“Sem os povos da floresta, nenhuma iniciativa de REDD+ funciona”, diz pesquisadora do IPAM

Análise recomenda a participação paritária de povos e comunidades tradicionais em espaços de decisão e acesso a benefícios por proteção ambiental

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Iniciativas pela redução de emissões devem conter mecanismos de proteção aos direitos de povos indígenas e de comunidades tradicionais, recomenda um documento voltado a tomadores de decisão [policy brief, em inglês] lançado nesta quarta-feira, 7, pelo IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia).

O foco da análise está em iniciativas de REDD+ (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal) no bioma Amazônia.

“A intenção é evidenciar os principais obstáculos ao cumprimento das salvaguardas socioambientais de REDD+ na perspectiva dos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais, bem como oferecer sugestões para que os gestores estaduais consigam resolver esses obstáculos quando estiverem implementando seus sistemas jurisdicionais”, diz Raissa Guerra, pesquisadora do IPAM e principal autora do estudo.

Intitulado “Salvaguardas Socioambientais e a Garantia dos Direitos dos Povos da Floresta”, o documento identifica desafios e propõe soluções para o cumprimento das salvaguardas socioambientais – como são chamadas as medidas que podem garantir a inclusão equitativa dessas populações nas estruturas de governança e, assim, reduzir os riscos associados a projetos de compensação de emissões.

“O ano de 2023 bateu recordes de secas extremas, altas temperaturas e enchentes. Essa crise afeta de maneira mais intensa os povos indígenas, evidenciando a injustiça climática sentida por eles. Reverter esse cenário é urgente e, para isso, respeitar as salvaguardas socioambientais é o primeiro passo”, avalia Martha Fellows, coordenadora do núcleo de estudos indígenas do IPAM, também autora.

Os desafios mais citados pelos povos da floresta, quanto à construção dos sistemas de REDD+ estaduais, são apresentados em cinco categorias: participação social; protocolos de consulta; repartição de benefícios; proteção e direito aos territórios; e conflitos internos. Para chegar a esse resultado, as pesquisadoras realizaram oficinas sobre mudanças climáticas e REDD+ nos nove Estados da Amazônia Legal, algumas em parceria com a COIAB (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira).

“Durante as oficinas, nós observamos que povos indígenas, quilombolas, extrativistas e outras populações locais querem mais participação e maior poder decisório na construção e implementação dos sistemas de REDD+. As salvaguardas de Cancun são um primeiro passo, mas mecanismos de proteção mais específicos e adaptados à realidade local precisam ser construídos em conjunto com os grupos envolvidos para a efetiva garantia de direitos e proteção dos territórios e modos de vida tradicionais”, comenta Ariane Rodrigues, pesquisadora do núcleo de estudos indígenas do IPAM e autora.

As salvaguardas de Cancun, citadas por Rodrigues, foram definidas em 2011 no âmbito da UNFCCC (Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima) para garantir o compromisso de iniciativas de REDD+ com povos indígenas e comunidades tradicionais.

Entre as recomendações das pesquisadoras, a partir dos desafios identificados, está a criação de comitês de povos da floresta, com participação paritária, inclusive de gênero, em instâncias consultivas e deliberativas dos sistemas de REDD+ jurisdicionais, bem como a repartição justa dos benefícios econômicos da conservação. O fortalecimento do CIMC (Comitê Indígena de Mudanças Climáticas) e a garantia de acesso aos recursos naturais dos territórios pelos povos e comunidades também estão entre as sugestões.

Este policy brief reforça que sem o cumprimento das salvaguardas socioambientais e sem os povos da floresta, nenhuma política de REDD+ funciona, seja nos projetos privados, seja nos jurisdicionais. É importante que tomadores de decisão consigam estruturar seus Estados para incluir essas pessoas no mecanismo de REDD+. Elas precisam ser informadas, consultadas, e de espaços de governança que garantam a sua participação. Precisam estar inseridas nas discussões sobre repartição de benefícios e indicar como os recursos devem ser distribuídos”, acrescenta Guerra.

O mercado de carbono, por ser mais amplo, inclui atividades realizadas em diversos outros setores, como a indústria, energia e transporte. No mecanismo do REDD+, é atribuído um valor monetário à redução do desmatamento e à proteção e manutenção das florestas vivas, especialmente as mais ameaçadas. Isso é negociado em créditos de carbono, por reconhecer a contribuição e o valor econômico dos serviços ambientais prestados pela vegetação para a remoção de gás carbônico da atmosfera.

“Sabemos que a implementação de uma política de REDD+ se depara com um conjunto de desafios, como a falta de recursos, a grande extensão territorial a ser monitorada, além da dificuldade logística para realizar os processos de consulta. Mas é preciso superar essas questões”, conclui a primeira autora.

Leia o documento em português e em inglês.

