COEQTO e Quilombo Rio Preto denunciam ao CNDH violências sofridas pelos comunidades quilombolas no TO

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Na imagem, a coordenadora da COEQTO Maryellen Crisóstomo ao lado do presidente do CNDH André Carneiro. Foto: Geíne Medrado/Ascom COEQTO

Por Geíne Medrado, ASCOM COEQTO

A Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas do Tocantins (COEQTO) e a Comunidade Quilombola Rio Preto denunciaram uma série de violências e violações aos Direitos Humanos sofridas pelos Territórios Quilombolas do Tocantins. A denúncia foi feita em audiência pública realizada na última sexta-feira, 27, pelo CNDH, em Palmas-TO, com participação do Núcleo Especializado de Defesa dos Direitos Humanos (NDDH) da Defensoria Pública do Estado do Tocantins (DPE), movimentos sociais e sociedade civil.

A Comunidade Quilombola Rio Preto, que fica localizada no município de Lagoa do Tocantins foi reconhecida pela Fundação Cultural Palmares, no dia 25 de outubro deste ano após sofrer ataques violentos. Mesmo com o reconhecimento do Governo Federal, assim como em outros quilombos do Estado, o território é disputado por fazendeiros devido à falta de regularização.

Sem segurança, as 50 famílias de Rio Preto estão intimidadas e sitiadas em virtude da violência que se agravou no início de setembro depois que uma decisão judicial em desfavor dos agressores concedeu o direito à reintegração e manutenção de posse do território à comunidade.

Na audiência com o CNDH, Rita Lopes, presidente da Associação da Comunidade Quilombola Rio Preto, denunciou a situação de violência e violação aos Direitos Humanos da comunidade e pediu segurança às famílias que seguem sofrendo ameaças e intimidações, limitando o direito de ir e vir da comunidade, bem como a utilização das terras para suas atividades de subsistência. Atividades simples do dia a dia não estão sendo realizadas por medo de novos ataques.

“O Quilombo Rio Preto vem sofrendo série de ameaças à dignidade, à nossa existência e inclusive à nossa memória e nossos cemitérios também estão sendo ameaçados. Foi fechada a casa de arroz, a casa de farinha e a escola. Por mais que a gente venha pedindo socorro, no papel mudou, mas na prática, infelizmente, nada melhorou. Fazemos várias ações levando a polícia local e vários órgãos públicos. Eles prometeram fazer esse policiamento, mas infelizmente não foi cumprido. Esse é um espaço para pedir socorro mais uma vez. Eu espero que o Quilombo Rio Preto e suas memórias sejam protegidos”, disse Rita Lopes.

A Coordenadora da COEQTO, Maryellen Crisóstomo, reforçou a preocupação com a situação de Rio Preto, pediu proteção às lideranças quilombolas e relatou a realidade dos outros mais de 40 territórios Quilombolas do Tocantins, que têm o direito à regularização negligenciado pelo Estado.

Ainda durante a agenda de reuniões do CNDH em Palmas, a COEQTO se reuniu, na quarta-feira, 25, com o presidente do Conselho, André Carneiro, reportando a situação do Quilombo Rio Preto e as violações de Direitos a outras comunidades quilombolas do Tocantins.

O presidente do CNDH ouviu as demandas coletivas e reforçou que o Conselho irá trabalhar na produção de relatório e recomendações aos órgãos públicos responsáveis para melhorar a segurança dos quilombos no Tocantins.

E em relação às violações aos Direitos Humanos das Comunidades Quilombolas, disse que tratarão como prioridade a segurança das famílias e as recomendações ao poder público para regularização dos territórios quilombolas, por meio da aprovação de Decreto.

Bayer/Monsanto recebe pena de US$ 175 milhões em tribunal na Filadélfia por causa do glifosato

Uma série de perdas bilionárias causadas pela acusação de que o popular heribicida Roundup causa câncer

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Dezenas de milhares de ações judiciais estão sendo realizadas por pessoas alegando que o Roundup e outros herbicidas à base de glifosato causaram câncer

Por Douglas Fisher para a Environmental Health News

Um júri em Filadélfia (EUA) impôs na sexta-feira à  Monsanto com um veredito com uma pena total de US$ 175 milhões em favor de um paciente com câncer que alegou que a empresa não o alertou sobre agentes cancerígenos conhecidos em seu herbicida mais vendido, o Roundup.

O veredito faz parte de uma série de julgamentos de nove e 10 dígitos contra a subsidiária da multinacional alemã Bayer AG nos últimos anos, incluindo vereditos de 2019 de US$ 2 bilhões em Oakland, Califórnia, e US$ 289 milhões em São Francisco – embora esses vereditos tenham sido substancialmente reduzidos após apelo.

“É um resultado tremendo”, disse R. Brent Wisner, sócio-gerente e advogado principal da Wisner Baum, que ganhou o veredito de câncer causado pelo Roundup de US$ 2 bilhões contra a Monsanto em 2019.

“Este caso sempre foi uma questão de ciência, e este novo veredito coloca um enorme ponto de exclamação sobre esse fato. Já é hora da Monsanto finalmente, e de uma vez por todas, retirar este produto do mercado e negociar um acordo global. para pôr fim ao capítulo do glifosato em nosso país.”

A Bayer respondeu em um comunicado: “Discordamos respeitosamente do veredito dividido do júri e estamos confiantes de que podemos anular esse resultado infundado e reduzir os danos excessivos por meio de nosso recurso”.

O glifosato é o produto químico para matar ervas daninhas mais utilizado no mundo e é o ingrediente ativo do Roundup. Está ligada a uma série de problemas de saúde, desde cancro e doenças neurológicas até perturbações endócrinas e defeitos congénitos.

