Corrida por “impacto” torna academia refém de grupos editoriais

Centros de pesquisa e governos pagam bilhões de dólares a editoras de periódicos científicos por acesso a artigos cujos custos de produção, muitas vezes, eles mesmos financiaram. Decisão da Universidade de Sorbonne de afastar-se deste modelo mostra necessidade de rediscutir espiral de dependência voluntária em que a própria comunidade científica se colocou

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Por Marcelo Takeshi Yamashita  

No último 8 de dezembro, a Universidade de Sorbonne anunciou que em 2024 vai deixar de assinar o serviço Web of Science, uma plataforma que agrega dados e artigos de várias revistas científicas, e também interromperá o contrato com os demais produtos da Clarivate, uma empresa de serviços relacionados à publicação científica e propriedade intelectual, com produtos voltados principalmente para o meio acadêmico, entre eles a Web of Science.

Com um faturamento anual na casa dos bilhões de dólares, editoras de periódicos científicos são pagas por agências públicas, instituições de ensino e pesquisa e governos para disponibilizar o acesso a artigos científicos, muitos deles financiados pelos próprios clientes: as agências de fomento financiam a pesquisa, pagam às editoras para publicar o artigo (caso a publicação se dê na modalidade de acesso aberto) ou pagam para acessá-lo (no caso de acesso restrito). Se isto parece estranho para alguém não acostumado com os trâmites da pesquisa universitária, é simplesmente porque é mesmo esquisito.

Apesar desses serviços serem importantíssimos para a maioria dos pesquisadores, o custo é elevado. Para se ter uma ideia, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) paga perto de R$ 48 milhões por ano para que pesquisadores de diversas universidades possam acessar revistas científicas. É, portanto, inevitável refletir sobre a conveniência de manter essa espiral de dependência voluntária em que a própria comunidade científica se colocou.

Em outro contexto mais abrangente, já que neste caso a interrupção dos serviços traria um problema generalizado, atingindo setores além da pesquisa científica, o Google começou a cobrar caro para manter dados na nuvem. Isto requer decisões complicadas por parte dos gestores, com restrições rigorosas de disponibilização de espaço, principalmente por não haver uma alternativa que dê conta dos arquivos que estão sob a guarda de empresas que estão no seu direito de estabelecer políticas de uso e preços para seus produtos.

Deve haver, é claro, um ponto intermediário entre a dependência plena e a desconexão total. No caso das publicações científicas, porém, é preciso que haja algum movimento, principalmente das agências de fomento, no sentido de mostrar para a comunidade científica que existe vontade de mudar o cenário de subserviência.

A necessidade que se impõe aos pesquisadores, em boa parte pelas exigências das políticas de concessão de auxílios à pesquisa, acaba criando um preocupante vínculo entre riqueza e pesquisa. Paga-se caro não somente para consultar os artigos, mas também para publicá-los nas revistas que são consideradas “boas” – valores que muitas vezes são abusivos e não se justificam: os pareceristas não são remunerados e o artigo não passa de umas poucas páginas em formato digital.

Movimentos drásticos vindos de universidades, similares ao da Sorbonne, podem dificultar a vida dos pesquisadores se as agências que estabelecem o destino do dinheiro continuarem a valorizar somente revistas onde se paga R$ 60 mil para publicar um artigo em acesso aberto. Nesses casos, por exemplo, o discurso retoricamente bonito de valorização da qualidade do trabalho torna-se vazio no momento em que os editais descartam deliberadamente, sem análise prévia, artigos com base no fator de impacto da revista.

A política de acesso aberto, uma importante iniciativa no sentido da democratização da ciência, teve início nos anos 1970, com o Projeto Gutenberg. Na prática, algumas áreas do conhecimento já teriam condições de adotar esta política desde 1991, quando foi criado o repositório de preprints (artigos preliminares, antes de serem avaliados por especialistas) arXiv pelo físico Paul Ginsparg. Nessa plataforma qualquer artigo pode ser acessado sem a necessidade de senhas em paywalls. Diferentemente dos artigos publicados em revistas, onde um escrutínio prévio já foi feito por outros pesquisadores, esses repositórios demandam que cada artigo seja analisado com um pouco mais de cuidado pelo autor que pretende considerá-lo.

Na área de física, a grande maioria dos artigos publicados tem uma versão gratuita em preprint. Ou seja, nesta situação, não existe a impossibilidade de acessar os resultados da pesquisa de outros grupos, mas o prestígio vem do processo de convencer os pares de que o seu estudo é bom o suficiente para estar em algum periódico revisado – já escrevi em outro artigo sobre o equívoco que se comete ao associar qualidade a um artigo ao fator de impacto do veículo onde é publicado.

Embora seja animador vislumbrar ações objetivas na direção de tornar o conhecimento mais acessível, é sempre bom lembrar que, como se diz por aí, não existe almoço grátis. Neste contexto, há estratégias de acesso aberto em que o lucro das grandes empresas editoriais é mantido (ou aumentado) mudando-se apenas a fonte pagadora: em vez de vender assinaturas para bibliotecas, vendem-se cotas de publicação para universidades, agências de fomento ou outras entidades, como ministérios de Ciência, por exemplo – o dinheiro, diga-se de passagem, é proveniente da população.

Esse deslocamento do ônus financeiro tem o efeito colateral de deslocar, também, a estrutura de incentivos da publicação: se no modelo de assinaturas o “cliente” é o leitor, no de cotas de publicação é o autor – com possível impacto sobre o rigor dos critérios de aceitação de artigos.

Existem movimentos organizados, como a cOAlition S, para tornar todas as publicações científicas imediatamente em acesso aberto. O grupo foi formado em 2018 e recentemente lançou uma proposta com valores diferenciados para alguns países com base em indicadores do Banco Mundial – dar-se-iam descontos das taxas de publicação de acordo com as rendas dos países. A despeito da pertinência desses indicadores para a classificação dos países, estabelecer um compromisso de descontos com empresas que não estão submetidas a um teto de preços segue a mesma lógica ingênua da lei de meia-entrada brasileira: paga-se a metade do dobro.

