O agro é tudo? Pacto do agronegócio e reprimarização da economia

Este artigo, dividido em duas partes, aborda a economia agrária contemporânea do Brasil tendo em vista o processo mais geral de condicionamento do sistema econômico como um todo pelas tendências de reprimarização da economia, fortemente observáveis em seu comércio exterior. Esse processo afeta também a indústria, que tende a declinar de peso econômico ou a se limitar a funções coadjuvantes da chamada “economia do agronegócio”

pulverizacao-de-um-plantio-de-algodao-da-Fazenda-Planeste_Balsas_MA_artigo-CWPG_TBauer-1-de-1-1024x683Pulverização de agrotóxicos em plantação de algodão, em Balsas (MA). (Foto: Thomas Bauer)

Por Guilherme C. Delgado e Sergio Pereira Leite para o LeMonde Diplomatique Brasil 

O tema da reprimarização da economia requer esclarecimentos, principalmente sobre suas implicações ocultas, visto que no tratamento midiático e ideológico do sistema agrário hegemônico todo esse processo é vendido como uma espécie de sucesso incontroverso de uma entidade mágica – o “agronegócio”[1].

A abordagem do texto está dividida em dois tópicos principais, que ao final se encontram numa seção de síntese a título de conclusão. A seção inicial trata de fazer certa dissecação temporal dessa economia reprimarizada, tomando por referência o início dos anos 2000, quando se (re)articulam os mecanismos de política econômica e social tendentes a converter as exportações de commodities agrícolas e minerais em espécie de carro chefe do comércio exterior brasileiro. Essa situação se configura não apenas como política econômica convencional de governo, mas adquire status de política de Estado por duas décadas até o presente, com consequências socioeconômicas e ambientais graves, mas de certa forma interditadas ao debate público. O diagnóstico macroeconômico e ambiental desse período revela indicadores empíricos críticos que convém ressaltar até para melhor caracterizar qualitativamente o processo em curso, bem como a rápida financeirização da agricultura, convertendo ativos reais, como commodities e terra em alvo de investimentos especulativos que conferem novos significados à dinâmica dessa economia agrária nacional.

Na seção seguinte destacamos o sentido da expressão “especialização primária” no comércio externo. Ao contrário do que sugere o senso comum, essa especialização não melhora a autonomia em nossas relações econômicas externas. Antes, acentua a dependência do conjunto do sistema econômico relativamente ao setor especializado em exportações, expelindo paulatinamente todos os demais, principalmente as exportações de manufaturados.

Afora o significado da dependência econômica, que pode ser medida pelo forte crescimento do déficit em “serviços e rendas pagos ao exterior” e pela virtual expulsão das manufaturas da Balança Comercial, tais processos aumentam ainda mais o peso de meia dúzia ou pouco mais de commodities agrícolas e minerais na economia brasileira; commodities que, para gerar os valores que delas requer o ambíguo conceito de “equilíbrio externo”, combinam mecanismos de dilapidação ambiental com outros de concentração fundiária de renda e riqueza.

Esse processo de especialização primário-exportadora afeta negativamente as estratégias alternativas de desenvolvimento rural baseadas na sustentabilidade agroecológica e no combate às desigualdades socioeconômicas. Nas Considerações Finais, reservamos algumas reflexões sobre a necessidade de mudança de rumos desse sistema de especialização primário exportador antiecológico, predatório, produtor de desigualdades e gerador de dependência econômica externa.

Commodities, Comércio Exterior, Financeirização: uma revisão crítica

Nas duas últimas décadas, as transformações econômicas, sociais e políticas na paisagem agrária nacional foram particularmente marcantes, especialmente quando vistas a partir de uma perspectiva mais ampla. Ao lado de conquistas importantes, em particular durante a década de 2000 – como a criação de um conjunto inovador de políticas agrárias e alimentares diferenciadas e a redução das desigualdades sociais e da fome (indicadores que seriam rapidamente revertidos a partir de 2016) -, também assistimos a um conjunto de processos que aprofundaram as contradições estruturais da sociedade brasileira e caracterizaram um forte viés regressivo no meio rural, ainda pautado pela alta desigualdade do acesso à terra. Com efeito, os dados do Censo Agropecuário de 2017 mostram que os estabelecimentos agropecuários menores do que 10 hectares, apesar de representarem metade do total de unidades, respondiam por apenas 2,28% da área total, enquanto os estabelecimentos com 1.000 ou mais hectares eram somente 1% do número total, mas detinham 47,52% da área (IBGE, 2019)[2].

Nesta seção, revisitaremos rapidamente esse quadro privilegiando dois aspectos: a expansão da produção de commodities e suas implicações no comércio exterior, bem como a intensidade do processo de financeirização do campo.

Especialização Primário-Exportadora e o Modelo de Expansão da Produção Agrícola

Como destacam Flexor, Kato e Leite (2022: 11)[3], “a dinâmica econômica global caracterizada pelo vigoroso crescimento econômico dos países em desenvolvimento, a expansão do comércio e a baixa inflação global tiveram um efeito significativo sobre o padrão de comércio brasileiro. Em particular, a ascensão da China à condição de potência econômica global impactou as relações comerciais brasileiras. […] em duas décadas o país passou a ser o principal mercado para as exportações brasileiras que, entre 2000 e 2020, teve seu valor aumentado em 6.048%, passando de um pouco mais de US$ 1,08 bilhões para mais de US$ 67,68 bilhões. A China, que representava o destino de somente 1,97% do valor total das exportações brasileiras em 2000, correspondia a quase um terço (32,40%) deste em 2020. As importações de produtos chineses seguiram trajetória semelhante. Em 2020, chegaram a US$ 34,77 bilhões, isto é 21,9% do valor total importado, representando um aumento de 2.752% em 20 anos”.

FIGURA 1 – PRINCIPAIS SETORES EXPORTADORES E OS RESPECTIVOS VALORES DAS EXPORTAÇÕES BRASILEIRAS EM 2020 – EM US$ BILHÕES FOB

Fonte: ComexStat (2020). Apud Flexor et al. (2022: 13)
Fonte: ComexStat (2020). Apud Flexor et al. (2022: 13)

Essa concentração no mercado chinês foi ainda acompanhada por uma mudança radical na estrutura das exportações brasileiras, visto que até 2000 ainda era relativamente diversificada a pauta de comércio exterior, que vai dando lugar ao predomínio dos produtos básicos ao longo de 20 anos. Como exemplifica a Figura 1, a soja, o minério de ferro e o petróleo integram esse maior peso das exportações de bens primários intensivos em recursos naturais e o concomitante crescimento relativo das importações de produtos manufaturados. Como informado pela Secretaria de Comércio Exterior (SECEX), a partir de 2018 o Brasil volta a contar com mais de 50% das suas exportações baseadas em produtos básicos, após décadas e décadas de diversificação da corrente de comércio externo.

O caso da soja merece destaque. Em 2000, o valor das exportações da cadeia oleaginosa representava 5% do valor total exportado pelo Brasil, passando para 16,8% em 2020, explicado pelo aumento expressivo das importações chinesas, que representavam mais de 70% do valor total de soja exportada pelo Brasil neste último ano. O mesmo aconteceria com o minério de ferro. É importante sublinhar que o setor rural (incorporando os setores industriais adjacentes) tem mantido uma performance superavitária na sua corrente de comércio ao longo do período aqui analisado, como atesta a Figura 2. Enquanto a balança comercial geral alternou momentos deficitários e momentos timidamente superavitários, a balança do “macro setor agrícola” abriu importante diferença entre exportações e importações, corroborando o processo de reprimarização da pauta de exportações[4].

