Turbinado pelo desmatamento, vírus Oropouche está em ascensão na América do Sul e pode sobrecarregar sistemas de saúde

O desmatamento e as mudanças climáticas podem ajudar os mosquitos a espalhar o vírus Oropouche para muito além da Bacia Amazônica

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Casos de febre Oropouche em Manaus, na Amazônia brasileira, têm sido associados ao desmatamento. Michael Dantas/ AFP via Getty Images

Por Sofia Moutinho para a Science

Um patógeno pouco conhecido chamado vírus Oropouche está em movimento na América do Sul, alarmando cientistas e especialistas em saúde pública. O Brasil notificou 5.530 casos até agora este ano, em comparação com 836 em todo o ano de 2023. Bolívia, Colômbia e Peru também registraram aumentos. Embora o vírus tenha sido tradicionalmente endêmico na Bacia Amazônica, agora está adoecendo pessoas distantes da floresta tropical. Em maio, Cuba relatou seus primeiros casos.

O aumento deixou os cientistas preocupados com o fato de que o vírus, transmitido principalmente por mosquitos que picam, possa ser o próximo a causar um grande surto na América Latina, que lutou contra grandes epidemias de Zika e Chikungunya na última década e agora está no meio de uma das maiores epidemias de zika e chikungunya. as piores epidemias de dengue de todos os tempos. A maioria dos casos de febre Oropouche são leves, com sintomas como dor de cabeça, dores no corpo, náuseas e erupções cutâneas – mas o vírus também pode causar inflamação cerebral e problemas neurológicos, incluindo vertigens e letargia. E mesmo uma epidemia ligeira poderia sobrecarregar os sistemas de saúde do continente.

 “O que mais nos preocupa é a expansão de uma doença que estava praticamente restrita à Amazônia, que tem baixíssima densidade populacional, para áreas com maior densidade populacional”, diz Marcus Lacerda, pesquisador de infectologia da Fundação Oswaldo Cruz ( Fiocruz).

A estirpe que provocou o surto teve origem numa alteração genética há uma década, mas o vírus Oropouche foi identificado pela primeira vez em 1955, na aldeia de Oropouche, em Trinidad e Tobago. Em 1960, apareceu em amostra de sangue de uma preguiça doente durante a construção da rodovia Belém-Brasília. Um ano depois, muitas pessoas em Belém adoeceram com o que se acreditava ser a febre Oropouche. A maioria dos cerca de 30 surtos na América Latina desde então também ocorreu na Bacia Amazônica. Na floresta, o vírus circula entre primatas, preguiças e aves; não está claro qual inseto o espalha lá. Em ambientes urbanos, o mosquito Culicoides paraensis, do tamanho de uma cabeça de alfinete , transmite a doença entre humanos.

Os primeiros casos do surto atual foram detectados em Roraima, estado do norte do Brasil, no final de 2022. Desde então, a doença surgiu ao longo da populosa Costa Leste do Brasil, incluindo os estados do Rio de Janeiro, Santa Catarina, Bahia, e Minas Gerais. Alguns pacientes viajaram pela região amazônica, mas outros não, o que significa que o vírus agora circula localmente. Os números provavelmente estão subestimados: os sintomas do Oropouche se assemelham aos da dengue, do zika e de várias outras doenças, e uma infecção só pode ser confirmada por meio da reação em cadeia da polimerase ou testes de anticorpos.

Para os poucos cientistas que estudam a febre Oropouche, nada disto foi uma grande surpresa. Desde 2000, o vírus tem se aventurado cada vez mais fora de sua região endêmica, diz a virologista Socorro Azevedo, do Instituto Evandro Chagas, centro de pesquisa de doenças tropicais na Amazônia brasileira. “O que estamos vendo é a crônica de uma tragédia anunciada”, diz ela.

O aumento da circulação de pessoas em todo o continente e entre áreas florestais e urbanas poderá estar a contribuir para a propagação. Os cientistas também veem uma ligação clara com o desmatamento , que poderia deslocar os animais hospedeiros do vírus e fazer com que os mosquitos se alimentassem de pessoas em vez de animais. Em Manaus, capital do estado do Amazonas, os primeiros casos do atual surto foram detectados perto de áreas recentemente desmatadas. Estudos utilizando imagens de satélite confirmaram a ligação. “Em vários locais onde o vírus foi detectado na América do Sul, detectamos consistentemente padrões de desmatamento”, diz Daniel Romero-Álvarez, epidemiologista da Universidade Internacional SEK em Quito, Equador.

As alterações climáticas provavelmente também desempenharam um papel. As temperaturas mais altas aceleram a maturação dos mosquitos, e o aumento das chuvas e das inundações criam mais água parada onde os insetos podem se reproduzir.

O Brasil agora está intensificando a vigilância. No passado, apenas laboratórios da região amazônica faziam testes para a doença, mas em janeiro o país decidiu testar 10% das amostras de pacientes em todo o país cujos sintomas correspondem à febre Oropouche, mas apresentam resultado negativo para zika, chikungunya e dengue. A Organização Pan-Americana da Saúde instou outros Estados-membros a intensificarem também a vigilância e organizou um workshop para formar investigadores e médicos de todo o continente sobre como diagnosticar a doença e realizar análises genómicas do vírus.

Não se sabe se a febre Oropouche matou alguém, mas algumas suspeitas de morte estão sob investigação, afirma o virologista da Fiocruz, Felipe Naveca. “À medida que aumenta o número de pessoas infectadas, aumenta também a chance de descobrirmos impactos inesperados”, diz Naveca, que observa que o Zika, uma doença que inicialmente parecia relativamente inócua, levou a uma onda de bebês nascidos com cérebro subdesenvolvido de mulheres infectadas com o vírus. O vírus Oropouche também pode infectar o cérebro, ressalta.

Controlar Oropouche é um desafio. C. paraensis é “um vetor negligenciado de uma doença negligenciada”, diz Joaquim Pinto Nunes Neto, entomologista do Evandro Chagas. “Ninguém se importou em estudar como controlá-lo.” Os minúsculos mosquitos passam facilmente pela malha dos mosquiteiros e os repelentes comuns de insetos podem não funcionar, diz Nunes Neto. O que pode ajudar é eliminar o desperdício de alimentos e as folhas mortas que atraem os insetos e drenar os reservatórios de água onde as fêmeas depositam os ovos.

Até onde a doença pode se espalhar não está claro. C. paraensis foi encontrado desde os Estados Unidos até o norte da Argentina, mas nem todos os lugares apresentam as condições adequadas para a propagação do Oropouche. Um modelo publicado em 2023 por Romero-Álvarez que levou em consideração o clima atual e a perda de vegetação sugeriu que até 5 milhões de pessoas nas Américas estão em risco . Mas o número é provavelmente subestimado, uma vez que o modelo não previu a atual expansão da doença para grandes cidades como o Rio de Janeiro e não teve em conta a desflorestação e as alterações climáticas futuras. Também não levou em conta a possibilidade de que o mosquito doméstico comum ( Culex quinquefasciatus ) – e talvez outros insetos – possam transmitir o Oropouche, como sugerem alguns estudos.

Os cientistas temem que, à medida que o vírus se espalha, possa sofrer alterações genéticas que o tornem mais perigoso. Os genomas da maioria dos vírus transmitidos por insetos consistem em apenas um segmento de RNA, mas o vírus Oropouche possui três. Quando duas cepas diferentes infectam a mesma célula, elas podem trocar segmentos, resultando em uma combinação nova e diferente de genes. Naveca, que lidera um grupo que rastreia mutações de Oropouche, atribuiu o atual surto a uma variante que surgiu no Brasil em 2015 a partir de um rearranjo entre linhagens de vírus do Peru e da Colômbia. Não está claro se essa troca tornou o vírus mais transmissível, diz Naveca.

Com tantas perguntas a responder, é urgente que os testes sejam alargados e que mais investigadores estudem o vírus Oropouche e rastreiem as alterações no seu genoma, Naveca diz: “Precisamos tirar este vírus das sombras”.

Sofia Moutinho é jornalista científica no Rio de Janeiro


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Fonte: Science

Dias cinzentos

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Por Gilce Sampaio

Era noite, estava dormindo tranquila quando fui acordada pela chuva forte. Enquanto para muitas pessoas é convidativo dormir com chuva, para os gaúchos é assustador.

Moro em uma região que não foi tão atingida dessa vez, mas o trauma do que vivi no dia 12 de julho de 2023 agregado a tudo que tem acontecido ultimamente, me fez mais do que perder o sono, ficar em alerta.

Corri para o quarto da minha filha pequena, que já estava acordada e assustada, para acalmá-la. Ela se aninhou nos meus braços tampando os ouvidos tentando não ouvir o temporal. Enquanto eu dizia para ela que tudo iria ficar bem, mentalmente eu rezava para Deus e para a Mãe Natureza ter piedade de nós e não levar o telhado da nossa casa, como tinha acontecido para muitos em Campo Novo e no Município vizinho Sede Nova.

