Vendemos em segredo, como drogas’: apetite do Brasil por carne de tubarão coloca espécie em risco

Um dos maiores consumidores em um mercado global avaliado em R$ 14 bilhões, o comércio de peixes baratos no país sul-americano está crescendo. Mas conservacionistas preocupados dizem que a maioria das pessoas não percebe que está comendo tubarão

Um funcionário carrega um tubarão-azul para o armazenamento refrigerado no Miami Pescado, Cananéia.

Um tubarão azul é levado para um frigorífico em Cananéia, um porto pesqueiro no estado de São Paulo. Embora se reproduzam lentamente, pelo menos 80 milhões de tubarões são mortos por ano no mundo

Por Constance Malleret no estado de São Paulo para o “The Guardian”, Fotografias: Avener Prado

O céu azul brilhante e as águas calmas do estuário escondem as condições adversas do mar, e não há sinal de atividade entre os coloridos barcos de pesca atracados no porto de Cananéia, uma pacata cidade de pescadores a 257 quilômetros ao sul de São Paulo.

No cais, no entanto, uma entrega de peixe congelado do Uruguai acaba de chegar e alguns homens com botas brancas estão ocupados descarregando paletes de espécimes decapitados rotulados como Galeorhinus galeus – tubarão-escola.

Esses peixes cinzentos e magros serão mantidos em uma câmara fria em prateleiras já abarrotadas até o teto com carcaças de tubarões-azuis, todos aguardando processamento e distribuição para cidades do interior.

“Por que trabalhamos com tubarão?”, diz Helgo Muller, 53, o gerente da empresa. “Porque as pessoas gostam; é uma proteína boa e barata. Não dá lucros absurdos, mas é decente o suficiente.”

O tubarão representa apenas uma pequena fração dos negócios da empresa, mas eles processam cerca de 10 toneladas por mês, diz ele, a maioria tubarão-azul importado de países como Costa Rica, Uruguai, China e Espanha.


Um homem segura três pequenos tubarões de cerca de 40 cm de comprimento

Tubarão é vendido em mercado de peixes em Peruíbe, no interior de São Paulo

Comunidades ao longo dos 4.600 milhas (7.400 km) da costa brasileira sempre comeram tubarões. “Faz parte da nossa tradição”, diz Lucas Gabriel Jesus Silva, um jovem de 27 anos cujo avô se mudou para a área na década de 1960 para pescar tubarões por suas barbatanas.

No entanto, o apetite generalizado por carne de tubarão que a empresa de Muller ajuda a alimentar agora está preocupando cientistas e ambientalistas, que se preocupam com a pressão insustentável sobre várias espécies.

A demanda fez do Brasil o maior importador e um dos maiores consumidores de carne de tubarão em um mercado global avaliado em cerca de R$ 14 bilhões,

“Os tubarões são muito vulneráveis ​​à superexploração, pois não se reproduzem com tanta frequência ou com tantos filhotes quanto os peixes ósseos”, explica o professor Aaron MacNeil, da Universidade Dalhousie, no Canadá.

Pesquisa publicada em abril apontou que 83% das espécies de tubarões e raias comercializadas no Brasil estavam ameaçadas, segundo classificação da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

Durante anos, os esforços de conservação se concentraram no comércio de barbatanas com a Ásia e na prática bárbara de “finning” – remover as barbatanas de um tubarão e devolver o animal ferido e indefeso, muitas vezes ainda vivo, ao mar. Mas pesquisas do início deste ano sugerem que as restrições ao finning não reduziram a mortalidade de tubarões, com pelo menos 80 milhões de tubarões ainda sendo mortos anualmente.

Barcos de pesca ancorados em cais em um pequeno porto com uma encosta verde ao fundo
A zona portuária de Cananéia, onde a pesca e o consumo de tubarões são uma tradição de longa data

“A carne foi meio que deixada de lado”, diz MacNeil, que está pesquisando o comércio global de carne de tubarão . “Só agora estamos percebendo o quão grande é o comércio. Seu valor certamente excedeu o das barbatanas .” A pressão sobre os tubarões por comida aumentou paralelamente ao declínio nas capturas de outros peixes, diz ele.

Tradicionalmente, os brasileiros comiam tubarão na moqueca , um ensopado de frutos do mar dos estados da Bahia e Espírito Santo. E muitos moradores de Cananéia lembram como seus parentes mais velhos usavam caldo de cabeça de tubarão e cartilagem como remédios caseiros.

Mas agora, vendido em filés ou bifes, o tubarão foi absorvido pela dieta dos brasileiros por ser mais barato que outros peixes brancos, sem espinhas e fácil de cozinhar. Agora aparece em cantinas de escolas e hospitais.

O fato de poucos brasileiros perceberem que estão comendo tubarão provavelmente ajudou a torná-lo onipresente. Enquanto os povos costeiros com uma tradição de comer tubarão reconhecem as diferenças sutis na textura e no sabor entre as espécies de tubarão, para a maioria dos brasileiros é apenas cação – um termo genérico sob o qual tanto a carne de tubarão quanto a de arraia são vendidas.

“Os brasileiros são muito mal informados – eles não sabem que cação é tubarão e, mesmo quando sabem, muitas vezes não sabem que esses animais correm risco de extinção”, diz Nathalie Gil, presidente da Sea Shepherd Brasil, uma organização de conservação marinha.

Em Cananéia, os moradores brincam: “É cação quando você come, e tubarão quando ele te come”. Mas os ativistas dizem que a rotulagem genérica impede decisões informadas por parte dos consumidores, e isso pode até afetar sua saúde devido às altas concentrações de poluentes perigosos nesses predadores de topo.

“Se soubessem, talvez não comessem”, diz Ana Barbosa Martins, pesquisadora da Universidade Dalhousie. 

 
Pessoas em uma galeria tirando fotos de um tubarão muito grande e mal empalhado que parece feito de papel machê

Um tubarão branco de 5 metros de comprimento capturado em Cananéia em 1992 é preservado no museu da cidade

A lei brasileira não permite a pesca de tubarões, mas eles podem ser capturados como captura acidental com poucas restrições. A frota de atum do país frequentemente captura quantidades maiores de tubarão do que de atum. “Teoricamente, está tudo dentro dos limites da lei. Mas é uma forma de pesca completamente desregulamentada”, diz Martins.

