Organizações sociais do Sul Global consideram o trigo transgênico inseguro e um fracasso de baixo rendimento

trigo limpo

Por Sustainable Pulse

Em um documento conjunto, organizações da Ásia, África e América Latina afirmam que o trigo HB4 OGM da empresa Bioceres não foi testado quanto à segurança e é menos produtivo que o trigo convencional. A história é relatada pelo jornalista argentino Dario Aranda em artigo em espanhol na publicação Pagina12. O seguinte relatório da GMWatch é amplamente baseado no artigo de Aranda.

As organizações, da América Latina, África e Ásia, denunciaram os efeitos nocivos do trigo geneticamente modificado, que já é consumido na Argentina e ameaça chegar a outros países. Em um documento detalhado de 14 páginas, movimentos sociais, camponeses e povos indígenas solicitaram a intervenção de relatores especiais das Nações Unidas (ONU) devido aos riscos para a alimentação, a saúde e o ambiente que representam o OGM produzido pela empresa Bioceres.  Os signatários afirmam que não existem estudos independentes que confirmem a sua segurança, e denunciam o perigoso herbicida glufosinato de amônio, que foi concebido para tolerar, e afirmam que o trigo geneticamente modificado é menos produtivo que o trigo convencional.

“Não ao trigo geneticamente modificado. Aliança global busca intervenção da ONU contra o cultivo do trigo transgênico HB4”, é o título do  artigo  da organização internacional  GRAIN , que relata a forma incomum – e irregular – como o trigo transgênico foi aprovado na Argentina, no Brasil e no Paraguai – com base em supostos estudos da empresa que o comercializa e com documentação confidencial.

Nenhum estudo confiável

Entre outros aspectos fundamentais, as organizações destacam que a população argentina está sendo alimentada com farinha contendo um OGM carente de estudos sanitários e, além disso, contaminada com o agrotóxico glufosinato de amônio (mais letal que o conhecido glifosato e proibido na União Europeia).

“A aprovação do trigo HB4 tem causado muita preocupação num amplo setor da sociedade, porque o seu plantio e consumo violará direitos humanos, como o direito à vida, à saúde, à alimentação adequada e à soberania alimentar, a uma sociedade equilibrada e poluente. ambiente livre, ao acesso à terra e ao território, ao direito à autodeterminação dos povos e comunidades locais”, diz o documento, que foi dirigido a sete Relatores Especiais da ONU.

Como resultado, solicita que instem os governos da Argentina, Brasil e Paraguai a suspenderem as autorizações para o cultivo de trigo geneticamente modificado HB4. Os destinatários são Marcos Orellana (Relator sobre Substâncias Tóxicas e Direitos Humanos), David Boyd (Direitos Humanos e Meio Ambiente), Michael Fakhri (Direito à Alimentação), Pedro Arrojo-Agudo (Direito à Água Potável), Olivier De Schutter (Pobreza Extrema e Direitos Humanos), Francisco Cali Tzay (Direitos dos Povos Indígenas) e Tlaleng Mofokeng (Direito à Saúde).

Direito à Alimentação

O trigo geneticamente modificado foi desenvolvido e comercializado pela empresa argentina Bioceres-Indear, onde Raquel Chan, cientista do Conicet e da Universidade do Litoral, desempenhou um papel fundamental. A Comissão Nacional de Biotecnologia da Argentina (formada exclusivamente por promotores do agronegócio, incluindo gestores de multinacionais) deu luz verde em 2018, a portas fechadas e sem publicar os estudos em nenhuma revista científica. A aprovação final ocorreu em maio de 2022, quando Julián Domínguez (então Ministro da Agricultura) deu luz verde ao pedido da Bioceres-Indear (a assinatura administrativa foi fornecida por Luis Contigiani).

Em março de 2023, a empresa Bioceres-Indear  informou  que 25 moinhos já misturavam trigo geneticamente modificado com trigo convencional para distribuição gratuita. Este é um fato de importância global: pela primeira vez o trigo geneticamente modificado está presente nos alimentos de consumo em massa (pão, pizzas, empanadas, macarrão e todos os usos da farinha). E, o que é ainda mais grave, a população não tem como identificar se está ou não consumindo um produto geneticamente modificado: na Argentina não há rotulagem geneticamente modificada.

Elizabeth Bravo, membro da organização Acción Ecológica de Ecuador e uma das promotoras do documento dirigido às Nações Unidas, lembrou que a Argentina é um país exportador de trigo e destacou o risco para a população do Equador: “O trigo é fundamental na dieta dos Equatorianos, como para muitos outros povos do mundo, porque está presente desde o café da manhã até o jantar. Seria terrível se começássemos a comer trigo que é geneticamente modificado e que também contém grandes resíduos de pesticidas, como o glufosinato de amônio.”

Uma lacuna tecnológica

Leonardo Melgarejo  é membro do Movimento Ciência Cidadã no Brasil e membro da Uccsnal (União dos Cientistas Comprometidos com a Sociedade e a Natureza na América Latina). Salientou a enorme gravidade do facto de não ter havido uma avaliação científica do impacto do trigo geneticamente modificado na saúde da população. “Este OGM tornou-se um problema internacional, por isso esta ação conjunta tem sido realizada por organizações de três continentes. Este trigo contamina a alimentação básica da população e sem dúvida contribuirá para a apropriação de terras para poucas mãos e para o impacto na água, na vida camponesa e nos povos indígenas”, afirmou.

