Estudo inédito revela a viabilidade econômica da restauração florestal em fazendas de café na Mata Atlântica

coffee ma resto

A restauração florestal é reconhecida como uma das medidas mais eficazes para combater as mudanças climáticas e promover a proteção à biodiversidade. No entanto, os custos elevados – associados tanto diretamente ao plantio de árvores quanto à perda de áreas agriculturáveis ou de pastagem – costumam ser uma barreira para a sua implementação em larga escala. Mas uma pesquisa inédita conduzida em áreas de cafeicultura da Mata Atlântica revela que a restauração pode, ao contrário, ser uma abordagem economicamente viável.

Publicado na revista científica norte-americana One Earth, o estudo é assinado por Francisco d’Albertas, doutor em Ecologia pela USP, Gerd Sparovek, coordenador do Geolab (Esalq-USP), Luís Fernando Guedes Pinto, engenheiro agrônomo e diretor-executivo da Fundação SOS Mata Atlântica, Camila Hohlenwerger, doutora em Ecologia pela USP, e Jean-Paul Metzger, professor do departamento de Ecologia da USP.

Os resultados demonstram que o aumento dos serviços ecossistêmicos impulsionados pelo reflorestamento, entre eles a polinização, resulta em um incremento na produção de café, compensando os custos referentes à restauração da floresta. Essa descoberta pode auxiliar os formuladores de políticas públicas a promover a adoção generalizada da restauração em paisagens agrícolas, aliando a mitigação das mudanças climáticas, a conservação da biodiversidade e a produção agrícola. Além disso, no caso do Brasil, em que a legislação ambiental já prevê a restauração/conservação de vegetação nativa em propriedades rurais, o estudo pode servir como um estímulo adicional para o cumprimento da lei.

O levantamento analisa diferentes cenários, estabelecendo um limiar em torno de 25% de cobertura florestal nas fazendas como ponto de equilíbrio para que, ao longo de 20 anos, os custos de restauração possam ser compensados pelos benefícios dos serviços ecossistêmicos no aumento da produção de café. Os resultados apontam ainda que um valor de CO₂ de pelo menos 20 dólares seria o ideal para aumentar a viabilidade financeira da restauração.

“Nossa pesquisa mostra que, ao impulsionar os rendimentos das colheitas e combinando ganhos provenientes do sequestro de carbono, a restauração se torna uma abordagem economicamente eficaz em paisagens agrícolas, indo na contramão do senso comum que considera o agronegócio e a conservação ambiental como atividades incompatíveis”, explica Francisco d’Albertas. “São, entretanto, necessárias medidas adicionais, como a consolidação do mercado de carbono, para tornar a restauração amplamente viável e imediatamente atraente para os agricultores”, completa.

A Organização das Nações Unidas (ONU) designou o período de 2021 a 2030 como a Década da Restauração de Ecossistemas. Na Conferência de Biodiversidade da ONU de 2022, a COP 15, a Mata Atlântica foi reconhecida como um dos dez ecossistemas emblemáticos nessa iniciativa. Além disso, evidências indicam o bioma como uma das áreas prioritárias para a restauração global, dada sua capacidade de combater as mudanças climáticas e preservar a biodiversidade e os recursos hídricos.

Nesse sentido, Luís Fernando Guedes Pinto ressalta a importância das descobertas apresentadas pela pesquisa. “Para atender aos compromissos do Acordo de Paris, o Brasil deve eliminar completamente o desmatamento e restaurar em grande escala. Para a Mata Atlântica, a meta mais ambiciosa são 15 milhões de hectares de florestas naturais até 2030, estabelecida pelo Pacto pela Restauração do Bioma, que só poderá ser atingida com o apoio do agronegócio. E agora está evidente que o reflorestamento é uma abordagem positiva para todas as pessoas e setores econômicos”, afirma.

A pesquisa traz um estudo de caso ilustrativo que, para ampliar o entendimento sobre em que medida e em quais condições os benefícios da restauração compensam os custos, pode ser expandido para outras regiões do Brasil e do mundo. O estudo completo, intitulado Yield increases mediated by pollination and carbon payments can offset restoration costs in coffee landscapes (“Aumentos na produção, mediados pela polinização e pagamentos de carbono, podem compensar os custos de restauração em paisagens de café”, em tradução livre), está disponível, em inglês, no site da OneEarth.

Sobre a Fundação SOS Mata Atlântica 

A Fundação SOS Mata Atlântica é uma organização da sociedade civil brasileira sem fins lucrativos. Fundada em 1986, tem como missão inspirar a sociedade na defesa do bioma mais devastado do país. Atua para promover políticas públicas para conservar e restaurar a Mata Atlântica, trabalhando de maneira integrada as temáticas de água, biodiversidade e clima. Monitora a situação das florestas e ecossistemas associados, além de trabalhar para recuperar áreas já degradadas. Também defende e cria políticas públicas em prol do bioma. Essa causa beneficia diretamente mais de 70% da população brasileira, que vive na Mata Atlântica e depende dela para ter qualidade de vida.

Estudo expõe preocupações dos consumidores europeus sobre o impacto de alimentos ultraprocessados ​​na saúde

Num estudo pan-europeu, o Observatório do Consumidor Alimentar do EIT constatou uma crescente apreensão entre os consumidores relativamente às implicações para a saúde dos alimentos ultraprocessados

Elderly couple of spouses buy ready-made meals for picnic with friends in culinary department. Model

Apesar de a maioria dos consumidores europeus expressar preocupações sobre o impacto dos alimentos ultraprocessados ​​na saúde, a falta de sensibilização, compreensão e meios dificulta escolhas informadas e saudáveis, de acordo com o estudo apoiado pelo Instituto Europeu de Inovação e Tecnologia (EIT)

Por Editor da fleischwirtschaft.com

O estudo revela uma lacuna significativa entre as preocupações dos consumidores europeus sobre os alimentos ultraprocessados ​​e a sua capacidade de fazer escolhas informadas. O estudo, que abrange um inquérito a 10.000 consumidores de 17 países europeus, juntamente com um acompanhamento qualitativo, lança luz sobre os desafios que os indivíduos enfrentam ao navegar pelas complexidades dos alimentos processados.

De acordo com as conclusões, 65% dos consumidores europeus acreditam que os alimentos ultraprocessados ​​representam riscos para a saúde, contribuindo inclusive para a obesidade, a diabetes e outros problemas relacionados com o estilo de vida. No entanto, apesar desta consciência, 56% dos consumidores admitem ainda escolher alimentos processados, indicando um paradoxo no comportamento do consumidor.

Uma das principais razões por trás desta contradição é a falta de compreensão dos níveis de processamento de alimentos. O estudo expõe que os consumidores muitas vezes subestimam ou superestimam o quanto seus alimentos são processados. Por exemplo, enquanto 61% identificam corretamente as bebidas energéticas como ultraprocessadas, apenas 34% e 22%, respetivamente, rotulam corretamente o queijo vegan e as barras de chocolate como tal.

Curiosamente, as alternativas à base de plantas enfrentam um escrutínio adicional, com 54% dos consumidores a evitá-las devido a preocupações com o ultraprocessamento. Isto é particularmente prevalente entre os consumidores de carne e laticínios, levantando questões sobre o impacto das preocupações com a saúde na adoção de dietas baseadas em vegetais.

Em resposta às conclusões, Klaus Grunert, professor da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, e diretor do Observatório do Consumidor Alimentar do EIT, sublinha a necessidade de uma rotulagem, orientação e educação mais claras e apela a esforços contínuos para compreender e chegar a acordo sobre a forma como os alimentos são classificados, avaliados. e rotulado “para que nossos conselhos aos consumidores sejam informados pela ciência mais recente”.

O aspecto qualitativo do estudo sugere que conveniência, preço e sabor continuam sendo os principais impulsionadores do consumo de alimentos ultraprocessados. Apesar das preocupações, a maioria dos consumidores está relutante em reduzir a sua ingestão, na esperança de equilibrar os alimentos processados ​​com alternativas menos processadas e caseiras. No entanto, os consumidores com menos recursos em termos de tempo e dinheiro têm menos poder nas suas escolhas alimentares e é pouco provável que dêem prioridade ao valor nutricional em detrimento da conveniência.

