ESR/UFF convida para seminário sobre o Golpe Militar de 1964

Simposio 1964 ESRUFF

O Seminário 1964: Golpe, Ditadura e História ocorrerá no Instituto de Ciências da Sociedade e Desenvolvimento Regional da Universidade Federal Fluminense [ESR/UFF] em Campos dos Goytacazes, entre os dias 1 e 4 de abril de 2024.

O seminário contará com atividades à tarde e à noite e a Comissão Organizadora convida a todos para participar.  Quem não fez inscrição on-line [para recebimento da declaração de presença] poderá fazê-lo presencialmente. A atividade é aberta e gratuita.

Quem desejar baixar a programação completa do Seminário 1964: Golpe, Ditadura e História, basta clicar [Aqui!].

Comissão Organizadora

Prof. Dr. Christiano Britto Monteiro dos Santos (CHT/ GAMME).

Profª. Drª. Débora El Jaick Andrade (CHT/ LAHPOC).

Profª. Karyne Corrêa Pacheco (CHT/ LAHISPI).

Prof. Dr. Luiz Claudio Duarte (CHT/ LAHISPI).

Profª. Drª. Márcia Regina da Silva Ramos Carneiro (CHT/ LEDA).

Discente Maria Letíce de Siqueira Aguiar (CHT/ LEDA).

Laboratórios Organizadores

Grupo de Análise de Metodologias Midiáticas para Educação (GAMME).

Laboratório de Estudos das Direitas e dos Autoritarismos (LEDA).

Laboratório de História do Poder e das Ideologias (LAHISPI).

Laboratório de História Política e Cultura (LAHPOC).

Apoios

Instituto de Ciências da Sociedade e Desenvolvimento Regional – ESR/UFF

Departamento de História de Campos – CHT/UFF

Endereço: Rua José do Patrocínio, 71, Centro, Campos dos Goytacazes.

Revistas predatórias e ciência de baixo impacto: cortando o mal pela raiz

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Por Nícolas Carlos Hoch e Carlos Frederico Martins Menck

O mundo acadêmico está vivendo uma revolução sem precedentes. Foi-se o tempo em que pesquisadores submetiam um artigo científico para uma revista científica de forma gratuita, e os editores da revista cuidadosamente selecionavam apenas o material que julgassem ser de maior qualidade para publicação, já que a revista arcaria com custos de produção e impressão. Nesse modelo antigo, a qualidade do material publicado e a “tradição” da revista eram essenciais para que editoras pudessem vender assinaturas e recuperar seu investimento na produção do material publicado. O efeito colateral negativo desse sistema é que ele restringe o acesso aos artigos científicos (e, portanto, ao conhecimento) para aqueles que pagam as assinaturas, sejam eles os próprios pesquisadores ou as bibliotecas das universidades. No Brasil, a Capes paga anualmente às grandes editoras científicas para que as instituições acadêmicas do País possam acessar publicações científicas pelo portal Periódicos Capes.

Hoje, com o elogiável avanço do modelo open access (acesso aberto), a necessidade de assinatura foi removida e uma parcela cada vez maior dos artigos científicos está gratuitamente disponível na internet para qualquer pessoa ler. No entanto, revistas ainda incorrem em custos pela produção e disseminação de artigos científicos, e esse custo hoje migrou do leitor para o autor do artigo. Cientistas ao redor do mundo pagam valores que podem chegar a astronômicos US$ 10 mil para cada artigo que publicam, nos chamados Article Processing Charges (APCs). Entretanto, o pagamento de APCs para publicação de artigos tem efeitos colaterais nefastos, que foram completamente subdimensionados na concepção desse novo sistema. Um desses efeitos é que cada artigo rejeitado pela revista é uma oportunidade perdida de recolher APC dos autores e cada artigo aceito é lucro para a editora, independente de quantas pessoas se interessam por ler esse material posteriormente. Portanto, a revista científica passou a ter menor responsabilidade pela qualidade do material que publica, disparando o mercado de publicações científicas no mundo todo.

Algumas editoras menos escrupulosas foram rápidas em identificar o potencial econômico dessa mudança e turbinaram a produção de novas revistas científicas, claramente com interesses comerciais. Infraestruturas digitais foram criadas para facilitar e acelerar os procedimentos de submissão, revisão e aceite de artigos, desprezando parcial ou totalmente a crucial etapa de revisão por pares. Por exemplo, algumas revistas científicas (mesmo em editoras tradicionais) criaram capacidade para publicar mais de 10 mil artigos científicos de acesso aberto por ano, gerando lucros fantásticos para as editoras. Com práticas editoriais pouco éticas e visando ao lucro pela publicação de artigos científicos em quantidade, essas editoras e revistas, conhecidas pelo termo “predatórias”, desqualificam todo o sistema de publicações científicas. Vale ressaltar que esse lucro é gerado às custas de editores e revisores geralmente não remunerados, e que pesquisadores muitas vezes são instrumentalizados para recrutar novos artigos para as revistas na forma de editores convidados para edições especiais sobre um tema específico. Apesar de edições especiais legítimas terem um valor acadêmico importante, seu superdimensionamento recente demonstra o sucesso comercial dessa estratégia.

Mas então por que os cientistas se sujeitam a pagar APCs cada vez mais caros, gerando lucros astronômicos para as editoras e poluindo a literatura científica com artigos de mais baixa qualidade? E aqui nós finalmente chegamos ao cerne do problema: porque eles precisam. A editora não é a única que “lucra” com a publicação de mais um artigo, mas o cientista autor do artigo (e pagador do APC) necessita de publicações para sua progressão profissional. Cada artigo publicado ajuda o cientista a progredir na carreira, a alcançar um novo nível de prestígio ou a assegurar financiamento para um novo projeto. Um número alto de artigos publicados também interessa às instituições de pesquisa que se julgam prestigiadas com isso.

Infelizmente, isso ocorre porque essa é a métrica que os próprios cientistas usam para comparar a produtividade entre os pesquisadores e instituições, determinando quem merece uma promoção ou mais financiamento para suas pesquisas. Como resultado disso, alguns autores não só não se preocupam onde publicam seus trabalhos, como atuam de forma a publicar trabalhos repetitivos, limitados na sua originalidade, onde o que mais importa é ser autor ou coautor de um alto número de artigos científicos, mesmo que sua participação de fato tenha sido muito pequena. Ou seja, esse interesse mútuo na publicação de artigos em troca do pagamento de APCs, especialmente em um sistema “publicou/pagou” indiscriminado, pode constituir um problema ético grave, que vem se alastrando mundialmente.