É desejável que se caminhe para um modelo de política universitária que seja conectada com o mundo, mas não excessivamente dependente – estabelecer um bom equilíbrio para os pratos dessa balança não é simples. Mas qualquer solução deve pressupor uma análise mais qualitativa dos critérios de avaliação das agências que fornecem os financiamentos para as pesquisas. Afinal, não é sempre que, a exemplo de Grisha Perelman – matemático que resolveu a conjectura de Poincaré, um problema formulado no ano 1900 –, encontramos pessoas dispostas a publicar um artigo importantíssimo em uma plataforma de preprint e, com isso, “perder pontos” na corrida do fator de impacto, correndo o risco de ficar sem recursos para desenvolver a sua pesquisa.

Marcelo Takeshi Yamashita é assessor-chefe da Assessoria de Comunicação e Imprensa da Unesp. Foi diretor do Instituto de Física Teórica (IFT) no período de 2017 a 2021.


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Este foi publicado originalmente na revista Questão de Ciência

Ibama suspende aplicação de agrotóxicos à base de fipronil

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 O Ibama publicou no dia 29 de dezembro de 2023, comunicado para suspender, como medida cautelar, a aplicação de agrotóxicos à base de fipronil por meio de pulverização foliar em área total, ou seja, não dirigida ao solo ou às plantas. A medida visa a proteção aos insetos polinizadores até que o referido procedimento de reanálise do agrotóxico seja concluído pelo Ibama.

O fipronil, ingrediente ativo de vários agrotóxicos, encontra-se sob reavaliação ambiental pelo Ibama desde setembro de 2022, em razão dos indícios de efeitos adversos graves às abelhas associados ao uso desses agrotóxicos, observados em estudos científicos e relatados em diversas partes do mundo.

As avaliações já realizadas indicam a potencial existência de risco ambiental inaceitável às abelhas, decorrente da deriva da pulverização, para todos os produtos à base de fipronil com indicação de uso via aplicação foliar.

O comunicado justifica a suspensão com base no “direito fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado” e que a “proteção do meio ambiente auferida pelos princípios da precaução e da prevenção se dá com a implementação de medidas que possam prevenir a ocorrência de danos”.

Os titulares de registro de agrotóxicos que contenham fipronil como ingrediente ativo têm prazo de 90 dias, contados a partir da publicação do Comunicado, para publicar folheto complementar, etiqueta ou outro meio eficaz, com a frase de advertência:

“Este produto é tóxico às abelhas. A aplicação aérea não é permitida. A pulverização foliar não dirigida ao solo ou às plantas, ou seja, aplicações em área total, não é permitida. Não aplique este produto em época de floração, nem imediatamente antes do florescimento ou quando for observada visitação de abelhas na cultura. O descumprimento dessas determinações constitui crime ambiental, sujeito a penalidades cabíveis e sem prejuízo de outras responsabilidades.”


Fonte: Assessoria de Comunicação do Ibama

Efeito do desmatamento do consumo do Reino Unido é insustentável, dizem parlamentares

Comité considera que os consumidores britânicos contribuem de forma particularmente elevada para a destruição das florestas mundiais

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Uma vista aérea de um incêndio florestal desencadeado para limpar terras para o plantio de soja na floresta amazônica no Brasil. Fotografia: André Dib/WWF/PA

Por Helena Horton, repórter de Meio Ambiente, para o “The Guardian” 

O consumo do Reino Unido está tendo um impacto “insustentável” no mundo e contribuindo de forma particularmente elevada para o desmatamento, concluiu um relatório dos deputados.

Produtos como soja, cacau, óleo de palma, carne bovina e couro podem ser produtos de desmatamento, e o comitê de auditoria ambiental descobriu que a pegada de desmatamento do Reino Unido por tonelada de produto consumido é maior do que a de outros países, incluindo a China, chamando-a de “insustentável”. ”. Uma pegada de desmatamento é semelhante a uma pegada de carbono. Significa quanto ocorre desmatamento por tonelada de produto consumido. Os cientistas calcularam as pegadas de desflorestação de vários países, analisando os padrões de comércio de bens que estão ligados a elevados níveis de destruição florestal.

O governo anunciou recentemente que os produtos acima mencionados, produzidos por desflorestação ilegal, seriam banidos da cadeia de abastecimento. Mas isto só se aplica a uma pequena parte do problema, porque grande parte da desflorestação é legal nos países onde ocorre.

O relatório, divulgado na quinta-feira, cita o Client Earth dizendo que a proibição cria “incentivos perversos” para os países exportadores removerem leis que protegem as florestas, de modo que o desmatamento se torne legal e, como resultado, a importação de produtos associados para o Reino Unido não seja proibida.

A legislação, anunciada em dezembro, ainda não foi aprovada no parlamento. A proibição do Reino Unido foi criticada por não incluir produtos populares como o café.

Os deputados do comité de auditoria ambiental apelam no relatório aos ministros para que desenvolvam uma meta para reduzir o impacto do Reino Unido na desflorestação global, bem como um Indicador de Pegada Global para demonstrar esse impacto ao público. O relatório destaca que as florestas albergam 80% da biodiversidade terrestre mundial, apoiam a subsistência de 1,6 mil milhões de pessoas e fornecem serviços ecossistémicos vitais para apoiar as economias locais e globais.

O desmatamento contribui com 11% das emissões globais de carbono. Um estudo realizado pela RSPB e pela WWF concluiu que as importações do Reino Unido de apenas sete produtos de risco florestal – soja, cacau, óleo de palma, carne bovina e couro, papel, borracha e madeira – representaram uma pegada terrestre de 88% do tamanho do Reino Unido. cada ano. No mesmo estudo, a investigação mostrou que 40% da pegada terrestre do Reino Unido no exterior estava em países com elevado risco de desflorestação, com mecanismos de governação fracos e padrões laborais deficientes.

O relatório também pede ao governo que adote legislação para garantir que todos os produtos que representam um risco florestal adquiridos por organismos públicos sejam certificados como sustentáveis ​​e não conduzam à desflorestação em áreas sensíveis. Isto garantiria que o próprio governo do Reino Unido não comprasse bens que estão ligados à desflorestação insustentável e serviria de exemplo para outras indústrias. Solicitou que os regulamentos relativos à madeira do Reino Unido garantissem que toda a madeira importada fosse extraída de forma sustentável, em vez de apenas impedir a entrada no país de madeira extraída ilegalmente.