Depois das revistas e conferências predatórias, os prêmios científicos predatórios

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Venho há alguns anos noticiando neste blog o impacto das chamadas revistas predatórias (veículos disseminadores do que eu considero lixo científico) que resultaram na famosa “Lista de Beall“, trabalho do hoje aposentado bibliotecário da Universidade do Colorado, Jeffrey Beall.  O impacto deste tipo de veículo é tão grande que no Brasil acaba de ser lançado um artigo escrito por pesquisadores ligados ao Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia que apresenta o primeiro mapeamento de revistas predatórias brasileiras.

Eis que hoje aportou em minha caixa de correspondência eletrônica uma nova forma de fraude acadêmica que é a dos primeiros científicos predatórios (ver imagem abaixo).

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Um primeiro sinal de que esse convite era parte de um esquema foi o fato de quem me comunicava a “outorga temporária” de um prêmio científico não se dignou a assinar a correspondência. Além disso, também me chamou a atenção que o artigo motivo do “prêmio” foi publicado em 2012, o que seria, caso o “prêmio” fosse legítimo, um belo exemplo de reconhecimento tardio de uma obra científica.

No entanto, ao acessar o site que concede a “honraria” pude logo ver que ser reconhecido me custaria a bagatela de 199,00 dólares americanos, fruto de um generoso desconto já que o preço cheio seria de 399 dólares americanos (ver imagem abaixo).

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Após constatada o esquema fraudulento, me pus a verificar na internet se já existe alguma referência a este esquema de premiações predatórias, e confirmei que sim.  Em um texto publicado no blog EV Science Consultant, encontrei o texto “Predatory award organization – yet another scam” (“Organização de premiação predatória – mais uma fraude”) da autoria da professora associada da Leiden University, Esther van de Vosse, que lista uma série de organizações que emitem prêmios científicos fraudulentos. Ao verificar a lista criada pela professora van de Vosse,  encontrei o nome da “ScienceFather”, justamente a organização que me enviou a notificação de que eu havia sido “premiado”.

Com a sensação de que poderia haver mais informação disponível sobre a ScienceFather e seus métodos fraudulentos, fiz uma rápida procura no Youtube e rapidamente encontrei um vídeo em inglês que descreve com relativo detalhamento as características fraudulentas (ver abaixo).

Além do vídeo, encontrei uma “carta ao editor” do “Journal of Optometry” que é publicado pelo Spanish General Council of Optometry onde a autora, a doutora Jameel Rizwana Hussaindeen, alerta sobre o aparecimento de mais essa forma de fraude na forma de prêmios falsos a cientistas.

Um dos problemas em cair nesse tipo de esquema fraudulento se refere ao fato de que muitos dos incautos acabam utilizando não apenas recursos pessoais, mas também parte das verbas que são obtidas de agências do estado. Além disso, como não se sabe exatamente quem são os cabeças desses esquemas de captação de recursos via fraudes científicas, o dinheiro que é entregue em troca desses troféus sem valor pode estar alimentando outras formas de enriquecimento ilegal.

Por último, há que se ficar cada vez mais atento para que os convites desse natureza não sejam premiados com a entrega dos numerários que eles demandam.

Cartéis de citações ajudam alguns matemáticos – e suas universidades – a subir nos rankings acadêmicos de forma fraudulenta

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A.Mastin/Science 

Por Michele Catanzaro para a Science

Grupos de matemáticos em instituições na China, na Arábia Saudita e em outros países têm aumentado artificialmente a contagem de citações dos seus colegas, produzindo artigos de baixa qualidade que referenciam repetidamente o seu trabalho, de acordo com uma análise não publicada vista pela Science . Como resultado, as suas universidades – algumas das quais não parecem ter departamentos de matemática – produzem agora um maior número de trabalhos de matemática altamente citados todos os anos do que escolas com um forte historial na área, como as universidades de Stanford e Princeton.

Estes chamados “cartéis de citações” parecem estar a tentar melhorar a classificação das suas universidades, de acordo com especialistas em práticas de publicação. “Os riscos são elevados – as mudanças nas classificações podem custar ou gerar às universidades dezenas de milhões de dólares”, afirma Cameron Neylon, professor de comunicação de investigação na Curtin University. “É inevitável que as pessoas quebrem e quebrem as regras para melhorar a sua posição.” Em resposta a tais práticas, a editora analítica Clarivate excluiu todo o campo da matemática da edição mais recente da sua lista influente de autores de artigos altamente citados, publicada em novembro de 2023.

A nova análise surpreendente é o trabalho de Domingo Docampo, um matemático da Universidade de Vigo com um interesse de longa data em sistemas de classificação universitária. Nos últimos anos, Docampo percebeu que a lista de pesquisadores altamente citados (HCRs) da Clarivate estava sendo gradualmente substituída por matemáticos menos conhecidos. “Tinha gente que publicava em revistas que nenhum matemático sério lê, cujo trabalho era citado em artigos que nenhum matemático sério leria, vindos de instituições que ninguém conhece em matemática”, diz ele. Então ele decidiu investigar os dados da Clarivate dos últimos 15 anos para explorar exatamente quais universidades publicavam artigos altamente citados e quem os citava.