A captura e venda de espécies protegidas é proibida. Se forem capturadas, elas devem ser devolvidas ao mar, mesmo mortas – o que geralmente é o caso, dizem os pescadores.

Essa regra é difícil de aplicar. Silva, o pescador de Cananéia, lembra como os tubarões-tigre-da-areia (conhecidos localmente como mangona ) foram capturados impunemente muito depois de se tornarem uma das primeiras espécies a serem listadas como ameaçadas de extinção em 2004. “ A mangona era facilmente vendida no centro de distribuição. Foi só em 2017, eu acho, que os caras foram multados e então isso parou”, diz Silva. Ele alega que os pescadores não sabiam que ela era protegida.

A identificação errônea, seja acidental ou deliberada, é frequente em desembarques e importações nacionais. Santos identificou um espécime na remessa uruguaia visto pelo Guardian como um tubarão-liso-de-nariz-estreito, em vez do tubarão-escola listado no rótulo (ambas as espécies são consideradas criticamente ameaçadas no Brasil, mas sua importação é permitida).

Martins acredita que o monitoramento efetivo depende de autoridades se comunicarem melhor e colaborarem com comunidades pesqueiras, que frequentemente se ressentem de restrições que consideram irracionais. Isso ficou evidente nas opiniões de pescadores locais ao longo da costa de São Paulo. 

Uma mulher de meia-idade, de shorts jeans e botas de borracha brancas, caminha ao longo das bordas de um barco de pesca, com colinas verdes ao fundo
Lucia Rissato, pescadora de Peruíbe, vem de uma família de pescadores. Ela sempre vendeu tubarão para seus clientes

“Pescadores não lançam suas redes para capturar tubarões especificamente, mas às vezes um tubarão-martelo [protegido] aparece. O que você pode fazer?”, diz Lucia Rissato, que administra uma barraca de peixes em Peruíbe, uma cidade litorânea a cerca de 75 milhas ao norte de Cananéia.

Silva ecoa uma visão amplamente difundida em sua comunidade. “Um pescador tem que fazer seu trabalho”, ele diz. “A proibição vem com boas intenções, mas não impede [tubarões] de serem pegos em redes que são colocadas para a corvina do Atlântico, para a pescada.” Ele começou a ir para o mar aos 12 anos e acredita que as populações de tubarões não diminuíram “tanto quanto as pessoas dizem”, outra opinião amplamente difundida em Cananéia.

No ano passado, o governo adicionou cinco novas espécies à sua lista de espécies ameaçadas, incluindo o tubarão-mako, que é popular entre os consumidores. Rissato reclama que não pode mais vender nenhum tubarão capturado localmente, pois não está claro o que é permitido.

 
Uma mulher branca mais velha está sentada à mesa da cozinha

Ana Alinda Alves, que seleciona peixes no porto de Cananéia, diz: ‘Autoridades tratam pescadores como bandidos’

“Temos que vender em segredo, como drogas”, diz a mulher de 48 anos, que naquele dia tinha na geladeira um carregamento de cação-de-bico-fino — espécie permitida, mas que ela exibia tão furtivamente como se fossem contrabando.

Ana Alinda Alves, de 65 anos, separa peixes no cais de Cananéia e tem cinco filhos que pescam. “As autoridades tratam os pescadores como bandidos”, ela suspira. “O pescador vai para o mar, pega um cação e não consegue nem levar para casa para alimentar a família. Ele não roubou nada. Ele foi pescar, ele foi trabalhar.”

Em meio aos esforços globais para melhorar a proteção dos tubarões, o Brasil está tomando medidas. Um projeto de lei apresentado ao congresso no ano passado exigiria que o cação fosse rotulado como tubarão (ou raia) em todas as etapas da cadeia de produção, bem como a identificação das espécies. Outro projeto de lei propõe proibir a compra de tubarão em licitações públicas. E, pela primeira vez, o governo introduziu cotas para tubarão-azul capturado pelos atuneiros palangreiros do Brasil.

Mas essas provisões só podem ir até certo ponto, especialmente porque não afetam as importações. Conservacionistas como Gil argumentam que a opinião pública sobre esses animais ecologicamente vitais precisa mudar.

“Eles pegariam uma baleia que foi pega na rede e a serviriam para sua família? Não, porque é ilegal, mas também porque há respeito pelas baleias”, ela diz. 

Um tubarão-liso-de-nariz-estreito em um balcão de aço em uma peixaria com facas na parede atrás
Um tubarão-liso-de-nariz-estreito entre uma remessa do Uruguai rotulada como tubarão-escola. A identificação errônea, acidental ou deliberada, é frequente

Fonte: The Guardian

O trânsito na porta da Uenf: abrindo uma janela para os impactos do Porto do Açu na mobilidade urbana em Campos

Como professor da Universidade Estadual do Norte Fluminense, me tornei um observador privilegiado de um fenômeno que considero pouco estudado, mas que deveria merecer mais atenção das autoridades municipais em função dos graves riscos de acidentes de grande monta que são postos sobre a população de Campos dos Goytacazes.

Falo aqui do trânsito de caminhões indo e vindo do Porto do Açu e que, graças ao fechamento da Estrada dos Ceramistas, estão transitando diretamente em nossas ruas e avenidas, sem que se perceba qualquer controle sobre o conteúdo de suas cargas, especialmente aquelas que possuam maior potencial para graves acidentes.

É como se assistisse um filme de ação sentados calmamente em uma sala de projeção sem que aquilo tivesse o potencial de realmente explodir em nossas caras, o que, evidentemente, não é o caso da frota de caminhões pesados que hoje, na inexistência de um ferrovia ou rodovia apropriada, ocupam o mesmo espaço ocupado por carros de passeio, vans, ônibus de transporte público, motocicletas e até bicicletas. 

Ao longo do último ano passei a fotografar parte desses caminhões enquanto espero para poder entrar ou sair do campus Leonel Brizola.  Hoje, até para lembrar a importância que seria a retomada urgente das obras da Estrada dos Ceramistas ou a inauguração da chamada “ponte de integração”, posto abaixo parte do meu acervo fotográfico.  Aproveito ainda para cobrar que as autoridades municipais, a começar pelo IMTT, comecem a fiscalizar esse trânsito de caminhões pesados na área urbana de Campos dos Goytacazes, antes que algo realmente grave aconteça.