Fernando Frank, pesquisador argentino, agrônomo e membro da Uccsnal, apontou uma questão central que expõe o entusiasmo corporativo e da mídia sobre o trigo Bioceres. “O trigo HB4 é um fracasso de produção. É um escândalo porque, além dos impactos negativos na saúde e na alimentação, estão a vender uma tecnologia que promete produzir mais mas na realidade produz menos, como confirmam os dados certificados pelo Estado”, disse Frank.

Frank e Melgarejo são dois dos autores da publicação científica “Controversia por el pan nuestro día de cada día ” (“Controvérsia sobre o pão nosso de cada dia”), publicada no final do ano passado, que confirma que o trigo geneticamente modificado é menos produtivo do que trigo convencional. Assinado pelos pesquisadores Gabriel Bianconi Fernandes e Rubens Onofre Nodari, o artigo, com tabelas e números do Ministério da Agricultura argentino, mostra que o trigo transgênico é menos produtivo que sua variante convencional. “Os rendimentos (do trigo geneticamente modificado) foram significativamente inferiores à média de trigo do país. A conclusão é que o maior rendimento da variedade HB4 – principal vantagem anunciada pela Bioceres – não foi comprovado em campo”, confirma o estudo científico.

Como aponta o  documento conjunto das organizações, dados do Ministério da Agricultura argentino mostram que na temporada 2021/2022, os rendimentos do HB4 foram muito baixos – 2,42 toneladas por hectare, 17% menos que a média.

Aranda relata que em 2020, mais de mil cientistas ligados à principal agência de pesquisa argentina, Conicet, e a 30 universidades públicas da Argentina  condenaram  a aprovação do trigo HB4 e alertaram sobre os riscos à saúde da população e até à produção agrícola e aos direitos humanos. . “Esta autorização refere-se a um modelo de agronegócio que se revelou prejudicial em termos ambientais e sociais, é a principal causa da perda de biodiversidade, não resolve os problemas alimentares e ameaça ainda mais a saúde do nosso povo ao ameaçar a segurança e a soberania alimentar”, iniciava a carta, dirigida ao governo nacional e às autoridades do Conicet.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela Sustainable Pulse [Aqui!].

Reitora dobra aposta na “Melô do Marinheiro” e se filia ao sindicato dos servidores técnicos da Uenf

Observei recentemente neste espaço a minha estranheza em relação a uma visita da reitora da Universidade Estadual do Norte Fluminense, professora Rosana Rodrigues, ao gabinete do deputado federal Lindbergh Farias em Brasília. É que diante do papel de dirigente de uma universidade estadual, a reitora da Uenf deveria saber que visitar um dos principais adversários políticos do governador Claúdio Castro não resultará na boa vontade deste com as muitas demandas que ela tem para apresentar, a começar pela aprovação do Plano de Cargo de Vencimentos (PCV) da Uenf.

Eis que hoje, um dos dirigentes do sindicato que representa os interesses dos servidores técnico-admnistrativos da Uenf divulgou imagens do que seria a cerimônia de filiação da reitora Rosana Rodrigues (ver imagem abaixo).

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Essa filiação é inusitada, na medida em que os professores da Uenf possuem sindicato próprio, a Aduenf, e a reitora, ao que me consta, é filiada. Assim, ao se filiar a outro sindicato que representa outra categoria dentro da Uenf, a reitora cria uma situação sui generis  de possu ir uma dupla filiação sindical. Isso até segunda ordem não está previsto na legislação trabalhista, até porque é uma situação tão bizarra que nem os mais visionário dos legisladores poderia ter previsto este caso.  Até aqui, resta saber o que vai pensar o Andes-SN, sindicato nacional que representa os interesses dos professores universitários em nível nacional.

Mas essa repentina volúpia de adesão sindical da reitora da Uenf me surpreenda pela trajetória  dela dentro desde a formalização da Aduenf em 1999. É que tendo sido presidente e vice-presidente da Aduenf por duas vezes em cada posto, eu raramente vi a reitora presente em nossas assembleias. Aliás, nas poucas vezes que a professora Rosana Rodrigues se fez notar em assembleias, ela apenas apareceu para votar pelo fim de greves que eram mais do que justas, as quais foram responsáveis pelos principais avanços que conseguimos em nossos direitos trabalhistas a partir de 1999.

Uma peculiariedade relacionada ao Sintuperj/Uenf é um dos seus principais diretores é, ao que me consta, pré-candidato a vereador pelo PT, o mesmo do deputado Lindbergh Farias. Com isso, a reitora estaria dobrando a sua aposta na “Melô do Marinheiro”, pois comete a pouco sábia atitude de se vincular novamente a um partido de oposição em uma situação política muito complexa que o estado do Rio de Janeiro atravessa neste momento.

A verdade é que ao dobrar essa aposta, a reitora da Uenf mostra um grau de incompreensão formidável em relação ao seu papel de reitora de uma universidade pública localizada no interior do estado.  Com essa adesão ela pode ter complicado não apenas a situação do trâmite do novo PCV, mas fechado outras portas importantes no governo estadual. Ou será que Cláudio Castro já adiantou a ela que está se mudando de mala e cuia para o PT? Se for isso, tiro o chapéu para a professora Rosana Rodrigues. Se não for, me parece urgente que ela nomeie uma versão uenfiana do “ministro do vai dar merda” que foi criado e eternizado por Chico Buarque.