Os dados mostraram que entre 2008 e 2010, instituições como a Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA) e Princeton produziram o maior número de artigos de matemática altamente citados (definidos como o 1% mais citado pelo número de citações), com 28 e 27, respectivamente. Mas entre 2021 e 2023, instituições com pouca tradição matemática, muitas delas baseadas na China, na Arábia Saudita e no Egipto, substituíram-nas. Neste período, a China Medical University, em Taiwan, liderou a lista com 95 artigos de matemática altamente citados – em comparação com nenhum na década anterior. A UCLA, por sua vez, teve apenas um único artigo altamente citado.

Docampo encontrou padrões que sugeriam que cartéis de citações estavam em ação. O mais revelador é que as citações aos principais artigos muitas vezes vieram de pesquisadores da mesma instituição que os autores dos artigos citados. Por exemplo, entre 2021 e 2023, duas editoras prolíficas de artigos altamente citados – a China Medical University e a King AbdulAziz University, que ostentava 66 artigos importantes nesse período – também publicaram, cada uma, centenas de estudos referenciando artigos altamente citados. Os estudos que faziam referência a artigos altamente citados também eram publicados regularmente em periódicos predatórios, descobriu Docampo, onde práticas de citação desonestas podem ser mais facilmente aceitas.

Outros cientistas concordam que as evidências apontam para uma manipulação generalizada de citações. “Temos vários investigadores a tentar aumentar artificialmente as suas citações de uma forma que não reflete de forma alguma a sua qualidade científica”, diz Helge Holden, presidente do comitê do Prêmio Abel, um dos mais prestigiados prémios em matemática. “Isso só pode ser condenado.”

Yueh-Sheng Chen, secretário-chefe da Universidade Médica da China, diz que sua universidade não se envolveu na prática. “Não sabemos nada sobre a citação direcionada e não estamos envolvidos em tal manipulação”, diz ele. O envolvimento de “especialistas e académicos de renome internacional em áreas como a matemática aplicada” faz parte da abordagem interdisciplinar da instituição à medicina, acrescenta. A Universidade King AbdulAziz não respondeu ao pedido de comentários da Science .

A Clarivate se recusou a comentar o assunto. No entanto, em declarações online sobre a sua decisão de excluir matemáticos da lista mais recente do HCR , a empresa diz estar preocupada com “estratégias para optimizar o estatuto e as recompensas através da publicação e da manipulação de citações, especialmente através da citação direccionada de artigos publicados muito recentemente”. A matemática é especialmente vulnerável à manipulação porque o campo é pequeno, escreve a empresa. “A taxa média de publicação e citação é relativamente baixa, portanto pequenos aumentos na publicação e citação tendem a distorcer a representação e análise do campo geral.”

Mas a manipulação de citações também está acontecendo em outras disciplinas maiores, diz Félix de Moya Anegón, bibliometrista da Universidade de Granada – mas não é tão visível. Ilka Agricola, presidente do Comité de Informação Eletrónica e Comunicação da União Matemática Internacional, teme que, ao destacar a matemática, Clarivate possa ter transmitido a impressão de que o campo está infiltrado por “cientistas fraudulentos”. “Lamentamos muito que nenhuma outra opção tenha sido vista senão não listar mais a matemática”, diz ela.

A Clarivate afirma que está a receber “conselhos de especialistas externos… para discutir a nossa abordagem futura à análise deste campo”. A Docampo está trabalhando em uma métrica mais refinada, que pondera as citações de acordo com a qualidade dos periódicos e instituições citantes.

Outros pesquisadores dizem que a manipulação de citações é simplesmente um sintoma de um sistema de avaliação falho. As citações e métricas semelhantes não são suficientemente refinadas para monitorizar o desempenho individual, diz Ismael Rafols, investigador do Centro de Estudos de Ciência e Tecnologia da Universidade de Leiden, e as pessoas vão sempre encontrar formas de burlar o sistema. Holden concorda: “O resultado final é que as citações não são uma boa medida da qualidade científica”.


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Este texto escrito inicialmente em inglês foi publicado pela revista Science [Aqui!].

‘Polícia’ de combate ao desmatamento no Brasil entrou em greve – ameaçando metas climáticas

Os servidores de agências ambientais do governo federal interromperam as operações de campo e poderão interromper completamente o trabalho

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Grupo de fiscalização do Ibama encerra operação de mineração ilegal em floresta nacional brasileira em 2018. Crédito: Felipe Werneck/Ibama

Por  Meghie Rodrigues para a Nature 

No último mês, os trabalhadores das agências ambientais do governo federal estiveram parcialmente em greve: pararam de trabalhar no campo, onde realizam vigilância do desmatamento e ajudam a encerrar operações ilegais de mineração. Mas, se as suas exigências não forem satisfeitas, poderão em breve aumentar a pressão sobre o governo e parar completamente de trabalhar – o que poderá interromper a investigação que ajuda na elaboração de políticas ambientais.

Funcionários do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis ​​(IBAMA), órgão de proteção ambiental do país; o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que administra as áreas protegidas do país; e o Serviço Florestal Brasileiro (SFB) pedem desde 2017 mais recursos e melhores salários.