Um sintoma cada vez mais prevalente dessa pressão descontrolada por publicações é a existência, em alguns países, de paper mills (ou “usinas de artigos”), que são empresas contratadas por cientistas expressamente para forjar artigos científicos, usando dados completamente fabricados e publicar esses artigos falsos em revistas científicas em nome do contratante. Um dos principais incentivos a esse tipo de comportamento é uma política adotada pelo sistema de saúde chinês, em que a progressão de carreira de médicos é vinculada diretamente à publicação de artigos científicos.

Feito esse diagnóstico da situação, o que podemos fazer para mudar esse cenário, especialmente aqui no Brasil? Não existe solução fácil. Na nossa visão, iniciativas para identificar e remover da literatura científica aqueles artigos com pouca ou nenhuma contribuição científica, ou então identificar revistas predatórias e desencorajar cientistas a submeter artigos para esses periódicos, são intervenções necessárias, mas combatem apenas o sintoma e não a causa-raiz do problema. Enquanto houver incentivo ao cientista para publicar quantidades cada vez maiores de artigos, haverá pessoas e serviços encontrando formas de “saciar” esse desejo.

Sendo assim, entendemos que o foco deve ser em mudanças nos processos de avaliação de projetos individuais (comparando pesquisadores) ou de instituições (como universidades ou programas de pós-graduação), de forma que a publicação de artigos de baixa qualidade em revistas com práticas editoriais questionáveis deixe de ser uma vantagem. Mudanças nesse sentido já estão em curso, com várias agências de fomento científico (incluindo Fapesp, Capes e CNPq) aperfeiçoando seus procedimentos de avaliação para promover algum tipo de destaque a um seleto grupo dos melhores trabalhos que aquele cientista (ou instituição) produziu, em detrimento de métricas quantitativas que consideram apenas os números totais de artigos publicados. Na prática, entretanto, uma avaliação criteriosa da qualidade desses “destaques” pode ser um processo subjetivo e difícil de ser realizado em escala, e ainda não trouxe uma mudança significativa na cultura da comunidade científica, que continua a valorizar currículos com produção mais volumosa em processos de avaliação.

Nossa proposta é que os processos de avaliação das agências de fomento (incluindo CNPq, Capes e FAPs) eliminem ou reduzam significativamente as métricas que estimulam quantidade de publicações. Isso valeria para avaliações de auxílios científicos e bolsas, incluindo bolsas de produtividade CNPq, e instituições, como as avaliações quadrienais de programas de pós-graduação Capes. Como reconhecemos que produção científica é a base para divulgação do conhecimento, a ideia seria que se considere apenas um número máximo de publicações por ano por pesquisador avaliado, ignorando totalmente qualquer produção excedente. Por exemplo, para concessão de bolsas de produtividade em pesquisa CNPq, a avaliação ocorreria considerando apenas um máximo de três a cinco melhores artigos por ano nos últimos dez anos (para pesquisadores estabelecidos) ou de um a três melhores trabalhos por ano nos últimos cinco anos (para jovens pesquisadores). Da mesma forma, na avaliação quadrienal dos programas de pós-graduação pela Capes, poderiam ser considerados apenas um máximo de três a cinco melhores artigos por ano por docente. Naturalmente, cada comitê de avaliação poderia definir um limite anual de publicações mais adequado à prática de sua área do conhecimento e inclusive escolher qual parâmetro será utilizado para determinar a qualidade do artigo, como o número total de citações que cada artigo recebeu, ou o fator de impacto ou Qualis da revista em que foi publicado. De todo modo, a avaliação seria feita sempre considerando apenas um número predefinido (e limitado) de publicações por proponente.

Esperamos que como resultado dessa mudança na forma com que pesquisadores são avaliados, estes serão desestimulados a produzir um número muito alto de artigos (alguns chegam a publicar uma média superior a um artigo por semana!), podendo se voltar a aprofundar seus projetos de pesquisa em busca de uma melhor qualidade de suas publicações. Como resultado, um dos maiores estímulos para a produção de artigos de baixa qualidade, publicados a toque-de-caixa em revistas predatórias, deixará de existir.

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(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)

*Por Nícolas Carlos Hoch é professor do Instituto de Química da USP  e Carlos Frederico Martins Menck é professor do Instituto de Ciências Biomédicas da USP


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Este texto foi originalmente publicado pelo “Jornal da USP” [Aqui!].

Município catarinense lidera ranking de cidades médias em total de associações de catadores de recicláveis

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Chapecó tem 14 associações de catadores de recicláveis, como a Associação de Catadores de Materiais Recicláveis Nova Vida, na foto. Fonte: Fundação Auri Bondanese

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O município catarinense de Chapecó, localizado a cerca de 500 quilômetros da capital Florianópolis, lidera o ranking de cidades brasileiras, com população estimada entre 200 mil e 300 mil, em número de associações e de catadores de materiais recicláveis associados. São 14 associações de reciclagem e cerca de 121 associados, segundo destaca artigo científico de pesquisadores da Universidade Comunitária da Região de Chapecó (Unochapecó) publicado na sexta (29) na revista “Desenvolvimento e Meio Ambiente”.

O trabalho realizou um levantamento da quantidade de cooperativas e associações comunitárias de catadores de recicláveis de cidades, com população entre 200 e 300 mil habitantes, a partir de dados de 2020 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Anuário de Reciclagem. Ele faz parte da tese de doutorado de Rosane Villanova Borges apresentada à Unochapecó.

De 60 cidades, 53 têm entre zero e quatro associações. Chapecó lidera o ranking, com 14 associações, seguida de São Leopoldo (RS), com onze associações, Colombo (PR) e Passo Fundo (RS), com sete. A pesquisadora buscou entender quais condições fizeram com que Chapecó se destacasse no número de associações do tipo, a partir de entrevistas com os presidentes dessas entidades.

A análise destaca alguns fatores que podem explicar o crescimento de associações de catadores de materiais recicláveis na cidade catarinense. Em primeiro lugar, segundo o estudo, esse crescimento estaria ligado a políticas locais e remonta à história do fechamento do lixão, na década de 1990, que fez com que os catadores passassem a se dirigir ao recolhimento de materiais no centro de Chapecó. Por força de uma legislação municipal (Lei nº 4.898, de 2005), eles foram impedidos de circular com carroças de tração animal e carrinhos de tração humana, o que motivou uma mobilização da categoria para pressionar o poder público exigindo o direito de continuar trabalhando na atividade.

“Segundo relato de catadores, muitos passaram fome com essa proibição’’, diz Borges. Em acordo com a prefeitura, os catadores aceitaram se organizar em associações, em troca de receberem materiais de coleta seletiva. Em 2015, a cidade possuía seis associações de catadores cadastradas, entre elas, a Astrarosc – Associação dos Trabalhadores no Serviço de Reciclagem e Similares de Chapecó e Região Oeste de Santa Catarina, com seis núcleos, segundo dados do município. Após falência desta entidade, seus núcleos se constituíram em novas associações.

