O mundo sombrio dos “cartéis de citações”

Periódicos predatórios e pesquisadores de má fé estão manipulando o sistema de publicações científicas, e em grande escala

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Por Domingo Docampo para o “Chronicle of Higher Education”* 

O cenário complexo da academia moderna, a máxima “publicar ou perecer” tem evoluído gradualmente para um mantra diferente: “Seja citado ou sua carreira será arruinada”. As citações são a nova moeda acadêmica e as carreiras dependem agora firmemente desta forma de reconhecimento acadêmico. Na verdade, a citação tornou-se tão importante que deu origem a uma nova forma de artifício: redes furtivas concebidas para manipular citações. Os investigadores, movidos pelo imperativo de garantir o impacto acadêmico, recorrem à formação de anéis de citação: círculos colaborativos concebidos para aumentar artificialmente a visibilidade do seu trabalho. Ao fazê-lo, comprometem a integridade do discurso acadêmico e minam os fundamentos da investigação académica. A história do moderno “Cartel de citações ” não é apenas resultado da pressão por publicação. A ascensão das megajornais também desempenha um papel, assim como as revistas predatórias e os esforços institucionais para prosperar nos rankings académicos globais.

Ao longo da última década, o panorama da investigação acadêmica foi significativamente alterado pelo grande número de acadêmicos envolvidos em empreendimentos científicos. O número de acadêmicos que contribuem para publicações indexadas em matemática duplicou, por exemplo. Em resposta à crescente procura de espaço em publicações científicas, uma nova geração de empreendedores editoriais aproveitou a oportunidade, e o resultado é o surgimento de megajornais que publicam milhares de artigos anualmente. Mathematics , um periódico de acesso aberto produzido pelo Multidisciplinar Digital Publishing Institute (MDPI), publicou mais de 4.763 artigos em 2023, representando 9,3% de todas as publicações na área, de acordo com a Web of Science. A Mathematics tem um fator de impacto de 2,4 e uma medida de influência do artigo de apenas 0,37, mas, o que é mais importante, é indexado pela Web of Science da Clarivate, pelo Scopus da Elsevier e outros indexadores, o que significa que suas citações contam para uma variedade de métricas profissionais. (Por outro lado, o Annals of Mathematics, publicado pela Universidade de Princeton, continha 22 artigos no ano passado e tem um fator de impacto de 4,9 e uma medida de influência do artigo de 8,3.)

As mega-revistas prosperam na era do acesso aberto, fornecendo uma plataforma conveniente para investigadores ansiosos por ver o seu trabalho publicado e amplamente lido. Sem acesso pago, os artigos dessas revistas podem ser compartilhados (e citados) perfeitamente. A revista recebe “taxas de processamento de artigos” pagas pelos autores de um artigo ou por suas instituições, com taxas normalmente na casa dos quatro dígitos em dólares americanos por artigo. Os anéis de citação, que existem há décadas , agora exploram os processos rápidos e fáceis de revisão por pares dos megajornais para canalizar milhares de referências para seus colaboradores. O resultado é uma distorção dos índices de citações acadêmicas e das pontuações dos fatores de impacto que permitem que estudos medíocres pareçam ser muito mais influentes do que são – pelo preço certo para a revista, claro.

Uma importante métrica de citação direcionada para o jogo citacional é a prestigiada lista de “ Pesquisadores Altamente Citados ” da Clarivate . “Da população mundial de cientistas e cientistas sociais, os Pesquisadores Altamente Citados™ são 1 em 1.000”, explica Clarivate. A inclusão na lista ocorre primeiro por meio da atividade de citação: “Cada pesquisador selecionado é autor de vários Highly Cited Papers™ que estão entre os primeiros 1% por citações em seu(s) campo(s).” Essa lista é então “refinada através de análise qualitativa e julgamento de especialistas”. Em geral, o rótulo de Pesquisador Altamente Citado da Clarivate é reconhecido pela comunidade científica como um marcador de influência.

A lista de Pesquisadores Altamente Citados também contribui para um indicador do Shanghai Ranking , um ranking acadêmico de universidades mundiais. Numa aposta pela visibilidade internacional, as instituições nem sempre são avessas a que os seus docentes encontrem atalhos para o reconhecimento acadêmico, mesmo aqueles que envolvem práticas duvidosas de citação. A atração de subir nas tabelas de classificação internacional é poderosa. Essa relação simbiótica entre anéis de citação, megaperiódicos e classificações globais sublinha a urgência de descobrir as más práticas de citação.

A proliferação de revistas predatórias agrava ainda mais o problema. O bibliotecário académico Jeffrey Beall deu o alarme sobre tais editores na Nature em 2012, detalhando o “atoleiro antiético” em que ocorreram manipulação de direitos de autor, faturação surpresa, metodologias pouco sólidas, fotos alteradas e até plágio. A “Lista de Beall”, que funcionou até Beall encerrá-la , em 2017, alertou os estudiosos sobre editoras potencialmente predatórias, muitas vezes com nomes inócuos. Apesar das tentativas de aumentar a conscientização acadêmica sobre essas questões, e apesar dos muitos esforços da Clarivate para detectar padrões de citação anômalos, os periódicos predatórios continuaram a minar o prestígio da lista de Pesquisadores Altamente Citados. Essa tendência representa uma grave ameaça à credibilidade do desempenho académico.

Para entender melhor a natureza do problema, vamos nos concentrar em um anel de citação específico. Uma análise que estou realizando com dois colegas franceses mostra como as táticas de citação combinadas podem produzir um número impressionante de artigos altamente citados em matemática num período muito curto. Em 2023, uma rede de cerca de 100 investigadores conseguiu ser coautora de 17 artigos — e fazer com que esses artigos fossem citados 396 vezes entre 2023 e o início de 2024. Esta é uma taxa de citação notável. Todos os 17 artigos estão na lista de “artigos altamente citados” da Clarivate para matemática em 2023.

Um padrão intrigante surge ao examinar os artigos que fazem referência a esses 17 artigos: o número total de artigos citados é 84, dos quais 75 são autocitações ou citações de coautores. Essa estreita colaboração sugere uma rede estreita de autores com potenciais distorções nos padrões de citação, lançando dúvidas sobre a real influência dos estudos. Além disso, o número médio de referências aos 17 artigos altamente citados é próximo de cinco, com vários artigos obtendo mais de cinco citações. Os matemáticos individuais típicos teriam recebido apenas uma referência acadêmica às suas publicações de 2023 de outros trabalhos na área.

Vamos nos concentrar em um dos artigos que citam, para ver a forma peculiar como algumas referências direcionadas aparecem:

As referências 13 a 20 são artigos com o mesmo primeiro autor e um editor de um periódico de acesso aberto onde apareceram quatro dos 17 artigos altamente citados publicados pela rede em 2023, juntamente com 21 dos 75 artigos citantes da rede.