O agronegócio quer fazer um “rebranding” para tudo continuar como está

Setor se esforça para mudar a percepção do público; só não admite o que está errado dentro e fora das quatro porteiras

rebranding

Por Giovana Girardi para a “Agência Pública”

Quem passa frequentemente pelo entorno do estádio do Palmeiras, na zona oeste de São Paulo, já se acostumou com os avisos de interdição de trânsito na avenida Palestra Itália, antiga Turiaçu, em dias de jogos ou de grandes shows. Já tocaram ali de Paul McCartney a Titãs; de Taylor Swift a bandas de K-pop. Os sertanejos todos também estão sempre por lá, e foi um show de um deles que eu imaginei que iria acontecer no estádio na semana passada quando vi o aviso de um tal de Gaffff (assim, cheio de Fs mesmo). Não captei de imediato o que significava a sigla, mas vi que tinha agro e tinha festival.

Na verdade, era um negócio muito maior, o Global Agribusiness Festival, com a proposta nada modesta de ser “o maior festival de cultura agro do mundo”. Sim, tinha shows de sertanejos, mas também, como apresentado no prospecto: food (comida), fun (diversão), fair (feira de negócios) e forum (fórum de discussões). Daí os 4 Fs, em inglês, afinal, o evento era “global”. Afff.

Apesar de ter nascido no berço dessa cultura agro, em Barretos, e de saber cantar de cor e salteado não apenas Evidências, fujo da Festa do Peão, e sertanejos não passam pela minha playlist. Mas fiquei interessada na parte “forum” do evento – e a promessa de acessar “conteúdos que transformam o agro e o planeta”. 

(Sobre os outros Fs, aliás, recomendo a leitura da ótima análise feita pela colega Mariana Grilli para o UOL.)

A descrição das palestras, restritas a convidados, era tentadora: “Além de reforçar a importância do agro no cenário econômico brasileiro e internacional, nossos painéis irão debater os rumos do setor e seus principais desafios, principalmente em relação às mudanças climáticas, preservação de recursos naturais e soluções sustentáveis para uma população em crescimento”.

Anti-greenwashing Efforts Could Be the Opportunity Your Brand Is Looking For

O leitor mais desconfiado sentiu um cheirinho de greenwashing? Eu também. Mas vamos lá. Não é todo dia que a gente vê o agro se dispondo a colocar mudanças climáticas e preservação de recursos naturais como prioridade no debate. Veja que tem um “principalmente” ali no resuminho. Achei que merecia uma colher de chá.

De 19 painéis, quatro traziam a palavra “sustentabilidade” no título e só dois falavam explicitamente em “mudanças climáticas”. Fui conferir um deles, sobre “como mitigar e evitar os riscos dos eventos extremos”. É de imaginar que essa deve ser a preocupação número 1 do setor, que vem sofrendo sucessivas perdas por causa de secas e chuvas muito intensas. Só no Rio Grande do Sul estima-se que os temporais entre o fim de abril e o começo de maio tenham levado a um prejuízo de R$ 3 bilhões à agricultura gaúcha.

Logo na abertura da mesa, porém, ficou evidente que, apesar de se identificar como vítima do aquecimento global, o setor não quer discutir suas próprias contribuições para o problema. Luiz Roberto Barcelos, presidente da Agrícola Formosa, do Ceará, que moderava a discussão, foi rápido em explicar: “A mudança ocorre, mas não vamos discutir o motivo, não vamos entrar em polêmica. Se é o homem do campo ou o homem da indústria que polui, não vamos debater”.

Na sequência, Caio Souza, head de agronegócios da Climatempo, entrou no jogo: “Precisamos olhar o problema, não precisamos buscar o ator principal da mudança climática. A mudança climática é o ator principal. Somos coadjuvantes e precisamos criar oportunidades”.

Tudo bem, eu entendo que existe uma estratégia aí de não apontar dedos para não afugentar ninguém, superar resistências e, principalmente, o negacionismo. Para lidar com o problema, todo mundo precisa estar junto, então bora trabalhar, deixa essa história de responsabilidades para lá.

]Mas… quando estamos tratando das mudanças climáticas, se, por um lado, sim, é preciso falar em adaptação, em criar formas de se proteger e, obviamente, de sobreviver ao novo cenário que já está posto; por outro, não tem como não considerar o que está causando o problema para começo de conversa – que é o fato de a humanidade estar emitindo loucamente gases de efeito estufa, que se acumulam na atmosfera como não ocorria há mais de 3 milhões de anos.

Adaptar-se ao aquecimento global é tão fundamental quanto mitigá-lo: fazer todos os esforços possíveis para diminuir a quantidade de gases que aquecem o planeta.

Se em todo o mundo a maior parte desses gases é proveniente da queima de combustíveis fósseis, no Brasil as fontes principais são o desmatamento e a agropecuária (por causa, principalmente, da digestão do rebanho – o proverbial arroto do boi). Considerando que a maior parte das áreas desmatadas no Brasil acaba sendo convertida, posteriormente, em pastagem e agricultura, pesquisadores do Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa (Seeg) calculam que o setor, indiretamente, é quem mais colabora com as emissões brasileiras. 

Sinto muito, pessoal. Não discutir isso é não lidar com o elefante na sala.

Desenvolver técnicas para proteger as safras e os rebanhos, mas não trabalhar para zerar o desmatamento entre produtores que ainda o praticam só vai aumentar os riscos para o setor. Nunca é demais repetir: menos floresta = mais calor e menos chuva. Também é preciso trabalhar para que todo o crédito agrícola no Brasil seja vinculado a boas práticas que reduzam as emissões. Coisa que especialistas pedem todo ano, mas ainda não virou realidade no Plano Safra.

Infelizmente, não parece que o evento estava muito interessado em identificar os próprios problemas. O sentimento foi reforçado em outro painel a que assisti: “O rebranding no agronegócio: transformando a percepção sobre o setor”.