Sofia Kuhn, Diretora de Engajamento Público da EIT Food, reconhece o papel que os alimentos processados ​​desempenham na dieta das pessoas: “Seja um molho de macarrão pré-embalado para uma refeição rápida em casa ou uma refeição fast-food fora com a família, ultra- os alimentos processados ​​fazem parte do dia-a-dia das dietas dos consumidores em toda a Europa. No entanto, é evidente a partir destas descobertas que as pessoas têm preocupações reais sobre os aspectos de saúde e sustentabilidade destes alimentos.” Kuhn também destaca a responsabilidade do sector em criar um ambiente que promova decisões informadas.

O relatório conclui com recomendações para o setor alimentar melhorar a rotulagem, a educação e a orientação sobre alimentos ultraprocessados. Apela às instituições de saúde e aos cientistas para que definam os alimentos ultraprocessados ​​de forma conclusiva e comuniquem eficazmente com os consumidores sobre o processamento dos alimentos e as possíveis implicações para a saúde.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela Fleischwirtschaft.com [Aqui!].

Novo estudo encontra agrotóxico pouco conhecido, o Clormequato, em cada quatro de cinco pessoas testadas

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Campo de aveia onde o clormequato é comumente aplicado.  Fonte: Unsplah/CCO. Public Domain

Por Environmental Working Group 

Um novo estudo do  Enviromental Working Group (EWG) encontrou clormequato (um regulador de crescimento vegetal), um agrotóxico pouco conhecido, em quatro em cada cinco pessoas testadas. Como o produto químico está ligado a problemas reprodutivos e de desenvolvimento em estudos com animais, as descobertas sugerem o potencial de danos semelhantes aos seres humanos.

A pesquisa do EWG, publicada em 15 de fevereiro no Journal of Exposure Science and Environmental Epidemiology , e testou a urina de 96 pessoas quanto à presença de clormequato, encontrando-o em 77 delas.

“O novo estudo do EWG sobre o clormequato é o primeiro desse tipo nos EUA”, disse o toxicologista do EWG, Alexis Temkin, Ph.D, principal autor do estudo. “A onipresença deste pesticida pouco estudado nas pessoas faz soar o alarme sobre como ele pode causar danos sem que ninguém saiba que o consumiu”.

Alguns estudos em animais mostram que o clormequato pode danificar o  e perturbar o crescimento fetal, alterando o desenvolvimento da cabeça e dos ossos e alterando os principais processos metabólicos. Esta pesquisa levanta questões sobre se o clormequato também pode prejudicar os humanos.

Para o seu estudo, o EWG obteve  recolhidas entre 2017 e 2023 de 96 pessoas nos EUA e testou-as para clormequato num laboratório especializado no Reino Unido.

Os testes encontraram clormequato na urina de mais pessoas e em concentrações mais elevadas em amostras recolhidas em 2023 do que em anos anteriores, sugerindo que a exposição dos consumidores ao clormequato pode estar a aumentar.

Os regulamentos da Agência de Proteção Ambiental permitem que o produto químico seja usado apenas em  – cultivadas nos EUA.

Mas desde 2018, a EPA permitiu o clormequato em aveia e outros alimentos importados, aumentando a quantidade permitida em 2020. Ambas as alterações regulamentares ocorreram durante a administração Trump. Muitas aveia e produtos de aveia consumidos nos EUA vêm do Canadá.

Em abril de 2023, em resposta a um pedido apresentado pelo fabricante de clormequato Taminco em 2019, a Biden EPA propôs permitir o primeiro uso de clormequato em cevada, aveia, triticale e trigo cultivados nos EUA. O EWG se opõe ao plano. A regra proposta ainda não foi finalizada.

“O governo federal tem um papel vital em garantir que os pesticidas sejam adequadamente monitorados, estudados e regulamentados”, disse Temkin. “No entanto, a EPA continua a abdicar da sua responsabilidade de proteger as crianças dos potenciais danos à saúde causados ​​por produtos químicos tóxicos como o clormequato nos alimentos.”

O EWG insta o Departamento de Agricultura e a Food and Drug Administration a testarem a presença de clormequato nos alimentos e solicita que os Centros de Controle e Prevenção de Doenças adicionem clormequato ao seu programa de biomonitoramento. A organização também pede mais pesquisas sobre os efeitos do clormequato na saúde humana.

O EWG conduziu seus próprios testes de alimentos à base de aveia em 2022 e 2023, encontrando clormequato em vários produtos não orgânicos à base de aveia. Os produtos de aveia orgânica tiveram pouca ou nenhuma detecção do produto químico.

Mais informações: Um estudo piloto de clormequato em alimentos e urina de adultos nos Estados Unidos de 2017 a 2023, Journal of Exposure Science & Environmental Epidemiology (2024).DOI: 10.1038/s41370-024-00643-4


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo “Enviromental Working Group” [Aqui!].

Novo estudo revela ligação da dieta com ‘produtos químicos eternos’ de PFAS no corpo humano

Pesquisa dos EUA mostra que alimentos como manteiga e carne processada podem aumentar os níveis de PFAS tóxicos no sangue ao longo do tempo

grocery store nyUm supermercado na cidade de Nova York. Fotografia: Angela Weiss/AFP/Getty Images

Por Tom Perkins para o “The Guardian” 

Dietas ricas em alimentos como carne processada e manteiga provavelmente aumentam os níveis de PFAS tóxicos “produtos químicos para sempre” no sangue humano ao longo do tempo, descobriu uma nova pesquisa revisada por pares.

O artigo identificou uma variedade de alimentos que estão entre os causadores de altos níveis de PFAS , incluindo chás, carne de porco, doces, bebidas esportivas, carne processada, manteiga, batatas fritas e água engarrafada. A pesquisa também apontou níveis sanguíneos mais elevados de PFAS entre aqueles que consumiam mais comida para viagem ou preparada em restaurantes.

“A principal lição é não demonizar certos alimentos ou dizer: ‘Meu Deus, este alimento é tão prejudicial à saúde’”, disse Hailey Hampson, estudante de doutorado da Universidade do Sul da Califórnia e principal autora do estudo. “O objetivo é destacar que precisamos de mais testes desses alimentos, e isso nos dá um caminho para dizer: “OK, esses alimentos podem ter níveis mais elevados de PFAS, então devemos fazer um monitoramento mais direcionado deles”.

PFAS, ou substâncias per e polifluoroalquil, são uma classe de cerca de 15.000 produtos químicos frequentemente usados ​​para tornar produtos resistentes à água, manchas e calor. Eles são chamados de “produtos químicos eternos” porque não se decompõem naturalmente e estão ligados ao câncer, problemas de fígado, problemas de tireoide, defeitos congênitos, doenças renais, diminuição da imunidade e outros problemas graves de saúde.

Embora a exposição através da água tenha atraído a maior atenção regulamentar, existe um consenso científico de que os alimentos contaminados representam, em grande parte, a maior ameaça à saúde humana.

A Food and Drug Administration (FDA) dos EUA testa anualmente a presença de PFAS nos alimentos e relatou muito pouca contaminação. Mas a agência tem enfrentado críticas de cientistas independentes que afirmam que as suas metodologias de testes são falhas e concebidas para fazer parecer que os alimentos estão menos contaminados do que realmente estão.

Entre as principais fontes de contaminação de alimentos estão a água contaminada, embalagens de alimentos à prova de gordura , alguns plásticos , agrotóxicos ou fazendas onde o lodo de esgoto contaminado com PFAS é espalhado como fertilizante.

O estudo analisou duas coortes com um total combinado de mais de 700 pessoas. Para um grupo, os autores verificaram o consumo alimentar e os níveis de PFAS durante um período de quatro anos.

Entre as evidências de contaminação de embalagens de alimentos estava a descoberta de que burritos, fajitas, tacos, batatas fritas e pizzas feitas em casa estavam associadas a concentrações mais baixas de PFAS. Mas aqueles que comeram os mesmos pratos preparados em restaurantes normalmente apresentaram concentrações aumentadas de PFAS no sangue.

“É realmente interessante descobrir que esses alimentos que talvez não sejam tão saudáveis, quando cozinhados em casa, eram uma fonte menor de PFAS, e isso definitivamente aponta para as embalagens de alimentos”, disse Hampson.

A pesquisa também descobriu que a manteiga provavelmente aumentou os níveis de PFAS. Embora o consumo de nozes estivesse associado a níveis mais baixos de substâncias químicas no sangue, a manteiga de nozes apresentou níveis mais elevados. A manteiga costuma ser embrulhada em papel vegetal, observou Hampson, embora a contaminação também possa ser proveniente de vacas ou do processamento.