A administração do atual presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, emitiu no ano passado um aumento de 9% para todos os funcionários públicos depois que ele assumiu o cargo. Mas os trabalhadores ambientais não receberam aumento nos últimos sete anos, e o aumento salarial não é suficiente para conter a inflação, dizem eles. Seu sindicato, a Associação Brasileira de Carreiras Ambientais (Ascema Nacional), aponta que, de 2003 a 2023, cerca de 720 trabalhadores ambientais foram demitidos para ocupar outras funções governamentais – o que significa que os que permanecem estão sobrecarregados.

Como candidato presidencial em 2022, Lula prometeu atingir o desmatamento zero em todos os biomas brasileiros até 2030 . Para reduzir o desmatamento, as agências ambientais tiveram que reforçar as inspeções na floresta amazônica e em outros lugares. Os seus esforços até agora parecem ter ajudado: as taxas de desflorestação na Amazónia, que é crucial para conter as alterações climáticas porque absorve enormes quantidades de dióxido de carbono, caíram para o nível mais baixo dos últimos cinco anos em 2023 .

Não só estão sobrecarregados de trabalho, dizem os funcionários, mas a sua segurança também está em risco. No terreno, têm de lidar com pessoas ligadas ao crime organizado, como garimpeiros ilegais e grileiros de terras.

Bombeiros do Prevfogo/Ibama participam de operação conjunta de combate a incêndios na Amazônia em 2019.

Trabalhadores do IBAMA e do ICMBio colaboraram em operação conjunta de combate a incêndios na Amazônia em 2019. Crédito: Vinícius Mendonça/Ibama

“Por causa da baixa remuneração, temos perdido pessoal para carreiras mais atraentes, até mesmo no serviço público”, diz Alexandre Gontijo, membro do conselho de administração da Ascema Nacional e especialista ambiental da BFS. “Nossas responsabilidades aumentam enquanto o número de servidores diminui e as coisas ficam mais difíceis à medida que o trabalho se acumula. Vigilar a Amazônia, por exemplo, não é uma tarefa trivial.”

A Ascema Nacional se reunirá com representantes do Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas do Brasil e do Ministério de Gestão e Inovação em Serviços Públicos no dia 1º de fevereiro para discutir as demandas e se os trabalhadores irão suspender adicionalmente o trabalho administrativo.

Embora preocupados com as consequências, os pesquisadores brasileiros apoiam o movimento e apelam ao governo Lula para que invista nos seus trabalhadores. “Se o meio ambiente está no centro da política externa do Brasil, apoiar os trabalhadores na área deveria ser uma política interna fundamental”, diz Erika Berenguer, pesquisadora de incêndios na Amazônia na Universidade de Oxford, no Reino Unido. “É fundamental valorizar quem coloca o próprio corpo na linha de frente.”

Em comunicado à Nature , o Ministério da Administração brasileiro disse que realizou 21 mesas redondas no ano passado para negociar com funcionários federais de vários departamentos. Disse ainda que está trabalhando dentro dos limites orçamentários para atender às demandas.

Sentindo os impactos

Funcionários do IBAMA entraram em greve no dia 2 de janeiro, e trabalhadores de outros órgãos ambientais fizeram o mesmo alguns dias depois. O seu objectivo era trazer o governo de volta à mesa de negociações. No passado mês de Outubro, a Ascema Nacional reuniu-se com o ministério da gestão, mas não foi alcançada qualquer resolução. “O governo prometeu nos dar uma resposta em 30 a 45 dias, mas não obtivemos nenhuma”, diz Cleberson Zavaski, presidente do sindicato e especialista ambiental do ICMBio.

Cerca de 90% de todos os especialistas ambientais federais estão participando da greve parcial, diz Zavaski. De acordo com o Painel de Estatística de Pessoal do Brasil e a Ascema Nacional, há cerca de 4.800 trabalhadores ambientais ativos nas agências federais do Brasil.

Após a greve, apenas 16 fiscais ambientais permanecem em campo no Brasil, dois dos quais estão na Amazônia, segundo o sindicato. E os impactos começam a ser sentidos: os fiscais emitiram 93% menos multas ambientais na Amazônia durante as duas primeiras semanas de janeiro do que no mesmo período do ano passado.

Mudança estrutural

O fato de a greve ter acontecido durante o mandato de Lula é surpreendente para alguns. Sob o seu antecessor – Jair Bolsonaro, um líder favorável à indústria – a desflorestação na Amazónia atingiu o máximo dos últimos 15 anos e mais de 180 mil multas ambientais, no valor de 1,3 mil milhões de reais (260 milhões de dólares), foram anuladas. “A perda de recursos e os ataques públicos dificultaram muito o nosso trabalho [sob Bolsonaro], mas fizemos um esforço de resiliência para continuar trabalhando”, diz Gontijo. “Aí entrou Lula e, embora tenhamos tido apoio institucional público e o fim dos ataques, não tivemos mudança estrutural.”