O apoio da prefeitura e da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da Unochapecó foi outro fator que contribuiu para fortalecer as associações. “O apoio da prefeitura envolveu a doação de terrenos, de equipamentos, a manutenção de despesas, de água e energia elétrica, a construção de galpões para essas associações, entre outras iniciativas”, enumera Borges. Ele veio, especialmente, após a implementação da Política Nacional de Resíduos Sólidos, em 2010, que prevê o gerenciamento integrado do lixo como responsabilidade da prefeitura — e incentiva a inclusão de catadores no processo de reciclagem.

Embora considere os avanços das associações de catadores, o artigo enfatiza os limites delas enquanto economia solidária. Apesar de garantirem renda e trabalho, essas entidades não garantem os direitos trabalhistas e condições de trabalho dignas aos associados. “Ainda temos um longo caminho a percorrer para o reconhecimento da profissão de catador, que no cenário da crise ambiental e climática, assume importância vital para nossa sobrevivência comum’’, finaliza a pesquisadora.


Fonte: Agência Bori

México prova que é possível produzir alimentos sem glifosato, pois existem alternativas e evidências científicas

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Por Conahcyt

Em resposta ao integral cumprimento do decreto presidencial vigente de 13 de fevereiro de 2023, que estabelece diversas ações relativas ao glifosato e ao milho geneticamente modificado, o governo federal, por meio do Conselho Nacional de Humanidades, Ciências e Tecnologias (Conahcyt), bem como outras órgãos mandatados, divulgaram resultados científicos e tecnológicos das ações testadas em diversos territórios do país que confirmam que é possível produzir alimentos sem glifosato, e a existência de alternativas viáveis ​​a este agrotóxico. 

Na coletiva de imprensa “Atenção ao decreto de dispensa do glifosato no México. É possível produzir alimentos sem agrotóxicos, alternativas viáveis ​​ao glifosato”, participaram: o Porta-Voz do Governo do México, Conahcyt e das Secretarias de Bem-Estar, através da Subsecretaria de Inclusão Produtiva e Desenvolvimento Rural; da Agricultura e Desenvolvimento Rural (Sader), por meio da Subsecretaria de Autossuficiência Alimentar; e Desenvolvimento Agrário, Territorial e Urbano (Sedatu), junto à Procuradoria Agrária (PA). Além disso, pessoas da comunidade científica responsáveis ​​pelos 85 projetos científicos no interior do México. 

Alternativas ao glifosato 

Conahcyt informou que foi concluído o desenvolvimento de 3 novas formulações , 100% mexicanas com eficiências superiores a 90 por cento e que estão em processo de expansão para um nível industrial. Um desses novos herbicidas conta com pareceres técnicos de eficácia biológica do Serviço Nacional de Segurança, Saúde e Qualidade Agroalimentar (Senasica), foi enviado ofício à Comissão Federal de Proteção de Riscos Sanitários (Cofepris), que em breve ser O dossiê será submetido para aprovação. 

Além disso, três bioherbicidas mexicanos disponíveis comercialmente e três no mundo foram identificados e testados, todos com eficiências de até mais de 90% nas fases pré e pós-emergência. São eles Beloukha, Burn Out Formula 2 e Weed Zap, que são aprovados tanto na União Europeia quanto nos Estados Unidos. Os três bioherbicidas nacionais disponíveis comercialmente estão prestes a iniciar processos de aprovação regulatória. 

Todos estes desenvolvimentos pré-existentes e novos estão em condições de escala industrial com uma produção inicial de pelo menos três milhões de litros, que será possível aumentar, através de transferências de tecnologia, de acordo com a procura nacional.

A importância da produção comunitária de bioinsumos também foi destacada. Em coordenação com a Produção para o Bem-estar (PPB, Sader) e Sembrando Vida (Bem-estar), foram produzidos 67,8 milhões de litros de bioinsumos líquidos e 350 mil toneladas de bioinsumos sólidos , dos quais 45,8 milhões de litros e 231 milhões de toneladas, respectivamente, provenientes de as biofábricas Sembrando Vida. Além disso, há capacidade para dar continuidade e ampliar a produção por meio das mais de 18,2 mil Comunidades Camponesas de Aprendizagem (CAC) do programa Sembrando Vida, que conta com quatro mil escolas do campo do PPB, 30.290 espaços de produção de bioinsumos em todo o país e mais de 688 mil produtores capacitados no preparo e aplicação de bioinsumos e implementação de práticas agroecológicas.

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Produção sem glifosato, uma realidade e sem riscos

Diante de um contexto em que o planeta, o campo e a humanidade não podem mais tolerar o modelo industrial neoliberal de produção agrícola, que tem causado a emissão de gases de efeito estufa, a apropriação de terras, a destruição da saúde humana e animal e a perda de biodiversidade, o presidente decreto coloca a saúde e o meio ambiente como prioridades. A sua aplicação e outros programas do Governo do México lançaram de facto uma transição agroecológica sem precedentes. 

Em total cumprimento ao decreto presidencial, com Produção para o Bem-Estar e Semear Vida em cinco milhões e 200 mil hectares e com um milhão e 950 mil produtores, já foram estabelecidos sistemas agroecológicos e muitos litros de glifosato deixaram de ser utilizados . Além disso, no México existem 658 mil hectares de agricultura orgânica certificada, da qual participam 215 mil produtores. 

Semeando Vida mostra como é possível reflorestar e, ao mesmo tempo, produzir alimentos e gerar empreendimentos sociais baseados na organização comunitária e autossustentável, que transformam os agricultores em sujeitos sociais que geram bem-estar e salvaguardam dezenas de espécies que fazem parte da riqueza biocultural do México, que por sua vez representa uma proporção muito elevada da biodiversidade global e dos alimentos consumidos no país e no mundo. 

Foi relatado que os pequenos produtores contribuem com cerca de 60 por cento da produção nacional de milho para consumo humano. As comunidades camponesas e os pequenos produtores são detentores de conhecimentos antigos e são eles que forneciam alimentos antes da chegada dos OGM e do glifosato. São eles que desempenham papel fundamental na preservação de espécies e variedades nativas, na provisão da megabiodiversidade nacional e nos sistemas agroflorestais incompatíveis com o glifosato.

Utilizando dados públicos, foi apresentado que a diminuição do nível de importação de glifosato, desde 2019, não implicou queda na produção de alimentos como milho e outros, portanto não há evidências de risco na produção de alimentos sem glifosato até 2024. A Subsecretaria de Autossuficiência Alimentar indicou que o ciclo de semeadura primavera-verão 2024 começou sem contratempos, que a maioria dos pequenos e médios produtores utiliza sementes nativas no sistema milpa, milho intercalado com árvores frutíferas e sistemas agroflorestais.