Em outro desses 75 artigos citados, encontramos 10 autocitações dentro da rede – nove das referências (nºs 15 a 23) novamente a artigos dentro da rede com o mesmo primeiro autor. Esses nove estão agrupados da seguinte forma no texto, logo após uma referência apropriada (nº 14):

… estudou as superfícies circulares semelhantes ao tempo no espaço 3 de Minkowski do ponto de vista da teoria da singularidade. Eles apresentaram singularidades e propriedades de simetria de superfícies circulares semelhantes ao tempo no espaço 3 de Minkowski [14]. Além disso, alguns dos mais recentes estudos relacionados sobre simetria e singularidade podem ser vistos em [15–23].

Essa forma de reconhecer artificialmente o trabalho de outra pessoa não é resultado do conhecido efeito Matthew , o “melhoramento da posição de cientistas já eminentes que recebem crédito desproporcional em casos de colaboração”. Em vez disso, resulta de um esforço concertado de grupo para elevar um académico ao topo da sua pirâmide. A rede que descobrimos produziu 75 artigos discretos, publicados principalmente em megajornais, num curto espaço de tempo. As revistas não exigem o mesmo nível de atenção e escrutínio que os locais estabelecidos e, por isso, há geralmente pouco reconhecimento da investigação da rede. Mas essa falta de escrutínio serve os interesses do grupo de citações – padrões de citação menos escrupulosos permitem-lhe citar e, assim, elevar trabalhos publicados nos mesmos tipos de revistas.

Em último caso, a nossa análise aponta para uma rede bem organizada que aproveita a colaboração e as citações para elevar a pontuação dos artigos recentes para o 1% mais citado. Seguem-se vários resultados indesejáveis. Estudiosos merecedores são enganados e não têm a sua influência reconhecida. A aparente influência de estudos medíocres pode enganar os estudantes de pós-graduação. E a falta de confiabilidade das métricas de citação terá um impacto adverso na disciplina como um todo.

O que podemos fazer para combater esses atalhos acadêmicos? Devemos promover uma cultura que priorize a qualidade e a integridade da pesquisa, e devemos desvendar a teia de anéis de citação. As instituições académicas e de investigação devem encorajar e recompensar investigação rigorosa e inovadora através de contratações, promoções e aumentos salariais adequados.

Os editores também devem ser totalmente responsáveis. As megajornais devem trabalhar para garantir a integridade do registro acadêmico. Podem salvaguardar a sua credibilidade desenvolvendo estratégias que detectem e previnam a manipulação de citações. Editores que seguem padrões rigorosos sabem que manter a qualidade da revisão por pares é um desafio, visto que bons revisores geralmente são bons pesquisadores com pouco tempo livre. A discussão desta questão deverá envolver a introdução de incentivos adequados para os revisores e o alargamento da utilização de processos de revisão mais inovadores, por exemplo, revisões publicadas lado a lado com artigos ou revisões pós-publicação nas quais os cientistas possam comentar o trabalho.

O desafio da má prática de citação não se limita a um tema ou região de pesquisa específica. As suas ramificações estendem-se muito além das preocupações imediatas dos académicos estabelecidos, lançando uma sombra iminente sobre o futuro dos jovens investigadores. À medida que a pressão para recolher citações se intensifica, os aspirantes a académicos podem encontrar-se numa encruzilhada onde a tentação de tomar atalhos se torna particularmente aguda. Os jovens investigadores, que deveriam concentrar-se na exploração das fronteiras do conhecimento, correm o risco de comprometer a sua integridade intelectual e podem ficar presos numa teia de práticas desonestas, sem um caminho claro de regresso ao comportamento ético.

Na situação atual, os bons investigadores que optam por permanecer no caminho certo podem enfrentar dificuldades na progressão na carreira e nas oportunidades de financiamento. Eles podem ser gradualmente empurrados para funções com menor intensidade de pesquisa e perder a chance de fazer contribuições significativas em seu campo. Esse cenário levaria a uma falha do sistema com consequências desastrosas.

* Domingo Docampo é professor de processamento estatístico de sinais na Universidade de Vigo, na Espanha.


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Este artigo escrito originalmente em inglês foi publicado pelo “Chronicle of Higher Education” [Aqui!  ].

MST pode ter papel essencial nas discussões sobre crise climática e demandas sociais

Central-964x543Estudo de caso foi realizado no assentamento Mário Lago, em Ribeirão Preto (SP) (foto), ocupado pelo MST com autorização legal desde 2008

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O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) está colaborando para a promoção de um novo modelo de luta pela democratização do acesso à terra que leva em conta as necessidades de adaptação geradas pela crise climática. A conclusão é de uma pesquisa realizada por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), publicado na sexta (15) na revista científica “Desenvolvimento & Meio Ambiente.

Para investigar as possíveis influências das mudanças climáticas nas disputas sociais e políticas, os cientistas realizaram um estudo de caso no assentamento Mário Lago, em Ribeirão Preto, São Paulo, regulamentado como assentamento de reforma agrária desde 2008. Em abril de 2022, foram entrevistadas 16 pessoas que habitam o local ou atuam em projetos no assentamento há mais de cinco anos, além de um promotor de justiça envolvido com o processo de ocupação da área onde antes operava a Fazenda da Barra.

As perguntas envolveram motivações, experiências e pretensões dos assentados e acampados quanto à terra ocupada. “Em certos momentos, os entrevistados mobilizaram argumentos vinculando as necessidades sociais e econômicas do município à proposta de reforma agrária popular, enquanto, em outros, se colocaram como defensores da natureza, expressando formas de afeto pela terra e a necessidade de protegê-la”, pontua José Caio Quadrado Alves, pesquisador e autor do estudo.

De acordo com os relatos e documentos oficiais investigados pelos autores, as preocupações de cunho ecológico com a área que viria a se torna o assentamento estão presentes desde dos anos 1990, quando o Ministério Público constatou diversas irregularidades ambientais na área então ocupada pela Fazenda da Barra – incluindo supressão de vegetação e risco de contaminação do Aquífero Guarani, recurso importante para o abastecimento hídrico do município. Segundo o artigo, esse contexto pode ter tido papel decisivo para a concessão das terras ao MST.

O discurso de preservação ambiental foi transformado em ação desde o início das atividades do movimento social no local, com implementação de práticas agroecológicas e de proteção do Aquífero Guarani e criação de áreas de reserva legal para preservar a vegetação nativa.

