Observatório dos Agrotóxicos: em plena COP30, governo Lula libera mais 30 agrotóxicos

As contradições entre discurso e prática do presidente Lula e seu governo são evidentes a cada dia e cada ato prático, por mais corriqueiro que seja. Como alguém que acompanha com interesse a situação da aprovação de agrotóxicos no Brasil desde 2019, pensei que pelo menos para disfarçar, o governo federal não publicaria nenhum daqueles infames atos de liberação de agrotóxicos para comercialização no território nacional.

Pois bem, pensei errado.  É que hoje o Diário Oficial da União traz a publicação do ATO Nº 54, de 11de  Novembeo de 2025 que libera a comercialização de mais 30 agrotóxicos do tipo Produto Técnico, que é aquela classificação que se refere a produtos concentrados que serão usados para a fabricação dos produtos formulados que serão consumidos no final das contas.

Já olhei a lista dos agrotóxicos inclusos nesse ato é vejo ali velhos conhecidos e aquela costumeira característica de serem produzidos, explicitando uma espécie de colonialismo químico sul-sul, e não norte-sul.

De qualquer forma, como os agrotóxicos são emissores de gases estufa,  o que fica claro é que o governo Lula, quando seu líder não está no palco da COP30 vendendo a sua imagem de exportação, não hesita em rasgar a fantasia da sustentabilidade para introduzir mais venenos perigosos no já sobrecarregado mercado brasileiro de agrotóxicos.

Essa história de COP é semelhante àquela festa em que vamos todos bem vestidos para tomar um porre com whisky barato para acordar no dia seguinte com uma tremenda ressaca.  E, pior, quem dá a festa já sabendo que a ressaca será devastadora.

E depois ainda vai ter gente em 2026 dizendo que é melhor votar em Lula do que arriscar a ter a extrema-direita bolsonarista de volta no poder por causa da devastação ambiental que vai acontecer. Pura hipocrisia. Afinal, na hora de acalentar os lucros do agronegócio, essas duas vertentes estão juntas e misturados. E tome agrotóxicos na água e na comida dos brasileiros!

COP30 no Brasil: uma cúpula climática manchada por petróleo e desmatamento

Por Monica Piccinini para “The Canary” 

Com o início da COP30 Brasil em Belém, o mundo se reúne mais uma vez para prometer salvação — uma solução para a crise climática. Líderes globais chegam de avião e se encontram sob a copa da floresta amazônica , prometendo ambição, justiça e preservação.

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, comparece diante das câmeras proclamando a liderança de sua nação na luta global contra as mudanças climáticas, mas sua retórica parece estar em desacordo com a realidade.

O governo brasileiro que agora se veste com a linguagem da sustentabilidade é o mesmo que promove leis, projetos e indústrias extrativistas que colocam em risco a própria floresta que alega proteger.

A Amazônia está ameaçada não apenas por madeireiros e garimpeiros ilegais, mas também pelo próprio governo do país, que promove uma cúpula climática enquanto abre novas fronteiras petrolíferas, enfraquece a proteção de terras indígenas e acelera a emissão de licenças para atividades ecodestrutivas.

COP30 Brasil — Fumaça e espelhos

Enquanto diplomatas saboreiam smoothies de açaí em Belém, incêndios, desmatamento e degradação continuam a devastar a Amazônia.

No final de 2023, Manaus, a capital do Amazonas, desapareceu sob uma sufocante nuvem escura de fumaça. Os moradores acordaram com céus cinzentos e o gosto de floresta queimada na boca. As máscaras deixaram de ser uma proteção contra o vírus e se tornaram escudos contra o próprio ar de que precisavam para sobreviver.

Monitores de qualidade do ar registraram níveis de PM2,5 vinte vezes superiores ao limite da Organização Mundial da Saúde. É a Amazônia falando, e ela estava gritando.