Rebranding é um conceito que vem da publicidade e que visa fazer um reposicionamento de marca, de imagem. A ideia é “fazer com que as pessoas mudem a percepção de alguma coisa”, como explicou o publicitário Marcelo Rizerio, da agência Euphoria, que se apresentou no painel. Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal, que moderou a mesa, disse que o agro precisa mostrar que é supertecnológico e, também, “como é difícil manter comida na mesa dos brasileiros”.

Eduardo Monteiro, diretor comercial e de marketing do Canal Rural, disse que histórias estão sendo contadas sem que o setor assuma o protagonismo delas. “Estão chegando na sociedade sem que a gente conte as nossas histórias”. Ainda defendeu: “Senão, um fica apontando o dedo para um, para outro. [Mas] o agro tem de ser o agro da paz. A discussão é saudável, mas o conflito e o confronto levam à rejeição”.

Fiquei esperando a hora em que alguém ia explicar qual história está chegando na sociedade, qual é a imagem que eles querem mudar. Mas assim como na mesa da mudança climática, ninguém quer tratar de problema. Um único slide trazia muito rapidamente palavras como desmatamento e agrotóxicos.

O agro quer mudar, mas não quer assumir o que está fazendo de problemático, seja da portaria para dentro ou para fora.

Achei simbólica uma frase que Rafael Furlanetti, sócio-diretor institucional da XP, que promoveu o evento, disse repetidas vezes em sua apresentação: “Quando você fala uma coisa diversas vezes para uma pessoa e ela não entende, o problema não é a pessoa, o problema é você, que não explicou direito”.

Agora pensa comigo. Esse é o mesmo agro que conta com uma propaganda na maior rede de televisão vendendo à exaustão que é isso, é aquilo, é pop, é tudo e tal. Se esse setor diz que sente a necessidade de fazer um rebranding, fico pensando se o problema é que ele realmente não está explicando direito ou se os fatos, na realidade, é que não são tão brilhantes assim.


Fonte: Agência Pública

Cláudio Castro lança sua versão das “Olimpíadas do Faustão”: a ponte que liga nada a lugar algum

ponte do lugar algum

Todos devem ser lembrar de um famigerado quadro dentro do dominical comandado por Fausto Silva (a.k.a., Faustão) em que incautos tentam cruzar um ponte mambembe sob o alvo de canhões que lançavam petardos cujo objetivo era lançá-las na água. Era a tal “Ponte do rio que cai”.  Pois bem, o dublê de cantor e governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, esteve ontem para lançar sua própria versão de uma ponte cujo histórico é de assombrar qualquer engenheiro. Falo aqui da “Ponte da Integração” que agora, graças a Cláudio Castro, será conhecida como a ponte que liga nada a lugar algum.

Antes de qualquer coisa, notemos o histórico dessa ponte preparado por um veículo da mídia corporativa campista:

1981 — Ponte João Figueiredo é lançada, mas pilares jamais receberam os tabuleiros da pista;
06/06/2014 — Descartada a possibilidade de conclusão da Ponte João Figueiredo, pedra
fundamental da Ponte da Integração é lançada pelo então governador Luiz Fernando Pezão, com
prazo de conclusão de um ano;
24/11/2018 — Pezão reafirma que obra seria concluída no seu mandato, que terminaria no mês
seguinte;
02/09/2019 — Cláudio Castro visita Campos, ainda como vice-governador de Wilson Witzel, e
promete retomada da obra “em breve”;
27/09/2022 — Castro, agora governador e candidato à reeleição, promete a conclusão da obra
até 31 de maio de 2023;
16/12/2022 — Após diplomação, Castro fala na conclusão em 30 de maio e diz que se a obra não
terminasse, “alguma cabeça iria rolar”;
30/05/2023 — DER-RJ adia conclusão para dezembro;
22/11/2023 — DER altera a previsão de conclusão para março de 2024.
01/03/2024 — DER faz nova alteração e conclusão da Ponte está prevista para junho de 2024
27/05/2024 — DER-RJ confirma entrega da Ponte para o final de junho
17/06/2024 — Governo do Estado diz que conclusão está prevista para setembro
05/07/2024 – Cláudio Castro adia entrega da ponte para ano que vem

Como se vê, Cláudio Castro já se utiliza da “ponte do lugar algum” com veículo de propaganda desde setembro de 2019 quando era vice-governador de Wilson Witzel, o breve.  Cláudio Castro também esteve na região diversas vezes prometendo a inauguração de sua versão da “ponte do rio que cai”, inclusive como candidato a reeleição.

Então, me digam, o que dizer agora do conhecimento tardio de que essa ponte, tão necessária quanto estratégica, estava sendo construída sem que tivesse as estradas que viabilizassem o fluxo de trânsito que será criado pela sua existência.

Das duas uma: ou Cláudio Castro é muito distraído ou é muito incompetente. Como ninguém chega aonde Castro chegou de forma distraída (distraídos são seus eleitores), resta a ele a incompetência.

E ainda, uma perguntinha inocente: quantos milhões já saíram dos cofres estaduais para viabilizar a “ponte que liga nada a lugar algum”? 

Finalmente, há que se lembrar que no caso da ponte do Faustão, tinha gente que conseguia chegar do outro lado. Na ponte de Cláudio Castro, isso ainda vai demorar.

Resgates de trabalhadores em MG têm ataques e ameaças

Após resgate de trabalhadores em condições análogas à escravidão em Minas Gerais, deputado criticou fiscalização do trabalho e pediu mudança na norma que orienta fiscalização trabalhista no campo

café escravo

Por Leonardo Sakamoto para a “Repórter Brasil”

Após 24 traballhadores serem resgatados de condições análogas às de escravo em três fazendas de café em Nova Resende, Juruaia e Areado, no Sul de Minas Gerais neste mês, o deputado federal Emidinho Madeira (PL-MG) foi à tribuna da Câmara pedir apoio do seu partido e da bancada ruralista para mudar a norma que orienta a fiscalização trabalhista no campo.

Dados do Ministério do Trabalho e Emprego apontam que, em 2023, a atividade de onde mais trabalhadores foram resgatados foi o cultivo de café, com 300 pessoas.