Segundo Alves, casos como o estudado demonstram a relevância do MST na renovação do debate por distribuição justa de terras e direitos em tempos de crise climática. “Ao reivindicar a terra não como simples apropriador de recursos, mas como protetor dos bens naturais, preservando um bem-comum de interesse global e das populações locais, o MST instaura o debate da conservação em todo território nacional. Ele proporciona, assim, maior protagonismo às pautas ambientalistas nas diversas arenas políticas”, complementa o pesquisador, salientando o alcance nacional do MST, movimento que luta pela democratização do acesso à terra desde 1984.

O trabalho ilustra o impacto que as emergências climáticas têm tido sobre as lutas sociais e, inclusive, traz efeitos positivos na discussão política. “Ao permitir que aqueles que mais sofrem com o modelo econômico capitalista e as mudanças climáticas tenham voz, talvez possamos ver o ambientalismo ou o ecologismo se tornar central na forma como escolhemos nossos representantes, na estruturação de políticas públicas e na maneira como pensamos o futuro”, reflete Alves.

Os próximos passos da pesquisa envolvem entender a interação dos assentados e acampados com a biodiversidade local e a atuação do MST na formação de alianças e na construção de políticas municipais.


Fonte: Agência Bori

Cientistas argentinos se organizam contra a “motosserra” de Javier Milei

Milei-996x567Após fazer seu anúncio de campanha para fechar o Ministério da Ciência, que rebaixou ao posto de Secretaria, Javier Milei – empossado presidente da Argentina em dezembro de 2023 – cortou e suspendeu o envio de recursos para o funcionamento do setor. Crédito da imagem: Presidência da Armênia/Wikimedia Commons , sob licença Creative Commons

O governo de Javier Milei – o economista ultraliberal que tomou posse como presidente do país em dezembro de 2023 – cortou e suspendeu o envio de fundos para o funcionamento do setor, cujos membros começam a organizar-se para resistir a estas decisões.

“Não temos bônus nem aposentadoria, não somos considerados trabalhadores e é fácil dizer adeus.”

Juliana Yantorno, pesquisadora argentina

Depois de fazer o anúncio de campanha para encerrar o Ministério da Ciência, que despromoveu ao cargo de Secretário, Milei ordenou que fosse atribuído ao sector o mesmo orçamento que em 2023, quando o país sofre uma inflação homóloga de 250 por cento.

A esta perda em termos reais somam-se severas restrições ao funcionamento do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas (CONICET), uma das organizações de pesquisa mais prestigiadas da região.

Entre outras medidas, a gestão de seu novo presidente, o veterinário Daniel Salamone — a quem Milei consultou anos atrás sobre a clonagem de seu cachorro, finalmente realizada nos Estados Unidos da América —, reduziu o número de bolsas de doutorado de 1.300 para 600, interrompeu 40 funcionários administrativos e questionou a continuidade de outros 1.200.

Cientistas organizados

Diante desse cenário, o grupo Jovens Cientistas Precários (JCP) decidiu se organizar em assembleias e “rouds” na sede do CONICET, que inclusive ocuparam pacificamente no dia 14 de fevereiro.

O JCP ganhou visibilidade durante a presidência de Mauricio Macri (2015-2019), que também reduziu o orçamento científico e evitou resolver as reivindicações dos 12 mil bolsistas do CONICET, metade de seu quadro de funcionários.

Esses jovens pesquisadores ganham o equivalente a cerca de US$ 600, muito menos que seus pares chilenos, uruguaios ou brasileiros. “Não temos bônus nem aposentadoria, não somos considerados trabalhadores e é fácil dizer adeus”, diz sua referência Juliana Yantorno, em conversa telefônica com o SciDev.Net .

Os institutos de pesquisa da organização também não estão recebendo as despesas correspondentes às suas despesas de manutenção. A situação é tão crítica que os pesquisadores alocam dinheiro do bolso para comprar suprimentos ou pagar serviços básicos.

Duzentos dos 280 diretores dos institutos que compõem o CONICET formaram no início deste ano a Rede de Autoridades de Institutos de Ciência e Tecnologia (RAICYT), que busca conscientizar sobre a situação e ativar uma campanha de solidariedade internacional que já inclui apoio de três ganhadores do Prêmio Nobel .

A RAICYT também estuda apresentar apelos de proteção contra a possibilidade de perda de projetos de pesquisa em andamento, vários deles com financiamento internacional.

A Faculdade de Ciências Exatas da Universidade de Buenos Aires também está em alerta , alertando que poderá ficar sem recursos em abril, enquanto a Universidade Nacional de San Martín descreveu uma situação “insustentável”, com possibilidade de seus laboratórios deixarem de funcionar funcionam e suas salas de aula permanecem vazias.

De volta aos anos 90?

Salamone — que não respondeu ao pedido de entrevista para este artigo — pretende fazer uma mudança substancial na organização: valorizar a produtividade dos investigadores de acordo com o número de artigos científicos publicados, um fenômeno crescente mas problemático na região .

Procura também atrair fundos de investimento, aumentar a participação privada e promover startups baseadas no conhecimento , opções já em cima da mesa perante representantes das embaixadas chinesa , alemã e americana .

“Ele quer que apoiemos as nossas próprias produções”, diz Yantorno, crítico da entrada do capital privado, já que “geralmente eles se envolvem para copiar e colar [um desenvolvimento financiado pelo Estado] e levá-lo embora”.

Neste ponto, Lino Barañao – Ministro da Ciência entre 2007 e 2018 – tem uma visão mais benevolente: “As empresas de base tecnológica criam empregos e geram rendimentos mais bem distribuídos, uma vez que a maior parte do dinheiro vai para os trabalhadores e não para o capital” .

Embora reconheça que a participação privada ainda é baixa, o investigador sênior do CONICET, Jorge Geffner, alerta que “a solução não está aí, mas sim através de um forte investimento do Estado, que na Argentina não chega a 0,5 por cento” do PIB.

“O país passou por momentos semelhantes”, lembra Barañao. “Na década de 90, quando eu trabalhava no CONICET, ganhávamos US$ 50 por mês.” Aqueles anos seriam lembrados como os da “fuga de cérebros”, cenário que hoje corre o risco de se repetir.

Criticado pelo peronismo (que governou o país durante 16 dos últimos 20 anos) por ter sido o único ministro a manter o cargo durante a gestão Macri, Barañao reconhece que durante a sua gestão “houve ajustes orçamentais, mas a linha foi mantida. Se a estrutura for destruída e os grupos de trabalho desmantelados, nada poderá ser reconstruído. Hoje eles não estão colocando menos combustível na máquina; “Eles estão desmontando isso.”


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Este artigo foi produzido e publicação pela edição América Latina e Caribe do  SciDev.Net [Aqui!].