Níveis mais elevados de PFAS no sangue associados ao maior consumo de água engarrafada também podem indicar embalagens contaminadas ou contaminação da fonte de água. E os autores suspeitam que a ligação entre o chá e os níveis elevados de PFAS pode resultar em grande parte dos saquinhos de chá tratados com os produtos químicos, embora sejam necessárias mais pesquisas.

As carnes processadas em geral pareciam aumentar os níveis sanguíneos de PFAS. Hampson disse que a descoberta não foi surpreendente porque o processamento abre vários pontos de entrada para os produtos químicos, embora os cortes de carne suína não processados ​​​​também tenham mostrado uma forte associação. Isso sugere que os porcos provavelmente estão contaminados.

Aqueles que consumiram níveis mais elevados de açúcar, bebidas de frutas e refrigerantes normalmente apresentaram níveis mais baixos de PFAS, o que os autores disseram que os pegou de surpresa. Eles levantam a hipótese de que os jovens adultos que compunham uma de suas coortes bebem níveis mais elevados de refrigerantes e bebidas de frutas, que geralmente podem estar menos contaminados com PFAS do que a água da torneira ou engarrafada.

A associação foi uma das várias em que os alimentos não saudáveis ​​pareciam proteger as pessoas da contaminação por PFAS, enquanto alguns alimentos saudáveis ​​pareciam aumentar os níveis de PFAS.

“Precisamos de mais monitoramento da saúde pública, especialmente de alimentos saudáveis, para garantir que não tenhamos exposições químicas não intencionais em alimentos que sabemos serem saudáveis ​​de muitas outras maneiras”, disse Jesse Goodrich, pesquisador e co-autor do estudo da USC.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Os idiotas da objetividade em face da guerra em Gaza

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Por Douglas Barreto da Mata

Não sou fã de Nelson Rodrigues, a quem considero um plagiador desbocado de Freud, e que assim construiu uma psicanálise de botequim (não que eu ache isso ruim) que só chamava atenção pela obscenidade…

Mais ou menos como os jargões freudianos, sempre mal entendidos, e mediados por uma lascívia barata.

Aviso que também não comungo das ideias do vienense, mas é preciso respeito à obra, coisa que Rodrigues e outros enrustidos da brigada conservadora brasileira não terão nunca.

Nelson Rodrigues é tão obsceno quanto Jair Bolsonaro comendo farofa de boca aberta, ou aparecendo em Angra dos Reis com aquela camisa branca e de sunga.

São o mesmo fenômeno, eu creio.

Mas há frases de Rodrigues que são muito boas, isso não pode negar, como “só o inimigo não trai nunca” ou “invejo a burrice, porque é eterna”.

Nestes tempos bicudos de 140 letras (chamadas de “caracteres”) é preciso cuidado com os idiotas da objetividade…

Rodrigues combatia com todas as forças o pensamento raso, superficial, que sempre que desmascarado se apresenta como “objetivo”, como de “fácil leitura”.

Ora, essa noção carrega um duplo desrespeito, que se retroalimentam para eternizar a burrice:

– O ato de pensar com profundidade, para além das unanimidades (outra categoria atacada por Rodrigues) seria uma afronta ao leitor médio, uma desfeita soberba, já que o leitor médio é sempre incapaz de ir além do óbvio.

Bem, eu discordo, e aqui ombreio Rodrigues para dizer, é preciso ir além da obviedade.

É preciso pensar!

Vamos à vaca fria então…

A mídia por completo, e toda a fauna das redes sociais, está em “transe espumante”…

Lula comparou Netanyahu a Hitler…

“Antissemita”, “louco”, “comunista”…

Arf, dá até pena (de alguns, porque outros são cínicos mesmo)…

Em 1948, ninguém menos que o judeu Albert Einstein, aquele físico da língua de fora, escreveu a Menachem Begin sobre o fascismo do movimento sionista israelense.

Está aqui (Aqui!) para quem tiver interesse.

Os idiotas são incapazes de enxergar que cada ato de diplomacia, cada frase ou discurso, cada movimenta de geopolítica entre países são cuidadosamente estudados, outros nem tanto, é verdade, mas sempre há um nexo causal entre o que acontece e o que houve algum tempo atrás, algo chamado de História, ou processo histórico.

Sabem quem armou e financiou secretamente o Estado Islâmico, aquele grupo que ficou famoso pelas decapitações pela internet, para derrubar o regime sírio?

Pois é, os CIA/EUA

Osama Bin Laden?

Sim, a CIA para que ele agisse contra a então ex-URSS na guerra de ocupação do Afeganistão.

Sabe quem armou o Hamas?

Israel, para que esse grupo pudesse desestabilizar a Autoridade Palestina na Cisjordânia, no processo de negociação do estado palestino.

Lula tem vários defeitos, é verdade, e eu mesmo os sei, e os recito de cor a salteado.

Porém, a burrice não é um deles.

Um dos melhores setores da burocracia lulista é a política exterior, desde Celso Amorim e Garcia (Marco Aurélio).

Lula sabe o que está por trás dos ataques dos EUA aos Houthis (e vice-versa) no Mar Vermelho.

É a necessidade de o governo Biden conferir a ele alguma virilidade, em um conflito-palanque, já que, recentemente, o tema de sua senilidade veio à tona.

Nos EUA pode-se impedir o presidente por senilidade.

Na Ucrânia os EUA (e a Europa) levaram uma surra de Vladmir Putin, que se prepara para deslocar seu interesse em retomar suas posições na Síria, e para ajudar o Irã, os EUA partem para transformar o conflito Israel/Hamas/Iêmen em algo maior.

O cálculo é sempre parecido, já que guerras dão popularidade e grana às petrolíferas.

Então, como não são capazes de “vencer guerras” (na verdade, desde 1945, ninguém foi, de fato), as grandes potências agem para pulverizar e ampliar os estragos da instabilidade, em outras palavras, quanto maior a bagunça, melhor.

Lula e seu time já perceberam que a atual ordem ocidental está em frangalhos, e como o Brasil não tem peso para apitar nada mesmo, resta a ele a retórica (e isso ele é ótimo) para se alinhar e buscar um lugarzinho na janela no ônibus da nova ordem mundial, que falará chinês, é claro.

Por exemplo, o débil mental argentino, que vociferou impropérios ao dragão, está entalado até a medula com moeda chinesa que vem sendo aceita pelos “hermanos” para pagar soja e carne.

Em troca, os chineses lhes “vendem” manufaturas de todo tipo, em moeda, moeda, moeda?

Chinesa.

Lula sabe que Netanyahu é cachorro quase morto, pois o papel que ele cumpre naquela região está quase no fim, e é por isso que Lula bateu com força no Hitler que trocou a suástica pela Estrela de David.

Então, minha gente, problemas complexos requerem reflexão e não objetividade…

Rio Araguaia está contaminado por agrotóxicos

Níveis de poluição estão acima dos aceitos na União Europeia e podem afetar pessoas e biodiversidade, alertam cientistas

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Descrito cientificamente apenas em 2014, o boto-do-araguaia (Inia araguaiensis) é uma das espécies à mercê dos venenos agrícolas que contaminam o manancial. Foto: Rio Cicica / Creative Commons

Por Aldem Bourscheit  para ((o))eco

O Rio Araguaia flui por aproximadamente 2.100 km desde a Serra do Caiapó, próxima ao Parque Nacional das Emas, em Goiás, depois avança por entre os estados do Mato Grosso, Tocantins e Pará até desaguar no Rio Tocantins. Esse, por sua vez, é conectado à Baía do Marajó, próxima à capital paraense.

Frente de desenvolvimento econômico convencional, a bacia do Araguaia é uma das regiões mais devastadas do Cerrado nos últimos anos, mostra um sistema de alerta para desmatamentos mantido por Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), MapBiomas e Universidade Federal de Goiás (UFG).

A eliminação da vegetação natural para ampliar as lavouras de soja e de outros itens exportados e consumidos no país compromete não só a quantidade de água, inclusive para o agronegócio, como também aumenta a poluição dos rios por agrotóxicos. 

Dito e feito, cientistas publicaram um estudo na revista Environmental Advances mostrando que as porções média e alta do Rio Araguaia têm níveis de atrazina, carbendazim, cianazina, imidacloprida, 2,4-D, clomazone, clorpirifós etil e imazalil acima dos aceitos na União Europeia. 

“Ficou evidente que a maioria das sub-bacias tinha concentrações de pesticidas na água que excediam os níveis de segurança para consumo humano”, destaca o trabalho, de pesquisadores das universidades Federal e Estadual de Mato Grosso, Federal de Goiás e Federal de Santa Maria (RS).