FIGURA 2 – BALANÇA COMERCIAL DO “MACRO SETOR AGRÍCOLA” (EXPORTAÇÕES, IMPORTAÇÕES E SALDO) – 2000/2020 (EM US$ FOB)

Fonte: SECEX (vários anos). Apud Flexor et al. (2022: 15)
Fonte: SECEX (vários anos). Apud Flexor et al. (2022: 15)

O aumento dos preços das commodities e sua capacidade de geração de divisas levaram Maristela Svampa a caracterizar o período como o “Consenso das Commodities”[5], em contraste com o “Consenso de Washington”, cunhado para retratar o ajustamento estrutural das economias latino-americanas. Esse ciclo impactou diretamente o uso de recursos naturais, em particular a terra, pressionando seus custos, assim como áreas destinadas à preservação do meio ambiente e aquelas objeto da posse de populações originárias, em particular nos biomas da Amazônia e do cerrado, abrindo espaço para novas disputas territoriais fartamente noticiadas pela imprensa. Outro efeito do mesmo movimento é a diminuição da área destinada ao plantio das culturas alimentares, em particular aquelas que integram a cesta básica e são comercializadas em âmbito local e/ou regional. Como demonstram Flexor et al. (2022), arroz e feijão perderam terreno consideravelmente nesses vinte anos, o que foi relativamente compensado pelo aumento da produtividade em determinados anos. Resultado dessa equação é o encarecimento dos preços dos bens que integram a alimentação de boa parte da população e o retorno impressionante da fome no país, associado ao desmonte de políticas agroalimentares nos últimos cinco anos. Dados produzidos pela Rede PENSSAN informam que praticamente 60% da população brasileira encontra-se atualmente no grupo de insegurança alimentar, sendo 33 milhões de pessoas na categoria de insegurança alimentar grave[6].

 

Guilherme C. Delgado é pesquisador aposentado do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e membro da Direção Colegiada da Associação Brasileira de Reforma Agrária.

Sergio Pereira Leite é professor Titular do Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

[1] Sobre uma discussão mais aprofundada a respeito do emprego e do significado do termo “agronegócio”, ver DELGADO, G. 2012. Do capital financeiro na agricultura à economia do agronegócio: mudanças cíclicas em meio século (1965-2012). Porto Alegre: Ed. UFRGS, 142 p.; e HEREDIA, B.; PALMEIRA, M.; LEITE, S.P. 2010. Sociedade e economia do agronegócio no Brasil. Revista Brasileira de Ciências Sociais, 25 (74): 159-196.

[2] Ver INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2019. Censo Agropecuário 2017. Rio de Janeiro: IBGE.

[3] FLEXOR, G.; KATO, K.; LEITE, S.P. 2022. Transformações na agricultura brasileira e os desafios para a segurança alimentar e nutricional no século XXI. Textos para Discussão, 82. Rio de Janeiro: Fiocruz. (Projeto Saúde Amanhã).

[4] Cf. FLEXOR, G. et al., 2022. Op. cit.

[5] SVAMPA, M. 2013. Consenso de los commodities y lenguajes de valoración en America Latina. Nueva Sociedad, no. 244 (30:46), mar/abr.

[6] REDE BRASILEIRA DE PESQUISA EM SOBERANIA E SEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRICIONAL (Rede PENSSAN). 2022. II Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid 19 no Brasil – II VIGISAN: Relatório Final. São Paulo, SP: Fundação Friedrich Ebert, Rede PENSSAN.


compass black

Este texto foi originalmente publicado pelo LeMonde Diplomatique Brasil [Aqui!].

Novo plano da EPA para agrotóxicos que são desreguladores endócrinos desperta esperança, mas também ceticismo

de

Por Johnathan Hettinger 

Um novo plano da Agência de Protecção Ambiental dos EUA (EPA) que visa proteger o público da exposição a agrotóxicos que prejudicam a saúde reprodutiva está despertando esperança nos defensores que apelam à ação há mais de duas décadas, mas o ceticismo continua elevado.

A EPA está aceitando comentários públicos sobre o plano, que poderá impactar a regulamentação de vários pesticidas amplamente utilizados, até 26 de dezembro. Mas os principais participantes da indústria agroquímica – bem como alguns defensores ambientais – estão pedindo à EPA que estenda o prazo, citando o complexidade e magnitude da proposta da EPA.   

A estratégia há muito esperada surge depois de litígios e múltiplas investigações do Inspetor Geral terem exposto décadas de inacção da EPA para lidar com provas de que muitos agrotóxicos amplamente utilizados estão pertubando a produção de hormônios em seres humanos de formas que interferem com gestações saudáveis ​​e causam uma série de outros danos.  

“No geral, estamos muito felizes por a EPA finalmente tomar algumas medidas neste programa”, disse Jenny Loda, advogada do Centro de Segurança Alimentar (CFS). No ano passado, o CFS processou a EPA em nome dos trabalhadores agrícolas por não cumprirem o Programa de Rastreio de Disruptores Endócrinos (EDSP) implementado pelo Congresso como parte da Lei de Protecção da Qualidade Alimentar de 1996. 

Loda disse que eles continuarão com seu litígio, que tem o potencial de definir prazos determinados pelo tribunal sobre o progresso da EPA com o programa.

“Política, não ciência”

Segundo a lei, a EPA deve analisar o impacto dos agrotóxicos no sistema endócrino humano – o sistema hormonal do corpo que controla ou regula muitas funções biológicas, incluindo as funções dos órgãos reprodutivos, o crescimento e os níveis de energia. A agência deverá então incorporar esses dados e considerar se são necessárias restrições para proteger o público dos riscos.

(Fonte: EPA)

No entanto, durante mais de 25 anos, a EPA não determinou sequer um único produto químico como sendo um desregulador endócrino através do seu processo de testes, e não introduziu qualquer regulamento para proteger os consumidores e os trabalhadores agrícolas de agrotóxicos que pesquisas independentes demonstraram ser desreguladores endócrinos.

Na verdade, a EPA testou apenas 4% de todos os agrotóxicos registrados quanto às qualidades desreguladoras do sistema endócrino e não concluiu uma segunda ronda de testes em nenhum agrotóxico.

Em 2011 e novamente em 2021, o Gabinete do Inspetor Geral (OIG) da EPA emitiu relatórios públicos detalhando a falha da EPA em tomar medidas em relação ao EDSP. O relatório do Inspetor Geral de 2021 descobriu que a EPA estava recebendo US$ 7,5 milhões por ano para o programa EDSP, mas os funcionários foram instruídos a operar como se ele não existisse.

“Essa é a história do EDSP”, disse Laura Vandenberg, professora da Universidade de Massachusetts que escreveu sobre os fracassos do programa. “É subfinanciado, com falta de pessoal e os funcionários são instruídos a trabalhar basicamente em outra coisa. Isso me parece política, não ciência.”

Em Outubro – com um ano de atraso – a administração Biden revelou finalmente um plano estratégico não vinculativo sobre a forma como o Gabinete de Programas de Pesticidas da EPA assumiria o EDSP. 

“Este plano é um marco importante em nossos esforços para garantir que as decisões sobre agrotóxicos continuem a proteger a saúde humana”, disse o vice-administrador assistente de programas de agrotóxicos do Escritório de Segurança Química e Prevenção da Poluição, Jake Li, em um comunicado na época. “Começando com nossos produtos químicos de maior prioridade, a EPA comunicará de forma mais transparente nossas descobertas sobre desreguladores endócrinos para humanos, extraindo dados existentes quando possível e solicitando novos dados quando necessário para avaliar potenciais efeitos de estrogênio, andrógeno e tireoide.” 

Alguns agrotóxicos podem perturbar o sistema endócrino, bloqueando ou imitando os hormônios do corpo. As pessoas podem ser expostas através da ingestão de água potável ou de alimentos contaminados com agrotóxicos e da respiração de ar contaminado. Os trabalhadores agrícolas geralmente enfrentam riscos de exposição mais elevados do que a população em geral porque os agrotóxicos são amplamente utilizados na agricultura. Mesmo pequenas perturbações no sistema endócrino podem causar impactos significativos na saúde humana. Os cientistas associaram a desregulação endócrina ao câncer da mama, diabetes, obesidade, infertilidade e dificuldades de aprendizagem.

