Folha de São Paulo adota discurso privatista e depreciativo sobre educação pública

Pesquisadora analisou mais de mil textos sobre ensino básico publicados em jornal paulistano

Escola-Estadual-Dom-Joao-NeryAlunos em pátio da Escola Estadual Dom João Nery, em Campinas: de acordo com o estudo, desqualificação do ensino público foi recorrente nos texto analisado 

Por Adriana Vilar de Menezes, e fotos por Antoninho Perri | Antonio Scarpinetti para o Jornal da UNICAMP

Ao analisar 1.197 artigos de opinião e 145 editoriais publicados pelo jornal Folha de S.Paulo entre 2005 e 2020, a pesquisadora Thais Rodrigues Marin se surpreendeu: encontrou nos textos uma postura reiterada de desqualificação do sistema brasileiro de educação pública, em ataques que atingiram também os professores dessa rede. A pesquisadora já esperava, por conta do recorte que fez para realizar seu doutorado, na Faculdade de Educação (FE) da Unicamp, deparar-se com essa insistente narrativa privatista. Marin, contudo, não previu o tom dos textos, um dos elementos a confirmar sua conclusão sobre o papel da grande imprensa brasileira na disseminação desse discurso em relação à educação básica no país.

A pesquisadora Thais Rodrigues Marin: localizando o “discurso da privatização da educação básica”

Grupo mapeia atores privados

“No âmbito da produção científica, a contraposição às narrativas privatistas da educação pode e deve ser feita por meio da realização de pesquisas com densidade teórica e empírica, como a de Thaís Marin”, afirma Adrião. A pesquisa indicou haver um discurso hegemônico sobre a privatização, diz a professora. E esse é o tema central dos trabalhos realizados pelo Greppe, grupo que inclui docentes, pesquisadores, estudantes de graduação e pós-graduação e educadores de três universidades públicas: Unicamp, Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Foto da professora Theresa Maria de Freitas Adrião
A professora Theresa Maria de Freitas Adrião, coordenadora do Greppe: por um “jornalismo mais informado e menos ideológico”

O Greppe dispõe de levantamentos e mapeamentos de todo o Brasil sobre as políticas estaduais de educação e a ingerência de atores privados nessas políticas, especialmente a partir de 2005, depois da Lei de Responsabilidade Fiscal de 2000 – 2001. A partir dessa lei, ficou estabelecido um limite de até 60% dos gastos dos governos estaduais com as folhas salariais, o que comprometeu políticas para a educação pública, favoreceu a transferência de atividades estatais para o setor privado e limitou os investimentos na valorização de profissionais da educação. As pesquisas do Greppe indicam que organizações privadas responsáveis por disseminar o discurso de desqualificação da escola pública influenciam as políticas educacionais das redes estaduais e municipais de ensino, dificultando a construção de uma política educacional focada no ensino público de qualidade.

Segundo a análise de Adrião, nos últimos anos houve um acirramento do reacionarismo. “O que é estatal e tem caráter universal, ou seja, o que é democrático e não discriminatório, como é a concepção de educação pública no Brasil, passou a ser desqualificado.” A docente também acredita ser importante que as universidades e as instituições científicas divulguem suas pesquisas e disputem pautas junto aos meios de comunicação de massa. “É preciso que haja uma ampliação da presença de pesquisadores como fontes para um jornalismo mais informado e menos ideológico”, defende a professora.

Além da formação de pesquisadores, o Greppe também atua junto a entidades da sociedade civil vinculadas à defesa da educação pública e à difusão do conhecimento científico construído com base em pesquisas. Em 2019, o grupo criou a Rede Latino-Americana e Africana de Pesquisadores em Privatização da Educação (Relaappe), entidade que hoje coordena.


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Fonte: Jornal da UNICAMP

Enquanto Brasil vive tragédia climática, bancada ruralista derruba vetos à nova lei de agrotóxicos

8 dos 17 vetos ao Pacote do Veneno foram derrubados na quinta-feira (9); ONGs vão acionar STF para barrar a nova lei

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Ativistas do Greenpeace protestam, em frente ao Congresso Nacional, em Brasília, contra o Pacote do Veneno, que autorizando mais substâncias tóxicas, inclusive cancerígenas

Por Andressa Santa Cruz para o Greenpeace

O cenário é sem surpresa, mas segue revoltante. Enquanto o Brasil enfrenta uma das piores tragédias climáticas de sua história, a bancada ruralista conseguiu derrubar 8 dos 17 vetos ao Pacote do Veneno (Lei nº 14.785/2023), na última quinta-feira (9), enfraquecendo ainda mais a legislação brasileira de agrotóxicos. Para barrar essa medida, organizações e movimentos sociais vão recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF). 

Essa nova lei do Pacote do Veneno (com os vetos presidenciais ou não) é um dos maiores retrocessos ambientais que já vimos no paísmas ver ontem esse número altíssimo de parlamentares se posicionarem contra Ibama e Anvisa – e não reconhecerem sua importância – foi de indignar!”, enfatiza Vanessa Pedroza, porta-voz do Greenpeace Brasil. “Agora, esses órgãos perdem totalmente o protagonismo técnico de análise ecotoxicológica e ambiental, enquanto o MAPA faz a festa junto com a bancada ruralista.” 

Mais de 400 parlamentares votaram pela derrubada dos vetos contra 103 que votaram pela sua manutenção (4 senadores e 99 deputados) – veja a lista completa de votos aqui. Ainda falta a análise de 9 vetos, que foi agendada para 28/05. 

Prejuízos da lei do Pacote do Veneno

O Pacote do Veneno foi aprovado no fim do ano passado, tornando-se lei, e foi sancionado com 17 dispositivos vetados pelo presidente Lula – oito foram derrubados ontem, em resumo: 

  • Enfraquece a competência da Anvisa e do Ibama, deixando o Ministério da Agricultura (MAPA) na função exclusiva de coordenar o processo de reanálise de riscos de agrotóxicos;
  • Autoriza registro provisório de produtos à base de ingrediente ativo em reanálise, ofendendo-se o princípio de precaução. O veto evitaria a exposição humanitária e ambiental aos agrotóxicos.

Esses vetos, todavia, não resolviam pontos graves, como a possibilidade do registro de substâncias comprovadamente cancerígenas e que ameaçam a biodiversidade. 

Pacote do Veneno no STF
A tragédia em curso no Rio Grande do Sul, que já atingiu mais de 1 milhão de pessoas, com mais de 100 mortos e desaparecidos, é mais um sinal grave e urgente de que precisamos nos ajustar à nova realidade climática. 

O Brasil já é o país que mais usa agrotóxicos no mundo e a nova lei do Pacote do Veneno agrava essa realidade, autorizando mais substâncias que poluem e contaminam o meio ambiente, causando doenças e danos irreparáveis. Ela viola preceitos básicos da Constituição Federal, como direito à vida, à saúde e ao meio ambiente equilibrado. 

Agora, organizações e movimentos, como o Greenpeace Brasil e a Campanha Permanente contra Agrotóxicos, vão questionar o Pacote do Veneno no STF, para que sua inconstitucionalidade seja reconhecida e a lei seja derrubada.

Agroecologia é solução
“Diante da fome e da crise climática, já existe uma solução ancestral: a agroecologia”, explica Vanessa Pedroza. “Diversos estudos científicos já comprovam os riscos e impactos irreversíveis dos agrotóxicos  e sabemos que o uso desses venenos não é necessário. Pelo contrário! Precisamos transitar para um sistema alimentar e agrícola justo e ecológico.”

Por isso, precisamos seguir vigilantes para que os interesses do agronegócio não sobreponham o bem-estar de todos nós, ou então estaremos fadados a enfrentar tragédias climáticas cada vez piores. 


Fonte: Greenpeace

Na contramão da ciência

“Até quando a política e a economia estarão de costas para a sociedade e o meio ambiente?”

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Enchente do Rio Taquari na cidade de Lajeado (RS). Foto: marcelocaumors/Instagram

Por Andrea Zhouri & Edna Castro para o “Jornal da Ciência”

As enchentes catastróficas no Rio Grande do Sul chocam o Brasil. A crise instalada, cuja magnitude destrutiva não encontra precedentes na história, não é, contudo, um incidente inesperado. Ao contrário, os desastres ambientais deflagrados por eventos climáticos extremos já são uma realidade recorrente no país e revelam sua dimensão estrutural. Desde os anos 70, pelo menos, cientistas no mundo todo têm advertido sobre as mudanças climáticas, agora tratadas como emergências ou urgências. A receptividade dos alertas no meio político e das elites econômicas tem sido pífia ao longo de décadas. Entre o negacionismo e as supostas soluções apresentadas a partir da lógica neoliberal, a exemplo do mercado de carbono, prevalecem as opções macroeconômicas e neodesenvolvimentistas que apostam na exportação de commodities agrícolas e minerárias como uma espécie de consenso míope e macabro.

Os discursos que apelam para dimensões universalistas do problema, como por exemplo, a “falha da humanidade”, prestam desserviço à sociedade ao desviarem o foco dos aspectos tangíveis da questão, que são políticos e econômicos. Políticas de redução do desmatamento são ineficientes se não forem pensadas de forma integrada aos demais processos associados ao modelo econômico que exaure as energias do planeta. A redução do desmatamento como freio das mudanças climáticas é incompatível com as políticas que alimentam a obsessão de agentes econômicos pela apropriação de terra e recursos naturais para a acumulação de riqueza abstrata.