Os incêndios seguem um caminho muito familiar: a rodovia BR-319, antes abandonada e agora sendo revitalizada pelo governo Lula, corta a floresta tropical como uma faca. Tratores abrem um corredor de destruição em uma das partes mais intactas da floresta, dando margem à pecuária, à grilagem de terras, ao crime organizado, à mineração legal e ilegal, aos incêndios e, possivelmente, a novas pandemias.

“O Brasil está retrocedendo enquanto promete liderança climática, caminhando na direção oposta aos seus compromissos para a COP30 Brasil”, afirma Lucas Ferrante, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP). Ele acrescentou :

O desmatamento e a degradação já são visíveis ao redor da BR-319. Se a rodovia for reconstruída, poderá desencadear uma reação em cadeia irreversível que devastará a Amazônia, prejudicará comunidades indígenas e acelerará as mudanças climáticas a um nível incontrolável.

Cássio Cardoso Pereira , ecologista e editor da revista BioScience, disse :

Enquanto o desmatamento ganha as manchetes, a crise mais profunda da degradação florestal continua sem controle. E agora, projetos imprudentes, incluindo a rodovia BR-319, a ferrovia Ferrogrão e a desastrosa proposta de perfuração de petróleo na foz do Amazonas, levam a floresta tropical cada vez mais perto do colapso.

Perfuratriz, perfuratriz, perfuratriz

Uma das contradições mais flagrantes é a aprovação, por parte do Brasil, da exploração de petróleo na foz do rio Amazonas, na chamada margem equatorial brasileira.

Apesar dos apelos globais para a eliminação gradual dos combustíveis fósseis, a gigante estatal Petrobras recebeu autorização ambiental do Ibama , órgão ambiental brasileiro , para perfurar um poço exploratório no Bloco 59, a cerca de 500 km da foz do rio, em uma área que abriga ecossistemas sensíveis, incluindo o Grande Sistema Arrecifal da Amazônia e manguezais. Ambientalistas alertam para os riscos de tal projeto e as trágicas consequências de um derramamento de petróleo.

Como um país pode sediar uma cúpula sobre ação climática enquanto expande a extração de petróleo em uma das regiões mais biodiversas e sensíveis ao clima do mundo?

A contradição é tão flagrante que quase parece deliberada, um lembrete de que a diplomacia climática muitas vezes serve à ilusão de progresso, sinalizando que a cúpula pode estar mais voltada para a promoção da marca do que para uma mudança real.

A batalha pelas terras indígenas

A narrativa climática do Brasil também desmorona quando se trata de direitos indígenas.

O controverso “Marco temporal ”, legislação apoiada pelo lobby do agronegócio (“ruralistas”), afirma que os povos indígenas só podem reivindicar terras que ocupavam fisicamente em 5 de outubro de 1988, data em que a Constituição brasileira entrou em vigor.

Comunidades indígenas inteiras deslocadas antes dessa data perderiam seus direitos aos territórios ancestrais.

Embora o Supremo Tribunal Federal do Brasil tenha derrubado o projeto de lei em 2023, o Congresso logo aprovou a Lei 14.701/2023 para reimpor a lei, uma manobra legislativa enganosa que mina a justiça constitucional.

Para quem vive perto da floresta, a questão é existencial.

Especialistas da ONU alertaram que a lei pode invalidar centenas de demarcações de terras e acelerar o desmatamento. No entanto, na COP30, é provável que delegados indígenas participem de painéis governamentais, e sua presença será usada como prova de inclusão, mesmo enquanto seus direitos territoriais estão sendo corroídos em seus próprios países.

Desregulamentação

Como se isso não bastasse, em julho de 2025, o Congresso brasileiro aprovou a chamada “PL da devastação ”, oficialmente a lei 2159/2021 . Essa legislação afrouxa radicalmente as normas de licenciamento ambiental, permitindo que muitos projetos prossigam com avaliações de impacto mais brandas, contornando a fiscalização e concedendo mais poder aos estados e municípios.

Organizações de direitos humanos alertaram que o projeto de lei coloca as pessoas e o planeta em risco ao enfraquecer as proteções relacionadas às comunidades indígenas e quilombolas.