Os cientistas perceberam que as doenças associadas aos produtos químicos desreguladores endócrinos estavam aumentando há muito tempo, o que levou à decisão do Congresso, na década de 1990, de pressionar a EPA a conceber um programa para identificar e lidar com a ameaça à saúde pública. 

A agência deveria inicialmente implementar o programa até agosto de 1999. Depois de perder o primeiro prazo, o Conselho de Defesa dos Recursos Naturais, uma organização ambiental internacional sem fins lucrativos, processou a EPA e, desde então, a EPA não conseguiu implementar o programa, repetidas vezes perdendo prazos judiciais e auto-impostos. 

Apesar das décadas de atraso, as empresas que vendem agrotóxicos amplamente utilizados, incluindo os fabricantes de herbicidas Syngenta e Bayer, que compraram a Monsanto em 2018, estão a pedindo à EPA que adie ainda mais a implementação do seu plano. Ambas as empresas, juntamente com o lobista da indústria agroquímica CropLife America, solicitaram à EPA que estendesse o período de comentários públicos em 90 dias.

“A Bayer tem um grande número de ingredientes ativos técnicos que precisam ser avaliados para determinar se há outras informações cientificamente relevantes disponíveis para fornecer à
Agência”, disse a Bayer em carta enviada à EPA no mês passado. Os produtos de eliminação de ervas daninhas à base de glifosato da Bayer – herdados da Monsanto – estão actualmente sob escrutínio global, uma vez que muitos cientistas apontam para o que consideram ser evidência de uma série de riscos para a saúde humana decorrentes da exposição ao glifosatoincluindo perturbações endócrinas. 

E, chamando o plano de um “passo importante”, a Rede de Proteção Ambiental, que é um grupo de ex-funcionários da EPA, pediu à agência que estendesse o período de comentários públicos por 30 dias para “permitir ao público o tempo necessário para se preparar ao máximo comentários abrangentes possíveis.” 

“Fé perdida”

De acordo com o seu novo plano, a EPA afirma que dará prioridade à compreensão dos efeitos que certos agrotóxicos têm nos sistemas endócrinos humanos, ao mesmo tempo que atrasará a análise dos efeitos na vida selvagem. A agência disse que utilizará os dados existentes que já possui, introduzindo gradualmente requisitos para novos dados de investigação ao longo do tempo, à medida que os agrotóxicos forem submetidos a revisão de registro. De acordo com a lei, a segurança dos agrotóxicos deve ser revista a cada 15 anos.

Atualmente, a EPA exige dois níveis de testes para determinar se um produto químico é um desregulador endócrino. Primeiro, os agrotóxicos passam por testes de Nível 1 para determinar se têm potencial para serem um desregulador endócrino. Se for determinado que um produto químico tem esse potencial, ele deverá passar para os testes de Nível 2, que fazem uma determinação. 

No entanto, a EPA nunca fez com que um produto químico passasse por testes de Nível 2, apesar de ter testado alguns produtos químicos como potenciais desreguladores endócrinos. 

Maricel Maffini, consultora independente que pesquisou a EDSP, disse que há muitas pesquisas que mostram que determinados pesticidas, como a atrazina, o clorpirifós e o glifosato, são produtos químicos desreguladores endócrinos, mas a EPA recusou-se a incorporar muitos dos produtos revistos por pares. literatura sobre esses agrotóxicos. 

“Quantos testes positivos eles precisam ter para chamar um gato preto de gato preto? Eles nunca aceitaram ter que tomar decisões. Eles estão chutando as latas que encontram no caminho”, disse Maffini.

A EPA perdeu muita confiança do público durante este atraso, de acordo com Jennifer Sass, cientista sénior do Conselho de Defesa dos Recursos Naturais.

“As pessoas perderam a fé na EPA para fazer este trabalho”, disse Sass. “Eles estão se esforçando para não chamar de prejudiciais coisas que todos sabem que são prejudiciais.”


color compass

Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo “The New Lede” [Aqui!].

Lula repete Bolsonaro, e governo não compra terras para reforma agrária pelo terceiro ano seguido

Lula 3 tem reforma agrária lenta, mas mantém ritmo acelerado de emissões de títulos de lotes de assentados; política foi prioritária na gestão Bolsonaro, porém, é criticada por movimentos sociais

ato-mst-parauapebas

Ato de solidariedade ao acampamento Terra e Liberdade, onde seis acampados e três trabalhadores morreram em incêndio em Parauapebas (PA) (Foto: Rodrigues Silva/MST) 

Por Fernanda Canofre para a Repórter Brasil

A morte de nove pessoas em um acampamento do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) em Parauapebas (PA), no último dia 9, chamou atenção para a situação de risco enfrentada por acampados e pré-assentados no país. As políticas de reforma agrária caminham a passos lentos há dez anos, e pouco mudou no atual governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). 

O número de áreas adquiridas pela União para a criação de novos assentamentos vai terminar zerado pelo terceiro ano consecutivo – acompanhando o movimento iniciado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em 2021.

Cerca de 65 mil famílias vivem hoje em acampamentos, segundo fontes do movimento, e outras 30 mil estão em pré-assentamentos – onde os processos não foram concluídos e, por isso, os agricultores não têm acesso a créditos nem a outras políticas do programa de reforma agrária. 

O Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) joga a conta da paralisia da atual gestão na herança deixada pelo governo anterior. ‘’Neste ano, não houve compra de terras para destinação ao Programa Nacional de Reforma Agrária (PNRA). Em função do orçamento exíguo herdado do governo anterior, estão sendo empreendidos esforços no sentido de mapear terras devolutas e direcioná-las ao programa’’, diz o órgão, via assessoria de imprensa.  

O orçamento deste ano, de R$ 256 milhões, foi o menor dos últimos 20 anos, segundo dados do Incra. O valor previsto para 2024 é de R$ 567 milhões, de acordo com a primeira versão da lei orçamentária do próximo ano, que deve ser votada ainda nesta semana no Congresso.

‘’O diálogo [com o governo] é uma beleza, mas não passa disso”, afirmaJoão Paulo Rodrigues, coordenador do MST. “O governo é democrático, de participação, explica o problema e traz para nós a situação. Mas a questão é a seguinte: como eu saio de R$250 milhões e chego a pelo menos R$ 1 bilhão para o Incra?’’, questiona. 

Além do orçamento abaixo do necessário, outros fatores dificultam o processo, como o fato de o Incra carecer de servidores e estrutura.

‘’A Superintendência aqui já teve mais de 200 servidores e hoje temos cerca de 50. Não tem gente para poder fazer revisão, não tem vistoria nos lotes, não tem dinheiro para poder ir lá. É uma situação caótica. O último concurso foi em 2012 e foi sucateando de lá para cá, o pessoal foi saindo’’, diz o superintendente regional do Incra em Marabá (PA), Reginaldo Rocha de Negreiros, em entrevista concedida antes do trágico incêndio ocorrido no sudeste do Pará, durante a instalação de uma antena de internet. A regional é responsável por Parauapebas.

Na região, há territórios que esperam o andamento do processo de regularização desde o governo Dilma Rousseff (PT), encerrado há quase oito anos.

É o caso do Projeto de Assentamento Marajaí dos Carajás. A área está localizada nos municípios de Sapucaia, Xinguara e Curionópolis. Ela foi reconhecida em portaria de 2016, após o acampamento ser erguido em 2010, mas não passou disso.

Antônio Reis da Silva, 59, presidente de uma das associações do Assentamento Marajaí dos Carajás, conta que os agricultores, sem as políticas de reforma agrária, se viram como podem nos últimos 13 anos. Ergueram casas e instalaram serviços de internet e luz por conta própria. A única ajuda vinda por meio do poder público, diz ele, foi um trator comprado via emenda parlamentar de um vereador local.