Diferente deste mês de maio, daquela vez estávamos quase entrando em férias, sou professora e naquele dia eu tinha aula só até o recreio, ou seja, até o meio da tarde. Exatamente a hora que iríamos ser atingidos pelo Ciclone.

Estava dando aula para o ensino médio em Bom Progresso, município que fica a cerca de 10 minutos de Campo Novo. Parecia ser mais um dia normal de inverno: com chuva e frio, um dia cinzento. Por aqui somos acostumados, ou éramos, acostumados a ficar mais de quinze dias debaixo ou dentro das nuvens.

Porém, minutos antes de acabar a aula e dar o sinal para o recreio, a chuva se intensificou com raios e trovões, tivemos uma queda de luz e, um estudante percebeu que seu celular estava tocando sem parar. Pediu licença para pegá-lo na mochila. Era o pai dele que estava ligando. Pediu licença e foi atender fora da sala de aula mas o suficiente para escutarmos a conversa.

-“Como?

-Calma pai!

-Meu Deus!

-Paaiii!”

Ele voltou atordoado para a sala de aula. Parecia não estar falando coisa com coisa: “- Meu pai disse que os porcos estavam voando, que tudo estava voando, que não temos mais nada…E a ligação caiu!” Naquele momento a luz também e não voltaria mais durante alguns dias.

Havia um som ensurdecedor e nada mais funcionava, nem internet, nem sinal de celular. Dou aula de geografia e tive um insight onde entendi que a trajetória do vento passando por Sede Nova, a propriedade do meu estudante, seguiria para Campo Novo onde estavam quase todas as pessoas que eu mais amo.

Enquanto todos corriam para se abrigar no lugar mais seguro da escola eu peguei o meu material e entrei no meu carro. A chuva era cada vez mais torrencial e o vento inexplicável, mas eu não estava nem um pouco preocupada comigo. Era instintivo.

Quando eu estava na estrada a caminho de Campo Novo eu vi passar pela minha frente o vento castanho avermelhado levando – semelhante a cor da nossa terra – tudo o que tinha pela frente, postes, o telhado da Empresa Três Tentos e, como se estivesse hipnotizada eu continuei dirigindo o meu carro até que o carro e o caminhão pequeno que estavam na minha frente pararam no meio da pista, as árvores que costeavam a rodovia estavam no chão, impedindo a passagem para qualquer lado. Eu queria continuar andando porque de onde eu estava eu via tudo aquilo chegando em Campo Novo.

Mas se eu saísse do carro o risco de morte era muito grande, porque a chuva e vento continuavam. Aí desabou sobre mim a sensação de impotência, a percepção de somos nada diante da força da natureza e eu chorei sozinha no carro entre uma fila de outros veículos que balançavam com a força do vento e chacoalhava as últimas certezas absolutas que tinha na vida, como de que poderia controlar muita coisa.

Como que eu não percebi que isso iria acontecer, estava nítido, todo esse desmatamento, a mudança do curso dos rios, mudamos até os rios voadores, que idiota pensar que não iria acontecer conosco o mesmo que aconteceu com quem já fez isso antes, como nos EUA.

Fiquei presa naquela fila na estrada durante mais de uma hora e meia, até que a Defesa Civil e os Bombeiros conseguiram tirar uma quantidade de árvores que permitisse passagem em mão única. A sensação de liberdade de quanto tivemos a autorização de continuar a 20km por hora, foi imediatamente substituída pelo terror das imagens do que havia sobrado ao redor: sequência de postes de energia quebrados ao meio, um capão de mato inteiramente retorcido, com troncos de árvores centenárias que pareciam ser de uma maquete de filme de terror. Restos de placas, madeiras de casas ou galões que tinham que ser desviados ao longo da pista.

Na entrada da cidade de Campo Novo tinha muitos galhos e folhas no chão, quando fui me aproximando da escola da minha filha vi fios de luz esparramados por todos os lados, e uma árvore com as raízes para cima, como se o vento tivesse puxado e invertido ela, a vice- diretora da tarde estava no portão, saí do meu carro sentido o meu coração na boca, nos ouvidos… Já que árvores tinham caído sobre o telhado. Ouvi ela dizer:- Acho que essa foi a última, não tem mais nenhuma criança na escola. Quando cheguei junto a ela mal conseguia falar, mas nos entendemos pelo olhar e, ela me disse: Teu marido levou ela, ela só está assustada, mas está bem, ninguém se feriu. É um milagre!

Fui até a casa da minha mãe, ela não estava em casa, mas aparentemente não havia grandes estragos, nem na casa do meu irmão que mora ao lado dela, segui para a minha casa, pela rua de baixo, aí voltei a me assustar, uma árvore imensa tinha caído e derrubado postes e fios, mas a nossa casa não foi atingida. Não tinha ninguém na minha casa também, sem celular e ser internet fui até a casa do meu irmão mais velho, que aparentemente parecia estar intacta, mas ao descer até a esquina enxerguei o rastro da destruição, dois bairros inteiros tinham sido radicalmente atingidos.

Nunca vi nada igual aquilo, e as pessoas ao redor do que do que havia sobrado estavam desoladas, perdidas, muitas chorando, e eu não sabia nada de ninguém da minha família ainda então voltei para a casa da minha mãe, meu marido coincidentemente também estava chegando lá, com a minha filha pequena junto, nos abraçamos como em um reencontro. Fomos para casa, logo minha mãe chegou com o meu padrasto contando que estavam todos bem.

Os dias seguintes continuaram sem luz e em muitas casas sem água, sem teto, sem nada. Muitas famílias foram para casas de parentes ou amigos, o Ginásio Municipal se tornou o principal ponto público de acolhimento.

Campo Novo e Sede Nova receberam doações de vários lugares. As pessoas reconstruíram suas casas, quem pode com maior segurança, mas nada será como antes. Agora sabemos que estamos na rota dos ventos e os cientistas dizem que isso irá acontecer novamente e cada vez com maior gravidade.

Como viver neste lugar sabendo disso? Talvez o mais racional fosse ir embora, ir para um lugar onde a natureza ainda não foi tão agredida, ir para um lugar mais seguro. Mas porquê poucos fazem essa escolha? A maioria de nós opta por ficar e reconstruir tudo no mesmo lugar porque queremos permanecer ligados às nossas origens, a essa conexão ancestral com esta terra, com estes costumes e histórias. O que as pessoas mais procuravam entre os entulhos eram fotos ou pequenos objetos que haviam elegido como relíquias pelo seu valor simbólico. Devido ao vento ter levado quase tudo que elas tinham de material, elas buscavam o patrimônio criado pelas suas vivências e memórias, aquilo que as identificam com o lugar ou a quem amam. Elas tentavam encontrar por algo que é imaterial, para seguir a vida, algo que lhes devolvesse a fé ou esperança.

E, sem dúvida a resiliência é importante e necessária para nos reerguemos diante atrocidades ou catástrofes. No entanto, com esse sentimento também necessitamos de conhecimento e novas atitudes. Diante do que passamos e do que sabemos é irracional reconstruir a casa do mesmo jeito e no mesmo lugar. É preciso criar uma nova relação com a natureza, com mais respeito e humildade, para que talvez, daqui alguns anos, possamos voltar a dormir tranquilos em noites de chuva.

 

* Gilce Sampaio é professora de História da Educação Básica e Mestre em Arqueologia e Patrimônio Cultural

O poder das árvores na mitigação de inundações

arboles-inundaciones-1-996x567Mais de 580 mil pessoas estão desabrigadas e mais de 2,3 milhões foram afetadas pelas enchentes no Rio Grande do Sul, sul do Brasil. As inundações podem ser mitigadas com ações locais baseadas nos recursos naturais, como preservação e plantio de árvores. Crédito da imagem: Thales Renato/Midia NINJA , licenciado sob Creative Commons CC BY-NC 2.0 Deed

Por Luiz Felipe Fernandes para a SciDev 

[GOIÂNIA] Enquanto o Sul do Brasil enfrenta uma das piores tragédias de sua história, causada por chuvas intensas que elevaram o nível dos rios e causaram enchentes devastadoras, alguns especialistas lembram a importância das árvores para a prevenção e mitigação do impacto da subida das águas .

Mais de 90% das 497 cidades do estado do Rio Grande do Sul, que faz fronteira com o Uruguai e a Argentina, foram afetadas. Até 31 de maio, a Defesa Civil do estado já havia confirmado 169 mortos e 806 feridos. Mais de 580 mil pessoas estão desabrigadas e mais de 2,3 milhões foram afetadas de alguma forma.