Foi detalhado que a maioria desses produtores não utiliza glifosato ou está, há cinco anos, sob sistemas de transição agroecológica que lhes permitiram dispensar ou reduzir ao máximo o uso de glifosato e outros agrotóxicos, aumentando a produtividade e reduzindo custos de produção e impactos em ambientes indesejados. 

Desta forma, com base nos resultados da Pesquisa Nacional sobre o Uso do Glifosato (ENUG), desenvolvida pela Conahcyt em conjunto com a PA, foi determinado que o uso nacional do glifosato é de pouco mais de dois milhões de litros e a maioria dos produtores nos centros agrícolas ainda produzir sem esse agrotóxico. Mesmo tanto os que utilizam quanto os que não utilizam o glifosato, independentemente de serem de grande, médio ou pequeno porte, também incorporam práticas adicionais como capina com facão e manual, preparo do solo com animais, rotação de culturas, uso de roçadora, associação de culturas, controle pelo fogo, semeadura antecipada e uso de outros herbicidas.

Isto mostra que as práticas tradicionais, manuais ou o uso de máquinas podem continuar a ser a base do manejo de ervas daninhas, independentemente do glifosato. A segurança alimentar e a soberania do México nunca dependeram nem deveriam depender de um agroquímico importado. 

Os dados da ENUG, baseados em 7.988 inquéritos válidos e eficazmente aplicados que implicam representatividade e equidade de amostragem com um nível de confiança de 95 por cento, revelam que apenas 44% dos produtores inquiridos utilizam glifosato , dos quais apenas 8,7 por cento correspondem à produção em grande escala. uso, 34,1% para média escala e 57,2% para pequena escala; Veracruz, Chiapas, Campeche, Guerrero e Tabasco são os estados que reportam maior penetração do uso do glifosato no cultivo de milho híbrido e nativo, apesar de não ser autorizado

Ações e evidências de alternativas 

As intervenções de servidores públicos e especialistas confirmaram que não há dúvidas: pode ser produzido com maiores rendimentos, lucros, benefícios ambientais e de saúde sem glifosato e sem agrotóxicos. As conclusões da plataforma de ações com abordagem integral para dispensa do glifosato, que inclui 85 projetos de pesquisa, desenvolvimento tecnológico e inovação soberana, nos quais participaram mais de 700 pesquisadores e tecnólogos, e mais de 100 instânciasrespondem por isso, , articuladas de maneira virtuosa sob o modelo mexicano de inovação soberana para o bem-estar.

Os especialistas relataram o inédito processo de validação científica e tecnológica, no qual foram validados 87 planos de manejo agroecológico em 17 mil hectares em 22 estados do país, com o trabalho conjunto de 18 mil pequenos produtores (<5 ha) e grande escala (até 3 mil ha) , demonstrando que a produção agroecológica sem glifosato proporcionou maiores rendimentos, lucros e benefícios ambientais .

Foi relatado que o México possui o diário informativo Manejo Ecológico Abrangente de Ervas Daninhas no México (MEIA) da Conahcyt , que está publicado desde 12 de outubro de 2021, com 27 números contendo mais de cem artigos. A gazeta MEIA é um canal de divulgação para todos os públicos e um órgão ágil de diálogo de conhecimentos que visibiliza, protege e promove o desenvolvimento de alternativas viáveis ​​e com eficácia comprovada, como o manejo agroecológico de ervas daninhas. Todas as edições estão disponíveis publicamente e gratuitamente neste link em formato digital .

As intervenções na conferência de imprensa mostraram conclusivamente que os agroquímicos não são a base de uma agricultura saudável, eficaz e produtiva , e que, com excepção das culturas de algodão geneticamente modificado, as unidades de produção camponesas estão preparadas para prescindir do glifosato com práticas alternativas, pelo que a validade da O decreto presidencial não implica riscos para o campo mexicano, para a segurança alimentar nacional e para a soberania. 

As agências mandatadas no decreto presidencial concordaram que esta mudança de paradigma na produção – que transcende a substituição de um produto por outro para uma plataforma abrangente de ações – fornece contribuições sólidas, colocando a saúde e os cuidados das pessoas no centro. rendimentos ou a soberania alimentar do país. 

A participação do Porta-voz enfatizou que o Governo do México, através do decreto atual, está comprometido com a saúde, a vida e a capacidade do seu povo para produzir alimentos de forma saudável, próspera e em condições mais dignas, sustentáveis ​​e lucrativas para aqueles que Eles vivem no campo; Esta é a base para a busca de alternativas ao glifosato e às sementes transgênicas que prejudicam a saúde, a capacidade de produção, o meio ambiente e a nossa soberania.

Por fim, foi reiterado pela Direção Geral de Conahcyt que, dado o trabalho coordenado entre todos os órgãos do Governo do México envolvidos na resposta ao decreto presidencial, está garantido que os processos necessários para a maior massificação dos avanços tecnológicos e para o registo e autorização por parte do Senasica e do Cofepris, prosseguirá eficazmente em favor da soberania alimentar, do cuidado com o ambiente e da saúde do nosso país. 

Participaram da coletiva de imprensa pesquisadores de instituições como: Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), Universidade Autônoma de Chapingo (UACh), Associação Nacional de Empresas de Comercialização de Produtores Rurais (ANEC), Colégio de Pós-Graduados (Colpos). e a empresa Altus Biotech.

As intervenções, argumentos e apresentações da coletiva de imprensa sobre “Atenção ao decreto de dispensa do glifosato no México”, podem ser consultadas no seguinte link: https://bit.ly/4cuUVsS . As conclusões dos projetos que promovem a soberania alimentar estão disponíveis em Alimentacion.conahcyt.mx/

Coordenação de Comunicação  e Cooperação Internacional
comunicacion@conahcyt.mx
conahcyt.mx


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Este texto escrito originalmente em espanhol foi publicado pelo “Conahcyt” [Aqui!].

Bancada ruralista ignora ciência para defender ultraprocessados no Congresso

Parlamentares colocam em xeque o conceito de ultraprocessados para travar políticas públicas que limitam o consumo desses produtos, associados a mais de 57 mil mortes precoces anuais no Brasil

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Por Pedro Nakamura/ Edição: Paula Bianchi para a Repórter Brasil

Nuggets, suco em pó, salgadinho de pacote, miojo e bolacha. Os chamados alimentos “ultraprocessados” representam uma ameaça à saúde, como mostram os estudos científicos mais recentes. 

No entanto, a bancada ruralista no Congresso Nacional vem abraçando a tese de que esses produtos não são tão ruins assim. Com assessoria técnica de um instituto financiado pela indústria de alimentos e por associações do agronegócio, eles defendem que os ultraprocessados podem até ser saudáveis e não devem ser restringidos por políticas públicas. 

