidade que parte do público demonstrou, mas o ceticismo expresso é simplesmente proporcional às grandes promessas que estão sendo feitas. O fato de as empresas agora estarem reduzindo suas aspirações e operações é uma admissão de que seus críticos pelo menos tinham razão em condenar todo aquele excesso que criou essa bolha.

Então o que está influenciando essa mudança? A empresa de serviços profissionais KPMG conduziu uma pesquisa com 100 grandes executivos corporativos, deixando bem óbvio: as grandes empresas agora olham para a receita e não para a produtividade como seu principal indicador da utilidade da IA. Isso não é bom para o estado atual das avaliações de IA!

Muitos defensores da IA ​​gostam de compará-la aos primeiros dias da internet, mas o chefe de pesquisa de ações do Goldman Sachs, Jim Covello, corretamente chama essa lógica infantil de besteira, já que a dinâmica de custo-benefício da IA ​​é o oposto da web inicial, apontando que “Mesmo em sua infância, a internet era uma solução de tecnologia de baixo custo que permitiu que o comércio eletrônico substituísse soluções tradicionais caras. A tecnologia de IA é excepcionalmente cara e, para justificar esses custos, a tecnologia deve ser capaz de resolver problemas complexos, o que não foi projetada para fazer.”

Daron Acemoglu, economista do MIT, disse ao Goldman que “Dado o foco e a arquitetura da tecnologia de IA generativa hoje… mudanças verdadeiramente transformadoras não acontecerão rapidamente e poucas — se houver — provavelmente ocorrerão nos próximos 10 anos.” À luz dessa expectativa de longo prazo que é compartilhada por pensadores de IA mais racionais na indústria , a redução das empresas de IA faz todo o sentido do mundo. Eles estão simplesmente reorganizando o negócio para refletir a realidade como ela é e não como eles a venderam para todos, incluindo eles mesmos.

Então a bolha da IA ​​está estourando? Em um sentido, absolutamente. Em outro, absolutamente não. As empresas ainda estão investindo enormes quantias de dinheiro para desenvolver essa tecnologia, já que o horizonte de tempo de mais de dez anos que Acemoglu estabeleceu é o que grande parte desse investimento de capex está mirando. No entanto, a bolha imediata da IA ​​é outra história.

A palavra “bolha” aparece onze vezes no relatório do Goldman, e embora todos que a usam concordem amplamente que as avaliações atuais de negócios de IA estão muito superfaturadas, o que acontecerá no futuro próximo é muito menos certo. “Bolhas demoram muito para estourar” aparece duas vezes no relatório, e se há uma coisa que tirei do meu programa de mestrado em finanças , é que a tendência geral do mercado é de alta. Dez por cento de retorno anual do S&P 500 é a expectativa básica e o número que a maioria das pessoas pretende superar. Todos poderiam passar os próximos seis meses ecoando o Goldman e proclamando que a IA é completamente absurda enquanto mais empresas seguem o exemplo da Microsoft, mas poderíamos terminar o ano com a Nvidia sendo a primeira empresa de US$ 4 trilhões do mundo, pelo que sabemos. Se você não for humilde diante do mercado, o mercado o humilhará.

Dito isso, de onde estamos hoje, o Goldman acha muito difícil imaginar como a IA melhorará os retornos gerais do mercado, como eles escreveram na página 3 de seu relatório:

O estrategista sênior de multiativos da GS, Christian Mueller-Glissmann, descobre que apenas o cenário de IA mais favorável, no qual a IA impulsiona significativamente o crescimento da tendência e a lucratividade corporativa sem aumentar a inflação, resultaria em retornos acima da média no longo prazo do S&P 500, tornando a capacidade da IA ​​de atingir seu potencial frequentemente alardeado ainda mais crucial.

Em termos de reputação, a IA definitivamente parece ter alcançado pelo menos um topo local. O Google lançando sua IA de busca que recomendava que as pessoas comessem pedras e colocassem cola em suas pizzas foi um fracasso de alto nível que essa tecnologia já viu. O ChatGPT pode ajudar com tarefas repetíveis, mas se você pedir para fazer matemática de nível de 4ª série, de repente ele esquece que é um computador . A IA ainda é uma tecnologia que está evoluindo, e o que ela se tornará é uma incógnita, mas pessoas como Sam Altman, que a têm vendido para nós como algo que ela manifestamente não é, agora estão sendo expostas como os charlatões que sempre foram. Se a bolha estourar, seu único resquício de credibilidade pública cairá junto com a avaliação da OpenAI, pois sua avalanche de mentiras sobre as capacidades de seu negócio está se tornando mais aparente para todos verem.


Fonte: Splinter

Mecanismos obscuros e controles fracassados ​​abrem caminho para o tráfico massivo de ouro na América do Sul

Milhares de toneladas de ouro extraídas na América do Sul são disfarçadas como legítimas, através de vários mecanismos obscuros de produção e comercialização, para serem exportadas para as grandes refinarias do mundo. São operações de uma indústria milionária que se expande e se transforma para perfurar um sistema de controle falido dos países produtores. Depois de analisar milhares de dados e visitar vários enclaves mineiros na Amazónia, nos territórios andinos e nos territórios costeiros do Peru, Venezuela, Colômbia, Equador e Brasil, quase vinte jornalistas identificaram um sistema complexo de lavagem e desvio massivo de ouro. Entre 2013 e 2023, estes cinco países exportaram mais de 3.000 toneladas de origem desconhecida, juntamente com a destruição de ecossistemas e o deslocamento de povos e comunidades indígenas em territórios remotos, assumidos por grupos armados na ausência das autoridades. As empresas internacionais assinam directrizes de “devida diligência”, mas o metal sujo continua a infiltrar-se na economia global sem consequências. É o que revela a série investigativa Opacidade Dourada: mecanismos sobre o tráfico de ouro na América Latina , projeto liderado pela Convoca.pe com a participação de meios de comunicação e organizações de jornalismo investigativo de cinco países sul-americanos.

ouro opaco

Por Convoca.pe 

Entre as selvas e cadeias montanhosas da América do Sul, os mineiros ilegais têm um recurso ainda mais valioso do que o cobiçado ouro que extraem à vontade: a incapacidade das autoridades para os supervisionar. Degradando ecossistemas e desrespeitando a lei, iniciam o primeiro elo de uma longa cadeia de produção e comercialização em que prevalecem a falta de controlo e a impunidade. Assim, o metal precioso é exportado para outros continentes escondendo a sua origem ilegítima. Grande parte desse ouro vai parar em joalherias luxuosas na Europa, em destinos pouco auditados como Dubai, Turquia e Índia, e nos armazéns de conhecidas fábricas de tecnologia nos Estados Unidos. 