E antes que eu me esqueça, uma história de bastidores. Na última vez em que fui presidente da Aduenf, o governo estadual estava com uma ideia maluca de unificar os salários da Uenf e da Uerj. O mentor da ideia era o vice-reitor da Uerj, João Regazzi Gerki que, na época, ocupava um cargo importante na Secretaria Estadual de Ciência e Tecnologia. Em um final de reunião com a diretoria da Aduenf na Secti, João Regazzi me confabulou a ideia e propôs a realização de uma reunião apenas com os sindicatos das universidades.  Intrigado com o convite, perguntei a Regazzi se ele não iria falar primeiro com os reitores. Ele rapidamente retrucou que não porque reitores, segundo Regazzi, eram patrões que não mandavam e ele queria falar direto com quem mandava, os sindicatos.  O fato é que mandando ou não, os reitores exercem o papel semelhante a de um patrão dentro das universidades.  Assim,  levando em conta o que me disse João Regazzi, o que dizer de uma reitora que se filia a um sindicato no início de um mandato que vai até 2027?

Estudo global sobre alimentos ultraprocessados ​​confirma que eles são danosos à saúde humana

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Por Peter Wilde para o “The Conversation”

Os alimentos ultraprocessados, como cereais e refrigerantes, têm sido associados a 32 efeitos nocivos para a saúde, de acordo com a maior revisão de dados realizada até o presente momento.

Pensa-se que em nível global,  uma em cada cinco mortes se deve a uma alimentação inadequada e o papel destes alimentos tem atraído muita atenção em vários estudos nos últimos anos.

Os alimentos ultraprocessados ​​foram definidos pela primeira vez há cerca de 15 anos para permitir aos investigadores examinar o efeito do processamento de alimentos na saúde. Durante esta nova investigação, denominada “revisão guarda-chuva”, foram analisados ​​numerosos estudos recentes, nos quais participaram quase 10 milhões de pessoas, a fim de reunir grande parte dos dados disponíveis para oferecer uma imagem global de como estes alimentos afetam a nossa saúde.

Os resultados relacionam o consumo de grandes proporções de alimentos ultraprocessados ​​na dieta com problemas de saúde e morte prematura por diversas condições, como doenças cardíacas, diabetes tipo 2, obesidade e problemas de saúde mental.

O novo estudo corrobora a relação dos alimentos ultraprocessados ​​com uma grande variedade de doenças, mas permanecem dúvidas sobre os mecanismos específicos pelos quais esses alimentos nos deixam doentes.

Os pesquisadores propuseram vários mecanismos ao longo dos anos. Entre eles, a má qualidade nutricional, já que alguns produtos ultraprocessados ​​podem apresentar alto teor de gordura, açúcar, sal e pouca fibra, além de carecerem de vitaminas, minerais e antioxidantes essenciais.

Outros mecanismos incluem a falta de estrutura e textura , o que acelera a ingestão de alimentos, aumenta os níveis de açúcar no sangue e é menos eficaz na redução do apetite. Muita atenção também tem sido dada aos aditivos alimentares e outros produtos químicos, quer adicionados aos alimentos, quer como contaminantes das embalagens ou do ambiente.

A qualidade do teste varia

Um aspecto interessante do trabalho atual é o fato de que a força dos resultados entre os estudos varia e algumas das correlações foram fracas. Isto provavelmente se deve em parte à grande variedade de alimentos incluídos na categoria de ultraprocessados.

A definição os identifica como produtos comestíveis que podem conter aditivos e produtos químicos, que são intensamente processados ​​com ingredientes refinados e reconstituídos, com os quais os consumidores podem não estar familiarizados.

Abrange alimentos tão diversos como sorvetes, salgadinhos, pão integral, carnes processadas e pastas com baixo teor de gordura. Esses alimentos, que contêm ingredientes e nutrientes muito diferentes, provavelmente terão efeitos muito diferentes na nossa saúde.

Outro fator importante que deve ser levado em consideração é que se trata de grandes estudos populacionais, nos quais milhares de pessoas registram sua ingestão alimentar habitual e seu estado de saúde. A análise leva em consideração vários fatores, como idade, sexo e estilo de vida, que podem distorcer os números.

No entanto, os resultados só podem mostrar uma relação entre ingestão alimentar e saúde. Não fornecem provas diretas dos mecanismos envolvidos, pelo que é urgentemente necessária nova investigação para compreender como e porquê certos alimentos podem causar problemas de saúde.

Embora sejam possíveis alguns estudos directos, os efeitos a longo prazo sobre a saúde, por exemplo, do consumo de níveis elevados de aditivos alimentares podem ser difíceis e eticamente questionáveis. Mas há oportunidade de investigar estes efeitos mais detalhadamente utilizando os dados existentes.

Dada a enorme quantidade de dados na visão geral, seria interessante extrair algumas informações mais precisas para ajudar a identificar quais alimentos devemos evitar.

É hora de cavar mais fundo

Existe uma enorme variedade de alimentos incluídos na categoria de ultraprocessados, com uma gama igualmente diversificada de teores de nutrientes. O pão integral comercial é classificado como ultraprocessado, assim como sorvetes, donuts e salgadinhos fritos. Portanto, é muito provável que diferentes alimentos ultraprocessados ​​tenham uma ampla gama de efeitos à saúde.