Em seu pronunciamento, acusou a fiscalização de causar pânico e criticou que os policiais e servidores públicos envolvidos no combate à escravidão portem armas pesadas e fiquem um longo período em cada propriedade. Produtores de café do Sul e Sudoeste de Minas são parte da base eleitoral do deputado, que é coordenador da Frente Parlamentar do Café.

“Senhores auditores, a tinta da caneta, essa multa, é muito pesada e tira muita gente da atividade. Onde vocês passaram nessa semana, a colheita desse ano e do ano que vem dos pequenos produtores já estão comprometidos com a justiça e o nome travado”, afirmou. Propôs que, ao invés das operações de resgate, houvesse “orientação” e “diálogo” com produtores.

A “dupla visita”, quando a fiscalização primeiro orienta e só em outro dia pune no caso de manutenção da irregularidade é antiga demanda de alguns setores econômicos. Ela já é prevista pela legislação em casos de infrações leves, mas segue barrada para o crime de escravidão e trabalho infantil.

No dia seguinte, em uma reunião da Comissão da Agricultura e Pecuária, ele repetiu o discurso diante do ministro da Agricultura Carlos Fávaro, que prometeu visitar a região para isso ser “pacificado”. A questão: pacificar a fiscalização ou o trabalho escravo?

Seu pai, o produtor rural Emídio Alves Madeira, já esteve relacionado no cadastro de empregadores responsabilizados por trabalho escravo, a chamada “lista suja” pelo menos duas vezes: em outubro de 2017, por causa de um resgate de 14 pessoas em Bom Jesus da Penha (MG) ocorrido em 2016; e em março de 2017, por outra operação que envolveu 60 trabalhadores no mesmo município, mas em outra fazenda, em 2015. Madeira faleceu em 2021 por complicações da covid-19.

Em 6 de junho, uma operação da Polícia Federal teve como alvo um homem que disparou áudios com ameaças contra a fiscalização do trabalho que atua na região cafeeira de Minas Gerais. Ele prestou depoimento e teve o celular apreendido.

Carlos Calazans, chefe da Superintendência Regional do Trabalho, afirmou à coluna que a PF está investigando se ele estava agindo a mando de alguém, se estava articulado com outras pessoas e se é “gato”, como são chamados os contratadores de mão de obra a serviço de fazendeiros. Os áudios chegaram aos servidores públicos durante fiscalização em lavouras na região do município de Muzambinho, em maio, e foram encaminhados à PF, que identificou o autor.

“Se juntar todo mundo, os trabalhadores, 30 pessoas pegando café, na hora em que a fiscalização chegar lá, quebra o carro deles, mete o pau neles e desce o cacete neles. Aí, vai parar com essa pouca vergonha aí”, diz um dos áudios.

As operações do Grupo Especial de Fiscalização Móvel, que resgatam trabalhadores escravizados, são coordenadas pela Inspeção do Trabalho do Ministério do Trabalho e Emprego em parceria com o Ministério Público do Trabalho, a Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal, o Ministério Público Federal e a Defensoria Pública da União, entre outras instituições. Também há equipes ligadas às Superintendências Regionais do Trabalho nos estados, que também contam com o apoio das Polícias Civil, Militar e Ambiental.

Entidades repudiam ataques à fiscalização do café

A equipe de fiscalização disse à coluna que a situação encontrada nas três fiscalizações foi “bem assustadora”.

“Em todos os casos encontramos evidências de tráfico de pessoas, intermediado por gatos [contratadores de mão de obra a serviço do fazendeiro], com promessas enganosas e trabalhadores viajando sem saber o valor a ser pago. Também encontramos inexistência de registros, alojamentos degradantes, falta de água potável, de instalações sanitárias e de equipamentos de proteção, além de casos em que os trabalhadores tinham que comprar as próprias ferramentas”, afirmaram auditores fiscais.

As declarações do deputado no dia 18 de junho levaram a uma série de notas de repúdio, bem como de apoio ao combate à escravidão contemporânea, por parte de organizações da sociedade civil.

O Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais do Trabalho afirmou que “a presença de autoridades policiais nas operações é uma medida de segurança, não um ato de intimidação aos produtores”.

“Tal medida é necessária porque os casos de agressões, ameaças, intimidações, e até assassinatos, infelizmente são constantes.” O sindicato lembra que a Chacina de Unaí, em que quatro funcionários do Ministério do Trabalho foram executados a manda de proprietários rurais, ocorreu em Minas.

O Polo Agroecológico do Sul e Sudoeste de Minas também publicou nota criticando as declarações do deputado Emidinho Madeira, no dia 26 de junho, e em defesa das ações de resgate de trabalhadores em condições análogas à escravidão na produção de café.

“Nossa região está em pânico, não pela fiscalização, que ainda é insuficiente, mas pela quantidade de violações de direitos e pela existência de trabalhadoras e trabalhadores em condições análogas à escravidão na cadeia produtiva do café”, diz.

A Articulação dos Empregados e Empregadas Rurais do Estado de Minas Gerais e a Comissão Pastoral da Terra divulgaram nota no mesmo dia: “A tão atacada Norma Regulamentadora (NR-31) é um importante instrumento que garante aos empregados rurais fixos e safristas o mínimo de saúde e segurança no trabalho no ambiente do trabalho rural”.

E completaram: “Atacar a NR-31 como vimos nas nos discursos dos deputados é, no mínimo, estimular a precarização do trabalho, o desprezo à da saúde e da vida dos trabalhadores rurais que são historicamente expostos ao sol, chuva, sereno, poeira e muito agrotóxicos (veneno) aplicado na agricultura, inclusive nos cafezais do Sul de Minas e do Brasil”.

Trabalho escravo contemporâneo no Brasil

A Lei Áurea aboliu a escravidão formal em maio de 1888, o que significou que o Estado brasileiro não mais reconhece que alguém seja dono de outra pessoa. Persistiram, contudo, situações que transformam pessoas em instrumentos descartáveis de trabalho, negando a elas sua liberdade e dignidade.

Desde a década de 1940, a legislação brasileira prevê a punição a esse crime. A essas formas dá-se o nome de trabalho escravo contemporâneo, escravidão contemporânea, condições análogas às de escravo.

