Portal Viu produz reportagem mostrando as dúvidas que persistem sobre incidente do tolueno na Baía da Guanabara

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Depois de um mês da tragédia ambiental no Sistema Imunana-Laranjal, que abastece os municípios de Niterói, São Gonçalo, Itaboraí, Maricá, Ilha de Paquetá e Rio de Janeiro, as autoridades governamentais, de proteção ao meio ambiente e a Polícia Civil ainda não descobriram quem foi o responsável pelo vazamento do solvente químico tolueno no manancial.

O desastre chegou a provocar a interrupção na captação de água pela Cedae no dia 3 de abril, após ser detectada altas concentrações da substância tóxica no sistema hídrico.

O Portal Viu produziu uma excelente reportagem sob a batuta da competente jornalista Cláudia Freitas que segue publicada abaixo.

A hegemonia política do agronegócio e o desmanche das leis ambientais transformaram o RS no epicentro da crise climática global

havan lajeado

Com a estátua da liverdade como testemunha, loja da rede Havan, construída na área de preservação permanente do Rio Taquari, é tomada pelas águas no município de Lajeado.

Não há quem assista às cenas das inundações causadas pelas intensas chuvas que se abatem no Rio Grande do Sul sem se chocar com a dimensão da catástrofe que se abate sobre centenas de municípios e milhões de gaúchos.  O maior problema é que esse evento climático extremo atual ainda deverá se estender por, pelo menos, mais uma semana com volumes de chuvas esperados na mesma escala do que já se assiste agora.

Para quem duvidava da ocorrência das mudanças climáticas com algum grau de sinceridade, bastará agora olhar para as cenas de devastação causadas pelas chuvas extremas para entender que vivemos um período em que a alteração da dinâmica atmosférica ainda causará muitas perdas de vidas, estruturas materiais e recursos naturais.  O pior é que toda essa situação já vem sendo alertada pela comunidade científica global, especialmente aqueles que estudam o clima. Para quem desejar entender como esses eventos extremos estão sendo criados, recomendo a leitura do livro “Angry Weather” da física e filósofa alemã Friederike Otto cujo grupo de pesquisas criou uma ferramenta para estimar como a clima afeta a ocorrência e a magnitude de eventos meteorológicos.

Mas se já se sabe o que está acontecendo com o clima da Terra e quais são as suas repercussões em termos das alterações das escalas de eventos meteorológicos, como pode ser possível que continuemos a parecer tão despreparados e facilmente surpreendidos quando algo como o que está acontecendo no Rio Grande do Sul neste momento?

As explicações para esse aparente despreparo não são assim tão difíceis de serem encontradas. No caso do Brasil como um todo, o que se vê é a inexistência objetiva de uma plataforma que guie ações governamentais e que estejam distribuídas no tempo e no espaço, abrangendo a participação das 3 esferas de governo (i.e., municipal, estadual e governamental). Até o momento, as análises sobre o grau de preparação para o necessário processo de adaptação climática mostram que o Brasil está muito atrasado na adoção de medidas básicas para ajustar a vida dos brasileiros ao “novo normal climático”.

A crise do RS é aprofundada pela hegemonia do (o)gronegócio bolsonarista

Uma coisa que não pode ser esquecida é que nas últimas décadas houve um avanço da agenda comandada pelo latifúndio agro-exportador no RS, o que foi agravado pela adesão dos grandes fazendeiros ao negacionismo climático, o que foi fortemente aprofundado durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro.

A hegemonia do (o) gronegócio também tem sido fortalecido no plano estadual por governos de natureza neoliberal que trataram de desmontar as estruturas que existiam para garantir a regulação ambiental no RS. Essa hegemonia também ficou ainda mais forte na Assembleia Legislativa gaúcha, onde a legislação ambiental foi enfraquecida em vários aspectos para facilitar ainda mais as atividades dos grandes produtores rurais. 

Um exemplo recente de desmanche da legislação ambiental foi a aprovação e sanção do projeto de lei 151/2023, que alterou o Código Estadual do Meio Ambiente para permitir, entre outras coisas, intervenções em Áreas de Preservação Permanente (APP) para fins de irrigação. Esse projeto foi facilmente aprovado na Assembleia Legislativa e rapidamente assinado pelo governador Eduardo Leite (PSDB), o mesmo que agora aparece para reclamar por mais apoio federal, especialmente em termos de recursos financeiros. E, pasmem, essa alteração foi sancionada no dia 9 de abril de 2024!

Há ainda que se falar que na esteira dessa hegemonia, os latifundiários gaúchos avançaram na destruição do bioma Pampa cujas áreas desmatadas, transformadas em monoculturas ou pastagens, estão agora sendo incapazes de cumprirem suas funções ecológicas, incluindo a capacidade de estocar águas das chuvas.

Assim, não há nada de natural na catástrofe que se abate sobre o RS, havendo responsáveis que podem ser facilmente identificados e responsabilizados. Aliás, quanto mais tempo se levar para que se faça o devido ajuste de contas, maiores continuarão a ser os impactos do tipo de evento climático extremo que se abate neste momento sobre a população gaúcha.

O RS como o epicentro da crise climática global

Oito meses depois, Muçum está embaixo d'água novamente; veja fotos | GZH

Para quem achava que a crise climática global ia dar suas caras em algum lugar bem longe do Brasil, sempre apresentado como “protegido por Deus e bonito por natureza”.  A verdade é que tudo indica, especialmente a partir das contribuições científicas do grupo de pesquisas liderado Friederike Otto, o nosso país será um dos epicentros da crise climática global, muito em função das grandes modificações que estão sendo causadas nos nossos biomas florestais por um latifúndio agro-exportador que não possui qualquer preocupação com a crise climática, cuja maioria de seus membros nega existir.

E dado o que vem acontecendo nos últimos anos, com alternância de secas e chuvas extremas, o RS se tornou o epicentro dentro do epicentro. É que no RS existem todos os elementos de sinergia que irão potencializar as repercussões desastrosas das mudanças climáticas. 

Somente uma mudança radical nas formas de gestão ambiental irão desacelerar a crise socioambiental que engole o RS neste momento.  Porém, antecipo que antes que algo possa começar a ser feito, há que se quebrar a hegemonia política do (o) ogronegócio e a remoção das políticas neoliberais que hoje tornam o meio ambiente uma presa fácil desse setor.

A miséria do tempo, no tempo da miséria

tempo de miseria

Por Douglas Barreto da Mata

O ano era 1989.

Zuleide sente o calor da luz do sol, que ilumina seu rosto pelas frestas e buracos do barraco onde vive na periferia de SP, mas que pode ser de qualquer outra periferia, é verdade.

A geografia da miséria não muda, e no Brasil, ela sabe, a cor também não.Zuleide tem 23 anos, mas parece ter 40.

Não é a preguiça e o cansaço que tornam o ato de despertar horrível, mas é o desalento, são 4 h e 30 min de manhã, suas três crianças dormem.

Às vezes ela olha, todos ali embolados em um espaço tão pequeno e precário, que parece que eles moram em uma caixa de papelão, ou um porta malas de um carro velho.

O sono era o único anestésico contra a fome que as crianças sentiam pela manhã, barriguinhas vazias desde a noite da véspera, nenhuma mistura para o jantar .

Luana, Jonathan e Miguel.

Do seu barraco até o Morumbi são 2 horas, entre trem, ônibus e metrô.

Ela prepara um café fraco, com muito açúcar e corta pedaços de pão velho que conseguiu trazer da casa da patroa. O almoço se resume a macarrão e salsicha, uma só, que sobrou. Ela corta bem picadinha a salsicha, para disfarçar a quantidade.

Corta para 1998.

Zuleide sente o calor da luz do sol, que ilumina seu rosto pelas frestas e buracos do barraco onde vive na periferia de SP, mas que pode ser de qualquer outra periferia, é verdade. A geografia da miséria não muda, e no Brasil, ela sabe, a cor também não.

Zuleide tem 32 anos, mas parece ter 65.