Os deputados expressaram alarme face aos riscos enfrentados pelos povos indígenas que protegem muitas florestas em risco em todo o mundo. As suas vozes são frequentemente ignoradas e eles são privados de direitos das suas terras, sendo frequentemente expulsos dos seus antigos territórios. O comitê ouviu da Global Witness que uma pessoa é morta a cada dois dias defendendo a terra e o meio ambiente. O relatório afirma: “Os povos indígenas são protetores das florestas do mundo e podem possuir conhecimentos detalhados sobre a biodiversidade e as tendências dos ecossistemas. É, portanto, fundamental que lhes seja facilitada a participação plena nas negociações para abordar a actividade de desflorestação.”

O presidente do comité, Philip Dunne MP, disse: “O consumo do Reino Unido está tendo um impacto insustentável no planeta ao ritmo atual. Os mercados do Reino Unido não devem ser inundados com produtos que ameaçam as florestas do mundo, as pessoas cuja subsistência depende dela e os preciosos ecossistemas que as chamam de lar. No entanto, apesar do recente compromisso antes e durante a Cop28 de investir mais em medidas contra o desmatamento e no Fundo Amazônia para ajudar a travar a velocidade do desmatamento global, o Reino Unido precisa de tomar medidas tangíveis para mudar o rumo a nível interno.

“A ambição do governo e o compromisso declarado na Cop26 de travar a desflorestação até 2030 foram muito bem-vindos, mas não estão no caminho certo agora. A sua legislação relativa a um regime que exige que certos produtos sejam certificados como “sustentáveis” antes de poderem ser vendidos nos mercados do Reino Unido foi bem-vinda, mas a legislação de implementação ainda não foi apresentada. Há pouco sentido de urgência em conseguir um controlo rápido do problema da desflorestação, o que precisa de corresponder à retórica.

“Países de todo o mundo contribuem para o desmatamento e, claro, a comunidade internacional precisa de fazer muito mais para combater a desflorestação. No entanto, em alguns aspectos, a intensidade do consumo de produtos de risco florestal no Reino Unido é superior à da China . Isto deveria servir como um alerta para o governo. Para demonstrar uma liderança global genuína nesta área crítica, o Reino Unido deve demonstrar o progresso da política interna e incorporar proteções ambientais e da biodiversidade em futuros acordos comerciais.”

Um porta-voz do governo disse: “O Reino Unido está liderando o caminho globalmente com uma nova legislação para combater o desmatamento ilegal para garantir a eliminação das cadeias de abastecimento do Reino Unido de produtos que contribuem para a destruição desses habitats vitais.

“Esta legislação já foi introduzida através da Lei Ambiental e é apenas uma das muitas medidas para deter e reverter a perda global de florestas.

“Também estamos a investir em programas internacionais significativos para restaurar florestas, que evitaram mais de 410.000 hectares de desmatamento até esta data, juntamente com o apoio a novos fluxos de financiamento verde.”


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Ibama mostra que 6 dos 10 agrotóxicos mais vendidos no Brasil em 2022 causam câncer e outras doenças graves

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Em seu última publicação da série de Boletins Anuais sobre defensivos, elaborados pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o relatório revela quais foram os 10 agrotóxicos mais vendidos [ingredientes ativos] em 2022. De acordo com os dados analisados, as moléculas mais comercializados, em toneladas, foram: Glifosato e seus sais; 2,4-D; Atrazina, Mancozebe; Acefato; Clorotalonil, Dibrometo de Diquat, Glufosinato – Sal de Amônio, Clorpirifós e Metomil.

Os Boletins Anuais sobre agrotóxicos, elaborados pelo Ibama são documentos informativos, construídos a partir das informações constantes nos Relatórios de Produção, Importação, Comercialização e Exportação (fonte primária), após análise e tratamento dos dados recebidos, com o objetivo de disponibilizar e dar esclarecimento, a qualquer interessado, acerca das quantidades consolidadas de ingredientes ativos, em toneladas, comercializados no ano-base de sua publicação.

Os dados sintetizados sobre a comercialização de agrotóxicos mostram que em 2022 Em 2022, um total de 232 empresas titulares de registro de produtos defensivos enviaram ao Ibama relatórios autodeclaratórios de Produção, Importação, Comercialização e Exportação de defensivos por produto registrado, em atendimento ao art. 41 do Decreto n° 4.074/2002. Foram recebidos 4.025 relatórios de produtos formulados (PF) e 2.241 relatórios de produtos técnicos (PT), totalizando 6.266 relatórios anuais.

A posição desses agrotóxicos mais vendidos em 2022 mantém basicamente o que já ocorreu em 2020 e 2021, conforme documentado pela professora aposentada da Universidade Federal de Santa Catarina, Sonia Heiss. E é aí que a porca torce o rabo, pois a professora Heiss apurou, pelo menos 7 desses agrotóxicos foram identificados como potenciais causadores de diversas doenças, incluindo câncer e alterações no sistema endócrino.

Abaixo a descrição das doenças que podem ser causadas pela exposição aos agrotóxicos mais vendidos no Brasil em 2022:

  • Acefato: Inseticida e acaricida que, segundo estudos de 2017, é citotóxico e genotóxico sobre espermatozoides humanos. Além disso, pesquisas de 2016 o associam ao desenvolvimento do diabetes tipo 2, hiperglicemia, disfunção no metabolismo de lipídios, danos ao DNA e câncer.
  • Atrazina: Estudos realizados em 2017 apontaram que o herbicida está associado ao aparecimento de diversos tipos de câncer, como de estômago, linfoma não-Hodgkin, próstata, tireóide, ovário, mal de Parkinson, asma, infertilidade e baixa qualidade do sêmen. E também malformações congênitas/teratogênese.
  • Clorotalonil: Fungicida causador de desregulação endócrina, conforme mostrou estudo de 2019.
  • Clorpirifós: Segundo pesquisas realizadas em 2017 e 2018, o inseticida está associado ao surgimento de diversos tipos de câncer, como no cérebro, pulmão, colorretal, leucemia e sarcoma de tecidos moles. Além disso, mal de Parkinson, asma, infertilidade, malformações congênitas, disfunções sexuais, desordem do déficit de atenção e hiperatividade (ADHD), autismo, atrasos no desenvolvimento. Sem contar intoxicações agudas severas e danos ao sistema nervoso central.
  • Glifosato: Classificado como potencialmente cancerígeno pela Agência Internacional para a Pesquisa sobre Cancer (IARC) desde 2015, o glifosato também tem sido associado principalmente ao desenvolvimento do linfoma de non-Hodgkin.
  • Mancozebe: Pesquisa de 2017 aponta que o fungicida e acaricida causa câncer de tireóide.