Em comunicado público no início deste mês , o Ministério do Meio Ambiente, que abriga os órgãos em greve, disse que, após negociações no ano passado, enviou ao Ministério da Gestão um pedido para realizar chamadas públicas para preencher cerca de 3.300 vagas de pessoal no IBAMA, ICMBio e Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

Os pesquisadores estão ansiosos para que as negociações dêem frutos esta semana. Celso Silva Jr, pesquisador de sensoriamento remoto e uso da terra do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, em Brasília, afirma que a vigilância e a fiscalização são fundamentais para reprimir o desmatamento ilegal na Amazônia. A greve suscita preocupação “porque a reversão da actual tendência decrescente [na desflorestação] resultaria numa maior perda de biodiversidade e de emissões de carbono para a atmosfera”.

DOI: https://doi.org/10.1038/d41586-024-00279-2


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela Nature [Aqui!].

Brasil usa mais agrotóxicos que Estados Unidos e China juntos

Agência da ONU indica que Brasil aplica mais de 720 mil toneladas de veneno contra pestes em lavouras

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Intensificação da pulverização aérea com agrotóxicos é uma das preocupações nos territórios vizinhos às plantações – Alberto César Araújo/Amazônia Real

Por Vinicius Konchinski para o Brasil de Fato

O Brasil já usa mais agrotóxicos em suas lavouras do que a China e os Estados Unidos juntos. Isso é o que mostra um levantamento da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês).

Os dados divulgados pela FAO são referentes a 2021. Naquele ano, segundo a agência, foram aplicadas 719,5 mil toneladas de venenos contra pestes em lavouras nacionais. No mesmo ano, a China, que tem quase sete vezes mais habitantes que o Brasil, aplicou 244 mil toneladas. Já os EUA aplicaram 457 mil toneladas. Juntos, eles uasaram 701 mil toneladas.

De acordo com os dados da FAO, o Brasil é o país que mais usa agrotóxicos no mundo. É seguido justamente pelos EUA. A Indonésia, que usou 283 mil toneladas de veneno em suas lavouras – menos da metade do Brasil –, vem em terceiro lugar.


Dados da FAO mostram os países líderes em uso de agrotóxicos em lavouras no mundo / Reprodução/elaboração Gerson Teixeira (Abra)

O Brasil usa 10,9 kg de agrotóxicos para cada hectare de lavoura (10 mil m2). Já os EUA usam 2,85 kg/ha; a China, 1,9 kg/ha.

Em 2021, foram usados no Brasil 3,31 kg de agrotóxicos por pessoa. Nos EUA, foram 1,36 kg per capita; e na China, 0,17 kg per capita.

Modelo do agronegócio

Para Gerson Teixeira, engenheiro agrônomo e diretor da Associação Brasileira de Reforma Agrária (Abra), dados como esse mostram como a agricultura nacional tem se tornado dependente dos agrotóxicos devido a escolhas de métodos de produção.

Em entrevista ao Brasil de Fato, Teixeira explicou que o Brasil, décadas atrás, optou por um modelo de produção agropecuária voltado à exportação, principalmente de soja. Isso tornou o país o segundo maior exportador de produtos agrícolas do mundo, segundo a FAO, atrás só dos EUA.

Acontece que lavouras de soja são altamente dependentes do uso de fertilizantes e agrotóxicos, ressaltou Teixeira. Isso aumentou o consumo desse tipo de veneno no Brasil.

Em 1990, segundo a FAO, o Brasil consumia 51,1 mil toneladas de agrotóxicos por ano. Em 31 anos, essa quantidade aumentou 1.300%.

“A agricultura brasileira pensava que a soja transgênica reduziria a necessidade do veneno e dos fertilizantes”, afirmou Teixeira. “Na verdade, aumentou a dependência dos dois.”

Dados do Banco Mundial tabulados por Teixeira apontam que o Brasil também já é o segundo maior consumidor de fertilizantes do mundo quando considerados a quantidade de quilos aplicados por hectares de lavouras, ficando atrás da China.

Do total de fertilizantes utilizados na agricultura nacional, 87% é importado, de acordo com a Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda). Segundo a FAO, o Brasil é o maior importador de fertilizantes do mundo. Consome 18% das importações mundiais. Os EUA consomem 13% e a China, 5%.


Dados do Banco Mundial indicam quais países mais usam fertilizantes por área de lavoura / Reprodução/elaboração Gerson Teixeira (Abra)

O Brasil também é líder nas importações de agrotóxicos. Foram 283 mil toneladas importadas durante o ano de 2022, segundo o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).


Dados do Ibama mostram aumento da importação de agrotóxicos pelo Brasil desde 2008 / Reprodução/elaboração Gerson Teixeira (Abra)

Riscos à saúde

Por conta do uso crescente de agrotóxicos no país, a cada dois dias, uma pessoa morre por intoxicação por uso desse tipo de veneno no Brasil. Uma a cada cinco vítimas é criança ou adolescentes de até 19 anos. Esse dado consta num relatório publicado em 2022 pela rede ambientalista europeia Friends of the Earth Europe.