Um dos filhos, Miguel, o mais velho, está preso, em assalto à mão armada. É domingo. Ela não descansa, tem que ir ao CDP visitar o menino, levar comida, sabonete, etc. A menina e o menino, que ainda ficaram em casa, dormem. A menina tem 15 anos, está grávida, em breve, mais uma boca para Zuleide ter de alimentar. O garoto Jonathan parece que vai seguir rumo diferente do irmão, gosta da escola, e ela entristece e emudece toda vez que ele fala dos planos, de fazer uma faculdade, de ser alguém.

Zuleide sabe o peso da frustração, aliás, ela já sabe que frustração é o sobrenome do pobre.

Corta para 2024.

Zuleide sente o calor da luz do sol, que ilumina seu rosto pelas frestas e buracos do barraco onde vive na periferia de SP, mas que pode ser de qualquer outra periferia, é verdade.

A geografia da miséria não muda, e no Brasil, ela sabe, a cor também não. Zuleide tem 58 anos, mas parece ter 89. É dia de 1º de maio, e embora seja feriado, ela tem que ir ao São Luiz visitar o túmulo do filho, que depois de preso, foi solto, e morto pela polícia.

Miguel nasceu no dia do trabalhador, que ironia, pensava ela, ele detestava trabalhar, e lhe dizia:

“Ô mãe, trabalhá para limpá privada de patrão por um pôco, mais uma nada, dá não, minha rainha.”

As varizes parecem que vão explodir,e ela sente uma ardência implacável, como se não corresse sangue nas veias estufadas de suas pernas, mas ácido.

Sua imagem no vidro da janela do ônibus lhe mostra a mesma roupa surrada de sempre. Não se lembra a última vez que comprou uma peça de roupa nova, as que tem, ganhou de doação.

Cabelos brancos, nunca pode pintar as unhas carcomidas pelas micoses, de tanto lavar louça, banheiro, enfim.Olhar para ela mesma lhe dava um nó na garganta tamanho, que sentia que ia sufocar.

Dava vontade de gritar para colocar aquele engasgo para fora, mas juntava saliva e engolia tudo, como sempre fez, como se empurrasse goela abaixo um elefante.

Pensava nos filhos.

A menina Luana tem três filhos, todos de pais diferentes, todos de pais ausentes, como o pai de Zuleide e de sua filha. Jonathan largou a escola, teve que procurar emprego. Tem dois filhos, e mora em Taubaté, se mudou. Ela quase não vê os netos. Parece que todos estão bem, o menino é bom, responsável, ganha 2 salários e meio por mês em um supermercado. A nora é manicure. Eles se viram como podem.

Zuleide se olha no espelho, suspira. Ela já acreditou em todas as promessas que podia, viu a situação melhorar um pouquinho com Lula em 2003 até 2011, depois com a Dilma. Depois tudo piorou muito mais, é verdade, porque a ajuda que vinha não deu para tirar ela dessa miséria, só acalmou um pouco as coisas. Ela não andou de avião. Não formou filho médico, e matutava: 

– Será que a culpa é minha?

Esses pensamentos corroíam sua mente, sua alma mesmo, tipo ideia fixa. Ela via as propagandas na TV, de gente feliz, das coisas que o governo diz, de tudo que é oportunidade, tudo muito diferente da sua vida.

– Será que não tentei o bastante?

Zuleide deixou flores no túmulo do filho. Regou as flores e a terra com suas lágrimas. Zuleide resolveu ir à festa no estacionamento do estádio do Corinthians, lá em Itaquera.

Ela queria ver de perto o presidente, seus assessores, para ter certeza que aquelas imagens da propaganda eram reais, e quem sabe pudesse até se divertir com os shows que iam acontecer.

Ela queria saber, afinal se a culpa era dela, que teimava em estragar com seu fracasso os planos maravilhosos que o governo Lula disse ter feito para ela. Esperava o metrô. Zuleide entendeu que não era culpa dela. Mas Zuleide entendeu que não havia lugar para gente como ela nesse mundo, não um lugar decente, só há miséria e desalento. Deu no Brasil Urgente:

Mulher se joga na linha do Metrô e morre.

Vida que segue.

EPA decide restringir fortemente o uso do Acefato por causa de suas características neurotóxicas

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Por Carey Gillamo para o “The New Lede”

Uma proposta dos reguladores dos EUA para proibir a maioria dos usos de um agrotóxico que atua como agente nervoso foi aplaudida esta semana pelos defensores da saúde, embora alguns tenham alertado que a proposta não vai suficientemente longe.

A proposta da Agência de Proteção Ambiental (EPA) tem como alvo o acefato , um inseticida amplamente utilizado, cujos resíduos foram encontrados em alimentos geralmente considerados saudáveis, como aipo, feijão verde e tomate. O produto químico também é encontrado na água potável.

A EPA disse que planeja acabar com todas as utilizações de acefato em alimentos porque determinou – após mais de 50 anos de utilização – que não pode ter a certeza de que “nenhum dano resultaria” da exposição ao acefato, particularmente no que se refere à sua presença na água potável.

O acefato faz parte de uma classe de agrotóxicos conhecidos como organofosforados, populares entre os agricultores dos EUA que os utilizam para combater pragas em seus campos. Mas os organofosforados têm sido associados a uma série de efeitos adversos para a saúde, especialmente em crianças, tais como redução do QI, perturbações do défice de atenção e perturbações do espectro do autismo . O acefato, há muito proibido na União Europeia, também tem sido associado ao câncer, entre outros problemas de saúde. 

“Estamos aplaudindo isso. Já deveria ter sido feito há muito tempo”, disse Patti Goldman, advogada da Earthjustice, uma das várias organizações de defesa da saúde e do meio ambiente que pressionaram a EPA durante anos para tomar medidas sobre o acefato e outros organofosforados. “Estamos realmente satisfeitos que a EPA esteja propondo proibir todos os usos de alimentos.”

EPA Proposes Relaxed Limits on Acephate, a Toxic Pesticide — ProPublica

A Earthjustice, juntamente com vários outros grupos de saúde, direitos civis, trabalhadores agrícolas e grupos de dificuldades de aprendizagem, apresentaram uma petição em 2011 apelando à EPA para proibir todos os organofosforados. 

A ação da EPA ocorreu no final do mês passado, coincidindo com um relatório da ProPublica , que revelou como a agência justificou no passado o aumento da quantidade de acefato permitida nos alimentos, removendo as margens de segurança exigidas pela lei federal para proteger as crianças dos resíduos de pesticidas. em suas dietas.

A nova proposta da EPA reitera essa posição, dizendo que ao usar “ novos métodos de abordagem ” para a toxicidade do desenvolvimento neurológico (DNT NAMs), houve pouco apoio científico para adicionar essas proteções para crianças.

No entanto, a EPA disse que as suas avaliações mostram que os usos atuais do acefato apresentam riscos dietéticos e agregados que são “inconsistentes” com os padrões de segurança.   

O acefato não será totalmente banido pela proposta da EPA. A agência disse que ainda permitiria certas aplicações na silvicultura, em plantações de árvores, pomares de sementes e outros usos não alimentares semelhantes, embora reconhecesse na sua proposta que o acefato representa um risco “altamente tóxico” para as abelhas produtoras de mel, que são fundamentais polinizadores de importantes culturas alimentares.

Não há garantia de que a EPA não alterará alguns aspectos da sua proposta após feedback público. A agência afirma especificamente que deseja a opinião pública sobre propostas de “mitigação alternativa” que “podem permitir certos usos registrados de acefato…”

Espera-se uma forte oposição da indústria, especialmente por parte da indústria cotonicultora. Os produtores de algodão consideram o acefato uma “espinha dorsal crítica” para a indústria.

A agência disse que receberá comentários públicos sobre seu plano por 60 dias.

A abertura da agência para considerar estratégias de mitigação é uma preocupação para os defensores da saúde e do ambiente, que salientam que mesmo que todas as utilizações alimentares fossem imediatamente proibidas, isso não eliminaria necessariamente rapidamente os resíduos nos alimentos e na água. 

A EPA já havia cancelado a aprovação do acefato para uso em feijão verde em 2011, mas o produto químico ainda foi encontrado em amostras de feijão verde nos testes mais recentes divulgados publicamente e feitos pelo Departamento de Agricultura dos EUA mais de uma década depois, de acordo com “relatório de resíduos de agrotóxicos de 2022 do USDA” .