O Brasil tolera taxas bem maiores desses herbicidas, fungicidas e inseticidas em fontes de água potável, definidas em resoluções do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama). Ano passado e baseada em dados do Ministério da Saúde, a Repórter Brasil encontrou 27 agrotóxicos na água usada pela população de 210 municípios brasileiros.

Mas além das pessoas, a biodiversidade também pode pagar um alto preço pelo uso galopante de venenos agrícolas no país. “Os pesticidas amostrados foram associados a anomalias no desenvolvimento ontogenético, doenças e mortalidade de organismos”, ressalta o estudo. 

Um levantamento da FAO, sigla em Inglês da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, baseado em dados de 2021, mostrou que o Brasil já usa uma quantidade maior de agrotóxicos do que as dos Estados Unidos e da China somadas, noticiou o site Brasil de Fato. 

Naquele ano, lavouras brasileiras receberam 719,5 mil toneladas de venenos. No mesmo período, a China, que tem sete vezes mais habitantes que o Brasil, aplicou 244 mil toneladas, enquanto os Estados Unidos usaram 457 mil toneladas. Juntos, os dois países despejaram 701 mil toneladas de agrotóxicos, ou 97,5% do usado pelo Brasil.

Para reduzir os danos causados por agrotóxicos à biodiversidade e aos brasileiros, os pesquisadores sugerem no artigo na Environmental Advances revisar para baixo os limites aceitos desses venenos na água potável e melhorar o monitoramento da contaminação nas bacias hidrográficas nacionais.


Este texto foi originalmente publicado pelo jornal  ((o))eco [Aqui!].

Mar avança e preocupa praias da Região Norte Fluminense

Assim como Atafona, Farol, Macaé e Rio das Ostras também sofrem com erosão

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Atafona|Avanço do mar é conhecido mundialmente (Foto: Josh)

Por Ocinei Trindade para o J3News

Na praia do Farol de São Thomé, em Campos dos Goytacazes, uma família vai à região do Lagamar durante o verão, mas não consegue entrar no mar agitado. O avanço do mar tem destruído parte da orla, ameaçado a vegetação, construções e a estrada. A faixa de areia está cada vez mais reduzida. A constatação é de pesquisadores que estudam o fenômeno no Norte Fluminense. Estima-se que nos últimos 30 anos, trechos da praia campista perderam até 130 metros de faixa de areia. O processo erosivo mais conhecido ocorre em Atafona, São João da Barra, desde os anos 1960. Entretanto, grande parte do litoral do Rio de Janeiro e do Brasil sofre com o avanço do mar. Isto compromete cidades e parte do meio ambiente. Para combater o problema, ações governamentais são necessárias, mas pouco tem sido feito.

Farol de São Thomé|Estrada já foi destruída

A reportagem conversou com alguns moradores da localidade. Eles dizem que o avanço do mar em Farol tem piorado nos últimos anos. “Quando tem ressaca forte, a gente sente mais o perigo”, conta Maria Kelly Pereira que vive próximo à praia com a família. A estrada da orla vem sendo danificada com as ondas, o que dificulta o trânsito. Um bosque e algumas casas estão ameaçadas na região do Lagamar. O secretário de Defesa Civil de Campos, Alcemir Pascoutto, diz que o governo municipal está atento ao avanço, e que tem buscado prováveis soluções por meio de pesquisas e estudos científicos, além de parcerias com órgãos das esferas estadual e federal.

“Nós tivemos um recuo da orla em direção ao continente de cerca de 120, 130 metros. A Defesa Civil vem trabalhando, principalmente nos períodos de ressacas onde temos destruição de estrada. Estamos buscando fazer um novo traçado. Em momentos de ressaca, o mar já consegue atravessar a pista e provocar danos maiores em estruturas, inclusive prédio público no Lagamar. Nós temos ali um centro médico. Se nenhuma medida for tomada, logo estaremos sendo atingidos diretamente com os efeitos das ressacas”, comenta o secretário. Ele também destacou o avanço do mar em outra extremidade da praia, a 12 quilômetros dali, no acesso à localidade Maria Rosa e Lagoa do Açu, que se encontra interditado parcialmente.

No fim do ano passado, a prefeitura promoveu um encontro sobre desastres naturais e erosão costeira na orla marítima de Campos. Participaram representantes de cidades da região, do Instituto Estadual do Ambiente (Inea), Departamento de Estradas de Rodagem (DER-RJ) e também da Capitania dos Portos de São João da Barra. O geógrafo marinho Eduardo Bulhões, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) é referência no assunto. Ele apresentou uma série de estudos sobre o avanço do mar na região:

Macaé

“Entre São Francisco do Itabapoana e Rio das Ostras, temos um litoral de aproximados 200 km. Podemos constatar para esse litoral que 32% estão em erosão, outros 34% estão em acreção (aumento gradual devido à acumulação de sedimentos) e outros 33% encontram-se em estabilidade. Ou seja, um terço da linha de costa da região sofre algum grau de erosão, seja ele mais ou menos intenso. Campos, por exemplo, está em primeiro lugar, uma vez que 58% da orla apresentam algum grau de erosão quando são comparados dados dos últimos 40 anos. Enquanto isso, no mesmo período, Macaé tem apenas um trecho de aproximados 3 km (9%) com tendência erosiva”, explica.

Pesquisas sobre erosão

De acordo com Eduardo Bulhões, quanto à intensidade do fenômeno erosivo, a condição mais crítica é quando as taxas de erosão são superiores a cinco metros por ano, condição chamada de erosão extrema. No mundo, apenas 4% das praias apresentam esse padrão e aqui na região esse percentual é pequeno, de 1,5% e está concentrado em posições junto à foz do Rio Paraíba do Sul, na localidade de Atafona e na Ilha da Convivência.

“Quanto às causas da erosão, devemos lembrar que sempre há um desequilíbrio no volume de areias em consequência das perdas serem superiores ao suprimento desses materiais para o segmento de praia específico em questão. Esse desequilíbrio pode ter várias causas, mas está associado principalmente à incapacidade da praia se recuperar após um evento específico e esporádico de ressaca. Isso é mais comum em praias urbanas. Está associado a uma interrupção parcial, ou total, no transporte de areia que chega e se movimenta ao longo do litoral. Isso está normalmente ligado à construção de barragens em rios (gerando redução nas vazões líquidas e sólidas); atividades de mineração de areias nos leitos fluviais e/ou construção de grandes estruturas costeiras, como espigões, molhes, guias-correntes”, diz o pesquisador da UFF.

O biólogo marinho Carlos Rezende é especialista em oceanografia química e professor da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf). Ele considera que o avanço do mar possui especificidades em cada região. “Estamos em um período definido como Antropoceno, no qual as atividades humanas são responsáveis por transformações planetárias significativas. As regiões costeiras merecem atenção especial devido à sua história de colonização e atividades econômicas. A interface entre o continente e o oceano enfrenta uma pressão considerável devido à ocupação humana, uma vez que 21% e 40% da população mundial vivem respectivamente a 30 km e 100 km da costa. As principais causas incluem urbanização com ocupação irregular, agricultura, aquicultura, portos e controle hidrológico das bacias de drenagem para usos múltiplos. Esses são os principais fatores que desestabilizam o equilíbrio dinâmico da região costeira, desenvolvido ao longo do Holoceno (aproximadamente 11 mil anos), e agravado pelo aumento do aquecimento global e do nível do mar”.

Carlos Rezende vê com preocupação o processo erosivo no estuário do Rio Paraíba do Sul. “Isto se alonga por décadas e nada foi feito pelo Município, Estado ou União. Reconheço que é um rio federal com um grande comitê criado em 1997 (Integração da Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul) e um comitê criado em 2009 (Bacia da Região Hidrográfica do Baixo Paraíba do Sul e Itabapoana). Precisamos que estes comitês também se posicionem com mais força para termos ações concretas. Considero que o controle da vazão, com uma redução ao longo do tempo de aproximadamente 50% para o uso na bacia, iniciou estes eventos erosivos na costa, onde vários quarteirões desapareceram e depois as alterações climáticas vieram para aprofundar este processo, gerando eventos extremos de grande intensidade. O município de Macaé apresenta um elevado nível de vulnerabilidade devido ao rápido processo de urbanização motivado pelas atividades de prospecção de petróleo. O Brasil possui um extenso litoral, com diversas cidades em áreas vulneráveis. No caso do estado do Rio de Janeiro, cerca de 11 milhões de pessoas estão em risco, e nas 12 maiores cidades costeiras brasileiras, mais de 19 milhões estão em situação vulnerável devido ao aumento do nível do mar. É uma discussão importante, especialmente neste momento em que tratamos das próximas eleições. Nunca incluímos nos planos de governo metas claras para lidar com as questões relacionadas às adaptações das cidades diante das mudanças climáticas”, avalia.