Situação deve piorar com a promulgação do Pacote do Veneno

Se a situação já está grave, a recente promulgação da Lei 14.785 de 27 de dezembro de 2023 (o famigerado Pacote do Veneno) deverá aprofundar a liberalização da importação, produção e comercialização desses agrotóxicos altamente prejudiciais à saúde humana e ao meio ambiente, inclusive para os que causam câncer e o extermínio de polinizadores.

Aliás, há que se enfatizar que muito provavelmente os representantes da bancada ruralista inseriram cláusulas específicas sobre a permanência de agrotóxicos cancerígenas na Lei 14.785 com base nos dados recolhidos pelo Ibama, o que torna importante a divulgação dos mesmos para além dos representantes do latifúndio agro-exportador e dos fabricantes de venenos agrícolas.

Mas uma certeza seguindo o que está estipulada pela primeira Lei de Murphy que é “se alguma coisa tem a mais remota chance de dar errado, certamente dará.”

Política e meio ambiente colidem no Brasil: primeiro ano de volta ao poder de Lula

O presidente de esquerda do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, enfrenta o desmatamento, as promessas de combustíveis fósseis e os compromissos com as comunidades indígenas – tudo isso enquanto tem que trabalhar com um Congresso conservador

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Um indígena observa os resultados da exploração madeireira no norte do estado do Pará, no Brasil. Crédito: Lucas Landau/Reuters

Por Meghie Rodrigues para a Nature

A promessa de alcançar desmatamento zero até 2030 estava entre as promessas feitas por Luiz Inácio Lula da Silva quando se tornou presidente do Brasil – o 39º do país – pela terceira vez em janeiro. Sob seu antecessor de direita, Jair Bolsonaro, o desmatamento na Amazônia atingiu suas taxas mais altas desde 2006 – mais de 13 mil quilômetros quadrados foram desmatados em 2021. E o garimpo ilegal de ouro levou o povo indígena Yanomami, que vive nos estados de Roraima e Amazonas, a uma crise sanitária e humanitária.

Sob Lula, como é amplamente conhecido o atual presidente, “houve um senso de urgência para a construção e reconstrução da política ambiental”, diz Natalie Unterstell, presidente do Instituto Talanoa, um think tank com sede no Rio de Janeiro, Brasil, que concentra-se no monitoramento e análise da política climática do país. Mas Lula, um político de esquerda, teve muitas vezes de fazer concessões durante o seu primeiro ano no poder, porque o Congresso Nacional do Brasil – o órgão legislativo federal – é controlado por uma maioria de direita.

Os observadores ainda esperam que seja dada mais atenção às questões ambientais – mas dizem que será difícil mudar a direção da viagem. Em 2023, prevê-se que o desmatamento na Amazônia atinja cerca de 9.000 quilômetros quadrados (ver ‘Desmatamento na Amazônia’), de acordo com uma análise de imagens de satélite do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) do Brasil.

Um gráfico de barras mostra que o desmatamento no território da “Amazônia Legal” do Brasil variou durante os quatro presidentes mais recentes do país, atingindo o pico durante o mandato de Jair Bolsonaro.

Fonte: Painel INPE TerraBrasilis, consulte go.nature.com/485uk9m

Em outubro, o Brasil atualizou os compromissos assumidos em relação às mudanças climáticas junto às Nações Unidas. Em 2016, o Brasil propôs reduzir as emissões em 37% até 2025 e em 43% até 2030, em comparação com os níveis de 2005. Agora, propõe cortar as emissões em 2025 e 2030 em 48% e 51%, respetivamente.

Em contrapartida, quando Bolsonaro chegou ao poder em 2019, o seu governo manteve os cortes de emissões propostos em 2016, mas trabalhou com uma estimativa mais elevada das emissões de 2005. Unterstell diz que a política de Bolsonaro teria resultado em um aumento nas emissões em comparação com o plano original. Agora, com um compromisso atualizado, o país está a retomar o caminho nesta frente, diz ela.

No entanto, novas políticas são frequentemente ignoradas pelos madeireiros, por isso as agências ambientais e o governo do Brasil devem encontrar formas de combater rapidamente a exploração madeireira ilegal. O INPE opera o DETER, um sistema de detecção de desmatamento em tempo real que se baseia em dados de observação de sensores a bordo do satélite sino-brasileiro de recursos terrestres CBERS-4 e do satélite indiano IRS-R2. Com base nas imagens capturadas, o INPE envia alertas ao órgão ambiental brasileiro, IBAMA, para permitir ações rápidas de aplicação da lei no terreno. Atualmente o DETER é usado para monitorar dois dos seis biomas do Brasil. Além da floresta amazônica, o DETER monitora o Cerrado, uma vasta e diversificada savana que abriga as nascentes de alguns dos maiores rios da América do Sul e que carece de muitas das proteções legais de que a Amazônia desfruta.

De acordo com o DETER, a parte do Cerrado coberta por alertas de exploração madeireira deverá atingir um recorde em 2023 de cerca de 7,6 mil quilômetros quadrados – uma estimativa que é cerca de 1 mil quilômetros quadrados a mais do que em 2018, quando o INPE começou a registrar esses alertas para o bioma . Tal aumento mostra a necessidade de políticas mais eficientes e abrangentes para proteger o Cerrado, diz Unterstell.

Incompatibilidade política

Em Junho, o Congresso aprovou uma lei que os ativistas temiam que enfraquecesse as protecções tanto para o ambiente como para as comunidades indígenas. A legislação retirou a responsabilidade pelo registo de terras rurais e pela gestão de águas residuais do ministério do ambiente, entregando as duas áreas a outros ministérios. A lei também retirou do Ministério dos Povos Indígenas o poder de demarcar terras indígenas, entregando-o ao Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Pedro Jacobi, pesquisador de governança ambiental da Universidade de São Paulo, Brasil, diz que Lula foi forçado a aceitar essas mudanças. Em vez de arriscar um conflito no Congresso, diz Jacobi, Lula prefere concentrar-se em agendas-chave, como a economia e os programas sociais. Somente o Partido Liberal, de direita, de Bolsonaro representa 96 dos 513 representantes na Câmara dos Deputados após as eleições de 2022.