Embora o presidente Lula tenha vetado ou emendado 63 dos quase 400 artigos do projeto de lei em agosto, observadores alertam que as disposições restantes ainda representam uma séria ameaça. Consciente de que o Congresso poderia derrubar seus vetos, Lula pareceu buscar um delicado equilíbrio, tentando apaziguar tanto a direita quanto a esquerda, mantendo ao mesmo tempo uma aparência de neutralidade.

Organizar uma cúpula climática enquanto o governo aprova esse tipo de lei é declarar guerra à credibilidade. Um país não pode, simultaneamente, presidir a mesa de negociações climáticas e acelerar a desregulamentação que incentiva o desmatamento e o deslocamento de comunidades.

A bioeconomia disfarçada de verde

Outro dos temas de maior orgulho do presidente Lula é a “revolução da bioeconomia” no Brasil. No Fórum Empresarial dos BRICS, ele declarou :

Nossos países podem liderar um novo modelo de desenvolvimento baseado na agricultura sustentável, na indústria verde, em infraestrutura resiliente e na bioeconomia.

Parece visionário, mas por trás dos slogans, persistem as mesmas dinâmicas extrativistas .

As monoculturas em larga escala de soja, cana-de-açúcar, óleo de palma e milho estão se expandindo pela Amazônia, justificadas como culturas para biocombustíveis “renováveis”, “verdes”, “limpas” e “sustentáveis”, o “combustível do futuro”. Projetos como a Amazônia 4.0 prometem inovação sustentável, mas correm o risco de replicar a lógica colonial de extração de recursos sob um disfarce verde.

“A extensão desse conceito à Amazônia acarreta o risco inerente de que a matéria-prima acabe sendo transformada em polpa e vendida para obter lucro”, alerta o pesquisador Ossi Ollinaho, da Universidade de Helsinque.

Entretanto, o especialista em política ambiental, Jorge Rodriguez Morales, observa que:

“Posicionar a bioenergia como uma estratégia climática justificou, na prática, políticas mais amplas de apoio à indústria de biocombustíveis e contribuiu para a deturpação dos princípios verdes da política climática brasileira.”

Deslocamentos

Enquanto isso, outro destaque da COP30 Brasil são os mercados de carbono, a suposta varinha mágica para a ação climática, mas as compensações voluntárias de carbono estão agora sob intenso escrutínio . Uma pesquisa liderada pelo Dr. Thales West, da Universidade Livre de Amsterdã, descobriu que muitos projetos florestais REDD+, antes celebrados como prova de progresso, são construídos sobre “esperança, não prova”, baseando-se em premissas frágeis.

A revista Nature relata que as compensações de carbono muitas vezes “minam a descarbonização, permitindo que empresas e países reivindiquem reduções que não existem”.

No cerne do problema está o cenário base: ameaças exageradas permitem que projetos vendam mais créditos, mesmo para florestas que nunca estiveram em risco. O Dr. West  afirma :

Mesmo com as melhores intenções, se você seguir a ‘receita errada’, provavelmente não obterá o resultado desejado.

Os sistemas de certificação, financiados pelos próprios projetos que auditam, criam conflitos de interesse, enquanto muitos créditos não levam em consideração a perda florestal causada por incêndios, exploração madeireira ou deslocamento de populações.

O projeto Suruí, no Brasil, outrora celebrado como um sucesso de conservação liderado por indígenas, entrou em colapso devido à mineração ilegal e à pressão sobre a terra, demonstrando que mesmo compensações bem planejadas não conseguem ter sucesso em um sistema falho.

Os críticos alertam que as compensações de carbono se tornaram uma forma de greenwashing, permitindo que companhias aéreas, empresas de tecnologia e marcas de luxo continuem poluindo.

O Dr. West adverte :

A menos que haja uma mudança de atitude entre empresas, governos e organizações como a ONU, é provável que o mercado continue priorizando a conveniência em detrimento da integridade.