“Essas trocas de governo sempre prejudicam os pequenos da agricultura familiar, que querem sobreviver trabalhando dos braços”, conta.

Para o advogado José Batista, da CPT (Comissão Pastoral da Terra) no Pará, ainda não está claro qual vai ser a prioridade do Incra nos próximos anos. ‘’Não tem um projeto. O que tem são discursos do ministro, do presidente do Incra, da cúpula do governo, mas não tem um programa divulgado das metas, das políticas que serão priorizadas’’, avalia. 

Assentados em queda, titulação em alta

Nesse cenário, o governo Lula vai fechar seu primeiro ano de gestão com índices próximos aos da gestão Bolsonaro. Segundo o Incra, foram criados dez assentamentos neste ano, em áreas que já haviam sido adquiridas pelo governo federal. Isso representa metade da meta para 2023, com base em um balanço dos oito primeiros meses da gestão ao qual a Repórter Brasil teve acesso. Os dez assentamentos criados somam área de 10,5 mil hectares.

Por outro lado, continua a política em torno da emissão de títulos definitivos da terra para quem já é assentado, empreendida a todo gás sob Bolsonaro. Foram 38 mil títulos em 2023, segundo o Incra, somando Títulos de Domínio (TD) em assentamentos e glebas públicas e Contratos de Concessão de Uso (CCU). A meta deste ano é chegar a  57.623, segundo o balanço.

Em tese, a titulação seria a última etapa do processo de reforma agrária, depois da implementação de outras políticas públicas para atender famílias cadastradas e consolidar territórios, aponta Batista, da CPT.

‘’Porém, no governo Bolsonaro, se inverteu essa lógica. Colocou-se a titulação como sendo a primeira e única política para os assentados, e a gente percebe o governo atual tendo dificuldade de romper com essa lógica”, diz Batista. “Não somos contra a titulação, mas ela atropela o processo, porque sem estudo prévio para saber quais famílias já foram beneficiadas, corre-se o risco de titular quem não teve acesso [aos benefícios da reforma agrária]. Se as pessoas continuarem na dependência do município, podem acabar vendendo o lote’’, explica. 

Quanto ao número de famílias assentadas anualmente, os dados obtidos pela reportagem mostram queda contínua desde o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, principalmente durante o governo Bolsonaro.

Em 2023, foram assentadas 5.711 famílias, segundo o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar. Essa era a meta do Incra para o ano.

O Ministério do Desenvolvimento Agrário, responsável pelo Incra, afirma que o Plano Emergencial de Reforma Agrária prevê assentar 7.200 famílias e regularizar outras 40 mil, mas não fala em prazo. 

O governo vem tentando levantar terras por outros caminhos. No anúncio oficial do Plano Safra 2023/2024, no primeiro semestre, o presidente Lula  aventou a ideia de uma “prateleira de terras”.

‘’Se nós temos o Incra, que é responsável pela distribuição de terra nesse país, pela compra de terra, se nós temos em cada estado um instituto que cuida da terra, a minha pergunta é a seguinte: por que a gente tem que esperar as pessoas invadirem uma terra para a gente comprar? Por que a gente não faz um levantamento de todas as terras devolutas, de todas as terras ociosas e a gente cria no governo um balcão, uma prateleira de terras?’, discursou o presidente.

À reportagem, em novembro, o Ministério do Desenvolvimento Agrário afirmou que a Câmara Técnica de Destinação e Regularização Fundiária de Terras Públicas Federais Rurais foi reinstalada, e que ela dará ‘’início à consolidação de uma prateleira de terras públicas que podem ser destinadas à reforma agrária’’. Porém, não explicou como o sistema vai funcionar.

(Infografia: Cris Macari)
(Infografia: Cris Macari)
(Infografia: Cris Macari)

‘Sem guerra’

Em meio à falta de resultados, parlamentares do PT teriam criticado a demora do andamento de programas, segundo apurou aRepórter Brasil. A lentidão também impulsionou protestos do MST ao longo do ano – além de ocupações de terra –, colocando o governo e o movimento em lados opostos em alguns momentos.

Lula chegou a dizer que era possível fazer a reforma agrária sem “barulho” e sem “guerra”. “Eu disse para o [ministro do Desenvolvimento Agrário] Paulo Teixeira esses dias: não precisa mais invadir terra. Se quem faz o levantamento da terra improdutiva é o Incra, o Incra comunica o governo quais são as terras improdutivas que existem em cada estado brasileiro e a partir daí vamos discutir a ocupação dessa terra. É simples. Não precisa ter barulho, não precisa ter guerra”, disse o presidente em junho.

Seus ministros adotaram tom ainda mais crítico. Em maio, Teixeira e o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, foram à Comissão de Agricultura e Reforma Agrária no Senado e tocaram no assunto. ‘’Não tem posicionamento dúbio: invasão de terras não é legítimo. Não devemos apoiar’’, disse Fávaro. ‘’Isso é uma exigência do governo: com áreas ocupadas, não negociamos. Não há desse governo qualquer leniência com esse tipo de problema’’, afirmou Teixeira.

Rodrigues, coordenador do MST, afirma que as ocupações ocorrem como um protesto contra fazendas ou empresários suspeitos de cometer violações, e não miram o governo nem são uma “moeda de troca”. “Não sou eu, João Paulo, aqui de São Paulo, que decido ‘gente, amanhã vamos ocupar terra no Pará’. Não se trata disso. É um combinação de gente desempregada, alguma fazenda que está desocupada, tem trabalho análogo à escravidão, não respeita o meio ambiente’’, diz.

‘Nunca haverá, por parte do MST, uma moratória sobre ocupação de terra. O que há são cuidados. O MST não pode fazer ocupação com poucas famílias, não pode fazer em áreas produtivas que cumprem a função social, deve evitar áreas que podem ter conflito de alguma natureza’’, continua.

Em meio a esse fogo cruzado, ainda houve em maio a instalação da CPI do MST no Congresso, lembra Rodrigues, acrescentando que a comissão teria atrapalhado os planos do governo de cuidar do assunto. ‘’A direita conseguiu enquadrar e constranger o governo com essa CPI. O governo achou que a CPI era um problema do MST, só que também paralisou tudo por sete meses’’, afirma. A comissão perdurou na Câmara até setembro, e foi concluída sem a votação do relatório final.  

E o ano que vem?

A maior preocupação para 2024 é garantir orçamento para o Incra. Mas o plano de gastos do Executivo sequer foi aprovado no Congresso. O orçamento previsto para o próximo ano, de R$ 567 milhões, é abaixo do necessário na avaliação de movimentos. 

O MST diz ser necessário algo na casa de R$2,8 bilhões. Já a Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (Contag) estima R$ 7 bilhões.

A falta de orçamento afeta as políticas agrárias há dez anos, avalia Ceres Hadich, coordenadora do escritório nacional do MST. “Nos assentamentos não conseguimos acessar as políticas públicas individuais e coletivas’.

‘’A gente está na briga para que o governo recomponha esse orçamento. Para o PAC [Plano de Aceleração do Crescimento] há recursos, por que não pode tirar algo disso para a reforma agrária? A gente avalia que está devagar, mas não é hora de desanimar’’, diz Alair Luiz dos Santos, secretário de política agrária da Contag.

‘’Os recursos destinados no orçamento do Incra são menos da metade do que um parlamentar tem direito de emenda individual impositiva. São cerca de R$ 11 milhões a R$ 12 milhões para investimento nas ações da reforma agrária no Brasil inteiro”, disse o senador Beto Faro (PT-PA), em discurso em agosto. À reportagem, o parlamentar, que já foi superintendente do Incra em Belém, disse que vai destinar emendas ao órgão no próximo ano.