Estudo mostra que área de futuro polo agrícola concentrou 76% do desmatamento de Amazonas, Rondônia e Acre

Pesquisadores apontam que pressão na fronteira entre Amazonas, Acre e Rondônia se intensificou a partir de 2018, com o anúncio da criação de zona de desenvolvimento sustentável

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Os cientistas usaram dados oficiais baseados em sensoriamento remoto para analisar uma área de cerca de 454 mil quilômetros quadrados que engloba 32 municípios e vem sendo considerada “o novo arco do desmatamento” (imagem: Michel Chaves) 

Luciana Constantino  para a Agência FAPESP

Enquanto o governo federal discute a criação de um polo agrícola na confluência entre Amazonas, Acre e Rondônia – popularmente conhecida pelo acrônimo Amacro –, o desmatamento nos municípios da região avança e já representa 76,5% do total da área devastada nos três Estados entre 2018 e 2022. A conclusão é de um estudo publicado na revista científica Perspectives in Ecology and Conservation.

De acordo com a pesquisa, desde a comunicação da intenção de criar uma zona de desenvolvimento sustentável (ZDS), em 2018, a região vem enfrentando aumento das taxas de desmatamento, com a especulação fundiária, extração ilegal de madeira e a conversão da floresta em pastagens e terras agrícolas.

Os cientistas usaram dados oficiais baseados em sensoriamento remoto para analisar uma área de cerca de 454 mil quilômetros quadrados (km²), o equivalente a pouco mais que o território da Suécia. Engloba 32 municípios na fronteira entre o sul do Amazonas, o leste do Acre e o noroeste de Rondônia e vem sendo chamada de “o novo arco do desmatamento”. Na região, que abriga cerca de 1,7 milhão de moradores, está prevista a criação da ZDS Abunã-Madeira, atualmente em fase de planejamento e articulação.

“Quando estava fazendo pós-doutorado no Inpe [Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais], analisava a expansão da fronteira agrícola no Cerrado. Porém, foi possível notar que havia uma dinâmica de avanço também na Amazônia, especialmente naquela região. Fomos então tentar entender o que estava acontecendo por ali e chegamos a esse cenário de especulação fundiária e pressão intensa”, diz à Agência FAPESP o pesquisador Michel Eustáquio Dantas Chaves, primeiro autor do artigo e professor na Universidade Estadual Paulista (Unesp), no campus de Tupã (SP).

Chaves havia liderado outro estudo que mostrou a eficácia da aplicação de imagens de satélite da missão Sentinel-2 em análises com enfoque na detecção do avanço da fronteira agrícola, um dos fatores de mudanças abruptas no uso da terra (leia mais em: agencia.fapesp.br/50142).

As taxas de desmatamento na Amazônia Legal brasileira aumentaram gradativamente na última década, ultrapassando a marca anual de 10 mil km2, chegando em 2021 a 13.038 km2, a maior taxa desde 2006, segundo o Projeto de Monitoramento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite (Prodes), do Inpe. O cenário mudou somente no ano passado, quando após quatro anos consecutivos de taxas altas a área desmatada ficou em 9.001 km2 entre agosto de 2022 e julho de 2023, uma redução de 22% na comparação com o período anterior.

Ao analisar as classes fundiárias, os pesquisadores mostraram que o desmatamento foi mais frequente e crescente em terras privadas, mas avançou de forma preocupante sobre as Unidades de Conservação (UCs) entre 2018 e 2022. Em relação às terras públicas – que representam grande parte da área de zoneamento, incluindo reservas extrativistas e Terras Indígenas (TIs) – também houve pressão e ameaça. Em 2021, por exemplo, 64% do desmatamento ocorreu nessas áreas. Por ali, são 86 Unidades de Conservação, 49 TIs e cerca de 94 mil km2 de florestas públicas não destinadas.

Para os cientistas, é preocupante a ausência de estudos de impacto ambiental e de políticas públicas socioambientais para proteger as comunidades tradicionais, o que coloca dúvida sobre a viabilidade e sustentabilidade do projeto.

“Sabemos da importância da criação de uma zona de desenvolvimento, principalmente para que moradores de fora dos grandes centros tenham acesso a condições de trabalho e de crescimento, podendo produzir. Mas é preciso ter governança, garantindo que a produção obedeça às leis, gere renda e se transforme em desenvolvimento para a região, não somente exploração”, avalia o pesquisador Marcos Adami, da Divisão de Observação da Terra e Geoinformática, do Inpe, e autor correspondente do artigo.

O estudo recebeu apoio da FAPESP por meio de quatro projetos (21/07382-219/25701-820/15230-5 23/03206-0).

Chaves lembra que a proposta de criação da zona “nasceu” com foco na produção de soja, por isso chegou a ser chamada de “Matopiba do Norte”, em referência à fronteira agrícola que abrange Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, onde há aumento da abertura de áreas de vegetação nativa para conversão em pasto e plantio de grãos.

No site da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam) a criação da ZDS Abunã-Madeira é descrita como uma proposta que visa fomentar o desenvolvimento socioeconômico “potencializando as vocações locais de bioeconomia, circuitos produtivos agrossustentáveis (fruticultura, piscicultura, agronegócio) e ações multissetoriais (infraestrutura, logística, turismo, capacitação, pesquisa)”. Também diz que pode servir de projeto-piloto para outras regiões da Amazônia.

Procurada, a assessoria da Sudam – indicada pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional para falar sobre o assunto – não retornou aos contatos da Agência FAPESP.

Histórico

Apesar do boom após 2018, o desmatamento tem crescido na região desde 2012, segundo a pesquisa, coincidindo com um período de crise econômica e enfraquecimento da regulamentação ambiental no Brasil. Entre 2012 e 2020, 5,2% da área da ZDS Abunã-Madeira sofreu conversão para usos antrópicos do solo, principalmente de floresta para pastagem (78%).

Em valores absolutos, o desmatamento aumentou em todas as classes fundiárias, mas de forma mais intensa nas UCs – especialmente desde quando o projeto da ZDS foi anunciado. Nos assentamentos rurais, a maior taxa registrada (625,56 km², 2021) ficou acima da média entre 2012 e 2020 (341,20 km²).

O estudo utilizou dados do Prodes, considerado a ferramenta mais precisa para estimar as taxas anuais de desmatamento na Amazônia, com o monitoramento por corte raso, e mantendo a metodologia desde 1988. Foram combinados com informações geográficas, do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e do Sistema de Gestão Fundiária (Sigef).

Para Felipe Gomes Petrone, mestrando em sensoriamento remoto do Inpe e coautor do trabalho, “somente definir as zonas de desenvolvimento agrário sem que haja avaliações de impacto socioambiental e políticas públicas pode levar a mais prejuízos do que avanços para o setor agroambiental”.

“O agricultor precisa ser o grande aliado da proteção ambiental, já que a produtividade melhora e avança com a conservação de vários fatores da natureza, que fornece chuva, ciclagem de nutrientes, polinização e outros. Perturbar a regulação climática e o ciclo da água útil para a produção agrícola em estados produtores relevantes pode gerar perdas bilionárias”, avalia Adami.