A Repórter Brasil identificou ao menos seis projetos de lei (PLs) em que a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), braço institucional da bancada ruralista, tentou interferir para beneficiar os fabricantes de ultraprocessados nos últimos cinco anos. 

A FPA reúne 374 deputados e senadores, três quintos do Congresso. O discurso a favor dos ultraprocessados contraria uma série de evidências científicas que associam o consumo de produtos do tipo a 32 problemas de saúde, como câncer, diabetes e obesidade, e a 57 mil mortes precoces ao ano só no Brasil. A classificação de alimentos de acordo com seu grau de processamento é adotada pelo Ministério da Saúde desde 2014.

Quando um projeto de lei menciona o termo “ultraprocessado”, a bancada ruralista usa seus “resumos executivos” – documentos de orientação – para dar pareceres que atacam a própria noção de ultraprocessados, como mostram documentos publicados pela frente parlamentar analisados pela reportagem. 

“A briga é para tirar toda a legitimidade do próprio conceito”, resume o cientista político Pedro Vasconcellos, assessor de advocacy da FIAN Brasil, organização vinculada ao Observatório da Alimentação Escolar (ÓAÊ). “Mencionar ultraprocessados em uma legislação vira um problema”, acrescenta. 

A Política Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), por exemplo, limita em até 20% os gastos na compra de alimentos processados e ultraprocessados para merendas. Porém, o termo “ultraprocessados” só aparece no regramento porque foi incluído em uma resolução do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), que não precisa passar pela aprovação do Congresso.

Guia Alimentar do Ministério da Saúde define ultraprocessados como  “formulações industriais” que envolvem diversas etapas de processamento e que adicionam ingredientes como sal, gorduras, açúcares, entre outras substâncias de uso exclusivamente industrial para imitar sabores, cores ou aumentar a durabilidade do produto. São refeições instantâneas, iogurtes saborizados ou molhos prontos, por exemplo.

No início do mês, o governo federal anunciou a nova composição da cesta básica, sem ultraprocessados.

Arte: Débora De Maio

O agro é refrigerante, embutido e biscoito

Desde 2011, a FPA recebe “assessoria” técnica do Instituto Pensar Agro, uma organização financiada pelas principais entidades representativas da cadeia do agronegócio – entre elas, a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia), que reúne gigantes do setor como Nestlé, BRF, Cargill, Ambev e Coca-Cola. 

À Repórter Brasil, a Abia disse preferir não se manifestar sobre eventuais orientações repassadas à bancada do agro. A FPA, por sua vez, ignorou as tentativas de contato da reportagem.

Um exemplo da interferência do lobby do agro ocorreu em junho de 2023, quando o deputado federal Guilherme Boulos (PSOL-SP) inseriu a diretriz “evitar ultraprocessados” no texto da lei que recriaria o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), do governo federal. Na ocasião, a FPA orientou a bancada a firmar posição contra o trecho. 

“Restringir a aquisição de determinados tipos de alimentos, definidos de forma contestável pela ciência e tecnologia de alimentos, em nada contribui para a formação de hábitos alimentares saudáveis, que só podem ser obtidos por meio da educação alimentar”, disse a nota da entidade, que também negou a ligação entre o consumo de ultraprocessados e a obesidade.

Na sessão que votou o projeto, em julho de 2023, o próprio presidente da FPA, o deputado Pedro Lupion (PP-PR), propôs uma emenda removendo a inserção de Boulos. “A ideia é reduzir o texto, tirar essa menção, até porque há uma problemática na compreensão do que são os alimentos ultraprocessados. Não há uma definição técnica sobre essa terminologia”, disse em plenário o deputado Tião Medeiros (PP-PR) que substituiu Lupion na hora da votação. No fim, a remoção foi aceita e o PAA acabou aprovado pelo Congresso sem a menção aos ultraprocessados, sendo sancionado por Lula naquele mês.

Veja aqui a lista completa com os 6 PLs em que a FPA defendeu os ultraprocessados.

‘Indústria nega e distorce’

Na avaliação da nutricionista Nadine Marques, pesquisadora-assistente da Cátedra Josué de Castro da Universidade de São Paulo (USP), as orientações da FPA são “todas muito parecidas com o discurso da Abia”, a associação de indústrias de alimentos que está entre os apoiadores da bancada ruralista. “Um ponto marcante é a não aceitação da classificação a partir do grau e extensão de processamento de alimentos, que deu origem ao termo ‘ultraprocessados’”, diz Marques. 

Batizada de “NOVA” e desenvolvida por pesquisadores do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde, da Universidade de São Paulo (Nupens/USP), a classificação já é usada em políticas públicas de ao menos seis outros países – como Canadá, Israel e Uruguai. Ela também norteia estudos da Agência Internacional do Câncer (IARC) e da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), ambas ligadas à Organização Mundial da Saúde (OMS).

Marques explica que, no início do século 20, a ciência analisava os alimentos pelas moléculas que os compõem, o que criou uma subdivisão entre nutrientes vilões (por exemplo, gorduras saturadas ou açúcar) e mocinhos (vitaminas e minerais) – paradigma que ficou conhecido como “nutricionismo”. 

A partir dos anos 1980, no entanto, os índices de obesidade dispararam,  mesmo com a redução do consumo dos “vilões”. “Se sabíamos quais os nutrientes perigosos e conseguíamos controlá-los, manipulando-os industrialmente, por que os índices de doenças crônicas continuavam aumentando?”, questiona Marques.

A partir dos anos 2010, mais pesquisas passaram a investigar como o grau de processamento de alimentos, e não nutrientes específicos, estava ligado ao surgimento de doenças, o que reforçou a necessidade de se analisar todo um processo de produção que vai do campo à indústria até chegar à mesa do consumidor. “A classificação NOVA é simbólica desse novo paradigma da nutrição, que passa a olhar para os sistemas alimentares como um todo”, diz a nutricionista.

Desinformação no Congresso e nas redes

Para enfrentar esse avanço recente da ciência, a indústria de alimentos mobiliza argumentos “nutricionistas” em seu lobby no Legislativo. Um projeto de lei de 2022 do ex-deputado federal Coronel Armando propunha a criação de advertências em embalagens e restrições à propaganda desses produtos. A proposta era que rótulos e publicidade incluíssem avisos de riscos à saúde. Porém, a FPA orientou a bancada a se opor à ideia.

“Ter uma alimentação saudável significa comer com moderação todos os tipos de alimentos, respeitadas suas características nutricionais”, justificou a nota da FPA divulgada à época. “A proposta tem objetivo de estigmatizar produtos da indústria de alimentos, que são altamente regulados e não possuem, por si próprios, potencial para prejudicar a saúde do consumidor”, concluiu o documento, em frontal oposição aos estudos científicos sobre o tema. O PL está parado sem relatoria em uma comissão da Câmara desde 2022.