De acordo com o artigo 149 do Código Penal, quatro elementos podem definir escravidão contemporânea por aqui: trabalho forçado (que envolve cerceamento do direito de ir e vir), servidão por dívida (um cativeiro atrelado a dívidas, muitas vezes fraudulentas), condições degradantes (trabalho que nega a dignidade humana, colocando em risco a saúde e a vida) ou jornada exaustiva (levar ao trabalhador ao completo esgotamento dado à intensidade da exploração, também colocando em risco sua saúde e vida).

Números detalhados sobre as ações de combate ao trabalho escravo podem ser encontrados no Painel de Informações e Estatísticas da Inspeção do Trabalho no Brasil.


A universalização do mal: ou, a pirataria das publicações e citações

citações

Por Douglas Barreto da Mata

O assunto me é estranho, por todos os lados da minha reduzida inteligência. Não sei quase nada sobre os problemas da classificação científica, ou classificação acadêmica, além do que aprendi com meu amigo Marcos Pedlowski, aqui em seu blog.  Assim, a comparação que proponho nem pode ser levada muito a sério, mas, lá vai: O que aconteceu com as universidades?  Eu diria que tudo, e nada, como disse o Saladin, no filme Cruzada, para seu antagonista, o Barão de Ibelin, quando este último lhe questionou quanto valia Jerusalém.

A universidade antecede o sistema capitalista, mas foi na hegemonia desse modo de produção que as universidades foram alçadas ao centro das atenções, já que o conhecimento produzido agrega poder e valor (no sentido figurado, e não marxiano da palavra) à produção de mercadorias, bens e serviços, seja através do desenvolvimento de novas ferramentas, seja na elevação da produtividade da mão de obra.

Apesar das universidades torcerem os narizes para essa função precípua (e meramente instrumental), é isso que elas são, estuários do capitalismo, onde o sistema se realimenta de métodos e saberes para produzir mais, e coisificar mais as pessoas e o ambiente.

Sim, há a tradição das ciências sociais ou humanas, como gostam os acadêmicos, mas, ainda assim, mesmo nesse campo onde poderíamos ter uma produção de conhecimento que desafiasse a ordem estabelecida, o que vemos é, na maioria dos casos, a reprodução de lógicas que só acomodam estes estamentos vigentes, partindo de uma premissa que compromete qualquer postulado científico:  Existe chance de capitalismo e democracia conviverem.  Erro grave, que contamina toda a estrutura do pensamento ocidental desde a Revolução Francesa.

Raríssimas universidades ousaram ir além dos limites dos muros da totalidade “democrática” capitalista, isto é, no capitalismo, você tem o direito de escolher não ter escolha, ou escolher o que já decidiram serem as suas opções.  As universidades que o fizeram foram duramente atacadas.  Pois bem, dito isso, o que é que o sistema de classificação científica de produções acadêmicas tem a ver com temas econômicos ou de política econômica?  Novamente, tudo e nada. O texto que me chamou a atenção está [Aqui!].

Ora, o que aconteceu com a Universidade de Salamanca e seu ávido reitor, é mais ou menos como acontece no mercado financeiro e o modelo de agiotagem/extorsão mundial, que se materializa em juros.  O sistema financeiro se apoia em assimetrias mundiais para movimentar fluxos de capitais, enquanto determina as condições para quem os recebe, mas antes, eles destroçam os países e seus ambientes econômicos com toda sorte de ataques institucionais e econômicos, e depois promovem as chantagens “classificatórias”, promovidas pela mídia “especializada” e por agências de “rating”.  Criam o problema, e depois, dizem que vão te vender a solução, como as milícias, as máfias, e sim, como as agências de classificação acadêmicas.

Essa simbiose não é acidental, ou desprovida de conexão teleológica, ao contrário. No sistema capitalista, e agora, no pós-capitalista, tudo se conecta.  Não seria errado chamar essas agências de classificação acadêmicas de “agências de rating”, como ocorre nos mercados financeiros, e ambas funcionam como fatores de coação, empurrando os ambientes onde operam para as soluções fáceis.

Em todo mundo, o sistema capitalista move suas baterias contra as instituições acadêmicas consideradas mais perigosas (leia-se, autônomas), e no caso brasileiro, isso se dá com o estrangulamento das verbas públicas de custeio e investimentos.

No caso dos países e as pessoas, o dinheiro dos juros extorsivos, no caso das universidades, as fraudes em citações, que se transformam em recursos, que como os juros, viciam as instituições, que depois de apanhadas nessas redes, raramente conseguem se livrar, porque acabam sendo uma (ou a única) fonte de financiamento.

Quando pegas na fraude, são as universidades e seus pesquisadores que levam a (má) fama, e o buraco aumenta, logo voltamos ao círculo vicioso. Nada mais adequado para o pós-capitalismo que um dinheiro fictício, proteção por quem nos ameaça, e pós-verdade e pseudo-ciência.  Como se vê, piratas, mercados e universidades não são tão diferentes como se imaginam, ou ao menos, como as universidades gostam de dizer que são.

E o Pantanal arde em chamas impulsionadas pelo agronegócio depredador

Imagens de satélite mostram focos de incêndio na região do Pantanal, em cidades do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. O bioma bateu recorde no primeiro semestre deste ano com a maior quantidade de focos de incêndio desde 1998, início da série história de dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) sobre focos de queimadas no país.

Os focos de incêndios no Pantanal foram registrados por imagens de satélites entre os dias 24 e 25 de junho.  Os municípios onde as queimadas ocorreram foram Cáceres, Poconé (ambas no Mato Grosso) e Corumbá (no Mato Grosso do Sul, onde o governo decretou situação de emergência).

No Pantanal, foram 3.262 focos de incêndio entre 1º de janeiro e 23 de junho. O número é 22 vezes o registrado no mesmo período de 2023, segundo dados do INPE. Corumbá concentra a maior parte dos incêndios, com 1.291 focos.  Como era de se esperar, a população tem sofrido com a fumaça que se espalha.

A causa desse aumento explosivo de focos de incêndio é uma combinação de fatores climáticos com a expansão da pecuária industrial e das áreas utilizadas para expansão de monoculturas, especialmente os de soja e cana de açúcar.

Se não realmente sério for feito para impedir o avanço do desmatamento no Pantanal, a perspectiva é de que um dos maiores alagados da Terra seque de forma irreversível.