De acordo com o grupo, é preciso que a iniciativa contemple uma produção agrícola diversificada e as devidas salvaguardas ambientais, além de estratégias de valorização do potencial produtivo e da floresta em pé.

O artigo Amacro: the newer Amazonia deforestation hotspot and a potential setback for Brazilian agriculture pode ser lido [Aqui!].


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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Fapesp [Aqui!].

Entre pílulas azuis e vermelhas, o que nos resta são os supositórios de pobreza distribuídos pelas fibras óticas

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Por Douglas Barreto da Mata

Economistas do campo progressista, como Belluzzo (Luiz Gonzaga) e jornalistas especializados no ramo, como Nassif (Luís), se dedicam atualmente à crença de que é possível uma nova etapa de desenvolvimentismo.  Eu chamo esse novo credo de “producionismo”, cujos dogmas integram as chamadas transições energéticas ou economia “verde” (ai, meu Zeus) e outras inovações, que permitiriam ao Brasil e ao Sul Global a inserção no fim de festa capitalista. 

Eu desejo, do fundo do meu cinquentenário coração, ter a mesma “fé” deles.  Gostaria de crer na nossa salvação pelo tal “producionismo”, que uns chamam de substituição de importações, outros de desenvolvimentismo periférico.  Porém, nem a Teoria da Dependência (plagiada, e mal plagiada pelo “príncipe da sociologia”, FFHHCC), nem Maria da Conceição Tavares (que destroçou teoricamente as teses de Celso Furtado), e nem Robert Kürz, com sua Teoria da Crítica do Valor (publicada na década de 1970) em seu hebdomadário, Krisis, me deixam “acreditar”.

Tudo isso acima é crucial para o debate, mas eu resumiria tudo a uma decisão do Presidente Lula, recente: a criação da categoria nem, nem, tão bem denominada por você:  Nem trabalhador, nem autônomo.  Uma espécie de híbrido, cabeça de algoritmo e corpo de operário.

Não, não há salvação no producionismo, não há, e nem nunca houve.  O capitalismo é um modelo econômico que é hegemônico porque procura acumulação infinita, e acumula infinitamente porque é hegemônico.  Dilema Tostines? Pois é, eu acho que não.  Não é dilema, porque é falso e a dialética materialista resolve  isso. 

Essa dialética que escapou a Harvey (David) nas suas leituras de Marx (a principal em Enigmas do Capitalismo).  Como a maioria dos marxistas, ele enveredou pelo economicismo, e foi justamente estes marxistas que deram a base teórica inversa, para que o liberalismo ganhasse fôlego, determinando, ideologicamente, que a economia era tudo.

Fixado esse sofisma, para esquerdistas e direitistas, o mundo se muda a partir dela (economia), e não como deve ser, por intervenção politizada da classe antagônica (trabalhadores) aos que geram desigualdade: os capitalistas.

A alteração (fim) dos modelos (econômicos) de acumulação é fundamental  para que a produção possa “salvar” o trabalhador, ao mesmo tempo que não é pela economia que se farão tais mudanças, é na ação política organizada.  Nada virá dos vôos de galinha da periferia do capital, porque as injunções e contingentes históricos já selaram o destino, como disse Conceição Tavares:

Quem é rico vai ficar mais rico, quem é pobre, mais pobre ficará E dentro desse esqueminha, a desigualdade, maior ou menor, de acordo com maturidade e qualidade dos fatores de desenvolvimento capitalista. Séculos de acumulação geopolítica periferia-centro, e internamente, trabalhadores-capitalistas, trouxeram tudo onde estamos.

Não vamos esquecer possíveis exceções, que só confirmam, no entanto, a regra:  Coréia, Japão, Alemanha e Europa pós guerra, e outros enclaves onde o modo capitalista estadunidense de produção aplicou fielmente a via da destruição para reconstrução (destruição criativa), associada aos interesses geopolíticos de contenção para evitar novos arroubos competitivos.

Esqueça a falácia do combate aos ditadores ou aos regimes racistas.  Era só falácia mesmo, já que os EUA, por exemplo, trataram seus negros até 1970 de forma parecida com os judeus.

Mas note Nassif, que tanto Europa, como Japão desenvolveram nas suas escaladas bélico-industriais formidáveis aparatos produtivos, reaproveitado com maciços investimentos. Nesse processo de reaproveitamento, até esqueceram que empresas alemãs deitaram e rolaram na mão de obra escrava judia dos campos, exemplos: Tyssel- Krüpp, Daimler-Benz, etc.

A Coréia foi, talvez, o único país realmente periférico alçado à condição central, com montanhas de recursos externos a fundo perdido, para barrar a China.

Uma pequena historinha sobre a Teoria (marxiana) da Crítica do Valor, de Kürz, para suavizar temas tão áridos, eu não me canso de repetir, e já o fiz aqui também: ele dizia, lá em 1970 e tantos, que o capitalismo rumava para um enclave, era como uma fazenda de leite, que produzia 100 litros de leite, e 10 kg de manteiga, entre outros derivados.

O fim da regulamentação dos sistemas bancários e financeiros, a partir dos atos emanados nos EUA, os pioneiros da indústria dos fundos (ver o filme A Grande Aposta, ou The Big Short, de Adam Mckay, com Brad Pitt, Ryan Goslin, Christian Bale, etc) alterou essa relação de causa e efeito leite e manteiga (e derivados).

Com a permissão de alavancagem infinita (CDO, CDS, etc, etc, etc), a fazenda continuava a produzir os mesmos 100 litros de leite, mas, surpreendentemente, a produção de manteiga pulou para 100 kg, depois, 1 tonelada, 100 toneladas, 1 milhão de toneladas, com o derivados se “reproduzindo”, sem que houvesse mais nenhuma relação de causa e efeito, a não ser o fato de que a manteiga ainda fosse leite processado.

Estamos atolados em manteiga, meu caro e ela não “lubrifica” a produção de leite, com o valor agregado (mais valia), mas só facilita (hoje em escala algorítmica) a geração de mais e mais manteiga, sendo desprezível a saúde das vacas, ou do fazendeiro e seus funcionários.

Esta historinha associada à la Teoria da Dependência nos dá o mapa.  Não há como rodar a roda da História ao contrário, meus caros.  Os dados acumulados desde 1980, no mundo todo, nos dão conta do declínio da participação dos setores produtivos na renda mundial, e quando muito, de forma otimista, enxergamos alguns períodos de estagnação.

Capitalismo não sobrevive sem renda para consumo do que produz.  Sem renda, sem produção.  Mesmo assim, os valores pornográficos dos fundos algoritmos somam 10, 20, 30 vezes o chamado PIB produtivo, outros chamam de economia real. 