O problema não é isolado. Neste momento, a Colômbia também enfrenta inundações e inundações, especialmente com as chuvas que provocaram o rompimento da barragem de Caregato, na região de La Mojana, no departamento de Bolívar.

Consequência direta de fenômenos climáticos extremos derivados do aquecimento global , as enchentes que atingem diversos países podem ser mitigadas com ações locais baseadas nos recursos naturais, como a preservação e o plantio de árvores.

“As árvores são algumas das ‘pontes’ mais importantes para um futuro com um clima estável num planeta habitável”, disse a diretora executiva do Centro Internacional de Pesquisa Florestal e Agroflorestal Global (CIFOR-ICRAF), Éliane Ubalijoro, em recente artigo de opinião.

Especialista em agricultura e genética molecular, Ubalijoro explicou ao SciDev.Net que as árvores aumentam a matéria orgânica do solo, transformando-a em uma “esponja” capaz de absorver até 50 vezes mais água em comparação com solos degradados.

“Essa barreira [de árvores, arbustos e outras plantas] garante um processo de desaceleração do fluxo de água que se desloca na superfície. Isso permite uma absorção de água mais eficiente e também contribui para reduzir os picos de inundação.”

Karla Maria Silva de Faria, professora do Instituto de Estudos Socioambientais da Universidade Federal de Goiás (Iesa/UFG)

As raízes também fortalecem as camadas do solo, criando pilares naturais de apoio contra o movimento do solo. Além disso, as árvores podem reduzir os níveis de umidade do solo através da interceptação, evaporação e transpiração, diminuindo o risco de deslizamentos de terra.

Karla Maria Silva de Faria, professora do Instituto de Estudos Socioambientais da Universidade Federal de Goiás (Iesa/UFG), no Brasil, acrescentou que a presença de árvores, arbustos e outras plantas nas faixas marginais dos canais de drenagem atua como uma barreira natural, contribuindo para a absorção da água da chuva e reduzindo a quantidade de água que correrá diretamente para os rios.

“Essa barreira garante um processo de desaceleração do fluxo de água que se desloca pela superfície. Isso permite uma absorção de água mais eficiente e também contribui para a redução dos picos de enchentes”, destacou Faria ao SciDev.Net .

Porém, a conservação e o plantio de árvores devem ser feitos com planejamento. Portanto, ao orientar as iniciativas de restauração e florestamento, o CIFOR-ICRAF defende a abordagem “árvore certa, no lugar certo, para o propósito certo”.

Segundo Ubalijoro, nem todas as árvores servem para todos os lugares. “A escolha das espécies e da localização é essencial para maximizar os benefícios da proteção contra inundações e aumentar a probabilidade de sobrevivência das plantações a longo prazo”, explicou.

Portanto, a seleção das espécies deve levar em consideração o ecossistema e as particularidades do relevo. A plantação de espécies de árvores grandes e pesadas demasiado perto de cursos de água, por exemplo, pode aumentar o risco de inundações.

Faria destacou que, no Brasil, a legislação prevê que o plantio de árvores esteja incluído no processo de ocupação. O especialista integra a equipe técnico-científica do Plano Diretor de Drenagem Urbana de Goiânia (PDDU-GYN), outra capital brasileira que sofre com inundações.

“O plano diretor preverá quais áreas serão ocupadas e indicará as estratégias do projeto de arborização e os mecanismos regulares de ocupação que evitarão problemas socioambientais”, observou.

A organização do espaço urbano deve ter em conta estes corredores naturais de prevenção de inundações. Faria explicou que as Áreas de Proteção Permanente (APP), que correspondem a faixas de vegetação marginal ao longo dos canais de drenagem, não devem ser ocupadas por atividades humanas, por serem áreas naturalmente sujeitas a inundações.

Os especialistas também destacam a necessidade de envolver as comunidades locais e outras partes interessadas no planeamento. A escolha de espécies que proporcionem benefícios à segurança alimentar e aos meios de subsistência, como frutas colhíveis, por exemplo, pode aumentar as chances de aceitação e proteção local.

O cumprimento da legislação e a criação de mais dispositivos legais para a preservação ambiental são o foco das discussões sobre o problema que ocorre no Sul do Brasil, diante das acusações que o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, tem flexibilizado o regime de proteção jurídica para APLICATIVOS. O governador foi chamado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) para prestar esclarecimentos.

Além dos efeitos locais nos centros urbanos, as árvores são importantes aliadas na mitigação dos problemas climáticos globais. “As árvores são as máquinas mágicas de que precisamos para combater as alterações climáticas . São essenciais para reparar os nossos sistemas alimentares danificados, fornecer alimentos, nutrientes e pontos críticos de biodiversidade e apoiar a agricultura sustentável ”, concluiu o diretor executivo do CIFOR-ICRAF.


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Este artigo foi produzido pela edição América Latina e Caribe do  SciDev.Net 

Estudo mostra que oceanos enfrentam uma “ameaça tripla”: calor extremo, perda de oxigênio e acidificação

Um terço da superfície oceânica do mundo é particularmente vulnerável a ameaças causadas pela queima de combustíveis fósseis e pelo desmatamento, segundo uma nova pesquisa

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“Os oceanos não são apenas um belo cenário para as tuas selfies no verão, nós dependemos deles para as nossas vidas”, disse um cientista. Fotografia: hdere/Getty Images 

Os oceanos do mundo enfrentam uma “ameaça tripla” de aquecimento extremo, perda de oxigênio e acidificação, com condições extremas a tornarem-se muito mais intensas nas últimas décadas e a colocarem uma enorme pressão sobre a panóplia de vida marinha do planeta, descobriu uma nova investigação.

Cerca de um quinto da superfície oceânica do mundo é particularmente vulnerável às três ameaças que ocorrem ao mesmo tempo, estimuladas pela atividade humana, como a queima de combustíveis fósseis e a desflorestação, concluiu o estudo. Nos 300 metros superiores do oceano afetado, estes eventos compostos duram agora três vezes mais e são seis vezes mais intensos do que no início da década de 1960, afirma a investigação.

O principal autor do estudo alertou que os oceanos do mundo já estavam a ser empurrados para um estado extremamente novo devido à crise climática. “Os impactos disto já foram vistos e sentidos”, disse Joel Wong, pesquisador da ETH Zurique, que citou o conhecido exemplo da “bolha” de calor que causou a extinção da vida marinha no Oceano Pacífico. . “É provável que eventos extremos intensos como estes voltem a acontecer no futuro e irão perturbar os ecossistemas marinhos e a pesca em todo o mundo”, acrescentou.

A investigação, publicada na AGU Advances , analisou ocorrências de calor extremo, desoxigenação e acidificação e descobriu que tais eventos extremos podem durar até 30 dias, com os trópicos e o Pacífico Norte particularmente afetados pelas ameaças agravadas.

Os cientistas climáticos ficaram alarmados com o aumento implacável do calor no oceano, que atingiu níveis extraordinários nos últimos meses . “O calor tem estado literalmente fora de escala, é surpreendente ver”, disse Andrea Dutton, geóloga e cientista climática da Universidade de Wisconsin-Madison, que não esteve envolvida na nova investigação. “Não podemos explicar completamente as temperaturas que vemos no Atlântico, por exemplo, o que é parte da razão pela qual a temporada de furacões é tão preocupante este ano. É bastante assustador.”

Mas, para além do calor, que obriga os peixes e outras espécies a deslocarem-se, se puderem, para climas mais adequados, os oceanos também estão a pagar outro preço elevado por absorverem enormes volumes de calor e dióxido de carbono provenientes das emissões de combustíveis fósseis, o que caso contrário, aquecerá ainda mais a atmosfera para as pessoas em terra. O CO 2 extra está a tornar a água do mar mais ácida, dissolvendo as conchas das criaturas marinhas, bem como privando o oceano de oxigénio.

“Isso significa que a vida marinha está sendo expulsa de lugares onde consegue sobreviver”, disse Dutton. “Este artigo deixa claro que isto está a acontecer agora e que estas ameaças compostas irão empurrar os organismos para além dos seus pontos de viragem. As pessoas têm de reconhecer que os oceanos têm-nos protegido da quantidade de calor que sentimos em terra enquanto seres humanos, mas que isso não tem acontecido sem consequências.”

Dutton disse que a combinação de queda nos níveis de oxigênio, aumento da acidificação e aumento do calor dos oceanos também foi observada no final do período Permiano, há cerca de 252 milhões de anos, quando a Terra experimentou o maior evento de extinção conhecido em sua história, conhecido como a Grande Morte .

“Se olharmos para o registo fóssil, podemos ver que havia este mesmo padrão no final do Permiano, onde dois terços dos gêneros marinhos foram extintos”, disse ela. “Não temos condições idênticas a essas agora, mas vale ressaltar que as mudanças ambientais em curso são semelhantes.