Este descompasso entre o governo e o Congresso estende-se especialmente à estratégia energética do Brasil – na opinião de Unterstell, o elefante na sala da política ambiental. Apesar de ter um secretariado para a transição energética, o país não tem uma política de transição energética, diz ela, e precisa de uma “estratégia rápida, completa e justa, com uma eliminação progressiva dos combustíveis fósseis, uma data clara de início e fim, e um planeje alcançá-lo.”

Vista aérea de um pedaço de terra desmatado na floresta amazônica

Destruição da floresta tropical causada por incêndios no norte do Brasil em 2019. Crédito: Carl de Souza/AFP via Getty

Em Agosto, o Ministério das Finanças do Brasil lançou um plano de transformação ecológica como parte do programa de aceleração do crescimento do país, conhecido como PAC – um conjunto de políticas para impulsionar o investimento privado e público em infra-estruturas para criar empregos e reduzir as desigualdades regionais. O plano centra-se no desenvolvimento social e económico verde e inclui uma transição energética verde como um dos seus pilares principais. Mas “mesmo tendo uma componente energética, o plano fica aquém de uma política de transição energética adequada”, afirma Suely Araújo, especialista sénior em políticas públicas do Observatório do Clima, uma coligação de organizações da sociedade civil focada na política de alterações climáticas. no Rio de Janeiro.

A maior parte dos investimentos do PAC para a transição energética e a segurança irão provavelmente para as indústrias do petróleo e do gás. Dos 565,4 mil milhões de reais (116 mil milhões de dólares) atribuídos à transição energética e à segurança, o petróleo e o gás deverão receber 360,2 mil milhões de reais. E a maior parte desse dinheiro – 324 bilhões de reais – é destinada à produção e ao desenvolvimento de combustíveis fósseis.

Debates em torno dos combustíveis fósseis

De acordo com a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis do Brasil, as importações de gás natural caíram quase pela metade em 2022 em comparação com o ano anterior. Mas as importações de petróleo aumentaram quase 70% durante o mesmo período, o valor mais elevado desde 2015.

O próprio Brasil foi o nono maior produtor de petróleo do mundo em 2022 e o oitavo maior consumidor de produtos petrolíferos. Unterstell saúda o surgimento de uma discussão mais ampla sobre o petróleo e a transição energética no Brasil. “Este é um assunto difícil que temos que enfrentar”, diz ela. “Existe uma política agressiva para transformar o Brasil no quarto maior produtor mundial de petróleo até o final desta década. Certamente não podemos parar de produzir petróleo da noite para o dia, já que 8 dos 26 estados do país dependem fortemente das suas receitas”, mas, com a energia limpa a ficar mais barata e o mundo a precisar de eliminar gradualmente a produção e o consumo de petróleo, isto não funcionará. no longo prazo, ela diz.

No início deste ano, um debate em torno de uma licença ambiental para um poço exploratório de petróleo na foz do rio Amazonas gerou tensão entre organizações governamentais. Em maio, o IBAMA rejeitou o pedido de licença, alegando que a avaliação de risco feita pela Petrobras, a multinacional petrolífera estatal, apresentava várias falhas técnicas.

A empresa recorreu e agora a licença depende de uma avaliação do impacto que o tráfego de e para uma plataforma de petróleo terá nas comunidades próximas, a ser feita pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas do Brasil (um órgão separado do Ministério dos Povos Indígenas). No início de outubro, a concessão de uma nova licença ambiental para a Petrobras explorar águas profundas próximas ao estado do Rio Grande do Norte despertou esperanças de que o mesmo poderia acontecer em breve na foz do Amazonas. Em setembro, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, pediu mais celeridade no processo.

O panorama geral e os caminhos a seguir

A atitude do presidente Lula tem sido importante para sinalizar uma mudança de direção, disse Marina Silva, ministra do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas do Brasil, em entrevista à Nature em setembro. “Ele tem dito que quer uma matriz energética totalmente limpa e isso tem funcionado no sentido de que o Brasil pretende atingir o desmatamento zero em 2030”, disse Silva. O Brasil também assumiu compromissos climáticos e trabalhou para liderar discussões internacionais para orientar as mudanças, porque o que acontece globalmente ecoa no país, acrescentou ela.

Os impulsionadores do desmatamento e as estatísticas em torno dele são diferentes em 2023 do que eram em 2003, e o novo Plano de Ação para a Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm) do país enfrentará desafios que não existiam para o mesmo há duas décadas, diz Carlos Nobre, presidente do Painel Brasileiro sobre Mudanças Climáticas – um grupo de especialistas inspirado no Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas – que reúne e avalia informações científicas para produzir relatórios de avaliação nacionais e outros documentos que cobrem temas de mudanças climáticas específico para o Brasil.

Lançado em 2004, durante o primeiro mandato de Marina Silva como ministra do Meio Ambiente do Brasil, o PPCDAm supervisiona a vigilância e os processos por crimes ambientais, bem como a gestão de terras públicas na Amazônia brasileira. Entre 2004 e 2012, conseguiu reduzir em 83% o desmatamento do bioma. Em junho, o governo brasileiro anunciou uma versão atualizada do programa.

“O crime organizado e o tráfico de drogas explodiram na Amazônia, mas mesmo assim vemos taxas de redução do desmatamento comparáveis ​​a 2005”, diz Nobre, quando esses crimes não eram tão flagrantes. Um aspecto positivo do PPCDAm reformulado, diz ele, é que “ele dá uma ênfase importante ao desenvolvimento sustentável na Amazônia”.

Isto é crucial para efeitos duradouros, diz Unterstell. “Se não houver alternativa económica, os resultados não serão sustentáveis ​​a longo prazo e a aplicação da lei será falha”, afirma ela. “Aqueles que estão hoje envolvidos na desflorestação devem ser capazes de fazer uma transição justa para uma economia viável e que preserve as florestas.”