Sem renda, sem produção.

Mesmo assim, os valores pornográficos dos fundos algoritmos somam 10, 20, 30 vezes o chamado PIB produtivo, outros chamam de economia real.

Essa quantia de capitais fictícios (anti valor) não permite que as instâncias conhecidas de mediação e arbitragem do chamado mercado coloquem essas quantias obscenas em arranjos produtivos redistributivos, ainda que precários.

Esse montante de dinheiro hermafrodita, autoimune e replicante (aqui uma outra referência dos cinemas, em Ridley Scott e seu Blade Runner) não se alimenta mais de produção e exploração de mão-de-obra, agora ele se alimenta de nós.

Outro filme que nos ilustra é Matrix, um amontoado de pseudo budismo, cristianismo, e péssima leitura de Kant e Nietzsche, mas que, no entanto, tem algumas cenas geniais, é verdade…

Eu gosto de duas:

A que Morpheus (Lawrence Fishburne) mostra duas pílulas ao herói messias, uma azul e outra vermelha..

E a dos humanos criados em fazendas, mantidos em hibernação plasmática, para alimentar as máquinas…que acordam e “se libertam” quando tomam a pílula da verdade (a vermelha)…

Estas cenas são geniais não pelo que mostram, mas pelo que não dizem…

No mundo atual, não há escolha, como dizia Zizeck (Vivendo No Fim Dos Tempos), toda escolha é uma fraude, e só temos saída se acabarmos com quem alega que elas existem…

Não há salvação, nem na pílula vermelha, nem na azul.  Ou se desconstrói o mundo de falsas escolhas, ou o resultado dessas escolhas sempre será conhecido por quem nos propõe.No Cristianismo chama de onisciência divina…portanto, é preciso “matar” deus.

A outra, que apresenta uma (semi) verdade, sim, pois somos meros objetos de consumo para os sistemas financeiros digitais, mas a narrativa do filme esconde algo crucial, será por que?

Porque não há a impessoalidade automatizada das máquinas a nos submeter a um sonho letárgico em um mundo de “escolhas”.

Aqueles os quais nos consomem têm endereço, nome, e podem ser vencidos, não porque são “máquinas” (mercado), mas porque são homens sugando a seiva de outros homens.

Para acabar com o domínio digital, basta uma ação simples: Puxe o fio da tomada.

Aula inaugural na UENF abordará os impactos do Neoliberalismo sobre a atuação do Estado no Brasil e na América Latina

A aula inaugural do Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais (PGPS) da UENF de 2024 terá a presença do professor Carlos Eduardo Rosa Martins do Instituto de Relacões Internacionais e Defesa na UFRJ (ver cartaz abaixo).

O tema da palestra além de ir diretamente ao encontro das pesquisas em curso no PGPS/UENF resulta de um extenso trabalho intelectual que vem sendo realizado pelo professor Rosa Martins que é um dos principais estudiosos dos impactos das reformas neoliberais sobre a atuação do Estado na América Latina.  A extensa produção intelectual do professor Carlos Eduardo Rosa Martins representa uma importante reflexão sobre os impactos socioeconomicos e culturais das reformas neoliberais em países da periferia capitalista, onde o Brasil está incluso.

A aula inaugural do PGPS/Uenf irá ser realizada no dia 27 de março a partir das 15:00 h na Sala de Multimídia do Centro de Ciências do Homem. A entrada a esta atividade acadêmica estará aberta a todos os interessados.

Composto químico de bactéria amazônica tem potencial antiviral, antitumoral e antibiótico, diz estudo

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Estudo identifica potenciais farmacêuticos em composto químico produzido por bactérias em solo de área de mineração

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Estudo realizado por pesquisadores do Instituto Tecnológico Vale (ITV), da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa) e de instituições parceiras descreve o potencial terapêutico de um composto químico produzido por bactérias encontradas no solo de uma área de mineração de bauxita em recuperação no Pará. O composto demonstrou propriedades viricidas, bactericidas e foi capaz de eliminar células cancerosas sem danificar células saudáveis, segundo narram os cientistas em artigo publicado na terça (12) na revista “Scientific Reports”.

A pesquisa estudou o potencial farmacêutico de uma cepa da bactéria Pseudomonas aeruginosa, isolada do solo de uma mina de bauxita em processo de recuperação ambiental da região de Paragominas, no leste do Pará. O microrganismo produz um tipo de ramnolipídeo, um glicolipídio gerado por bactérias que demonstrou, nos testes, resultados promissores contra vírus e microrganismos patogênicos.

O estudo avaliou a toxicidade do composto em relação a três tipos de vírus (herpes simples, coronavírus murino e vírus sincicial respiratório), células de adenocarcinoma de mama metastático, diversas cepas bacterianas (SalmonellaE. coli, estafilococos) e fungos (Candida). Uma solução do composto, com uma concentração de 250 μg/mL, inibiu 97% da atividade viral em todos os tipos de vírus testados. Resultados semelhantes foram observados com uma solução de 50 μg/mL, por 15, 30 e 60 minutos, sugerindo que a eficácia viricida está relacionada ao tempo de exposição.

Para José Pires Bitencourt, do ITV e um dos autores do artigo, o composto “é uma substância que ajuda a bactéria a captar algum nutriente que seja interessante e ajuda na comunicação entre bactérias da mesma espécie”. Segundo ele, durante o estudo, todas as concentrações do composto diminuíram a viabilidade das células cancerígenas para menos de 50% em 72 horas, demonstrando um potencial antitumoral comparável aos níveis alcançados pela quimioterapia padrão.

Bitencourt explica que as condições ambientais do solo amazônico são propícias para compostos de interesse farmacêutico, como o estudado pela pesquisa. “Diferentes subespécies de bactérias encontradas em várias condições de solo produzem biossurfactantes, influenciadas por fatores como clima, evolução do solo, regime hídrico, interação com outros organismos e impacto humano”.

O pesquisador relata que não é possível afirmar que o composto de P.aeruginosa encontrada em um outro local ou período terá o mesmo potencial terapêutico. “Pode ser que daqui um ano a mesma bactéria, da mesma mina, tenha um conjunto de fatores diferentes e o composto não seja mais produzido”, diz Bitencourt. Para ele, isso aumenta a importância de incentivos para projetos que estudem a biodiversidade da região amazônica. “A microbiota da Amazônia é pouco estudada e nos impede de explorar a diversidade desses grupos, não apenas para uso médico, mas também para a agricultura e para a exploração mineral”, aponta o autor.