A defesa da indústria alimentícia contrasta com o discurso da FPA de reforçar a produção de alimentos saudáveis e de qualidade, no lugar de alimentos prontos e com excesso de ingredientes que fazem mal à saúde. Em janeiro de 2023, por exemplo, um estudo do NetLab, o laboratório de pesquisa em internet e redes sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ),  concluiu que a FPA publicava anúncios no Facebook e Instagram – pagos pelo Instituto Pensar Agro – que espalhavam desinformação sobre agrotóxicos, regulação ambiental e movimentos sociais.

“Isso de pensarmos no pequeno produtor quando pensamos em agro é resultado de uma ótima campanha de comunicação”, diz a pesquisadora Débora Salles, coordenadora do NetLab, que realizou o estudo. “Eles tentam reforçar que o agricultor familiar é protagonista, mas existe um movimento simultâneo de esconder os verdadeiros interesses que estão por trás, que são os das grandes corporações”, avalia Salles.


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Este texto foi originalmente publicado pela “Repórter Brasil” [Aqui!].

O que a repetição do uso da metáfora do santuário revela sobre as políticas do governo Lula para a Amazônia

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A metáfora do santuário usada à exaustão por Lula é um anteparo que esconde políticas que continuam o que Temer e Bolsonaro começaram na Amazônia

Em mais de uma ocasião, o presidente Lula tem repetido a metáfora do santuário para indicar que não pretende manter a Amazônia apartada das políticas econômicas que seu governo pretende implementar para alavancar o desenvolvimento econômico do Brasil.   Ainda que Lula continue dourando a pílula, prometendo um modelo de desenvolvimento sustentável (o que sabemos ser outra metáfora), ele fica nos devendo uma explicação clara de quem seriam os defensores da transformação da Amazônia em um santuário (ecológico, eu suponho), nem de como seriam as ações concretas do seu governo para não ampliar o processo de destruição que já ameaça a integridade e a funcionabilidade dos ecossistemas naturais amazônicos.

A realidade é que no tocante às ações concretas, o que o governo Lula tem feito e planeja fazer não tem nada de sustentável e se parece mais com uma continuidade do que foi feito nos governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro, em uma espécie de déja vu de dias de terror.  Um exemplo concreto é a prometida pavimentação da BR-319 que segundo o ministro dos Transportes, Renan Filho, é uma das prioridades do governo Lula.  Acontece que existem estudos mostrando que a pavimentação da BR-319 terá um efeito devastador sobre o último grande bloco de floresta intacta na Amazônia, podendo acelerar o colapso ecológico de toda a bacia amazônica.

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Pavimentação da BR-319 deverá acelerar colapso ambiental da Amazônia, dizem cientistas

Mas a pavimentação da BR-319 é apenas um dos muitos projetos do governo Lula que ameaçam acelerar o processo de transformação da floresta amazônica em uma imensa savana, o que terá profundos impactos não apenas para o clima regional, mas do centro sul brasileiro.  O governo Lula mira a expansão de hidrovias e portos nos rios amazônicos, bem como a construção de ferrovias. Tudo isso está sendo feito de olho na ampliação da produção e exportação de soja e carne a partir da Amazônia. Como está mais do que demonstrado em incontáveis estudos científicos, pastagens e monoculturas de soja são as principais impulsionadoras de desmatamento das florestas da Amazônia e do Cerrado.

É preciso ainda lembrar que no congresso nacional avançam propostas que visam autorizar a exploração de madeira e ouro dentro de unidades de conservação e terras indígenas, muitas vezes com o beneplácito dos votos dos chamados partidos de esquerda, começando pelo PT do presidente Lula.  Se todas essas legislações forem aprovadas, o mais provável é que sejam acompanhadas de ações do governo federal para facilitar a atuação das madeireiras e empresas de mineração, e não o contrário.

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Garimpo ilegal de ouro despeja mercúrio nos rios amazônicos e ameaça a sobrevivência das florestas e dos povos indígenas

Ainda no contexto do santuário que inexiste para quaisquer medidas práticas, há que se lembrar que o governo Lula tem feito muito pouco ou quase nada para remover garimpeiros que hoje ameaçam povos indígenas em diferentes partes da Amazônia, começando pelos Munduruku e Kayapó no Pará e Yonamami em Roraima. Apesar de um início aparentemente comprometido, hoje já se vê que não apenas os garimpeiros não foram efetivamente expulsos, mas que continuam avançando com suas formas predatórias de exploração mineral, ameaçando diretamente a sobrevivência dos povos indígenas porque os esforços de remoção são, quando muito, precários. Com isso não avançam apenas as mortes de crianças, mas também a contaminação de mercúrio que emporcalha e envenena rios importantes e os peixes que são item fundamental dos habitantes da Amazônia.

Não posso esquecer aqui de mencionar os papéis inexpressivos que são cumpridos pelas ministras do Meio Ambiente, Marina Silva, e dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara. A elas caberiam informar a Lula que inexiste fora ele próprio alguém que aborde a complexidade amazônica sob a metáfora reducionista do santuário.  Com o silêncio concordante das duas ministras, Lula desafia a lógica ao exagerar o uso de uma figura de linguagem que não tem nada a ver com o que ocorre na realidade amazônica.

Finalmente, se o presidente Lula fosse minimamente comprometido com o desenvolvimento sustentável da Amazônia ele já teria criado um fundo especial para fortalecimento das universidades e institutos de pesquisa existentes nos estados da Amazônia, a começar pelo Instituto de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e pelo Museu Paraense Emílio Goeldi que às duras penas realizam pesquisas fundamentais para o futuro da Amazônia. Mas até agora, essas duas instituições estratégicas continuam amargando com orçamentos insuficientes que as deixam sempre no limiar da inviabilização.

O assassinato de Marielle e Anderson: o início do fim ou o fim do início?

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Dizem conhecidos meus que labutam nas forças de segurança pública, que quando se inaugura uma investigação policial, basta responder às seguintes perguntas:  O quê, quem, quando, onde, como, por quê e tem testemunhas?

O trabalho policial se resume a isso, ou melhor, é tudo isso, porque não é pouca coisa estabelecer as respostas a tais quesitos, de forma a oferecer ao Ministério Público a robustez de provas (ou indícios) para a propositura de uma ação penal.

O relatório do caso Marielle, com suas quatrocentas e tantas páginas, não responde a uma pergunta sequer.  As respostas trazidas aos autos pela Polícia Federal (PF) já estavam no trabalho da Polícia Civil do Rio de Janeiro, isto é, os executores, a arma do crime, o veículo.