Enquanto o presidente Lula cobra dos países desenvolvidos os 100 milhões de dólares prometidos em 2009 para as ações de adaptação climática, as escolhas econômicas do governo continuam de costas para os problemas estruturais que provocam os eventos climáticos extremos. Cabe lembrar as incertezas que acompanham as boas intenções de ações de mitigação e de adaptação climática, pois sabemos que nos eventos extremos ocorridos no Rio Grande do Sul, pouco teriam servido para reduzir os danos. É devastador assistir o rompimento de barragens construídas nos rios para geração de energia assim como o medo e a insegurança causada nas famílias pela iminência de novas rupturas. É razoável lembrar que a tecnologia disponível não teve força e eficácia para prevenir e segurar a lama e os rejeitos de minério em Mariana e Brumadinho. Essas observações nos parecem relevantes para que se encare de frente uma realidade que exige coragem e determinação de agentes da política e da economia à altura do mega problema que as elites mundiais produziram no seu afã de modernidade e enriquecimento.

A política é um campo do simbólico, de produção e profusão de discursos muitas vezes difíceis de decifrar ou de identificar seus eixos e contextos. A razão que subjaz interconecta poder e convencimento. A insistência na exploração de petróleo na Amazônia é caso exemplar. O ministro das Minas e Energia, Alexandre Silveira declarou, no início de abril, que o país deveria explorar petróleo e gás até atingir o IDH de países industrializados. Ora, tal declaração lembra o contexto da década de 70, quando o conceito de desenvolvimento sustentável nem existia e os governantes discursavam sobre primeiro crescer para depois distribuir a riqueza e proteger o meio ambiente. Nega-se a realidade da crise climática e ambiental e os conhecimentos científicos existentes há, no mínimo, 50 anos!  No Congresso Nacional, a questão é ainda pior. A flexibilização das leis ambientais, como a aprovação da nova lei geral do licenciamento, verdadeiro desmanche do arcabouço normativo, revela o quanto os políticos legislam de costas para a sociedade e para o meio ambiente.

Os efeitos das mudanças climáticas atravessaram o território brasileiro nos últimos anos, e isso não se pode mais ignorar. Em 2023, foram muitos os municípios em situação de emergência, com alagamentos, soterramentos, mortes e perdas na Bahia, em Minas Gerais, Goiás, Maranhão, Pará, Rio de Janeiro, Santa Catarina, São Paulo, Espirito Santo, Rio Grande do Sul, entre outros estados.

Como temos pesquisado, os desastres não são meramente naturais ou sociais, mas resultam da intercessão de escolhas econômicas, políticas e institucionais “mal adaptadas” ao meio ambiente e à sociedade. É certo que as consequências, ao longo da história, têm atingido primeiro os grupos sociais mais vulnerabilizados pelo processo de construção da sociedade nacional, populações periféricas, negras e etnicamente diferenciadas. Mas a conta chega para todos. É hora de dizer basta ao negacionismo e às políticas econômicas míopes e submissas à lógica da acumulação primitiva. O momento é o de repensar o modelo de desenvolvimento e reconhecer que o valor da natureza, que é vida humana e não-humana, é inegociável. Razão fundamental à recusa do desenvolvimentismo e dos consensos produzidos em torno de uma economia predatória e neoextrativista.

* Andréa Zhouri é presidente da Associação Brasileira de Antropologia (ABA), e Edna Castro é presidente da Associação Brasileira de Sociologia (SBS).


Fonte: Jornal  da Ciência da SBPC

Diário de guerra: Maria Júlia tem medo de ser queimada viva pelos homens maus

No Assentamento Dorothy Stang, em Anapu, a violência persiste 19 anos após o assassinato da missionária: uma das estratégias da grilagem é atacar a escola, que já foi incendiada duas vezes, para dificultar a permanência na terra

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O medo de ser queimada viva não vem de nenhuma história de ficção. É da vida no Projeto de Assentamento Irmã Dorothy Stang, em Anapu, na Amazônia paraense. No dia 10 de janeiro, a Escola Municipal de Ensino Fundamental Paulo Anacleto foi incendiada tarde da noite. Como as casas ficam distantes da escola, não houve testemunha. Ninguém é capaz de identificar quem entrou na comunidade, sorrateiramente, e ateou o fogo. Do lugar onde Maria Júlia guarda lembranças de brincadeiras com os amigos, não sobrou quase nada. A escola, de 6 metros quadrados, foi feita de palha e talo de coco, num mutirão da comunidade, o que facilitou a propagação das chamas.

 

Ataque em dois atos: a escola municipal paulo anacleto foi queimada em 2022 e em 2024, num gesto de violência para impedir a fixação na Terra

Os desenhos das crianças, que ficavam pendurados na parede de palha, viraram cinzas. No local, restaram apenas duas carteiras de madeira e duas de ferro. Um barracão, criado no mesmo espaço da escola para brincadeiras de pega-pega e esconde-esconde, desapareceu por completo. Apenas um banheiro de madeira, construído nos fundos, foi poupado da brutalidade. Um mês após o crime ainda era possível sentir o cheiro de queimado.

“Quem tem coragem de fazer isso com crianças?”, questiona Vanessa Vitoriano, de 32 anos, mãe de Maria Júlia. Ela sabe que o uso da violência é tática constante para aterrorizar as crianças e os moradores do Lote 96, onde está localizado o assentamento que leva o nome da missionária assassinada em 12 de fevereiro de 2005 no mesmo município. É a segunda vez que queimam a escola.

A vida no Projeto de Assentamento Dorothy Stang é uma batalha diária, mas o ataque à infância é uma estratégia recente. A escola é um dos principais espaços públicos para fixar uma comunidade no lugar e fortalecer os laços entre as famílias. Destruir a escola de forma recorrente é uma tática de expulsão. Mais uma. Foi também uma ameaça a seus filhos que levou a antiga liderança do Lote 96, Erasmo Theofilo, há três anos e meio no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, Comunicadores e Ambientalistas (PPDDH), a deixar o território. “Não precisa mais se preocupar em morrer, porque não vamos te matar. Vamos só arrancar o teu coração” – foram as frases ditas num dos áudios com ameaças que Erasmo recebeu por WhatsApp. Segundo pessoas da região, “atingir o coração” é atingir os filhos.

O primeiro incêndio criminoso, que também destruiu a Escola Paulo Anacleto, ocorreu em 18 de julho de 2022. “Na primeira vez foi diferente, eles atearam fogo e deram tiros para o ar, para intimidar mesmo. Dessa vez ninguém viu, só encontramos a escola queimada”, lembra Vanessa. Ela conta que, em 2022, os moradores se reuniram e fizeram outra escola de palha e talo de coco em pouco mais de dez dias.

 

Resistência: há dois anos, quando a escola virou cinzas pela primeira vez, em dez dias a comunidade a reconstruiu com talos de coco e palha. Fotos: Erasmo Theofilo e Natalha Theofilo

Agora, após a reincidência da tragédia, a comunidade conseguiu a doação de 10 mil tijolos para reerguer outra escola, desta vez de alvenaria. Mas não bastará a força de vontade. Em reunião com a Promotoria de Justiça Agrária de Altamira, no dia 23 de janeiro, representantes do Ministério Público do Estado do Pará, em Anapu, relataram a decisão da prefeitura de não construir nem reformar a Escola Paulo Anacleto, alegando falta de recursos financeiros e número insuficiente de alunos matriculados – o mínimo deveria ser 25, e há somente 13. Os moradores fizeram um abaixo-assinado contra a decisão da prefeitura. No documento, afirmam que a Secretaria de Educação quer deslocar os alunos para a Escola Brasil Grande, que fica distante da comunidade – 15 quilômetros, segundo o Ministério Público. Até agora não tiveram nenhuma resposta do poder público.

“Como vamos mandar essas crianças tão pequenas em um carro com capacidade para dez pessoas, mas que leva 20, 25? Aceitar isso é mandar nossos filhos para morrer”, afirma Vanessa Vitoriano. Pai de Maria Júlia e de João Vitor, de 13 anos, o lavrador Agnaldo Costa Lima acrescenta que o veículo não é adequado: “Você já viu um pau de arara? Pois é, é um pau de arara que leva as crianças para a escola”.

Em mais um capítulo da resistência, os moradores levantaram uma escola improvisada de madeira em abril. A prefeitura disse informalmente, à comunidade, que a escola poderá voltar a funcionar em agosto. Mas, por enquanto, são apenas promessas. A prefeitura de Anapu não respondeu a questionamentos de SUMAÚMA sobre a situação da escola da comunidade.

Agnaldo chegou ao Lote 96 há 13 anos. Parou de estudar na antiga 8ª série do ensino fundamental [hoje é o 9º ano do Fundamental 2], após perder a mãe, aos 15 anos, e precisar trabalhar. “Não quero a vida que eu tive pra meus filhos. Como eu posso dar estudo para eles desse jeito? Ela quer ser doutora. Como?”, pergunta, entre lágrimas. No dia anterior, quando Maria Júlia brincava com o material escolar ainda intacto, a menina questionou Agnaldo: “Pai, eu vou ficar burra?”. Engasgado, ele só disse à filha: “De jeito nenhum”. Mas o medo é real. O ano letivo deveria ter começado no dia 5 de fevereiro, porém, até o momento, não há previsão para o início das aulas.

