Enchentes no RS: a entrevista que não foi publicada porque entrevistado se recusou a confirmar a pauta do repórter

Jurandir-Malerba-arquivo-pessoal(Foto: Jurandir Malerba / Arquivo Pessoal)

Por Jurandir Malerba

Sou Professor Titular de História da UFRGS e reporto a seguir um episódio revelador do modus operandi de certos veículos de imprensa brasileiros. Em meio à tragédia que vivemos no Rio Grande Sul, semana passada um jornalista de veículos reacionários da grande imprensa entrou em contato pedindo uma entrevista sobre a recente tragédia climática no Rio Grande do Sul, quando choveu, em uma semana, dez vezes a média histórica para todo o mês de maio, causando mortes e destruição. As perguntas enviesadas já evidenciavam para onde o jornalista queria levar a matéria: uma crítica da atuação do Estado, louvando ações individuais da “sociedade civil”, reproduzindo a fake de que o “povo” salvou o povo. Em minha devolução, posicionei-me contra o viés inscrito no questionário, não obstante tenha me disposto a respondê-lo, até como um contraponto àqueles que atenderiam às expectativas do editorial. Segue a reprodução integral das perguntas e respostas:

1. Por que o brasileiro tem sido tão solidário com os gaúchos?

Uma tragédia dessa dimensão, uma das maiores da história do Brasil, ao lado do rompimento da barragem em Brumadinho (2019) e da hecatombe da pandemia de Covid no Brasil (2020-2021) não há como passar incólume à população brasileira, que sempre foi majoritariamente solidária, exceto uma fração, nada desprezível numericamente, de classe média. Por outro lado, não se pode desconsiderar o efeito “poderia ser comigo”, já que a incompetência e a má gestão pública, principalmente nos níveis municipal e estadual, é de conhecimento de todos. Pesquisa da Confederação Nacional de Municípios desta semana revelou que 8 em cada 10 prefeitos do país assumem despreparo para lidar com eventos climáticos extremos. E todos sabem, até os negacionistas, que os eventos vão se intensificar em número e potência

2. Houve momentos parecidos na nossa história? Quando?

Certamente, como a enchente histórica aqui mesmo em Porto Alegre de 1941. Desconsiderando o modelo de urbanização criminoso europeu de avançar a cidade sobre o rio, aquela enchente foi um fenômeno natural. Mas esta, de 2024, não! Entre 1950 e começo da década de 1970, Porto Alegre investiu na construção de um sofisticado sistema contra enchentes. O que acaba de acontecer é o resultado criminoso de sucessivas gestões que, além de não inovar o sistema, o sucatearam, sem investimento e manutenção. Os números estão disponíveis e há documentos que comprovam a negligência das últimas administrações estaduais e municipais. Para ficar em outros três desastres recentes, com o mesmo caráter criminoso, basta lembrar os rompimentos de barragem em Mariana (2015) e Brumadinho (MG), o primeiro o maior em impacto ambiental e o segundo em número de vítimas; e os 700 mil brasileiros e brasileiras vítimas não só do vírus SARS-Cov-2, mas da gestão criminosa da crise de saúde pelo então governo negacionista. Com 2,7% da população mundial, o Brasil concentrou 13% das mortes por COVID no planeta. O relatório final CPI da COVID abunda em dados e a sociedade aguarda o indiciamento, pela Justiça, dos culpados.

3. Até então, falava-se muito da polarização política e do individualismo, coisas que estariam minando o nosso senso de comunidade e a união entre as pessoas. Por que essas coisas não atrapalharam tanto?

A polarização política, como pessoas de boa-fé sabem, não existe, pois não há “polos”. Há uma extrema-direita fascista, globalmente articulada e muito ativa na disseminação de fake news inclusive nesta crise do Rio Grande do Sul, espalhando concertadamente que o Estado (em âmbito federal) está inativo, ou mesmo atrapalhando e que é o “povo” que está socorrendo o povo. Eu vivo em Viamão, na área metropolitana de Porto Alegre e estive na linha de frente da crise, voluntariando, e garanto que, sem suporte do Estado, a sociedade civil, sozinha, não teria conseguido salvar um décimo das vítimas, pessoas e animais. No entanto, vemos a proliferação de fakes, como bloqueio de estradas por polícias e Exército e assim por diante. As razões do ataque às FFAA pela extrema direita são de público conhecimento: retaliação pela não adesão ao golpe falido em 8 de janeiro de 2023.

4. Muita da ajuda foi prestada pela própria sociedade civil, e não pelo governo/Estado. Isso terá consequências para o futuro? Teremos uma população mais unida e mais cética com o Estado no futuro?

Como eu disse, essa afirmação é falaciosa. Sem dúvidas, o voluntariado foi importante no socorro imediato, durante as chuvas torrenciais e inundações. Mas o Estado (tanto no âmbito municipal, como Estadual e, principalmente, Federal) também foi decisivo no socorro às vítimas desde o primeiro momento. E o será na reconstrução do estado do RS. A “sociedade civil” não aportará centenas de bilhões necessários à reconstrução da infraestrutura logística, de socorro às empresas e às famílias. Neste ponto entra o problema central da comunicação. Se não houver um controle responsável das mídias digitais, est aremos todos sob o risco do enfraquecimento do Estado.

5. Por que as narrativas políticas para tentar dividir a população durante esse momento parecem não ter prosperado?

Essa proposição não é inteiramente verdadeira. A extrema-direita tem logrado algum êxito na propagação de mentiras. Por outro lado, é preciso uma percepção sociológica mais aguçada para pensar a “população”. Ela não é coesa. Bastará observar, conforme as estatísticas ficarem disponíveis, quem são proporcionalmente os segmentos mais afetados pelo desastre. São os pobres, os periféricos, das cidades-satélites de Eldorado do Sul e Guaíba, das periferias de São Leopoldo e Canoas; dos bairros pobres de Porto Alegre como São Geraldo, dos baixadões do Humaitá e da Zonal Sul, onde se concentram muitas “vilas” (como aqui se chamam as favelas). E não será de egressos desses extratos que a produção de fake news acontecerá, mas das classes médias não atingidas.