Todo o resto são ilações, e é bom que se diga, algumas corretas, do ponto de vista sociológico, antropológico e da ciência política.  No entanto, a respeito das provas necessárias para “encerrar o caso”, como foi dito pelo Ministro da Justiça, ombreado pelo Diretor Geral da PF, é possível afirmar que não existem.

Não bastassem tais lacunas, há contradições graves, senão: ora, como imaginar que o grupo de mandantes teria contratado um delegado, feito dele chefe de polícia, e ele ter prendido justamente o executor do crime, e a delação deste executor tenha se transformado na pièce de résistance de toda a investigação?

Ao mesmo tempo, como aceitar a tese de que este delegado tenha orientado a execução e local do crime para afastar a presunção de delito político (aquela história louca de que ele mandou evitar a morte perto da Câmara), se desde a mais tenra hora, o modus operandi indicado (ou planejado) por ele, supostamente, deixou tal impressão mais que evidente, isto é, de que se tratava de uma execução com motivos não passionais ou patrimoniais?

Outra coisa engraçada: ora, se o Chefe de Polícia estava na lista de pagamento dos grupos organizados do crime no Rio, e se inclusive essa lealdade o levaram ao posto mais alto na hierarquia da corporação, como dizer que a esposa do Chefe de Polícia passou a movimentar mais dinheiro após a morte da vereadora?

Todo mundo sabe que nesse meio, quando já há um pagamento regular, e quando há um favor do tamanho da indicação ao posto de Chefe de Polícia, as contrapartidas estão inclusas no pacote, sem extras.

Supor que o Chefe de Polícia usou a conta da esposa para lavar dinheiro obtido com propinas por ter planejado a morte da vereadora é de rolar de rir.  O cara que planejou o crime do século, que manteve tudo em segredo por 06 anos, lavou dinheiro na conta da esposa? Como assim?

Podem haver outras implicações ilícitas nas contas do casal, de outras fontes?  Novamente dizemos: sim, mas vincular ao fato em apuração parece roteiro de filme B, e novamente se fazem necessárias provas.  Afinal, ter dinheiro em conta não é crime, até que o Estado-juiz, no devido processo, diga que é crime.

Outra coisa, se houve direcionamento nos mais altos escalões da polícia, como dito, e o delegado por isso foi preso cautelarmente, perfeito, mas e as alegações da PF sobre promotores, as as possíveis manipulações no Ministério Público do Rio de Janeiro, troca de titulares da investigação, e etc.?

Alguém imagina que uma conspiração dessas só contamina a polícia, mas por que só a polícia serve de Geni?  Nenhum promotor preso? Nada?

A imprensa  corporativa platinada (isto é, a Rede Globo) martela todo o tempo:  A PF que desvendou o caso, após a chegada do atual governo, mas esquece de dizer que os executores foram presos durante as investigações do delegado preso e de seu grupo, e foi desse executor que se extraiu a delação.

Há milícias no RJ e estas contaminam o aparato estatal fluminense, como disse Marcelo Freixo, do alto de sua memória seletiva (ou cinismo?) crime, polícia e política andam juntas no Rio?  Sim. Há.

Desde 2007/2008, como consta no relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito  tocada pelo então deputado estadual Freixo? Sim.  Ele só esquece de dizer, talvez porque hoje faz parte do esforço governamental federal em promover o turismo carioca, e a chamada vocação Cidade-Evento que começava ali, é que, em 2007, as milícias eram a opção das autoridades federais, estaduais e municipais para garantir a “paz” nas áreas pobres e adjacentes às instalações do Pan Americano.

Freixo agora parece ter esquecido esse detalhe do próprio trabalho.  O que nos parece, e nos estarrece, é ver o PT e seu governo fazerem justamente aquilo que reclamam terem sido vítimas.  A fala do Ministro da Justiça parece um PowerPoint sem PowerPoint.  Quando Lula entregou ao STF a tarefa de fazer aquilo que ele, Comandante em Chefe das Forças Armadas, deveria ter feito, ou seja, punir, prender e mandar para reserva todo e qualquer militar envolvido com o golpe, além de dirigir ele próprio o processo político de seu desagravo democrático, aquilo que se exigia, ele inaugurou, com sua omissão, a sua versão da Lava Jato.

Porém, como o governo Lula não sabe lidar bem com essas coisas, podemos dizer que a patacoada da PF é o início do fim da versão lulista da Lava Jato, personificada na pessoa do Ministro Relator (super), tanto do IP de Marielle, quanto do 08 de janeiro.  De uma tacada só, essa peça de ficção da PF vai subtrair legitimidade do STF de tudo que foi feito até agora.  Vai lançar uma suspeição indelével, como aquela que recaiu sobre o pato (ou seria marreco?) de Curitiba, quer dizer, o ex-juiz Sérgio Moro.

Riem os verdadeiros mandantes, riem os advogados de Bolsonaro e sua turma de aloprados de 8 de janeiro. 

Na verdade, não é o início do fim…é o fim de tudo bem no início.

Área queimada aumentou 410% em fevereiro, aponta Monitor do Fogo

Dados mostram que 950 mil hectares foram queimados no segundo mês do ano; 79% atingiu áreas de vegetação nativa.
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Em fevereiro de 2024, 950 mil hectares foram afetados pelo fogo – um aumento de 410% em relação ao mesmo período do ano passado. Desse total, 79% atingiu áreas de vegetação nativa, em especial nos biomas Amazônia e Cerrado, somando uma área de 750 mil hectares. Os dados foram gerados pelo Monitor do Fogo, iniciativa da rede MapBiomas Fogo coordenada pelo IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia). A área queimada em 2024 em todo o Brasil já chega a 1,98 milhão de hectares, 319% a mais do que nos dois primeiros meses de 2023.

O aumento do fogo se deve, em parte, ao avanço das chamas em Roraima. Em 2024, o Estado já registrou 1 milhão de hectares queimados e responde por 54% de toda a área queimada no Brasil. Pará e Amazonas completam a lista com 475 mil e 136 mil hectares queimados, respectivamente. Juntos, os três Estados amazônicos correspondem a 85% de toda a área queimada neste ano.

“O aumento das queimadas no Estado de Roraima está diretamente relacionado ao período de seca que ocorre entre os meses de dezembro e abril, que foi agravado pelo fenômeno do El Niño. A maior parte da vegetação afetada pelas queimadas em Roraima ocorre no lavrado, região caracterizada pela presença de vegetação campestre. Esse ecossistema é especialmente vulnerável ao fogo durante o período final da janela de queima, quando as condições climáticas e a própria natureza da vegetação favorecem a propagação do fogo”, explica Felipe Martenexen, pesquisador do IPAM.