“Os oceanos não são apenas um belo cenário para as suas selfies no verão, contamos com eles para as nossas vidas, é muito importante reconhecer isso”, acrescentou Dutton.


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Fonte: The Guardian

Pesquisadores planejam retirar artigo histórico sobre o Mal de Alzheimer que usou imagens adulteradas

Autora sênior reconhece números manipulados em estudo que liga uma forma de proteína amilóide ao comprometimento da memória

JERRY HOLT ïjgholt@startribune.com 7/3/2006-----Portrait of Dr. Karen Hsiao Ashe.

Karen Ashe, da Universidade de Minnesota Twin Cities, mantém as conclusões do artigo de 2006 de sua equipe. JERRY HOLT/ STAR TRIBUNE VIA GETTY IMAGE

Por Charles Piller para a Science 

Os autores de um importante artigo de pesquisa sobre a doença de Alzheimer publicado na prestigiosa revista Nature em 2006 concordaram em retirar o estudo em resposta a alegações de manipulação de imagens. A neurocientista de Twin Cities da Universidade de Minnesota (UMN), Karen Ashe, autora sênior do artigo, reconheceu em uma postagem no site de discussão de periódicos PubPeer que o artigo contém imagens adulteradas. O estudo foi citado quase 2.500 vezes e seria o artigo mais citado a ser retratado, de acordo com dados do Retraction Watch .

“Embora eu não tivesse conhecimento de qualquer manipulação de imagem no artigo publicado até que foi trazido ao meu conhecimento há dois anos”, escreveu Ashe no PubPeer, “está claro que várias das figuras em Lesné et al. (2006) foram manipulas, pelas quais eu, como autora sênior e correspondente, assumo a responsabilidade final.”

Depois de inicialmente argumentar que os problemas do artigo poderiam ser resolvidos com uma correção, Ashe disse em outro post na semana passada que todos os autores concordaram com uma retratação – com exceção de seu primeiro autor, o neurocientista da UMN Sylvain Lesné, um protegido do colega de Ashe. que foi o foco de uma investigação de 2022 da Science . Um porta-voz da Nature não quis comentar os planos da revista.

“É lamentável que tenha demorado dois anos para tomar a decisão de retratar-se”, diz Donna Wilcock, neurocientista da Universidade de Indiana e editora da revista Alzheimer’s & Dementia . “A evidência de manipulação foi esmagadora.”

O artigo de 2006 sugeriu que uma proteína beta amilóide (Aβ) chamada Aβ*56 poderia causar a doença de Alzheimer. As proteínas Aβ têm sido associadas à doença há muito tempo. Os autores relataram que o Aβ*56 estava presente em camundongos geneticamente modificados para desenvolver uma doença semelhante à doença de Alzheimer, e que aumentava de acordo com o declínio cognitivo. A equipe também relatou déficits de memória em ratos injetados com Aβ*56.

Durante anos, os pesquisadores tentaram melhorar os resultados do Alzheimer removendo as proteínas amilóides do cérebro, mas todos os medicamentos experimentais falharam. O Aβ*56 parecia oferecer um alvo terapêutico mais específico e promissor, e muitos aceitaram a descoberta. O financiamento para trabalhos relacionados aumentou acentuadamente.

Mas a investigação da Science revelou evidências de que o artigo da Nature e vários outros de coautoria de Lesné, alguns listando Ashe como autora sênior, pareciam usar dados manipulados. Após a publicação da história, os principais cientistas que citaram o artigo para apoiar as suas próprias experiências questionaram se o Aβ*56 poderia ser detectado e purificado de forma fiável como descrito por Lesné e Ashe – ou mesmo se existia. Alguns disseram que os problemas nesse artigo e outros apoiavam novas dúvidas sobre a hipótese dominante de que a amiloide provoca a doença de Alzheimer. Outros sustentaram que a hipótese permanece viável.

Esse debate continuou durante a aprovação do medicamento antiamilóide Leqembi, que retarda modestamente o declínio cognitivo, mas acarreta riscos de inchaço ou hemorragia cerebral grave ou mesmo fatal .

Lesné, que não respondeu aos pedidos de comentários, continua sendo professor da UMN e recebe financiamento do National Institutes of Health. A universidade está investigando seu trabalho desde junho de 2022. Um porta-voz disse que a UMN disse recentemente à Nature que havia revisado duas imagens em questão e “fechou esta revisão sem nenhuma descoberta de má conduta de pesquisa relativa a esses números”. A declaração não fez referência a vários outros números questionados no mesmo artigo. A UMN não comentou se havia chegado a conclusões sobre outros artigos de Lesné com imagens aparentemente adulteradas.

“Como a manipulação de números não é má conduta?” pergunta Elisabeth Bik, consultora de integridade científica que validou as descobertas dos denunciantes sobre o artigo para a investigação da Science . Tais casos deveriam ser investigados por órgãos independentes, diz ela, e não pelas universidades dos cientistas acusados, que enfrentam conflitos de interesses financeiros e de reputação.

A postagem mais recente de Ashe no PubPeer afirma que “as manipulações não alteraram as conclusões dos experimentos”. Num artigo recente na iScience , ela e colegas afirmam confirmar as conclusões do artigo de 2006. “Continuo acreditando que o Aβ*56 pode desempenhar um papel importante na doença de Alzheimer e direcionar sua remoção pode levar a benefícios clínicos significativos”, escreveu ela no PubPeer.

Num e-mail para a Science , Ashe disse que a Nature “se recusou a publicar” uma correção solicitada ao artigo de 2006, tornando a retratação “a única outra opção disponível para nós”. ( A Nature não quis comentar sobre seu relato.)

“Todos partilhamos os mesmos valores – preservar a integridade do registo científico – mas expressá-los de forma diferente”, acrescentou Ashe.

Wilcock chama as afirmações de Ashe de que seu novo artigo reproduziu as descobertas da Nature como “um exagero”. E o neurocientista da Universidade Vanderbilt, Matthew Schrag, que trabalha em questões de integridade científica independente de seu empregador e descobriu a maioria dos problemas no trabalho de Lesné, contestou as conclusões de Ashe sobre o artigo da iScience em comentários detalhados no PubPeer. Mas ele considera a decisão de Ashe de se retratar como “um passo importante na direção certa” para um campo atormentado por problemas de integridade de pesquisa. “Demorou um pouco, mas ela defendeu a integridade.”

Outras revistas que publicaram artigos suspeitos de Lesné aguardavam que a UMN concluísse a sua investigação. John Foley, editor da Science Signaling , que publicou dois dos artigos, diz que a UMN lhe disse recentemente que em breve terá mais a dizer sobre a sua revisão.

Esta história foi apoiada pelo Science  Fund for Investigative Reporting.


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Fonte: Science

Na Uenf, a transparência colapsou: a ausência de atas comprova

transparencia

Um dos elementos basilares que deveria guiar a vida de qualquer universidade pública é o grau de transparência acerca das decisões tomadas por seus órgãos colegiados, especialmente os superiores. Mas esse parâmetro for utilizado para avaliar como andam as coisas na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), é fácil ver que as coisas vão muito mal, em que pese as juras de que entramos em um novo ciclo de gestão com a chegada da primeira mulher ao cargo máximo da instituição, no caso a reitora Rosana Rodrigues.

Nos dias atuais, os sítios oficiais que instituições públicas e empresas disponibilizam para informar o público sobre suas ativididades são, ou deveriam ser, a via preferencial para a criação de mecanismos de transparência. O sítio oficial da Uenf até possui uma aba rotulada de “transparência”, mas quando se chega nela, o que se vê é que de transparência só há mesmo o rótulo.

Um bom exemplo dessa opacidade é a disponibilização das atas das reuniões realizadas por três órgãos colegiados (Universitário, Acadêmico e Curador) e um próprio da reitoria da Uenf (o Executivo). Ao examinar as últimas atas disponibilizadas para cada um deles, o eventual visitante poderá notar a seguinte realidade:

Unidade Data da última data disponível
Conselho Universitário 06/11/2020
Colegiado Acadêmico 01/02/2021
Conselho Curador 29/08/2018
Colegiado Executivo Sem ata disponível

Uma consequência óbvia dessa opacidade é que nem a comunidade universitária ou a população em geral tem noção de como e quais decisões estão sendo tomadas nesse colegiados, o que impede que se possa saber quais são os rumos efetivos que a Uenf vem trilhando.  A questão democrática que pode passar despercebida em empresas que são governadas pela busca de lucros de seus donos e acionistas é algo fundamental em instituições públicas, especialmente universidades. 

Assim, ao não realizar o ato trivial de disponibilizar atas de seus colegiados superiores, o que as administrações recentes da Uenf têm feito é impedir que se tenha acesso às decisões que têm sido tomadas para gerir um dos principais patrimônios públicos do estado do Rio de Janeiro. E isso, convenhamos, não pode ser naturalizado. É que na ausência dos mecanismos de transparência o que acaba crescendo são práticas autoritárias e/ou burocráticas que comprometem a capacidade de gerar novos conhecimentos, algo fundamental para uma universidade pública.