 

A vida sonhada: diante da violência, estudante desenha a esperança de uma criança que só quer frequentar a escola em segurança

Procuradas pela reportagem, nem a prefeitura de Anapu nem a Secretaria Municipal de Educação responderam aos questionamentos sobre a situação do ensino no assentamento. Somente quatro crianças começaram o ano letivo, em fevereiro, na Escola Brasil Grande. As demais seguem sem aulas e sem escola. As famílias optaram por aguardar uma posição da administração municipal e pressionam para que seja refeita a Escola Paulo Anacleto no assentamento. A maioria das crianças está há quatro meses sem aulas.

A Polícia Civil abriu inquéritos para apurar os dois incêndios da escola. Afirma que há investigações em curso, mas até agora nenhum responsável foi apontado. A polícia não respondeu ao e-mail de SUMAÚMA pedindo uma atualização sobre o caso.

Zona de guerra

Anapu é, de fato, uma zona de guerra, onde assentados e sem-terra à espera de reforma agrária são cotidianamente violentados e acuados, estratégica e sistematicamente privados de direitos até que desistam e abandonem o território. O município sempre será lembrado pelo assassinato da missionária Dorothy Stang, aos 73 anos, por pistoleiros, a mando dos fazendeiros Vitalmiro Bastos e Regivaldo Galvão. A mesma ganância que ceifou a vida de Dorothy faz com que se ateie fogo à escola de crianças.

Segundo dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT), 29 pessoas foram assassinadas em Anapu de 2005 a 2023 em conflitos por terra. Entre 2006 e 2014, porém, não houve nenhuma morte – as execuções retornaram a partir de 2015, já no processo de crise do governo de Dilma Rousseff (PT), que levaria ao impeachment um ano depois e à Presidência de Michel Temer (MDB). Somente em 2023 foram seis assassinatos, que aparecem como conflitos pessoais porque ocorreram fora da área de assentamentos e ocupações. Mas, para a pastoral, estão ligados à luta pela terra. Matar as pessoas fora do território tem sido outra estratégia dos pistoleiros, afirmaram à reportagem integrantes da comissão. O relatório da CPT foi oficialmente divulgado em abril.

No assentamento, até fevereiro de 2024 os moradores estavam sem energia elétrica havia mais de um ano; as estradas são de chão de terra batida e, em alguns pontos, tão escorregadias no período de chuvas que parecem ser feitas de argila. Internet e luz são acessíveis somente àqueles que possuem placa de energia solar. Não há médico, e agora também existe o risco de não haver mais escola. O objetivo é explícito: impedir a permanência na terra dos que escolhem o Projeto de Assentamento Dorothy Stang como morada e seguem o legado da missionária.

 

Legado: morador acende uma vela no túmulo da missionária Dorothy Stang, assassinada com seis tiros em 2005, a mando de grileiros

Em 1º de julho de 2022, ainda no governo do extremista de direita Jair Bolsonaro (PL), a Superintendência Regional do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) no oeste do Pará criou o Projeto de Assentamento Dorothy Stang. A decisão só saiu por determinação da Justiça, provocada pelo Ministério Público Federal. A portaria do Incra estabelecia a criação de 73 unidades agrícolas familiares, exatamente o número de famílias do assentamento. Cinco dias depois, no entanto, a Diretoria de Desenvolvimento e Consolidação de Projetos de Assentamento, em Brasília, tornou sem efeito a portaria. A alegação oficial apresentada, à época, foi burocrática: a necessidade de “qualificar melhor o procedimento administrativo”.

Na verdade, o que ocorreu foi a paralisação política da reforma agrária no governo de extrema direita, “com queda drástica de orçamento e redução significativa de servidores”, como reconheceu a direção atual do Incra, em nota enviada a SUMAÚMA. “A partir do início de 2023, foram adotadas ações no sentido de reorganizar todo o funcionamento do órgão”, argumentam.

Um ano e sete meses depois, em 28 de fevereiro de 2024, foi publicada nova portaria, no Diário Oficial da União, assinada pela presidência do Incra, favorável à criação do assentamento. Finalmente o atual governo reconheceu o interesse social na área do Assentamento Dorothy Stang e regularizou a situação fundiária para reforma agrária. “As famílias assentadas no local estão aptas a acessar tanto políticas federais, como estaduais e municipais”, informou a assessoria do Incra.

 
Conquista: quase 20 anos depois da morte de dorothy stang, o assentamento foi reconhecido; memorial homenageia a irmã

O caminho para ter acesso a políticas públicas, no entanto, é penoso.
Em junho de 2023, a Equatorial Pará recebeu do Incra a lista de moradores do assentamento que estão regularizados e, portanto, passíveis de ligação elétrica em suas casas. Com os dados em mãos, o projeto para instalar energia no Dorothy Stang teve licenciamento ambiental deferido apenas em janeiro de 2024. “A obra está em trâmite de execução e possui previsão de atendimento até julho de 2024”, informou a empresa por meio de nota enviada a SUMAÚMA. Desde 2020 os moradores esperam pelo Programa Luz para Todos, criado no primeiro governo Lula, em 2003, para atendimento de famílias em áreas rurais. Até o início de maio, apenas 17 famílias tinham conseguido o acesso à energia.

Mesmo com o reconhecimento legal do assentamento pelo governo federal, para as pessoas que permanecem privadas de políticas públicas não há outra escolha a não ser lutar. Os “homens maus” responsáveis pela atrocidade de atear fogo à escola já repetiram o método com dezenas de famílias nos últimos dois anos. “A primeira vez que atearam fogo aqui foi na casa de uma senhora. Depois disso, ela foi embora, passou um ano fazendo tratamento para depressão, mas agora voltou ao território”, conta uma pessoa que pediu sigilo sobre a sua identidade. “Só registramos boletim de ocorrência dos dois incêndios da escola e de quatro casas de moradores, mas já perdemos as contas [de quantos ataques ocorreram].”

O Ministério Público Federal informou a SUMAÚMA que a investigação sobre o incêndio da escola tramita sob sigilo. A instituição solicitou a presença da Delegacia de Conflitos Agrários (Deca) no local assim que soube dos fatos, o que ocorreu dias depois. Quanto às constantes violações de direitos humanos no assentamento, o MPF afirma que tem acompanhado a situação para analisar se os direitos constitucionais dos moradores estão sendo desrespeitados.

Um espaço de luta que abriga flores

No local marcado pela impunidade, é fácil entender as razões pelas quais a pequena Ana Clara, de 6 anos, sonha em ser policial. A menina, de pele negra e cabelos encaracolados, diz que “quando for grande” quer prender bandidos que roubam e ateiam fogo à escola de crianças. “Quando eu for policial, eles vão passar meses presos”, garante.

‘Até onde for preciso’: Raimunda Silva, mãe da pequena ana Clara, plantou flores no assentamento e promete lutar pelo direito da filha à educação

A família de Ana Clara vive em uma casa de madeira, de chão de cimento queimado, rodeada por flores que, na região, são chamadas de maria-sem-vergonha. Raimunda Soares da Silva, de 42 anos, mãe de criação de Ana Clara, conta que antes de chegar ao assentamento morava na Vila Gelado, no município de Novo Repartimento, também no Pará. De lá, além da família, trouxe várias mudas de flores, que hoje dão cor a um lugar repleto de cinzas. “Meu irmão morou aqui anos antes de mim e lembro de terem queimado a casa dele. Ele saiu um dia para pegar um açaí e na volta tudo estava incendiado.” A tragédia não impediu Raimunda de sonhar com o futuro da família no assentamento. Mas no momento o que a preocupa é o futuro de Ana Clara – e ela diz que vai “até onde for preciso” para garantir a educação da menina.

A Escola Paulo Anacleto, como tudo no assentamento, foi conquistada com muita luta. Lá estudavam 13 alunos de 4 a 12 anos, da educação infantil até o 6º ano do ensino fundamental. Até dezembro de 2019, porém, a maior parte das crianças da comunidade não estudava, porque a escola mais perto fica a 15 quilômetros – um trajeto de terra batida com lama e buracos, intrafegável em muitos trechos. No dia 27 daquele mês, o morador Paulo Anacleto finalizou a primeira reunião oficial para tratar da criação da escola. Ele fez o levantamento das famílias que tinham crianças e, com esses dados, formulou um documento, levado ao Ministério Público do Estado do Pará, em Anapu, pedindo à prefeitura a criação de uma instituição de ensino.

 

Antes do Fogo: dia de aula normal no assentamento, Em 2022. Foto: Mídia Ninja

Quem lembra da história é Erasmo Theofilo, liderança aguerrida do Lote 96. “Esse foi o início do processo de criação da escola. Na sequência, ele foi assassinado”, conta. Paulo Anacleto foi morto naquele dezembro de 2019, data do início do processo de exílio de Erasmo, sua companheira, Natalha, e seus cinco filhos. Ameaçados, eles tiveram que deixar o assentamento. O nome da escola foi uma forma de homenagear o companheiro que tombou. A morte de Paulo ocorreu cinco dias depois que outro líder da comunidade, Márcio Rodrigues dos Reis, foi assassinado com uma facada na garganta para mostrar que “falava demais”.