Mas a gama completa de efeitos do glifosato para a saúde permanece desconhecida, e diversas jurisdições – incluindo a União Europeia – estão debatendo a possibilidade de manter os produtos de glifosato no mercado.

A Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer classificou o glifosato como “provavelmente cancerígeno para os seres humanos”. Mas a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos neste verão não identificou nenhuma “área crítica de preocupação” que impactasse a saúde pública ou o meio ambiente em sua revisão do glifosato. Nos Estados Unidos, a Agência Federal de Proteção Ambiental concluiu que o Roundup é seguro para uso e que o glifosato “provavelmente não é cancerígeno para os seres humanos”.

O veredito de sexta-feira em nome do restaurateur aposentado Ernest Caranci é o primeiro de mais de 200 casos movidos desde 2022 que aguardam para serem julgados apenas na Filadélfia, de acordo com o site do tribunal. A Bayer resolveu a maioria das reivindicações do Roundup contra ela em 2020 por um custo de US$ 10,9 bilhões. E embora a Bayer tenha recentemente vencido nove casos consecutivos que apresentaram queixas semelhantes às de Caranci, milhares de processos adicionais aguardam nos tribunais estaduais e federais dos EUA.


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Este texto publicado originalmente em inglês foi publicado pela “Environmental Health News” [Aqui! ].

As armadilhas do empreendedorismo e seus ativos mais preciosos

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Por Luciane Soares da Silva 

Em junho de 1994 uma colega de faculdade muito popular venho até mim com uma pergunta inusitada: qual era o meu maior sonho. Tinha uns 22 anos naquela época, estava cursando uma faculdade, era bolsista de iniciação científica, tinha uma banda e uma cidade inteira para andar com pranchetas e questionários. Creio que não nutria um sonho muito específico. Após ouvir isto, ela passou a me explicar as vantagens de um mundo no qual eu poderia realizar “todos os meus sonhos”. Todos?

Durante aquele ano, fui abordada por pessoas muito diferentes, em posições sociais e de bairros muito diferentes de Porto Alegre. Com a mesma pergunta. Naquela onda de realização, no final da década neoliberal, minha madrinha, fisgada pelo discurso da realização de “todos os seus sonhos” entrou para o que viria a ser minha experiência mais próxima de observação sobre o funcionamento de um grande esquema de pirâmide. Em uma reunião no famoso clube Farrapos, vídeos reproduziam uma vida de luxo longe do mundo de trabalho fordista e de qualquer obrigação. O único compromisso era vender mercadorias de limpeza importadas dos Estados Unidos pelo meio de venda direta, um setor em alto crescimento particularmente para mulheres com filhos pequenos que não poderiam cumprir uma jornada de oito horas diárias. Mas estas mulheres estariam no topo desta pirâmide com suas revistas de compra direta?

A vida de minha madrinha era bastante sólida como uma trabalhadora da área de saúde e em uma família de pessoas com ensino superior. Meu tio era advogado ligado a prefeitura e minha tia assistente social. Então, de onde viria aquele ávido desejo por riqueza? No meio do curso de ciências sociais não foi difícil perceber o que significavam os textos sobre fim da história, uma sociedade em pleno processo de liquefação e uma promessa de mudanças com base em vendas diretas em todas as áreas. Cosméticos, alimentos, utensílios de cozinha, tudo dentro de um grupo com uma  ideologia que exigia alta performance em diálogos, contatos sociais, capacidade de convencimento. Como seria possível este novo mundo para pessoas que saíam de uma longa jornada como assalariadas? Que não possuíam uma rede capaz de suportar os valores praticados por aquele grupo de consumo de bens importados? Pessoas que não possuíam os capitais de circulação necessários para estar no topo.

Parecia óbvia a diferença entre uma mulher de 40 anos, divorciada e com três filhos e um casal de engenheiros que trocou a “vida monótona” por um esquema de pirâmide no qual aparecia em vídeos exibindo carros e fotos de viagens. A base de “recrutamento” era semelhante a uma seita, tornando seus adeptos agressivos quando confrontados com qualquer crítica. Foram dois anos de perdas até que ela aceitasse que aquele negócio “não era tão bom assim”. Dois anos de aplicação do seu salário para cafés da tarde, viagens à São Paulo, compra de material que supostamente seria facilmente vendido. Mas não foi. Porque seu grupo de convivência era de outros assalariados. O que para mim serve como exemplo prático de uma pessoa alienada sobre sua posição social.

O documentário Betting on Zero de 2016, dirigido por  Ted Braun, registra como latinos aderiram à ideia do dinheiro fácil e viveram a tragédia de perder o ganho de uma vida inteira de trabalho. Perderam caminhão, casa, economias. Perderam a dignidade ao perceber o engano de vender um shake. Que estocado, tornava-se um pesadelo de proporções trágicas.

Recentemente o filme Crypto Boy dirigido por Shady El Hamus me fez lembrar do livro “A corrosão do caráter: consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo” de Richard Sennet publicado em 1999. Já faz algum tempo que observo o tema da aposentadoria. Não apenas por experiências familiares mas por ter vivido uma crise do funcionalismo público fluminense em 2017, que fez com que aposentados passassem a vender amendoins no centro do Rio de Janeiro para não perder as próprias casas. Muitos tiveram de entregar os apartamentos. Algo que vimos após a bolha de 2008 nos Estados Unidos. Crises em curso, crises radioativas se expandindo no tempo e no espaço. A corrosão da qual fala Sennet mostra diferentes gerações enfrentando as mudanças no mundo do trabalho. Do modelo fordista, da vida planejada, das economias que possibilitaram um sentido à experiência para o futuro dos filhos, passamos a viver os anos de risco. Risco pessoal, riscos afetivos, velocidades em todas as transações, uso tóxico de redes sociais vendendo estilos de vida de bilionários saídos do nada.