Negreiros, superintendente do Incra em Marabá, diz conhecer bem a sensação da espera das famílias que aguardam o cenário mudar. Ele é agricultor familiar, assentado pela reforma agrária em São Geraldo do Araguaia, na região do Baixo Araguaia, mas aguarda há mais de três décadas pelo título definitivo da terra. Confirmado o orçamento enxuto outra vez, ele também se preocupa.

‘’A gente fica na angústia de sempre, porque sabe que não vai atender a demanda. A gente tem quase 200 áreas que o povo está ocupando, a maioria teria condições de fazer obtenção, mas cadê o dinheiro para comprar e assentar esse pessoal? Com um orçamento desses, não tem’’, finaliza.


color compass

Este texto foi originalmente publicado pela Repórter Brasil [Aqui!].

Grupos lançam ação legal para cassar registro do Glifosato nos EUA

glifo sus

Por Sustainable Pulse 

Uma ação legal inovadora lançada quarta-feira apela à Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) para suspender e cancelar imediatamente o perigoso herbicida glifosato, o principal ingrediente do Roundup da Bayer/Monsanto

O registro do glifosato é ilegal, afirma a petição apresentada pelo Center for Food Safety em seu nome, pela Beyond Pesticides e por quatro grupos de defesa de trabalhadores rurais . No ano passado, em uma ação judicial movida pelas mesmas organizações sem fins lucrativos, um tribunal federal de apelações anulou a avaliação de saúde humana da EPA porque a agência rejeitou injustamente o risco de câncer do glifosato. A petição de hoje, pedindo o cancelamento e suspensão do registro do glifosato, tem mais de 70 páginas e inclui mais de 200 citações científicas.

“Esta petição é um modelo para a administração Biden fazer o que a lei e a ciência exigem e finalmente cancelar o registro do glifosato”, disse Pegga Mosavi, advogada do Centro de Segurança Alimentar e conselheira dos peticionários. “Existem inúmeras evidências científicas que demonstram que o glifosato põe em perigo a saúde pública e representa riscos de câncer para os agricultores e outros utilizadores do Roundup. As formulações de glifosato também são um perigo ambiental e provocaram uma epidemia de ervas daninhas resistentes que assolam os agricultores. Após a decisão judicial do ano passado, a EPA não tem bases legais para se sustentar. A EPA deve agir agora.”

O glifosato é o agrotóxico mais utilizado no mundo, com aproximadamente 136 milhões de toneladas aplicadas anualmente nos EUA. No entanto, a EPA recusou-se a agir, apesar dos danos infligidos pelo uso generalizado do glifosato. Numerosos estudos – incluindo muitos patrocinados pela Bayer/Monsanto – mostram que o glifosato tem efeitos nocivos no fígado, nos rins e no sistema reprodutor, e é um provável agente cancerígeno ligado especificamente ao cancro do sistema imunitário, o linfoma não-Hodgkin.

Caixa de glifosato

Certificação de isenção de resíduos de glifosato para marcas de alimentos – Clique aqui

Teste a presença de glifosato em sua comida e água em casa – Clique aqui

Teste seu cabelo quanto a glifosato e outros pesticidas – Clique aqui para descobrir sua exposição de longo prazo

Bill Freese, diretor científico do Center for Food Safety, observou: “A EPA certa vez reconheceu que o glifosato tem efeitos adversos no fígado, nos rins e no sistema reprodutivo dos mamíferos, e pode até causar câncer – efeitos que foram revelados pela primeira vez em estudos de décadas atrás com registrantes. . Mas à medida que a Monsanto procurava utilizações cada vez mais amplas para o seu herbicida de grande sucesso, a EPA relegou esses estudos incriminatórios ao esquecimento regulamentar, facilitando assim uma maior utilização, mesmo quando cientistas independentes confirmaram os danos que a EPA agora nega.”

As formulações de glifosato também devastaram o meio ambiente, causando consideráveis ​​danos causados ​​pela deriva em plantações e plantas silvestres. Ao dizimar a serralha, o glifosato tem sido um fator importante no declínio da borboleta monarca, e muitas formulações do Roundup são extremamente tóxicas para os anfíbios. A própria EPA descobriu que o glifosato provavelmente afetará negativamente incríveis 93% das espécies ameaçadas e em perigo de extinção e 96% do habitat crítico que as sustenta.

A petição de hoje pede à EPA que suspenda o uso do glifosato até que a agência possa concluir o processo de cancelamento ou demonstrar que o glifosato atende aos padrões de segurança exigidos pela Lei Federal de Inseticidas, Fungicidas e Rodenticidas. O cancelamento tornaria ilegal a venda e o uso de qualquer produto que contenha o produto químico.

“As mulheres trabalhadoras agrícolas e as suas famílias têm experimentado os efeitos nocivos dos pesticidas para a saúde há demasiado tempo”, disse Mily Treviño-Sauceda, Diretora Executiva da Alianza Nacional de Campesinas. “A EPA deve proteger os trabalhadores agrícolas do país e o nosso ambiente, suspendendo e cancelando imediatamente todos os registros de glifosato.”

Fundo

A última vez que o glifosato foi sujeito a uma reavaliação abrangente foi em 1993, pouco antes da explosão na sua utilização que acompanhou as culturas Roundup Ready da Monsanto, que são geneticamente modificadas para resistir ao glifosato. De acordo com a lei federal, a EPA deve rever os registros de agrotóxicos a cada 15 anos para determinar se continuam a cumprir o padrão de segurança exigido – sem efeitos adversos excessivos no ambiente – tendo em conta a nova ciência e os padrões de utilização actuais. A EPA só iniciou este processo de revisão do registo do glifosato em 2009, emitindo uma decisão provisória em 2020.

Apesar de ter passado onze anos na sua revisão, a divisão de pesticidas da EPA não conseguiu chegar a uma conclusão sobre se o glifosato causa o linfoma não-Hodgkin (LNH). A agência, no entanto, rejeitou o risco global de cancro do glifosato, considerando que “não é provável” que cause cancro. O NHL é o cancro associado ao glifosato em muitos estudos epidemiológicos de agricultores e em avaliações realizadas por cientistas da divisão científica da EPA. É também o cancro associado ao glifosato pela maior autoridade mundial em substâncias cancerígenas, a Agência Internacional de Investigação sobre o Cancro da Organização Mundial de Saúde. Muitos pacientes da NHL que atribuíram seu câncer ao uso do Roundup ganharam ações judiciais contra a Monsanto/Bayer.

Em 2022, o Tribunal de Apelações do Nono Circuito dos EUA derrubou o câncer da EPA e a avaliação mais ampla do glifosato para a saúde humana, em uma ação movida pelo Centro de Segurança Alimentar em nome dos mesmos peticionários. O tribunal considerou que a avaliação do glifosato sobre o câncer feita pela EPA é internamente contraditória e viola as próprias diretrizes da EPA para avaliação de risco cancerígeno. Críticas semelhantes foram feitas por um painel consultivo científico especializado nomeado pela EPA e por cientistas da EPA de fora da divisão de pesticidas.

Como resultado da decisão do tribunal, a EPA carece de uma avaliação legal do glifosato sobre a saúde humana para apoiar o seu uso atual. O tribunal também devolveu a avaliação de risco ecológico do glifosato à EPA, com prazo para concluí-la. A EPA não cumpriu este prazo e, em vez disso, optou por retirar toda a decisão de revisão provisória do registo. Posteriormente, o Congresso estendeu o prazo da EPA para concluir as revisões de registro do glifosato e de todos os outros pesticidas com conclusão prevista para outubro de 2022 a outubro de 2026.

Hoje, o glifosato continua registrado com base inteiramente em uma avaliação de 1993, realizada há três décadas. Esta avaliação desatualizada não leva em conta o aumento exponencial do uso de glifosato que começou com a introdução, em meados da década de 1990, de milho, soja, algodão e outras culturas importantes resistentes ao glifosato; também é anterior aos milhares de estudos científicos incriminatórios sobre o glifosato que se acumularam desde 1993. Esta avaliação antiquada também não explica os enormes custos impostos aos agricultores pelo surto de ervas daninhas resistentes ao glifosato neste século. Por todas estas razões, a EPA não pode cumprir o padrão de segurança exigido para os usos atualmente aprovados do glifosato e deve cancelar o seu registo.


color compass

Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela Sustainable Pulse [Aqui!].