No Brasil, inundações devastadoras se tornaram duas vezes mais prováveis por causa do desmatamento e da queima de combustíveis fósseis

Cientistas dizem que calamidades na mesma escala do desastre que matou 169 pessoas se tornarão mais comuns se as emissões não forem reduzidas

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Inundações em Canoas, Rio Grande do Sul, em 5 de maio de 2024. Imagem de Ricardo Stuckert/PR

Por Jonathan Watts para o “The Guardian” 

As inundações extraordinariamente intensas, prolongadas e extensas que devastaram o sul do Brasil foram pelo menos duas vezes mais prováveis ​​devido à queima humana de combustíveis fósseis e árvores, mostrou um estudo realizado pelos cientistas da World Weather Attribution.

O desastre recorde provocou 169 mortes, destruiu casas e destruiu colheitas, e foi agravado pela desflorestação, cortes de investimento e incompetência humana.

A equipe de cientistas internacionais por detrás do estudo previu que calamidades desta escala – as piores a atingir a região – tornar-se-iam mais comuns no futuro se não houvesse uma redução acentuada nas emissões de gases com efeito de estufa que aquecem o planeta.

Centenas de milhares de pessoas no estado do Rio Grande do Sul e no vizinho Uruguai ainda tentam reconstruir as suas vidas depois de um mês de chuvas persistentes que deslocaram 80 mil pessoas e deixaram mais de um milhão sem serviços essenciais, como eletricidade e água potável.

Durante o pico das chuvas no dia 1º de maio, a cidade de Santa Maria estabeleceu um recorde de precipitação em 24 horas de 213,6 mm. Em apenas três dias, a capital do estado, Porto Alegre, foi inundada por chuvas equivalentes a dois meses, transformando estradas em rios, estádios de futebol em lagos e danificando tanto o aeroporto internacional da cidade que permanece fechado.

O custo económico deverá exceder 5,25 bilhões de reais e o terrível impacto na agricultura deverá aumentar os preços do arroz – o Rio Grande do Sul normalmente produz 90% da colheita do Brasil – e dos produtos lácteos em todo o país. 

A ponte para abruptamente na margem do rio, onde uma parte dela foi destruída, levando a uma queda acentuada
Ponte destruída sobre o Rio Forqueta, no Rio Grande do Sul. Fotografia: Nelson Almeida/AFP/Getty Images

O foco da região na agricultura teve um custo elevado. Os autores do estudo afirmaram que nas últimas décadas, as defesas naturais contra inundações, como florestas ribeirinhas e pântanos, foram desmatadas para campos, muitas vezes em violação de regulamentos ambientais mal aplicados.

A catástrofe em Porto Alegre foi agravada pelas fracas defesas contra inundações, que deveriam suportar 6 metros de água, mas que alegadamente começaram a falhar a 4,5 metros.

Nos últimos anos, os governos municipais reduziram o investimento nestas protecções, apesar dos avisos de que esta região baixa e desflorestada, na intersecção de cinco grandes rios, seria cada vez mais vulnerável a inundações como resultado de perturbações climáticas provocadas pelo homem. Além de serem incapazes de deter a subida das águas, as barreiras contra inundações da capital do estado retiveram as águas das cheias, retardando o processo de secagem e recuperação.

Cientistas do World Weather Attribution confirmaram a poderosa influência humana no desastre das enchentes, a quarta a atingir o estado mais ao sul do Brasil no último ano e meio.

Eles analisaram um período de quatro dias e um período de 10 dias de inundações, combinando observações meteorológicas com resultados de modelos climáticos computacionais. Os pesquisadores descobriram que as mudanças climáticas provocadas pelo homem tornaram as chuvas extremas duas a três vezes mais prováveis ​​e cerca de 6% a 9% mais intensas. Esta influência foi semelhante ao efeito natural do fenômeno El Niño.

Além de aumentar a frequência e a intensidade das fortes chuvas, o aquecimento global empurrou a cintura tropical mais para sul, que funciona como um muro no centro do Brasil que bloqueia as frentes frias vindas da Antártica. Como resultado, inundações que antes eram mais comuns no norte de Santa Catarina, agora são mais prováveis ​​no Rio Grande do Sul. Mais de 90% do estado, que cobre uma área do tamanho do Reino Unido, foi afetado.

Os autores afirmaram que o aquecimento global também está aumentando a frequência dos eventos El Niño e La Niña, que estão associados a condições meteorológicas extremas. Não houve um ano neutro sem nenhum deles na última década.

Olhando para o futuro, para um mundo que ficará mais quente como resultado das emissões dos carros, das fábricas e do desmatamento, eles descobriram que tal desastre se tornaria 1,3 a 2,7 vezes mais provável no Rio Grande do Sul se o aquecimento global subisse do nível atual de 1,2. C a 2C, o que é cada vez mais provável. “Esses eventos se tornarão mais frequentes e graves”, conclui o artigo.

Lincoln Alves, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil, disse que o clima no Brasil já havia mudado: “Este estudo de atribuição confirma que as atividades humanas contribuíram para eventos extremos mais intensos e frequentes, destacando a vulnerabilidade do país às mudanças climáticas. É essencial que os tomadores de decisão e a sociedade reconheçam esta nova normalidade.”

Para minimizar o impacto potencial de desastres futuros, os autores sugerem um planejamento urbano mais abrangente, maior investimento em defesas contra inundações e maior atenção ao desenvolvimento social equitativo, porque as inundações podem criar uma “armadilha da pobreza” em que as comunidades de baixos rendimentos estão nas áreas mais vulneráveis. .

A prioridade deveria ser proteger e reforçar as barreiras naturais, como florestas e pântanos, disse Regina Rodrigues, pesquisadora da Universidade Federal de Santa Catarina. “As mudanças no uso da terra contribuíram diretamente para as inundações generalizadas, eliminando a proteção natural e podem exacerbar as alterações climáticas, aumentando as emissões.”

Contudo, como sempre, a medida mais importante é reduzir rapidamente a queima de árvores e de combustíveis fósseis que está a causar cada vez mais carnificina em todo o mundo.


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Fonte: The Guardian

As retrações de artigos biomédicos quadruplicaram em 20 anos – por quê?

Dados não fiáveis, falsificações e outras questões relacionadas com a má conduta estão a gerar uma proporção crescente de retratações

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As taxas de retratação em artigos científicos biomédicos europeus quadruplicaram desde 2000. Crédito: bagi1998/Getty

Por Holly Else para a Nature 

A taxa de retratação de artigos europeus de ciências biomédicas quadruplicou entre 2000 e 2021, descobriu um estudo de milhares de retratações.

Dois terços desses artigos foram retirados por motivos relacionados à má conduta de pesquisa, como manipulação de dados e imagens ou fraude de autoria . Estes factores foram responsáveis ​​por uma proporção crescente de retracções ao longo do período de aproximadamente 20 anos, sugere a análise.

“As nossas descobertas indicam que a má conduta na investigação se tornou mais prevalente na Europa nas últimas duas décadas”, escrevem os autores, liderados por Alberto Ruano‐Ravina, investigador de saúde pública da Universidade de Santiago de Compostela, em Espanha.

Outros especialistas em integridade da investigação salientam que as retratações podem estar a aumentar porque os investigadores e editores estão a melhorar a investigação e a identificação de potenciais más condutas. Há mais pessoas trabalhando para detectar erros e novas ferramentas digitais para rastrear publicações em busca de textos ou dados suspeitos.

Retrações crescentes

Nos últimos anos, os editores académicos têm enfrentado uma pressão crescente para esclarecer a literatura, à medida que investigadores expõem casos de fraude na investigação , identificados quando a revisão por pares foi comprometida revelaram a compra e venda de artigos de investigação . No ano passado assistimos a um recorde de 10.000 artigos retirados . Embora a má conduta seja uma das principais causas de retratações, nem sempre é responsável: alguns artigos são retratados quando os autores descobrem erros honestos no seu trabalho.

A última investigação, publicada em 4 de maio na Scientometrics 1 , analisou mais de 2.000 artigos biomédicos que tinham um autor correspondente baseado numa instituição europeia e foram retratados entre 2000 e meados de 2021. Os dados incluíram artigos originais, revisões, relatos de casos e cartas publicadas em inglês, espanhol ou português. Eles foram listados em um banco de dados compilado pela organização de mídia Retraction Watch, que registra por que os artigos são retratados.

Os autores descobriram que as taxas gerais de retratação quadruplicaram durante o período do estudo – de cerca de 11 retratações por 100.000 artigos em 2000 para quase 45 por 100.000 em 2020. De todos os artigos retratados, quase 67% foram retirados devido a má conduta e cerca de 16% por conduta honesta. erros. As demais retratações não deram justificativa.