Integridade, verdade e justiça

A retórica internacional de Lula continua poderosa, seus discursos sobre “salvar a Amazônia” ainda recebem aplausos em Nova York, Londres, Paris e Davos, mas poder sem integridade é apenas ruído.

Na COP30 Brasil, a palavra “justiça” será repetida muitas vezes, mas justiça exige mais do que palavras, exige ação, alinhamento de políticas e princípios.

O Brasil não pode sediar a cúpula mundial do clima enquanto concede licenças para exploração de petróleo na foz do Amazonas, enquanto afrouxa as proteções territoriais dos povos indígenas e enquanto acelera projetos ambientalmente sensíveis sob a égide da “lei da devastação”.

A Amazônia não é apenas uma floresta, é o pulmão de um continente, guardiã de “rios voadores” que trazem chuva e umidade para o Brasil e outras regiões, um escudo contra o caos climático. Destrua-a, e as consequências se espalharão muito além do Brasil, trazendo secas, inundações, instabilidade climática e até mesmo novas pandemias.

A floresta já se manifesta através dos incêndios, da fumaça, do desaparecimento dos rios e das pessoas ameaçadas. O mundo ouve os discursos da COP30, mas a floresta ouve as ações — ela responde ao que os líderes fazem, não ao que prometem.

A Amazônia não tem mais tempo para hipocrisia.

Imagem em destaque via Foreign Policy Centre


Fonte: The Canary

Povos indígenas exigem a proteção das florestas tropicais contra as indústrias extrativistas

mapas de extrativismoComunidades indígenas exigem o reconhecimento de seus direitos territoriais nas florestas tropicais, acesso direto aos recursos e proteção para aqueles que defendem a natureza. Crédito da imagem: Sergio Carranza Basantes/Wikimedia Commons , sob licença Creative Commons CC BY-SA 4.0 Deed.

Por Aleida Rueda para o SciDev 

[CIDADE DO MÉXICO, SciDev.Net ] Grupos indígenas e comunidades locais de diferentes regiões do mundo, incluindo a Mesoamérica e a Amazônia, uniram-se em uma reivindicação global pelo reconhecimento de seus direitos territoriais nas florestas tropicais, acesso direto aos recursos e proteção para aqueles que defendem a preservação da natureza.

O apelo é consequência de um novo relatório elaborado pela Aliança Global das Comunidades Territoriais (GATC) e pela organização Earth Insight, que expõe pela primeira vez, com mapas detalhados, a crise ambiental causada pelo modelo de produção baseado na extração intensiva de recursos naturais.

Os mapas indicam as áreas onde ocorrem atividades de extração de petróleo e gás, bem como mineração, exploração madeireira industrial e agricultura em larga escala nas florestas da Amazônia, da região do Congo, da Indonésia e da Mesoamérica, onde vivem 35 milhões de indígenas.

Um estudo realizado pela Aliança Global de Comunidades Territoriais (GATC) e pela organização Earth Insight produziu mapas detalhados das indústrias extrativas em várias regiões do mundo, incluindo a Mesoamérica e a Amazônia. Crédito da imagem: Earth Insight.

“Pela primeira vez, temos evidências globais e comparáveis ​​que confirmam o que os povos indígenas vêm dizendo há muito tempo”, disse Juan Carlos Jintiach Arcos, secretário executivo da GATC, à SciDev.Net .

“Eles não podem mais dizer que inventamos essas coisas. Os dados mostram claramente as pressões e ameaças que nossos territórios enfrentam”, afirmou ele.

Jintiach Arcos, que faz parte do povo Shuar da Amazônia equatoriana, também afirmou que este relatório demonstra que as ameaças aos territórios indígenas não são incidentes isolados, mas parte de um padrão estrutural que se repete em todas as regiões de floresta tropical do mundo.