Imediatamente, sem emitir juízo algum sobre minhas respostas, o jornalista pediu para aprofundar a comparação à tragédia climática do RS com a Covid no Brasil, em relação a seu caráter histórico, questionando se as enchentes deste ano, aqui, poderiam mudar o modo de ver os eventos climáticos no Brasil. E assim me dei ao trabalho de responder:

Vai depender de uma série de fatores. Os negacionismos são uma realidade deletéria nos últimos anos, potencializados e usados politicamente pelas/nas redes sociais. Foi assim na pandemia, e assim é em relação à ciência, à história, à política, às religiões. Então, em uma época em que pessoas acreditam que a terra é plana e tentam convencer outras pessoas disso, e em que setores criminosos manipulam essa ignorância ativamente produzida, a coibição veemente das fake news negacionistas por parte das autoridades judiciais será um elemento decisivo para que as pessoas entendam que estamos no ponto de não retorno em relação ao meio ambiente e ao clima.

Depois de ter atendido ao jornalista, respondendo até pergunta extra, sua resposta foi a de que não incluiria minha contribuição no texto que produzia, que já estava quase finalizado, porque “Nós realmente estamos indo por caminhos muito distintos, uma pena” e que esperava que eu conseguisse “publicar suas reflexões em outro lugar”.

Agradeço ao jornalista dos veículos reacionários a oportunidade de organizar minhas reflexões e publicá-las em outro lugar, ao mesmo tempo desnudando essa forma perniciosa de fazer imprensa, infelizmente, ainda corrente no Brasil. Ao confirmar que seguíamos por “caminhos muito distintos”, os veículos revelam que simplesmente procuravam por alguém, com alguma chancela institucional, que endossasse sua perspectiva liberal, anti-Estado, mercadófila, individualista e negacionista. Não se tratava de matéria jornalística, mas uma busca de material para a pregação ideológica. Se não responder o que o veículo quer, não se publica. Esse tipo de “cobertura” é tragédia em cima de tragédia!

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Jurandir Malerbaé Professor Titular de História da UFRGS.


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Fonte: Observatório da Imprensa

Países fecham acordo sobre recursos genéticos, patentes e biopirataria

Como o tratado só entra em vigor após os 15 integrantes o ratificarem em lei nacional, os bancos genéticos, como a Amazônia, seguem na mira de interesses internacionais. China e EUA têm mais da metade dos 44 mil pedidos de patente registrados no INPI

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10% dos pedidos ou depósitos de patentes de bioinsumos referem-se ao açaí

Por Cida de Oliveira, da RBA

São Paulo – A comunidade internacional finalmente chegou a um acordo para regular o uso de recursos genéticos, o registro de patentes e combater a biopirataria. O tratado firmado após 25 anos de negociações estabelece regras para utilização de plantas medicinais, produtos das florestas e conhecimentos tradicionais ao serem patenteados por grandes empresas.

Segundo comunicado da Organização Mundial de Propriedade Intectual, o acordo é o primeiro a tratar de recursos genéticos. Com ele, empresas interessadas em apresentar um pedido de patente terá de revelar a origem dos recursos genéticos usados. O inventor ou a empresa terá de fornecer também dados sobre os povos indígenas que forneceram o conhecimento tradicional para tal patente.

“Estávamos esperando por esse momento por 25 anos”, disse o embaixador brasileiro Guilherme Patriota, que conduziu o processo no âmbito da organização. Segundo ele, o texto final, que resultou de um calhamaço de 5 mil páginas, foi “cuidadosamente equilibrado”. “Trata-se do melhor compromisso possível e uma solução cuidadosamente calibrada, que busca unir e equilibrar uma variedade de interesses. Alguns muito apaixonados e assiduamente expressos e defendidos ao longo de décadas”, disse.

Ao longo desses 25 anos de discussões, os países emergentes e os ricos evidentemente ficaram em lados opostos. De um lado, países como o Brasil, a Colômbia, nações africanas e asiáticas. Todos têm seus recursos genéticos e conhecimentos ancestrais utilizados na fabricação de cosméticos, medicamentos, biotecnologia e suplementos alimentares para lucro de outros.

China e EUA dominam pedidos de patente

Nesses anos todos de discussões, os países emergentes insistiam na revogação de uma patente caso o inventor não informasse a origem dos recursos. Mas os países ricos, onde estão as indústrias farmacêuticas, argumentam impacto na capacidade de inovação.

Com o acordo, que tem entre as metas principais o combate à biopirataria, as comunidades locais terão de concordar com o uso de seu conhecimento tradicional.E também de seus recursos genéticos. E o inovador que não apresentar as informações sobre a origem dos recursos utilizados terão chance para isso antes de sofrer penalidades. O tratado entrará em vigor, porém, somente quando os 15 países ratificarem o texto em suas legislações nacionais.

Enquanto isso, bancos de recursos biológicos seguem na mira de interesses internacionais, que se aproveitam da falta de regulamentação. No caso da Amazônia brasileira, empresas dos Estados Unidos e da China estão por trás de mais da metade dos 44 mil pedidos de patente registrados no Instituto Nacional da Propriedade Intelectual (INPI). Desse total, as empresas chinesas respondem por 44%. e as dos Estados Unidos, por 9%.

Direito de propriedade intelectual

Segundo o professor da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), Marcos Pedlowski, dos pedidos ou depósitos de patentes de maior número com bionsumos estão relacionados ao Açaí (10,1%), Cupuaçu (5,6%) e Babaçu (4,9%). “Como se sabe que empresas chinesas estão produzindo até peixes amazônicos em cativeiro, não será surpresa nenhuma descobrirmos que há mais recursos amazônicos que chineses e estadunidenses já patentearam”, ponderou em publicação recente em seu blog.

À RBA, Pedlowski considerou que as patentes envolvem direito de propriedade intelectual, com implicações diretas no comércio, especialmente internacional. Com isso, o Brasil e os estados amazônicos perdem as melhores condições de usufruir dos benefícios dos produtos gerados a partir da biodiversidade amazônica.

“Além disso, tenho que lembrar que a China está hoje com uma forte penetração econômica na Amazônia para projetos de infraestrutura e de controle das monoculturas da soja. Ao deter mais patentes que o Brasil no tocante a produtos naturais amazônicos, o que estamos vendo é a repetição de um modelo desigual de obtenção de divisas, na qual o Brasil será mantido em uma condição de economia dependente”, disse.


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Fonte: Rede Brasil Atual

PUCRS realiza pesquisa emergencial sobre situação dos desabrigados

Pesquisadores dos cursos de Ciência da Computação e de Arquitetura e Urbanismo fazem pesquisa colaborativa

Abrigo-do-Parque-Esportivo-da-PUCRS---Foto-Giordano-Toldo-PUCRS

Os cursos de Ciência da Computação e de Arquitetura e Urbanismo, da Escola Politécnica da PUCRS, convocaram estudantes e se uniram com o objetivo de avaliar as dimensões das enchentes, os deslocamentos populacionais, as condições dos abrigos emergenciais, as perspectivas de continuidade, analisando o espaço físico e demandas para projetar alternativas futuras. O trabalho colaborativo, liderado pelas professoras Soraia Musse e Cibele Figueira, também conta com doutores, doutorandos e graduandos do VHLab da PUCRS e outras instituições de ensino, pesquisadores da UFRGS e o arquiteto Rodrigo Marsillac, da prefeitura de Porto Alegre.    