O geógrafo e pesquisador da Uenf, Marcos Pedlowski, atenta para um estudo do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo que mostrou que o nível do mar no litoral paulista subiu cerca de 20 centímetros nos últimos 73 anos. “Esse mesmo estudo apontou que  até 2050 a elevação pode chegar a 36 centímetros se o padrão de emissão de dióxido de carbono (CO2) não cair. Se extrapolarmos os dados desse estudo para o Rio de Janeiro, provavelmente poderemos ter mais mudanças em um ritmo mais rápido do que o atual. No caso do Norte Fluminense, penso que os pontos de erosão costeira poderão aumentar em número e intensidade. O futuro será marcado por interações complexas entre fenômenos de caráter local e os de níveis regional e global. O alarme de urgência para que sejam desenvolvidas políticas urbanas de adaptação climática já deveria ter soado.  É uma situação muito preocupante, na medida em que as estruturas necessárias para a adaptação são muito caras e implicam em grandes investimentos.  A situação é agravada pela predominância de um modelo de urbanização que é social, economicamente e racialmente segregado. As próximas décadas serão marcadas por grandes dificuldades, especialmente para os segmentos mais pobres da população. A construção de barreiras físicas para fazer frente ao processo de erosão costeira já está sendo feita em diversas partes do mundo, inclusive no Brasil. No entanto, se não houver um processo de planejamento integrado, a construção de estruturas físicas não passará de mero paliativo, representando ainda desperdício de dinheiro público”, observa. 

As entrevistas completas com os pesquisadores da UFF e da Uenf estarão disponíveis no site do J3News ao longo da semana.

Ações governamentais na região

Rio das Ostras|

Nas últimas décadas, o avanço do mar em cidades como Campos, Macaé, São Francisco de Itabapoana, Rio das Ostras e São João da Barra, entre outras, tem provocado prejuízos urbanos e ambientais. A reportagem questionou os governos municipais sobre medidas de enfrentamento do processo de erosão no litoral. O Instituto Estadual do Ambiente, que representa o governo estadual, também foi indagado acerca de ações na região. Em nota, o Inea informou apenas que “a Secretaria de Estado de Habitação está em tratativas com o Governo Federal para as obras de intervenções necessárias para conter o avanço do mar em Atafona”. Saiba como se posicionam algumas prefeituras, a seguir.

São João da Barra
O processo de erosão costeira das últimas seis décadas na praia de Atafona e, mais recentemente, na praia do Açu vem ocasionando impactos negativos ao meio ambiente e à economia. Em nota, a prefeitura diz que “tem buscado junto aos órgãos estaduais e federais soluções eficazes para enfrentar a questão. Algumas propostas foram apresentadas, porém são necessárias comprovações e modelagens dos impactos, bem como a verificação de sua eficiência através de um estudo sobre o processo da erosão costeira, levando em consideração suas múltiplas influências e a dinâmica das mudanças climáticas. Com o diagnóstico atualizado será possível adotar ações de curto, médio e longo prazo”.

Macaé
A Secretaria de Defesa Civil informou que monitora os imóveis que estão localizados na poligonal de risco da praia da Fronteira, onde a erosão é maior. “Foram demolidos 40 imóveis e 13 estão a demolir. Há 67 processos para análise em seguimento, e 27 imóveis com moradores resistentes à adesão de demolição. A Defesa Civil realiza trabalho de monitoramento diariamente”.

São Francisco de Itabapoana
De acordo com a secretária de Meio Ambiente, Luciana Sofiatti, os efeitos do avanço do mar são sentidos em menor escala, se comparados aos municípios vizinhos. “Estamos monitorando frequentemente através do grupo de trabalho instituído para elaboração do Plano Municipal de Gerenciamento costeiro. Nos últimos anos, tivemos alguns registros de eventos isolados de erosão costeira/ marinha, sem grandes prejuízos, e que logo foram controlados através de ações integradas entre diversas secretarias do município”.

Rio das Ostras
A Prefeitura de Rio das Ostras deu início à elaboração do Termo de Referência, documento que reúne estudos técnicos preliminares, para licitar serviço de consultoria especializada com o objetivo de identificar as causas da erosão e da progradação (processo natural de ampliação das praias provocado pelo mar). “O passo seguinte será a elaboração de Estudo de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental (EVTEA) para a mitigação dos impactos negativos da erosão costeira que engloba as praias da Tartaruga e do Abricó. Isto visa fundamentar, por meio de análise sistêmica de diferentes variáveis sociais, ambientais, econômicas e técnicas, a alternativa mais adequada para orientar a construção de medidas mitigadoras e compensatórias desses impactos”, conclui a nota.


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Este texto foi originalmente publicado pelo J3News [Aqui!].

Fabricantes de venenos agrícolas fazem lobby para impedir banimento de agrotóxico letal às abelhas

Syngenta e Ourofino colocam evidências de lado para garantir vendas do tiametoxam, agrotóxico fatal para abelhas

abelhas fipronil

Por Helen Freitas para a Repórter Brasil

O governo está prestes a decidir se restringe ou não o uso de um dos piores inimigos das abelhas no Brasil, o tiametoxam. Esse agrotóxico é considerado por ambientalistas e cientistas uma ameaça à biodiversidade, razão pela qual foi proibido na Europa e restringido no Canadá.

As fabricantes, porém, deixam de lado pesquisas científicas sobre o impacto às abelhas e pressionam órgãos reguladores para manter o uso no Brasil, alegando riscos econômicos ao agronegócio.

Aplicado para o controle de pragas em diversas lavouras, o tiametoxam está em reavaliação no país há dez anos. Esse período ficou marcado pelo lobby das fabricantes em várias frentes em Brasília, e também pelas discussões sobre a nova lei dos agrotóxicos, que pode mudar as regras do jogo e reduzir o peso do Ibama nas decisões sobre agrotóxicos.

A pressão é liderada pelas duas fabricantes no país, a multinacional de origem suíça Syngenta e a brasileira Ourofino, com apoio de associações do agronegócio e da Frente Parlamentar da Agropecuária, a chamada “bancada ruralista” do Congresso.

Só a Syngenta anexou mais de 30 estudos ao processo de reavaliação, na tentativa de comprovar a segurança do produto aos insetos. A empresa argumenta que o tiametoxam não representa risco se aplicado conforme a bula, e diz que as fabricantes têm se empenhado na capacitação de aplicadores.

Mas o Ibama diz que esses estudos não afastaram todas as suspeitas envolvendo o tiametoxam. Para o órgão ambiental, os treinamentos e as orientações contidas em bula são insuficientes para proteger as abelhas

Em dezembro passado, o Ibama manifestou-se a favor de restringir o tiametoxam em 25 cultivos diferentes, como cana-de-açúcar, soja e milho. Na decisão, o Ibama diz que a substância “representa um alto nível de preocupação aos polinizadores”, sendo “400 vezes mais tóxico do que o limite necessário para enquadrar esse agente como altamente tóxico às abelhas”.

A decisão final fica a cargo de uma comissão formada por Ibama, Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e Anvisa. Os três órgãos têm até 22 de fevereiro para bater o martelo.

Abelhas desorientadas

A pressão da indústria vai na contramão do que vem sendo decidido em outros países. Em 2018, o tiametoxam foi proibido na União Europeia, após pesquisas comprovarem sua letalidade para as abelhas. Esses insetos atuam como agentes polinizadores e são essenciais à reprodução de diversas espécies de plantas.

Após a proibição na Europa, o Brasil virou um dos principais mercados para a Syngenta, a maior fabricante mundial. Só em 2021, mais de 6 mil toneladas foram exportadas ao país, segundo dados da organização suíça Public Eye e da agência de jornalismo Unearthed.

Mas no Brasil, os efeitos dos pesticidas seriam ainda piores. De acordo com um estudo feito por três universidades brasileiras – Ufscar, Unicamp e Unesp –, as abelhas nativas brasileiras são mais sensíveis ao tiametoxam do que as espécies adotadas nas pesquisas encomendadas pela indústria.

“A agricultura é uma riqueza brasileira, mas a biodiversidade também. É preciso harmonizar isso”, defende a bióloga Roberta Nocelli, pesquisadora da Ufscar e uma das responsáveis pelo estudo. “As restrições [ao tiametoxam] são adequadas, porque esse é um produto tóxico”, afirma.