Esse padrão é evidente nos mapas do relatório, que constituem “uma ferramenta poderosa, pois são uma forma de tornar visível, de forma clara e urgente, o que normalmente fica oculto em documentos técnicos ou bancos de dados dispersos”, disse Florencia Librizzi, vice-diretora da Earth Insight, ao SciDev.Net .

“Pela primeira vez, temos evidências globais e comparáveis ​​que confirmam o que os povos indígenas vêm dizendo há muito tempo (…) Os dados mostram claramente as pressões e ameaças que nossos territórios enfrentam.”

Juan Carlos Jintiach Arcos, Secretário Executivo do GATC

Na Mesoamérica , por exemplo, o relatório mostra que existem 3,7 milhões de hectares (Mha) de terras de povos indígenas e comunidades locais ameaçadas pela extração de petróleo e gás, enquanto as concessões de mineração ameaçam 18,7 milhões de hectares desse tipo de terra.

A isso se somam outras ameaças, como o tráfico de drogas, o desmatamento, a construção de megaprojetos e a fragilidade da governança em países como México, Honduras e Nicarágua.

Na Amazônia , onde 250 milhões de hectares são terras habitadas por povos indígenas e comunidades locais, 31 milhões de hectares estão ameaçados por petróleo e gás; 9,8 milhões de hectares por mineração; e 2,4 milhões de hectares por exploração madeireira.

As indústrias extrativas estão presentes em todos os países da Amazônia: Brasil, Peru, Bolívia, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa, mas existem diferenças interessantes.

Por exemplo, a indústria petrolífera representa uma ameaça maior na Amazônia do que na Mesoamérica, mas nesta última, a maior parte da exploração ocorre longe da costa ( em alto-mar). Também se observa que países como Suriname e Guiana têm uma concentração maior de concessões madeireiras do que o resto da região.

Após a divulgação do relatório, as pessoas que vivem nas áreas ameaçadas estão exigindo mudanças. A principal reivindicação é a garantia e o reconhecimento dos direitos territoriais indígenas, bem como a asseguração do consentimento livre, prévio e informado  (CLPI) para todos os projetos.

“Muitas vezes, empresas ou governos chegam aos nossos territórios sem compreender os nossos processos internos, sem respeitar as nossas formas de governação e tomada de decisões, ou pior, enganando as nossas comunidades para obter uma assinatura ou autorização. Isso não é consentimento”, afirmou Jintiach Arcos.

O consentimento, esclareceu ele, “não busca abrir as portas para as indústrias extrativas, mas afirmar nossa soberania (…) que somos nós que decidimos o que entra e o que não entra em nossos territórios”.

Outra reivindicação diz respeito ao financiamento direto para as comunidades indígenas. “Não estamos falando apenas do dinheiro chegar às comunidades”, explicou Levi Sucre Romero, diretor-geral da Aliança Mesoamericana dos Povos e das Florestas (AMPB). Especificamente, eles se referem a empresas, governos e organizações multilaterais que modifiquem seus modelos de financiamento, fortaleçam os sistemas de governança que sustentam esses territórios e criem mecanismos diferenciados de monitoramento e avaliação que respondam às realidades de cada território.

Para Ivan Brehaut, diretor de programas da Associação ProPurus, dedicada à proteção das florestas, e que não participou do relatório, o documento oferece um panorama muito claro de onde estão as ameaças, não apenas para as florestas, mas também para os povos indígenas em isolamento e em contato inicial (PIACI).

“Para a maioria das pessoas, a floresta tropical continua sendo um espaço vazio, sem população. Mostrar a sobreposição entre as áreas do PIACI e as iniciativas extrativistas ajuda a perceber o nível de impacto causado pelas indústrias extrativistas na vida das pessoas”, disse ele ao SciDev.Net .

No entanto, acrescentou, não haverá interrupção do extrativismo enquanto a economia mundial depender de combustíveis fósseis e enquanto não for reconhecido que as florestas (e seus habitantes, os povos indígenas) “são mais do que apenas uma mercadoria ”.