A falta de rastreabilidade do ouro ilegal tem sido o ponto cego das políticas públicas na região. E está a tornar-se mais evidente agora que a mineração ilegal está a aumentar os seus volumes de exportação como nunca antes. De acordo com uma base de dados estruturada por jornalistas do Peru, Colômbia, Venezuela, Equador e Brasil, no âmbito do especial ‘Opacidade dourada: mecanismos sobre o tráfico de ouro na América Latina’, liderado pela Convoca.pe , foram exportadas pelo menos 5 1.941 toneladas de ouro desses países, entre 2013 e 2023. Desse montante, não se sabe a origem de mais de 3.000 toneladas se compararmos o volume da produção de ouro com a carga declarada para exportação, o que equivale a mais da metade da produção informada e em dinheiro representa mais de 158.341 milhões de dólares se for levado em conta o preço médio do ouro em cada ano deste período de desequilíbrio.

O complexo sistema de branqueamento e desvio massivo de ouro de origem suspeita através de novas rotas inclui vários mecanismos que identificamos nesta série investigativa percorrendo os territórios mineiros, construindo bases de dados e analisando documentos e mapas de satélite: a falsificação de notas fiscais de compra e venda do metal, autorizações fraudulentas, concessões fantasmas, fluxos de contrabando, fábricas de produção e fundição cúmplices, finanças de grupos armados, controlos negligentes, mudança de caminhos para destinos opacos para evitar sanções econômicas e processos judiciais.

O país sul-americano que, de longe, mais exporta ouro de origem desconhecida é o Peru: concentra mais de 99 por cento do desequilíbrio entre produção e exportação nestes cinco países analisados. Entre 2013 e 2023, vendeu 4.402 toneladas ao exterior apesar de registar apenas a produção de 1.373, o que revela uma diferença de mais de 3.028 toneladas de ouro exportado de origem suspeita.

A Colômbia vem em seguida, com uma diferença de 58,91 toneladas entre o que foi produzido e exportado no mesmo período: este país vendeu 618,7 toneladas para outros países, mas extraiu 559,81 entre 2013 e 2023. Enquanto o Equador fez embarques de 82,1 toneladas nos últimos sete anos, registando 12,73 toneladas de desequilíbrio, o que representa um excesso de 18% face ao reportado. No caso do Equador, foram analisados ​​os números entre 2017 e 2023 por serem os mais confiáveis ​​para a análise. 

No Brasil e na Venezuela, os números públicos sobre a produção e exportação de ouro não são muito claros ou existem lacunas de informação. Numa primeira análise para esta pesquisa, identificou-se que há anos em que se registram mais exportações do que produção. O Brasil registra um desequilíbrio a favor de sua produção de +34,11 toneladas, entre 2015 e 2021; e Venezuela um desequilíbrio a favor de +52,66 toneladas entre 2013 e 2023. Contudo, em todas estas jurisdições a mineração ilegal está a ganhar terreno. 

Um estudo da organização canadense Artisanal Gold Council determinou que em 2016 (ano da criação do Arco Mineiro do Orinoco) apenas 20% do ouro venezuelano foi exportado através do Banco Central da Venezuela, o canal oficial, enquanto 80% saiu clandestinamente . Atualmente, essas proporções são mantidas. Um relatório da Transparência Venezuela informa que entre 70% e 90% do ouro extraído no sul do país sai do território ilegalmente em operações que envolvem altos funcionários do governo e parentes próximos da comitiva presidencial. 

As sanções económicas dos Estados Unidos contra o sector do ouro da Venezuela forçaram o governo de Nicolás Maduro a mudar as rotas tradicionais de exportação do ouro legal. A partir de 2019, incorporou o Líbano, país com reconhecida administração opaca, como um dos seus principais destinos, tornando-se uma plataforma de trânsito para a comercialização do metal de conflito venezuelano no mercado internacional. 

O que impulsionou a criação de vários mecanismos para comercializar ouro de origem obscura? Além do apetite pelo aumento de preço no mercado internacional – o metal abriu 2019 com valor de US$ 1.286 a onça e cinco anos depois atingiu  US$ 2.300 em média -, há outras causas internas que facilitam esse boom. 

“Um fator é a atitude geral dos governos em relação à mineração artesanal e de pequena escala. Vemos como as políticas podem influenciar a tolerância para com eles. Existem, por trás de tudo, alguns factores estruturais, como a baixa presença de governos nestas áreas remotas de produção de ouro, os elevados níveis de informalidade econômica e o aumento do preço do ouro devido a perturbações geopolíticas e econômicas”, explica Luca para este relatório. Maiotti, analista de políticas da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). 

mineração peruA mineração artesanal informal e ilegal na costa, nos Andes e na selva é o denominador comum na América do Sul. Foto: Convoca.pe

mineração peru 2A selva dos países sul-americanos é a mais atingida pela mineração ilegal que extrai ouro dos rios. Foto: Convoca.pe

Dados da plataforma Amazon Mining Watch revelam que o Brasil concentra a maior parte da degradação causada pela mineração em toda a Amazônia sul-americana. A área afetada por minas na floresta tropical passou de 9,7 mil km2 em 2018 para 13,1 mil km2 em 2023. Mas no Brasil já ultrapassa 5,9 mil km², o que representa 45% do total.

Neste país, a mineração considerada pelas autoridades como artesanal e de pequena escala (ou garimpo) vive atualmente uma expansão alarmante, um fenômeno que não é espontâneo. Fabiano Bringel, pesquisador da Universidade do Estado do Pará, conta ao Convoca.pe que no Brasil “houve uma eliminação gradativa de entraves jurídico-formais que, de alguma forma, disciplinavam a prática dessa atividade”. Isso ocorreu especialmente após a destituição da ex-presidente Dilma Roussef (2016) e com a entrada de Jair Bolsonaro ao poder (2019-2022).

Por exemplo, em 2022 foi aprovado um suposto aperfeiçoamento” do Novo Código de Mineração , que na verdade flexibiliza a entrega de licenças de mineração aos garimpeiros sob o argumento de que a mineração artesanal e em pequena escala está sendo estimulada. Isto chegou ao ponto em que os mineiros podem considerar pedidos de exploração de terras que não sejam respondidos no prazo de 60 dias como aceites. Já foram detectados garimpos fantasmas que serviram para justificar toneladas de ouro extraídas de outros locais e introduzi-las no circuito legal. Neste contexto. O Brasil tem sido um lugar importante para a lavagem de ouro de países vizinhos.

No último ano, porém, as coisas começaram a mudar com novas medidas contra a lavagem de dinheiro. Até recentemente, o mineral era vendido com recibo de pagamento físico, o que dificultava muito a fiscalização e a rastreabilidade. Além disso, havia uma “regra de boa fé” que isentava de responsabilidade os comerciantes que adquiriam o ouro, desde que o produtor declarasse que era de origem legal. Em maio de 2023, a presunção de boa-fé foi revogada e dois meses depois passaram a ser exigidas faturas eletrônicas , permitindo às autoridades cruzar informações de vendedores e compradores.

Porém, como revela reportagem da Repórter Brasil para esta série jornalística, embora a produtividade “declarada” dos garimpos legais tenha caído 70% desde então, na realidade essas mudanças levaram os grupos criminosos a encontrar outras formas de continuar operando fora dos radares da fiscalização. . Um exemplo é o aumento do desmatamento associado ao garimpo ilegal em territórios indígenas. Isso faz com que as autoridades suspeitem que o Brasil deixou de ser uma escala de lavagem para se tornar um fornecedor de ouro ilegal. 