O tiametoxam faz parte de um grupo de inseticidas à base de nicotina, conhecidos como neonicotinóides. Segundo Nocelli, a substância atinge o sistema nervoso central das abelhas, fazendo com que elas fiquem desorientadas. Causa também sequelas ao sistema imunológico, digestivo e de aprendizagem das abelhas, em muitos casos levando à morte.

A substância é suspeita ainda de causar problemas no sistema reprodutivo humano e no desenvolvimento de fetos, segundo a Agência Europeia dos Produtos Químicos.

Bula e treinamentos

Não é a primeira vez que o Ibama tenta restringir o uso do tiametoxam. Em 2012, o órgão ambiental proibiu a aplicação do pesticida por meio de aviões agrícolas. Chamada de pulverização aérea, essa técnica é a mais danosa às abelhas, já que dispersa resíduos do agrotóxico pelo ar, a longas distâncias.

Na época, as empresas conseguiram reverter a decisão do órgão ambiental. Mas a aplicação aérea voltou a ser permitida apenas para algumas plantações.

A indústria defende como solução o treinamento para quem aplica agrotóxicos, além da criação de zonas de segurança onde o produto não poderia ser aplicado.

“Acreditamos que, por meio de treinamentos realizados no campo e de cursos online gratuitos, é possível disseminar boas práticas e orientar sobre a adequada utilização dos produtos”, diz a Syngenta, em nota enviada à Repórter Brasil.

A empresa declara que “gerou e aportou no processo de reavaliação do tiametoxam resultados de anos de estudos, que tiveram a participação de diversos pesquisadores que trouxeram bases científicas sólidas para demonstrar a segurança do produto”. Leia a resposta completa.

Já a Ourofino não atendeu a reportagem. Em seu site, a empresa argumenta que o tiametoxam pode ser considerado seguro para os insetos polinizadores com a implementação de medidas de mitigação de risco, mas isso “depende também da cooperação ativa dos agricultores”.

Para o Ibama, as bulas e os treinamentos são importantes, mas não afastam o risco às abelhas. “As informações em bula podem não ser suficientes para o uso seguro dos produtos, tanto pela ausência de especificações detalhadas, como por possível dificuldade dos aplicadores em compreender seu conteúdo”, diz o órgão no parecer em que recomenda a restrição ao tiametoxam.

Culpar os agricultores pelos efeitos dos agrotóxicos é uma estratégia da indústria de minimizar sua responsabilidade, avalia a nutricionista e pesquisadora Vitoria Moraes, analista técnica da organização ACT Promoção da Saúde. “O que elas mais fazem é tentar colocar a culpa no indivíduo, usando estudos com metodologias questionáveis e que não representam a vida real”, diz ela, a respeito das condições de aplicação de agrotóxicos no dia-a-dia dos agricultores.

“Mesmo utilizando adequadamente o tiametoxam, com todas as regras, você não pode afirmar que não vai haver mortalidade de abelhas”, afirma Nocelli, da Ufscar.

Impactos ao agro

Após ser publicado em setembro, o parecer do Ibama foi submetido a consulta pública, o que movimentou o lobby do agro em Brasília. As duas fabricantes criaram páginas específicas sobre o agrotóxico, incluindo orientações para pessoas físicas se manifestarem no processo.

Havia até a sugestão de uma frase comum para ser incluída nas manifestações: “Em atenção às conclusões da ARA [Avaliação de Risco Ambiental] contidas na Tabela 1 para a cultura xxx”. A Repórter Brasil identificou 633 respostas (40% do total) contendo exatamente as palavras propostas pelas empresas.

Embora a análise do Ibama se concentre nas abelhas, o principal argumento das empresas é o impacto econômico de uma eventual proibição. Elas dizem que o agronegócio brasileiro poderá sofrer uma queda de até 30% na produtividade.

A restrição também acarretaria, segundo as companhias, em aumento de custos para agricultores, perda de empregos no campo e queda na arrecadação de impostos da ordem de R$ 44 bilhões por ano.

O roteiro foi o mesmo utilizado nos debates envolvendo o paraquate — agrotóxico proibido pela Anvisa em 2020 pelo risco de causar mutações genéticas e doença de Parkinson.

Na época, a indústria também apresentou estimativas de queda na produção de soja. Mas a realidade foi outra, com a safra batendo recorde no ano passado.

Para Nocelli, os números do setor estão superestimados. “As empresas estão puxando a sardinha, porque têm uma postura comercial sobre o assunto”.

Moraes, da ACT, lembra ainda que os dados não consideram os impactos econômicos ao Sistema Único de Saúde e previdenciário, em razão do uso de agrotóxicos. “A longo prazo, essa cadeia produtiva pode sobrecarregar o sistema de saúde e gerar o afastamento do agricultor, aumentando o orçamento público para cobrir custos de doenças que poderiam ser evitadas”.

Nova Lei dos Agrotóxicos

A reavaliação do tiametoxam pode ser uma das últimas seguindo as regras atuais. O Congresso aprovou em dezembro a nova lei dos agrotóxicos, que concede ao Ministério da Agricultura a palavra final no que se refere à aprovação de pesticidas.

Historicamente liderada por empresários do agronegócio, seja em governos considerados de direita ou de esquerda, a pasta é vista como complacente aos argumentos da indústria e, por isso, tende a se manifestar favoravelmente aos pleitos do setor.

Ao sancionar a nova lei, o presidente Lula vetou o trecho que concede ao Mapa a palavra final, restituindo o poder do Ibama e da Anvisa. Mas a bancada ruralista já afirmou ter os votos necessários para reverter a decisão presidencial.

Caso isso aconteça, o Ibama e a Anvisa, que fazem análises técnicas do ponto de vista ambiental e de saúde, perderiam poder de influência nas decisões envolvendo agrotóxicos. E as abelhas ficariam sem aliados importantes para sua proteção.


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Este texto foi publicado pelo jornal “Brasil de Fato” [Aqui!].

Rodovia BR-319: O perigo chega a um momento crítico

BR 319

Por Philipe M. Fearnside

A reconstrução da rodovia brasileira BR-319 (Manaus-Porto Velho) (Figura 1) e seus projetos ocultos associados ainda não são um fato consumado , mas o perigo atingiu um momento crítico. Em novembro de 2023, o presidente Lula criou um grupo de trabalho (GT) da BR-319 organizado pelo Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNIT) para considerar quais medidas podem ser adotadas para tornar a reconstrução da BR-319 ambientalmente sustentável. Em dezembro, o projeto foi adicionado ao Plano de Desenvolvimento Regional da Amazônia (PRDA ) para 2024-2027, e a Câmara dos Deputados promoveu um projeto de lei com status “urgente” para acelerar uma medida que obrigaria o órgão licenciador (IBAMA) a aprovar o projeto de reconstrução da BR-319 e autorizar o governo federal a financiá-lo. Os grupos de interesse envolvidos têm votos mais que suficientes para aprovar isso: em fevereiro de 2024, a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) controlava sozinha 324 dos 513 assentos na Câmara dos Deputados (63%) e 50 dos 81 assentos no Senado ( 62%).

Em janeiro de 2024, o Secretário Executivo do Ministério dos Transportes garantiu ao GT BR-319 que é compromisso do presidente Lula reconstruir a BR-319. O relatório final da BR-319 GT está previsto para fevereiro de 2024, e deve ser divulgado nos próximos dias. Em sua fala ao GT-BR-319, o Secretário Executivo do Ministério dos Transportes afirmou que o objetivo do relatório do GT é identificar “as formas de resolver o licenciamento ambiental”, ou seja, justificar a aprovação da instalação licença para o projeto de reconstrução da BR-319. Não há claramente nenhuma intenção por parte do grupo de trabalho de produzir uma análise neutra para considerar a questão de saber se o impacto seria justificável e se o projecto deveria avançar após as medidas de mitigação propostas.