Evidências de proteção bem-sucedida

O relatório não apenas destaca as ameaças, mas também propõe soluções. Por exemplo, onde há maior reconhecimento dos direitos territoriais e da governança comunitária, a saúde da natureza é preservada e o desmatamento diminui significativamente.

“Um exemplo é a Reserva da Biosfera Maia na Guatemala, onde a sobreposição com as concessões é muito menor, a ponto de o desmatamento em áreas comunitárias ser mais de sete vezes menor que a média nacional”, disse Librizzi.

Para Olo Villalaz, líder da AMBP, isso tem a ver com a forma como as comunidades entendem o cuidado com as florestas.

“Entendemos que a Mãe Terra é um único lar onde todos vivemos e do qual nossas vidas dependem. Sua proteção se baseia no respeito, na espiritualidade e em decisões tomadas coletivamente, onde cada voz — de mulheres, jovens, idosos e autoridades — tem seu lugar”, disse ela ao SciDev.Net .

Líderes indígenas concordaram que, embora pareça não haver como deter o extrativismo na região, existem sinais de esperança: “Não falamos mais sozinhos. Hoje, o mundo começa a entender que sem os povos indígenas não há futuro possível”, afirmou Jintiach Arcos.

De acordo com Librizzi, há claros sinais de progresso devido à crescente colaboração entre organizações indígenas nas três principais bacias tropicais: a Amazônia, a bacia do Congo e o Sudeste Asiático. “Isso está gerando uma voz coletiva mais forte e coordenada.”

Jintiach concordou: “A esperança reside na força organizada do povo, na nossa capacidade de propor, resistir e construir. Não pedimos para sermos incluídos; exigimos ser aliados em pé de igualdade, porque sem nós, a regeneração é impossível.”


Fonte: SciDev.Net

O que esperar da COP 30?

Indígenas na Área Verde (Green Zone), espaço aberto ao público, da COP30. A programação principal do evento e tomada de decisões ocorre na Blue Zone, área restrita a credenciados. Foto: Bruno Peres/Agência Brasil 

Por Eduardo Sá Barreto*

O que esperar da COP 30, que começou na segunda-feira, 10 de novembro, em Belém do Pará? A resposta curta é: nada.

No entanto, a resposta curta corre o risco de parecer controversa. Em parte, isso talvez se deva ao fato de haver um esforço variado de crítica que, ao mesmo tempo que aponta lacunas e fragilidades evidentes a cada nova edição da Conferência das Partes, não deixa também de supor (nem sempre de maneira velada) que as coisas poderiam ser diferentes. Para quem conserva a expectativa de que eventualmente alguma COP enfim entregará o que não tem sido entregue nem mesmo na forma de promessas, vaticinar a inevitável impotência deste evento certamente parecerá absurdo.

Para que não reste dúvidas, a crítica do óbvio é, em geral, pertinente. Realmente, uma baixa presença de chefes de Estado é sintoma do desprestígio desta edição e mina as pretensões de resultados expressivos, mesmo no campo estritamente performático/diplomático. A participação cada vez maior e mais explícita dos representantes do capital fóssil revela a garantia de sabotagem de qualquer ambição descarbonizante. Também é uma incoerência política insolúvel que o governo brasileiro faça um chamado à ampliação dos esforços ao mesmo tempo que patrocina a abertura de novas frentes de exploração de petróleo. Além disso, as Partes estão distantes do cumprimento de suas próprias promessas. Tudo isso é verdade, mas quem cata pulgas deixa passar os elefantes. E embora essas sejam pulgas grandes e incômodas, vejamos os elefantes.

Tanto o discurso de abertura do Presidente Lula quanto o documento intitulado Chamado de Belém pelo clima mencionam um certo papel inaugural da Cúpula da Terra (ocorrida no Rio de Janeiro, em 1992) nos esforços globais de política climática. O legado da cúpula, afirma-se no documento, teria sido demonstrar a possibilidade de encontrar soluções pela negociação. Claro! Como discordar? Assim, em abstrato, é ponto pacífico. Mas olhemos com um pouco mais de cuidado. Apoiando-se na proposição anterior, segue o documento: “Avançamos, mas não o bastante”. Não há dúvida de que, fora do negacionismo mais aguerrido, esse lamento ressoa no senso comum: avanço insuficiente! Mas avançamos mesmo?