Estudos em que humanos são alimentados com alimentos ou ingredientes específicos de maneira controlada, bem como análises estatísticas mais detalhadas de estudos existentes, devem nos ajudar a identificar quais produtos ultraprocessados ​​devemos evitar, quais são seguros e quais podem ser benéficos como parte de uma dieta saudável e equilibrada.

Uma coisa é certa: estes estudos devem ajudar a informar conselhos para reduzir o consumo de produtos que são claramente prejudiciais à saúde. Por outro lado, devemos também tentar identificar quais os aspectos destes alimentos que são mais perigosos, para que os fabricantes destes alimentos possam eliminá-los das nossas dietas, como foi conseguido com ingredientes nocivos, como as gorduras trans e alguns corantes artificiais.

Muitas pessoas dependem fortemente de alimentos comerciais e processados, e precisamos de garantir que estes produtos são seguros e nutritivos no futuro, especialmente para os grupos pobres e vulneráveis, destaca Pete Wilde, investigador emérito em biociências no Instituto Quadram.


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Este escrito inicialmente em inglês foi inicialmente publicado pelo “The Conversation” [Aqui!].

Apocalipse dos polinizadores: Tiametoxam matou 15 milhões de abelhas em um só apiário em Minas Gerais

Laudo aponta presença de agrotóxico em 15 milhões de abelhas mortas em apiário de Uberlândia. Situação gerou prejuízo de R$ 420 mil para o apicultor responsável pelo apiário no Distrito de Miraporanga

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Por Julia Barduco, Isabela Lamark, Kleyton Guilherme, g1 Triângulo e TV Integração 

Investigação do Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA) apontou que o agrotóxico Tiametoxam pode ter sido a causa da morte de 15 milhões de abelhas-africanas em um apiário no Distrito de Miraporanga, em Uberlândia, em dezembro de 2023.

Segundo o IMA, o laudo emitido no dia 6 de fevereiro pelo Laboratório de Análise de Resíduos de Agrotóxico (Lara) constatou a presença de Tiametoxam nos animais mortos.

Com isso, o IMA agora apura se houve uso indevido da substância por alguma propriedade próxima. O IMA ressaltou que um laudo, por si só, não afirma que o uso de determinada substância está correto ou não. Na época da análise, esse agrotóxico era permitido para uso no Brasil.

Segundo apurado pela TV Integraçãoa morte das 15 milhões de abelhas-africanas acarretou um prejuízo de R$ 420 mil para o apiário de Miraporanga.

Colmeias em propriedade rural de Miraporanga — Foto: Reprodução/TV IntegraçãoColmeias em propriedade rural de Miraporanga — Foto: Reprodução/TV Integração

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Este texto foi inicialmente publicado pelo Portal G1 [Aqui!].

As andanças da reitora da Uenf mostram bússula quebrada: a curiosa troca de uma ida ao Palácio Guanabara por uma reunião com petistas em Brasília

A imagem abaixo sintetiza bem a situação de bússola quebrada que impera já faz algum momento na reitoria da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), pois mostra uma reunião que teria ocorrido entre a reitora Rosana Rodrigues, o reitor do IFF Jeferson Manhães e o deputado federal do PT/RJ, o paraibano Lindbergh Farias.

RR Brasília

O problema é que ao contrário do IFF que sim é uma instituição de ensino federal, a Uenf é uma universidade estadual que recebe parte significativa das verbas que necessita para funcionar do cofres estaduais do Rio de Janeiro cuja caneta repousa na mão do governador Cláudio Castro. Assim, ao ir até Brasília para sabe-se lá fazer o que, Rosana Rodrigues está longe do endereço que realmente interessa em questões cruciais que é o Palácio da Guanabara, localizado na Avenida Pinheiro Machado S/N no charmoso bairro de Laranjeiras na capital fluminense.

Um exemplo de algo que é de crucial importância para a Uenf é retirar da dormência o novo Plano de Cargos e Vencimentos que se encontra firmemente depositado no Palácio Guanabara e não em gabinetes de deputados federais em Brasília.

Além disso, ao voar para Brasília em vez pegar a BR-101 na direção da capital fluminense, a reitora da Uenf ainda se coloca em uma situação curiosa que é de servir de escada para um encontro entre petistas que estariam articulando uma vinda do presidente Lula a Campos dos Goytacazes para apoiar a chapa do PT às eleições municipais deste ano que potencialmente colocará juntos a deputada estadual Carla Machado e o reitor do IFF, Jefferson Manhães.  Como desconheço a filiação da reitora da Uenf ao PT, ela me lembra aquele personagem daquela música dos Paralamas do Sucesso, a “Melô do Marinheiro” (ver abaixo).

O pior que ao visitar e se deixar fotografar ao lado de Lindbergh Farias, Rosana Rodrigues certamente diminuiu a vontade (já muito pequena) de Cláudio Castro de recebê-la para discutir a implantação do novo PCV da Uenf.

A moral flexível do Bolsonarismo fica bem explícita em Campos dos Goytacazes

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A família do ex-presidente Jair Bolsonaro resolveu perpetuar a adjetivação do presidente Lula como sendo um “descondenado”. A partir dessa adjetivação que não possui base na realidade, todo tipo de chamadas desclassificantes são jogadas contra Lula.