Transações afetivas, laborais ou religiosas vividas como um ativo na bolsa de valores. Mas com algo em comum: todas estas transações contam com a potência do indivíduo, vendendo aquele mesmo sonho no qual minha madrinha embarcou na década de 90, no Brasil. Um sonho importado dos Estados Unidos expandido  no governo de Fernando Collor de Mello como o caminho de modernização nacional. Privatizar e tornar o Estado mais leve eram lemas repetidos pelos empregados da Companhia Rio Grandense de Telecomunicações. Que viraram donos de towners de cachorro-quente após demissões voluntárias. Negócios que faliram em menos de um ano. Todos desempregados e com dívidas.

O mesmo ocorre com os discursos das criptmoedas. A falência do mundo do trabalho como o conhecemos até a década de 1970, produziu uma geração inflada por experiências rápidas. Não mais Wall Street (não apenas). Não mais as bolsas de valores ou os bancos. Nada visível, nada com fronteiras, nenhum limite. Propagam a morte das amarras e valorizam relações baseadas em esquemas de pirâmides. Só que agora, com a confiança em jovens milionários de 30 anos. Descolados. Que frequentemente “somem” na  Índia ou algum outro país distante com o dinheiro de seus “associados”. Esta é a geração que olha o trabalho realizado por seus pais e grita “fracassados”. Exibem um tipo de consumo ostentatório e o rompimento com projetos de longa duração.

No entanto e apesar desta bruma de positividade baseada em puro discurso de elixir mágico,  segue existindo uma gigantesca diferença não percebida pela minha madrinha: aqueles que têm uma rede de proteção e podem falir e a massa que sustenta esta possibilidade, a base da pirâmide que defende os ricos. A Betina, que nascendo rica, apresenta-se como alguém que “fez” um milhão antes do 30 anos. Mas se não me engano, este pessoal anda demitindo muita gente. Ela seria o tipo ideal de gente que pretende ganhar dinheiro sem fazer nada relevante no mundo a não ser ganhar dinheiro sem fazer nada. Parece que tornou-se um mantra poderoso. Produzir espertezas de como burlar o sistema. Mas a casa nunca perde.  É o que sempre dizem em cassinos. E ainda assim, eles atraem milhares de sonhadores a cada ano.

O mesmo ocorre com um tipo de empreendedorismo cujas as palavras de ordem são “cuidar do planeta”, “fazer as pessoas mais felizes”, “preservar as culturas”. Algumas das empresas mais rentáveis no Brasil atualmente, utilizam a floresta e seus povos como ativos de propaganda do que foi exposto acima.

É trágico observar como esta lógica se assemelha a uma pequena infiltração que se alastra pela casa. Expande-se por todas as esferas até que não exista mais uma contra-hegemonia. Até mesmo em espaço nos quais nosso principal ativo deveria ser o conhecimento, ocorre um rebaixamento das expectativas. Não há possibilidade de manutenção de instituições do Estado como as universidades quando estas passam a instrumento da mesma lógica dos projetos individuais, da meritocracia e da possibilidade de lucrar com a marca. Mas neste caso, no Brasil, a “marca” é pública, então a operação torna-se um pouco estranha.  Não faz muito sentido fazer pesquisa pública se nivelamos nossa ação pelo mercado travestido de investimento social em pessoas. Sempre vivemos ondas salvacionistas no Brasil.

Os índios, as crianças de rua, os pobres, os pescadores, os favelados, as mães solteiras. São o foco do terceiro setor, frequentemente atuando com uma mão no mercado e os pés na universidade que chancela suas intenções e assina os projetos. A verdade é que esta operação complexa transforma as pessoas naquilo que elas pensam vender. Trocando em miúdos, o que importa, o que é mais raro, é o indivíduo na ação crédula de que algum grande empreendedor vai torná-lo rico, viável, socialmente incluído, diplomado e pertencente à nova ordem mundial. 

O elemento trágico é que esta ação é mediada por grupos que submetem estas minorias à formas de dominação das quais elas raramente se libertam. Todos ganham dinheiro. Menos os contemplados desta política que não sendo pública, é um meio de caminho entre a publicidade e a futura frustração. Garantem minimamente um pequeno conforto incerto mas com alto custo: o trabalho duro de gerações anteriores.

Esta ausência de crítica produz ao fim do processo uma frustração de caráter difuso que precisa ser constantemente alimentada por consumo, sensualismo manifesto nas redes sociais, redes de ódio e dívidas. Muitas dívidas como herança às gerações futuras. Nada pior que fazer para outros este trabalho de graça não é mesmo? E literalmente usar uma camisa que ao fim do dia ainda tem de ser devolvida lavada e passada para o próximo. Que a universidade possa viver livre deste empreendedorismo que rouba o verdadeiro propósito da instituição: a formação crítica e a capacidade para pensar de forma autônoma que caracteriza nosso compromisso com a ciência.


Luciane Soares da Silva é professora do Laboratório de Estudos sobre Sociedade Civil e do Estado (Lesce) da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf)

Aumento de morte de crianças por leucemia é associada à expansão da soja no Brasil

Agrotóxicos: uso na soja aumentou morte de crianças por leucemia

Aplicação de agrotóxicos levou à morte adicional de 123 crianças em 11 anos na Amazônia e no Cerrado, revela pesquisa

Por Giovana Girardi para a Agência Pública

Em meio à discussão no Congresso de um projeto de lei para flexibilizar o acesso aos agrotóxicos no país, amplamente defendido pela bancada ruralista, um estudo divulgado nesta segunda-feira (30) associa o aumento de casos de leucemia infantil no Brasil à expansão do cultivo da soja e ao grande uso de pesticidas nas plantações do grão.

Eles encontraram pelo menos 123 mortes adicionais de crianças com menos de 10 anos entre 2008 e 2019 relacionadas indiretamente ao uso de  agrotóxicos no cultivo de soja no Cerrado e na Amazônia.