De acordo com a entidade, empresas agroquímicas europeias como a Bayer e a Basf trabalham conjuntamente com o agronegócio brasileiro para disseminar o uso de veneno no Brasil, desconsiderando os malefícios causados por eles à população.

Larissa Bombardi, professora do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP), escreveu em seu livro Agrotóxicos e Colonialismo Químico (editora Elefante) que a Europa concentra um terço da produção de agrotóxicos no mundo. Autoridades europeias, porém, já proibiram o uso de 269 tipos de defensivos por conta dos danos causados por eles à saúde. Em países como Brasil, os banimentos não chegam a 30.

Entre os 10 mais vendidos por aqui, cinco são proibidos na União Europeia, ressaltou Bombardi. “Enquanto a área plantada no país cresceu 29% de 2010 a 2019, o uso de agrotóxicos cresceu 78%”, disse ela, em palestra feita em Curitiba, no ano passado.

“Essa forma de agricultura faz mal à população e ao planeta”, disse ela. “Só a reforma agrária com foco na agroecologia oferece uma solução.”

A Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) participa da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida e tem várias ações em parceria com a sociedade civil organizada e movimentos sociais para alertar para o perigo dos agrotóxicos e para buscar aumentar o controle e reduzir seu uso.

Edição: Nicolau Soares


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Este texto foi originalmente publicado pelo jornal “Brasil de Fato” [Aqui!].

Mais veneno nos alimentos e na água dos brasileiros: uso de agrotóxicos cresceu 3,7% em 2023

Durante o segundo semestre de 2023 (H2), um total de 811 mil toneladas de agrotóxicos foi utilizado no controle de pragas

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Uma pesquisa recente encomendada pelo Sindiveg – Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para a Defesa Vegetal revelou que a área tratada com agrotóxicos no Brasil teve um aumento significativo de 3,7% em comparação com a safra anterior. Os resultados da pesquisa, realizada pela Kynetec Brasil, destacam a influência da expansão da área cultivada de soja e das condições climáticas favoráveis no Sul do país durante a safra 23/24.

De acordo com os dados levantados, durante o segundo semestre de 2023 (H2), um total de 811 mil toneladas de agrotóxicos foi utilizado no controle de pragas, doenças e plantas daninhas, considerando o número de aplicações necessárias por situação. Deste montante, 49% correspondem a herbicidas, 24% a fungicidas, 18% a inseticidas, 1% a tratamento de sementes e 8% a outros produtos. Esses números representam o tratamento de aproximadamente 1.25 bilhão de hectares, impulsionado pela expansão da área cultivada.

De acordo com a projeção, o aumento da área controlada com nematoides na cultura da soja deve ser 26,1% e de percevejos, 8,8%. A cultura de soja representa 55% do total da área e deverá refletir um aumento, com crescimento de 6,5% na safra 23/24. Neste caso, o uso de fungicidas premium apresentou aumento de 7,9%, enquanto o de fungicidas protetores 32%, ambos em uma área cultivada de 45 milhões de hectares, refletindo uma expansão de 4% em relação à safra passada (22/23)

A projeção desenvolvida pelo Sindiveg considera a metodologia PAT (produto por área tratada), que leva em conta o volume efetivamente utilizado pelo produtor rural e o número de aplicações de defensivos na área cultivada.


Fonte: Sindiveg

Eles nem sabem copiar e colar…” Por que os jovens também são vítimas do analfabetismo digital?

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Por César Aguilla para o “Xataka” 

Relatórios recentes sugerem que as novas gerações são menos habilidosas com computadores e isso se deve aos smartphones . Estes dispositivos inteligentes , compactos e intuitivos têm sido a ferramenta preferida dos mais jovens, deixando de lado a utilização do computador .

Anne Cordier, formada em ciências da informação e da comunicação, é investigadora na Universidade de Lorraine e aborda um ponto importante ao mencionar que a grande maioria dos jovens não possui conhecimentos básicos de informática . Por sua vez, Cécile Catheline, professora de literatura e formadora em usos digitais, acrescenta que “ numa turma de mais de 30 alunos, geralmente há dois ou três que estão familiarizados com computadores, mas a grande maioria não sabe usá-los .”

O smartphone como agente responsável

Os especialistas que conversaram com La Dépêche geralmente traçam a lacuna entre as gerações amigas e não amigas do computador desde o apogeu dos smartphones. Isso não é culpa das crianças, pois desde muito pequenas elas estão acostumadas a interagir com as telas sensíveis ao toque de celulares, tablets e até de alguns computadores. Como aponta Corider:

As habilidades que consideramos básicas como adultos que cresceram com computadores não são básicas para uma geração que nasceu com um smartphone nas mãos. Quando são pequenos damos-lhes uma tela para que possam assistir a vídeos no YouTube. Quando ficam mais velhos, criam perfis no Snapchat ou TikTok. Então eles começam a jogar videogame no computador. Com esses usos, como adquiririam um computador e habilidades [para usá-lo]?

Além disso, para Cécile Catheline existem problemas tão básicos como abrir um documento Word , chegando ao ponto de nem saber copiar e colar texto. No entanto, existem fatores externos que também contribuem para esta exclusão digital e um deles são, como sempre, as desigualdades econômicas. É muito mais barato conseguir um celular a preços acessíveis do que um computador.