Bitencourt explica que ainda não há previsão para a aplicação industrial do composto, mas a continuidade da pesquisa é fundamental para o desenvolvimento de produtos futuramente. “Os próximos passos serão a otimização do cultivo para termos um crescimento mais rápido do microrganismo e fomentar a maior produção do ramanolipídio. Depois faremos o genoma completo para busca de outros mecanismos de interesse industrial”, conclui.


Fonte: Agência Bori

Ataque especulativo à Petrobras expõe quem realmente fica com a riqueza do nosso petróleo

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A mídia corporativa tem se esmerado em tentar transformar o ataque especulativo em curso contra a Petrobras em uma espécie de derretimento causado pela imperícia da direção da empresa sob interferência do governo Lula.  Como temos uma mídia que serve aos interesses dos grandes especuladores nacionais e internacionais e não à população brasileira, todo esse esforço é mais do que compreensível.

Mas esse ataque especulativo comandado pelos grandes detentores de ações da Petrobras expõe algo que é pouco falado. É que faz muito tempo que Petrobras não passa de uma para estatal que se comporta como empresa pública quando se trata de avançar sobre territórios tradicionais e ecossistemas ecologicamente frágeis enquanto que, por outro lado, atua como empresa privada quando se trata de distribuir a imensa riqueza que suas atividades produzem.

Uma coisa é certa: fosse o governo Lula minimamente nacionalista ele se aproveitaria da queda do valor das ações e compraria o maior número delas que pudesse. Assim, aumentaria o controle público da empresa e, quem sabe, iniciaria a necessária transição na matriz produtiva da empresa.

Mas, pensando bem, acho mais fácil sairem correndo atrás de figuras como George Soros para pedir perdão por terem ousado decidir algo em prol da empresa e não dos bilionários que há alguns anos recebem os rendimentos mais generosos que as empresas do petróleo oferecem no mundo.

Organizações sociais do Sul Global consideram o trigo transgênico inseguro e um fracasso de baixo rendimento

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Por Sustainable Pulse

Em um documento conjunto, organizações da Ásia, África e América Latina afirmam que o trigo HB4 OGM da empresa Bioceres não foi testado quanto à segurança e é menos produtivo que o trigo convencional. A história é relatada pelo jornalista argentino Dario Aranda em artigo em espanhol na publicação Pagina12. O seguinte relatório da GMWatch é amplamente baseado no artigo de Aranda.

As organizações, da América Latina, África e Ásia, denunciaram os efeitos nocivos do trigo geneticamente modificado, que já é consumido na Argentina e ameaça chegar a outros países. Em um documento detalhado de 14 páginas, movimentos sociais, camponeses e povos indígenas solicitaram a intervenção de relatores especiais das Nações Unidas (ONU) devido aos riscos para a alimentação, a saúde e o ambiente que representam o OGM produzido pela empresa Bioceres.  Os signatários afirmam que não existem estudos independentes que confirmem a sua segurança, e denunciam o perigoso herbicida glufosinato de amônio, que foi concebido para tolerar, e afirmam que o trigo geneticamente modificado é menos produtivo que o trigo convencional.

“Não ao trigo geneticamente modificado. Aliança global busca intervenção da ONU contra o cultivo do trigo transgênico HB4”, é o título do  artigo  da organização internacional  GRAIN , que relata a forma incomum – e irregular – como o trigo transgênico foi aprovado na Argentina, no Brasil e no Paraguai – com base em supostos estudos da empresa que o comercializa e com documentação confidencial.

Nenhum estudo confiável

Entre outros aspectos fundamentais, as organizações destacam que a população argentina está sendo alimentada com farinha contendo um OGM carente de estudos sanitários e, além disso, contaminada com o agrotóxico glufosinato de amônio (mais letal que o conhecido glifosato e proibido na União Europeia).

“A aprovação do trigo HB4 tem causado muita preocupação num amplo setor da sociedade, porque o seu plantio e consumo violará direitos humanos, como o direito à vida, à saúde, à alimentação adequada e à soberania alimentar, a uma sociedade equilibrada e poluente. ambiente livre, ao acesso à terra e ao território, ao direito à autodeterminação dos povos e comunidades locais”, diz o documento, que foi dirigido a sete Relatores Especiais da ONU.

Como resultado, solicita que instem os governos da Argentina, Brasil e Paraguai a suspenderem as autorizações para o cultivo de trigo geneticamente modificado HB4. Os destinatários são Marcos Orellana (Relator sobre Substâncias Tóxicas e Direitos Humanos), David Boyd (Direitos Humanos e Meio Ambiente), Michael Fakhri (Direito à Alimentação), Pedro Arrojo-Agudo (Direito à Água Potável), Olivier De Schutter (Pobreza Extrema e Direitos Humanos), Francisco Cali Tzay (Direitos dos Povos Indígenas) e Tlaleng Mofokeng (Direito à Saúde).

Direito à Alimentação

O trigo geneticamente modificado foi desenvolvido e comercializado pela empresa argentina Bioceres-Indear, onde Raquel Chan, cientista do Conicet e da Universidade do Litoral, desempenhou um papel fundamental. A Comissão Nacional de Biotecnologia da Argentina (formada exclusivamente por promotores do agronegócio, incluindo gestores de multinacionais) deu luz verde em 2018, a portas fechadas e sem publicar os estudos em nenhuma revista científica. A aprovação final ocorreu em maio de 2022, quando Julián Domínguez (então Ministro da Agricultura) deu luz verde ao pedido da Bioceres-Indear (a assinatura administrativa foi fornecida por Luis Contigiani).

Em março de 2023, a empresa Bioceres-Indear  informou  que 25 moinhos já misturavam trigo geneticamente modificado com trigo convencional para distribuição gratuita. Este é um fato de importância global: pela primeira vez o trigo geneticamente modificado está presente nos alimentos de consumo em massa (pão, pizzas, empanadas, macarrão e todos os usos da farinha). E, o que é ainda mais grave, a população não tem como identificar se está ou não consumindo um produto geneticamente modificado: na Argentina não há rotulagem geneticamente modificada.

Elizabeth Bravo, membro da organização Acción Ecológica de Ecuador e uma das promotoras do documento dirigido às Nações Unidas, lembrou que a Argentina é um país exportador de trigo e destacou o risco para a população do Equador: “O trigo é fundamental na dieta dos Equatorianos, como para muitos outros povos do mundo, porque está presente desde o café da manhã até o jantar. Seria terrível se começássemos a comer trigo que é geneticamente modificado e que também contém grandes resíduos de pesticidas, como o glufosinato de amônio.”

Uma lacuna tecnológica

Leonardo Melgarejo  é membro do Movimento Ciência Cidadã no Brasil e membro da Uccsnal (União dos Cientistas Comprometidos com a Sociedade e a Natureza na América Latina). Salientou a enorme gravidade do facto de não ter havido uma avaliação científica do impacto do trigo geneticamente modificado na saúde da população. “Este OGM tornou-se um problema internacional, por isso esta ação conjunta tem sido realizada por organizações de três continentes. Este trigo contamina a alimentação básica da população e sem dúvida contribuirá para a apropriação de terras para poucas mãos e para o impacto na água, na vida camponesa e nos povos indígenas”, afirmou.