Três geleiras da Antártica mostram perda de gelo rapidamente acelerada devido ao aquecimento dos oceanos

Ondas oceânicas poderosas desencadearam parcialmente este rápido recuo

geleiras derretendoA ruptura do gelo marinho ao longo da Península Antártica (vista nesta foto de satélite) em 2022 levou ao rápido recuo de três geleiras que deságuam na baía. Joshua Stevens, MODIS/LANCE/EOSDIS/NASA, VISÃO MUNDIAL/GIBS/NASA

O rápido recuo “é realmente inédito”, diz Mathieu Morlighem, glaciologista do Dartmouth College que não fez parte da equipa que relatou estas descobertas.

O colapso foi desencadeado por temperaturas anormalmente quentes do oceano, que fizeram com que o gelo marinho recuasse. Isso permitiu que uma série de ondas grandes atingissem uma seção da costa que normalmente é protegida delas. “O que estamos a ver aqui é uma indicação do que poderá acontecer noutros lugares” na Antártida, diz Naomi Ochwat, glaciologista da Universidade do Colorado em Boulder, que apresentou as descobertas a 11 de dezembro na reunião da União Geofísica Americana.

A geleira Hektoria, a geleira Green e a geleira Crane ficam perto da ponta da Península Antártica, que se estende em direção à América do Sul. A baía em forma de lua crescente, chamada Larsen B Embayment, já pareceu estável. À medida que estes glaciares escorriam da costa, o seu gelo costumava fundir-se numa placa flutuante com cerca de 200 metros de espessura. Esta laje, chamada plataforma de gelo Larsen B, tinha aproximadamente o tamanho de Rhode Island e preenchia toda a baía.

Existindo há mais de 10.000 anos, esta plataforma de gelo sustentou e estabilizou as geleiras que fluíam para ela. Mas durante um verão quente em 2002, de repente ele se fragmentou em milhares de icebergs finos (SN: 27/03/ 02).

As geleiras Hektoria, Green e Crane – não mais contidas pela plataforma de gelo – começaram a fluir para o oceano várias vezes mais rápido do que antes, derramando bilhões de toneladas de gelo na década seguinte.

Então, a partir de 2011, a hemorragia desacelerou. A fina camada de gelo marinho que se forma sobre a baía a cada inverno começou a persistir durante todo o ano, preservada por uma série de verões frios. Este “gelo terrestre”, firmemente preso à costa, cresceu de cinco a 10 metros de espessura, estabilizando as geleiras. Suas línguas flutuantes avançaram gradualmente de volta para a baía. Mas as coisas mudaram abruptamente no início de 2022. Nos dias 19 e 20 de janeiro, o gelo terrestre desintegrou-se em fragmentos, que se afastaram.

Imagens de satélite tiradas com apenas 10 dias de intervalo revelam a dramática ruptura do gelo marinho no Larsen B Embayment, na Antártica. Em 16 de janeiro de 2022, o gelo marinho encheu a baía (esquerda). Em 26 de janeiro (à direita), o gelo havia fraturado e estava se afastando após uma série de ondas poderosas que atingiram a baía vários dias antes. À Esquerda: Joshua Stevens, MODIS/LANCE/EOSDIS/NASA, WORLDVIEW/GIBS/NASA À Direita Joshua Stevens, MODIS/LANCE/EOSDIS/NASA, WORLDVIEW/GIBS/NASA

Utilizando dados de bóias oceânicas mais a norte, Ochwat e colegas determinaram que uma série de ondas poderosas, superiores a 1,5 metros, tinham vindo do nordeste – quebrando o gelo fixo em terra firme. Essas ondas eram altamente incomuns nesta área.

O Oceano Antártico, que circunda a Antártida, contém algumas das águas mais agitadas do mundo. A Península Antártica estende-se até esta região turbulenta, mas o seu lado leste, onde fica o Embayment Larsen B, raramente sente as ondas. Normalmente é protegido por várias centenas de quilómetros de blocos de gelo – blocos de gelo marinho, pressionados uns contra os outros pelas correntes oceânicas – que amortecem as ondas, deixando as águas perto de Larsen planas como um espelho.

Em 2022, as temperaturas da água perto da superfície do Oceano Antártico aumentaram vários décimos de grau Celsiusacima do normal, causando a formação de camadas de gelo encolher e descascar da península. Isso expôs a área às ondas, que quebraram o gelo marinho.

Os glaciares aceleraram à medida que as suas línguas flutuantes, já não mantidas no lugar, se fragmentaram em icebergs. A geleira Crane perdeu 11 quilômetros de gelo, quase apagando sua língua flutuante; A Geleira Verde perdeu 18 quilômetros, abrangendo todo o seu gelo flutuante.

Hektoria perdeu todos os 15 quilómetros do seu gelo flutuante – seguido por outros 10 quilómetros de gelo que normalmente é mais estável, porque repousa no fundo do mar. Isso “é mais rápido do que qualquer recuo das geleiras das marés que conhecemos”, diz Ochwat.

O destaque anterior, o Glaciar Columbia, no Alasca, tinha perdido 20 quilómetros de gelo em 30 anos, mostram os registos. Mas Hektoria perdeu os seus 10 quilómetros de gelo não flutuante em apenas cinco meses – incluindo 2,5 quilómetros que se desintegraram num período de 3 dias.

Tudo isto sugere que as pessoas que tentam prever a subida do nível do mar precisam de considerar o gelo marinho, diz Morlighem. Até agora, “o seu papel na dinâmica [das geleiras] foi completamente ignorado”.

Ochwat está esperando para ver o que acontecerá à medida que o atual verão antártico esquentar entre dezembro e março. Hektoria e os outros glaciares têm recuado apenas durante os meses de verão, quando o gelo marinho está ausente; eles fazem uma pausa durante o inverno, quando a superfície da baía congela por alguns meses.

Se o gelo marinho da Antártica continuar a diminuir, como tem acontecido desde 2022, isso poderá significar problemas, diz o coautor do estudo, Ted Scambos, glaciologista também da UC Boulder. “Teremos uma secção mais longa da costa onde a acção das ondas pode actuar na frente das plataformas de gelo e dos glaciares”, acelerando potencialmente o recuo glacial.

color compass

Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela Science [Aqui!].