Para Rodrigo Oliveira, investigador e funcionário do Ministério Público Federal (MPF) no Pará, “a presunção de boa-fé institucionalizou a lavagem de ouro no Brasil”, pois praticamente isentou os compradores de qualquer responsabilidade pela origem do ouro que adquiriram, mesmo em casos flagrantes de fraude, como as chamadas “minas fantasmas”. Contudo, Oliveira afirma que “a regulação deste mercado continua bastante precária, com muitas brechas para lavagem de dinheiro. “Se as regulamentações não forem melhoradas, o novo cenário não levará a uma redução da mineração ilegal, mas apenas a uma maior clandestinidade”.

Enquanto não existirem controlos eficazes no sistema de licenças de mineração artesanal ( permissão de lavra garimpeira ), a indústria continuará a explorar lacunas na legislação actual. O pesquisador Fabiano Bringel comenta que há um “contorcionismo regulatório recente” que acabou obscurecendo os conceitos que diferenciam a mineração legal da mineração ilegal . “O enfraquecimento do conceito de ‘licença de mineração artesanal’ resultou na inserção de uma série de atividades que pela sua natureza nem sequer poderiam ser consideradas garimpo , que, apesar disso, continuam a utilizar regulamentações menos protetoras”, explica. 

Assim, barcos com equipamentos sofisticados e maquinaria pesada são vistos nestas áreas de exploração. Existe uma norma polêmica que define as dimensões das licenças para o trabalho de garimpo : 50 hectares por garimpeiro individual , mil hectares por cooperativa ou até dez mil se operar na Amazônia. 

No Brasil, investigações recentes da Polícia Federal apontam para uma aproximação entre facções criminosas e garimpos ilegais de ouro na Amazônia nos últimos anos. Especialistas apontam que o crime organizado tem aproveitado as rotas aéreas e fluviais utilizadas pelo tráfico de cocaína entre o Brasil e os países vizinhos para transportar também ouro ilegal, como revela a série Narcogarimpos , publicada pela Repórter Brasil em 2023.

Peru: epicentro da ilegalidade

O Peru é o principal exportador de ouro da América do Sul. Os dados públicos sistematizados para este relatório indicam que entre 2013 e 2023 o metal exportado deste país foi mais de três vezes o que foi registado como produzido. Convoca.pe revela, como parte desta série investigativa, como os embarques de ouro de origem informal no sul do país entram no sistema de produção legal sem controle das autoridades através da planta de processamento mineiro de Laytaruma, o quarto maior exportador de ouro. ouro importante no Peru, com mais de 1,5 bilhão de dólares em exportações para países como Estados Unidos, Suíça, Emirados Árabes Unidos e Turquia. 

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Este caso mostra claramente as condições que facilitam a impunidade e a lavagem de ouro: A planta de processamento de Laytaruma opera na região andina de Ayacucho, na fronteira com a região de Arequipa, o que dificulta o controle desta atividade em um território que não é facilmente acessível aos autoridades localizadas na cidade de Huamanga, em Ayacucho, a 12 horas de distância de veículo se você seguir o caminho mais rápido por Nazca. A empresa está registada na categoria de pequena mineração como se processasse menos de 350 toneladas de ouro por dia, o que exige que a sua supervisão seja encarregada das autoridades regionais e não dos inspetores do governo central. Porém, uma equipe de repórteres do Convoca.pe conseguiu identificar que dezenas de caminhões com cargas em torno de 650 toneladas por dia entram na fábrica de Laytaruma.

mineração peru 3A Minera Laytaruma é a quarta maior exportadora de ouro do Peru, mas continua sendo uma pequena mineradora. Foto: Google Earth.Como parte desta série investigativa, também foi possível identificar que existem outras plantas de processamento que exportam mais ouro do que declaram como produção às autoridades, sem que existam mecanismos de supervisão adequados. Além disso, num passeio exaustivo por Madre de Dios, uma região amazónica devastada pela mineração ilegal, descobrimos uma cadeia de marketing opaca com empresas envolvidas em investigações de lavagem de dinheiro ou comércio ilegal de ouro que fazem regularmente remessas para a Índia e os Emirados Árabes Unidos. 

A rastreabilidade da cadeia de abastecimento é o principal ponto fraco no Peru, como no resto dos países sul-americanos. O problema é que a responsabilidade pela certificação do ouro recai sobre os próprios produtores e não sobre o Estado. Para extrair e negociar o mineral, os interessados ​​precisam apenas estar cadastrados no Cadastro Integral de Formalização da Mineração (Reinfo) e no Cadastro Especial de Comerciantes e Processadores de Ouro (Recpo). Este último, apesar de ter mais de 11 mil registos de cidadãos e empresas, não está interligado com outros sistemas informáticos para cruzamento de informação e detecção de operações suspeitas.

Por outro lado, a SUNAT, autoridade fiscal e aduaneira, é responsável por avaliar a certificação do ouro metálico antes de ser exportado. Mas, novamente, a eficácia da supervisão depende mais das boas intenções da empresa mineira ou do mineiro na formalização. A norma indica que são estes que devem comprovar a legalidade do envio. Isso é feito por meio de simples declaração juramentada indicando a origem do ouro e onde devem afirmar que não estão praticando lavagem de dinheiro. 

Também são solicitadas guias de embarque para transporte da carga e análise laboratorial do grau ouro, que indica a pureza e o peso do mineral. E normalmente é solicitado um “certificado de origem”, formulário validado pelas autoridades peruanas e que permite o acesso a benefícios tarifários. Por sua vez, a SUNAT não dispõe de laboratórios especializados para avaliar o ouro. 

mineração peru 4Dezenas de usinas que processam minerais provenientes da mineração informal e ilegal foram instaladas no sul do Peru. Foto: Convoca.peNo Peru, o poder político também favoreceu diretamente a mineração informal. Desde 2002, existe uma Lei de Formalização que visa que os mineiros artesanais e de pequena escala regularizem a sua situação precária, operem com título e se adaptem às normas ambientais. O mandato inicial era de um ano. Mas este ultimato , graças aos esforços dos grupos políticos do Congresso peruano, foi prorrogado tantas vezes que 22 anos depois ainda continua a oferecer a possibilidade de regularização, mas sem o fazer de forma definitiva e sem assumir as consequências. Está estabelecido que a validade terminará este ano, mas já surgiu uma nova iniciativa para estendê-la mais uma vez até 2027.

Até o momento existem 86.829 registros no referido Registro Integral de Formalização Mineira ( Reinfo ) no Peru, dos quais 63.824 (73,5%) estão suspensos. Tal como no Brasil, estes registos também têm sido utilizados para perverter o sistema, uma vez que foram detectadas concessões de mineração fantasmas que registam produção apesar de estarem inoperantes. Foi o caso da rede criminosa Los topos del frio , que utilizou os registros de quatro pessoas que não utilizaram as suas concessões para lavar enormes quantidades de ouro ilegal extraído nas montanhas de La Libertad, no norte do Peru.