Quando a Nature perguntou a Silva sobre a posição aparentemente contraditória do Brasil em reduzir o desmatamento e ao mesmo tempo investir em combustíveis fósseis, Silva disse: “Todo mundo quer resolver o problema dos combustíveis fósseis, mas infelizmente a humanidade ainda não pode viver sem eles. A China não poderá renunciar a estas fontes tão cedo – o mesmo acontece com a Índia. Até a União Europeia, com todos os seus esforços, atravessa uma situação muito complexa face à guerra [da Ucrânia]. É importante que tenhamos uma visão geral.”

DOI: https://doi.org/10.1038/d41586-023-04042-x

Este artigo faz parte do Nature Spotlight: Brazil , um suplemento editorialmente independente. Os anunciantes não têm influência sobre o conteúdo.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela Nature [Aqui!].

Enquanto governo Lula concede aumentos para apenas para PRF e PF, servidores do IBAMA anunciam movimento de luta

IBAMA servidores

O ano de 2024 começa no ritmo de alta tensão dentro dos servidores públicos federais à luz das políticas restritivas impostas pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, para uma reposição linear das perdas salariais acumuladas nos últimos anos. A temperatura subiu ainda mais com o anúncio de que o governo Lula anunciou um reajuste salarial escalonado para seis cargos na Polícia Federal (PF) e na Polícia Rodoviária Federal (PRF). O acordo abrange as carreiras de delegado, perito criminal, agente, escrivão e papiloscopista na PF, além dos policiais rodoviários federais.

O problema fica ainda mais evidente com a decisão dos servidores do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (IBAMA) anunciaram já no dia 1 de janeiro que se restringirão à realizar atividades internas em face do descaso com as suas demandas salariais e de condições de trabalho (ver imagem abaixo).

ibama

A verdade é que apesar de todas os acenos feitos em suas viagens internacionais, o presidente Lula ainda está devendo ações concretas para valorização dos servidores não apenas do IBAMA, mas também do ICMBio, na medida em que eles estão na linha de frente da defesa das florestas brasileiras, mas sem a devida valorização ou condições mínimas de trabalho.

Perspectivas para 2024 para florestas tropicais

Tropical Rainforest Landscape, Amazon

Por Rhett A. Butler para a Mongabay

Na semana passada, a Mongabay publicou uma recapitulação das principais tendências nas florestas tropicais do mundo para 2023 . Aqui está um vislumbre de algumas das principais questões a serem monitoradas em 2024.

Brasil

taxa de desmatamento na Amazônia brasileira diminuiu significativamente durante o primeiro ano do terceiro mandato do presidente Lula, após o restabelecimento de vários programas de proteção da floresta tropical. No entanto, Lula enfrenta oposição substancial do Congresso e dos governos estaduais em relação às suas políticas ambientais. Apesar destes desafios, o apoio internacional à Amazónia está a reforçar os esforços de conservação da sua administração.

Eleições na RDC e na Indonésia

As eleições presidenciais serão iminentes em dois países com extensas florestas tropicais, a República Democrática do Congo (RDC) e a Indonésia.

Na RDC, o Presidente Felix Tshisekedi foi reeleito em Dezembro, no meio de controvérsia, com observadores e oposição a afirmarem que a votação não foi livre nem justa. Dado que a presidência de Tshisekedi coincidiu com taxas de desmatamento persistentemente elevadas e uma forte procura pelos minerais do país, a sua reeleição provavelmente indica poucas mudanças substanciais na tendência actual. Contudo, a escalada da instabilidade no Leste, potencialmente agravando a crise humanitária existente, poderá introduzir mais incerteza.

Na Indonésia, o ministro da Defesa, Prabowo Subianto, emergiu como o favorito presidencial. Prabowo, um crítico veemente do Regulamento Desmatamento Zero da UE, suscitou preocupações das ONG sobre o futuro da protecção ambiental na Indonésia. A redução consistente, embora subreconhecida, do desmatamento no país desde então levanta questões sobre sua continuação sob a liderança potencial de Prabowo.

Passagem de Wallace na Papua Ocidental da Indonésia.  Crédito da foto: Rhett A. Butler
Passagem de Wallace na Papua Ocidental da Indonésia. Crédito da foto: Rhett A. Butler

Mercados de Carbono

Depois de um ano desafiante, marcado por controvérsias e pela descida dos preços das compensações baseadas na natureza, os defensores dos créditos de carbono florestais têm esperança de que os padrões recentemente mais rigorosos nos mercados voluntários de carbono possam revitalizar o sector.

O estado brasileiro do Tocantins está preparado para verificar e vender créditos jurisdicionais de REDD+ (JREDD), que os proponentes argumentam serem mais confiáveis ​​do que os créditos convencionais de REDD+ no mercado voluntário. Um lançamento bem-sucedido poderia catalisar o mercado para esses créditos.

FUTUROS DE COMPENSAÇÃO DE EMISSÕES GLOBAIS BASEADAS NA NATUREZA DA CBL: contratos de fevereiro de 2024 e maio de 2024.  Cortesia do CME.
Futuros de compensações de emissões globais baseadas na natureza da CBL: contratos de fevereiro de 2024 e maio de 2024. Cortesia do CME

El Nino

A NASA e a Organização Meteorológica Mundial prevêem que o atual evento El Niño terminará este ano. Este desenvolvimento traria um certo alívio às florestas tropicais da Indonésia e da Amazónia, que sofreram secas em 2023.

Floresta e dendê em Jambi, Indonésia.  Crédito da foto: Rhett A. Butler
Floresta e dendê em Jambi, Indonésia. Crédito da foto: Rhett A. Butler

Inflação global e preços de commodities

Embora a inflação global pareça estar a diminuir, os analistas estão divididos quanto às previsões dos preços das matérias-primas. Por exemplo, a S&P Global prevê preços elevados do óleo de palma devido à estagnação da produção em grandes produtores como a Indonésia e a Malásia, juntamente com o aumento da procura de biodiesel, potencialmente sobrecarregando a oferta. Por outro lado, a Fitch prevê preços significativamente mais baixos, atribuindo isso às condições climáticas favoráveis.