Figura 1. Rodovia BR-319 e vicinais planejados associados, como AM-366 e AM-343, abrindo a região Trans-Purus à entrada de desmatadores. As áreas cinzentas ao longo das rotas planejadas da AM-366 e AM-343 estão registradas até 2021 no Cadastro Ambiental Rural (CAR), ou seja, áreas reivindicadas por grileiros em antecipação à construção dessas estradas ligadas à BR-319 ( nenhuma dessas reivindicações é da população residente local, pois as pessoas que vivem às margens dos rios nessas áreas não têm acesso à Internet e não possuem habilidades técnicas para fazer reivindicações de CAR georreferenciadas on-line). Fonte: AM Yanai.
Figura 1. Rodovia BR-319 e vicinais planejados associados, como AM-366 e AM-343, abrindo a região Trans-Purus à entrada de desmatadores. As áreas cinzentas ao longo das rotas planejadas da AM-366 e AM-343 estão registradas até 2021 no Cadastro Ambiental Rural (CAR), ou seja, áreas reivindicadas por grileiros em antecipação à construção dessas estradas ligadas à BR-319 ( nenhuma dessas reivindicações é da população residente local, pois as pessoas que vivem às margens dos rios nessas áreas não têm acesso à Internet e não possuem habilidades técnicas para fazer reivindicações de CAR georreferenciadas on-line). Fonte: AM Yanai.

Embora o BR-319 GT discuta como tornar a BR-319 “ambientalmente sustentável”, é importante deixar claro que isso não acontecerá. As medidas a serem adotadas aliviariam apenas um pouco o impacto ao longo da rota entre Manaus e Humaitá, enquanto impactos muito maiores afetariam vastas áreas distantes da própria estrada e não seriam controlados mesmo que o presidente do Brasil e os governadores dos estados tivessem isso como sua primeira prioridade. Esses impactos sequer foram considerados no Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e não fazem parte das atuais discussões organizadas pelo DNIT. A BR-319 traria grileiros, pecuaristas, agricultores e madeireiros da região da AMACRO, que hoje é um dos principais focos de desmatamento na Amazônia (Figura 2). Esses atores poderiam se espalhar por toda a área já ligada a Manaus por estradas e às enormes áreas que seriam abertas por estradas planejadas para serem ligadas à BR-319, como a AM-366. As áreas que receberão esses desmatadores incluem Roraima , que é famoso por ser o estado com menor controle ambiental. A AM-366 abriria a região Trans-Purus – a vasta área florestal no estado do Amazonas a oeste do rio Purus.

A região do Trans-Purus inclui a maior área da Amazônia de terras públicas não designadas , que são as mais atrativas para grileiros e outros invasores. As estradas vicinais que ligariam à BR-319, como a AM-366, fazem parte do impacto do projeto da BR-319, embora os políticos finjam que este é um problema à parte. Não é separado, e o lobby dos Amigos da BR-319 ” já pressiona pela AM-366. As estradas vicinais seriam rodovias estaduais, o que significa que escapam do licenciamento federal e seriam aprovadas pelo órgão ambiental do estado do Amazonas, muito mais flexível. Isto oferece pouca proteção, já que o governador pode efetivamente ordenar que a agência aprove o que ele quiser. Isso ficou constrangedoramente claro em 2017, quando garimpeiros ilegais incendiaram os escritórios dos órgãos ambientais federais em Humaitá (na rodovia BR-319), momento em que o governador declarou seu apoio à legalização da mineração e o órgão estadual simplesmente autorizou os incêndios criminosos para continuarem suas atividades de mineração. Vários grupos de interesse poderosos se beneficiariam com a AM-366, incluindo empresas de gás e petróleo (veja aqui e aqui ), pecuaristas e grupos de agronegócio da região da AMACRO , agricultores organizados sem terra (veja aqui e aqui ) e grileiros (ver Figura 1). ). O que acontece depois de se fornecer acesso rodoviário está em grande parte fora do controle do governo federal .

Figura 9. Incêndio na região da AMACRO em agosto de 2022 (Foto: Nilmar Lage/Greenpeace, 30 de agosto de 2022).
Figura 2. Queimadas na região da AMACRO, principal foco de desmatamento onde se encontram os estados do Amazonas, Acre e Rondônia, que será conectado a vastas áreas de floresta intacta pela BR-319 e estradas associadas. Pode-se esperar que os actores e processos desta região se desloquem para áreas abertas pelo projecto. Foto: Nilmar Lage/Greenpeace/30/08/2022

Um dos temas em discussão é a criação de unidades de conservação (áreas protegidas para a biodiversidade). Isso é bom, e muitos deles deveriam ser criados rapidamente, antes que as áreas sejam invadidas e desmatadas. Algumas dessas áreas deveriam ser do tipo “proteção integral”, mas a maioria poderia ser da categoria de “uso sustentável”, desde que não sejam “áreas de proteção ambiental” (APAs), que permitem propriedades privadas e oferecem quase nenhuma proteção. . Todas as áreas florestais públicas não designadas deveriam ser convertidas em unidades de conservação ou terras indígenas, e nada legalizado como propriedade privada. Isso não deverá ocorrer apenas ao longo da BR-319, mas em toda a área impactada, incluindo a região Trans-Purus.

Parte da discussão é sobre experiências internacionais com estradas que cortam áreas preservadas, que são vistas como modelos para a BR-319. Exemplos internacionais têm sido usados ​​como argumento de que declarar a BR-319 uma “estrada parque” eliminaria o desmatamento. Infelizmente, esta noção é completamente irrealista no contexto da fronteira amazônica. O primeiro EIA da BR-319 (produzido em 2009 e posteriormente substituído pelo atual EIA) apresentou o Parque Nacional de Yellowstone, nos EUA, como exemplo do que se esperava para a BR-319 com “governança”. Incluía (p. 205) um mapa das estradas de Yellowstone, por onde circulam milhões de turistas e ninguém derruba uma única árvore. Seria difícil exagerar a irrealidade deste cenário para a BR-319. Este discurso continua: em agosto de 2023 o Ministro dos Transportes declarou que a BR-319 será “a rodovia mais sustentável e verde do planeta”. Os desmatadores atraídos pela BR-319 não se comportam como turistas, e a governança” imaginada não os controla na prática.

O melhor exemplo é a reconstrução da rodovia BR-163 (Santarém-Cuiabá), licenciada em 2006 com base na hipótese de que o “Plano BR-163 Sustentável” evitaria o desmatamento. Esse programa incluiu 32 organizações não governamentais mais o governo federal e contou com a participação de alguns dos melhores ambientalistas e acadêmicos do país. A então ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, declarou que a BR-163 seria um “corredor de desenvolvimento sustentável”. A história real que se desenrolou não acompanhou esse cenário: a área se tornou, e ainda é, um dos maiores focos de desmatamento, grilagem de terras, extração ilegal de madeira e mineração “selvagem” da Amazônia. Em 2019, um “ dia do fogo foi organizado a partir de Novo Progresso, na BR-163, quando fazendeiros de toda a Amazônia concordaram em queimar no mesmo dia para mostrar ao presidente Bolsonaro que estavam “desenvolvendo” a Amazônia. A BR-163 gerou as invasões da Terra Indígena Baú , a grilagem de terras na Floresta Nacional do Jamanxim , e as estradas vicinais que dão acesso à metade ocidental da Terra do Meio (uma área florestal do tamanho da Suíça).

BR-230, também conhecida como Rodovia Transamazônica; a rodovia R-163 Cuiába-Santarém; e a rodovia BR-319 Manaus-Porto Velho, mostrada aqui, são estradas oficiais que atravessam a Amazônia e geraram uma rede de ramificações ilegais. Imagem cortesia do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT).

Os riscos no projeto de reconstrução da BR-319 são enormes, e o governo brasileiro não tem e não terá capacidade de conter os impactos num horizonte de tempo que vai muito além de qualquer mandato político. O custo seria astronômico para controlar a situação em toda a área que receberia os impactos. Qual é o plano para controlar o desmatamento em Roraima e na região Trans-Purus? Os riscos colocam em risco os interesses nacionais mais básicos do Brasil, incluindo a sustentação da cidade de São Paulo . A floresta da região Trans-Purus, ameaçada pela AM-366, AM-343 e outros projetos ligados à BR-319, é a principal fonte de água da maior cidade do país, e a reciclagem de água através da floresta em essa área é fundamental para fornecer vapor d’água aos ventos conhecidos como “ rios voadores ” que levam água para o Sudeste brasileiro, onde fica São Paulo. Pesquisas indicam que 70% da água da bacia hidrográfica que inclui São Paulo vem da Amazônia . Manter a floresta na área ameaçada pelo projeto BR-319 também é fundamental para evitar que o aquecimento global ultrapasse um ponto crítico e escape ao controle humano, o que seria catastrófico para o Brasil , levando a grandes secas e incêndios, inundações, perda da Amazônia florestal, desertificação da região Nordeste do país, grandes tufões e elevação do nível do mar na costa brasileira, grandes perdas para o agronegócio e a agricultura familiar e temperaturas insuportáveis ​​para a população humana em muitas localidades.