O trabalho fez uma análise populacional, considerando 15 anos de dados de saúde, cruzando informações de câncer infantil com o avanço da soja pelos dois biomas. 

O grupo de pesquisadores norte-americanos, liderados por Marin Skidmore, da Universidade de Illinois, aponta no artigo que a área de soja no Cerrado triplicou de 5 milhões de hectares para 15 milhões de hectares entre 2000 e 2019. Na Amazônia, cresceu 20 vezes: de 0,25 milhão para 5 milhões de hectares. Já o uso de agrotóxicos nessas duas regiões – que foram as analisadas no trabalho – cresceu entre 3 e 10 vezes no mesmo período.

Este aumento, revelam, se refletiu nos casos da doença. De acordo com os cálculos dos cientistas, a cada 10 pontos percentuais de aumento na produção de soja, houve 4 mortes adicionais de crianças de menos de 5 anos e de 2,1 abaixo de 10 anos por 100 mil habitantes.

“Os resultados sugerem que cerca de metade das mortes pediátricas por leucemia no período podem ser ligadas à intensificação agrícola da soja e à exposição aos agrotóxicos”, afirmou Skidmore em comunicado à imprensa. O trabalho foi publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS)

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Aplicação de agrotóxicos levou à morte adicional de 123 crianças em 11 anos na Amazônia e no Cerrado

Os cientistas indicaram também que o contato com os produtos químicos deve ter se dado via fornecimento de água, em geral em localidades onde a produção de soja fica à montante na bacia hidrográfica. Eles chegaram a essa conclusão ao procurar evidências de aplicação de pesticidas rio acima. Os casos de leucemia estavam à jusante da mesma bacia. “Isso indica que o escoamento de agrotóxicos para as águas superficiais é um método provável de exposição”, explicou Skidmore.

Ou seja, as crianças que desenvolveram leucemia não moravam necessariamente nas áreas onde se dá a produção da soja – o que revela o amplo alcance dos agrotóxicos. Skidmore aponta que a área rural da região avaliada no trabalho tinha, de acordo com dados de 2006, cerca de 50% das casas com poços ou cisternas, mas a outra metade dependia do escoamento na superfície como fonte de água. “Se a água na superfície está acostumada, os pesticidas usados rio acima podem alcançar as crianças rio abaixo”, disse.

O artigo retrata o Brasil como o país que se tornou, nos últimos anos, tanto o líder mundial na produção de soja quanto de consumo de agrotóxicos perigosos. Segundo a análise, aplicamos, por hectare, 2,3 vezes mais agrotóxicos que os Estados Unidos e 3 vezes mais que a China, que são o primeiro e o terceiro colocado em volume total de agrotóxicos. O estudo relata ainda que o uso no cultivo de soja cresceu após a aprovação, em 2004, de variantes transgênicas do grão.

Um fator capaz de amenizar a mortalidade foi a presença de hospitais próximos às áreas de contaminação. De acordo com a pesquisa, as mortes de crianças por leucemia relacionadas com a expansão da soja se deram em regiões que ficavam a mais de 100 quilômetros de um centro de tratamento. A doença é tratável, mas depende de um atendimento oncológico especializado, o que não é amplamente oferecido no interior do Brasil, em especial na Amazônia, por exemplo.

“Nós certamente não estamos advogando por uma interrupção total do uso dos agrotóxicos”, diz a pesquisadora, reconhecendo que tiveram uma importância para a expansão da produção de soja. “São tecnologias importantes e válidas, mas precisam ser adotadas com segurança. [Os resultados] são um forte aviso de que o uso seguro de agrotóxicos é o melhor tanto para a produtividade agrícola quanto para as comunidades”, afirma. 

O recado final do artigo é mais duro: “Este trabalho sublinha a importância de considerar as implicações à saúde humana da intensificação da agricultura”.

Durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), mais de 14 mil pessoas foram intoxicadas por agrotóxicos no Brasil, segundo levantamento inédito feito pela Agência Pública e Repórter Brasil, com dados de 2019 a março de 2022.

Nos últimos anos, vários estudos vêm revelando a relação entre o uso intenso de agrotóxicos com diversos problemas de saúde e ao ambiente. A presença de substâncias cancerígenas nos agrotóxicos é bem conhecida, mas a relação direta de causa e efeito com o câncer é mais difícil de estabelecer.  

Levantamento recente feito pelo InfoAmazonia com a Fiocruz observou que mulheres, crianças e adolescentes de municípios do Mato Grosso que têm pelo menos 5% da área ocupada por soja têm risco entre 26% e 33% mais chances de desenvolver e morrer por leucemia e linfoma.


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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Pública [Aqui!].

ASCEMA Nacional se posiciona contra inclusão da PM no Sisnama

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A Associação Nacional dos Servidores da Carreira de Especialista em Meio Ambiente e do PECMA (ASCEMA Nacional) declara sua posição contrária ao Projeto de Lei (PL) 3045/2022 que propõe a inclusão da Polícia Militar no Sistema Nacional do Meio Ambiente (Sisnama).

O senador Nelsinho Trad (PSD/MS) apresentou a emenda 33 a esse projeto, visando instituir a Lei Orgânica Nacional das Polícias Militares e dos Corpos de Bombeiros Militares dos Estados, do Distrito Federal e dos Territórios. O PL está na pauta do Plenário do Senado para amanhã (31/10), após ter sido aprovado com urgência na semana passada.

A ASCEMA Nacional expressa sua preocupação não apenas em relação à questão do Sisnama/Conama, mas destaca um movimento mais amplo, unindo diversas organizações contra o PL como um todo. Alertamos para o retrocesso que esse projeto representa, acarretando inúmeros problemas, especialmente no que diz respeito à governança ambiental.