Água mole em pedra dura, tanto bate e nunca apanha

water supply
Por Douglas Barreto da Mata
Apesar de ser de conhecimento de todos os moradores, e até das pedras portuguesas e dos banquinhos arrancados da Praça Quatro Jornadas em Campos dos Goytacazes, de que a empresa concessionária de água e esgotos da cidade presta um serviço caro e porco, não houve nenhuma alteração e/ou intervenção séria pelos poderes constituídos, que, via de regra, deveriam estar a serviço da população que lhes outorga os mandatos…
Não bastam os dados nacionais e internacionais que apontam que o modelo de concessão/privatização dos serviços essenciais não funciona, nem aqui, nem nas terras do rei da Inglaterra…
Mesmo assim, os proprietários e/ou acionistas majoritários e controladores dessas empresas seguem impunes e seus interesses intactos…
Lembram do rompimento do dique? 
Pois é…caiu no esquecimento, e sem uma apuração digna desse nome, a conta do estrago ficou para a viúva…
Sabem os questionamentos sobre os níveis de substâncias tóxicas (incluindo aí agrotóxicos) na água fornecida?
Nada!
Neste último domingo, a população pobre da comunidade da Linha interrompeu o tráfego na BR 101, causando transtornos e até prejuízo para concorrentes ao cargo de guarda municipal, cujo concurso foi realizada naquele dia.
A queima de pneus, método utilizado, acabou por danificar o recém-instalado pavimento.
water privatization
Ou seja, devido a uma justa revolta de pessoas privadas de um insumo mais básico e essencial, água, mais equipamento público foi danificado e  vários candidatos a uma vaga no serviço público foram prejudicados
O que esperam os poderes legislativo e executivo da cidade?
Que a empresa concessionária de águas e esgoto provoque uma tragédia, uma revolta popular sem precedentes?
O estranho disso tudo é que os combativos e beligerantes vereadores, que vociferam impropérios uns contra os outros, como leões, quando na disputa pelos seus espaços políticos, sejam da oposição ou situação, parecem gatinhos domesticados a espera do pires de leite…quando se trata da empresa, ronronam…
Ao seu lado, o prefeito e sua astuta equipe de procuradores batem às portas do Judiciário, sem qualquer resultado prático…
Ora, ora, ora…
Se tivessem um mínimo de coragem e empatia ao sofrimento da população pobre que os elege, e que é quase sempre a primeira a ser privada da água, do esgoto, da luz, enfim, adotariam o que a Lei manda:
– CASSAR A CONCESSÃO, pela não prestação de contas da empresa junto aos vereadores, pelas diversas irregularidades na prestação do serviço, pela tarifa não justificada, já que as planilhas de custo operacional, cronograma de investimentos e etc, nunca são apresentadas, nem na Justiça, e por último, pelo total descaso da empresa com a municipalidade…
Fica enfim a pergunta: para que eleição em Campos dos Goytacazes? Pois basta entregar a cidade à empresa, que no fim das contas, é quem parece mandar na cidade, de fato….

Seguindo o turbilhão da Zara: a moda aérea de outras marcas e seus impactos nas mudanças climáticas

moda

Por Public Eye

Atualmente, apenas algumas empresas informam voluntariamente como transportam os seus produtos. E as estatísticas públicas, especialmente dos maiores mercados de importação da Europa e da América do Norte ou dos principais países industriais como a China, não são suficientemente detalhadas para apresentar uma imagem precisa. Portanto, a nossa investigação de acompanhamento sobre a moda aérea não deve ser interpretada como sendo um quadro completo ou mesmo representativo da situação atual. Mas dá uma indicação clara da importância do frete aéreo para marcas individuais. Salvo indicação em contrário, os dados mencionados referem-se aos últimos 12 meses para os quais existem dados disponíveis.

Que evidências existem de que o frete aéreo está sendo utilizado por outros varejistas de moda?

Já destacamos em nossa investigação até que ponto a Inditex e Shein dependem de frete aéreo. Comparado a isso, o padrão que vemos emergir dos dados alfandegários analisados ​​é bastante misto.

  • No que diz respeito a alguns dos principais concorrentes diretos no segmento de fast-fashion, os dados disponíveis indicam uma taxa comparativamente baixa de moda aérea. Em Bangladesh, por exemplo, a taxa atual parece estar abaixo de 2% para grandes clientes, como H&M ou  a Primark, e abaixo de 3% para Bestseller (Jack Jones, Vero Moda). Em comparação, o número da Inditex é superior a 20% este ano.
  • Por outro lado, encontramos evidências de uma maior incidência de moda aérea no grupo Próximo. Das suas importações provenientes do Bangladesh, cerca de 10% vêm por via aérea e das provenientes da Índia cerca de 20%. O terceiro maior grupo de moda do mundo, Fast Retailing (Uniqlo), também envia seus produtos de moda para todo o mundo, com quase 20% das importações provenientes do Vietnã. provavelmente chegará de avião.
  • Entre os principais grupos de moda esportiva, Lululemon se destaca em particular, transportando cerca de 30% dos seus produtos são fabricados no Vietname e no Sri Lanka por avião. Compare isso com os concorrentes Nike e Adidas para os quais observamos uma proporção menor do transporte aéreo a partir do Vietname – menos de 5 por cento. E a Puma nos informou que sua taxa de voo para produtos do Vietnã é atualmente de apenas 0,5%.

Até as roupas íntimas chegam de avião, com cerca de um quarto dos produtos fabricados para a Victoria’s Secret no Vietnã e até um terço dos produtos do Sri Lanka sendo transportados desta forma. A gigante da roupa íntima Calzedonia também possui produtos fabricados na ilha, com a proporção de transporte aéreo na faixa de 5 a 10%.

Transparência? Raramente encontrado

Esta evidência mostra-nos que a moda transportada pelo ar não só prevalece amplamente na Inditex e na Shein, mas também noutras partes da indústria do vestuário. Contudo, o facto de alguns dos principais concorrentes directos utilizarem apenas uma pequena proporção dos voos proporciona uma luz de esperança. A forma como a moda aerotransportada é tratada de forma diferenciada no setor também pode ser percebida na forma como as empresas se comunicam sobre ela.

Next e Victoria’s Secret estão assumindo a liderança de Inditex e Shein e não falam mais do que em termos gerais sobre as suas emissões provenientes dos transportes. A história é semelhante com o Fast Retailing. Esta empresa, que tem Roger Federer como embaixador da sua marca principal Uniqlo, respondeu à nossa consulta, mas não partilhou quaisquer detalhes sobre a moda aérea. A empresa refere-se, em vez disso, aos seus objetivos climáticos globais e ao envolvimento numa iniciativa para reduzir as emissões dos transportes. Contudo, este compromisso não apresentou progressos até agora; muito pelo contrário, já que as emissões dos transportes aumentaram 55% desde 2019.

Outras empresas estão adotando uma abordagem mais proativa em relação ao problema.Bestseller afirma que o uso de frete aéreo vem diminuindo há quatro anos e que sua proporção no total de frete transportado é atualmente de 1,04%. Como resultado disso, as emissões relacionadas aos transportes caíram 55% desde 2018. O relatório de sustentabilidade da H&M também mostra uma redução significativa no frete aéreo. emissões (–51%) no último exercício financeiro. Quando questionada, a Primark explicou que geralmente faz encomendas com longos prazos de entrega e permite tempo suficiente para transportes marítimos. O frete aéreo seria, portanto, usado com pouca frequência. No entanto, a empresa não nos forneceu quaisquer números sobre isso.

A Nike menciona um ligeiro aumento no frete aéreo utilizado para o fluxo de mercadorias em 2022, mas o volume permaneceu baixo e abaixo do nível pré-pandemia. A Lululemon pelo menos identifica o frete aéreo como o principal contribuinte para a elevada proporção de suas emissões totais contabilizadas pelos transportes (25%) e está anunciando uma tarefa forçar a transferência do transporte de mercadorias do ar para o mar. Mas é difícil definir estes anúncios e dados sem ter números específicos para basear. 

Apenas algumas empresas fornecem detalhes mais precisos sobre a proporção atual da sua carga transportada por via aérea. A Calzedonia estima que este valor representa uns impressionantes 20% do volume total, o que significa que as emissões comunicadas são correspondentemente elevadas. Por outro lado, a proporção relatada pela Adidas é significativamente menor: 2% em 2022.

Descobrimos que Puma forneceu as informações mais detalhadas. A empresa reporta uma redução na sua taxa de frete aéreo de 3% antes da pandemia para 1% hoje, fornece números detalhados sobre as emissões para cada modo de transporte e é a única empresa que nos informa a quantidade total de carga aérea que transporta. Sem mencionar que a Puma estabeleceu uma meta de redução específica: reduzir a proporção de frete aéreo pela metade, para 0,5%, até 2025.

As grandes disparidades entre estas empresas sublinham o quão desnecessária a moda aérea é também do ponto de vista empresarial. Apelamos a todas as marcas para que eliminem gradualmente o transporte aéreo e forneçam informações transparentes sobre os meios de transporte que utilizam e as suas emissões.


compass black

Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela Public Eye [Aqui!].