Convoca.pe identificou que também foi instalado um sistema de lavagem de dinheiro nas rotas. Os documentos exigidos dos transportadores podem ser obtidos com muita facilidade, situação que cria condições para que o ouro ilegal se misture com a carga legal. Estas levam o mineral às usinas beneficiadoras, onde é convertido em barras para serem exportadas para refinarias internacionais. 

Embora o caso peruano tenha vários desafios pela frente, para Mark Pieth, ex-presidente do Basel Institute of Governance e autor do livro “Lavagem de Ouro”, a situação na “Colômbia é muito mais problemática (…) com a presença do crime organizado em todos os lugares é mais difícil. A tensão entre os povos indígenas e o crime está presente. E isso é muito desesperador”, afirma o pesquisador suíço em diálogo com Convoca.pe . Na Colômbia, a mineração ilegal está muito longe de ser efetivamente controlada pela burocracia estatal porque os territórios explorados são hoje disputados a sangue e fogo por grupos armados como o Exército de Libertação Nacional, o Clã do Golfo ou os dissidentes das FARC. Eles lucram e se financiam com ouro sujo.

No sul do departamento de Bolívar eclodiu uma guerra de gangues que forçou o deslocamento de 120 famílias. Em março do ano passado, o Exército implantou uma operação contra garimpeiros ilegais em Bajo Cauca, no departamento de Antioquia, no noroeste. Isto desencadeou uma greve mineira na qual foram expostas as divergências do setor do ouro (legais, informais e ilícitos) da sub-região, que têm sido objecto de manifestações há mais de uma década.

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No Bajo Cauca, sub-região do departamento de Antioquia, no noroeste da Colômbia, ocorreu a grande greve mineira de 2023 / Ilustração: Rotas do Conflito.

No meio do protesto, as comunidades foram exploradas e sufocadas pelo Clã do Golfo, grupo armado ilegal que controla a zona, o que provocou o isolamento de 250 mil pessoas durante vários dias, com escassez de serviços básicos e alimentos. 

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Em março de 2023, mensagens deste tipo circularam pelos municípios de Bajo Cauca nas quais o Clã do Golfo (AGC) pressionou a população a apoiar a manifestação.

Estas organizações criminosas aproveitaram-se da fraca presença do Estado para corromper os mecanismos de controlo e utilizá-los em seu benefício. Frédéric Massé, codiretor da Rede de Monitoramento do Crime Organizado na América Latina, explica em entrevista para este relatório ao Conselho Editorial, que essas redes criminosas falsificam títulos minerários, certificados de origem do mineral, registros de mineradores de subsistência e o quantidade de ouro extraído. 

Um exemplo é o que aconteceu nos municípios de Caucásia, Saragoça, El Bagre, San Roque e Remedios, em Antioquia, e Quibdó, em Chocó, no noroeste da Colômbia. Lá, o pseudônimo “Robert” forjou um império de lavagem de ouro. Comprou bancos de dados de beneficiários de programas sociais e registrou 5 mil deles como se fossem mineradores independentes. Assim, legalizou mais de 7,5 toneladas de ouro ilegal para enviá-las aos Estados Unidos, Emirados Árabes Unidos e Índia.

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A Colômbia também se tornou importadora de ouro ilegal. Em suas plantas de processamento são recebidos carregamentos ilegais e eliminados vestígios do mercúrio utilizado para sua extração. Ao mesmo tempo, os mineiros locais também tendem a se desfazer de seus carregamentos contrabandeando-os para outros países, como acontece ao redor do rio Puré, na fronteira com o Brasil, onde a presença de guerrilheiros colombianos fez soar o alarme e eles chegaram até a confronto com a Marinha do Brasil. Nessas zonas de conflito, o mineral é utilizado como se fosse moeda para adquirir outros produtos contrabandeados. Uma economia ilegal foi estabelecida. 

Para atacar as lacunas na cadeia de abastecimento, o congresso colombiano aprovou uma regra que obriga os comerciantes de ouro e outros metais preciosos a aplicar critérios de devida diligência. Por exemplo, são necessárias capacidades operacionais, de especialização e financeiras mínimas para comprar e vender, e exigem informações dos seus homólogos sobre as suas operações. Se for exportar um carregamento, deverá também demonstrar que o ouro foi extraído de uma concessão autorizada pelo Estado. Embora a norma tenha entrado em vigor em julho de 2022, quase dois anos depois a medida ainda não foi implementada porque o Ministério de Minas não emitiu orientações específicas para regulamentar o processo.

Um boom no Equador

Grupos armados também tomaram o Equador de assalto. A Fundação Ecociência, que monitoriza o problema da mineração ilegal naquele país, explica que a situação começou a ficar fora de controlo entre 2016 e 2017. No entanto, o advento da crise pandémica da covid-19 levou muitas famílias a procurar trabalho neste país. indústria. Há sinais de que gangues perigosas do crime organizado empregam mineiros artesanais sob extorsão. 

A mineração em pequena escala, a mais propensa à ilegalidade, ganhou espaço nos últimos anos. Entre 2020 e 2023, as suas exportações cresceram 238%. Esta evolução foi acompanhada por um boom de novas empresas de marketing. No mesmo período, foram criadas 10 novas empresas que exportaram US$ 530 milhões, como revela esta série investigativa sobre a comercialização de ouro no Equador. 

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A Organização dos Estados Americanos (OEA) afirma que “os comerciantes e exportadores, e “particularmente as novas empresas”, são o “principal ponto de entrada do ouro ilícito nos mercados legais, ocultando a sua origem ilícita, muitas vezes antes de o vender a refinarias estrangeiras”. ” Alerta que o método de branqueamento mais utilizado é a falsificação de faturas, onde “falsos mineiros artesanais ou empresas fictícias são nomeados para justificar a origem do ouro extraído ilegalmente”.

O ecossistema do crime e da violência também se expandiu no país. Entre os casos investigados pela Ecociencia está o de Sucumbíos, no nordeste do Equador, na fronteira com a Colômbia, área amazônica esquecida pelo governo há muitos anos. Esta organização explica a esta aliança jornalística que grupos indígenas Achuar praticam mineração com maquinaria muito cara, cuja transferência para esta área remota envolve um pesado investimento. “Eles têm outro beneficiário que está colaborando com eles para realizar esta atividade. E dada a proximidade com a fronteira e estes contextos transfronteiriços, fica implícito que esta ajuda vem de movimentos criminosos de tráfico de drogas e outras atividades”, afirma Ecociencia.

Na bacia do rio Punino também houve uma devastação progressiva da selva. Só em 2023, foram perdidos 784 hectares segundo o programa de monitorização do MAAP, apesar de se tratar de uma área sem acesso rodoviário. Grupos criminosos colombianos e equatorianos operam ali e devastaram a selva para extrair ouro.

Equador 1Confluência dos rios Payamimo (esquerda) e Punino (direita), na província de Orellana, na Amazônia equatoriana. O amarelo do Punino, afetado pelo garimpo ilegal, deixa marcas nas águas do Payamino que abastecem dezenas de comunidades. Foto: Plano VO registro de concessões de mineração está fechado no Equador há seis anos devido a protestos de grupos indígenas que exigem uma lei de consulta prévia. Mas isso não impede a exploração dos solos amazônicos: a Ecociencia alerta que, em Punino, 96% do território explorado pela indústria ilícita não está cadastrado. 