Em 7 de dezembro de 2020, Erasmo foi colocado no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, Comunicadores e Ambientalistas (PPDDH). Hoje ele e a família vivem num exílio forçado, mas seguem na luta, pedindo ao Estado por mudanças que possam de fato proteger e assegurar uma vida íntegra a defensores. O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania não respondeu a SUMAÚMA sobre a revisão do programa e as violações de direitos em Anapu.

‘Se aparecer alguém, vocês correm’

O estado de alerta no Assentamento Dorothy Stang é constante, e não é algo restrito aos adultos. João Paulo, de 5 anos, é um menino risonho e falante. Ele é uma das crianças que vão para a escola a pé, na companhia do irmão mais velho, Pedro, de 9 anos. Todos os dias os dois disputam corridas pelo caminho. A brincadeira ajuda a executar com êxito o que aprenderam na escola: “A professora disse que, se algo acontecer, é pra gente correr. Coitado do João Paulo, porque ele corre muito devagar”, lamenta o mais velho.

 

Numa folha qualquer: nos desenhos das crianças do assentamento, a Escola Paulo Anacleto continua a existir, com sol, arco-íris, pássaros, chuva e até girafa

A mãe dos meninos, a lavradora Adenise Alencar, de 46 anos, conversa sempre com eles sobre os perigos que podem surgir no caminho. Além do clássico “não falem com estranhos”, ela alerta as crianças de que não devem brincar com o gado. O avanço da pecuária na região se tornou um perigo para os pequenos. Com a presença de bois nos arredores da escola, os pais, preocupados, construíram um banheiro de madeira para as crianças não se arriscarem no mato.

A resistência e a coragem das crianças do assentamento, que mesmo diante das cinzas ainda enxergam um futuro, também são fruto da dedicação e do esforço da professora. Por razões de segurança, a comunidade protege a identidade da educadora, que está bastante abalada e evita entrevistas após o mais recente incêndio criminoso.

Hoje, a Escola Paulo Anacleto existe apenas na memória e nos desenhos das crianças. SUMAÚMA pediu aos alunos que representassem, no papel, seus sentimentos. No traçado de Maria Júlia, a escola segue intacta, e o teto está cercado por um arco-íris. Ana Clara fez questão de colocar passarinhos azuis no espaço que, na vida real, foi queimado. No desenho de João Paulo, a sala de aula ainda é um esboço, como se o menino não se lembrasse mais do que havia ali antes do fogo. A Escola Municipal de Ensino Fundamental Paulo Anacleto vive no imaginário de todas essas crianças que, mesmo diante do horror, ainda teimam em sonhar.

 

O que ninguém vê: a resiliência das crianças é o que traz a certeza de futuro no assentamento, ainda que direitos sejam constantemente violados


Reportagem e texto: Catarina Barbosa
Edição: Malu Delgado e Eliane Brum
Edição de fotografia: Lela Beltrão
Checagem:
 Plínio Lopes

Revisão ortográfica (português): Valquíria Della Pozza
Tradução para o espanhol: Julieta Sueldo Boedo
Tradução para o inglês: Sarah J. Johnson
Montagem de página e acabamento: Natália Chagas
Coordenação de fluxo editorial: Viviane Zandonadi
Chefa de reportagem: 
Malu Delgado
Editora-chefa: 
Talita Bedinelli
Diretora de Redação: 
Eliane Brum


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Fonte: Sumaúma

Novo programa do CNPq pode atrair quem está no início de carreira fora do Brasil, mas diáspora não é homogênea

LabcriobiologiaPrograma “Conhecimento Brasil” do CNPq prevê 800 milhões para repatriação de pesquisadores, além de financiar cooperação entre cientistas atuantes no país e no exterior

Por Ana Maria Carneiro, Ana Maria Gimenez, Elizabeth Balbachevsky, Leonardo de Azevedo e Vinícius Ferreira

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Nas últimas semanas, o programa ‘Conhecimento Brasil’, apresentado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), tem sido intensamente debatido pela comunidade científica. Gostaríamos de acrescentar pontos ao debate a partir de dados de uma pesquisa de 2023 com 1200 pesquisadores da diáspora científica brasileira, vivendo em 42 países diferentes.

Além da “repatriação de pesquisadores”, com maior visibilidade pela alocação de recursos (cerca de 800 milhões do 1 bilhão de reais do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) para um período de 5 anos), o programa prevê recursos para a mobilização de membros da diáspora brasileira para atuar no país de forma temporária e para projetos de cooperação entre pesquisadores no Brasil e brasileiros no exterior. Nesse sentido, ele pode representar um passo importante na ressignificação da diáspora científica brasileira, alinhada a uma nova perspectiva sobre a circulação de cientistas para além das fronteiras nacionais, ultrapassando a visão limitada da “fuga de cérebros”.

Nosso survey apontou que não existe uma única diáspora científica brasileira no exterior, o que é importante para analisar a efetividade do programa. Além disso, mais de 70% dos participantes não têm uma previsão de retorno ao Brasil, especialmente sem oportunidades de emprego, mas se mostram dispostos a colaborar com a ciência nacional, apontando sugestões de políticas em três grandes eixos.

Para pesquisadores que desejam retornar ao Brasil, especialmente em início de carreira: carreiras acadêmicas mais atrativas, com melhor remuneração e maior oferta de vagas. Para esse grupo, a repatriação do programa do CNPq parece atender às expectativas.

Para promover colaboração entre os membros da diáspora e o sistema de Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I) no Brasil: oportunidades de vínculo temporário ou dupla filiação institucional no país e no exterior; fomento para ações de mobilidade e cooperação entre a diáspora e pesquisadores no Brasil. Muitos desses brasileiros têm acesso a diferentes recursos no exterior, que podem beneficiar a CT&I brasileira. Para eles, dificilmente o componente de retorno ao país do programa irá interessar.

Dinamização do ambiente brasileiro, com mudanças que beneficiariam pesquisadores no exterior e no Brasil, como: ampliação de oportunidades de financiamento à pesquisa, apoio a projetos multicêntricos para parcerias de longa duração; planos de carreira mais flexíveis e aumento do número e do valor das bolsas.

Tais propostas, longe de aderir ou rechaçar imediatamente o programa ‘Conhecimento Brasil’, mostram que a situação é mais complexa do que parece. Mas um ponto importante a se destacar é que ele privilegia quem está fora do Brasil, com mais recursos e condições diferenciadas de financiamento. Além de não atacar o cerne da razão da saída de cientistas do país – falta de oportunidades e de condições mais favoráveis para se fazer ciência – também desconsidera que a circulação de pessoas é um fato incontornável do mundo contemporâneo, sobretudo no campo científico.

Especialistas afirmam que as políticas para a diáspora não serão efetivas se não fizerem parte de um conjunto mais amplo de políticas para o desenvolvimento científico, tecnológico, social e cultural de cada país. É essencial, portanto, fomentar um ambiente doméstico mais favorável à ciência, tornando-o mais convidativo, tanto para os que já atuam por aqui, quanto para os que porventura desejem atuar.

 

Sobre os autores

Ana Maria Carneiro é pesquisadora do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

Ana Maria Nunes Gimenez é pesquisadora do Departamento de Política Científica e Tecnológica (DPCT/IG/Unicamp) e INCT-PPED

Elizabeth Balbachevsky é pesquisadora do Departamento de Ciência Política, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP)

Leonardo Francisco de Azevedo é pesquisador do Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

Vinicius Kauê Ferreira é pesquisador do Departamento de Ciências Sociais, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj)


Fonte: Agência Bori

Arroz dourado geneticamente modificado é suspenso nas Filipinas: o engano do desenvolvimento e a política do progresso como ferramentas de dominação

stop gmo

Por Sustainable Pulse

Em 19 de abril de 2024, a Suprema Corte das Filipinas emitiu uma  ordem de cessar e desistir da propagação comercial de arroz dourado geneticamente modificado (GM) e de uma espécie de berinjela geneticamente modificada no país, informou recentemente a Countercurrents .

 Stop Golden Rice Network afirma  que a decisão judicial é uma vitória para agricultores e consumidores em todo o mundo, uma vez que a decisão vai além do Arroz Dourado e da berinjela resistente à inseticida e abrange “qualquer aplicação para uso contido, testes de campo, uso direto como alimento ou ração ou processamento, uso comercial propagação e importação de OGM.”

O tribunal reconheceu que as agências governamentais e outros proponentes do arroz dourado e da berinjela geneticamente modificados “não apresentaram provas de segurança e conformidade com todos os requisitos legais”. A ordem permanece indefinida até que os proponentes dos OGM possam cumprir todas as etapas obrigatórias e fornecer provas concretas de que estes produtos são realmente seguros.

Uma rede de agricultores, consumidores e organizações da sociedade civil, a Stop Golden Rice enfatiza a necessidade de combater a fome e a desnutrição através da garantia do controlo dos pequenos agricultores sobre recursos como sementes, tecnologias apropriadas, água e terra.

O grupo de campanha diz:

“Acreditamos que as culturas geneticamente modificadas são impulsionadas principalmente pelos capitalistas monopolistas globais na alimentação e na agricultura… já existem provas irrevogáveis ​​do fracasso das culturas geneticamente modificadas e de como isso contribuiu para um maior endividamento, falhas nas colheitas, fome e perda de biodiversidade.”