Os perigos dos agrotóxicos para a saúde

agrotóxicos 2

Por Sabrine Teixeira Grünewald para a Medscape

Um relatório [1] publicado recentemente pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) revela que um em cada quatro alimentos consumidos com frequência por brasileiros apresenta resíduos de agrotóxicos proibidos ou em quantidades acima do permitido. As amostras foram coletadas em supermercados de diversos municípios nos anos de 2018, 2019 e 2022.

Agrotóxicos são produtos químicos sintéticos usados para matar insetos, larvas, fungos, carrapatos etc. sob a justificativa de controlar os danos provocados por esses vetores e de regular o crescimento da vegetação, tanto no ambiente rural como no urbano. [2]

No entanto, a exposição aos agrotóxicos pode causar uma série de doenças, dependendo do produto utilizado, do tempo de exposição e da quantidade absorvida pelo organismo.

Toda a população está suscetível a múltiplas exposições aos agrotóxicos por meio de consumo de água e alimentos contaminados, porém gestantes, crianças e adolescentes são considerados grupos de risco devido a questões metabólicas, imunológicas ou hormonais.

Efeitos agudos e crônicos

A exposição a agrotóxicos pode causar efeitos agudos, que são mais frequentes em trabalhadores envolvidos na aplicação ou manipulação desses produtos. No relatório da Anvisa, concentrações de agrotóxicos grandes o bastante para representarem risco agudo à saúde foram encontradas em 0,55% das amostras coletadas entre 2018 e 2019 e em 0,17% das coletadas em 2022.

Já os efeitos crônicos aparecem após exposições repetidas a pequenas quantidades de agrotóxicos por um período prolongado. [3] Alguns exemplos desses impactos: distúrbios do sono, alterações da memória, abortamento, impotência sexual, transtorno depressivo, problemas respiratórios graves, alteração de função hepática e renal, alteração da produção de hormônios da tireoide, dos ovários e da próstata, infertilidade, malformação e problemas no desenvolvimento em crianças.

Além disso, os agrotóxicos são prováveis agentes carcinogênicos, embota a associação entre essas substâncias e o surgimento de tumores ainda é muito debatida.Segundo o novo relatório da Anvisa, 25% do total de amostras apresentavam alguma inconformidade, ou seja, tinham resíduos de um agrotóxico não autorizado ou as quantidades encontradas estavam acima do limite permitido. Esses alimentos teriam o potencial de causar efeitos crônicos em seus consumidores.

Cerca de 40 mil casos de intoxicação aguda por agrotóxicos são registrados no Brasil a cada década, de acordo com o Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (Sinitox). No entanto, especialistas sugerem que os problemas para a saúde decorrentes dos agrotóxicos são subnotificados no Brasil, principalmente em áreas rurais mais afastadas, onde o contato com esses produtos é mais intenso.

Diante de tudo isso, fica o questionamento: será que nós, enquanto profissionais da saúde, estamos preparados para atender a pacientes com efeitos agudos e crônicos dos agrotóxicos? Os dados preocupantes do relatório da Anvisa sugerem que em breve essa conta vai chegar nos consultórios e hospitais.


color compass

Este artigo foi originalmente publicado pela Medscape [Aqui!].

Ligações do Paraquat com o Mal de Parkinson são destaque na mídia internacional

paraquat

A Syngenta vende paraquat nos EUA e em outros países sob o nome Gramoxone. ABC News
Por Care Gillam para o “The New Lede”

Evidências que ligam o popular herbicida paraquat à doença de Parkinson são apresentadas esta semana em um segmento de notícias on-line que inclui novos detalhes sobre a influência corporativa sobre Reguladores dos EUA e supressão da pesquisa científica.

O programa investigativo da Al Jazeera, Fault Lines, destaca as reportagens do The New Lede (TNL) e os milhares de documentos corporativos internos obtidos pela TNL que revelam décadas de esforços da Syngenta, fabricante de longa data do Paraquat, para ocultar evidências de como a exposição crônica ao paraquat pode causar o Mal de Parkinson.  

No mês passado, a reportagem “Paraquat Papers” do The New Lede também foi o foco de um segmento do ABC News Nightline.

The New Lede, em colaboração com The Guardian, revelou pela primeira vez uma coleção de documentos internos da Syngenta em outubro de 2022 e seguiu em matérias subsequentes , expondo anos de esforços empresariais para encobrir evidências de que o paraquat pode causar a doença de Parkinson. Os documentos obtidos pelo The New Lede também mostraram evidências de esforços para manipular e influenciar a Agência de Proteção Ambiental (EPA) e literatura científica publicada. Os documentos também mostram como a empresa trabalhou para enganar o público sobre os perigos do paraquat, entre outras estratégias secretas.

O artigo Fault Lines acrescenta à reportagem do TNL várias entrevistas diante das câmeras, incluindo uma com a Dra. Deborah Cory-Slechta, uma pesquisadora proeminente que investigou os impactos do paraquat nas células cerebrais. No segmento de notícias, Cory-Slechta afirma que “há um conjunto de evidências muito fortes e convincentes, baseado em estudos epidemiológicos e no que sabemos a partir de modelos animais da doença de Parkinson”, de que o Paraquat causa alterações no cérebro que levam à doença do Mal de Parkinson. Conforme revelado pela reportagem da TNL, a Syngenta trabalhou nos bastidores para impedir que Cory-Slechta participasse de um painel consultivo da EPA, considerando-a uma ameaça ao Paraquat. Funcionários da empresa queriam ter certeza de que os esforços não poderiam ser rastreados até a Syngenta, mostram os documentos obtidos pela TNL.

Notavelmente, Fault Lines inclui em seu segmento uma entrevista com a cientista aposentada da EPA Karen McCormack, que trabalhou na agência por 40 anos antes de se aposentar em 2018. McCormack diz diante das câmeras que a EPA não está cumprindo sua missão. 

“Nas últimas três décadas em que trabalhei na EPA, foi muito raro que um pesticida tóxico fosse retirado do mercado”, disse ela à Fault Lines. “Quase todo novo pedido de autorização de agrotóxico submetido à agência é aprovado, não importa quão alto seja o risco”, disse McCormack no segmento de notícias. Isso significa que o Paraquat e “muitos outros agrotóxicos altamente perigosos” são permitidos no mercado, disse ela.

“As empresas de agrotóxicos e os seus congressistas têm uma influência tremenda nas decisões da EPA”, disse ela. 

Uma transcrição da entrevista completa da Fault Lines com McCormack mostra que ela disse muito mais sobre a influência corporativa sobre a EPA. A seguir estão comentários adicionais feitos por McCormack que não foram incluídos na versão final do segmento de notícias:

“A captura regulatória é galopante na EPA e não creio que as pessoas sequer percebam que estão sendo capturadas”, disse McCormack. “E tenho visto vários cientistas muito bons que ficam frustrados com esta organização e abandonam o programa de agrotóxicos ou abandonam totalmente a agência. E é uma pena que isso aconteça.”

McCormack disse que “pode ser prejudicial para a carreira de alguém na EPA” falar sobre dados que mostram que um agrotóxico é potencialmente inseguro para uso. 

“As consequências não são boas. E acho que é por isso que muitas pessoas não seguem esse caminho”, disse ela, de acordo com a transcrição. “Se você decidir trabalhar para o programa de controle de agrotóxicos da EPA e for contra os interesses agrícolas, isso não será bom para sua carreira.”

“Os representantes dos fabricantes de agrotóxicos que conheci são muito sofisticados. Eles são muito charmosos. Eles querem ser seus amigos e ajudá-lo no trabalho que você faz. E, infelizmente, algumas pessoas caem na ofensiva do charme e tornam-se amigas das empresas fabricantes de agrotóxicos. É um grande problema na EPA”, acrescentou ela. 

Leia mais sobre a investigação da TNL sobre os Documentos do Paraquat aqui.

Veja o artigo da ABC News aqui.


compass black

Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo “Thr New Lede” [Aqui!].