“Utilizando-se modelos computacionais de dinâmica populacional, pretende-se simular o cenário atual e cenários futuros que ainda possam ocorrer em decorrência de aumentos de chuvas, novos bairros alagados e evacuados, ou ainda imigração de pessoas de fora de Porto Alegre para os abrigos”, explica a professora de Ciência da Computação, Soraia Musse.    

O simulador LODUS, criado por Gabriel Fonseca, doutorando orientado por Soraia no Programa de Pós–Graduação em Ciência da Computação (PPGCC), foi utilizado para simular situações reais e que ainda não ocorreram, tanto da dinâmica de movimentação das populações, quanto dos seus perfis, em caso de bairros afetados. Também é possível estimar as necessidades de provisões por pessoa, no tempo e no espaço, estimar necessidades de abrigos que precisam ser abertos e até simular pessoas nos abrigos.    

“Fazemos projeções com base em dados reais e abertos, disponibilizados no site AbrigosRS, criado por voluntários, prevendo futuros que esperamos que não aconteçam. Quero ser otimista e dizer que nossas projeções estão sendo pessimistas”, ressalta a professora.    

Os dados fornecidos pelo site também permitem que os pesquisadores realizem um trabalho de simulação de deslocamento, nos casos de pessoas que precisam ir para um abrigo ou mudar de local, por exemplo. Os mais de 100 abrigos da cidade estão no mapa, com sua taxa de lotação indicada, e última data de atualização disponível.    

Outra frente deste amplo trabalho de pesquisa é observar e relatar a situação atual dos abrigos de Porto Alegre, como um primeiro foco, para que fique de registro para eventuais cenários que possam voltar a acontecer no futuro. Pensando que muitos dos locais que servem de abrigo funcionando normalmente, como escolas, clubes, igrejas e outros, o grupo também pensará alternativas de acolhimento para quem não conseguir sair do abrigo até o prazo de reabertura de atividades. 

Nesta parte, os pesquisadores de Arquitetura e Urbanismo também pensam em como adaptar construções para que sirvam ao propósito de receber centenas de pessoas. Um dos objetivos é criar um guia para construção de abrigos, contendo as necessidades mínimas para ocupação de pessoas, assim como previsão de insumos necessários para a população abrigada. Com a evolução da pesquisa, a ideia é apresentar os resultados ao poder público. 

Acabou a bonança do agronegócio brasileiro: dívidas das 10 maiores recuperações judiciais somam R$ 5 bilhões

Segundo especialistas, número de pedidos de RJ deve subir nos próximos meses em ambiente de commodities em queda, perdas de safras com o clima e juros ainda altos

Campo de soja no Brasil

Empresas do agro somam bilhões em dívidas e recuperações judiciais devem crescer em 2024 |Em cenário de queda dos preços de commodities agrícolas, como a soja, e custos em alta, produtores enfrentam dificuldades(Bloomberg Creative/Bloomberg Creative Photos)

Por Juliana Estigarríbia para a Bloomberg Línea

Bloomberg Línea — Depois de anos de bonança ininterrupta, a crise chegou ao agronegócio.

Dívidas das 10 maiores recuperações judiciais do agro somam R$ 5 bilhões

Os efeitos causados pelo El Niño, combinados com inflação dos insumos, queda dos preços de commodities e juros elevados persistentes, criaram um cenário adverso para o setor, que deve enfrentar um avanço do número de recuperações judiciais em 2024, segundo fontes ouvidas pela Bloomberg Línea.

As dez maiores dívidas de empresas do setor que já estão em recuperação judicial (RJ) atualmente no país somam cerca de R$ 5 bilhões, de acordo com levantamento do Diamantino Advogados Associados, especializado em direito agrário e do agronegócio, para a Bloomberg Línea.

Os dados foram compilados a partir de informações processuais públicas nos tribunais em que correm as ações e consideram apenas recuperações judiciais já autorizadas pela Justiça ou planos aprovados pelos credores que já estejam em andamento.

O número de pedidos de recuperação judicial no setor deve crescer neste ano. Há uma perda de valor no mercado de commodities e, além disso, o agronegócio é cíclico e estamos em um ciclo de baixa”,
afirmou o sócio do Diamantino Advogados Associados, Eduardo Diamantino.

Entre as justificativas das empresas para os pedidos de recuperação judicial estão os efeitos da pandemia, da guerra na Ucrânia e as condições climáticas, segundo a análise dos processos. 

As duas maiores recuperações judiciais do agronegócio atualmente superam um passivo individual de R$ 1 bilhão cada uma, segundo o levantamento. A Sperafico Agroindustrial, do Paraná, tem uma dívida de R$ 1,07 bilhão. Já a Usina Maringá, que integra um grupo de empresas com atuação no Estado de São Paulo, acumula dívida de R$ 1,02 bilhão (confira o ranking abaixo).

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A terceira maior dívida nesse ranking, de R$ 664,8 milhões, pertence à Elisa Agro. A empresa alegou em petição inicial que uma conjunção de fatores levou ao pedido de RJ: os impactos da covid-19, a guerra na Ucrânia que afetou o fornecimento global de insumos, a queda dos preços de commodities agrícolas e a estiagem em setembro de 2020 contribuíram para o quadro de dificuldades.

A quarta maior dívida do levantamento, da Usina Açucareira Ester, de R$ 651,7 milhões, também tem como pano de fundo os efeitos da pandemia e a guerra na Ucrânia, além de dificuldades relacionadas sao clima. O grupo foi fundado em 1898 e tem a produção de açúcar e etanol como principal operação.

Na avaliação do sócio da consultoria Virtus BR Partners, Douglas Bassi, o cenário para o agronegócio estava positivo há cerca de dois anos, em razão dos altos preços de commodities como soja, milho e algodão. De lá para cá, as cotações estão mais baixas e houve restabelecimento dos níveis de estoques, ao mesmo tempo em que os custos subiram de forma significativa.

Bassi ressaltou que, no geral, muitas empresas do agronegócio têm enfrentado dificuldades de capital de giro, principalmente quando há mudança abrupta de preços e consequente pressão de margens. “Temos um cenário de estresse de estrutura de capital. Banco do governo ou agências de desenvolvimento não vão conceder empréstimos para empresas com esse tipo de problema.”