Na sua proposta, a EPA afirmou que “caso haja usos alimentares que possam ser reconsiderados após o período de comentários”, ela apresentou tolerâncias “antecipadas” para o que poderiam ser novos níveis legalmente permitidos de acefato em certas culturas alimentares, incluindo Couves de Bruxelas e legumes. A EPA inclui tolerâncias para resíduos de metamidofós, um metabólito do acefato que é considerado pela EPA um dos agrotóxicos organofosforados mais tóxicos.

As tolerâncias ao metamidofos seriam muito superiores às consideradas seguras para as crianças, segundo Chuck Benbrook, especialista em resíduos de pesticidas agrícolas.

“É realmente difícil entender o que a EPA está pensando”, disse Benbrook. “A EPA tem de reconhecer que, em algum momento, terá de fechar a porta aos antigos produtos químicos de alto risco.”

Goldman, da Earthjustice, concordou que há preocupações com a proposta da EPA e disse que o grupo delinearia essas preocupações em seus comentários públicos à agência. A saúde dos trabalhadores rurais é uma preocupação fundamental, pois eles estão em maior risco, disse ela. 

Embora a medida da EPA seja um passo sólido em direção a uma maior protecção da saúde pública, a agência precisa de trabalhar mais rapidamente para proteger as pessoas de todos os organofosforados, disse Teresa Romero, presidente dos Trabalhadores Agrícolas Unidos, num comunicado. 

“A EPA deve proibir todos os organofosforados”, disse Romero. “Ao permitir o uso extensivo de agrotóxicos neurotóxicos ligados a graves problemas de saúde, a EPA não está cumprindo o seu dever.”


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Fonte: The New Lede

Os prejuízos causados pelo acidente do tolueno continuam, concluem lideranças de pescadores após reunião na sede do IBAMA/RJ

Foto de Marcos Pedlowski

Após uma reunião realizada na sede do IBAMA no centro do Rio de Janeiro no último dia 29, que durou mais de 4 horas, tendo contado com a presença de dirigentes de órgãos governamentais e lideranças dos pescadores da Baía da Guanabara, a principal conclusão é que o incidente envolvendo o derramamento de tolueno que começou a ocorrer no início de abril, de fato, ainda não terminou.

Segundo lideranças presentes no evento, há ainda grandes incertezas até sobre o ponto original de onde o material estaria vazando, com dúvidas chegando ao montante de tolueno e de outros Hidrocarbonetos Policíclicos Aromáticos (HPAs) que efetivamente foi derramado por uma empresa (ou empresas) também ainda indeterminada (s).

Foto de Marcos Pedlowski (1)

Após as explicações de técnicos do INEA e do IBAMA, bem como de pesquisadores da PUC-RJ, a única certeza parece ser que o montante que vazou é maior do que originalmente estimado e de que parte significativa continua estocada próximo do ponto original de vazamento que, lembremos , fica muito próximo do ponto de captação de água do chamado sistema Imunana-Laranjal.

Como resultado dos debates que ocorreram foram tomadas uma série de decisões. Duas delas envolvem uma nota ida à área do derrame de tolueno para a realização de um processo de inspeção que deverá contar com a presença de entidades representativas dos pescadores da região da Baía da Guanabara. Além disso, um pedido será feito para que a Polícia Federal realize um processo próprio de investigação, na medida em que até o momento as apurações feitas pela Polícia Civil do Rio de Janeiro foram inconclusivas.

Foto de Marcos Pedlowski (2)

A Petrobras estaria agindo para manter o incidente em modo “sigiloso”

Uma impressão que ficou marcada para as lideranças dos pescadores, a partir de depoimentos feitos na audiência, é de que a Petrobras estaria agindo junto à imprensa, a Assembleia Legislativa, e mesmo dentro de universidades para manter o incidente ocorrido, muito provavelmente no interior do Comperj, sob uma capa de extremo sigilo.  

A questão crucial para explicar esse comportamento seria o fato de que o ponto de vazamento estaria localizado dentro do Comperj, o que aumentaria as responsabilidades civis e econômicas da Petrobras, pois os danos ao meio ambiente e à população de diversos municípios que está sendo afetada pelo derramamento de tolueno e outros HPAs já estariam evidentes.

Um aspecto que preocupou muito as lideranças dos pescadores foi de que não apenas o tolueno, mas os peixes mortos que estão aparecendo em grandes quantidades na região próximo do vazamento estão sendo coletados e removidos para local ignorado, o que causa uma forte preocupação sobre o ponto de descarte desses materiais.

A água coletada no sistema Laranjal continua contaminada por tolueno

Uma informação que foi transmitida na reunião é de que há forte possibilidade de que a água sendo coletada no sistema Laranjal continua contaminada por tolueno, dadas todas as evidências que apontam para a continuidade do processo de vazamento que começou no início de abri. Para acalmar as lideranças dos pescadores foi dada a informação de que os níveis de tolueno estariam dentro dos limites máximo tolerados pela legislação.

O problema aqui se refere ao fato de que até o momento as análises realizadas parecem não estar sendo feitas nno ponto original de vazamento, e, mesmo assim, o tolueno e outros HPAs continuam sendo encontradas nas amostras de água que estão sendo coletadas.

Um possível agravante é o fato da contaminação também ter alcançado o lençol freático, o que implicaria não contaminação de poços cavados pela população que não possui acesso à rede de distribuição ou que procura minimizar os altos custos causados pelas caras tarifas cobradas pelas concessionárias.

Em suma, a situação envolvendo o uso da água do sistema Laranjal não está resolvida e não é trivial, o que demanda a realização de mais amostragens que cheguem não apenas ao ponto original de vazamento, mas também da identificação e responsabilização dos culpados.

Quando a Alerj vai entrar em ação?

Uma das perguntas que os pescadores que estiveram presentes na reunião se refere ao fato de que este incidente é de tamanha proporção que uma audiência pública na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), já deveria ter ocorrido tão logo se teve notícia do vazamento de tolueno. 

Entretanto, até agora isso não ocorreu. Mas após a reunião do IBAMA, os pescadores agora esperam que isso ocorra de forma rápida, mesmo porque o problema continua ocorrendo e afetando não apenas as atividades de pesca, mas principalmente a qualidade da água que centenas de milhares de pessoas estão consumindo neste momento.  

A expectativa dessa ação na Alerj ficou mais próxima com uma fala do Coordenador da Comissão de Defesa do Meio Ambiente da Alerj, Gerhard Sardo, que indicou que levará a proposta para a realização de uma audiência pública para os demais membros da comissão.

Para uma liderança que eu ouvi, o problema vai muito além dos pescadores que, apesar de estarem tendo grandes perdas nas suas atividades, se preocupam com a saúde da população da região servida pelo sistema Imunana-Laranjal.

Revolta estudantil contra a guerra em Gaza agita principais universidades dos EUA, enquanto no Brasil persiste um silêncio sepulcral

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Estudantes da Harvard University pressionam pelo fim das relações da instituição com empresas ligada e fundos de investimentos ligados a Israel

Nas últimas semanas vem ocorrendo uma espetacular onda de ações estudantis nas principais universidades dos EUA contra a guerra promovida por Israel contra os palestinos na Faixa de Gaza. Tendo começado na Columbia University, essa revolta já alcançou 40 universidades, incluindo algumas bastante importantes como a Harvard University, a Yale University e a UCLA.

A principal demanda dos estudantes estadunidenses envolve a interrupção de investimentos das universidades em empresas ou fundos de investimento que tenham ligações com o estado de Israel. A alegação é que ao investir em empresas e fundos financeiros que estejam envolvidos no aporte de armas e dinheiro para apoiar a guerra promovida contra os palestinos em Gaza, as universidades se tornam parceiras do genocídio que está em curso na Palestina.