Avanços em dados florestais

Espera-se que as melhorias na recolha de dados florestais continuem em 2024, impulsionadas pela crescente prevalência de satélites e pelos avanços na inteligência artificial e outras tecnologias. Por exemplo, a empresa de satélites Planet deverá introduzir uma ferramenta de mapeamento de carbono florestal e lançar a sua próxima geração de satélites ainda este ano.

Espera-se que a Universidade de Maryland divulgue sua avaliação anual da cobertura florestal global na primavera, enquanto uma parceria entre a Iniciativa Internacional para o Clima e Florestas da Noruega (NICFI) e o Bezos Earth Fund expandirá o acesso gratuito e universal ao monitoramento de alta resolução por satélite do trópicos.

Floresta tropical no Equador.  Crédito da foto: Rhett A. Butler
Floresta tropical no Equador. Crédito da foto: Rhett A. Butler

Progresso em compromissos de alto nível?

Na COP26, em Glasgow, mais de 140 países comprometeram-se a travar e reverter a desflorestação até 2030. Este compromisso foi reafirmado na COP28, no Dubai, no mês passado. Contudo, progressos significativos na garantia do financiamento necessário para atingir este objetivo continuam a ser ilusórios. O mundo está alarmantemente fora do rumo , como evidenciado pelo aumento do desmatamento em 2022. A questão premente agora é: estarão os líderes mundiais, abrangendo as esferas política e empresarial, à altura do desafio de travar o desmatamento?


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Este escrito originalmente em inglês foi publicado pela Mongabay [Aqui!].

No crespúsculo de 2023, deriva de agrotóxicos exterminou milhões de abelhas no Paraná

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A notícia publicada pelo Portal G1 é nova, mas parece velha já que trata de um problema recorrente nas regiões produtoras de mel no sul do Brasil, qual seja, o extermínio de milhões de abelhas por causa da deriva de agrotóxicos em Arapoti, município campeão na produção de mel no Paraná. O principal suspeito de ser o causador de mais esse extermínio de abelhas é o inseticida Fipronil, um velho conhecido dos apicultores brasileiros que estão perdendo sua fonte de renda em passos cada vez maiores.

A liberação de dezenas de formulações de Fipronil, que começou no governo Bolsonaro e continuou no governo Lula, é uma espécie de morta anunciada de abelhas e outros polinizadores que não são em tese alvo da aplicação de agrotóxicos. Entretanto, dada a ocorrência praticamente inevitável do processo de de deriva, o extermínio de polinizadores é uma consequência costumeira do uso de venenos agrícolas que são letais para todo tipo de insetos, e não apenas aqueles que são considerados pragas agrícolas.

A diminuição das populações de abelhas representa uma grave ameaça não apenas para os apicultores, mas para a agricultura em geral. A dependência da maioria das culturas da ação mecanica realizada pelos insetos na distribuição do pólen torna as abelhas elementos essenciais na produção agrícola. No entanto, dentro da lógica do “ogronegócio” que vende hoje o que poderá colher no futuro, o sacríficio do médio e longo prazo, curiosamente, é desprezado em nome da continuidade de um modelo viciado em agrotóxicos.

Como demonstrado na matéria do G1, a ação das agências ambientais é basicamente inócua dado que a força das entidades que representam ruralistas e os fabricantes de agrotóxicos continua sendo exercida diretamente dentro do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), bem como na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e no Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama). A recente promulgação do Pacote do Veneno pelo presidente Lula deverá agravar ainda mais essa interferência, dada a fragilização que ocorreu no marco regulatório dos agrotóxicos.

A saída para apicultores e agricultores que praticam sistemas não venenosos será tornar a questão de agrotóxicos um elemento central da luta política visando mobilizar a população que deseja ter acesso a alimentos saudáveis contra a hegemonia dos agrotóxicos na agricultura brasileira. Do contrário, em pouco tempo não haverá mais abelhas para polinizar nossos campos e produzir mel.

Retrospectiva de um ano que vai ter novo capítulos

retrospectiva

Ao me aproximar do final do calendário de 2023, a impressão que que tenho é que este é um daqueles ano com sequência garantida. Em outras palavras, temos situações pavorosas em diferentes partes do mundo, a começar pela Faixa de Gaza. O massacre em curso na Faixa de Gaza é sinal inequívoco de que o sistema unilateral criado pelos vencedores da Segunda Guerra Mundial está em colapso. O mesmo sinal é dado pela continuidade do conflito armado que ocorre na Ucrânia. O pior é que existe potencial para expansão desses conflitos, e não o contrário.

Se olharmos, por outro lado, para o agravamento da crise climática, que ficou ainda mais explícita com a histórica seca que afetou a Amazônia, veremos que além das guerras, enfrentamos com a confirmação das projeções feitas pela comunidade científica sobre os impacto o aumento da temperatura teria sobre uma nova dinâmica na atmosfera da Terra. Com essa nova dinâmica, a previsão é que passaremos por situações extremas, envolvendo inclusive a abrupta elevação do nível dos oceanos.

No entanto, nem todas as evidências acumuladas pela ciência climática têm servido para criar o senso de urgência que a situação requer. Prova disso foram os pobres resultados de mais uma conferência climática, a COP-28, que terminou com promessas tão vagas quanto as anteriores. Com isso, apesar das declarações de que estamos na véspera de uma transição para um mundo pós-combustíveis fósseis, a verdade é que nada indica que isso seja verdade.

No caso específico do Brasil, a promulgação do Pacote do Veneno aponta que a situação catastrófica que vivemos com o envenenamento de águas e solos, bem como a exposição dos brasileiros a venenos potentes que estão na raiz de uma grave crise sanitária que permanece sendo ignorada pelos governantes e pelo agronegócio, principal beneficiário de um modelo agrícola viciado em agrotóxicos.

Junto com o reinado dos agrotóxicos, o que deveremos ter é o aprofundamento do desmatamento e da degradação das florestas brasileiras, com a Amazônia e o Cerrado no centro das atenções. Com isso, também é muito provável que aumente o nível de violência contra os povos originários e comunidades tradicionais como quilombolas e ribeirinhos. É que esses grupos estão na linha de frente da resistência contra a transformação de nossas florestas em novos territórios do latifúndio agro-exportador.