Para companhias listadas na bolsa brasileira (B3), como SLC Agrícola (SLCE3), BrasilAgro (AGRO3) e 3tentos (TTEN3), a situação está mais estável, disse Bassi. “Essas empresas podem acessar o mercado de ações ou emitir debêntures, os recursos estão mais disponíveis. Já aquelas que faturam até R$ 100 milhões, que são as mais representativas no Brasil, não têm o mesmo acesso a crédito.”

Para um dos sócio do Leite, Tosto e Barros Advogados, Rodrigo Quadrante, as recuperações judiciais no campo estão começando a aumentar. “Certamente esse movimento deve se intensificar no segundo semestre, em meio à queda da produtividade por causa do El Niño e a inflação dos insumos”,  avaliou. Ele acrescentou que, no agro menos profissionalizado, a tendência deve ser ainda mais acelerada.

Em sua visão, os negócios que envolvem produtos com menor valor agregado, como grãos, devem sofrer mais. “O aumento do preço dos insumos, o El Niño e a quebra da safra vão machucar o setor.”

Crise espraiada

De usinas de etanol a diversas culturas de alimentos, o setor tem registrado avanço de recuperações judiciais. Segundo levantamento divulgado nesta semana pela Serasa Experian, a demanda por recuperação judicial de empresas de produtos e serviços que se relacionam diretamente com o agronegócio (exceto produtores rurais que atuam com perfis jurídicos) cresceu de forma significativa em 2023.

No total, foram 321 pedidos no ano passado, ante 176 requisições em 2022, um aumento de 82%. As empresas estão inseridas em segmentos como produção e revenda de insumos, agroindústrias, comércios atacadistas, serviços de apoio à agropecuária, fábricas e revendas de máquinas agrícolas, entre outros.

Ainda segundo a Serasa Experian, também houve aumento dos pedidos de RJ por parte dos produtores rurais que atuam com perfis jurídicos (PJ), de 90 (em 2022) para 116 ao longo de 2023.

Quadrante, do Leite, Tosto e Barros, explicou que, em muitos casos, a pessoa física se mistura com o empresário do agronegócio. “Nesse tipo de situação, não estamos falando de uma empresa, mas, sim, de uma pessoa física como produtor. Existem RJs de produtores com dívidas extremamente altas”.

Bassi, da Virtus, apontou que a China está crescendo menos em um cenário global de consumo mais restrito. “Uma série de empresas do agronegócio vai continuar com dificuldades, algumas vão poder renegociar com bancos de maior porte, mas essas instituições não são soberanas em todos os casos.” Ele disse acreditar que, em discussões com bancos menores, o desgaste será ainda maior. “É inevitável: o setor vai continuar com um número crescente de empresas que vão aderir a renegociações de dívida, seja do ponto de vista judicial ou não, pelos próximos seis meses.”

Diamantino disse que, muitas vezes, a recuperação judicial é uma medida necessária para a sobrevivência da empresa. “O cenário mostra que nem mesmo um setor forte e sólido como o agronegócio está imune a dificuldades. A recuperação judicial é um mal necessário, ninguém deseja estar nesse processo, mas muitas vezes é o único caminho possível para devedores e credores”, afirmou.


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Fonte: Bloomberg Línea

Belo Monte: renovação de licença sem mudanças na sua governança é assinar catástrofe, alertam especialistas

BM Bori

O desvio de água do rio Xingu pela usina de Belo Monte (PA) deixou a região de Volta Grande com menos de 30% de sua vazão natural anual

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Optar pela renovação da licença da hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, vencida em 2021, sem mudanças expressivas na governança e operação das barragens seria o semelhante a assinar pela continuidade de uma catástrofe ambiental e humana na região. O alerta, publicado em artigo de perspectiva na revista científica “Perspectives in Ecology and Conservation” na sexta (24), é de pesquisadores de dez instituições, entre elas, o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), a Universidade Federal do Pará (UFPA), a Universidade de São Paulo (USP), o Instituto Socioambiental (ISA) e o Ministério Público Federal (MPF) de Altamira, no Pará.

Além de sugerir mudanças na governança de Belo Monte, os especialistas defendem que hidrelétricas com 10 MW ou mais de capacidade instalada não devem mais ser construídas na região amazônica.

O trabalho contextualiza os impactos da usina hidrelétrica de Belo Monte, que fica próxima ao município de Altamira (PA), com dados da literatura científica e de ações do MPF. Desde a inauguração da última das 18 turbinas, em 2019, a hidrelétrica desvia água do rio Xingu através de um canal que deixou um trecho de 130 quilômetros de uma região do rio, conhecida como Volta Grande, com menos de 30% de sua vazão natural anual. Isso, segundo a análise, evita a inundação em determinada época do ano de 86% da área total originalmente coberta por igapós, um tipo de vegetação sazonalmente inundada.

Dentre as consequências desse desvio, relatadas pelos especialistas, está o declínio da reprodução dos peixes e quelônios da região, diminuindo rendimentos pesqueiros, perda de vegetação adaptada às cheias e aumento do risco de extinção de espécies endêmicas, além de mudanças nos padrões de sedimentação do rio que afetam a qualidade da água. Estima-se, também, que esse processo causou impactos sociais, com o deslocamento de cerca de 40 mil pessoas para assentamentos urbanos na periferia da cidade de Altamira, segundo dados do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB).

O biólogo Philip Fearnside, pesquisador titular do INPA e coautor do texto, comenta que outro problema urgente é a ameaça à segurança alimentar de três grupos indígenas e diversas populações ribeirinhas que habitam a Volta Grande. “Essas comunidades dependem dos peixes e quelônios para sua alimentação, além de serem grupos evoluídos culturalmente para viver com o ritmo do rio. A água é o recurso-rei desses povos e isso está sendo perdido”, enfatiza.

Segundo explicam os especialistas, o desvio de Volta Grande é mantido para priorizar a plena capacidade de geração da casa de força principal de Belo Monte e faz parte do plano de engenharia original, elaborado pela Norte Energia, empresa que administra o complexo. A legalidade do processo de licenciamento da hidrelétrica, no entanto, é contestada em 22 ações movidas pelo Ministério Público Federal. Em uma delas, de setembro de 2022, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que a construção de Belo Monte violou a lei brasileira ao não realizar consultas com os povos indígenas e tradicionais da Volta Grande para a instalação das barragens.