Uma primeira universidade que já se curvou às pressões estudantis foi a Brown University que é universidade privada de pesquisa da tradicional Ivy League, e que fica localizada na cidade Providence, estado de Rhode Island. Fundada em 1764, a Brown University é a sétima instituição de ensino superior mais antiga dos EUA. Após um forte movimento de ocupação dentro do seu campus,  o Conselho Corporativo da Brown University informou que votará uma proposta de desinvestimento nos interesses israelenses como forma de aplacar as demandas estudantis.

Mas a reação da maioria das reitorias, sob pressão dos Democratas e dos Republicanos, está sendo convocar forças policiais para agirem de forma violenta para remover acampamentos e estudantes do interior das universidades. No caso da Columbia University, epicentro da revolta, a reitoria decidiu suspender as aulas presenciais, além de punir com suspensão estudantes considerados como envolvidos diretamente nos protestos.

Um das consequências colaterais tem sido a chegada dos movimentos de protesto na Europa e na Austrália, a começar por França e Inglaterra, onde ações semelhantes aos dos estudantes dos EUA estão ocorrendo em universidades tradicionais como a University College of London e a Oxford University (ambas inglesas), e as tradicionalíssimas Sciences Po university e Sorbonnne University.

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Estudantes franceses protestam contra a guerra na Faixa de Gaza sob forte presença de contingentes policiais

Enquanto isso no Brasil…

Curiosamente no Brasil, a questão da Faixa de Gaza não tem despertado nem uma mísera fração da ebulição que está ocorrendo nos países do capitalismo central.  Quem fizer uma visita à página oficial da União Nacional dos Estudantes  (UNE) vai se deparar com notas até sobre a defesa de um trabalho de conclusão de curso sobre a junção entre RAP e a luta contra o racismo, mas nada sobre a agressão israelense que já matou mais de 34.000 palestinos (a maioria mulheres e crianças) na Faixa de Gaza.

O mesmo silêncio sobre a guerra em Gaza pode ser encontrado na página oficial da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), onde abundam notas sobre a luta pela revogação da chamado “Novo Ensino Médio”, mas nada sobre o conflito que agita as universidades dos países centrais.

Mesmo na Universidade Estadual do Norte Fluminense onde atuo em um centro que reúne estudantes de Ciências Sociais onde a guerra em Gaza já deveria ter rendido um mísero cartaz, nem isso aconteceu. Parece que todos, a começar pelos professores, estão anestesiados e indiferentes ao sofrimento dos palestinos.

A minha expectativa é que essa onda de revolta estudantil, como todo o resto, uma hora bata nas nossas praias e campi universitários.  É que, curiosamente, a mobilização que assola as principais universidades do capitalismo central tem a ver com questões que colocam em xeque o próprio funcionamento do sistema neoliberal que hoje se ampara em uma mescla de especulação financeira e fortalecimento da indústria de armas.

   

Quão confiável é esta pesquisa? Ferramenta sinaliza artigos discutidos no PubPeer

O plug-in de navegador alerta os usuários quando estudos – ou suas referências – são publicados em um site conhecido por levantar questões de integridade.

Uma lupa iluminada pela tela de um laptop parcialmente aberto no escuro.

A ferramenta RedacTek alerta os usuários sobre discussões do PubPeer e indica quando um estudo, ou os artigos que ele cita, foram retirados. Crédito: deepblue4you/Getty

Por Dalmeet Singh Chawla para a “Nature”

Uma ferramenta online gratuita lançada no início deste mês alerta os pesquisadores quando um artigo cita estudos mencionados no site PubPeer , um fórum que os cientistas costumam usar para levantar questões de integridade em torno dos artigos publicados.

Os estudos geralmente são sinalizados no PubPeer quando os leitores têm suspeitas, por exemplo, sobre manipulação de imagens , plágio , fabricação de dados ou texto gerado por inteligência artificial (IA) . O PubPeer já oferece seu próprio plug-in de navegador que alerta os usuários quando um estudo que eles estão lendo é postado no site. A nova ferramenta, um plug-in lançado em 13 de abril pela RedacTek , com sede em Oakland, Califórnia, vai além – ela pesquisa em listas de referências artigos que foram sinalizados. O software extrai informações de várias fontes, incluindo o banco de dados PubPeer; dados da organização de infraestrutura digital Crossref, que atribui identificadores de objetos digitais a artigos; e OpenAlex , um índice gratuito de centenas de milhões de documentos científicos.

É importante rastrear menções de artigos referenciados no PubPeer, diz Jodi Schneider, cientista da informação da Universidade de Illinois Urbana-Champaign, que experimentou o plug-in RedacTek. “Nem todas as referências contidas na bibliografia são importantes, mas algumas delas são importantes”, acrescenta ela. “Quando você vê um grande número de problemas na bibliografia de alguém, isso coloca tudo em questão.”

O objetivo da ferramenta é sinalizar potenciais problemas nos estudos para os pesquisadores desde o início, para reduzir a circulação de ciência de baixa qualidade, diz o fundador da RedacTek, Rick Meyler, com sede em Emeryville, Califórnia. Versões futuras também poderão usar IA para esclarecer automaticamente se os comentários do PubPeer em um artigo são positivos ou negativos, acrescenta.

Retratações de terceira geração

Além de sinalizar as discussões do PubPeer, o plug-in indica quando um estudo, ou os artigos que ele cita, foram retirados. Existem ferramentas que alertam os acadêmicos sobre citações retiradas ; alguns podem fazer isso durante o processo de redação, para que os pesquisadores tenham conhecimento do status de publicação dos estudos na construção das bibliografias. Mas com a nova ferramenta, os usuários podem optar por receber notificações sobre futuras “gerações” de retratações – os alertas abrangem não apenas o estudo que estão lendo, mas também os artigos que ele cita, os artigos citados por essas referências e até mesmo os artigos citados pelo referências secundárias.

O software também calcula um “valor de associação de retratação” para estudos, uma métrica que mede até que ponto o artigo está associado à ciência que foi retirada da literatura. Além de informar pesquisadores individuais, o plug-in poderia ajudar os editores acadêmicos a manter o controle sobre seus próprios periódicos, diz Meyler, porque permite que os usuários filtrem por publicação.

No seu ‘paper scorecard’, a ferramenta também sinaliza quaisquer artigos nas três gerações de estudos referenciados nos quais mais de 25% dos artigos na bibliografia são autocitações – referências de autores aos seus trabalhos anteriores.

Versões futuras poderiam destacar se os artigos citaram estudos retratados antes ou depois da publicação da retratação, observa Meyler, ou se as menções a tais estudos reconhecem a retratação. Isso seria útil, diz Schneider, coautor de uma análise de 2020 que concluiu que apenas 4% das citações a estudos retratados indicam que o artigo referenciado foi retratado 1 .

Meyler diz que a RedacTek está atualmente em negociações com a empresa de serviços acadêmicos Cabell’s International em Beaumont, Texas, que mantém listas pagas de periódicos suspeitos de serem predatórios , que publicam artigos sem verificações de qualidade adequadas para questões como plágio, mas ainda coletam artigos de autores. tarifas. O plano é usar essas listas para melhorar a ferramenta, para que ela também possa sinalizar automaticamente quaisquer artigos citados publicados nessas revistas.

DOI: https://doi.org/10.1038/d41586-024-01247-6

Referências

  1. Schneider, J., Ye, D., Hill, AM & Whitehorn, AS Scientometrics 125 , 2877–2913 (2020).


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Fonte: Nature

JBS e Burger King pagam estudos que minimizam culpa da pecuária na crise do clima

Indústria da pecuária nos Estados Unidos investe em universidades e pesquisadores para ‘obstruir políticas climáticas’, segundo estudo da Universidade de Yale e Universidade de Miami

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Empresas e associações com atuação nos Estados Unidos investem mais de R$ 30 milhões para centros de estudos realizarem pesquisas e comunicações prioritárias à indústria (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

Por Hélen Freitas/ Edição de Diego Junqueira para a Repórter Brasil

A JBS USA, subsidiária da companhia brasileira nos Estados Unidos, e o Burger King, rede controlada por um grupo de investidores brasileiros, estão financiando pesquisas de universidades públicas norte-americanas que minimizam o impacto da pecuária sobre o aquecimento global. Esse apoio faria parte de uma estratégia da indústria da carne para “obstruir” políticas climáticas desfavoráveis ao setor e conquistar a opinião pública.