Se alguém conseguiu chegar até aqui, a pergunta que pode estar sendo feita é se temos alguma saída para tantos problemas.  Como operador deste espaço, penso que a saída para todos os problemas que se avolumam sobre a Humanidade neste momento é a ação política em prol de uma nova forma de relação com a Terra e que se estenda para a relação entre as pessoas.  Essa ação deve ser marcada por uma profunda inquieitação que rejeite a naturalização de um processo de destruição que ocorre para manter uma fração mínima de privilegiados como beneficiários da catástrofe que nos envolve.

Uma coisa é certa: há que se manter a convicção de que sem luta nada se transformará. Até 2024!

Em 2023, os sindicatos dos EUA voltaram ao seu antigo radicalismo

Os sindicatos nos EUA podem lutar novamente. Eles têm grandes planos para o futuro

Ainda há muito pelo que lutar nos estados do sul dos EUA: manifestação de greve em frente à fábrica da Ford em Louisville, Kentucky

Ainda há muito pelo que lutar nos estados do sul dos EUA: manifestação de greve em frente à fábrica da Ford em Louisville, Kentucky. Foto: imago/USA Today Network

Por Julian Hitschler para o Neues Deutschland

Para o movimento sindical dos EUA, está a chegar ao fim um ano que trouxe uma viragem da defensiva para a ofensiva: a classe trabalhadora organizada nos EUA abraçou uma nova militância que parecia impensável há apenas alguns anos. E este novo movimento não é um lampejo, mas baseia-se em anos de trabalho preparatório realizado por membros ativos, que desencadeou agora uma dinâmica que não será abrandada tão rapidamente.

“A vitória leva à vitória, e o público está por trás dela”, é como o experiente jornalista sindical Alex Press resume a situação do movimento no portal de notícias “Business Insider”. E, de fato, a lista de litígios laborais bem-sucedidos em 2023 é impressionante: no prestador de serviços de logística UPS, uma mera ameaça de greve foi suficiente para alcançar uma conclusão recorde. Na empresa de saúde Kaiser Permanente, enfermeiros e outros funcionários defenderam-se das suas intoleráveis ​​condições de trabalho – com sucesso.

Para milhões de pessoas, 2023 foi marcado por guerras, refugiados e insegurança material. O discurso de ódio contra os supostamente outros é desenfreado. A União Europeia exclui cada vez mais os refugiados. Enquanto isso, os aluguéis aumentam e os salários caem. Mas em 2023 também houve movimentos que se opuseram a tudo isto.

Os russos estão a virar-se contra a guerra, os trabalhadores estão em greve em conjunto pelos seus direitos, os inquilinos estão lutando por habitação acessível.

A greve de um mês na indústria cinematográfica e televisiva recebeu atenção mundial. Inicialmente houve grandes temores quando o contrato dos roteiristas com os estúdios de Hollywood expirasse. A preocupação é que a inteligência artificial e a precarização possam agora arruinar o que outrora foi uma profissão criativa atraente para os trabalhadores. As coisas aconteceram de forma diferente. Pela primeira vez na história, os atores do SAG-AFTRA entraram em greve com os seus colegas. O resultado após vários meses de greve: direitos abrangentes de propriedade criativa e um acordo coletivo atraente para ambos os grupos profissionais.

Mas quase nenhuma disputa industrial manteve os EUA em suspense em 2023 como a greve dos United Auto Workers (UAW).  A UAW travou batalha defensiva após batalha defensiva nos últimos anos. Mas em março, os membros estabeleceram um limite e elegeram um novo líder do UAW, Shawn Fain, que defendeu uma atitude mais conflituosa.

Fain venceu com a promessa de colocar a base sindical de volta no comando. A disputa foi extremamente acirrada: apenas cerca de 500 votos separaram Fain de seu concorrente moderado. Uma mudança na liderança também foi crucial para o sucesso da negociação coletiva na UPS. O sindicato da Irmandade Internacional dos Caminhoneiros já havia eleito uma nova liderança em 2022, que prometia um rumo mais radical. Fain não apenas atendeu às expectativas de um UAW combativo, mas também superou tudo o que os observadores esperavam: pela primeira vez em sua história, funcionários das três principais empresas automobilísticas dos EUA, General Motors, Ford e Stellantis (anteriormente Chrystler), pararam de trabalhar ao mesmo tempo. Uma estratégia arriscada que funcionou: não só o fundo de greve do UAW estava cheio até ao limite após anos de contenção. Fain e a liderança do UAW também conservaram os seus cofres através da tática de greves contínuas, que atingiram pontos particularmente sensíveis nas cadeias de abastecimento empresariais de formas imprevisíveis.

O resultado final não foi apenas um acordo coletivo recorde, mas foi também profundamente influenciado pela ideia de solidariedade: os maiores aumentos salariais foram para trabalhadores temporários mal remunerados, que agora recebem um estatuto de emprego regular muito mais rapidamente. O UAW resistiu conscientemente – e com sucesso – à estratégia de divisão entre forças de trabalho principais e temporárias que causou tantos danos no passado.

Apesar de todos os sucessos, os sindicatos dos EUA não estão numa posição confortável. Os funcionários da Amazon e da Starbucks devem continuar a lutar pelo seu primeiro acordo coletivo; organizar novas indústrias continua a ser uma tarefa gigantesca que requer muita perseverança. Novas startups, como o Sindicato dos Trabalhadores da Amazon, liderado pelo carismático trabalhador de armazém Chris Smalls, de Nova Iorque, continuam a passar por momentos difíceis, mas o movimento provou que também pode vencer batalhas longas e cansativas. E tem objetivos ambiciosos para o próximo ano: a UAW pretende seguir atingindo as fábricas de fabricantes de automóveis não sindicalizados nos EUA, como a Toyota, a VW e a Tesla. Esta poderia ser a disputa trabalhista definitiva nos EUA em 2024.

E Fain e o UAW também têm planos para o período seguinte: o sindicato automobilístico definiu a data final dos seus atuais acordos coletivos como 1º de maio de 2028 e apelou a outros sindicatos para seguirem o seu exemplo. Ao fazê-lo, a UAW está a lançar as bases para uma greve geral que poderá alterar irrevogavelmente o equilíbrio de poder nos EUA a favor dos trabalhadores.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].