Pois bem, em uma dessas reviravoltas que costumam colocar em xeque as narrativas da política brasileira e da campista em especial, a cabeça da  nova executiva municipal  do PL em Campos dos Goytacazes acaba de ser entregue ao afável e elegante Thiago Ferrugem, cujas atribulações com a justiça não foram poucas desde os tempos em que ocupou a cadeira de vereador. 

Há que se lembrar que em 2017, Ferrugem foi obrigado pela justiça a ostentar uma lustrosa tornezeleira eletrônica em função de sua suposta participação em um esquema que trocava a inclusão no programa social Cheque Cidadão por votos.

Assim, eu diria que quando se trata de atribuir adjetivos para quem tem ou teve problemas com a justiça, os bolsonaristas do PL deveriam olhar primeiro para dentro da própria casa.

China promete aumentar investimentos em ciência em 2024

A ciência e a inovação são fundamentais para a agenda nacional da China e para os esforços do país para estimular o crescimento económico

CHINA SCIENCE

Por Smriti Mallapaty para a Nature

Os gastos da China em ciência e tecnologia deverão aumentar em 2024, apesar do lento crescimento económico do país.

O governo gastará 371 bilhões de yuans (algo em torno R$ 310 bilhões) em ciência e tecnologia em 2024 – um aumento de 10% em comparação com o ano anterior – de acordo com um projeto de relatório orçamental do Ministério das Finanças da China. O relatório foi apresentado na reunião anual do órgão legislativo do país, a Assembleia Popular Nacional, esta semana. Do total dos gastos do governo, R$ 82 bilhões  serão destinados à pesquisa básica, um aumento de 13%, segundo o relatório.

“O governo está mostrando que está empenhado em dar aos cientistas mais recursos para apoiar a sua investigação”, afirma Albert Hu, economista da China Europe International Business School, em Xangai.

O aumento dos gastos governamentais em ciência e tecnologia é o maior em cinco anos, diz Jing Qian, que dirige o Centro de Análise da China do Asia Society Policy Institute, na cidade de Nova Iorque. Com uma queda de 9% em 2020, seguida de dois anos de crescimento estagnado, o governo aumentou os seus gastos em 2% no ano passado.

Impulso econômico

O aumento do dinheiro para a ciência ocorre num momento em que a economia luta para cumprir as metas de crescimento. “A China está no meio de uma transição estrutural”, diz Hu. O país está a passar de uma economia baseada em sectores tradicionais, como o imobiliário, para uma maior ênfase no desenvolvimento de alta tecnologia, diz ele.

A corrida pela supremacia tecnológica com os Estados Unidos é outro factor motivador, dizem os investigadores. Os Estados Unidos restringiram o acesso da China a tecnologias essenciais em áreas como inteligência artificial, semicondutores e computação quântica. Isto estimulou o país a investir na autossuficiência tecnológica, diz Marina Zhang, que estuda inovação com foco na China na Universidade de Tecnologia de Sydney, na Austrália. “Para vencer este jogo, a China tem de investir em ciência e tecnologia, especialmente em investigação básica.” diz Zhang.

Mas embora o aumento da despesa “representa um maior compromisso do governo para com a ciência e a tecnologia”, ainda representa apenas uma pequena fracção da despesa total em investigação e desenvolvimento do país, diz Hu. Os gastos do governo representam cerca de 11% dos 3,3 trilhões de yuans gastos em P&D na China, segundo dados oficiais. Os gastos em P&D representam atualmente cerca de 2,6% do produto interno bruto total da China, em comparação com 3,6% nos EUA em 2020.

A sessão do congresso termina no dia 11 de março e será seguida por uma reunião do órgão consultivo político da China, a Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, na próxima semana.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela revista “Nature” [Aqui!].

Em 60 anos, pesca predatória fragilizou população de tubarões em Arraial do Cabo (RJ), e captura caiu mais de 70%

barrigaO tubarão-barriga-dágua (Carcharhinus plumbeus) teve declínio significativo nas capturas em Arraial do Cabo (RJ) devido à sobrepesca. Foto: Guy Marcovaldi/Projeto Tamar

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Nos últimos 60 anos, houve uma queda significativa no número de tubarões capturados ao longo da costa de Arraial do Cabo, no Rio de Janeiro. Sem acesso a áreas de proteção, os indivíduos ficaram expostos à pesca predatória durante o século passado e como resultado, passaram a ser menos abundantes nos antigos locais de captura a partir de 2006. Portanto, apesar do aumento das atividades pesqueiras na região, pescadores da região relatam uma redução de 75% na captura de espécies destes animais neste período.

Os dados são de estudo das Universidades Federais Fluminense (UFF), de Santa Maria (UFSM) e do Oeste do Pará (UFOPA) publicado na revista “Neotropical Ichthyology na sexta (8) e trazem informações sobre a população desses animais na costa fluminense.

Os pesquisadores entrevistaram, entre julho de 2018 e 2019, 155 pescadores com experiência de pesca de três até 64 anos na região de Arraial do Cabo, Rio de Janeiro, para investigar mudanças no número e na distribuição espacial dos tubarões nesta região. As entrevistas abordaram a época de reprodução, os comportamentos alimentares, a quantidade de capturas ao longo do tempo e outras características das espécies de tubarões. Os dados foram divididos em dois grupos: antes e depois de 2006. Neste ano, houve o fechamento da Companhia Nacional de Álcalis, em Arraial do Cabo, o que fez com que a pesca artesanal voltasse a se tornar a principal fonte econômica do município.