Essas são as conclusões de um estudo publicado na revista científica Climatic Change e assinado por pesquisadoras da Universidade de Yale e da Universidade de Miami, nos Estados Unidos.

Elas analisaram as atividades de dois centros de estudo apoiados pela indústria da carne: o AgNext, da Universidade Estadual do Colorado, e o Centro Clear, da Universidade da Califórnia em Davis, que pesquisam as emissões de gases de efeito estufa na pecuária. 

As pesquisadoras apontam conflitos de interesses na relação entre empresas e universidades, pois os centros de estudo não atuam apenas na produção acadêmica, mas também prestam outros serviços para seus financiadores do agronegócio, como atividades de relações públicas e campanhas de comunicação, participação em reuniões governamentais, entre outros. 

“Esses centros frequentemente minimizam as contribuições da pecuária para a crise climática, promovem ‘soluções’ tecnológicas que favorecem a indústria e minimizam a necessidade de regulamentações das emissões de gases de efeito estufa pelo gado”, afirma Viveca Morris, da Universidade de Yale, em entrevista por e-mail à Repórter Brasil.

Entre os feitos alcançados pelos “cientistas da pecuária”, de acordo com o estudo, estão uma interferência no Guia Alimentar dos EUA, que excluiu uma menção à necessidade de redução no consumo de carne, além do apoio a um projeto de lei que impediria as Forças Armadas do país a aderir ao movimento “segunda-feira sem carnes”.

Segundo o estudo publicado na Climatic Change, esses cientistas emprestam seu prestígio universitário e apostam em controvérsias científicas para, na prática, fazer lobby em prol de interesses privados. É o que as pesquisadoras chamam no artigo de “captura corporativa de instituições acadêmicas”.

“As empresas contratam pesquisadores para serem testemunhas em processos legais, ajudar a estabelecer metas regulatórias, escrever conteúdos para redes sociais, desenvolver e manter sites. E os conflitos de interesse dos pesquisadores possivelmente nunca serão divulgados publicamente”, afirma o estudo, que é assinado por Morris e por Jennifer Jacquet, da Universidade de Miami.

Brasil lidera o ranking de maior rebanho do mundo, com mais de 234 milhões de cabeças (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

Financiamento de pesquisas e conteúdos pagos

Segundo o levantamento, a indústria pecuária dos Estados Unidos investiu, entre 2018 e 2023, US$ 6,4 milhões (equivalente a R$ 32,3 milhões) nos dois centros de estudo em questão

O principal investidor foi a American Feed Industry Association (Afia), a associação norte-americana da indústria de alimentação, da qual a JBS faz parte. Por meio de seu braço educacional, ela aplicou US$ 2,8 milhões (cerca de R$ 14,5 milhões) no centro de estudos da Universidade da Califórnia, o Clear (sigla que pode ser traduzida para Clareza e Liderança para Conscientização e Pesquisa Ambiental). Este centro recebeu também aporte de US$ 106 mil (R$ 547 mil) diretamente do Burger King. O Clear é coordenado por Frank Mitloehner, que se autodenomina como “guru dos gases do efeito estufa”.

Já a filial norte-americana da JBS aplicou US$ 203 mil (cerca de R$ 1 milhão) no centro de estudos da Universidade Estadual do Colorado, o AgNext, que é coordenado atualmente por uma ex-aluna do “guru”, Kimberly Stackhouse-Lawson, ex-diretora de sustentabilidade da JBS USA. Para destacar os “esforços para construir uma pecuária sustentável”, a empresa também bancou conteúdos pagos sobre o centro de pesquisas em veículos jornalísticos, como o Wall Street Journal e o Politico.

Entre outras financiadoras destes dois centros estão a empresa de confinamento de gado Five Rivers Cattle Feeding, o programa National Pork Board (vinculado ao Departamento de Agricultura dos EUA, para promover a carne suína), a companhia de nutrição animal Diamond V (subsidiária da Cargill) e a associação Beef Alliance. 

JBS financiou e promoveu centros de pesquisas que minimizam impacto da pecuária às mudanças climáticas (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

Guru da pecuária defende nova forma de medir gases de efeito estufa

O Clear é o mais influente. Criado em 2019 por meio de uma parceria entre Mitloehner, o “guru”, e a associação da indústria alimentícia (Afia), o centro mantém um conselho com representantes de seus financiadores para receber sugestões para pesquisas e campanhas de comunicação, como mostram documentos do Clear revelados em reportagem da Unearthed.

A partir de 2020, Mitloehner passou a defender uma nova forma de medir os gases de efeito estufa, chamada de GWP*, pela qual se busca a “neutralidade climática” e não a “neutralidade de carbono”. 

Para serem neutras em carbono, as emissões devem ser totalmente compensadas, ou seja, o saldo líquido deve ser zero. Já para ser “neutro em clima”, basta reduzir o nível de emissões. Por essa alternativa, se uma indústria diminui as emissões de gás metano pelo gado, ela pode ter seu impacto climático considerado como “positivo”.

O metano é um gás produzido pela digestão de bovinos, e liberado principalmente pelo arroto dos animais. Ele é o segundo gás de efeito estufa provocado pelo homem mais abundante na atmosfera, atrás apenas do dióxido de carbono (CO2), gerado pela queima dos combustíveis fósseis, queimadas e desmatamento.

De acordo com o Programa das Nações Unidas para o Ambiente (Pnuma), a pecuária responde por um terço das emissões de gás metano causadas pelo homem, e a redução dessas emissões é “fundamental na batalha contra as alterações climáticas”.

Porém, Mitloehner defende que o metano proveniente do gado não tem o mesmo impacto de aquecimento que o proveniente de combustíveis fósseis, e que a pecuária não é uma grande impulsionadora das mudanças climáticas em comparação com esse outro setor.

Em entrevista à Repórter Brasil, Mitloehner afirma que a redução dos níveis de metano teria um impacto significativo em nosso clima. “Uma redução de aproximadamente 30% no metano ao longo de 20 anos compensaria outros gases de efeito estufa da pecuária e resultaria em um aquecimento negativo no setor”, ele diz.

Para Morris e Jacquet, essa é uma tentativa de minimizar os impactos do setor e impedir que haja políticas públicas mais duras. Elas avaliam que esse discurso foi comprado pela indústria. A associação da indústria alimentícia descreve Mitloehner como uma voz “neutra e confiável” para “repórteres e grupos impactados em conferências e outras reuniões governamentais importantes”.

Em artigo científico publicado em dezembro na Environmental Research Letters, o pesquisador Gaspar Donnison, da Universidade de Southampton, aponta como a indústria tem estimulado o uso dessa nova forma de medir a emissão de gases de efeito estufa, e afirma que isso seria um erro.

“Usando o GWP*, um setor pecuário com emissões de metano altas, mas em declínio ao longo dos anos, pode afirmar ser neutro em termos climáticos. Essa lógica já aparece em alguns estudos como ‘efeito de resfriamento’, o que é enganoso, já que não está resfriando a atmosfera, apenas a aquecendo ligeiramente menos”, escreve Donnison.

“Isto corre o risco de minar a ciência climática, confundindo empresas, consumidores e decisores políticos. Estas recentes alegações de neutralidade climática distraem-nos do desafio urgente de reduzir as emissões de todos os gases com efeito de estufa de todos os setores, incluindo a agricultura”, ele completa.

Considerando o cenário brasileiro, os cientistas da pecuária ignoram também o fato de que a atividade está relacionada à destruição de mata nativa para abertura de pastagens, algo particularmente frequente na Amazônia. 

Estudos apontam que mais de 70% das emissões no país estão ligadas ao agronegócio, e, mais especificamente, com a mudança do uso do solo, como desmatamento e conversão de florestas em pastagens. Os municípios de Altamira e São Félix do Xingu (PA), que possuem os maiores rebanhos do país, são os campeões em emissões de gases do efeito estufa.

Repórter Brasil enviou a Mitloehner os dados sobre as emissões de gases pela pecuária brasileira, grande fornecedora de carne ao mercado dos Estados Unidos, mas o pesquisador afirmou desconhecê-los.