A preocupação é se o governo atual seguirá com a renovação da licença de Belo Monte, e se alguma mudança na operação da barragem será exigida. “As administrações dos últimos anos têm passado por cima, forçando a continuidade da hidrelétrica, e sem que muitas das condicionantes que a empresa prometeu fazer tenham sido cumpridas. E sem nenhuma penalidade”, diz Fearnside.

Para mitigar os impactos de Belo Monte, segundos os especialistas, seria preciso mudanças na operação que garantam que uma quantidade adequada de água volte a fluir pela Volta Grande, de forma que seu trajeto se aproxime do ciclo e duração natural das cheias do rio. Além disso, uma mudança na governança da hidrelétrica também seria necessária, de modo a envolver povos indígenas e ribeirinhos locais no monitoramento das operações e no processo de licenciamento da hidrelétrica. “É evidente que a barragem não será destruída, mas se quisermos preservar os ecossistemas e povos existentes na região, as comunidades locais e a sociedade civil devem ter maior participação”, finaliza Fearnside.


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Fonte: Agência Bori

Pesquisa encontra agrotóxicos em biscoito maisena, macarrão instantâneo, empanado e hambúrguer à base de plantas

Idec apresenta resultados do terceiro volume do estudo ‘Tem Veneno Nesse Pacote’, que analisou 24 ultraprocessados e identificou resíduos de agrotóxicos em metade das amostras

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Por Idec

De 24 alimentos ultraprocessados produzidos no Brasil, com destaque para aqueles com apelo ao público infantil, foram encontrados resíduos de agrotóxicos em metade das amostras.

O número alarmante está no terceiro volume da pesquisa “Tem Veneno Nesse Pacote”, realizada pelo Instituto de Defesa de Consumidores (Idec) e que identifica a presença de resíduos de agrotóxicos em produtos alimentícios ultraprocessados comuns na rotina dos brasileiros. 

O estudo está disponível gratuitamente na página idec.org.br/veneno-no-pacote, juntamente com os dois primeiros volumes, lançados em 2021 e 2022. 

Na terceira edição, foram analisados 24 ultraprocessados de oito categorias: macarrão instantâneo, biscoito maisena, presunto cozido, bolo pronto sabor chocolate, sobremesa petit suisse sabor morango, bebida láctea sabor chocolate, hambúrguer à base de plantas e empanado à base de plantas com sabor de frango. 

Em cada categoria, foram selecionados os três produtos mais vendidos do mercado. Os testes foram realizados por um laboratório certificado pela Coordenação Geral de Acreditação (CGCRE) do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro), credenciado junto ao Ministério da Pecuária e Abastecimento (MAPA) e utilizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em testes de resíduos de agrotóxicos. 

Tem Veneno nesse Pacote | Idec - Instituto Brasileiro de Defesa do  Consumidor

O teste escolhido é um dos mais abrangentes, com capacidade de detectar resíduos de até 563 agrotóxicos diferentes. 

A coordenadora do Programa de Alimentação Saudável e Sustentável do Idec, Laís Amaral, explica que as categorias com produtos à base de plantas foram incluídas no estudo mais recente em razão do avanço da indústria, que se apropria de uma fatia do mercado considerada “novidade”, apresentada como alternativa ao consumo de carne, enquanto vende uma variação dos mesmos ultraprocessados de sempre, e ainda utilizando matérias-primas produzidas com o uso de agrotóxicos.

“Precisamos alertar para o perigo duplo do consumo de ultraprocessados. Eles são produtos com excesso de nutrientes críticos, relacionados ao desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes, doenças do coração e hipertensão, além da presença de aditivos alimentares. E também temos consistentemente encontrado traços de contaminação com agrotóxicos nesses produtos, ou seja, são venenos tão potentes que continuam ali mesmo depois dos processos de produção nas indústrias”, explica Amaral. 

Resultados

Ao final do estudo, 12 dos 24 produtos analisados apresentaram resíduos de agrotóxicos. Os ultraprocessados com mais traços de agrotóxicos, com quatro tipos diferentes em cada amostra, foram: 

  • biscoito maisena Marilan
  • biscoito maisena Triunfo

Foram encontrados resíduos de três agrotóxicos diferentes nos produtos: 

  • Hambúrguer à base de plantas Sadia
  • Empanado à base de plantas sabor frango Seara
  • Macarrão instantâneo Nissin
  • Macarrão instantâneo Renata
  • Bolo pronto sabor chocolate Ana Maria

Foram encontrados resquícios de dois agrotóxicos no produto: 

  • Empanado à base de plantas sabor frango Sadia

E foi identificada a presença de um tipo de agrotóxico nos seguintes produtos: 

  • Hambúrguer à base de plantas Fazenda Futuro
  • Empanado à base de plantas sabor frango Fazenda Futuro
  • Presunto cozido Aurora
  • Bolo pronto sabor chocolate Panco
  • Bebida láctea sabor chocolate Pirakids

O glifosato foi o agrotóxico que mais apareceu nos testes, em sete das 24 amostras. Laís Amaral explica que o glifosato é o herbicida mais vendido no mundo, tido como “provavelmente carcinogênico ou capaz de causar câncer”, de acordo com a Agência Internacional para Pesquisa sobre Câncer (IARC) da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Apenas a categoria de sobremesa petit-suisse sabor morango não apresentou resíduos de agrotóxicos em nenhuma das amostras analisadas.

E a farinha de trigo, encontrada tanto na crosta dos empanados, quanto no biscoito maisena e no macarrão instantâneo continua sendo um ingrediente com alta prevalência de contaminação por agrotóxicos, como já havia apontado a análise do volume 2 do “Tem Veneno Nesse Pacote”. 

“Os testes que não indicaram resíduos de agrotóxicos não significam, comprovadamente, que esses ultraprocessados não utilizam matérias-primas com uso de venenos agrícolas. Mostram apenas que as amostras analisadas não contêm resíduos de agrotóxicos”, explica Amaral. 

Leonardo Pillon, advogado do Programa de Alimentação Saudável e Sustentável do Idec, lembra que o instituto vem criticando a flexibilização do uso dessas substâncias há muitos anos. Junto a outras organizações, o Idec integra a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida. 

“Cabe a crítica também aos deputados federais e senadores que, mesmo no meio de uma catástrofe climática diretamente relacionada com o ritmo de desmatamento e a manutenção de retrocessos na legislação ambiental, derrubaram vetos no Pacote do Veneno para concentrar poderes nas mãos do MAPA. Isso deve fazer com que as decisões futuras passem a ser facilmente controladas pelo lobby ruralista e corporações de agrotóxicos, acelerando ainda mais o descontrole desses produtos”, afirma. 