O artigo destaca que cerca de 2 mil indivíduos dessas espécies foram capturados com rede de praia entre 1979 e 2005. De 2006 a 2019, o número de tubarões capturados caiu para 500, ou seja, 75% a menos do que no período anterior. O estudo ressalta que a sobrepesca ao longo dos anos fez com que os animais se afastassem da costa. Após 2006, quando novos locais de pesca passaram a ser explorados, as capturas desses animais passaram a se concentrar em locais mais distantes.

“Os pescadores relataram seis espécies de tubarões, todas categorizadas como ameaçadas segundo listas nacionais e globais, como a Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas e a União Internacional para a Conservação da Natureza”, explica Carine Fogliarini, lider do estudo e pesquisadora da UFSM. Os tubarões mais capturados foram o tubarão-galha-preta, o tubarão-anequim e o tubarão-barriga-dágua. Nas últimas seis décadas, as capturas do tubarão-galha-preta foram marcadas por uma queda de mais de 70% em um dos locais de pesca próximo a costa. Em geral, a localização espacial dos locais de pesca de tubarões na costa cabista também mudou, segundo relatam os pesquisadores.

A região de Arraial do Cabo tem uma reserva extrativista classificada como unidade de conservação de uso sustentável. Criada em 1997 para proteger recursos naturais e direitos de pescadores locais, a Reserva Extrativista Marinha do Arraial do Cabo carece de zonas de proibição de pesca definidas. Assim, a gestão da pesca e a fiscalização da captura de espécies ameaçadas e protegidas é insuficiente, segundo Fogliarini. “A falta de áreas de refúgio ou berçários contribui para a vulnerabilidade das espécies marinhas diante da pesca intensa”, completa.

Os resultados do estudo apontam para a necessidade de políticas de proteção de ecossistemas mais eficazes, ampliando o envolvimento das comunidades locais. A pesquisadora defende a promoção do turismo sustentável, com uma gestão efetiva da pesca, em locais como Arraial do Cabo. “Um tubarão vivo vale muito mais do que um animal morto onde o turismo para ver esses animais existe. Vários países proibiram a pesca de tubarões devido ao risco de colapso das espécies e à importância desses animais para o equilíbrio das cadeias alimentares”.

A equipe de pesquisa quer contribuir para frear ou reverter o declínio populacional de tubarões na costa brasileira, o que pode ser feito por meio do monitoramento de pescarias, campanhas educativas para conscientização e redução do esforço de pesca com abertura de novas possibilidades de geração de renda para os pescadores. “Não adianta apenas proibir a pesca, pois os pescadores precisam sustentar suas famílias. Eles necessitam ter alternativas de geração de renda na pesca ou em outras atividades que sejam mais sustentáveis”, finaliza a autora.


Fonte: Agência Bori

Estudo no IPT encontra agrotóxicos em sucos de laranja, um deles vendido como orgânico

suco de laranja

Ingestão de suco de laranja contendo resíduos de agrotóxicos perigosos representa um grave risco à saúde humana

Dois agrotóxicos foram encontrados em amostras de laranjas e de sucos de laranja submetidos a ensaios pela técnica especializada Kelly Cristina Manhani, do Laboratório de Processos Químicos e Tecnologia de Partículas do IPT, em sua dissertação de mestrado que analisou a presença de multirresíduos de agrotóxicos em alimentos cítricos por meio de técnicas cromatográficas – um dos compostos encontrados, o Dicofol, se destaca por ser um produto organoclorado utilizado no controle de ácaros e insetos que, recentemente, foi proibido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e adicionado à Convenção de Estocolmo devido à sua classificação como Poluente Orgânico Persistente (POP).

O Brasil é o maior produtor de laranja do mundo, responsável por mais de um quarto da exportação in natura e três quartos da exportação mundial de suco de laranja. Em 2021, o país produziu 16.214.982 toneladas de laranja, das quais São Paulo é o principal estado citricultor. “Por conta de sua posição de destaque na cadeia agroindustrial, a segurança alimentar é item fundamental para o Brasil garantir a sustentabilidade produtiva, a competitividade de mercado e a qualidade na produção”, afirma Manhani, que defendeu a dissertação de mestrado no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen).

Para a realização da pesquisa, que teve como objetivo o estudo de uma metodologia para determinação de multirresíduos de agrotóxicos em alimentos cítricos, doze amostras de laranja pera (também conhecida como pera Rio, pera coroa ou simplesmente pera) foram coletadas em feiras livres, sítios e supermercados do Estado de São Paulo e nove amostras de suco de laranja integral produzidas no Brasil foram adquiridas em supermercados. “Escolhi a laranja pera porque a sua produção se destaca no país: além de termos colheitas durante quase o ano todo, o suco produzido tem um alto rendimento e qualidade”, explica ela.

O preparo das amostras de laranja in natura seguiu o procedimento operacional padrão do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA) – esta é uma ação do Sistema Nacional de Vigilância Sanitária (SNVS), coordenado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em conjunto com órgãos estaduais e municipais de vigilância sanitária e laboratórios estaduais de saúde pública.