A indecisão política também afeta os processos de inspecção justamente quando a incidência deste crime ecológico está em expansão. Há quatro anos, o então presidente Lenín Moreno decidiu fundir as três entidades supervisoras dos setores de Mineração, Energia e Hidrocarbonetos em uma única instituição: a Agência de Regulação e Controle de Energia e Recursos Não Renováveis. Na opinião do ex-vice-ministro de Minas Fernando Benalcázar, entrevistado para esta série jornalística, o processo foi um fracasso e muitos recursos foram perdidos. 

Benalcázar garante que o gabinete encarregado dos assuntos mineiros ficou com apenas 10 técnicos, embora tenha sido posteriormente ampliado para 35. Mas mesmo assim, esses recursos humanos, diz, foram insuficientes para supervisionar as duas mil pequenas concessões mineiras registadas. Em maio, o atual presidente, Daniel Noboa, separou novamente as agências, e as competências do setor foram novamente atribuídas à Agência de Regulação e Controle Mineiro (Arcom), que recuperou o nome. Esta entidade também é responsável pela verificação das exportações. Em 2019, tentou colher amostras de laboratório para corroborar a pureza e o peso declarados pelos comerciantes. Mas devido às reclamações deste sector, esta medida foi revertida e os controlos voltaram a ser menos rigorosos.

Um caso complexo é o da Venezuela, onde a mineração em grande escala é reduzida enquanto pequenas unidades de produção sob o controle de gangues criminosas espalham o Arco Mineiro do Orinoco, um cinturão de mineração decretado por Nicolás Maduro em 2016. Somente neste país é possível comercializar ouro legalmente com a mediação do Banco Central da Venezuela, que monopoliza a exportação do metal. No entanto, estima-se que o “ouro legal” represente apenas 20% do total extraído a cada ano. Constitui um sector da maltratada economia venezuelana que não está isento de queixas por violações dos direitos humanos e crimes ambientais. 

Desde 2019, os Estados Unidos impuseram sanções económicas ao setor do ouro na Venezuela. É por isso que, nos últimos anos, o Banco Central teve de mudar os seus destinos de exportação para esforços opacos que ajudam a introduzir o ouro venezuelano no circuito legal global. Conforme revela a reportagem de Armando Info para esta série jornalística, entre 2019 e 2023 os principais clientes do governo venezuelano foram Uganda (US$ 309 milhões), Líbano (US$ 174 milhões), Emirados Árabes Unidos (US$ 123 milhões) e Turquia (US$ 7 milhões). Em 2021 e 2022, o Líbano foi destino de mais de 90% das vendas de metais da Venezuela. É um país de trânsito, que compra e vende o metal, e sobre o qual algumas organizações não-governamentais alertam para o risco de se tornar numa escala de “lavagem de ouro” global. 

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Fora do monopólio do Banco Central, há 80% da produção ilegal de ouro que escapa por vias irregulares. Diferentes máfias participam no tráfico a todos os níveis, incluindo funcionários públicos, militares e guerrilheiros colombianos, de acordo com o estudo da OCDE Gold Flows from Venezuela.

“Esta expansão ocorre dentro de uma estrutura central composta por uma hierarquia de autoridades – militares, políticas e outras – que enviam uma parte do ouro produzido em dezenas de pequenas operações ao longo da cadeia de comando enquanto enriquecem com o resto. Isto constitui a participação direta ou indireta de grupos armados estatais e não estatais”, alerta a OCDE. Os grupos armados e os militares estão no controle, cobrando uma parte das equipes de mineração e às vezes extorquindo-as. Os políticos locais e nacionais também sofrem uma grande redução, indica o relatório de 2021.

Cristina Burelli, diretora do SOS Orinoco, afirma que agora os militares estão ganhando espaço nos negócios ilícitos. “A tendência que estamos vendo em diferentes lugares da Venezuela é que por um lado as Forças Armadas removem os líderes, aqueles que controlam essas minas, mas os substituem por pessoas com ideias semelhantes. E a mineração continua a mesma e está em expansão. O regime de [Nicolás] Maduro não está a desmantelar a mineração. Eles são como ‘você tira para eu vestir’”, diz ele em entrevista ao Convoca.pe

Burelli cita como exemplo o despejo realizado por militares no Yapacana Tepuy, parque nacional na fronteira com a Colômbia cujo território foi dividido entre os guerrilheiros do Exército de Libertação Nacional e os dissidentes das FARC. Hoje, apesar da entrada de policiais uniformizados na área, imagens de satélite mostram que a mancha mineira continua a crescer. 

Este contexto de corrupção torna inútil qualquer discussão sobre a implementação de controlos ou sobre como tornar a cadeia de abastecimento na Venezuela. Uma das rotas de saída do ouro tem sido as ilhas de Aruba e Curação. Por exemplo, as exportações de ouro de Curação, um país onde não existem depósitos ou refinarias, representaram em 2019 34,4% de todas as suas vendas internacionais. Depois que as autoridades holandesas tomaram conhecimento disso, nos anos seguintes este mineral quase desapareceu da pauta de exportações das Antilhas Holandesas. O ouro venezuelano ilegal consolidou agora as suas saídas para o Brasil, Colômbia e República Dominicana. 

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Guerra em Gaza: The Lancet estima que mais de 186 mil palestinos podem ter sido mortos no atual conflito

Contagem de mortos em Gaza: difícil mas essencial

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Por Rasha Khatib,  Martin McKee e Salim Yusuf para o “The Lancet”

Até 19 de junho de 2024, 37.396 pessoas foram mortas na Faixa de Gaza desde o ataque do Hamas e a invasão israelense em outubro de 2023, de acordo com o Ministério da Saúde de Gaza, conforme relatado pelo Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários.
Os números do Ministério foram contestados pelas autoridades israelitas, embora tenham sido aceites como precisos pelos serviços de inteligência israelitas.
a ONU e a OMS. Esses dados são apoiados por análises independentes, comparando as mudanças no número de mortes de funcionários da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA) com aquelas relatadas pelo Ministério,que considerou as alegações de fabricação de dados implausíveis.

A coleta de dados está se tornando cada vez mais difícil para o Ministério da Saúde de Gaza devido à destruição de grande parte da infraestrutura.

O Ministério teve que aumentar seus relatórios habituais, com base em pessoas morrendo em seus hospitais ou trazidas mortas, com informações de fontes confiáveis ​​da mídia e socorristas. Essa mudança inevitavelmente degradou os dados detalhados registrados anteriormente. Consequentemente, o Ministério da Saúde de Gaza agora relata separadamente o número de corpos não identificados entre o número total de mortos. Em 10 de maio de 2024, 30% das 35.091 mortes não eram identificadas.