Entre o econômico e o educacional

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Apesar de tudo, Cécile dá como exemplo que ter ensino privado não necessariamente torna os alunos mais competentes no uso do computador . Parece que os pais das crianças, frequentando ou não o ensino público, não compartilham conhecimentos de informática com os filhos, dando mais peso à hipótese do smartphone como responsável por esse distanciamento.

Para um determinado setor, a pandemia de COVID-19 foi um acontecimento forte que fez com que voltassem a usar computadores. Como as aulas passaram a ser ministradas à distância e os projetos realizados em casa, esta ferramenta voltou a ser essencial para o conhecimento de crianças e jovens.

A solução é clara, há uma grande necessidade de educar as crianças e jovens no uso de computadores , deve haver aulas nas suas escolas para reforçar esse conhecimento e os pais devem incentivar a sua utilização. Embora com o tempo um grande grupo de crianças comece a sentir curiosidade pelo computador graças aos jogos , nem todas acabam aprendendo o que é necessário quando chegam ao nível universitário e profissional.


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Este texto escrito originalmente em espanhol foi publicado pelo site “Xataka” [Aqui!].

Galáxia anã recentemente descoberta desafia a sabedoria convencional

galaxia anãCC BY-SA 4.0 / NASA, ESA, CSA, Jake Summers (ASU), Jordan CJ D’Silva (UWA), Anton M. Koekemoer (STScI), Aaron Robotham (UWA) e Rogier Windhorst (ASU) /

Uma equipe de astrônomos do Arizona identificou uma galáxia anã que não deveria existir com a nossa compreensão atual do universo.

As galáxias anãs são classificadas como galáxias com menos de 100 bilhões de estrelas. A Via Láctea tem mais de 200 mil milhões de estrelas e as maiores galáxias podem ter mais de 100 biliões.

No entanto, a galáxia em questão, identificada como PEARLS num estudo publicado recentemente no The Astrophysical Journal Letters , é única na medida em que já não produz novas estrelas, mas também não está interagindo com quaisquer galáxias maiores.

Embora as galáxias anãs sejam as mais comuns no universo observado, geralmente são jovens e continuam a produzir novas estrelas, ou interagem com uma galáxia maior, causando uma ‘desativação’ da sua produção.

Foi descoberto um pequeno número de galáxias anãs que já não produzem estrelas e não interagem com outras, como PEARLS, mas permanecem perto de uma galáxia diferente e os cientistas assumiram em grande parte que interagiram recentemente com outra galáxia e isso interrompeu a sua produção de estrelas.

Segundo o estudo, a PEARLS é especial porque não está tão próxima de uma galáxia, o que implica que ou um fator interno fez com que ele parasse de produzir estrelas, ou ele interagiu com outra galáxia a uma “velocidade muito alta” em algum momento. passado.

“Não se esperaria que o PEARLS existisse, dada a nossa compreensão atual da evolução das galáxias”, disse o cientista associado da Universidade Estadual do Arizona, Tim Carleton.

A descoberta da referida galáxia, descrita como “acidental” no estudo, foi capturada pelo Telescópio Espacial James Webb, mas não foi o alvo principal quando as imagens foram capturadas. Surpreendentemente, as fotos permitiram aos investigadores estudar estrelas individuais dentro da galáxia e usá-las para determinar a sua distância da Terra: cerca de 98 milhões de anos-luz .

Depois de descobrir a PEARLS, os pesquisadores continuaram a observá-lo com o espectrógrafo óptico de fenda longa DeVeny no Lowell Discovery Telescope na Floresta Nacional de Coconino, no Arizona.


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Este texto foi originalmente escrito em espanhol e publicado pelo Sputnik [Aqui!].

Antes que o porto venha, o trailer

porto central

Há um tempo atrás recebi a visita de uma equipe da organização não-governamental Redi-Itabapoana na sala que ocupo no Centro de Ciências do Homem da Uenf. A equipe veio tomar meu depoimento no que me disseram seria um documentário sobre a chegada do Porto Central no município de Presidente Kennedy (ES).  Respondi às questões formuladas com base na experiência que acumulo desde 2007 quando tive os primeiros contatos com um projeto similar ao Porto Central, o famigerado Porto do Açu.

Eis que ontem recebi o link de acesso ao trailer oficial do documentário feito pela Redi-Itabapoana que se intitula “Antes que o porto venha”, e os 4:18 minutos em que a amostra grátis dura já nos dá uma boa idéia do que estamos diante de uma denúncia pungente do que deverá acontecer nas áreas de influência do Porto Central (ver vídeo abaixo).

Como o lançamento do documentário está anunciado para o início de março, vamos agora esperar pelo conjunto da obra.  Por ora, as falas que aparecem no trailer já mostram que as comunidades que serão atingidas estão conscientes dos riscos que estão sendo engendrados pela construção de mais uma estrutura portuária sobre territórios tradicionalmente ocupados por agricultores, pescadores e quilombolas.