Analisando especificamente os documentos retirados por má conduta, Ruano‐Ravina e os seus colegas descobriram que as principais causas mudaram ao longo do tempo. Em 2000, as maiores proporções de retratações foram atribuídas a problemas éticos e legais, questões de autoria — incluindo autorias duvidosas ou falsas, objeções à autoria por parte de instituições e falta de aprovação do autor — e duplicação de imagens , dados ou grandes passagens de texto. Em 2020, a duplicação ainda era uma das principais razões para retratação, mas uma proporção semelhante de artigos foi retratada devido a “dados não confiáveis” (ver “Retratações de má conduta”).

Retratações de má conduta: Gráfico que mostra o número de artigos de pesquisa biomédica retratados por má conduta desde 2000.

Fonte: Ref 1

“Dados não fiáveis” referem-se a estudos nos quais não se pode confiar por razões que incluem a falta de fornecimento de dados originais e problemas de parcialidade ou falta de equilíbrio. Os autores sugerem que o aumento das retratações atribuíveis a esta causa pode estar relacionado com um aumento no número de papéis suspeitos de serem produzidos por fábricas de papel , empresas que geram papéis falsos ou de baixa qualidade sob encomenda.

Os problemas de autoria caíram para a quinta razão conjunta para retratações em 2020. Isto é “possivelmente devido à implementação de sistemas de controle de autoria e ao aumento da conscientização dos pesquisadores”, escrevem Ruano‐Ravina e colegas.

Variação internacional

O estudo também identificou os quatro países europeus que tiveram o maior número de artigos científicos biomédicos retratados: Alemanha, Reino Unido, Itália e Espanha. Cada um tinha “perfis” distintos de retratações relacionadas à má conduta. No Reino Unido, por exemplo, a falsificação foi a principal razão apresentada para retratações na maioria dos anos, mas a proporção de documentos retirados devido à duplicação caiu entre 2000 e 2020. Entretanto, Espanha e Itália registaram enormes aumentos na proporção de documentos retratados por causa da duplicação.

Arturo Casadevall, microbiologista da Universidade Johns Hopkins em Baltimore, Maryland, contribuiu para um trabalho que em 2012 encontrou taxas semelhantes de retirada de papel por má conduta 2 . “Para mim, isto demonstra que os problemas subjacentes na ciência não mudaram sensivelmente nos últimos 12 anos”, diz ele.

Mas o aumento global nas taxas de retratação pode reflectir o facto de autores, instituições e revistas estarem cada vez mais a utilizar retratações para corrigir a literatura, acrescenta.

Sholto David, biólogo e especialista em integridade de investigação baseado no País de Gales, Reino Unido, salienta que os métodos para detectar erros na investigação melhoraram durante o período de estudo de 20 anos. Um número crescente de pessoas examina agora a literatura e aponta falhas, o que poderia ajudar a explicar o aumento das taxas de retratação, diz ele. Em particular, o lançamento do site de revisão por pares pós-publicação PubPeer em 2012 ofereceu aos detetives a oportunidade de examinar minuciosamente os artigos em massa, acrescenta ele, e tornou-se muito mais comum os investigadores enviarem e-mails de denúncia para revistas. .

Ivan Oransky, cofundador da Retraction Watch que mora na cidade de Nova York, sugere que o uso rotineiro de software de detecção de plágio pelos editores durante a última década pode ter contribuído para o aumento das taxas de retratação devido ao plágio e à duplicação. Resta saber como as ferramentas digitais mais recentes, como as que detectam a manipulação de imagens, poderão afetar as taxas de retirada de papel nos próximos anos, acrescenta.

DOI: https://doi.org/10.1038/d41586-024-01609-0

Referências

  1. Freijedo-Farinas, F., Ruano-Ravina, A., Pérez-Ríos, M., Ross, J. & Candal-Pedreira, C. Scientometrics https://doi.org/10.1007/s11192-024-04992-7 (2024).

    Artigo Google Scholar 

  2. Fang, FC, Steen, RG e Casadevall, A. Proc. Acad. Nacional. Ciência. EUA109 , 17028–17033 (2012).

    Artigo Google Scholar 

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Fonte: Nature

Agrotóxicos: advogado é intimidado após denunciar contaminação no MA, diz nota

Sindicato das empresas de aviação agrícola cobra retratação de advogado que denunciou contaminação de comunidades por agrotóxicos no Maranhão; Entidades veem estratégia de intimidação para tentar barrar projetos de lei que proíbem a pulverização aérea de agrotóxicos

pulverização aéreaPulverização de agrotóxicos por aviões agrícolas já contaminou 91 comunidades do Maranhão em 2024 (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil) 

Por Hélen Freitas/ Edição Diogo Junqueira

Ao menos 161 pesquisadores e entidades,  em defesa de direitos humanos, trabalhistas e socioambientais denunciaram em nota pública desta quarta-feira (29) uma tentativa de intimidação, por parte do Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola (Sindag), contra o advogado Diogo Cabral, da Federação dos Trabalhadores Rurais do Maranhão (Fetaema).

Na última quinta-feira (23), Cabral recebeu uma notificação extrajudicial do Sindag para se retratar ou comprovar, em até 48h, que a pulverização aérea de agrotóxicos no Maranhão prejudica comunidades. 

A notificação apresenta como motivo a entrevista de Cabral ao jornal JMTV 2ª edição, em 24 de abril, quando foi noticiada a aprovação de uma lei que proibiu a pulverização de agrotóxicos com aviões ou drones no município de Caxias (MA). 

A reportagem cita um dado da Fetaema de que a prática gerou 60 ocorrências de contaminação no estado em 2023. “Pessoas tiveram queimaduras, crianças, idosos e gestantes acabaram adoecendo, com graves problemas gastrointestinais, e parte da produção agrícola destas comunidades foi inteiramente perdida”, disse Cabral à emissora.

Para o Sindag, contudo, trata-se de “vã afirmação” dizer que a pulverização aérea prejudica pessoas e o meio ambiente. “Está comprovado tecnicamente que a aviação agrícola constitui ferramenta moderna e segura para a aplicação dos necessários defensivos agrícolas”, afirma o sindicato na notificação ao advogado.

No entanto, segundo a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, “há um amplo conjunto de pesquisas científicas que demonstram a necessidade de proibir a pulverização aérea de agrotóxicos no Brasil e que esse tipo de atividade tem promovido inúmeras violações de direitos humanos”. A rede de organizações denuncia os efeitos causados pelos pesticidas.

Ceará é o único estado a proibir a prática, vedada na União Europeia desde 2009 por causa de potenciais danos à saúde e ao meio ambiente gerados pelas chamadas “chuvas de veneno”. O Ibama também restringiu a pulverização aérea de alguns agrotóxicos, como o fipronil, por risco de morte massiva de abelhas.

Pulverização contaminou 91 comunidades do Maranhão, dizem entidades

Segundo a nota de repúdio divulgada hoje, a ação do Sindag ocorre num contexto de aumento da violência agrária e de denúncias sobre a pulverização aérea no Maranhão, pois 91 comunidades de 21 municípios foram vítimas neste ano dessa prática. 

A nota diz ainda que a notificação extrajudicial do Sindag é uma “tentativa de silenciamento das pessoas e entidades que apresentam publicamente visão crítica acerca dos agrotóxicos, o que também significa uma tentativa de impedir que grupos sociais vulneráveis denunciem e lutem pelo direito à saúde e ao meio ambiente preservado”.

À Repórter Brasil, Cabral disse que viu a notificação como uma provocação e uma tentativa de conter o avanço da proibição da pulverização aérea de agrotóxicos no Maranhão. Desde 2022, seis municípios aprovaram leis impedindo que a prática aconteça (Barreirinhas, Brejo, Caxias, Lago dos Rodrigues, São Francisco do Maranhão e Santana do Maranhão). Há ainda projetos de leis tramitando em outros cinco (Coroatá, Lago da Pedra, Peritoró, Timbiras e Lago do Junco). Em Buriti, uma decisão judicial impede a pulverização após agrotóxicos serem lançados de avião sobre crianças e comunidades em disputa por terra.

“Podem judicializar se quiserem. Eu vou ter um campo de debate amplo para comprovar minhas afirmações com base na pesquisa científica, com base nas evidências do campo científico acerca dos danos causados pela pulverização aérea de agrotóxicos. Eu não vou responder a essa provocação.”, diz o advogado à Repórter Brasil.

O advogado conta ainda que a notificação chegou dois dias após uma audiência pública para discutir a pulverização aérea no estado promovida pelo Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos do Maranhão (CEDDH/MA), órgão ligado à Secretaria de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular do estado. Segundo relatos, mais de 200 pessoas participaram da audiência, a maior parte de comunidades atingidas por agrotóxicos.