Alguns funcionários e agências de notícias usaram esse desenvolvimento, projetado para melhorar a qualidade dos dados, para minar a veracidade dos dados. No entanto, o número de mortes relatadas é provavelmente uma subestimação. A organização não governamental Airwars realiza avaliações detalhadas de incidentes na Faixa de Gaza e frequentemente descobre que nem todos os nomes de vítimas identificáveis ​​estão incluídos na lista do Ministério.

Além disso, a ONU estima que, até 29 de fevereiro de 2024, 35% dos edifícios na Faixa de Gaza foram destruídos,portanto, o número de corpos ainda enterrados nos escombros é provavelmente substancial, com estimativas de mais de 10.000.

Conflitos armados têm implicações indiretas na saúde além do dano direto da violência. Mesmo que o conflito termine imediatamente, continuará a haver muitas mortes indiretas nos próximos meses e anos por causas como doenças reprodutivas, transmissíveis e não transmissíveis. Espera-se que o número total de mortos seja grande, dada a intensidade deste conflito; infraestrutura de assistência médica destruída; escassez severa de alimentos, água e abrigo; a incapacidade da população de fugir para lugares seguros; e a perda de financiamento para a UNRWA, uma das poucas organizações humanitárias ainda ativas na Faixa de Gaza.

Em conflitos recentes, tais mortes indiretas variam de três a 15 vezes o número de mortes diretas. Aplicando uma estimativa conservadora de quatro mortes indiretas por uma morte direta para as 37 396 mortes relatadas, não é implausível estimar que até 186 000 ou até mais mortes poderiam ser atribuídas ao conflito atual em Gaza. Usando a estimativa populacional da Faixa de Gaza de 2022 de 2 375 259, isso se traduziria em 7,9% da população total na Faixa de Gaza. Um relatório de 7 de fevereiro de 2024, na época em que o número direto de mortos era de 28 000, estimou que sem um cessar-fogo haveria entre 58 260 mortes (sem uma epidemia ou escalada) e 85 750 mortes (se ambas ocorressem) até 6 de agosto de 2024.

Um cessar-fogo imediato e urgente na Faixa de Gaza é essencial, acompanhado de medidas para permitir a distribuição de suprimentos médicos, alimentos, água limpa e outros recursos para as necessidades humanas básicas. Ao mesmo tempo, há uma necessidade de registrar a escala e a natureza do sofrimento neste conflito. Documentar a verdadeira escala é crucial para garantir a responsabilização histórica e reconhecer o custo total da guerra. Também é um requisito legal. As medidas provisórias estabelecidas pela Corte Internacional de Justiça em janeiro de 2024 exigem que Israel “tome medidas eficazes para impedir a destruição e garantir a preservação de evidências relacionadas a alegações de atos dentro do escopo da Convenção sobre Genocídio”.

O Ministério da Saúde de Gaza é a única organização que conta os mortos. Além disso, esses dados serão cruciais para a recuperação pós-guerra, restauração de infraestrutura e planejamento de ajuda humanitária.

MM é membro do conselho editorial do Israel Journal of Health Policy Research e do International Advisory Committee do Israel National Institute for Health Policy Research. MM foi copresidente da 6ª Conferência Internacional de Jerusalém sobre Política de Saúde do Instituto em 2016, mas escreve a título pessoal. Ele também colabora com pesquisadores em Israel, Palestina e Líbano. RK e SY declaram não haver conflitos de interesses. Os autores gostariam de agradecer aos membros da equipe do estudo Shofiqul Islam e Safa Noreen por sua contribuição na coleta e gerenciamento dos dados para esta Correspondência.

Nota editorial: O Lancet Group assume uma posição neutra em relação a reivindicações territoriais em textos publicados e afiliações institucionais.


Fonte: The Lancet

Pescadores vão protestar na ALES por justiça aos atingidos pelo crime da Samarco/Vale-BHP

Ato na Assembleia Legislativa vai distribuir três toneladas de peixe durante audiência sobre repactuação

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Por Elaine Dal Gobbo para “Século Diário”

Os atingidos pelo rompimento da Barragem de Fundão, crime cometido pela Samarco/Vale-BHP contra o Rio Doce em novembro de 2015, vão distribuir três toneladas de um peixe chamado valinha, em frente à Assembleia Legislativa. A manifestação será nesta quarta-feira (10), durante a audiência pública “Os impactos e a revitalização da Bacia do Rio Doce”, quando serão discutidos os impactos do crime socioambiental e a necessidade de reparação, com a participação dos atingidos no processo de repactuação em curso.

A audiência pública será realizada pela Comissão Parlamentar Interestadual de Estudos para o Desenvolvimento Sustentável da Bacia Hidrográfica do Rio Doce (Cipe Rio Doce), puxada pelo gabinete da deputada estadual Janete de Sá (PSB), atual presidente do colegiado.

O presidente do Sindicato dos Pescadores e Marisqueiros do Espírito Santo (Sindpesmes), João Carlos Gome da Fonseca, o Lambisgoia, afirma que a repactuação está acontecendo “a portas fechadas”, com a Renova, Ministério Público Federal (MPF), Governo Federal, os governos do Espírito Santo e Minas Gerais, e as Defensorias Públicas de ambos os estados, mediados pelo Tribunal Regional Federal da 6ª Região.Embora o MPF e as defensorias atuem em defesa dos direitos das comunidades, os próprios atingidos cobram participação ativa da repactuação.

“Ninguém melhor do que os atingidos para saber os nossos problemas, a nossa realidade. Queremos participar para saber o que está se passando. Está todo mundo com medo, pois as consequências do crime vão ficar e os atingidos têm que ser indenizados por isso”, cobra Lambisgoia.

O pescador informa que na repactuação é discutida a possibilidade de pagamento de uma indenização de cerca de R$ 140 bilhões por parte das empresas, a serem destinados para os governos federal e dos estados de Minas Gerais e Espírito Santo, o que não dá garantia de que o recurso chegará aos atingidos. “O que vão fazer com esse dinheiro? Onde está o atingido nessa história? Tem gente que foi atingida e ainda não foi reconhecida”, aponta Lambisgoia.

Ele destaca que até hoje há pontos nos quais os trabalhadores estão impedidos de pescar, como na zona 58, região de Regência, em Linhares, norte do Estado, na qual os rejeitos de minério desembocaram. Além disso, para reconhecimento do pescador como atingido, a Renova “impõe limites que não existem”, como a criação de categorias dentro da profissão, a exemplo das de pescado formal, pescador de fato e pescador de subsistência, sendo que, explica Lambisgoia, há somente duas categorias: pescador artesanal, com cadastro no Governo Federal, e pescador profissional, cadastrado na Capitania dos Portos.

Outra pauta que continua urgente é a grave contaminação da água, do pescado e outros alimentos ao longo de toda a bacia do Rio Doce e de todo o litoral capixaba, como bem confirmou o último relatório da Aecom do Brasil, perita judicial oficial do caso.