O advogado do Idec reforça que quem pagará o preço é a própria população, em especial pessoas negras, periféricas, mulheres, crianças e povos originários e tradicionais, seja por serem mais atingidos em eventos climáticos extremos, ou por serem cada vez mais expostos a uma carga maior de agrotóxicos. 

Com a finalização do volume 3 do estudo “Tem Veneno Nesse Pacote”, o Idec enviou notificações para todas as empresas responsáveis pelos produtos analisados em que foram encontrados agrotóxicos. Os dados também foram enviados à Anvisa.

Os interessados em baixar apenas o Volume 3, podem clicar [Aqui!].


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Fonte: Idec

Conservação de vegetação nativa é fundamental para combate às mudanças climáticas, advertem cientistas

amazonia-5406522Mudanças climáticas podem levar à perda de biodiversidade: imagem mostra vista panorâmica de floresta nativa

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A mitigação do impacto das mudanças climáticas na perda de biodiversidade passa por adotar medidas que preservem a vegetação e o solo nativos, já que eles são responsáveis por estocar carbono. Seria preciso evitar a fragmentação desses ambientes e realizar a correta recuperação de áreas degradadas. É o que dizem pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e do Centro de Conhecimento em Biodiversidade, em parceria com colegas de instituições estrangeiras, em reflexão publicada na revista científica “BioScience” nesta quinta (23).

Dentre as principais recomendações dos especialistas, estão a coibição do plantio de florestas baseadas em espécies exóticas, como pinus ou eucalipto, e a promoção de um uso mais consciente da terra para atividades agrícolas, o que evitaria a expansão de áreas de cultivo.

Com uso da literatura científica recente, os pesquisadores elencam seis pontos-chave para mitigar as mudanças climáticas: a conservação de estoques e sumidouros de carbono, a restauração adequada de áreas degradadas, a conservação integrada de fauna e flora locais, o investimento em mais produtividade agrícola em vez da devastação de novas áreas naturais para cultivo, a incorporação de medidas práticas para sustentabilidade por empresas e instituições financeiras e a colaboração entre especialistas para alinhar políticas e ações necessárias aos desafios ambientais. Esse último ponto poderia ser feito por meio da união das Conferências  das Nações Unidas (COPs) sobre Biodiversidade e Clima, que atualmente têm calendários distintos de realização.

A substituição de ecossistemas originais por florestas plantadas, por exemplo, pode aumentar as emissões de gases causadores do efeito estufa. Isso acontece porque o processo de tirar a vegetação original deixa o solo exposto, o que faz com que ele libere mais carbono. Por consequência, isso pode ampliar o impacto dos eventos climáticos extremos, como secas e enchentes. Os autores alertam: “ao introduzirmos um número limitado de espécies não nativas em uma determinada região, podemos, inadvertidamente, destruir a funcionalidade ecológica do ambiente, o que pode refletir na capacidade de fornecer nascentes de água, manter polinizadores para agricultura, controlar a umidade e o clima e influenciar o regime de chuvas”.

Em áreas como a Amazônia, os cientistas enfatizam a prioridade absoluta de parar o desmatamentoe a degradação da floresta remanescente – e avaliam que a restauração só se tornará prioridade depois destes objetivos serem alcançados. “Para o Brasil, a mensagem seria a necessidade de elevar muito a prioridade de áreas desmatadas. Apesar de discurso do governo, elas ainda não são tão prioritárias quanto áreas com grandes impactos ambientais de mineração ou energia, agricultura e infraestrutura de transportes”, avalia o pesquisador do Inpa Philip Fearnside, um dos autores do artigo.

Os pesquisadores também recomendam aos formuladores de políticas públicas que não aprovem projetos de lei que descaracterizem as áreas de proteção e promovam a expansão de áreas agrícolas. “O Brasil precisa largar de planos de extrair petróleo até a foz do rio Amazonas, de abrir vastas áreas de floresta com rodovias como a BR-319 e AM 366, de legalizar reivindicações de posses em terras públicas, de subsidiar pastagem e soja e de construir mais barragens amazônicas”, conclui Fearnside.


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Fonte: Agência Bori

Queda acentuada nas matrículas de pós-graduação no Brasil sugere declínio no interesse por carreiras científicas

O número total de ingressantes em programas de mestrado e doutorado caiu 12% entre 2019 e 2022, atingindo o nível mais baixo em quase uma década.

 
Duas pessoas vestindo jalecos trabalhando em um laboratório da Universidade Federal do Rio de Janeiro

Devido a questões sistêmicas e interrupções causadas pela pandemia da COVID-19, o interesse pelas carreiras acadêmicas no Brasil atingiu um novo nível. Crédito: Lucas Landau/Reuters

Por Rodrigo de Oliveira Andrade para a “Nature”

Um relatório preliminar divulgado no mês passado pela CAPES constatou que o interesse dos estudantes de graduação do país em seguir uma carreira acadêmica está em um ponto baixo. Após um crescimento constante entre 2015 e 2019, o número total de indivíduos inscritos em programas de mestrado e doutoramento começou a diminuir. Entre 2019 e 2022, mais de 14.000 vagas de pós-graduação foram perdidas, e 2022 teve o menor número de matrículas em pós-graduação em quase uma década.

Os programas de engenharia sofreram um impacto significativo. De 2015 a 2022, registaram-se um declínio geral no número de novos estudantes, que caiu de um pico em 2017 de 14.196 para 9.090 – uma diminuição de 36%. Os programas de pós-graduação em ciências agrárias também foram afetados, com queda de 23% desde 2015; nas ciências biológicas, esse número foi de 14%, e nas ciências da terra, foi de 12%.

“Isso é bastante preocupante”, diz Vinícius Soares, presidente da Associação Nacional de Pós-Graduação do Brasil, com sede em São Paulo. “Cerca de 90% da produção científica no Brasil envolve de alguma forma a participação de pós-graduandos e depende de suas contribuições”, acrescenta. Denise Guimarães Freire, química do Instituto de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil, diz que seu grupo passou por um declínio: “Há alguns anos, eu tinha dez alunos de pós-graduação em meu laboratório, mas agora só tenho três.”

Esses dados são do Plano Nacional de Pós-Graduação, documento publicado pela primeira vez na década de 1970 pela CAPES – órgão do Ministério da Educação de Brasília que avalia programas de pós-graduação e concede bolsas de mestrado e doutorado. O plano, que é publicado cerca de uma vez por década, contém métricas que informam a manutenção e o suporte do sistema de pós-graduação no Brasil.