O PL em questão traz implicações sérias, como a possibilidade de as Polícias Militares receberem financiamento da área ambiental, o que poderia comprometer a atuação de órgãos como o Ibama, ICMBio e Funai. A título de comparação, o orçamento destinado à segurança pública em 2022 foi de R$124,8 bilhões, enquanto o empregado na gestão ambiental foi de R$ 2,7 bilhões – equivalente a 2% do utilizado na segurança pública, apesar das instituições envolvidas na proteção ambiental atuarem em todo o território nacional e necessitarem de efetivo, infraestrutura e recursos financeiros.Há, ainda, o risco de limitar a atuação dos servidores do Meio Ambiente na fiscalização, além de abordar a educação ambiental numa perspectiva policial, o que é preocupante.

A ASCEMA Nacional destaca ainda a preocupação do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania com dispositivos presentes na redação do PL 3045/2023, que podem potencializar violações de direitos humanos. Além disso, setores do governo expressaram preocupação com trechos que podem restringir a participação de mulheres nas forças de segurança e retirar competências do Ibama, impactando a estrutura do Meio Ambiente.

Diante disso, a ASCEMA Nacional se coloca veementemente contrária à inclusão da Polícia Militar no Sisnama, considerando os impactos negativos que isso acarretaria para a preservação ambiental e para a sociedade como um todo, tendo em vista que os órgãos que atualmente têm essa atribuição precisam de fortalecimento, haja vista que mesmo com as condições precárias atualmente enfrentadas, têm apresentado bons resultados. Convidamos a sociedade e demais organizações a se unirem a nós nessa luta em prol de um ambiente equilibrado e protegido.

Qualidade do ar no Cerrado está comprometida pelo excesso de agrotóxico

Estudo identificou a morte de líquens pela exposição ao glifosato em uma Área de Preservação Permanente em Caiapônia, Goiás

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Por Adriana Amâncio para a Mongbay

Respirar ar puro no Cerrado tem sido cada vez mais difícil. É o que indica um estudo recente, elaborado pelo Instituto Federal Goiano. A pesquisa constatou uma relação entre a morte de líquens e a exposição ao glifosato, um tipo de herbicida usado para impedir o crescimento de plantas espontâneas.

Os líquens são organismos formados por fungos e algas que se relacionam entre si. “Na prática, isso indica a má qualidade do ar. Em florestas tropicais, como é o nosso caso, a presença dos líquens indica boas condições atmosféricas. Por outro lado, a sua ausência indica que as condições do ar não estão adequadas”, resume Luciana Vitorino, doutora em Microbiologia, pesquisadora do Instituto Federal Goiano e uma das autoras do estudo.

As amostras analisadas foram recolhidas de uma Área de Preservação Permanente (APA) localizada no município de Caiapônia, distante 335 km de Goiânia, capital de Goiás. A APA está localizada dentro de uma propriedade privada de monocultivo de cana-de-açúcar em larga escala.

Foram recolhidos dos troncos das árvores líquens das espécies Parmotrema tinctorum e Usnea barbata (conhecida como  barba-de-velho). Essas amostras estavam no centro da APA, portanto, em tese, não haviam sofrido exposição direta  ao glifosato. Nas análises, porém, foi constatado que houve redução de células vivas e aumento de células mortas nos líquens barba-de-velho – ambos os resultados proporcionais ao tempo de exposição e à concentração do herbicida.

Segundo Luciana Vitorino, o interesse em realizar esse estudo mais aprofundado surgiu após ser encontrado cádmio, um dos metais pesados presentes no glifosato, em líquens localizados nas bordas de quatro Áreas de Preservação Permanente do município de Rio Verde, em Goiás. O levantamento feito em 2017 envolveu áreas de conservação localizadas em propriedades privadas de cultivo de commodities.

Em 2018, a preocupação dos pesquisadores aumentou. Foram encontrados líquens com metais pesados provenientes do glifosato também no Parque Nacional das Emas. Levando-se em conta que esse parque é uma Unidade de Conservação de Proteção Integral, ou seja, com restrição de atividade econômica, deveria ser improvável encontrar resíduos de glifosato nestes organismos vivos.

Foi então que os pesquisadores suspeitaram de contaminação por efeito de deriva. Esse é o nome dado ao efeito que leva os agrotóxicos, por meio das águas subterrâneas e de correntes de ar, para outras áreas além do alvo da pulverização. A pulverização via aérea, a mais comum adotada em Goiás, favorece a dispersão desse agrotóxico.

“Esses estudos anteriores serviram para comprovar que havia contaminação de líquens em áreas de conservação. Já o estudo atual mostrou, de forma mais efetiva, como os líquens eram afetados”, explica Vitorino.

O município de Caiapônia foi escolhido por ser tratar de uma área bastante preservada. O ideal, detalha Luciana, era obter líquens que nunca haviam tido contato com o glifosato para observar bem a sua reação aos estímulos realizados nas análises in vitro. 

Biomarcadores de poluição por glifosato em amostras de líquens. Imagem: reprodução

A pesquisa também identificou que o glifosato compromete o processo de fotossíntese dos líquens. A fotossíntese é um processo essencial para a sobrevivência. É por meio dele que a luz solar é convertida em energia química, fornecendo alimento e oxigênio ao organismo. A figura acima mostra o resultado do teste de fluorescência.

Neste caso, a exposição dos líquens a uma luz específica mostra como está a saúde das algas que compõem os organismos, parte responsável pela fotossíntese. Observe que, na última fileira, as algas praticamente desaparecem. “Isso mostra que o glifosato compromete a capacidade de fotossíntese dos líquens”, esmiúça Luciana.