Abaixo algumas imagens das torres de fumaça que hoje sobem no Pantanal. E lembrem: Agro é fogo!

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O caso de Juan Manuel Corchado, reitor da Universidade de Salamanca, deverá provocar uma mudança nos sistemas de medição de mérito científico

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Juan Manuel Corchado, pego em escândalo da fábrica de citações, apresentando um seminário na Universidade de Salamanca

Por Adam Marcus e  Ivan Oransky para o “El País”

De longe, a posse de Juan Manuel Corchado como reitor da Universidade de Salamanca no início deste ano provavelmente pareceu um toque final natural e merecido à carreira deste notável acadêmico. Afinal, Corchado, um cientista da computação muito prolífico, é um dos investigadores mais citados em Espanha, o que demonstra a elevada estima que o seu trabalho goza entre os seus colegas.

Mas, como o EL PAÍS vem noticiando há meses, a impressionante reputação de Corchado como acadêmico pode ser imerecida. Muitas de suas citações vêm de seu próprio trabalho, e ainda por cima de um trabalho doentio: breves apresentações em conferências que Corchado carregou em seu site e depois referenciou, como fomos os primeiros a apontar em 2022. O caso agora chamou a atenção do Comitê Comitê Espanhol de Ética na Investigação, que instou a Universidade de Salamanca a exercer “os seus poderes de fiscalização e sanção” face às “alegadas más práticas” de Corchado.

Porque é que estas más práticas ajudaram Corchado e a sua universidade? Porque muitos dos critérios de classificação – factores que ajudam a determinar o financiamento das agências governamentais, bem como a competir pela matrícula dos estudantes – são baseados em citações, que são especialmente fáceis de manipular. Por outras palavras, quanto melhor os cientistas olham para o papel, melhor impressão se tem das suas instituições.

O caso do Corchado nada mais é do que um exemplo notório do que tem causado a obsessão pelas medições. No Vietnam, os pesquisadores falam constantemente de um sistema de classificação que acaba de ser divulgado, mas a comunicação social considera-o “caótico” e cheio de erros. Na semana passada, o The Economist publicou um artigo bajulador sobre a ciência na China. “A China tornou-se uma superpotência científica”, declarou a revista, e “lidera o índice Nature , criado pela editora com o mesmo nome, que contabiliza contribuições para artigos que aparecem num conjunto de publicações de prestígio”.

O que o The Economist omitiu – mas já tinha apontado antes – é que a China é responsável por bem mais de metade dos mais de 50.000 estudos retratados no mundo, uma distinção duvidosa que pode ser atribuída diretamente à atenção rigorosa que o país presta às métricas. Até estas práticas serem oficialmente proibidas em 2020, os investigadores chineses recebiam grandes bônus em dinheiro pela publicação de artigos em revistas incluídas no índice da Nature, e os docentes clínicos das escolas médicas – cujo trabalho não envolve investigação – eram obrigados a publicar artigos para ganhar o cargo e avançar, apesar de não ter treinamento para isso.

Estes incentivos eram, em essência, convites diretos à prática de fraudes, como demonstrou um inquérito recente a investigadores na China. De que outra forma poderiam os acadêmicos impulsionar as suas carreiras senão aumentando a sua produção, criando círculos de citações ou mesmo recorrendo a fábricas de artigos científicos fraudulentos?

Embora seja fácil culpar o governo chinês pela corrida armamentista das citações, as universidades nada fizeram para impedi-la e, em muitos casos, até incentivaram o sistema a funcionar exatamente como funciona. Na Índia, por exemplo, uma escola de odontologia concebeu o que um crítico chamou de “esquema repugnante” de autocitações para chegar ao topo do ranking na sua especialidade. Na Arábia Saudita, algumas universidades contrataram matemáticos proeminentes como professores honorários para que as suas nomeações contassem nas classificações das suas instituições.

O que nos traz de volta ao caso de Corchado. Não está claro por que ele se citou tanto, porque ele nunca respondeu aos nossos pedidos de comentários há dois anos, exceto para dizer que havia quebrado o braço e demoraria a responder. Mas, naquela época, Alberto Martín Martín, especialista em bibliometria da Universidade de Granada, destacou que a Espanha ainda dá muita atenção ao fator de impacto das publicações para avaliar a produção de seus pesquisadores, ainda mais do que em outros países .

De certa forma, a opinião pública deveria agradecer a Corchado por soar o alarme no EL PAÍS e no Comitê de Ética em Pesquisa espanhol. O fato de continuar ou não reitor da Universidade de Salamanca é menos importante do que o fato de este episódio provocar uma mudança real em Espanha e no resto do mundo. Há movimentos em curso, incluindo a Declaração sobre Avaliação da Investigação (DORA) e o Manifesto de Leiden, para encorajar um afastamento das citações e outras medidas em direcção a estratégias que recompensem o tipo de cultura da investigação que queremos e precisamos.

As universidades e os governos têm a oportunidade de reformar as suas estratégias de avaliação antes que as coisas piorem ainda mais. Eles podem substituí-los pela forma usual de avaliar o trabalho dos pesquisadores: lendo-o.

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Adam Marcus e Ivan Oransky são os fundadores da Retraction Watch , uma organização americana especializada em descobrir fraudes científicas.


Fonte: El País

Queimadas aumentam na Amazônia, apesar de queda no desmatamento

Área queimada chegou a 10 milhões de hectares em 2023, mesmo com redução da perda de vegetação nativa no Arco do Desmatamento, na porção sul do bioma Amazônico

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Por Lucas Guaraldo para o Ecodebate

Apesar da redução de 50% no desmatamento na Amazônia, a pior seca em 125 anos aumentou o fogo em outras áreas do bioma, elevando a área queimada total para 10 milhões de hectares, 36% a mais do que em 2022.

Dados foram publicados Nota Técnica Amazônia em Chamas nº 12, produzida por pesquisadores do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e Nasa e publicada nesta sexta-feira, dia 28.