Um fator óbvio que contribui para o declínio é a pandemia da COVID-19. Segundo o relatório, a suspensão das atividades presenciais gerou atraso nas inscrições, de modo que, em 2020, 25% dos programas de mestrado em 20 áreas de pesquisa tiveram mais vagas do que candidatos. Nos programas de doutoramento, 12 áreas registaram uma diminuição significativa da procura.

Falta de dinheiro

No entanto, alguns pesquisadores sugerem que esta crise poderá ter raízes estruturais que se estendem para além das perturbações pandémicas, tais como a falta de financiamento para subvenções e investigação. Soares diz que até 60% dos estudantes de pós-graduação no Brasil que fazem mestrado ou doutorado não têm bolsa ou financiamento por meio de projeto de pesquisa. No mês passado, num novo capítulo da crise de financiamento da ciência e da educação no Brasil, milhares de professores de universidades federais entraram em greve , exigindo salários mais elevados e financiamento para infra-estruturas em ruínas.

Essas circunstâncias podem levar muitos estudantes de pós-graduação a abandonarem os cursos e ingressarem no mercado de trabalho, afirma a presidente da CAPES, Denise Pires de Carvalho. Segundo dados da agência, num período de quatro anos iniciado em 2013, os programas de mestrado em engenharia tiveram uma taxa de evasão de 23%. Nos programas de doutoramento em engenharia, 21% dos alunos matriculados em 2013 abandonaram os estudos no prazo de cinco anos. “O mercado de trabalho nessas áreas é mais competitivo e oferece salários melhores do que qualquer bolsa acadêmica”, afirma Rodrigo Calado, pró-reitor de pós-graduação da Universidade de São Paulo.

Ao mesmo tempo, a inflação corroeu o valor das bolsas concedidas pela CAPES, o que também torna a pós-graduação uma perspectiva menos atraente. “Os valores das bolsas de mestrado e doutorado foram reajustados pela última vez em 2013, enquanto a inflação acumulada desde então chegou a 117%”, diz Carvalho.

No ano passado, diz ela, a agência criou 5.300 novas bolsas e aumentou o valor das bolsas de mestrado de 1.500 reais (US$ 290) para 2.100 reais por mês. As bolsas de doutorado foram aumentadas de 2.200 reais para 3.100 reais por mês. “Mas isso ainda não é suficiente para que os estudantes se dediquem em tempo integral à formação intelectual, principalmente em estados com alto custo de vida, como São Paulo e Rio de Janeiro”, diz Charles Morphy, pró-reitor associado de pós-graduação da Universidade Federal do ABC em Santo André, Brasil. Carvalho concorda, afirmando que “espera aumentar ainda mais estes valores até 2026”.

Longas distâncias

Além disso, muitos pesquisadores no Brasil descobriram que o longo tempo gasto em treinamento para uma carreira científica acadêmica não vale a pena. Geralmente, os cientistas levam pelo menos dez anos após obterem seu doutorado para conseguir um cargo permanente em uma universidade ou instituto de pesquisa. A trajetória profissional da bióloga Thaís Barreto Guedes ilustra essas dificuldades. Ela obteve seu doutorado em 2012 e realizou três bolsas consecutivas de pós-doutorado no Brasil e na Suécia.

Em 2022, aos 40 anos, ganhou uma bolsa de cinco anos para desenvolver um projeto sobre evolução de répteis e anfíbios tropicais na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Brasil. “Se eu não conseguir me firmar em uma universidade, estarei desempregado até 2027, pois não tenho contrato de trabalho com a Unicamp”, diz Guedes.

Para o biólogo Hernani de Oliveira, de 39 anos, a longa preparação e o investimento na carreira acadêmica ainda não valeram a pena.

Depois que Oliveira obteve seu doutorado na Queen Mary University of London em 2018, ele completou duas bolsas de pós-doutorado na República Tcheca e nos Estados Unidos. Em 2020, voltou ao Brasil para se firmar como pesquisador universitário, mas as oportunidades eram escassas. Ele passou a pandemia como pós-doutorado “enquanto [se candidatava a] cargos em universidades, institutos de pesquisa e agências governamentais — tudo sem sucesso”, diz ele.

Em vez disso, candidatou-se a um cargo de técnico de laboratório na Universidade de Brasília. “Sinto que meu potencial está sendo subutilizado”, diz ele. “Eu poderia estar fazendo pesquisas de alto impacto, mas em vez disso estou limpando vidros.” Olhando para trás, acrescenta ele, não escolheria seguir novamente a carreira acadêmica.

Estas duras realidades estão provavelmente a dissuadir os licenciados universitários de se inscreverem em programas de pós-graduação, dizem os entrevistados pela Nature. “Há uma percepção crescente no país de que não vale mais a pena ser professor ou pesquisador, pois as oportunidades se tornaram escassas e o salário se deteriorou devido à inflação”, diz Simon Schwartzman, sociólogo do Instituto de Estudos de Política Econômica em Rio de Janeiro. O governo estabeleceu um plano para formar 25 mil doutorados todos os anos entre 2014 e 2024, diz Schwartzman, “mas esqueceu-se de investir na infraestrutura necessária para absorvê-los”. Guedes acrescenta: “É como construir uma mansão e abandoná-la”.

DOI: https://doi.org/10.1038/d41586-024-01504-8


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Fonte: Nature

Metade dos manguezais do mundo em risco devido ao comportamento humano – mostra estudo

A perda dos ecossistemas, que são vastas reservas de carbono, seria “desastrosa para a natureza e para as pessoas em todo o mundo”, diz a UICN

Duas pessoas com macacões e máscaras de proteção azuis usam absorventes para limpar o óleo de um pequeno mangue na praia

Filipinos limpam óleo de manguezais em Mindoro após vazamento. A poluição, as condições meteorológicas extremas, a subida do nível do mar, a agricultura, o desenvolvimento e as barragens ameaçam os mangais. Fotografia: FR Malasig/EPA 

Por Patrick Greenfield para o “The Guardian”

Metade de todas as florestas de manguezais do mundo estão em risco de colapso, de acordo com a primeira avaliação especializada destes ecossistemas cruciais e reservas de carbono.

O comportamento humano é a principal causa do seu declínio, de acordo com a análise da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), com os mangais no sul da Índia, no Sri Lanka e nas Maldivas em maior risco.

Os sistemas no Mar da China Meridional, no Pacífico central e no Triângulo de Coral oriental em torno da Malásia, Papua Nova Guiné e Filipinas foram classificados como ameaçados.