Fernando Frank, pesquisador argentino, agrônomo e membro da Uccsnal, apontou uma questão central que expõe o entusiasmo corporativo e da mídia sobre o trigo Bioceres. “O trigo HB4 é um fracasso de produção. É um escândalo porque, além dos impactos negativos na saúde e na alimentação, estão a vender uma tecnologia que promete produzir mais mas na realidade produz menos, como confirmam os dados certificados pelo Estado”, disse Frank.

Frank e Melgarejo são dois dos autores da publicação científica “Controversia por el pan nuestro día de cada día ” (“Controvérsia sobre o pão nosso de cada dia”), publicada no final do ano passado, que confirma que o trigo geneticamente modificado é menos produtivo do que trigo convencional. Assinado pelos pesquisadores Gabriel Bianconi Fernandes e Rubens Onofre Nodari, o artigo, com tabelas e números do Ministério da Agricultura argentino, mostra que o trigo transgênico é menos produtivo que sua variante convencional. “Os rendimentos (do trigo geneticamente modificado) foram significativamente inferiores à média de trigo do país. A conclusão é que o maior rendimento da variedade HB4 – principal vantagem anunciada pela Bioceres – não foi comprovado em campo”, confirma o estudo científico.

Como aponta o  documento conjunto das organizações, dados do Ministério da Agricultura argentino mostram que na temporada 2021/2022, os rendimentos do HB4 foram muito baixos – 2,42 toneladas por hectare, 17% menos que a média.

Aranda relata que em 2020, mais de mil cientistas ligados à principal agência de pesquisa argentina, Conicet, e a 30 universidades públicas da Argentina  condenaram  a aprovação do trigo HB4 e alertaram sobre os riscos à saúde da população e até à produção agrícola e aos direitos humanos. . “Esta autorização refere-se a um modelo de agronegócio que se revelou prejudicial em termos ambientais e sociais, é a principal causa da perda de biodiversidade, não resolve os problemas alimentares e ameaça ainda mais a saúde do nosso povo ao ameaçar a segurança e a soberania alimentar”, iniciava a carta, dirigida ao governo nacional e às autoridades do Conicet.


color compass

Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela Sustainable Pulse [Aqui!].

Reitora dobra aposta na “Melô do Marinheiro” e se filia ao sindicato dos servidores técnicos da Uenf

Observei recentemente neste espaço a minha estranheza em relação a uma visita da reitora da Universidade Estadual do Norte Fluminense, professora Rosana Rodrigues, ao gabinete do deputado federal Lindbergh Farias em Brasília. É que diante do papel de dirigente de uma universidade estadual, a reitora da Uenf deveria saber que visitar um dos principais adversários políticos do governador Claúdio Castro não resultará na boa vontade deste com as muitas demandas que ela tem para apresentar, a começar pela aprovação do Plano de Cargo de Vencimentos (PCV) da Uenf.

Eis que hoje, um dos dirigentes do sindicato que representa os interesses dos servidores técnico-admnistrativos da Uenf divulgou imagens do que seria a cerimônia de filiação da reitora Rosana Rodrigues (ver imagem abaixo).

rosana sintuperj

Essa filiação é inusitada, na medida em que os professores da Uenf possuem sindicato próprio, a Aduenf, e a reitora, ao que me consta, é filiada. Assim, ao se filiar a outro sindicato que representa outra categoria dentro da Uenf, a reitora cria uma situação sui generis  de possu ir uma dupla filiação sindical. Isso até segunda ordem não está previsto na legislação trabalhista, até porque é uma situação tão bizarra que nem os mais visionário dos legisladores poderia ter previsto este caso.  Até aqui, resta saber o que vai pensar o Andes-SN, sindicato nacional que representa os interesses dos professores universitários em nível nacional.

Mas essa repentina volúpia de adesão sindical da reitora da Uenf me surpreenda pela trajetória  dela dentro desde a formalização da Aduenf em 1999. É que tendo sido presidente e vice-presidente da Aduenf por duas vezes em cada posto, eu raramente vi a reitora presente em nossas assembleias. Aliás, nas poucas vezes que a professora Rosana Rodrigues se fez notar em assembleias, ela apenas apareceu para votar pelo fim de greves que eram mais do que justas, as quais foram responsáveis pelos principais avanços que conseguimos em nossos direitos trabalhistas a partir de 1999.

Uma peculiariedade relacionada ao Sintuperj/Uenf é um dos seus principais diretores é, ao que me consta, pré-candidato a vereador pelo PT, o mesmo do deputado Lindbergh Farias. Com isso, a reitora estaria dobrando a sua aposta na “Melô do Marinheiro”, pois comete a pouco sábia atitude de se vincular novamente a um partido de oposição em uma situação política muito complexa que o estado do Rio de Janeiro atravessa neste momento.

A verdade é que ao dobrar essa aposta, a reitora da Uenf mostra um grau de incompreensão formidável em relação ao seu papel de reitora de uma universidade pública localizada no interior do estado.  Com essa adesão ela pode ter complicado não apenas a situação do trâmite do novo PCV, mas fechado outras portas importantes no governo estadual. Ou será que Cláudio Castro já adiantou a ela que está se mudando de mala e cuia para o PT? Se for isso, tiro o chapéu para a professora Rosana Rodrigues. Se não for, me parece urgente que ela nomeie uma versão uenfiana do “ministro do vai dar merda” que foi criado e eternizado por Chico Buarque.

E antes que eu me esqueça, uma história de bastidores. Na última vez em que fui presidente da Aduenf, o governo estadual estava com uma ideia maluca de unificar os salários da Uenf e da Uerj. O mentor da ideia era o vice-reitor da Uerj, João Regazzi Gerki que, na época, ocupava um cargo importante na Secretaria Estadual de Ciência e Tecnologia. Em um final de reunião com a diretoria da Aduenf na Secti, João Regazzi me confabulou a ideia e propôs a realização de uma reunião apenas com os sindicatos das universidades.  Intrigado com o convite, perguntei a Regazzi se ele não iria falar primeiro com os reitores. Ele rapidamente retrucou que não porque reitores, segundo Regazzi, eram patrões que não mandavam e ele queria falar direto com quem mandava, os sindicatos.  O fato é que mandando ou não, os reitores exercem o papel semelhante a de um patrão dentro das universidades.  Assim,  levando em conta o que me disse João Regazzi, o que dizer de uma reitora que se filia a um sindicato no início de um mandato que vai até 2027?