Atingidos, principalmente o litoral norte capixaba, organizam ônibus que sairão de várias cidades para ir à Assembleia nesta quarta, fora as pessoas que irão de carro próprio. Em Minas Gerais, os atingidos também se organizam para vir ao Estado somar forças com os capixabas. A pescadora e ilheira Joelma Fernandes Teixeira, de Governador Valadares, afirma que sairão ônibus de municípios mineiros como Aimorés e Rio Doce. “Queremos reivindicar nossos direitos. A repactuação, ao nosso ver, é um mistério, tem que ter transparência”, defende.

Joelma lamenta a falta de punição para a Samarco/Vale-BHP. “São nove anos de impunidade. Queremos justiça. Se a gente matar um tatu para comer, a gente vai preso, mas a Vale comete um crime, mata a flora, mata a fauna, um rio inteiro, tira as pessoas de suas casas, e não acontece nada. A pesca, biblicamente, é a profissão mais antiga do mundo. Respeitem os pescadores e ilheiros”, protesta.

Avanços

Os atingidos tiveram alguns avanços recentemente, como decisões judiciais recentes favoráveis aos atingidos que foram prejudicados pelo Novel – sistema simplificado de indenizações da Fundação Renova, reconhecidamente com cláusulas ilegais de quitação geral de danos – e pelo não cumprimento da Deliberação 58/2017 do Comitê Interfederativo (CIF), que obriga a inclusão de todas as comunidades atingidas nos programas de compensação e reparação de danos da Renova, desde a Praia de Carapebus, na Serra, até Conceição da Barra.

O avanço das ações internacionais, em Londres e na Holanda, também pode ser considerado um fator de pressão às mineradoras, para que cedam e fechem logo um acordo, diante das negativas recentes dos governos.


Fonte: Século Diário

Papai Noel, Coelho da Páscoa e a esquerda no poder: Mitos e ideologias a serviço da totalidade capitalista

papai noel capitalista

Por Douglas Barreto da Mata

Escrevo este texto como resposta a um ótimo texto do amigo Marcos Pedlowski [Aqui!].  Como eu disse a ele, em particular, é um ótimo texto para propagar esperança, comovente mesmo.  Mas é só isso.  O que não é pouco, porque no mundo atual, precisamos de alento e de palavras de incentivo.

Eu, como realista que sou, me reservo o direito a ter reservas sobre as “vitórias” das “esquerdas” francesas e inglesas.  Coloco assim entre aspas, como faria com a “esquerda” brasileira, comumente identificada pela legenda PT.  Há muito tempo deixaram de sê-lo, e hoje eu carrego sérias dúvidas se algum dia foram (de esquerda).

Antes de tudo e mais nada, não existe esquerda, na correta acepção do termo, sem que seja anticapitalista.  Ser anticapitalista não significa ser um louco que desafia a realidade, avançando fora de contexto e desvinculado de senso pragmático.  Nada disso.

Essa foi uma construção ideológica generalizante criada pela direita, para impedir e censurar qualquer chance de debate anticapitalista, e que, infelizmente, a “esquerda domesticada” assimilou e passou a usar como uma espécie de legitimação para sua falta de coragem de construir cenários alternativos, ou melhor dizendo, elaborar uma teoria necessária a uma ação política disruptiva.

A morte da luta anticapitalista não se dá pelas derrotas eleitorais ou pelos revezes das lutas dos movimentos sociais, incompreendidos pela maioria da população anestesiada pelos símbolos ideológicos da direita. Não.

A derrota se dá antes, na interdição dessa luta política, e se encontra incrustada no medo que a “esquerda oficial” tem de propor a discussão política sobre temas caros ao capitalismo, e agora, ao rentismo pós capitalista.

Por isso, a “vitória” inglesa é de Pirro, a francesa idem, e a de Lula…bem, a de Lula dá até vontade de chorar.

Antes mesmo de vencer os conservadores, o atual Primeiro Ministro Inglês já avisou: “nada de tributar os mais ricos”.

Na França, a conjuntura e a tradição intelectual da “esquerda” impõem um pouco mais de atrevimento, e o líder da coalizão vencedora, Mélenchon, já avisou que a conta deve sobrar para os mais ricos.

No entanto, esse movimento vai depender do acordo com o centro (direita), representado no derrotado Macron, que pode-se dizer, não saiu tão derrotado como se imaginava.  Sim, a esquerda abriu mão de várias candidaturas para conseguir êxito nas disputas de segundo turno, porque as eleições francesas parlamentares são majoritárias (como no nosso caso, para prefeito, governador, senador e presidente), e em dois turnos.

A aliança de “esquerda” sacrificou-se para garantir que Le Pen não levasse a maioria, mas não foi o que aconteceu com o time de Macron, que não fez o mesmo movimento da “esquerda”, e assim preservou um tamanho capaz de influenciar, e muito, o novo governo que se inaugura.  Ou seja, a direita francesa bateu a carteira da “esquerda”, mais uma vez.  Mais ou menos como por aqui.

Depois de promoverem a desestabilização do governo Dilma, executarem um golpe criminoso, com a ajuda do Departamento de Estado dos EUA, sequestrado e mantido no cárcere o ex- presidente Lula, e colocado no Planalto, Jair Bolsonaro, a direita brasileira apavorada com o descontrole do movimento político que criou, chama de novo a “esquerda” para limpar a bagunça.

Desde que essa “faxina” se dê exatamente no figurino determinado pelos ricos.  Governar sim, exercer o poder? Nunca. Assim, as “esquerdas” mundiais se “comportam” direitinho, esperando Papai Noel ou o Coelho da Páscoa.

Será que vão ganhar algo?

MPF recomenda suspensão de projetos imobiliários próximos ao Cais do Valongo, no município do Rio de Janeiro (RJ)

Órgãos federais e municipais devem revisar projetos que possam afetar área reconhecida como patrimônio mundial pela Unesco

cais do valongo

O Ministério Público Federal (MPF) enviou recomendação ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e à Prefeitura do Rio de Janeiro, solicitando a suspensão de dois projetos imobiliários da empresa Cury Construtora e Incorporadora S/A, na região do Cais do Valongo. Para o MPF, o projeto de construção de dois edifícios com 30 andares e 90 metros de altura cada, pode comprometer a integridade paisagística e histórica do sítio arqueológico, impactando negativamente tanto a ambiência quanto a visibilidade do bem tombado. A recomendação se baseia nas informações de um Inquérito Civil, instaurado para investigar os possíveis impactos da construção num imóvel vizinho ao sítio arqueológico localizado na Rua Barão de Tefé, 74, no bairro da Saúde, na capital do estado.

O Cais do Valongo foi reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) como patrimônio mundial, por representar a mais importante evidência física da chegada de africanos escravizados ao continente americano. Segundo o MPF, os projetos propostos pela empresa Cury podem comprometer a integridade paisagística e histórica do patrimônio mundial, impactando negativamente tanto a ambiência quanto a visibilidade do bem tombado.

A recomendação destaca a necessidade de avaliações detalhadas de impacto patrimonial antes de qualquer aprovação formal de construção na área. Os procuradores da República Sergio Suiama e Jaime Mitropoulos, que assinam a recomendação, afirmam que “a Unesco, ao reconhecer o valor universal excepcional do Cais do Valongo, estabeleceu diretrizes rigorosas para a preservação do sítio, incluindo a realização de avaliações de impacto e a manutenção da relação entre o sítio arqueológico e a Baía de Guanabara”. O documento recomenda que o Iphan indefira os projetos imobiliários apresentados pela Cury, e se abstenha de aprovar qualquer intervenção na área sem a devida aprovação dos órgãos competentes de preservação do patrimônio.