“Tivemos a redução do desmatamento e da área queimada nos municípios do chamado Arco do Desmatamento, mas houve um aumento no restante do bioma . A gente sempre pensa que reduzir o desmatamento vai ajudar a reduzir o fogo, mas os resultados deste estudo demonstram claramente os efeitos das condições climáticas nesse processo”, destaca Ane Alencar, diretora de Ciências do IPAM e uma das autoras da nota.

O estudo aponta que, dos 71 municípios considerados prioritários para ações ambientais do governo federal, todos localizados no Arco do Desmatamento, 62 viram uma redução na área desmatada, representando 88% de toda a redução no desmatamento em 2023. Além disso, dos 180 municípios amazônicos que conseguiram reduzir sua área queimada no ano passado, 47 eram prioritários e responderam por 68% da redução da área queimada registrada neste grupo.

Os dados confirmam uma redução do desmatamento e da área queimada na região do Arco, que vai do norte do Acre ao sudeste do Pará, passando pelo norte de Rondônia e sul do Amazonas. Ao todo, são cerca de 50 milhões de hectares de fronteira agrícola onde tipicamente encontram-se os maiores índices de desmatamento da Amazônia.

Apesar disso, a porção norte da floresta passou pelo caminho oposto: a área queimada aumentou em 245 dos municípios, sendo apenas 24 considerados prioritários pelo governo, totalizando um crescimento de 4 milhões de hectares nessa região. A mudança também pode ser percebida nos meses com mais alertas de fogo. Se em 2022 a floresta queimou principalmente nos meses de agosto e setembro, 2023 registrou uma área queimada maior em fevereiro e março, quando o norte da floresta está mais seco.

“Viemos de um ano com uma seca severa e estamos iniciando um ano mais seco do que o normal, anunciando que vamos ter dificuldades com o período de queimadas. Uma das recomendações é que prestemos atenção na geografia dos incêndios florestais e das áreas afetadas pela seca. A gente viu que teve essa diminuição no Arco do Desmatamento, mas uma outra região foi muito impactada e isso elevou bastante a área queimada”, alerta Ane.

Perfil das queimadas mudou

A combinação de redução do desmatamento e aumento da seca também trouxe mudanças nos perfis das queimadas, criando dificuldades para a estratégia de combate ao fogo. Em 2023, 57% do fogo atingiu áreas de vegetação nativa, principalmente campos e florestas, enquanto áreas de pastagem concentraram 43% da área queimada. O resultado é o inverso do registrado em 2022, quando 37% da área queimada era natural e 62% eram áreas de uso agropecuário. A mudança reflete as diferenças entre o norte da Amazônia, mais preservado e coberto por florestas, e o sul, com uma agricultura consolidada e mais áreas de pastagem.

Dentro dos incêndios florestais, a área queimada em florestas aumentou 123%, passando de 1,3 milhão de hectares em 2022 para 3 milhões em 2023.

Os campos naturais – que incluem campos alagados, campinaranas e lavrados – queimaram 93% a mais do que em 2022, passando de 2,3 milhões de hectares afetados pelo fogo para 4,5 milhões.

“É importante intensificar as medidas para conter o desmatamento na porção norte da Amazônia, de forma a reduzir as possíveis fontes de ignição para incêndios. Esse ponto de atenção se faz presente para a estação seca de 2024, em que a Amazônia, apesar da instalação do La Niña, que provoca mais chuvas na região, ainda apresenta riscos de sofrer com um meio de estação seca muito severa, devido ao estresse hídrico do ano anterior não ter sido suprido pelo período chuvoso no início de 2024, acendendo a luz crítica de alarme para a nova estação de fogo”, alertam os pesquisadores na nota.


Fonte: Ecodebate

Um mistério da meia noite: A Uenf e sua profusão de pré-candidatos a vereador para eleições municipais de 2024

misterio da meia noite

O Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro trouxe hoje a liberação de quatro servidores da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf)  para participação da campanha eleitoral de 2024, incluindo aí um ex-reitor e um líder sindical em atividade. Mas além desses quatro servidores, já se tem notícia de pelo menos mais duas candidaturas de personagens ligados à universidade criada por Darcy Ribeiro (incluindo um ex-líder do DCE e ainda atual presidente da Associação de Pós-Graduando).

Em minha vivência de quase 27 anos dentro da Uenf, não me recordo de tantos candidatos associados de um jeito ou de outro à esta universidade.  Esse alto número de virtuais candidatos a vereador poderia indicar que vivemos uma espécie de ápice da mobilização política e que essas candidaturas refletem alguma decisão coletiva de colocar a Uenf em um novo patamar de abertura às coisas do mundo, em uma espécie de conversão a uma relação mais democrática com a população. Aliás, desconfio que vai ter candidato usando esse argumento como elemento programático.

Entretanto, como alguém que vivencia o cotidiano da instituição, penso que qualquer associação feita à Uenf por esses candidatos será algo que refletirá mais um ato de vontade do que uma expressão das relações políticas estabelecidas dentro da Uenf. 

O fato é que lembrando um discurso em que John F. Kennedy dizia para que os jovens estadunidenses parassem de perguntar o que o seu país poderia fazer por eles e começassem a se perguntar o que poderiam fazer por ele, eu diria que algumas dessas candidaturas refletem trajetórias de personagens que mais usaram a Uenf em benefício próprio do que contribuíram para a construção dela enquantoa universidade estratégica que Darcy Ribeiro e Leonel Brizola esperavam. 

Cabe lembrar que esse tipo de apropriação partidária da Uenf era um dos grandes temores de Darcy Ribeiro que postulava a necessidade da universidade brasileira se livrar do que ele entendia ser usos inapropriados para fins corporativos.  Felizmente o criador da Uenf não está mais entre nós para se certificar de que uns dos seus temores pode ter se confirmado de uma forma contundente.

Uma questão que inevitavelmente surgirá em relação a essa pleiade de candidatos e sua viabilidade eleitoral.  Se considerarmos o tamanho da comunidade universitária e aqueles aptos a votar, as chances serão baixas, especialmente porque uma parte significativa aparece como estando associada ao Partido dos Trabalhadores  (PT) que sabemos há muito tempo não elege um vereador que seja.

Mas se as chances de eleição são baixas, quais são as razões para tanta pré-candidatura? Esse é o que poderíamos chamar, lembrando de uma famosa música de Zé Ramalho, de um mistério da meia noite.