De acordo com Luciana Vitorino, a diferença entre os líquens e os outros bioindicadores está na sensibilidade e na resposta imediata. “Com esse estudo, não queremos dizer que outras espécies não estejam sendo atingidas [pelo glifosato], mas os líquens têm uma resposta mais rápida, algo que pode demorar a aparecer em outras espécies”, pondera. Ela observa que o estudo confirma a dispersão do produto para áreas de conservação e que a pulverização aérea tem um papel contundente nesse caso.

Dados do Ibama apontam que o glifosato é o agrotóxico mais vendido no Brasil, com quase 220 toneladas por ano. Apenas no estado de Goiás, onde está localizado o município de Caiapônia, local de onde as amostras foram extraídas, são comercializadas quase 20 toneladas anuais do produto, ainda segundo o Ibama. O glifosato é também o pesticida mais consumido no globo terrestre. 

Seriema (Cariama cristata) no Parque Nacional das Emas, sudoeste de Goiás. Foto: Fernando Nanzer, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

Cerrado: 70% do consumo de agrotóxicos no Brasil

Na avaliação do médico e doutor em Saúde Pública, Wanderlei Pignati, a chegada dos transgênicos foi determinante para que a quantidade de glifosato, assim como de outros agrotóxicos usados no Cerrado aumentasse de maneira exponencial. “Foi criado um tipo de soja resistente ao glifosato, a soja Roundup Ready, ou seja, o glifosato pode ser aplicado direto na soja. Ele mata as ervas espontâneas, mas não mata a soja”, explica. Além dela, outras espécies foram modificadas geneticamente para se tornarem resistentes a diversos outros tipos de agrotóxicos.

O Cerrado é responsável por 73,5% de todo o volume de agrotóxicos comercializados em todo Brasil. Esse alto volume de consumo deve-se ao fato de o bioma abrigar milhares de hectares de monocultivo de commodities, sendo, portanto, a maior fronteira agrícola do agronegócio brasileiro. Esse dado é revelado em um artigo publicado na revista “Desenvolvimento e Meio Ambiente”, da Universidade Federal Rural do Paraná (UFPR). 

Líquen do gênero Parmotrema no Parque Estadual Matas do Segredo, Mato Grosso do Sul. Esses organismos são formados por fungos e algas, que interagem entre si, e apresentam resposta rápida sobre a má qualidade do ar. Foto: Fábio Júnio Santos Fonseca, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons

A má qualidade do ar não é a única consequência do excesso de uso de agrotóxicos que deve preocupar. Pesquisas apontam que tanto o glifosato quanto outras substâncias que vão na composição dos herbicidas são provavelmente cancerígenas.

Um exemplo é o produto Mata Mato, um herbicida que leva na sua composição, além do glifosato, polioxietileno amina (poea), nitroglifosato e formaldeído. “Enquanto o glifosato é provavelmente cancerígeno, as outras substâncias são comprovadamente cancerígenas”, explica Pignati.

Em 2015, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc), órgão ligado à Organização Mundial de Saúde (OMS) classificou o glifosato como “provavelmente cancerígeno”. Um parecer técnico da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), lançado em 2019, cobra a proibição do registro de produtos à base de glifosato com base no provável potencial cancerígeno do produto.

O parecer defende que seja adotado o princípio da precaução, “critério basilar nos processos de avaliação de nocividades para a saúde humana e para o ambiente, indicando ser mister evitar a exposição diante de limitações e ou incertezas quanto aos perigos relacionados à exposição a determinados agentes”, diz um trecho da nota.

Pignati explica que a Resolução número 441 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determina as quantidades nas quais essas substâncias podem ser administradas. O polioxietileno amina não pode exceder 20% da quantidade de produtos à base de glifosato; o nitrogenifosato, 0,001 grama por quilo de glifosato; e o formaldeído, 1 grama por quilo de glifosato. “Será que essas quantidades estão sendo respeitadas na produção do produto? É importante sabermos”, questiona Pignati.

O glifosato está com os dias contados?

Em dezembro deste ano, termina a licença para o uso do glifosato na produção de herbicidas na União Europeia. No último dia 13 de outubro, a Comissão Europeia decidiu prorrogar a licença do produto até 2033, porém, essa aprovação não alcançou o quórum de no mínimo 15 países, o que representa 66% dos membros suficientes para  validar a decisão. Com isso, a proposta será encaminhada ao Comitê de Apelação, que deve realizar a votação final na primeira quinzena de novembro.

Dentre os países integrantes, a Alemanha, local de origem do produto, já se posicionou contrária à renovação da licença. Áustria e Luxemburgo devem acompanhar o voto da Alemanha, porém, Itália, Suécia e Portugal são favoráveis a extensão. Já Bélgica e Holanda anunciaram que devem se abster.

Na queda de braço, de um lado estão as empresas que temem pela perda dos lucros que somam cifras imensuráveis, que contam com países como o Brasil, um dos maiores consumidores do glifosato do mundo. Do outro, órgãos de pesquisa, médicos e ambientalistas que consideram as evidências sobre o potencial cancerígeno do produto mais do que suficiente para proibir seu uso. Havendo a proibição do glifosato, produtores brasileiros, caso queiram ter os seus produtos aceitos na União Europeia, teriam que encontrar uma solução ambientalmente sustentável para cultivá-los.

Imagem do banner: pulverização aérea no município de Santo Inácio, Paraná. Foto:  Edmarjr, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons


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Este texto foi originalmente publicado pela Mongbay Notícias Ambientais [Aqui!].

Projeto da Uerj estuda tartarugas como indicadores de poluição na Baía de Guanabara

tartaruga verde

Pesquisa do Laboratório de Genética Marinha (LGMar), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), examina a poluição na Baía de Guanabara através da observação de tartarugas-verdes na região. No mês de agosto, um artigo com os resultados do trabalho realizado em 2022 foi publicado em um periódico científico. O estudo identificou bactérias também patogênicas humanas nas amostras, ou seja, que podem causar doenças em seu hospedeiro. 