Os benefícios da BR-319 têm sido incessantemente exagerados. A rodovia não é economicamente justificável, pois o transporte de produtos das fábricas da Zona Franca de Manaus para os mercados da região Sudeste é muito mais barato por via fluvial do que pela rodovia. A BR-319 é ​​o único grande projeto de infraestrutura do país que não possui Estudo de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental ( EVTEA ), ou seu antecessor, o Estudo de Viabilidade Técnica e Econômica (EVTE). Apesar do longo histórico de desculpas para não ter um EVTE, o verdadeiro motivo é óbvio: o projeto não é economicamente viável , mesmo sem considerar os seus enormes custos ambientais. O primeiro EIA (p. 216) chegou a admitir que “ representantes das indústrias de Manaus indicaram que, no momento, a rodovia teria pouca importância para o Pólo Industrial de Manaus” . Não se deve deixar enganar pelo discurso político sobre uma utopia de governação inexistente. Arriscar os impactos deste projeto é muito perigoso.

Uma versão anterior deste texto foi publicada em português pela Amazônia Real e em inglês pela Mongabay [Aqui!]. 

Imagem de cabeçalho: imagem gerada mostrando uma estrada através de uma paisagem desmatada.

Proliferação de artigos científicos falsos levam a credibilidade da ciência a um ponto de crise

Em 2023,  10 mil artigos falsos tiveram que ser retirados por revistas científicas, mas os especialistas acham que isso é apenas a ponta do iceberg

fake science

Artigos científicos falsos podem comprometer o desenvolvimento de medicamentos, alertam os acadêmicos. Fotografia: Westend61/Getty Images

Por Robin McKie para o “The Guardian”

Dezenas de milhares de artigos de investigação falsos estão sendo publicados em revistas científicas, em um escândalo internacional que se agrava todos os anos, alertaram os cientistas. A pesquisa médica está sendo comprometida, o desenvolvimento de medicamentos prejudicado e a investigação académica promissora está em perigo graças a uma onda global de ciência falsa que está varrendo laboratórios e universidades.

No ano passado, o número anual de artigos retratados por revistas científicas ultrapassou os 10.000 pela primeira vez. A maioria dos analistas acredita que o número é apenas a ponta do iceberg de fraude científica .

“A situação tornou-se terrível”, disse a professora Dorothy Bishop, da Universidade de Oxford. “O nível de publicação de artigos fraudulentos está criando sérios problemas para a ciência. Em muitos domínios, está se tornando difícil construir uma abordagem cumulativa de um assunto, porque nos falta uma base sólida de resultados confiáveis. E está ficando cada vez pior.”

O aumento surpreendente na publicação de artigos científicos falsos tem as suas raízes na China, onde os jovens médicos e cientistas em busca de promoção eram obrigados a publicar artigos científicos. Organizações paralelas – conhecidas como “fábricas de artigos” – começaram a fornecer trabalhos fabricados para publicação em periódicos locais.

Desde então, a prática espalhou-se pela Índia, Irã, Rússia, antigos estados da União Soviética e Europa Oriental, com fábricas de  artigos a fornecer estudos fabricados a cada vez mais revistas , à medida em que um número crescente de jovens cientistas tenta impulsionar as suas carreiras alegando falsos experimentos de pesquisas. Em alguns casos, os editores de revistas foram subornados para aceitar artigos, enquanto as fábricas de artigos fraudulentos conseguiram estabelecer os seus próprios agentes como editores convidados, que depois permitem a publicação de centenas de trabalhos falsificados. 


Dra. Dorothy Bishop sentada em um jardim

Dra Dorothy Bishop: ‘As pessoas estão construindo carreiras com base nesta onda de ciência fraudulenta.’ Fotografia: Alicia Canter/The Guardian

“Os editores não estão cumprindo suas funções adequadamente e os revisores não estão fazendo seu trabalho. E alguns estão recebendo grandes somas de dinheiro”, disse a professora Alison Avenell, da Universidade de Aberdeen. “É profundamente preocupante.”

Os produtos das fábricas de papel muitas vezes parecem artigos normais, mas são baseados em modelos nos quais nomes de genes ou doenças são inseridos aleatoriamente entre tabelas e figuras fictícias. É preocupante que estes artigos possam então ser incorporados em grandes bases de dados utilizadas por aqueles que trabalham na descoberta de medicamentos.

Outros são mais bizarros e incluem pesquisas não relacionadas à área do periódico, deixando claro que nenhuma revisão por pares ocorreu em relação a esse artigo. Um exemplo é um artigo sobre a ideologia marxista publicado na revista Computational and Mathematical Methods in Medicine . Outros são distintos por causa da linguagem estranha que usam, incluindo referências a “perigo no seio” em vez de câncer de mama e “doença de Parkinson” em vez de Mal de Parkinson.

Grupos de vigilância – como o Retraction Watch – acompanharam o problema e notaram retratações por parte de revistas que foram forçadas a agir em ocasiões em que foram descobertas invenções. Um estudo, da Nature , revelou que em 2013 ocorreram pouco mais de 1.000 retratações. Em 2022, o número ultrapassou 4.000 antes de saltar para mais de 10.000 no ano passado.

Deste último total, mais de 8.000 artigos retratados foram publicados em revistas da Hindawi, subsidiária da editora Wiley, números que obrigaram agora a empresa a agir. “Vamos encerrar a marca Hindawi e começar a integrar totalmente os mais de 200 periódicos Hindawi no portfólio da Wiley”, disse um porta-voz da Wiley ao Observer .

O porta-voz acrescentou que a Wiley já identificou centenas de fraudadores presentes em seu portfólio de periódicos, bem como aqueles que ocuparam cargos editoriais convidados. “Nós os removemos de nossos sistemas e continuaremos a adotar uma abordagem proativa… em nossos esforços para limpar o histórico acadêmico, fortalecer nossos processos de integridade e contribuir para soluções intersetoriais.”

Mas a Wiley insistiu que não conseguiria enfrentar a crise sozinha, uma mensagem partilhada por outras editoras, que afirmam estar sob o cerco das fábricas de papel. Os pesquisadores permanecem cautelosos, no entanto. O problema é que em muitos países os pesquisadores são pagos de acordo com o número de artigos que publicam.

“Se houver um número crescente de pesquisadores que estão sendo fortemente incentivados a publicar apenas por publicar, enquanto temos um número crescente de periódicos ganhando dinheiro com a publicação dos artigos resultantes, temos uma tempestade perfeita”, disse o professor Marcus Munafo, do Universidade de Bristol. “Isso é exatamente o que temos agora.”

O dano causado pela publicação de pesquisas pobres ou fabricadas é demonstrado pelo medicamento antiparasitário ivermectina. Os primeiros estudos laboratoriais indicaram que poderia ser usado para tratar a COVID-19 e foi aclamado como um medicamento milagroso. No entanto, mais tarde descobriu-se que estes estudos apresentavam evidências claras de fraude e as autoridades médicas recusaram-se a apoiá-los como tratamento para a COVID-19.

“O problema é que a ivermectina foi usada pelos antivaxxers para dizer: ‘Não precisamos de vacinação porque temos este medicamento maravilhoso’”, disse Jack Wilkinson, da Universidade de Manchester. “Mas muitos dos julgamentos que sustentaram essas alegações não eram autênticos.”

Wilkinson acrescentou que ele e seus colegas estavam tentando desenvolver protocolos que os pesquisadores pudessem aplicar para revelar a autenticidade dos estudos que pudessem incluir em seu próprio trabalho. “Alguma grande ciência surgiu durante a pandemia, mas também houve um oceano de pesquisas inúteis. Precisamos de formas de identificar dados deficientes desde o início.”

O perigo representado pela ascensão da fábrica de artigos e de trabalhos de investigação fraudulentos também foi sublinhado pelo professor Malcolm MacLeod, da Universidade de Edimburgo. “Se, como cientista, eu quiser verificar todos os artigos sobre um determinado medicamento que possa ter como alvo o câncer ou casos de AVC, será muito difícil para mim evitar aqueles que são fraudulentos. O conhecimento científico está sendo poluído por material inventado. Estamos enfrentando uma crise.”

Este ponto foi apoiado por Bishop: “As pessoas estão a construir carreiras com base nesta onda de ciência fraudulenta e podem acabar por gerir institutos científicos e eventualmente serem utilizadas por revistas convencionais como revisores e editores. A corrupção está se infiltrando no sistema.”


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].