Além disso, a recomendação solicita que a empresa Cury apresente, no prazo de 30 dias, o detalhamento do projeto imobiliário pretendido, acompanhado de estudo volumétrico de morfologia urbana da área externa do Cais do Valongo e do prédio Docas Pedro II, de forma a possibilitar a compreensão do impacto provocado pela edificação.

O MPF também se dirigiu à Prefeitura do Rio de Janeiro, pedindo que os órgãos gestores da zona portuária fortaleçam, através de medidas paisagísticas, a relação entre a orla marítima e o Cais do Valongo, conforme determinado pela Unesco, o que justifica, inclusive, a conveniência e oportunidade de edificação de “Espaço Rio-África” em imóvel contíguo ao edifício Docas Pedro II. A construção foi projetada pelo engenheiro negro abolicionista André Rebouças e está reservada para instalação do Centro de Interpretação do Cais do Valongo e do Laboratório Aberto de Arqueologia Urbana (Laau).

Desde 2013 o MPF acompanha as ações de proteção e valorização do Cais do Valongo. O sítio arqueológico, revelado em 2011 e inscrito na lista do patrimônio mundial da Unesco em 2017, simboliza um capítulo crucial da história da escravidão e da luta pela liberdade no Brasil.

A recomendação foi encaminhada também para a Representação da Unesco no Brasil, aos membros do Comitê Gestor do Cais do Valongo, ao Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac), à Fundação Cultural Palmares, ao Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB/RJ), ao Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (Icomos-Brasil) e à Coordenadoria Municipal de Promoção da Igualdade Racial, para ciência.

Inquérito Civil nº 1.30.001.001235/2023-19
Leia aqui a íntegra da recomendação.

AGU pede bloqueio milionário contra Syngenta por adulteração de agrotóxicos

A AGU baseia sua atuação em uma fiscalização do Ibama em uma fábrica da Syngenta em Paulínia (SP)

syngenta

Por Leonardo Gottems para o Agrolink

A Advocacia-Geral da União (AGU) moveu uma ação civil pública por dano ambiental contra a Syngenta na Justiça Federal de São Paulo. A multinacional de defensivos agrícolas é acusada de supostamente produzir e comercializar agroquímicos adulterados de forma irregular. A AGU quer que a Syngenta seja responsabilizada pela reparação de possíveis danos ambientais, além de pagar indenização por danos morais coletivos devido à exposição indevida da população aos produtos tóxicos.

A AGU requereu também o bloqueio de R$ 90 milhões da empresa para assegurar futuras reparações, caso a Syngenta não apresente garantias suficientes. Além disso, solicitou a suspensão do acesso da empresa a financiamentos em instituições de crédito públicas. A ação pede medidas urgentes para que a Syngenta recolha e dê destino adequado aos produtos adulterados que podem estar em circulação. A empresa deve apresentar um plano de integridade ambiental em 90 dias e divulgar informações sobre o processo judicial e suas decisões em seus canais digitais. Adicionalmente, a Syngenta deve incluir detalhes sobre a adulteração em seus relatórios e programas de sustentabilidade.

A entidade baseia sua atuação em uma fiscalização do Ibama que apontou um suposto uso irregular do conservante bronopol em níveis quase três vezes acima do permitido na produção do Engeo Pleno pela Syngenta. Além disso, o bronopol teria sido adicionado ilegalmente aos produtos Karate Zeon 250 CS e Karate Zeon 50 CS, que não possuíam autorização para essa substância em suas fórmulas. Estes agrotóxicos são amplamente utilizados em várias culturas agrícolas. Segundo registros de infração do Ibama apresentados na ação judicial, a Syngenta teria produzido um total de 4,7 milhões de litros desses produtos, dos quais pelo menos 4,4 milhões foram vendidos. 

Durante fiscalização, de acordo com a AGU, na fábrica da Syngenta, foi descoberto que funcionários receberam ordens para remover insumos da linha de produção de agrotóxicos para evitar detecção durante a visita do Ibama, tentando burlar a fiscalização. Em nota, a empresa se manifestou sobre o assunto negando prejuízos.


Fonte: Agrolink

Eleições francesas: esquerda volver!

eleições francesas

Muitos franceses (e não franceses, admitamos) estão hoje coçando a cabeça para entender como a extrema-direita não tomou o parlamento por assalto como previsto após o primeiro turno das eleições que ocorreu há uma semana.  Ao contrário, o vencedor acabou sendo um bloco de partidos de esquerda, a Nova Frente Popular (NFP), que obteve a maioria dos assentos, criando uma situação inusitada para o presidente Emmanuel Macron que agora terá de governar em uma posição de minoria parlamentar.

Claramente as eleições francesas terão eco muito além da França, na medida em que não apenas a extrema-direita foi impedida de ter maioria parlamentar, mas como também agora Macron terá de ajustar a uma situação em que seu projeto neoliberal vai ser executado em condições ainda mais precárias, o que, certamente, será muito mais favorável para a classe trabalhadora francesa. 

Essa derrota da extrema-direita e dos operadores neoliberais franceses se soma à acachapante derrota dos conservadores ingleses que foram esmagados pelo Partido Trabalhista, inaugurando um ciclo em que também no Reino Unido o novo governo terá de, pelo menos, diminuir o ritmo da erosão dos direitos sociais e trabalhistas.

Reaction to the second round results of the 2024 snap legislative elections

Por outro lado, a derrota da extrema-direita também na América Latina, pois o que ficou evidente é que em se oferecendo uma alternativa minimamente viável, os trabalhadores  não irão dar votos para aqueles que sob o discurso anti-sistema querem mesmo é aprofundar o ataque aos direitos sociais, como é o caso da Argentina neste momento.  É importante que a viabilidade eleitoral da NFP se deu não fazendo concessões programáticas para extrema-direita, mas sim oferecendo um programa que acenou no sentido oposto, especialmente no tocante à manutenção de direitos para os trabalhadores franceses.

A vitória da NFP também deverá representar um embaraço para quem se dizendo de esquerda continua apostando no receituário neoliberal sob a desculpa de garantir a governabilidade, como é o caso do PT no Brasil.   A verdade é que só se derrotará a extrema-direita com programas que sinalizem uma agenda que indique compromissos com a classe trabalhadora e a juventude. Continuar apontando as receitas do Consenso de Washington como se fosse a única alternativa para enfrentar a extrema-direita é, contraditoriamente, a via mais rápida para garantir que a esquerda fique mais parecida com a extrema-direita no que efetivamente conta.

Por isso tudo, o que as eleições francesas nos mostram é que a saída não é fazer concessões à direita, mas sim construir programas que sejam compreendidos pelos trabalhadores como alternativas reais para enfrentar a perda de direitos sociais e da capacidade de compra dos salários.