As nove amostras de sucos de laranja foram adquiridas em supermercados convencionais e restaurantes na região da zona oeste da cidade de São Paulo. Uma das amostras foi de suco fresco preparado no ato da compra em um restaurante nas proximidades da Universidade de São Paulo (USP) e o restante foram sucos industrializados conhecidos como sucos integrais ou néctar.

Agrotóxicos no Brasil

Os agrotóxicos são produtos químicos sintéticos utilizados para combater os insetos, larvas, fungos e carrapatos que são vetores de doenças em cultivos. A Anvisa autoriza o uso dos agrotóxicos de acordo com os estudos de toxicidade e segurança alimentar; porém, o uso em excesso dessas substâncias e a ausência de Boas Práticas Agrícolas (BPA) podem trazer riscos de intoxicação ao trabalhador rural e danos ao meio ambiente.

Segundo relatório do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), em 2011 as vendas de ingredientes ativos (i.a) em produtos formulados foram de 422.166,85 toneladas; dez anos depois, em 2021, este número subiu para um total de 720.869 toneladas, com crescimento expressivo entre 2018 e 2021. “Com o crescimento da produção de laranja e outros cultivos, o Brasil como grande potência agropecuária tornou-se um dos maiores consumidores de agrotóxicos do mundo”, afirma Manhani.

Metodologia

Cinco tipos de compostos foram analisados (Trifluralina, Clorotalonil, Clorpirifós, Dicofol e Azoxistrobina) e o Instituto Adolfo Lutz fez a doação de padrões de agrotóxicos, colaborando com o preparo das amostras e dando o suporte com a experiência técnica da equipe de pesquisadores. Os ingredientes ativos em estudo foram selecionados com base nos resultados do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA) – das 744 amostras de laranja analisadas no período de 2013 a 2015, o i.a. Azoxistrobina foi encontrado em 71 amostras, o Clorpirifós em 217 e o Dicofol  em 30 amostras.

As 21 amostras cítricas do estudo de Manhani foram analisadas pelas técnicas analíticas de cromatografia a gás com detector de captura de elétrons (GC-ECD) e cromatografia a gás com espectrometria de massas (GC-MS). A técnica do IPT utilizou os equipamentos para a quantificação e a confirmação dos analitos, ou seja, das substâncias ou componentes químicos, em uma amostra, que eram alvo de análise nos ensaios.

Foram estudados no projeto três métodos de extração: ‘QuEChERS ORIGINAL’, ‘QuEChERS Acetato MODIFICADO’ e extração líquido-líquido. “O método QuEChERS está revolucionando o preparo de amostras de matrizes complexas e, neste estudo, foram avaliados a mudança de pH na extração bem como a proporção de amostra e adição de diferentes sais e adsorventes na etapa de limpeza da amostra (clean up) para a eficiência da extração dos ingredientes ativos”, explica ela. Parâmetros de qualidade analítica como seletividade/efeito matriz, linearidade, limite de detecção e quantificação foram estabelecidos para os cinco pesticidas.

Os ensaios foram feitos no Laboratório de Processos Químicos e Tecnologia de Partículas, no Laboratório de Biotecnologia Industrial e no Laboratório de Química e Manufaturados do IPT. No preparo de amostras foram realizados estudos para comparar os métodos e verificar a eficiência de extração dos agrotóxicos da matriz e qual o mais adequado em relação à detecção do ingrediente ativo  e o efeito matriz sobre o sinal do equipamento.

Em suas análises, Manhani detectou a presença do i.a. Dicofol em cinco amostras de suco de laranja, dentre elas um suco orgânico certificado; outro dos agrotóxicos encontrados, o Clorpirifós, está atualmente sob reavaliação da Anvisa e de outros órgãos internacionais do Canadá e Austrália, sendo que nos EUA foi proibido em 2022. O motivo da nova avaliação são aspectos toxicológicos como mutagenicidade e toxicidade para o desenvolvimento, especialmente a neurotoxicidade, encontrados em estudos recentes. E apesar de terem sido detectados nas amostras, as concentrações são muito pequenas, sendo que para o i.a. Clorpirifós o valor ficou muito menor que o limite máximo de resíduo (LMR) permitido para a cultura citros pela ANVISA.

“As técnicas analíticas aplicadas na determinação de resíduos em alimentos devem garantir alta sensibilidade e robustez nas análises por instrumentação e, não menos importante, os métodos de preparo de amostras adequados para cada matriz, a fim de garantir a confiabilidade nos resultados obtidos”, ressalta a técnica. “A determinação de resíduos nos alimentos torna-se uma ferramenta de grande valia na estimativa de exposição do ser humano e do meio ambiente, bem como o indicativo de Boas Práticas Agrícolas, ajudando na tomada de decisões regulatórias a fim de se garantir a segurança alimentar”, conclui ela.


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Este texto foi originalmente publicado pelo IPT [Aqui!].

“Nós não precisamos de mineração, mas de território para produzir alimento orgânico”, entrevista inédita de Merong Kamakã, encontrado morto em Brumadinho

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Por Maurício Angelo,  Foto: Isis Medeiros, Entrevista: Gabriela Sarmet e Isis Medeiros

O cacique Merong Kamakã, 37 anos, liderança de uma retomada em Córrego de Areias, Brumadinho (MG), foi encontrado morto na manhã da última segunda-feira com indícios de enforcamento. A Polícia Militar informou que a causa da morte foi suicídio. A Polícia Civil de Minas Gerais, porém, não confirmou a informação e diz que está investigando o caso em conjunto com a Polícia Federal.