O presidente do CEDDH/MA, Luís Antônio Pedrosa, contou à reportagem que um servidor do governo federal quanto o próprio Sindag tentaram intimidar os participantes do evento. Posteriormente, o funcionário público chegou a enviar mensagens à Pedrosa afirmando que as alegações de falta de fiscalização eram mentirosas.

Por meio de nota, o Sindag afirmou que buscou esclarecimentos tanto com o advogado popular quanto com a rede de televisão que veiculou a reportagem a fim de buscar a “transparência sobre as informações divulgadas e a verdade sobre os fatos”.

“A ação não tem nada a ver com a linha de trabalho de ninguém. Busca apenas estabelecer a racionalidade em um debate que é importante para toda a sociedade. Onde, infelizmente, a generalização e o radicalismo arriscam provocar danos para as pessoas, para profissionais que cumprem a lei, para a produção agrícola e ao próprio meio ambiente”, afirma o sindicato. Leia na íntegra.

Cientistas que pesquisam efeitos negativos dos agrotóxicos já foram perseguidos

“Essa tentativa de intimidação não é isolada, ela é parte de uma estratégia nacional e internacional que visa ao silenciamento dos cientistas e acontece de uma forma estruturada”, afirma Vicente Almeida, coordenador da Rede Irerê de Proteção à Ciência, que expõe e analisa perseguições a pesquisadores e defensores de direitos humanos.

Assim como o advogado popular Diogo Cabral, pesquisadores brasileiros que vem se posicionando contra as práticas do agronegócio vêm sofrendo ameaças e assédios após revelarem impactos ambientais, sociais e de saúde provocados pelos agrotóxicos, como mostraram O Joio e o Trigo e De Olho nos Ruralistas.

Almeida foi um desses pesquisadores perseguidos. Seis meses depois de publicar um artigo que evidenciava que o uso de sementes transgênicas no país aumentava o consumo de agrotóxicos, o oposto do que o agronegócio dizia na época, foi demitido da Embrapa sob a alegação de “desídia, insubordinação, indisciplina e mau procedimento”. Ele até conseguiu voltar cerca de dois anos depois às suas funções, por meio de uma decisão da Justiça, mas pouco tempo depois foi demitido novamente, desta vez sem justa causa.

Outro pesquisador perseguido foi Fernando Carneiro. Com uma longa carreira na saúde pública, tendo passado pela Secretaria Estadual de Saúde de Minas Gerais, Ministério da Saúde e Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), atua como pesquisador em saúde e ambiente de trabalho na Fiocruz no Ceará. Carneiro também fez contribuições no Dossiê Abrasco: Um Alerta Sobre Os Impactos dos Agrotóxicos na Saúde e no Dossiê Contra o Pacote do Veneno e em Defesa da Vida.  

Após mostrar em uma audiência pública, organizada pelo Ministério Público de Fortaleza, que o Ceará era o terceiro maior comercializador de agrotóxicos do Brasil (em quilogramas por área plantada) em 2013, a Federação da Agricultura do Estado do Ceará (FAEC) se sentiu ofendida. Ela entrou com uma interpelação judicial, ou seja, uma intimação pedindo explicações sobre os dados apresentados e por usar o termo “veneno” para se referir a  “defensivos agrícolas”. A federação considerava a palavra usada “pejorativa” e “desqualificadora”. Diversas organizações publicaram notas de repúdio e a Fiocruz saiu em defesa do seu pesquisador

“No fundo eles querem intimidar, eles querem fazer com que as pessoas gastem com advogados, inverter realmente o ônus da prova, para que todo mundo fique calado”, afirma Carneiro.

Leia a nota de repúdio na íntegra:

NOTA PÚBLICA SOBRE A TENTATIVA DE INTIMIDAÇÃO DE ADVOGADO DEFENSOR DE DIREITOS HUMANOS NO MARANHÃO

Tivemos conhecimento de que um “SINDICATO NACIONAL DAS EMPRESAS DE AVIAÇÃO AGRÍCOLA – SINDAG”, com sede no Rio Grande do Sul,  notificou o advogado da Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares do Estado do Maranhão-FETAEMA, DIOGO DINIZ RIBEIRO CABRAL, atuante defensor dos direitos humanos no Estado do Maranhão, com o fito de tentar intimidá-lo na sua tarefa de defender trabalhadores rurais vítimas da utilização indiscriminada de agrotóxicos em lavoura do agronegócio. Isso ocorreu logo após a audiência pública promovida pelo Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos do Maranhão- CEDDH/MA, em parceria com a FETAEMA, Rede de Agroecologia do Maranhão – RAMA, Justiça nos Trilhos e Sociedade Maranhense de Direitos Humanos. Tal intimidação ocorre num contexto de extrema violência agrária e ampliação das ocorrências de pulverização aérea de agrotóxico no Maranhão e das denúncias públicas, dirigidas a órgãos de estado e organismos internacionais, promovidas por comunidades, organizações da sociedade civil e movimentos sociais sobre os graves danos causados à saúde, ao meio ambiente e à produção por esta atividade potencialmente danosa. Neste ano de 2024, 91 comunidades foram vítimas de pulverização aérea em 21 munícipios do Maranhão. Repudiamos qualquer tentativa de silenciamento das pessoas e entidades que apresentam publicamente visão crítica acerca dos agrotóxicos, o que também significa uma tentativa de impedir que grupos sociais vulneráveis denunciem e lutem pelo direito à saúde e ao meio ambiente preservado. Tal repúdio se faz mais veemente e necessário quando tais agressões têm firme propósito de intimidar e de causar efeito atemorizante sobre destacado advogado, vinculado à defesa do direito humano à saúde, do meio ambiente ecologicamente equilibrado e dos territórios tradicionais e que vem atuando, há 15 anos, na defesa de comunidades, de quilombolas, de assentados da reforma agrária vítimas de contaminação por agrotóxicos.

São Luís/MA, 29 de maio de 2024.

Assinatura

Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos do Maranhão– CEDDH/MA

Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares do Estado do Maranhão-FETAEMA

Rede de Agroecologia do Maranhão – RAMA

Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares-CONTAG

Sociedade Maranhense de Direitos Humanos-SMDH

Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida

Comissão Pastoral da Terra- Regional Maranhão

Terra de Direitos

Movimento dos Atingidos por Barragens-MAB

Movimento pela Soberania Popular na Mineração- MAM

Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu- MIQCB

Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra- MST

Amazon Watch

Coletivo Taoca

Fórum em Defesa da Vida do Baixo Parnaíba Maranhense

Instituto de Defesa de Consumidores-IDEC

Rede Nacional de Advogados e Advogadas Populares- RENAP

Associação em Áreas de Assentamento no Estado do Maranhão – ASSEMA

União das Associações das Escolas Famílias Agrícolas do Maranhão- UAEFAMA

Comunidades Eclesiais de Base – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil Nordeste 5

Pastorais Sociais- Conferência Nacional dos Bispos do Brasil Nordeste 5

Justiça nos Trilhos-Jnt

Diocese de Brejo (MA)

Diocese de Coroatá (MA)

Programa de Assessoria Rural da Diocese de Brejo

Cáritas Diocesana de Brejo

Sindicato dos Servidores Públicos de São Bernardo-Ma

Grupo Companheiras de Santa Quitéria-Ma

Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Santa Quitéria-Ma

Conselho Pastoral dos Pescadores-Ma

Reocupa

Rede Emaranhadas

Movimento 21 (M-21)

Movimento Xingu Vivo

Associação Comunitária de Educação em Saúde e Agricultura – ACESA

Associação do Território Quilombola de Alcântara- ATEQUILA

Coletivo de Mulheres Trabalhadoras Rurais do Maranhão – CMTR – MA

Salve a Floresta

Núcleo Tramas- Universidade Federal do Ceará

Gustavo Mesquita de Souza- LEPENG- UFMA

Professor Doutor Joaquim Shiraishi Neto-UFMA

Professor Doutor Bernardo Mançano Fernandes – REDE DATALUTA

Professora Doutora Joana Tereza Vaz de Moura- Labrural- UFRN

Professor Doutor Marco Antonio Mitidiero Junior – UFPB

Professor Doutor Ronaldo Sodré- LEPENG- UFMA

Professor Doutor José Sobreiro Filho – Geact, Universidade de Brasília- UnB

Professor Doutor Rodrigo Simão Camacho, GeoEduQa – UFGD

Professor Doutor Sedeval Nardoque, GeoAgraria – UFMS

Professor Doutor João Cleps Junior – LAGEA-UFU

Professor Doutor Flavio Bezerra Barros – Universidade Federal do Pará

Leonice Alexandra Tessmann de Correia – GeoEduQa – UFGD

Djoni Roos, Geolutas – Unioeste

Luiz Peit. GeoEduQA -UFGD

Resistência Cultural Upaon Açu- Reocupa

Rede de Mulheres Emaranhadas São Luis

Coletivo Etinerâncias

Maracatu Baque Mulher São Luís

ANAN/MA – Associação da Advocacia Negra – ma

Instituto Idade Mídia Comunicação para Cidadania

Rádio Ribeirinha Murukutu

Mirasawa Murukutu Rendáwa Tupinambá (org. Indígena).