Desmatamento para conversão de florestas em pastagem piora o cenário do Brasil na emissão de gases de efeito estufa pela pecuária (Foto: Daniel Beltrá/Greenpeace)

Pesquisas não têm revisão de cientistas do clima

Apesar de ser conhecido como “guru” do efeito estufa, Mitloehner é criticado por Morris e Jacquet por não ter se apresentado em grandes conferências de ciências climáticas e também por nunca ter contribuído como autor para um relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) – grupo de cientistas estabelecido pelas Nações Unidas para monitorar a ciência relacionada às mudanças climáticas. 

Suas publicações são frequentes em revistas de ciência animal, sua especialidade, em vez das relacionadas ao clima. Nem sempre ele divulga o financiamento que recebe da indústria. “Os revisores e editores de artigos publicados em revistas de ciência animal são diferentes dos de revistas de ciências climáticas”, afirma Morris.

O “guru” veio ao Brasil em 2022 para participar do Fórum Metano na Pecuária, realizado pela JBS. O título de sua palestra: “Não precisamos eliminar a pecuária para parar o aquecimento global”. Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, afirmou que a pecuária pode ser uma solução para as mudanças climáticas.

À Repórter Brasil, o pesquisador disse que não há interferência da indústria em assuntos investigados, metodologias ou resultados de pesquisas que saem de seu laboratório ou do centro de estudos Clear. “Minha pesquisa passa por uma rigorosa revisão por pares e pela análise pública e se sustenta”.

A assessoria de imprensa da JBS USA afirmou que o investimento em projetos de pesquisa faz parte de suas iniciativas em sustentabilidade. Já a Afia, por meio do seu braço educacional (Ifeeder), informou que o apoio ao Centro Clear “tem como objetivo reduzir a insegurança alimentar e o desperdício de alimentos, enquanto utilizam pesquisas científicas para mostrar como o setor de agricultura animal pode ser mais sustentável”. (Leia aqui as respostas completas). 

Para Stackhouse-Lawson, do AgNext, é comum que a indústria e o governo financiem programas, equipamentos e até mesmo estudos no setor. Porém, ela nega haver interferência. “A pesquisa universitária é independente e objetiva. As fontes de financiamento não têm influência nos resultados dos estudos”, diz.

O Burger King e a AFIA foram procurados, mas não retornaram até o momento. O espaço segue aberto para manifestações.

Viveca Morris, da Universidade de Yale, afirma que a indústria da pecuária se promove cada vez mais como parte da solução para as mudanças climáticas, mas na verdade são grande parte do problema. “O potencial de mitigação das medidas tecnológicas disponíveis para reduzir as emissões da pecuária é limitado. Diante disso, a solução para diminuir as emissões passa pela redução da produção e do consumo de produtos de proteína animal em sociedades de alto consumo”, afirma.


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Fonte: Repórter Brasil

Nova reitora da UERJ: “Independentemente do regime de recuperação fiscal, saúde e educação são investimentos”

gulnar azevedo

Fernando Frazão / Agência Brasil

Por Gabriel Brito para o “Correio da Cidadania”

Após um forte processo desfinanciamento e estigmatização, as universidades brasileiras voltaram a ter esperanças em um futuro melhor, como parte fundamental de um país mais justo e solidário, ideia representada na vitória de Lula. No entanto, no segundo ano deste governo os desafios seguem evidentes, uma vez que a racionalidade neoliberal e suas tentativas de limitar o que chama de “gasto” com educação e saúde continuam na ordem do dia. Nesta entrevista, Gulnar Azevedo, eleita reitora da UERJ, analisa os desafios deste campo da educação, agudizados no caso de uma universidade de um estado que vive um regime de recuperação fiscal que limita mais ainda seu financiamento.

Médica sanitarista formada na própria UERJ, Gulnar foi eleita em chapa com Bruno Deusdará, do Instituto de Letras, em processo eleitoral que contou com bastante participação de toda a comunidade acadêmica. Terá pela frente uma universidade afetada pelo abandono ativo da educação pública superior, movimento visivelmente patrocinado pelos governos estadual e federal. Ciente de que a condição do estado impõe ainda mais dificuldades na garantia das funções essenciais da universidade, Gulnar explica que a nova gestão terá de fazer um exame minucioso do que é mais urgente para a reprodução da vida acadêmica. Mas sem perder de vista o caráter estratégico de uma instituição de ensino superior de tamanha envergadura.

“Estamos vendo quais atividades junto ao governo federal são passíveis de conseguir algum apoio, como por exemplo para as nossas unidades de saúde, para a área tecnológica e outras. Na área da saúde, por exemplo, a UERJ tem um grande hospital universitário que funciona como nível terciário, isto é, da atenção da chamada ‘alta complexidade’. Tem uma policlínica que atende o nível secundário e ambas funcionam dentro do SUS. Portanto, queremos viabilizar apoio e ter mais incentivo para que estes serviços funcionem integrados à rede de referência do SUS e ao mesmo tempo atuem como campo de formação de nossos estudantes”, afirmou.

De toda forma, o Brasil se vê de uma luta pelo orçamento público que opõe grupos sociais e econômicos bastante visíveis. Dessa forma, manter e fortalecer as articulações e militâncias, a exemplo do que se viu no próprio processo de vitória de sua chapa na eleição da UERJ, são essenciais, como já ocorrido na recém-realizada Conferência Nacional de Educação. Em Brasília, esse evento oficial afirmou toda uma agenda contrária às políticas de desmonte e até sabotagem propostas pelas distintas direitas no país, tanto a liberal como aquela mais abertamente fascista.

“Devemos estar muito articulados, pois é muito importante manter vivos os debates em relação ao papel das universidades, assim como é fundamental ter projeto de país. Vejo com bastante esperança e perspectiva que esse tecido de fato tenha impacto a médio e longo prazo, que seja sustentável no sentido de garantir não só nossa autonomia universitária, mas também de discutir a necessidade que as universidades têm de contribuir com a formulação de políticas públicas”, sintetizou.

Gulnar também recupera um dos motes das campanhas de Lula, que ao defender a recuperação de investimentos públicos em políticas sociais enfatizou que temas como saúde e educação não são gastos, mas investimentos. Ainda que pareça óbvio, as pressões políticas e ideológicas dos defensores do Estado mínimo, mesmo depois de toda a destruição social dos anos Temer e Bolsonaro, seguem fortes.

“A mensagem que precisamos passar é de que, independentemente do regime de recuperação fiscal, temos de mostrar que saúde e educação, como o próprio presidente Lula falou, são investimentos. Nós não somos gastos, somos investimento. É o investimento feito nessa área que mais adiante vai propiciar mais recurso. E temos de mostrar que a atual conta de subfinanciamento é a conta que não fecha. Para isso precisamos convencer não só o Executivo como os parlamentares, daí a necessidade de as articulações se manterem firmes”.

Confira a entrevista completa com Gulnar Azevedo.

Correio da Cidadania: Como foi o processo eleitoral que culminou na sua escolha para a reitoria da UERJ? O que se debate neste momento?

Gulnar Azevedo: É um movimento que vínhamos construindo há um ano, até chegar às eleições de novembro. A Uerj tem quatro centros setoriais, que congregam as unidades acadêmicas e esse movimento surgiu a partir da identificação dos diretores destes centros setoriais, que são eleitos pelas unidades acadêmicas, docentes, servidores e estudantes, de que a Uerj estava se afastando de suas finalidades. Estava deixando de definir suas prioridades a partir de um processo mais participativo, mais democrático, mais aberto. A universidade ameaçava entrar num caminho que não era o melhor para uma universidade pública e popular, como gostaríamos.

A partir daí, os diretores destes centros me convidaram para participar do processo e me identificaram como uma pessoa que pudesse liderar o processo. Assim, visitamos todas as unidades acadêmicas, todos os setores administrativos. Fomos em todos os campi, montamos o diagnóstico da universidade. Percebemos muita insatisfação, muitos problemas e algumas soluções e fomos montando a nossa plataforma.

Com isso, ganhamos um grande apoio e o movimento foi crescendo, chegamos na eleição com um tecido sólido que concorreu com a chapa da situação.