O sepultamento ocorreu na madrugada desta quarta, no território, 06 de março. A área em que o cacique vivia com seu povo desde outubro de 2021 está em litígio com a Vale, que move uma ação de reintegração de posse e, por causa disso, tentou impedir o sepultamento na justiça, que atendeu ao pedido da mineradora. O sepultamento, porém, ocorreu antes mesmo que a comunidade soubesse da decisão judicial. Diante dos fatos, a Vale recuou.

Merong Kamakã era uma respeitada liderança indígena tanto na luta pelos direitos do seu povo, Kamakã-Mongoió, quanto na luta de outros povos indígenas, como os Xokleng, Kaingang, Guarani, Xukuru-Kariri, Pataxó, Pataxó Hã-Hã-Hãe, entre outros.

Em abril de 2022, Merong Kamakã concedeu uma entrevista ao Observatório da Mineração durante o Acampamento Terra Livre em Brasília. Diante do seu falecimento, em respeito à sua memória, publicamos a entrevista inédita.

Kamakã relata as dificuldades que o seu povo viveu durante a pandemia e alerta que, caso a humanidade siga destruindo a natureza, outras doenças virão. O cacique afirma que sofria ameaças de seguranças da Vale, intimidação, que o povo indígena era vigiado por drones, acusa a Vale de se apropriar do território, incluindo as nascentes de água.

“Um mês depois os seguranças da Vale nos descobrem (onde estávamos) e assim começa as repressões. Chegamos ali por causa da água potável. A gente vem passando ameaças com drone, seguranças que vão em peso nos intimidar. Para nós indígenas, não estamos invadindo nada de ninguém, porque a terra, nem a mata, nem a água pode ser vendida. O criador, nosso grande Espírito deixou para que nós pudéssemos viver. E com o passar do tempo, no desenrolar dessa luta, a gente descobre que a mineradora está comprando todas as áreas de nascente da região”, afirma Kamakã.

Para o cacique, a necessidade de mineração e do plantio de soja transgênica, por exemplo, precisa ser urgentemente revisto pela sociedade. “A gente precisa de território, de produzir alimento orgânico para ficar aqui no nosso país”, ressaltando a agricultura familiar praticada por seu povo.

O cacique afirmou, na época, que “se for preciso morrer na luta pelo território eu vou morrer, mas eu não saio dali. Porque eu sei o que o meu povo passou na pandemia. (…) Quem vai fazer a recuperação ambiental será nós, que somos originários. Território é para ser preservado com floreta sustentável. Chega de mineração. Acorde o povo brasileiro que está dormindo. Essa luta não é só nossa, é de todos”, disse.

Merong Kamakã afirma, por fim, que o seu povo é reprimido e perseguido pela Vale, chama a mineradora de assassina e pede a saída da Vale do território. Assista a entrevista completa abaixo.

O Observatório da Mineração solicitou um posicionamento da Vale, não enviado até a publicação desta matéria. O texto será atualizado assim que a mineradora se manifestar. À Agência Brasil, a Vale disse que o terreno ocupado pelos indígenas em Brumadinho se destina à recuperação ambiental e se tornou objeto de discussão na Justiça. “A Vale lamenta a morte do cacique Merong e se solidariza com seus familiares e a comunidade indígena”, diz a empresa.

Nota do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) lembra que, no relatório Violência Contra os Povos Indígenas do Brasil – dados de 2022, a média de suicídios indígenas é três vezes maior que a população em geral, “na medida também que avançam os processos de violências contra os territórios, em especial os ainda não demarcados ou regularizados”.

Para o Cimi, é necessário que todas as possibilidades sobre a morte de Merong Kamakã sejam investigadas com rigor e seriedade por parte do poder público. “Mas sem perder de vista que os suicídios indígenas também devem ser vistos como um processo de violência contra os povos originários enquanto um projeto de extermínio. Os povos indígenas não estão se suicidando, estão sendo suicidados. Pois antes da morte acontecer, a sociedade já os matou muito antes e por fragmentos. Os matam quando negam o território, quando negam a possibilidade de viver a espiritualidade, os matam quando negam seus direitos, quando os ameaçam e os constrangem, os matam quando roubam a possibilidade de ser sujeito e coletivo”, ressaltam.

Atualização: a Vale enviou a seguinte nota ao Observatório da Mineração às 18:09h desta quarta (06).

A Vale reitera seu pesar pelo falecimento do cacique Merong Kamakã e se solidariza com seus familiares e a comunidade indígena. Jamais houve, por parte da Vale, qualquer tipo de ameaça ou violência aos indígenas, uma vez que a empresa repudia esse tipo de ação.

A ação de reintegração de posse decorre de uma ocupação ocorrida em 2021 em uma área pertencente à Vale. Essa área está destinada para fins de compensação ambiental. A Vale busca uma solução para a questão, em conjunto com a comunidade, dentro da legalidade. Por fim, a Vale reitera que tem como compromisso atuar alinhada ao respeito aos direitos humanos.


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Este texto foi originalmente publicado pelo “Observatório da Mineração” [Aqui!].