Afirma que a decisão do tribunal mostra que as pessoas comuns podem prevalecer face ao poder corporativo.

A história do Arroz Dourado 

A deficiência de vitamina A é um problema em muitos países pobres do Sul Global e deixa milhões de pessoas em alto risco de infecção, doenças e outras doenças, como a cegueira.

A indústria agrotecnológica há muito que argumenta que o Arroz Dourado é uma forma prática de fornecer aos agricultores pobres em áreas remotas uma cultura de subsistência capaz de adicionar a tão necessária vitamina A às dietas locais. Os lobistas dizem que o Arroz Dourado, desenvolvido com financiamento da Fundação Rockefeller, poderia ajudar a salvar a vida de cerca de 670 mil crianças que morrem todos os anos por deficiência de vitamina A e de outras 350 mil que ficam cegas.

Tais alegações, no entanto, baseiam-se mais em distorções do que na realidade e, ao longo dos anos, os interesses por trás do Arroz Dourado não perderam tempo em atacar quem o questionasse.

Como Secretário do Ambiente da Grã-Bretanha em 2013, o agora desonrado  Owen Paterson afirmou  que os oponentes da GM estavam “lançando uma sombra negra sobre as tentativas de alimentar o mundo”. Ele apelou à rápida implantação do arroz enriquecido com vitamina A para ajudar a prevenir a causa de até um terço das mortes infantis no mundo. Ele alegou:

“É simplesmente nojento que crianças pequenas possam ficar cegas e morrer por causa do bloqueio de um pequeno número de pessoas em relação a esta tecnologia. Eu me sinto muito forte sobre isso. Acho que o que eles fazem é absolutamente perverso.”

No Twitter, Nick Cohen do The Observer concordou com seu apoio twittando:

“Não há maior exemplo de privilégio ocidental ignorante que causa miséria desnecessária do que a campanha contra o arroz dourado geneticamente modificado.”

A retórica dos defensores dos OGMs  adotou a linha de relações públicas bem desgastada e cinicamente concebida  de que os ativistas anti-GM e os ambientalistas são pouco mais do que pessoas privilegiadas e ricas que residem em países ricos e estão a negar aos pobres os supostos benefícios das culturas GM.

Apesar destas difamações e chantagem emocional, num artigo de 2016 na revista  Agriculture & Human Values,  Glenn Stone e Dominic Glover encontraram poucas provas de que os ativistas fossem culpados pelas promessas não cumpridas do Golden Rice.

Os pesquisadores ainda tiveram problemas para desenvolver cepas enriquecidas com beta-caroteno que produzissem tão bem quanto cepas não transgênicas já cultivadas pelos agricultores. Era questionável se o beta-caroteno do Arroz Dourado poderia ser convertido em vitamina A nos corpos de crianças gravemente desnutridas. Também houve pouca investigação sobre a eficácia do beta-caroteno no Arroz Dourado quando armazenado durante longos períodos entre as épocas de colheita ou quando cozinhado utilizando métodos tradicionais comuns em zonas rurais remotas.

Entretanto, Glenn Stone observou que, à medida que o desenvolvimento do Arroz Dourado avançava, as Filipinas conseguiram reduzir a incidência da deficiência de vitamina A através de métodos não-GM.

Então, quais interesses estavam realmente sendo atendidos na campanha pelo Arroz Dourado?

Em 2011, Marcia Ishii-Eiteman, cientista sênior com experiência em ecologia de insetos e manejo de pragas, respondeu a esta pergunta:

“Um chamado Conselho Humanitário de elite onde a Syngenta tem assento – juntamente com os inventores do Arroz Dourado, a Fundação Rockefeller, a USAID e especialistas em relações públicas e marketing, entre um punhado de outros. Nem um único agricultor, indígena ou mesmo ecologista ou sociólogo para avaliar as enormes implicações políticas, sociais e ecológicas desta experiência massiva. E o líder do projeto Golden Rice do IRRI não é outro senão Gerald Barry, ex-Diretor de Pesquisa da Monsanto.”

Sarojeni V Rengam, diretor executivo da Pesticide Action Network Asia and the Pacific, apelou aos doadores e cientistas envolvidos para acordarem e fazerem a coisa certa:

“O Golden Rice é realmente um ‘cavalo de Tróia’; um golpe de relações públicas realizado pelas corporações do agronegócio para obter aceitação de culturas e alimentos geneticamente modificados (GM)… dinheiro e esforços seriam mais bem gastos na restauração da biodiversidade natural e agrícola, em vez de destruí-la através da promoção de plantações de monoculturas e culturas alimentares geneticamente modificadas.”

Para combater as doenças, a subnutrição e a pobreza, é necessário primeiro compreender as causas subjacentes – ou mesmo querer compreendê-las.

O renomado acadêmico  Walden Bello observa  que o complexo de políticas que empurrou as Filipinas para um atoleiro económico ao longo das últimas décadas se deve ao “ajustamento estrutural” que incluiu a reestruturação da agricultura e da produção orientada para a exportação.

E essa reestruturação da economia agrária é algo abordado por Claire Robinson da GMWatch, que observa que os vegetais de folhas verdes costumavam ser cultivados em quintais, bem como em campos de arroz (arrozais) nas margens entre as valas inundadas onde o arroz crescia.

As valas também continham peixes, que comiam pragas. As pessoas tiveram assim acesso a arroz, vegetais de folhas verdes e peixe – uma dieta equilibrada que lhes proporcionou uma mistura saudável de nutrientes, incluindo bastante beta-caroteno.

Mas as culturas e os sistemas agrícolas indígenas foram substituídos por monoculturas dependentes de factores de produção químicos. Vegetais de folhas verdes foram eliminados com pesticidas, fertilizantes artificiais foram introduzidos e os peixes não puderam viver na água quimicamente contaminada resultante. Além disso, a diminuição do acesso à terra significou que muitas pessoas já não tinham quintais contendo vegetais de folhas verdes.

A cegueira nos países em desenvolvimento poderia ter sido erradicada há anos se apenas o dinheiro, a investigação e a publicidade investidos no Arroz Dourado ao longo dos últimos 20 anos tivessem sido canalizados para formas comprovadas de resolver a deficiência de vitamina A. Contudo, em vez de procurar soluções genuínas, o que temos visto é  uma atitude pró-OGM,  numa tentativa de encerrar o debate.

Tecnologia e desenvolvimento

Se a discussão até agora nos diz alguma coisa é que a tecnologia não é neutra. É desenvolvido e promovido por pessoas que pretendem consolidar o seu controlo sobre um sector e obter ganhos financeiros com a sua implementação.

Com demasiada frequência, os políticos, as empresas e os meios de comunicação social equiparam as novas tecnologias ao “progresso”. E aqueles que a questionam, como vemos no caso dos OGM, são chamados de luditas ou anti-ciência, a fim de impedir um debate adequado sobre as preocupações sociais, económicas e éticas da implementação de uma determinada tecnologia.

Veja a Revolução Verde, por exemplo. Não havia nada de progressista, inevitável ou neutro na sua tecnologia de sementes, produtos químicos e infra-estruturas relacionadas.

Apesar de ter sido implementado sob a bandeira do “progresso”, teve um desempenho inferior, foi explorador e teve impactos sociais, ecológicos e ambientais devastadores (ver os escritos de  Glenn Stone ,  Vandana Shiva  e  Bhaskar Save ). Serviu os interesses geopolíticos, financeiros e do agronegócio dos EUA e priorizou a expansão urbano-industrial em detrimento das comunidades rurais e de uma agricultura mais diversificada, saudável e suficiente em nutrientes.

Mas a Revolução Verde tornou-se parte integrante da agenda do “desenvolvimento”.

Em um artigo recente  no site Winter Oak, Paul Cudenec diz que “desenvolvimento”:

“… é a destruição da natureza, agora vista como um mero recurso a ser utilizado para o desenvolvimento ou como um espaço vazio e não desenvolvido no qual o desenvolvimento poderia, deveria e, em última análise, deveria ocorrer. É a destruição das comunidades humanas naturais, cuja auto-suficiência impede o avanço do desenvolvimento, e da cultura humana autêntica e dos valores tradicionais, que são incompatíveis com o dogma e o domínio do desenvolvimento.”

Cudenec argumenta que aqueles que estão por trás do “desenvolvimento” têm destruído tudo o que tem valor real no nosso mundo natural e nas nossas sociedades humanas na busca de riqueza e poder pessoal. Além disso, ocultaram este crime por trás de toda a retórica positiva associada ao desenvolvimento a todos os níveis.

Em nenhum lugar isso é mais aparente do que na Índia.

O Banco Mundial, a Organização Mundial do Comércio, o agronegócio global e o capital financeiro  estão trabalhando para corporatizar  o setor agrícola da Índia. Esta política e processo de “ajustamento estrutural” envolve a substituição do actual sistema de produção alimentar por uma agricultura contratual e um modelo industrial de agricultura e retalho alimentar que sirva os interesses acima mencionados.

O plano é deslocar o campesinato, criar um mercado fundiário e fundir propriedades fundiárias para formar explorações agrícolas maiores, mais adequadas aos investidores internacionais em terras e à agricultura industrial orientada para a exportação.

A exigência é que a Índia sacrifique os seus agricultores e a sua própria segurança alimentar em benefício de um punhado de multimilionários. Tudo isto é considerado “desenvolvimento”.