Ainda no segundo semestre de 2023, a equipe realizou a segunda edição da campanha “Caminhos das tartarugas cariocas”, coletando e analisando 84 animais nas águas da Marina da Glória e da Fortaleza de São João, zona sul do Rio de Janeiro, e no Clube Naval de Charitas, em Niterói. No momento, os pesquisadores examinam esses dados para, posteriormente, divulgar novas conclusões.

Tartarugas como biomonitores

Na literatura científica, biomonitores geralmente são organismos tolerantes à contaminação ambiental, que respondem simultaneamente a diferentes agentes poluentes, refletindo, assim, o nível de degradação do ecossistema.

De acordo com os pesquisadores, a tartaruga-verde (Chelonia mydas) é a espécie mais abundante no litoral brasileiro, é longeva e passa a maior parte da vida em ambientes costeiros, exposta a bactérias resistentes a antibióticos, oriundas do escoadouro humano, o que a torna um bom indicador de poluição marinha.

Durante a ação, a equipe, composta por alunos de Biologia e Oceanografia, além de servidores técnicos da Universidade, utilizou uma rede com malha apropriada para capturar as tartarugas. Em seguida, elas foram medidas, examinadas e tiveram amostras de seu tecido recolhidas para estudos genéticos e microbiológicos.

O perigo da resistência antimicrobiana

Segundo Gisele Lobo Hajdu, coordenadora do projeto e professora do Instituto de Biologia Roberto Alcântara Gomes (Ibrag), da Uerj, a investigação surgiu da necessidade de estudar a resistência antimicrobiana (RAM), que ocorre quando microrganismos são expostos a antibióticos, utilizados para tratar as infecções, em particular, as de origem bacteriana. Como consequência, os medicamentos se tornam ineficazes e surgem as superbactérias.

A resistência antimicrobiana é um problema de saúde pública há algum tempo. O uso sem controle de antibióticos na criação de animais para consumo humano é uma das maiores fontes de resistência microbiana. A RAM pode causar mortes e dificultar o controle de doenças infecciosas, ameaçando a saúde e a economia, devido aos altos custos com o tratamento por essas infecções. “Dada a troca frequente de bactérias e genes de resistência aos antimicrobianos entre espécies e ambientes, é crucial compreender e identificar as ligações entre os organismos humano, animal e ambiental”, explica a bióloga.

Trabalho durante o ano

As amostras são trabalhadas ao longo do ano, identificando os vários contaminantes presentes no tecido, sangue e fluidos dos animais. Além do trabalho de coleta, os alunos da Uerj promovem atividades de conscientização a respeito da poluição dos mares, com exposições, feiras de ciências e mutirões de limpeza das praias.

O projeto conta com a participação de pesquisadores das universidades Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Federal Fluminense (UFF), Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e da ONG Caminho Marinho.

2º SP Food Film Festival traz cinema, gastronomia, degustações, debates

de 09 a 19/11,na Cinemateca Brasileira e online para todo Brasil

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A 2ª edição do São Paulo Food Film Festival acontece de 09 a 19 de novembro, na Cinemateca Brasileira, com mais de 30 filmes, entre clássicos da ficção e documentários contemporâneos ligados à alimentação e aos sistemas agroalimentares, exposição fotográfica, debates, aulas show e degustações de pratos inesquecíveis do cinema, após algumas das exibições presenciais. Um recorte da programação estará disponível online para todo Brasil, com 16 títulos na plataforma da SpcinePlay. Toda programação é gratuita!

Clássicos como “Morango e Chocolate”, que completou 30 anos, dirigido por Juan Carlos Tabio e Tomás Gutiérrez Alea, virá acompanhado de uma degustação de sorvete de morango com chocolate. “Mulheres à beira de um ataque de nervos”, de Pedro Almodóvar, que completa 35 anos, com um delicioso gazpacho após a sessão, entre outros.

Para o público infantil, “A Dama e o Vagabundo”, “A Fantástica Fábrica de Chocolate”, e “A Princesa e o Sapo”, todos com degustação após a sessão! A programação traz também filmes com temas urgentes e necessários, como “Os Catadores e Eu” de Agnès Varda sobre o desperdício e a fome; “O Poço”, de Galder Gazteli-Urrutia, que se passa em uma prisão vertical.

Entre as estreias, o documentário “Blind Ambition”, onde quatro refugiados do Zimbabwe se tornam os melhores sommeliers de vinho da África do Sul (com direito a degustação de vinhos após a sessão); “Solo Comum”, documentário que discute os sistemas alimentares contemporâneos e modelos alternativos de agricultura regenerativa; “Em Busca da Estrela” com degustação de pizza; “Lambic” com degustação de cervejas, “Viciados em Pimenta” com degustação de deliciosas samosas com pimenta e “Volte Sempre”, que conta a história de Masamoto Ueda e seu lendário ramen.

Encontros, aulas show e debates

Cinco encontros com diferentes Chefs de Cozinha e especialistas, que após a exibição de alguns episódios do documentário “História da Alimentação no Brasil”, série dirigida por Eugenio Puppo. As convidadas para ministrar as aulas são: Aline Guedes, Patty Durães, a líder indígena Jerá Guarani, Angelita Gonzaga e Graziela Tavares.

A programação conta ainda com um importante ciclo de debates abordando quatro temas contemporâneos relevantes ligados ao alimento: Cozinhas Solidárias; Consumo de Ultraprocessados; Uso de Agrotóxicos e Educação Alimentar e Nutricional, que partem de uma cuidadosa seleção de filmes e documentários em encontros online com convidados especialistas serão transmitidos ao vivo no canal do Youtube do Festival, com exceção do debate sobre as Cozinhas Solidárias que será presencial, na própria Cinemateca.