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A Amazônia brasileira concentrou 93% da área queimada no país nos dois primeiros meses de 2024, fato impulsionado pelos incêndios nos onze municípios roraimenses com maior área queimada no período. Ao todo, 1,8 milhões de hectares foram queimados – um aumento de 433% em relação ao primeiro bimestre de 2023. Em fevereiro, a área queimada chegou a 898 mil hectares, a maior área queimada no mês desde que o Monitor do Fogo começou a monitorar os incêndios no bioma em 2019.

A maior parte do que queimou na Amazônia foi de vegetação nativa, com destaque para as formações campestres, que corresponderam a 47% de toda a área queimada em 2024. As pastagens foram a classe de uso da terra que mais foi impactada pelo fogo, com 17% da área total queimada na Amazônia em fevereiro de 2024, correspondendo a 158 mil hectares.

O avanço do fogo também foi acentuado no Cerrado, com um aumento de 152% no início do ano, atingindo uma área de 61 mil hectares. Em fevereiro, foram mais de 29,6 mil hectares – um aumento de 147% em relação ao mesmo mês em 2023. Embora queimas prescritas e controladas sejam realizadas no Cerrado no início do ano, durante o final da estação chuvosa, a maior parte das áreas queimadas se encontra em áreas de uso antrópico, como pastagens e agricultura.

As prisões dos supostos mandantes das mortes de Marielle Franco e Anderson Gomes vão mexer muitas pedras no xadrez da política fluminense

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A vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes foram assassinados no dia 9 de março de 2018 alegadamente sob ordens de Chiquinho e Domingos Brazão e do delegado Rivaldo Barbosa
Ainda que não sejam totalmente inesperadas desde a homologação da deleção do ex-policial Ronnie Lessa, as prisões do deputado federal Chiquinho Brazão e do seu irmão, ex-deputado estadual e atual conselheiro do Tribunal de contas Domingos Brazão e do ex-chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro, delegado Rivaldo Barbosa deverão mexer com a política fluminense de forma profunda.
É que apesar de não ser surpresa, essas prisões mostram uma conexão ainda mais visível entre grupos criminosos (no caso as milícias que operam em Rio das Pedras de onde saem os votos da família Brazão), diferentes instâncias do Estado, e ainda da própria polícia.
Que o Rio de Janeiro vem sendo partilhado por grupos criminosos e que estes mesmos grupos estejam ocupando postos dentro das diferentes esferas do Estado tampouco é surpresa. O que é diferente nesse caso é que dada uma conjunção específica de fatos foi possível chegar não apenas aos matadores (o que é o mais comum), mas também aos mandantes.
Como as notícias que estão surgindo é possível que mais gente graúda seja envolvida nas mortes de Marielle Franco e Anderson Gomes, até porque as engrenagens que movem as pedras da política fluminense não param na família Brazão e seus correligionários Aliás, há que se lembrar que quem nomeou Rivaldo Barbosa para o posto de chefe de Polícia Civil no dia 08 de março de 2018 (um dia antes dos assassinatos) foi o General Braga Neto, que então estava na condição de interventor federal no Rio de Janeiro.

Por outro lado, já tem gente perguntando como é que um chefe de polícia recém nomeado cometeria uma fraude tão grande em um caso de repercussão internacional sem a anuência do secretário de segurança, que na época era Richard Fernandez Nunes, e do interventor militar que acabara de nomear secretário e chefe da polícia civil. Essa é uma excelente e pertinente pergunta que ainda não vi aparecer em qualquer comentarista da mídia corporativa.
Com isso, eu não me surpreenderia se mais cabeças rolaram ou que alianças para as próximas eleições sejam repentinamente desfeitas. É que ninguém vai ficar exposto como estando aliado ou envolvido com quem esteve diretamente envolvido nas mortes de Marielle Franco e Anderson Gomes.

Carbendazim, agrotóxico proibido no Brasil por ser cancerígeno é encontrado em rio da bacia do Pantanal

Durante as análises, foram identificados outros componentes químicos e bactérias preocupantes nos pontos de coleta, incluindo coliformes fecais e metolacloro, este último reconhecido por sua extrema toxicidade

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Foto: Foto: Luiz Mendes/Arquivo Pessoal

Por Mídia Ninja

Um recente estudo conduzido pela Organização Não Governamental (ONG) SOS Pantanal trouxe à tona descobertas alarmantes sobre a qualidade da água no rio Santo Antônio, um afluente crucial para a bacia do Pantanal, localizado em Mato Grosso do Sul. Segundo a pesquisa, foi identificada a presença do fungicida carbendazim, uma substância proibida no Brasil pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) desde 2022, devido ao seu potencial cancerígeno e de risco à reprodução humana.

Divulgado com exclusividade pelo G1, o estudo foi realizado ao longo de cinco meses, de outubro de 2023 a março de 2024, em três pontos específicos do rio Santo Antônio, situados em Guia Lopes da Laguna. Os resultados, publicados no Dia Internacional da Água, visam alertar para a má conservação do solo e para o uso de agrotóxicos proibidos, destacando a importância da preservação dos recursos hídricos.

Durante as análises, foram identificados outros componentes químicos e bactérias preocupantes nos pontos de coleta, incluindo coliformes fecais e metolacloro, este último reconhecido por sua extrema toxicidade. Além disso, foram encontrados níveis elevados de nitrato e fosfato, provenientes de agrotóxicos utilizados em plantações próximas ao rio.

Gustavo Figueirôa, pesquisador da SOS Pantanal, em entrevista ao jornalista José Câmara, ressaltou a gravidade da situação, enfatizando a baixa qualidade da água, a presença de substâncias nocivas e a falta de matas ciliares, essenciais para filtrar contaminantes antes de atingirem os rios. Ele também apontou o mau uso do solo e a ausência de Áreas de Proteção Permanente (APP) como fatores contribuintes para a contaminação.

A preocupação não se restringe apenas à saúde humana, mas também à biodiversidade, com destaque para as comunidades ribeirinhas e indígenas, que enfrentam maior exposição aos agrotóxicos devido ao contato direto com a água contaminada. Larissa Bombardi, pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP), ressaltou a necessidade de regulamentações mais rigorosas e do avanço da agricultura agroecológica como soluções para mitigar os impactos dos agrotóxicos.

Diante das descobertas, a SOS Pantanal propôs recomendações urgentes, incluindo a implementação de um programa de restauração das Áreas de Preservação Permanente e o estabelecimento de fóruns para debater práticas conservacionistas. O governo de Mato Grosso do Sul se comprometeu a realizar verificações nos pontos analisados pela ONG e a tomar medidas para melhorar a qualidade dos recursos hídricos.


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Este texto foi inicialmente publicado pelo “Mídia Ninja” [Aqui!].