Envolve o Estado facilitando o enriquecimento de uma elite rica e privilegiando um certo modelo de desenvolvimento social e económico baseado na expansão urbana, no poder centralizado e na dependência das finanças globais, das empresas, dos mercados e das cadeias de abastecimento. Tudo legitimado sob as bandeiras da inovação, do progresso tecnológico e do “desenvolvimento”.

Existem outros caminhos que a humanidade pode seguir. O antropólogo Felix Padel e a pesquisadora Malvika Gupta  oferecem alguns insights  (com base em seu trabalho com as comunidades Adivasi da Índia) sobre como poderiam ser as soluções ou alternativas para o “desenvolvimento”:

“A democracia como política de consenso, em vez do modelo ocidental de democracia liberal que perpetua a divisão e a corrupção nos bastidores; troca de trabalho em vez da lógica implacável e anti-vida do “mercado”; a lei como reconciliação, em vez de julgamentos que dependem de honorários advocatícios exorbitantes e dividem as pessoas em vencedores e perdedores… e a aprendizagem como algo a ser partilhado, e não disputado.”

No entanto, vemos mais “desenvolvimento” a ser proposto: mais deslocamento da população rural e deslocação humana, mais desenvolvimentos mineiros, portuários e outros grandes desenvolvimentos de infra-estruturas e um maior fortalecimento dos interesses corporativos e dos seus projectos.

Embora muitos tenham uma visão diferente para o futuro, o interesse próprio e o consumismo sustentados pelo dogma económico neoliberal continuam a seduzir as massas a aceitarem a agenda de “desenvolvimento” prevalecente.

A agricultura industrial corporativa é parte integrante dessa agenda. Um modelo que se consolidou há meio século nas nações ocidentais e que resultou em alimentos deficientes em nutrientes, dietas mais restritas, uso massivo de agrotóxicos, alimentos contaminados por hormônios, esteróides, antibióticos e uma ampla gama de aditivos químicos, a erradicação de muitos pequenos agricultores, taxas crescentes de problemas de saúde, solo degradado e fontes de água contaminadas e esgotadas.

Isso é ‘progresso’? Bem, deixando de lado os interesses do agronegócio, talvez o mesmo aconteça com as muitas clínicas de saúde privadas que surgiram na Índia nos últimos anos.

A introdução dos OGM representa um reforço adicional da agenda de “desenvolvimento” prevalecente.

A decisão do Supremo Tribunal das Filipinas acusou as agências governamentais e aqueles que estão por trás da agenda do Arroz Dourado de falhas importantes. Isto é importante para a Índia, cujo Supremo Tribunal está prestes a decidir se deve ou não sancionar o cultivo comercial de mostarda geneticamente modificada. Seria a primeira cultura alimentar geneticamente modificada da Índia (da qual há muitas mais em preparação).

Será que o Supremo Tribunal da Índia ficará do lado da razão e acabará com a mostarda geneticamente modificada com base no facto de  não haver necessidade  de OGMs na agricultura indiana e na bem documentada  fraude e delinquência regulamentar  que tem rodeado esta questão há muitos anos?

Isso ainda está para ser visto.


color compass

Fonte: Sustainable Pulse

Associação dos Geógrafos Brasileiros-seção Porto Alegre emite nota que é uma “crônica de uma tragédia anunciada”

Crônica de uma tragédia anunciada: a política econômica neoliberal, os eventos climáticos e a destruição das condições essenciais da vida Rio Grande do Sul

Rio-Guiaba

Maio de 2024. Camponeses, quilombolas, indígenas, trabalhadoras, trabalhadores urbanos do Estado do Rio Grande do Sul vivem uma das experiências mais dolorosas da sua história. Seja no campo seja na cidade, uma destruição imediata das condições básicas da vida promovida historicamente pela ação política e social que privilegia os interesses econômicos em detrimento da vida. Foram atingidas quase um milhão de pessoas que vivem na área mais populosa do Estado do Rio Grande do Sul, especialmente nos Vales dos Rios Taquari, Caí, Pardo, Jacuí, Sinos, Gravataí, Guaíba e avança para o sistema da Laguna dos Patos, ao que tudo indica em todas as bacias foi superado o nível de água da cheia histórica de 1941.

O nível do rio Guaíba chegou a 5,35 metros superando os 4,76 metros da cheia histórica de 1941, com uma diferença de 59 centímetros de extensão em Porto Alegre. As fotos, os mapas e os relatos são avassaladores no Estado do Rio Grande do Sul, promove-se na mídia um debate que oscila entre o entendimento naturalizante e um entendimento político sobre o processo histórico de ocupação e a formação territorial do Rio grande do Sul, o evento climático e seus desdobramentos.

IPH amplia informações em mapa de inundação de Porto Alegre — UFRGS |  Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Não podemos aceitar a leitura simplista e midiática de que a cidade de Porto Alegre por ter sido construída na beira do Rio Guaíba e produzida a partir de um engenhoso sistema de aterro urbano, certamente será sempre afetada pelas cheias, portanto “é a natureza apenas procurando o que é seu”, basta apenas melhorar o sistema de contenção do Rio Guaíba.

Há uma outra leitura possível, a de que ainda que haja a contraditória ocupação urbana nas áreas planas da planície de inundação do Guaíba e um sistema de contenção do avanço das águas na cidade, é evidente as falhas do sistema de contenção; avolumam-se os regimes de chuvas; identificam-se alterações significativas que apontam para a mudança global do clima e intensificam-se processos de ocupação no urbano e no rural que aprofundam a destruição ambiental, a impermeabilização do solo e por fim, que a ausência de uma estrutura técnica e política do Estado para combater os eventos climáticos e a opção pela o desenvolvimento do capitalismo e consolidação das políticas neoliberais deve ser responsabilizada pela magnitude da tragédia.

É preciso enunciar, de modo sucinto, como chegamos até esse momento: uma formação territorial do Estado do Rio Grande do Sul promovida pelo Estado Nação desde o período Imperial fundamentada na exploração madereira, expropriação e genocídio dos povos indígenas, migração subsidiada para a exploração do trabalho camponês, grilagem e apossamento das terras públicas; instituição do poder político oligárquico; estruturação dos órgãos estatais aliançados aos interesses do capital nacional e internacional; desestruturação dos órgãos e instituições do Estado fortemente realizada nos anos 2000 e o aprofundamento do projeto neolioberal de Estado. Nenhuma novidade sobre a história do Brasil, pois esse é o processo compartilhado na escala nacional.

Durante os anos 1990 e começos dos anos 2000 o Estado do Rio Grande do Sul e a Cidade de Porto Alegre viveram períodos importantes no processo democrático estabelecendo estruturalmente políticas sociais, gestão participativa do Estado e fortalecimento de instituições de planejamento e pesquisa no Rio Grande do Sul, estas experiências e estruturas alteraram a vida social no Estado, mas não foram o suficiente para uma mudança estrutural das políticas de Estado aliançadas ao poder econômico e pereceram pelo desmonte neoliberal.

A formação de colegiados, conselhos e comitês estruturam uma política de Estado interessante com muito trabalho realizado e acumulado ao longo de pelo menos 30 anos no Rio Grande do Sul. Lemos nesta última semana entrevistas, reportagens, posts nas redes sociais, lives e manifestações de gestores públicos técnicos, pesquisadores, professores universitários, políticos do campo progressista e da esquerda evidenciado todo esse trabalho e as possibilidades produzidas por este trabalho, todas elas negligenciadas.

Historicamente a pesquisa e a extensão universitária pelas diferentes universidades gaúchas desenvolveram inúmeros relatórios técnicos sobre as condições climáticas, as previsões de alagamentos e enchentes, o alcance dos desdobramentos desses eventos, é um trabalho acumulado, disponível ao poder público e à ação social.

O acúmulo do trabalho científico tem sido largamente evidenciado e publicizado no que diz respeito às informações e leituras básicas para que a gestão pública elabore sua ação antes mesmo dessa tragédia.

Há mapas e pesquisas que mostram há muito tempo a evolução do alcance das cheias na cidade de Porto Alegre; há inúmeros recursos que permitem o acompanhamento da evolução dos níveis de água; inúmeros relatórios técnicos e científicos que evidenciam a alterações do clima, planos e projetos junto à defesa civil que ainda não saíram dos estágios iniciais por falta de recursos; trabalhos de pesquisa que apontam para a emergência de realização da política nacional da assistência social que se tornou explícito com o advento da Pandemia da COVID-19; a geografia tem produzido trabalhos sobre a desestruturação ambiental, desmatamento, os processos de grilagem de terras, especulação imobiliária, a luta pela terra, a luta pelo território, a luta pela moradia, uma gama imensa de questões ambientais e sociais articuladas e aprofundadas. Em síntese, múltiplas ações sociais e trabalhos de pesquisa, teses, dissertações de mestrado e trabalhos de graduação têm sido desenvolvido pelo menos há mais de vinte anos com a participação social ampliada pelo acesso à universidade e aos projetos de extensão universitária.