Exposição fotográfica

O festival traz uma exposição original do fotógrafo Paulo Vitale. Dentre os Chefs retratados estão Eudes Assis, Helena Rizzo, Iêda de Matos, Telma Shiraishi, Claude Troisgros, entre muitos outros.

Sessão de abertura

A sessão de abertura acontece no dia 08/11, com o filme chinês “Comer Beber Viver”, do premiado diretor Ang Lee, que em 2024, completa 30 anos.

Segue abaixo release com a programação completa e fotos anexadas.

Aqui o link com fotos e trailers:

https://docs.google.com/spreadsheets/d/1e0kOWIvdFYpnCaM4ftX6YLzF2WiGTRrvuh8bnFQL3Vc/edit?usp=sharing

Presença de diesel na água mata espécie de planta do mangue ainda na germinação, mostra experimento

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Propágulo de Avicennia germinans sendo coletado na árvore-mãe para o experimento

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As sondagens para a possível exploração de petróleo e gás na bacia do Pará-Maranhão e na foz do rio Amazonas têm se intensificado na última década, aumentando o risco de vazamentos de derivados do petróleo nestas regiões. Pesquisadores da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) testaram em laboratório os efeitos da presença do óleo diesel na germinação de plantas de mangue e concluíram que a Laguncularia racemosa, conhecida como mangue-branco, sofre intensos efeitos do contaminante. As conclusões estão publicadas na edição de 27 de outubro da revista “Acta Amazônica”.

Em experimento, os especialistas observaram que o contato com crescentes volumes de óleo diesel na água matou 80% dos propágulos da L. racemosa, que são estruturas que se desprendem de uma planta adulta e funcionam como sementes. A velocidade de germinação também diminuiu à medida que a quantidade do contaminante aumentou. Outra espécie estudada, a Avicennia germinans, não apresentou mortalidade significativa no mesmo contexto.

Os propágulos das duas espécies foram mergulhados em uma emulsificação do óleo em água de mangue com diferentes percentuais de óleo diesel e comparados com uma amostra de controle, sem o óleo. Após o tempo característico de germinação de cada espécie, foi verificada a taxa de propágulos germinados, indicador do impacto da contaminação.

Segundo Josélia Martins, primeira autora do artigo, o diferencial da pesquisa é mostrar o efeito da poluição por óleo diesel no processo de germinação dos propágulos enquanto estão imersos nas águas de estuário. “O conhecimento do que ocorre na fase de germinação dos propágulos é muito importante, pois é uma fase primordial. Sem ela, as demais não são possíveis.”

“O que nos surpreendeu foi a ausência de resposta significativa da espécie Avicennia germinans durante a germinação em contato com o óleo diesel nos volumes utilizados neste estudo, ao contrário do que ocorreu com a Laguncularia racemosa. Esse resultado denota maior resiliência da outra espécie”, comenta Martins.

Os pesquisadores apontam que o conhecimento de que uma ou mais espécies de mangue não consegue germinar adequadamente na presença de óleo emulsificado na água estuarina pode auxiliar na formulação de políticas públicas de conservação e restauração do manguezal, ecossistema importante para manter a qualidade da zona costeira para a população e animais. Os resultados também podem orientar profissionais em situações de desastres com derramamento de óleo. Neste caso, saber quais espécies são mais afetadas pode mudar a forma de atuação dos especialistas durante os esforços para a limpeza e conservação da área atingida.

O próximo passo do grupo de pesquisadores será plantar os propágulos das duas espécies que obtiveram sucesso na germinação enquanto mergulhados em água e óleo diesel e acompanhar o seu desenvolvimento. Com esse processo, eles vão poder observar os efeitos do óleo durante o crescimento das plantas. “Também queremos dar continuidade aos estudos com outros tipos de derivados de petróleo, como o óleo diesel marítimo e o óleo bunker”, conclui Martins.

 

DOI: https://doi.org/10.1590/1809-4392202202342

Findadas as eleições na Uenf, como ficou o imbróglio da reforma do Solar do Colégio?

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Em algum lugar do passado, Bruno Dauaire, Raúl Palacio e Wladimir Garotinho seguram a planta do Solar do Colégio, sede do Arquivo Público Municipal

Ao longo de 2023 uma das muitas causas de vergonha interna em quem ainda alguma restante dentro da comunidade universitária da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) foi o imbróglio relativo à reforma do Solar do Colégio que abriga o Arquivo Municipal de Campos dos Goytacazes. Foram dezenas de matérias jornalísticas e ameaças por parte do prefeito Wladimir Garotinho por causa do ritmo de tartaruga de pata quebrada com que o ainda reitor da Uenf, prof. Raúl Palacio, tratou o uso de R$ 20 milhões destinados pela Alerj para a realização da obra.

O batom na cueca foi tão grande que durante as eleições para a reitoria da Uenf, a atual reitora em exercício e futura reitora, profa Rosana Rodrigues, finalmente deu o ar da graça nas carcomidas instalações do Arquivo Municipal para prometer que com ela as coisas seriam diferentes.

Agora, passadas e vencidas as eleições, o ainda reitor Raúl Palacio resolveu fazer uma espécie de tour de despedida às custas da viúva com visitas em universidades no Chile e Colômbia, deixando a administração nas mãos de Rosana Rodrigues.

Pois bem, e sobre as obras que deveriam ocorrer antes das próximas chuvas de verão? Ninguém fala, ninguém viu. O problema é que ninguém mais fala no assunto, incluindo aí o prefeito Wladimir Garotinho, o seu grande amigo Bruno Dauaire, e os próceres do prefeito na mídia corporativa local.

A única conclusão que posso chegar é que tudo foi resolvido e só nos esqueceram de nos avisar. O problema é que fazer e não avisar não tem sido a prática da reitoria da Uenf nos últimos anos. Dai que….