The global mangrove areas are depicted above

Angela Andrade, presidente da comissão da UICN sobre gestão de ecossistemas, afirmou: “Os ecossistemas de manguezais são excepcionais na sua capacidade de fornecer serviços essenciais às pessoas, incluindo a redução do risco de catástrofes costeiras, o armazenamento e sequestro de carbono e o apoio à pesca. A sua perda será desastrosa para a natureza e para as pessoas em todo o mundo.”

Encontrados em todo o planeta, os manguezais incluem dezenas de espécies diferentes de árvores e arbustos ao longo das costas tropicais, que abrigam uma vasta gama de biodiversidade. Eles funcionam como viveiros de peixes e sustentam mamíferos tão variados quanto tigres, cães selvagens africanos e preguiças. 

 
Um tigre de Bengala à beira de uma floresta de mangue
Um tigre de Bengala nos Sunderbans indianos, a maior extensão de manguezal do mundo. Os manguezais abrigam uma enorme variedade de espécies. Fotografia: Arindam Bhattacharya/Alamy

Os ecossistemas armazenam uma quantidade desproporcional de carbono para o seu tamanho, absorvendo quase três vezes o carbono armazenado pelas florestas tropicais do mesmo tamanho.

Cerca de 15% das costas do mundo são cobertas por manguezais, mas o estudo concluiu que estes estão cada vez mais ameaçados pela subida do nível do mar, pela agricultura, pelo desenvolvimento ao longo das costas, pela poluição, como os derrames de petróleo , e pelas consequências da construção de barragens.

As fazendas de camarão, o desenvolvimento costeiro e as barragens nos rios, que alteram o fluxo de sedimentos, foram todas estabelecidas como causas anteriores de perda pelos pesquisadores. Mas as ameaças crescentes decorrentes da subida do nível do mar e da crise climática ameaçam a sua sobrevivência devido ao aumento da frequência e da gravidade das tempestades intensas .

Os investigadores utilizaram as ferramentas da UICN para avaliar o risco para os ecossistemas – semelhantes à sua lista vermelha , utilizada para calcular o risco de extinção de espécies – para realizar a investigação, que envolveu mais de 250 especialistas em todo o mundo.

“A lista vermelha de ecossistemas fornece caminhos claros sobre como podemos reverter a perda de manguezais e proteger estes delicados ecossistemas para o futuro, ajudando, por sua vez, a salvaguardar a biodiversidade, a enfrentar os efeitos das alterações climáticas e a apoiar a concretização do Quadro Global de Biodiversidade”, disse Andrade. disse.

Os manguezais no Havai e no sudeste da Polinésia não foram incluídos na avaliação porque não fazem naturalmente parte dos ecossistemas.


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Fonte: The Guardian

Ativistas ocupam escritório da Stora Enso em protesto contra as violações de direitos humanos e a degradação ambiental

No dia 29 de abril, ativistas do Extinction Rebellion, Forest Rebellion e Take Concrete Action entraram na sede sueca da Stora Enso em Estocolmo para protestar pacificamente contra o envolvimento da empresa na violenta grilagem de terras e destruição da natureza no Uruguai e no Brasil. Os ativistas são apoiados por uma manifestação do lado de fora do prédio de escritórios. Os manifestantes exigem que a Stora Enso pague pelos danos causados aos ecossistemas e comunidades locais e devolva as terras roubadas de povos indígenas e pequenos proprietários

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Por Extinction Rebellion

– A Stora Enso é uma das maiores proprietárias florestais privadas do mundo. Isso significa que a Stora Enso uma responsabilidade ainda maior de limpar sua cadeia de suprimentos e consertar seu modelo de negócios. As violações dos direitos humanos e a destruição maciça da natureza não têm lugar numa chamada “empresa sustentável”. Estamos aqui hoje para mostrar que a empresa sueco-finlandesa não pode esconder os seus crimes do outro lado do mundo. Nós os vemos”, diz Annika Leers, porta-voz da Forest Rebellion.

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A Veracel, subsidiária brasileira da Stora Enso, que onde a Stora Enso possui 50% do controle acionário, foi flagrada destruindo ecossistemas valiosos na Mata Atlântica, falsificando direitos fundiários, destruindo assentamentos em terras públicas e revendendo terras roubadas. Em várias ocasiões, a Veracel foi denunciada por tentar silenciar seus críticos – pessoas que se manifestaram foram ameaçadas de violência e presas sem acusação. Além disso, a retirada de terras agrícolas pela Veracel, em favor de grandes plantações de eucalipto, ameaça a segurança alimentar de milhões de pessoas. Além disso, os plantios de árvores da Veracel têm se mostrado prejudiciais à biodiversidade e à água doce. A situação é tão grave que o Ministério Público Federal solicitou recentemente a suspensão das operações da Veracel no sul da Bahia devido à deterioração socioambiental. No Uruguai, a subsidiária da Stora Enso, Montes del Plata, está agravando a escassez de água. A irrigação da monocultura de árvores esgotou as reservas de água doce, o que foi um dos principais contribuintes para que o país passasse por uma crise hídrica sem precedentes em 2023.

Os ativistas exigem que Stora Enso:

  • Pague reparações aos povos indígenas e locais no Brasil e no Uruguai por seus crimes, violência e destruição natural
  • Devolução de terras de povos indígenas e fazendeiros locais tomadas por meio da grilagem de terras;
  • As terras convertidas em plantações monoculturais de eucalipto deverão ser restauradas por meio de programas de restauração da natureza financiados pela Stora Enso, mas controlados por povos indígenas e comunidades locais.

A produção de celulose e o desmatamento também são uma ameaça às comunidades locais e à biodiversidade na Suécia. Os manifestantes querem que os princípios do FPIC (Consentimento Livre e Esclarecido) sejam seguidos em todos os processos relativos aos titulares de direitos indígenas em Sámi e que ocorra uma transição da floresta de corte raso de hoje para a floresta próxima da natureza. A transição deve ser acompanhada de uma compensação justa e de um apoio aos trabalhadores florestais, bem como de oportunidades de reconversão profissional na conservação da natureza e na silvicultura próxima da natureza.

– À medida que os sistemas globais de suporte à vida em nosso planeta começam a entrar em colapso, a Stora Enso continua a destruir valiosos ecossistemas florestais nos países nórdicos e na América Latina. Por meio da Veracel, a Stora Enso é responsável por silenciar os críticos, colocando-os na prisão com métodos mafiosos e corrupção local no Brasil. Tudo para encher os bolsos da gestão da Stora Enso aqui em Estocolmo”, diz Jakob, ativista da Forest Rebellion.

A ação faz parte de uma campanha de longo prazo e colaboração entre ativistas na Suécia, Finlândia e América Latina visando a Stora Enso.


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Fonte: Extinction Rebellion