Durante os meses de campanha começaram a aparecer as denúncias que estão sendo investigados pelo Ministério Público e pelo Tribunal de Contas, algumas condições sem transparência e que não faziam parte de nossas finalidades de ensino, pesquisa e extensão.

Nos debates e no momento da eleição ficou muito clara a diferença entre as duas chapas. Eram três chapas, mas a disputa ficou entre duas e a diferença na adesão da comunidade acadêmica (estudantes, técnicos e docentes) ficou evidente, já no primeiro turno. No segundo turno, a diferença foi mais de 10 pontos percentuais.

Em suma, nossas propostas foram aprovadas, ao passo que a reitoria anterior não foi reconhecida e validada pela comunidade universitária. E nós tivemos, assim, uma vitória bem expressiva, principalmente entre estudantes e docentes, onde tivemos o dobro de votos.

Correio da Cidadania: Que universidade vocês encontraram, o que se viveu nos últimos anos? Quais os principais desafios para a universidade pública nesse momento?

Gulnar Azevedo: Encontramos uma universidade com processos burocratizados, sem transparência e com ações que não levaram em conta a opinião dos diversos setores. Sem dúvida, isso foi um problema sério. E com situações que, de fato, não são as que gostaríamos de ver numa universidade. A Uerj perdeu a perspectiva de levar um processo democrático, participativo, com valorização do trabalho de todos e com decisões que não foram tomadas respeitando os nossos fóruns superiores.

Correio da Cidadania: Isso influía no financiamento da universidade e sua capacidade de sobrevivência?

Gulnar Azevedo: O estado do Rio de Janeiro se encontra mais uma vez numa grande crise econômica, inserido no regime de recuperação fiscal. Isso significa que nós temos que olhar, de fato, o que pode ser racionalizado em termos de recursos. Mas a universidade é muito grande, mais de 30 mil alunos distribuídos em vários campi. Há uma grande diversidade entre os estudantes e precisamos assegurar uma política de assistência estudantil que garanta o ingresso, mas também a permanência para os cotistas e aqueles que vivem em vulnerabilidade social, nosso orçamento está aquém das nossas necessidades.

Em função disso, temos nos esforçado para mostrar para o estado do Rio de Janeiro a importância do investimento na universidade, o quanto que contribuímos com o crescimento do estado, com o desenvolvimento. E tudo isso não é simples. Quando comparamos nosso orçamento com o da USP ou Unicamp, universidades também estaduais, vemos que estamos muito atrás.

Tem sido uma luta constante manter os auxílios, todas as bolsas, mas é uma tarefa na qual teremos de prosseguir. Temos de entender que fazemos muito com o pouco que ganhamos.

Correio da Cidadania: Falta participação das comunidades escolares e universitárias na elaboração da política pública?

Gulnar Azevedo: Sim, e por um lado também falta participação dentro dessas instituições, com escuta de movimentos e comunidades, para dar abertura para que suas reivindicações tenham também participação na concepção do que fazemos, dos profissionais que formamos.

Correio da Cidadania: Como esta dinâmica de desfinanciamento dialoga com o governo federal, que realizou uma recomposição orçamentária em 2023, ainda que dentro dos marcos da austeridade fiscal, e a discussão de financiamento adequado da Educação e do ensino superior?

Gulnar Azevedo: Apesar de sermos financiados pelo governo estadual, temos buscado canais junto ao governo federal. Para a Uerj é importante mostrar que nós valorizamos o que o governo precisa implementar, como o apoio ao ensino público, o fortalecimento do ensino superior, o apoio para uma política assistencial estudantil de fato ampla.

Estamos vendo quais atividades junto ao governo federal são passíveis de conseguir algum apoio, como por exemplo para as nossas unidades de saúde, para a área tecnológica e outras. Na área da saúde, por exemplo, a UERJ tem um grande hospital universitário que funciona como nível terciário, isto é, da atenção da chamada “alta complexidade”. Tem uma policlínica que atende o nível secundário e ambas funcionam dentro do SUS. Portanto, queremos viabilizar apoio e ter mais incentivo para que estes serviços funcionem integrados à rede de referência do SUS e ao mesmo tempo atuem como campo de formação de nossos estudantes.

Há várias outras questões, devemos nos organizar para assegurar agilidade para captação e prestação de contas. Precisamos estar preparados para receber recursos de agência de fomento e de empresas públicas e privadas.

Tudo isso significa um desafio muito grande. Também precisamos recuperar e garantir regras e regulações claras, com transparência em todas as etapas do processo que envolvem projetos descentralizados de órgãos do governo.

Correio da Cidadania: Recentemente, tivemos a realização da Conferência Nacional da Educação. Quais foram os principais debates e, principalmente, encaminhamentos deste evento?

Gulnar Azevedo: É um movimento muito importante, mostrou o peso que a educação tem no Brasil. É muito bom ver as pessoas da educação básica, fundamental, até educação superior, discutirem os futuros e os problemas da área. Educação e saúde são direitos fundamentais na nossa Constituição, tem que ser acesso universal, e nós temos um papel nisso. A universidade tem um papel, não só de formar bons profissionais para trabalhar no campo da educação como também mostrar o quanto um país precisa de uma universidade para, basicamente, garantir seu futuro.

Temos na Uerj um grupo forte, bastante comprometido com a educação, temos duas faculdades de formação de professores na Baixada Fluminense, uma em Duque de Caxias e outra em São Gonçalo. São cursos muito bons, são faculdades que têm uma ligação muito grande com as escolas públicas da área, com o território. Para nós, é um incentivo entender que temos esse papel de fazer a universidade atuar junto a todas as esferas e níveis da educação.

Portanto, a conferência foi essencial e é importantíssimo que os encaminhamentos tirados de lá sejam ouvidos e considerados pelo governo.

Correio da Cidadania: Nesse sentido, como você compreende todas as batalhas políticas e ideológicas da Educação, tanto contra uma direita empresarial que emplacou a reforma do ensino médio no governo Temer, como pela direita mais abertamente fascista e seus projetos de perseguição ideológica escancarada nas escolas?

Gulnar Azevedo: De um lado, vemos uma visão extremamente ligada ao campo empresarial, que inclusive se refletiu na reforma do ensino médio dos anos do governo Temer e que até hoje se reflete. Há muita pressão por parte do setor privado da educação no Congresso, ao mesmo tempo em que cresce um pensamento de direita mais radical que defende uma ideia de educação desconectada das formulações pedagógicas.

Devemos estar muito articulados, pois é muito importante manter vivos os debates em relação ao papel das universidades, assim como é fundamental ter projeto de país. Também é importante trazer essa articulação para o interior de nossas universidades, nos conselhos superiores. Aqui no Rio de Janeiro nós temos um papel importante, não só para o ensino superior como também o ensino técnico e básico fundamental.

Vejo com bastante esperança e perspectiva que esse tecido de fato tenha impacto a médio e longo prazo, que seja sustentável no sentido de garantir não só nossa autonomia universitária, mas também de discutir a necessidade que as universidades têm de contribuir com a formulação de políticas públicas.

Correio da Cidadania: Como você observa o próprio orçamento federal para a educação de modo geral? Acha que os pactos macroeconômicos vão cobrar uma conta e limitar os investimentos?

Gulnar Azevedo: Aqui no Rio vivemos, como disse, o regime de recuperação fiscal. Somos ligados à Secretaria de Ciência e Tecnologia do Estado, e dependemos desse recurso que todo mês vem para a universidade. O recurso é insuficiente para dar conta de todas as nossas necessidades concretas, como garantir a alimentação em todos os campi, melhorar a nossa infraestrutura e a manutenção de nossos equipamentos, tudo é muito pesado. A Uerj tem um peso grande em garantir tudo isso.

A mensagem que precisamos passar é de que, independentemente do regime de recuperação fiscal, temos de mostrar que saúde e educação, como o próprio presidente Lula falou, são investimentos. Nós não somos gastos, somos investimento. É o investimento feito nessa área que mais adiante vai propiciar mais recurso. E temos de mostrar que a atual conta de subfinanciamento é a conta que não fecha. Para isso precisamos convencer não só o Executivo como os parlamentares, daí a necessidade de as articulações se manterem firmes.