Veterinários são instados a cortar tratamentos contra pulgas com agrotóxicos para frear poluição dos rios

Donos de animais de estimação correm o risco de contaminar as mãos com neurotoxinas por pelo menos 28 dias após a aplicação, descobriram os cientistas

pulgas agrotoxicos

Os veterinários geralmente recomendam tratamento regular contra pulgas. Mas isto pode ter implicações drásticas para a vida selvagem devido aos insecticidas contidos nos produtos. Fotografia: Antonio Gravante/Alamy

Por Helena Horton para o “The Guardian”

Os veterinários deveriam limitar o uso de tratamentos contra pulgas contendo agrotóxicos em cães e gatos, disseram cientistas, depois que um estudo revelou a grande quantidade de substâncias tóxicas contidas neles que acabam nos rios.

Os donos de animais de estimação que usam esses tratamentos contra pulgas correm o risco de contaminar as mãos com fipronil e imidaclopride, dois inseticidas, por pelo menos 28 dias após a aplicação do tratamento, de acordo com uma pesquisa da Universidade de Sussex e do Imperial College London.

Dave Goulson, professor de biologia em Sussex que supervisionou a pesquisa, disse: “Esses dois produtos químicos são inseticidas neurotóxicos extremamente potentes e é profundamente preocupante que sejam rotineiramente encontrados nas mãos dos donos de cães através do contato contínuo com seus animais de estimação. Os donos de animais de estimação também ficarão chateados ao saber que estão poluindo acidentalmente nossos rios ao usar esses produtos.”

Os veterinários geralmente recomendam tratamentos regulares contra pulgas, mesmo quando cães e gatos não têm a praga, para evitar que os insetos se abriguem em seus pelos. Mas os cientistas dizem que isto pode ter implicações drásticas para a vida selvagem, uma vez que os agrotóxicos contidos nos tratamentos contra pulgas podem prejudicar peixes e invertebrados que vivem nos cursos de água.

Goulson disse: “Eu diria que os veterinários deveriam parar de encorajar os donos de cães e gatos a usar esses tratamentos profilaticamente. Se um animal não tem pulgas, por que você o trataria contra pulgas? A maior parte do uso atualmente simplesmente não é necessária. Em segundo lugar, os veterinários poderiam encorajar os donos de animais de estimação a lavar regularmente a cama do cão ou do gato – é aqui que vivem as larvas das pulgas.”

Os inseticidas usados ​​nos produtos contra pulgas escorrem pelos ralos domésticos quando os donos dos animais de estimação lavam as mãos após aplicar o tratamento. As águas residuais provenientes de estações de tratamento de esgotos são uma das principais fontes de poluição por fipronil e imidaclopride nos rios, com concentrações que excedem os limites seguros para a vida selvagem . As diretrizes veterinárias aconselham que os donos de animais de estimação não devem tocar em seus animais até que o local de aplicação esteja seco, mas a pesquisa da Sussex-Imperial, publicada na revista Science of the Total Environment, mostra que a poluição dura toda a duração da ação do produto.

O fipronil e o imidaclopride são amplamente utilizados em tratamentos contra pulgas, que normalmente são aplicados na nuca do animal uma vez por mês, mas não são mais aprovados para uso na agricultura ao ar livre. O imidaclopride pertence a um grupo de pesticidas conhecidos como neonicotinóides.

Guy Woodward, professor de ecologia do Imperial College London e coautor da pesquisa, disse: “Apesar desses produtos químicos terem sido proibidos do uso agrícola ao ar livre por vários anos, ainda os encontramos nas águas doces do Reino Unido em níveis que podem prejudicar a vida aquática. . Este artigo mostra como os tratamentos contra pulgas e carrapatos domésticos, uma fonte de contaminação amplamente negligenciada, mas potencialmente significativa, podem estar poluindo nossos cursos de água.”

Anna Judson, presidente da Associação Veterinária Britânica, disse: “Os parasiticidas desempenham um papel importante na prevenção e tratamento de parasitas em animais, que se não forem tratados podem levar a maiores problemas de saúde e bem-estar tanto nos animais como nas pessoas, e encorajamos os veterinários a considerarem a riscos de exposição de um animal a pulgas ou carrapatos ao prescrever ou recomendar parasiticidas, como avaliar se um único gato doméstico precisa de tratamento.”

Goulson acrescentou que os inseticidas podem ser prejudiciais à saúde humana. “De forma mais ampla, os impactos ambientais dos parasiticidas para animais de estimação precisam ser sujeitos a avaliações de risco adequadas. Atualmente não o são, com base numa decisão tomada há muito tempo de que o uso de agrotóxicos em animais de estimação provavelmente seria trivial no grande esquema. Se estiverem em nossas mãos, essas neurotoxinas estarão em todas as nossas casas. Isso não parece saudável para mim.

“Um estudo suíço recente encontrou neonicotinóides no líquido cefalorraquidiano de 100% das crianças testadas. Os riscos para a saúde associados à exposição humana a longo prazo não foram estudados.”


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].