Associação Cultural dos Povos da Amazônia Independente.

Casa Galiléia

Coletivo Pororoka

Observatório do Marajó

Instituto Lilar

COJOVEM

Labexperimental

Laboratório da Cidade

Utopia Negra Amapaense

Condô Cultural

Associação Giramundo

Instituto Mapinguari

Organização Mandi

AIHHUAM

FALA Jornalismo

Instituto Update

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Peritoró

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Timbiras

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Alcântara

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Afonso Cunha

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de   Coelho Neto

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Duque Bacelar

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Buriti

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Brejo

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Milagres

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Santa Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Santa Quitéria

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de São Bernardo

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Magalhães de Almeida

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Santana

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Água Doce

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Araioses

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Tutóia

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Paulino Neves

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Anapurus

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Mata Roma

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Chapadinha

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de São Benedito do Rio Preto

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Urbano Santos

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Belágua

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Anajatuba

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Balsas

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Loreto

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Formosa da Serra Negra

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de São Pedro dos Crentes

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Fortaleza dos Nogueiras

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Riachão

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Alto Parnaíba

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Sambaíba

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Nova Colinas

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Formosa da Feira Nova

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Tasso Fragoso

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Formosa de Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Benedito Leite

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Lago dos Rodrigues

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Lago do Junco

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Esperantinópolis

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Vitorino Freire

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Igarapé Grande

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Conceição do Lago Açu

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Marajá do Sena

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de São Luís Gonzaga

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Lago Verde

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de São Roberto

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Bacabal

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Paulo Ramos

Coroatá

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de São Mateus do Maranhão

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Altamira do Maranhão

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Lima Campos

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Poção de Pedras

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Olho D’água

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Lagoa Grande

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Lago da Pedra

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Brejo de Areia

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Alto Alegre do Maranhão

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Bernardo do Mearim

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Pedreiras

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Bom Lugar

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Trizidela do Vale

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Açailândia

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Amarante

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Buritirana

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Campestre

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Cidelândia

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Davinopólis

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Estreito

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Governador Edson Lobão

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Imperatriz

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Itinga

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de João Lisboa

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Montes Altos

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Porto Franco

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Ribamar Fiquene

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de São João Paraíso

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de São Pedro Água Branca

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Senador La Roque

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Sítio Novo

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Lajeado Novo

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de São Francisco do Brejão

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Vila Nova dos Martírios


color compass

Fonte: Repórter Brasil

Esperança

abrigo rs

Por Carlos Silveira, de Ijuí (RS)

Sempre nova. Sempre a mesma. Esperança. Bebendo-se sem ter sede. Agora vivendo há um mês num abrigo depois da crescente que destruiu sua casa. Vinda de uma ilha cercada de soja por todos os lados, sempre soube que um dia a natureza cobraria reintegração de posse. Testemunhou toda a destruição das matas ciliares, a derrubada pioneira e heroica das matas, o aterro das vertentes e banhados, a impermeabilização das rodovias e o assoreamento dos cursos d’água pela erosão, pelo esgoto sanitário não tratado, por todo tipo de detrito depositado nos leitos dos rios.

Viveu todo o ciclo do gaúcho a pé desde menina. Na pequena propriedade de sua infância e adolescência, nunca houve um cavalo. Apenas o cavalo da razão e da persistência, alimentado apenas pro gasto por uma religiãozinha tão somente legitimadora da vidinha cotidiana – solidamente medíocre e feita de inércia e esquecimento. Inviável. Assim como quase tudo em sua vida: a propriedade familiar, a permanência no interior do estado, a fuga para as grandes cidades, o tudo sempre igual de todos os dias na passagem das semanas, meses e anos. A mão invisível do destino guiou-a a esmo num interminável êxodo.

Do subúrbio superpovoado ao trabalho de diarista, sempre se soube inviável. Por isso, sempre repudiou a determinação de se casar e construir um biongo (pequena moradia) no bairro, com marido e filhos. Envelheceu resistindo. Incompreendida. Vista como alguém que muito escolhe até ser o escolhido. Até ser vencida pela velhice e pelo fim. Uma que outra hóstia de sol em namoros fortuitos. Pura ilusão repudiada pela certeza de amores impossíveis. Não era direito apenas repetir(se) no cortiço. Um cadáver a parir novos cadáveres. Daí seu não definitivo a João Romão. Ninguém pode servir a dois senhores.

Assim a vida foi envelhecendo e a confiança em si e num tempo mais justo foi mermando. O mesmo já não era sempre novo. Foi branquejando atrevido até ir diminuindo e, por fim, desaparecendo. Agora o sentimento já vê como impossível a realização do desejo. A expectativa, o aguardo, a confiança foram dando lugar à desconfiança e enfraquecendo o coração. O entardecer chegou cedo e o dia deu em chuvoso. O Senhor mandou chuva para regar a terra e o solo assim ficar mais rico e produzir muito. As águas foram colhendo as lavouras, os animais, as casas, até agora há desaparecidos e soterrados. E não choveu pão dos céus e o povo saiu – e ela também – sem colher sua porção para cada dia nem provar se andava ou não nas leis divinas. Ah, como às vezes Deus se esquece de como sofre a gente pobre!

Dona Esperança saiu com seu cão (que já descobriu estar abrigado com mais 12 mil bichos de estimação), a roupa do corpo e alguns documentos. É a terceira vez, a terceira lâmina, a terceira estocada no coração. Desta vez, talvez não sobre nem o alicerce. A arca veio lotada de cães, gatos e pássaros, mas a maioria foi esquecida. Na hora do salve-se quem puder, poucos lembraram que os bichos são sempre crianças. Um barco foi sua tábua de salvação. Para outros, botes, jet-skis e até helicópteros. As ações, desde os salvamentos às doações, foram, predominantemente, do povo em geral, do povo pelo povo, daqui e de tantas outras querências do país e do mundo, mais alguns administradores a posteriori, na tarefa de reconstrução propriamente dita.

As ações públicas, oficiais, salvo as atuações de algumas forças estaduais, foram bem precárias. Da Presidência da República ao Paço Municipal, passando pelo Governo Estadual, mostraram todos um certo descaso, ineficiência, negligência, salvo nas boas horas dos holofotes. Muita propaganda oficial, inclusive da justiça eleitoral, muito grito e pouca lã. O terreno não era favorável, o clima não era favorável, as aeronaves eram tantas e causavam confusão quase como se fossem inimigas. Fora isso, houve também muitos oportunistas atacando de papagaios de pirata. Gente fingida pra cachorro. É o que é e foi o que foi, salvo raras e honrosas exceções ou salvo melhor juízo.

A única coisa que devemos temer é o próprio medo, era um ditado que repetia. Agora só aguardava o sol e as águas baixarem. Engoliu muito choro e, também, viu a morte sem chorar. Já não sonha nem tem desespero ou esperança. Nem ama por não ser poeta. Nem almeja sucesso sem a superação de práticas carcomidas que seguem dissimulando a história. Por ora, não confia em nada e nem ninguém. Menos ainda em si. Não espera a hora, a onda salvadora, a ocasião. É inviável e não espera mais nada. O exército derrotado de uma mulher só. Mas sem viver o medo nem ao meio. Segue a dizer não. Em caixa e em voz altas. Cabeça, tronco e membros plenamente vazios. Inviável. Pensa sem palavras sobre si mesma. Inviável.

A grandeza e a pequenez humanas vêm de braços e abraços. Entre imaginações de visões da noite, quando cai sobre os homens o sono profundo, sobrevieram-lhe o espanto e o tremor, e todos os seus ossos estremeceram. Então um espírito passou por diante dela e fez-lhe arrepiar os cabelos da sua carne. Inviável. Vem Deus deslizando entre brumas de mil megatons. Esperança é a última que morre. Ou nunca morre. Quem observa o vento nunca semeará, e o que olha para as nuvens nunca ceifará. O obscuro do instante se eterniza. Não há rastreadores para os desvios de rotas nem de recursos ou doações. Inviável. Assim como tu não sabes qual o caminho do vento, nem como se formam os ossos no ventre da mulher grávida, assim tu também não sabes as obras de Deus, que faz todas as coisas. O Senhor fez o mundo e tudo o que nele há nos céus e na terra, e derrama sobre nossas casas todos os seus mananciais. Esperança inviável. A luz dos olhos alegra o coração e a boa nova fortalece os ossos, mas o Senhor não habita em santuários feitos por mãos humanas.