O Brasil vive uma situação difícil, em parte imposta pelo Congresso nas definições e no apoio a políticas públicas. Assim, é fundamental manter fortes nossos movimentos, nossas entidades científicas, e seguir na luta. É uma batalha muito grande também na área da saúde e vejo que a educação está dando um passo importante, com um ativismo associado ao que pode ser feito cientificamente de nossas entidades.

A SBPC e demais sociedades científicas têm cumprido um papel muito importante em relação a garantir recursos para ciência, tecnologia e inovação, ajudar o Brasil a superar suas limitações neste campo. Em linhas gerais, vivemos situações concretas difíceis, no sentido de garantir nossos recursos, manutenção de nossas atividades e investimento em áreas necessárias. Mas também vivemos um movimento de muita reorganização de todo o tecido social. E essa reorganização, com o apoio das nossas associações e da sociedade civil organizada, pode ser um avanço no sentido de fazer o governo ter uma compreensão maior das nossas necessidades.

A Uerj está no caminho de garantir seu espaço e ser valorizada para atingir a autonomia financeira, administrativa e acadêmica. Precisamos fortalecer nossos conselhos superiores, que são instâncias máximas de decisão da universidade, canais diretos com as entidades representativas de classe, tanto docentes como de técnicos e estudantes. Precisamos valorizar as nossas representações, por isso temos feito um trabalho de formação na universidade associado ao desenvolvimento do estado do Rio de Janeiro. E temos investido em estudos que nos permitem definir o que é estratégico em termos de desenvolvimento do estado e fortalecimento da educação.

Gabriel Brito é jornalista, repórter do site Outra Saúde e editor do Correio da Cidadania.


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Fonte: Correio da Cidadania

Por que o interesse em mestrado e doutorado está caindo no Brasil

Com desestímulo financeiro e social, sistema de pós-graduação no país enfrenta queda na procura, ociosidade de vagas e fuga de cérebros

Laboratório de Produtos e Tecnologia em Processos | Foto: ViktoFoto: Viktor Braga/Universidade Federal do Ceará/FLICKR/Creative Commons

Por Edson Colambori para o “Jornal Nexo”

O sistema de pós-graduação no Brasil enfrenta uma interrupção em seu ciclo virtuoso. Desde 2018, o que se percebe é um viés de desinteresse dos recém-graduados pelos cursos de mestrado, pós-graduação e pós-doutorado.

Recentemente, informações veiculadas na proposta de Plano Nacional de Pós-Graduação (PNPG), feita pela Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), demonstraram que cerca de 25% dos cursos de mestrado oferecidos em 20 áreas do conhecimento (de um total de 49) tiveram demanda menor do que a oferta. Em relação ao doutorado, ao menos 12 áreas sentiram uma diminuição da procura que pode superar 30%.

Desenvolvida pela Capes para o registro e acompanhamento dos programas de pós-graduação no país, a Plataforma Sucupira apontou uma ociosidade de 21% nas vagas de mestrado e 25% no doutorado em 2020. Nos anos seguintes, entre 2021 e 2022, registrou-se uma diminuição de mais 11% na quantidade de ingressantes.

Os dados do PNPG mostram que o desinteresse tem sido mais intenso pelas engenharias, que tiveram uma baixa de aproximadamente 28% no número de novos pós-graduandos. Se em 2015 foram 12.551 ingressantes, em 2022 o número caiu para 9.090. A queda de ingressantes foi de 23% nas ciências agrárias, 14% nas biológicas, 12% nas exatas e da terra. Os números indicam que o viés de queda vem desde 2018. Antes, portanto, da pandemia.

A constatação da diminuição do interesse no mestrado e pós-graduação provoca reflexões. Por que os jovens estão se afastando? Quero dar aqui uma contribuição para esse debate tão necessário e estreitamente ligado ao desenvolvimento do país.

Desestímulo financeiro e social

Começo por uma consideração relacionada ao tempo de formação de um doutor: mais de vinte anos da vida de um jovem. Acompanhe comigo: do ensino fundamental I e II (nove anos) ao ensino médio (três anos) são cerca 12 anos na educação básica. Mais quatro anos de curso superior, em média, e outros quatro a seis no mestrado e pós-graduação.

Ou seja, é preciso muita resiliência e o que tem acontecido é um grande desestímulo financeiro e social que dificulta aos mais jovens a busca por essa formação. Ao mesmo tempo, é uma realidade que fere a percepção da importância e da necessidade de doutores para o crescimento e o avanço científico, filosófico e tecnológico de um país.

Fato é que o investimento na educação, em especial na formação dos doutores, vem se deteriorando há décadas. O valor das bolsas de pós-graduação não é suficiente para que o doutorando se dedique em tempo integral à sua formação intelectual.

Para agravar esse cenário, a pandemia de COVID-19 acelerou o processo de desmotivação para cursar ensino superior que vinha se delineando. Nos anos 2020 a 2022, o governo do período fez um grande desserviço à sociedade brasileira no que diz respeito ao conceito e metodologia científica para o desenvolvimento tecnológico de um país.

Baixos valores das bolsas

A associação desses contratempos a várias outras dificuldades ajuda a entender a evasão dos estudantes em todos os níveis de ensino. Além do investimento de um tempo prolongado da vida do estudante, muitas outras dificuldades inerentes ao processo de formação do doutor atrapalham o percurso acadêmico.

Entre elas, destaco os baixos investimentos nos valores de bolsas e nos laboratórios de pesquisas dos cientistas envolvidos na formação dos doutores e também incertezas de empregos após o doutorado nas instituições de ensino e pesquisa brasileiras. Isso leva a uma fuga cada vez maior de cérebros.

Mas o que fazer para estimular os jovens a apostarem na educação no nível de doutoramento? Tudo começa por um investimento pesado na formação dos indivíduos desde a infância até o final do ensino superior completo. Este investimento passa pela necessidade de melhorar a formação e o salário dos professores do ensino fundamental, médio, e dos professores de ensino superior.

Hoje o início de carreira em uma universidade federal ou estadual está em valores muito defasados em relação às expectativas de um profissional após mais de vinte anos de formação.

Importante lembrar também que 75% dos estudantes universitários estão nas universidades privadas. Portanto, o Ministério da Educação precisa que exigir delas o nível de educação que é pedido aos professores nas universidades públicas. O percentual de doutores nos cursos das instituições privadas é extremamente baixo comparado às instituições públicas.

Não parece aceitável um corpo docente de nível superior que não tenha doutoramento. Essa é a exigência para as universidades públicas, mas o mesmo não vale para o setor privado. Desse modo, as escolas privadas precisam, evidentemente, investir em recursos humanos qualificados em Ensino e Pesquisa, inclusive para absorver os Doutores formados.

Esforço de repatriação

Ademais, as indústrias brasileiras não absorvem os doutores formados no Brasil. Se faz necessária e urgente a discussão de novas leis que favoreçam as indústrias a terem doutores em seus quadros, principalmente no desenvolvimento de novos produtos e novas tecnologias.

Recentemente, o CNPq abriu edital para repatriar doutores brasileiros que estejam fora do Brasil. Trata-se de um investimento com bolsas e enxoval para laboratórios.

No entanto, se não houver políticas para absorver estes doutores como professores ou pesquisadores nas instituições brasileiras, fica difícil acreditar em um sistema vigoroso de realmente investimento que de segurança aos doutores já formados e estabelecidos no exterior.

Penso que essas são algumas medidas que poderão tanto melhorar os cursos como o interesse por eles e a empregabilidade de quem se gradua. Essa problemática precisa ser amplamente discutida.

Além desse investimento pesado e contínuo na formação dos recursos humanos, interligando os pontos de início e término na educação das pessoas, também é crucial demonstrar à sociedade que universidades mais qualificadas, desenvolvidas e produtivas são imprescindíveis para melhoria geral do bem-estar de uma população e para o desenvolvimento de um país.

Eduardo Colombari é professor Titular de Odontologia, campus de Araraquara, Universidade Estadual Paulista (Unesp)


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Fonte: Jornal Nexo