O processo de transformação de florestas em áreas agrícolas da monocultura, a implantação de grandes projetos de exploração dos recursos naturais; a impermeabilização do solo; o desmatamento estrutural; a ampliação do uso de agrotóxicos e a ocupação promovida pela expropriação e valorização do espaço são a base material da alteração ambiental. Há uma diminuição temporal e uma intensificação nos eventos climáticos, discutido amplamente pela comunidade científica em articulação com o aquecimento global e a alteração climática na escala mundial. Tais eventos no Estado do Rio Grande do Sul sucedem de modo cada vez mais acelerado especialmente na última década, aliado ao aumento do desmatamento e as taxas de construção, seja de prédios, seja de barragens, seja dos plantios intensivos.

Pampa desmatamentoPampa é o bioma que mais perde vegetação nativa no Brasil, alerta MapBiomas

Todo esse volume de trabalhos indicam que a opção política materializa no poder legislativo que legisla a favor da burguesia nacional e internacional legalizando práticas criminosas inconstitucionais em lei; aloca (e desvia) recursos públicos para projetos econômicos voltados ao desenvolvimento do grande Capital no Brasil e toma decisões políticas de Estado que privilegiam os interesses econômicos.

Assim, para ficar apenas nos últimos dez anos, o Governo do Estado do Rio Grande do Sul tem trabalhado fortemente para a consolidação do neoliberalismo no Brasil: flexibilizou em mais de 500 pontos o código ambiental e regulamentou essa flexibilização por meio de inúmeros decretos; autorizou a construção de grande edificações em áreas de proteção permanente; desestruturou e ignorou todas as estruturas democráticas de gestão participativa (comitês de bacias hidrográficas, conselhos de cidades, entre outros) que permitiu a aprovação e consolidação de planos de ordenamento territorial que subsidiaram a especulação imobiliária e o avanço da grilagem e apossamento de terras públicas e territórios de povos e comunidades tradicionais; permitiu a construção de barragens, aprovou projetos de exploração de energia eólica, instalação de linhas de transmissão e muitos empreendimentos que atingem povos e comunidades tradicionais sem a realização de audiências públicas e processos de consulta previstos pelos acordos internacionais e normalizados pelo Estado Brasileiro; susbisidou a ampliação do plantio de soja que avança a passos largos sobre os campos de cima da serra e o litoral; tem promovido o arrendamento me terras indígenas e o avanço do plantio de soja sobre elas alimentando conflitos internos e a violência no campo gaúcho; negligenciou a política agrícola para o campesinato gaúcho que sofre desde 2015, ano a ano os impactos das fortes chuvas e da movimentação de ciclones na região. Sem falar na ausência de qualquer debate sobre Reforma Agrária, a obstrução dos processos de demarcação de terras indígenas e quilombolas a partir do aparato dos poderes municipais articulado às oligarquias locais no campo e aos especuladores da cidade, culminando inclusive na perseguição política aos diversos sujeitos sociais envolvidos nos processos e todas as formas de violência que se desdobram em mortes e destruição das ocupações, assentamentos e retomadas.

Abril Vermelho: MST no RS realiza vigília no pátio do Incra, em Porto  Alegre - MSTOcupação do INCRA no Rio Grande do Sul. Foto: Maiara Rauber

O trabalho político do Estado é carimbado pelo aumento dos conflitos no campo gaúcho, e, enfim, pela tragédia que acomete as bacias com o maior contingente populacional do Estado. As veias do Rio Grande Sul estouraram, e já há muito tempo que os diagnósticos são precisos e unânimes em dizer que é preciso uma mudança estrutural. Essa é a explicação concreta para compreender que essa tragédia que não só é anunciada, mas se repetirá se não houver uma ação incisiva do poder público e da pressão social, é preciso com urgência fortalecer os movimentos sociais.

É preciso dizer que nas inúmeras ações de resgate, de acolhimento nos abrigos, nas avaliações das condições das escolas e buscas ativas dos alunos (desta vez para saber se estão vivos e com moradia), na organização da mobilidade das pessoas resgatadas para rumos diversos, foi a força das comunidades, o trabalho coletivo que comandou a ação política. A necessidade tem produzido um conhecimento técnico e social impressionante, com base no conhecimento das pessoas que vivem e estão sendo mais uma vez expropriadas de seus lugares.

Para nós, geógrafes, geógrafas e geógrafos ficou evidente a centralidade da geografia, dos conteúdos do território, da apropriação do espaço, da compreensão das estratégias da produção do espaço, da relevância da cartografia e de todo o instrumental técnico científico produzido pelo conhecimento geográfico. É seminal nosso trabalho científico e sobretudo político, não há conhecimento que se enraíze na realidade se não estiver comprometido politicamente e assuma sua postura social.

Cozinhas solidárias de movimentos populares distribuem marmitas aos atingidos pelas enchentes no RS; veja como colaborar 

A força das comunidades e da solidariedade é presente, vieram de muitos cantos do Rio Grande do Sul pescadoras(es), remadoras (es), professoras(es), assistentes sociais, médicas (os), enfermeiras (os), psicólogas (os), enfim diferentes profissionais que tem realizado o trabalho de ação e coordenação das ações emergenciais e sabemos que também seremos convocados pela realidade para seguir trabalhando para superar essa tragédia anunciada. A solidariedade é fundamental, mas não é suficiente, o poder público precisa urgentemente fazer seu trabalho e instituir condições estruturais e estruturantes de superação dessa condição de destruição.

O que está acontecendo no Rio Grande do Sul (e se agrava em outras regiões do Estado) e no mês de março no Estado do Acre, que foi atingido praticamente em sua totalidade, é a tragédia anunciada e já vivida em diferentes pontos do Brasil. Não são desastres pontuais ligados de modo circunstancial ao aumento esporádico do regime de chuvas, ao estouro de uma barragem, de uma enchente, de um deslizamento, a destruição das condições da vida e da vida de milhares de pessoas no país nestes eventos climáticos é um projeto político e é um projeto criminoso. É fundamental que o Brasil inicie de fato um processo de responsabilização histórica e política de seus criminosos, não podemos ficar à mercê do jogo eleitoral que se intensifica em 2024.

Ao poder público cabe de modo evidente e já anunciado barrar as sucessivas reformas no campo legislativo, no estabelecimento de uma política ambiental e social nas diferentes escalas: recuperação de áreas degradadas, demarcação de territórios indígenas e quilombolas, estabelecimento de uma política fundiária fundamentada na Reforma Agrária.

A nós, a força crítica que pulsa pela vida cabe fortalecer as lutas sociais para além das ações imediatas de solidariedade, é tarefa nossa estruturar uma política de enfrentamento e proposição radical de um processo não de reconstrução do estado das coisas, mas de produção de um outro modo de morar, de estabelecer as bases legais que estabeleça a relação entre o ambiente, o trabalho e a vida.

Recebemos nos últimos dias o apoio de associados de diferentes seções locais da AGB e de Seções Locais da AGB pelo Brasil, agradecemos imensamente a Diretoria Executiva Nacional e a AGB São Paulo junto a toda a organização do VIII Congresso Brasileiro de Geografia por prorrogar os prazos de envio de trabalhos.

Para trilhar esse caminho, a AGB Porto Alegre promoverá uma mobilização de arrecadação emergencial e convida a comunidade geográfica para avaliar e discutir as ações para enfrentamento desse momento histórico que vive o Rio Grande do Sul, mas também o Brasil. Em breve anunciaremos estas ações.

Nossa força coletiva é o que seguirá nos colocando em movimento!

 Porto Alegre, 08 de Maio de um Outono chuvoso que desastrosamente lavou a produção capitalista do espaço carregando consigo vidas inteiras. Viveremos por muito tempo o luto e a luta. Vamos precisar de todo mundo! Que possamos juntos semear a esperança, e produzir coletivamente um campo e a cidade solidária e comunal

Associação dos Geógrafos Brasileiros, seção Porto Alegre

Eventos extremos serão cada vez mais comuns e exigem medidas urgentes

Em coletiva na Câmara dos Deputados, diretora adjunta de Políticas Públicas do IPAM diz que adaptação aos efeitos das mudanças climáticas passa pela implementação estratégica de leis e reorganização territorial e urbana.  

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Enchente do Rio Taquari na cidade de Lajeado (RS). Foto: marcelocaumors/Instagram

Eventos climáticos extremos como as chuvas catastróficas que paralisaram o Rio Grande do Sul serão cada vez mais frequentes e exigem uma atuação enfática para seu enfrentamento, alertou Gabriela Savian, diretora adjunta de Políticas Públicas do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), durante coletiva convocada pela Frente Parlamentar Mista Ambientalista. O evento foi convocado em vista da das chuvas intensas no Rio Grande do Sul, que já deixam 95 mortos, mais de 207 mil desabrigados e afeta 80% das cidades do Estado. 

“Infelizmente, eventos extremos como estes serão cada vez mais recorrentes e exigem medidas urgentes de combate ao aquecimento global. As chuvas já afetaram rios de todo o estado, impactando milhares de pessoas. O desmatamento deve ser controlado e a ciência deve ser levada em consideração para a tomada de decisão nos planos de ação emergenciais decorrentes da urgência no atendimento da catástrofe do Rio Grande do Sul e demais estados, como o que vimos recentemente nos estados da Amazônia”, destacou.

Durante o encontro, foram apresentados documentos com medidas para avançar o pacote de legislações consideradas fundamentais para o combate às mudanças climáticas. Entre as propostas destacadas estão a implementação estratégica do Código Florestal, a destinação de florestas públicas na Amazônia, a recuperação de áreas degradadas e a proteção de áreas não-florestais, como o Pampa e Cerrado.

“Temos hoje mais de 16 milhões de hectares de passivos de Reserva Legal no Brasil que precisam ser recuperados e um montante muito maior de quase 200 milhões de hectares de excedente de florestas em áreas privadas que precisam ser preservadas. Estas áreas cumprem papel importante nos serviços ecossistêmicos imprescindíveis para a resiliência dos ecossistemas”, alertou Gabriela.

Código Florestal 

Ambientalistas e membros da sociedade civil presentes na coletiva também destacaram a importância de um acompanhamento da implementação do Código Florestal e a mobilização contra a flexibilização de leis ambientais.

“O que a gente tem acompanhado na Câmara e no Senado nos últimos meses é um movimento para flexibilizar a legislação ambiental, quando sabemos que o foco deve ser no fortalecimento da lei. O Rio Grande do Sul, por exemplo, não possui um Programa de Regularização Ambiental regulamentado. Isso significa que o Estado está atrasado na recuperação de seus passivos ambientais, na conservação da sua biodiversidade e seus recursos naturais”, destaca Jarlene Gomes, pesquisadora do IPAM.

O Rio Grande do Sul possui atualmente cerca de 255 mil hectares que deveriam estar preservados em áreas de Reserva Legal, mas que se encontram desprotegidos. Os dados são do Termômetro do Código Florestal, iniciativa do OCF (Observatório do Código Florestal), desenvolvida pelo IPAM e parceiros.

Impacto econômico 

Além dos crescentes impactos sociais e ambientais, ambientalistas também destacam o prejuízo econômico causado por eventos climáticos extremos. No Brasil, grande produtor agrícola, o aumento das temperaturas está diretamente ligado à quebra de safras, morte de gado e queda na produtividade agropecuária. Atualmente, 30% das fazendas na fronteira agrícola Amazônia-Cerrado, no Mato Grosso, Goiás e Matopiba, já estão fora do ideal climático para a agricultura por conta das alterações no clima.

“Uma coisa extremamente importante é que a Câmara dos Deputados possa levar para todos os rincões do Brasil o debate da adaptação às mudanças climáticas. Teremos eleições municipais no meio do ano e isso precisa ser debatido porque vivemos em um país em que 56% dos municípios não têm nenhum tipo de ação climática e apenas 1,8% monitoram a efetividade de suas leis ambientais. Essa crise afeta os mais pobres e vulneráveis primeiro, mas já afeta também as elites, afeta a nossa produção industrial e agropecuária”, alerta Marcos Woortmann, coordenador de políticas ambientais do IDS (Instituto de Desenvolvimento Socioambiental), que compõe a Virada Parlamentar Sustentável.

Os principais cientistas climáticos do mundo esperam que o aquecimento global ultrapasse a meta de 1,5°C

O planeta caminha para pelo menos 2,5°C de aquecimento com resultados desastrosos para a humanidade, descobriu uma pesquisa com centenas de cientistas

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A crise climática já está  causando danos profundos a vidas e meios de subsistência em todo o mundo. Ilustração: Guardian Design/Halil Kahraman

Por Damian Carrington para o “The Guardian”

Centenas dos principais cientistas climáticos do mundo esperam que as temperaturas globais subam para pelo menos 2,5°C neste século, ultrapassando as metas acordadas internacionalmente e causando consequências catastróficas para a humanidade e para o planeta, revelou uma pesquisa exclusiva do The Guardian.

Quase 80% dos inquiridos, todos do conceituado Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC), prevêem pelo menos 2,5°C de aquecimento global acima dos níveis pré-industriais, enquanto quase metade prevê pelo menos 3°C. Apenas 6% consideram que o limite de 1,5°C  acordado internacionalmente será cumprido.

Muitos dos cientistas prevêem um futuro “semi-distópico”, com fomes, conflitos e migrações em massa, impulsionados por ondas de calor, incêndios florestais, inundações e tempestades com uma intensidade e frequência muito superiores às que já ocorreram.

Numerosos especialistas afirmaram que se sentiram desesperados, enfurecidos e assustados com o fracasso dos governos em agir, apesar das claras evidências científicas fornecidas.

“Penso que estamos caminhando para uma grande perturbação social nos próximos cinco anos”, disse Gretta Pecl, da Universidade da Tasmânia. “[As autoridades] ficarão sobrecarregadas com evento extremo após evento extremo, a produção de alimentos será interrompida. Eu não poderia sentir maior desespero em relação ao futuro.”

Quão alto irá o aquecimento global? Quão acima dos níveis pré-industriais você acha que a temperatura média global aumentará entre agora e 2100? Contagem de respostas dadas por especialistas em clima do IPCC

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Mas muitos disseram que a luta climática deve continuar, por mais elevada que seja a temperatura global, porque cada fração de grau evitada reduziria o sofrimento humano.

Peter Cox, da Universidade de Exeter, no Reino Unido, afirmou: “As alterações climáticas não se tornarão repentinamente perigosas a 1,5ºC – já o são. E não será um ‘fim de jogo’ se passarmos de 2ºC, o que podemos muito bem fazer.”

O The Guardian abordou todos os principais autores ou editores de revisão contatáveis ​​dos relatórios do IPCC desde 2018. Quase metade respondeu, 380 de 843. Os relatórios do IPCC são as avaliações padrão-ouro das alterações climáticas, aprovadas por todos os governos e produzidas por especialistas em ciências físicas e sociais. Os resultados mostram que muitas das pessoas mais bem informadas do planeta esperam que a destruição climática se desenvolva nas próximas décadas.

A crise climática já está causando danos profundos a vidas e meios de subsistência em todo o mundo, com apenas 1,2ºC  de aquecimento global, em média, nos últimos quatro anos. Jesse Keenan, da Universidade de Tulane, nos EUA, disse: “Este é apenas o começo: apertem os cintos”.

Nathalie Hilmi, do Centro Científico de Mônaco, que espera um aumento de 3ºC, concordou: “Não podemos ficar abaixo de 1,5ºC”.

Os especialistas afirmaram que os preparativos massivos para proteger as pessoas dos piores desastres climáticos que se avizinham são agora críticos. Letícia Cotrim da Cunha, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, disse: “Estou extremamente preocupada com os custos em vidas humanas”.

A meta de 1,5ºC foi escolhida para prevenir o pior da crise climática e tem sido vista como uma importante estrela orientadora para as negociações internacionais. As actuais políticas climáticas significam que o mundo está no caminho certo para cerca de 2,7ºC , e o inquérito do The Guardian mostra que poucos especialistas do IPCC esperam que o mundo tome as medidas necessárias para reduzir esse valor.

Os cientistas mais jovens foram mais pessimistas, com 52% dos entrevistados com menos de 50 anos esperando um aumento de pelo menos 3°C, em comparação com 38% daqueles com mais de 50 anos. As mulheres cientistas também foram mais pessimistas do que os homens, com 49% pensando que a temperatura global aumentaria pelo menos 3°C, em comparação com 38%. Houve pouca diferença entre cientistas de diferentes continentes.

Dipak Dasgupta, do Instituto de Energia e Recursos de Nova Deli, afirmou: “Se o mundo, inacreditavelmente rico como é, ficar parado e fizer pouco para resolver a situação dos pobres, acabaremos todos por perder.”

Os especialistas foram claros sobre a razão pela qual o mundo não está conseguindo enfrentar a crise climática. A falta de vontade política foi citada por quase três quartos dos inquiridos, enquanto 60% também culparam interesses empresariais instalados, como a indústria dos combustíveis fósseis.

Muitos também mencionaram a desigualdade e o fracasso do mundo rico em ajudar os pobres, que sofrem mais com os impactos climáticos. “Espero um futuro semi-distópico com dor e sofrimento substanciais para as pessoas do Sul global”, disse um cientista sul-africano, que optou por não ser identificado. “A resposta do mundo até à data é repreensível – vivemos numa época de tolos.”

Cerca de um quarto dos especialistas do IPCC que responderam pensam que o aumento da temperatura global seria mantido em 2ºC ou menos, mas mesmo eles moderaram as suas esperanças.

“Estou convencido de que temos todas as soluções necessárias para um caminho de 1,5°C e que as implementaremos nos próximos 20 anos”, disse Henry Neufeldt, do Centro Climático de Copenhaga da ONU. “Mas temo que as nossas ações possam chegar tarde demais e cruzarmos um ou vários pontos de inflexão .”

Lisa Schipper, da Universidade de Bonn, na Alemanha, disse: “A minha única fonte de esperança é o fato de, como educadora, poder ver a próxima geração a ser tão inteligente e a compreender a política.”


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Fonte: The Guardian

Entrevista sobre a catástrofe climática no RS no metacast “Subversiva”

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Ontem tive a oportunidade de participar do  metacast “Subversiva” que é produzido pela jornalista Marina Valente a partir de Fortaleza, capital do Ceará.  O tema da entrevista/conversa foi a catástrofe climática que se abate neste momento sobre o estado do Rio Grande do Sul. 

Ao longo da entrevista, pudemos conversar não apenas sobre os mecanismos climáticos que explicam a ocorrência de chuvas extremas, mas também dos problemas que causam a falta de respostas mais efetivas aos problemas que esses eventos disparam.

Coloco abaixo a entrevista para quem desejar saber mais do que foi abordado ao longo de pouco de mais uma hora de conversa.