Se quisermos tentar responder generosamente, poderíamos lembrar da expansão de políticas de estímulo aos ganhos de eficiência energética, visando uma contenção no consumo de energia. Poderíamos lembrar da expansão de políticas de estímulo às fontes renováveis, visando uma matriz energética de menor intensidade em emissões. Os dois conjuntos de políticas existiram e foram exitosos, contribuindo para ganhos expressivos tanto de eficiência energética quanto de oferta primária de energia a partir de fontes renováveis. Foram, contudo, vitórias de Pirro, porque o consumo de energia continuou crescendo fortemente, assim como a escala do consumo de combustíveis fósseis. Não avançamos.

Ainda na veia generosa, poderíamos lembrar que nesse período, importantes protocolos e acordos foram redigidos, sendo os de Quioto e Paris os mais emblemáticos e conhecidos. Reduções sustentadas nos níveis globais de emissões de gases de efeito estufa foram recomendadas, projetadas e acordadas. Anualmente, a diplomacia mundial se reúne em algum canto do mundo e as revisa, reafirma e, por vezes, as aumenta. No entanto, quase metade de todo o volume de emissões dos últimos 175 anos aconteceu após 1990!1 As emissões globais de gases de efeito estufa em 2023 foram 44% maiores que as de 1992. Talvez mais impactante que isso, consideradas todas as fontes de emissão antrópicas, o nível de emissões cresceu em quase todos os anos desde então. As exceções foram 2012, com as crises da dívida em várias nações europeias, e 2020, o primeiro ano da pandemia de covid-19.

Em outras palavras, dizer que não avançamos é dizer pouco. Foram poucas promessas diante de tudo que era necessário, e embora muito tenha sido feito, ficou-se bastante aquém do prometido. E o que se fez não foi sequer capaz de interromper nossa caminhada a passos largos na direção errada.

Acelerar a luta contra o aquecimento global, conforme propõe o Chamado de Belém, é obviamente imperativo. Como não poderia deixar de ser, contudo, o chamado (feito no documento e enfatizado pelos discursos de Lula e do presidente da COP30, André Corrêa do Lago) nos convoca a uma forma de luta que, embora proporcione possibilidades de pequenas vitórias aqui e acolá, castra pela raiz qualquer capacidade de intervenção realmente transformadora. Dobra-se a aposta no multilateralismo, palavra simpática, mas que esconde uma diplomacia climática subordinada a interesses econômicos. Dobra-se a aposta na cantilena da transição justa, como se fosse plausível supor que as grandes potências econômicas, políticas e militares do mundo fossem absorver voluntariamente a maior porção dos sacrifícios que seriam exigidos na suposta aceleração da luta. Dobra-se a aposta numa refundação pacífica dos padrões de governança global, em que nações formalmente independentes (inclusive aquelas com privilégios imperialistas) cederiam parte de sua soberania em favor da tal luta.

Em suma, o samba da COP é de uma nota só e não pode ser outro, porque ele representa o limite do que é possível enunciar em voz alta no capitalismo. A gravidade do contexto de colapso climático se impõe e a política da ordem se vê obrigada a mirar o mais alto que a política institucional pode pretender alcançar: a concertação global, a união de esforços em prol de um objetivo comum. O objetivo comum que realmente se impõe, no entanto, é o de mudar o que for possível mudar sem balançar demais os alicerces do sistema.

Não haverá concertação pelo decrescimento (muito menos um que contemple responsabilidades históricas diferenciadas); não haverá concertação pela contenção (muito menos pela aniquilação) do capital fóssil; não haverá concertação pela abertura de fronteiras ou pela relocalização de populações de regiões vulneráveis ou tornadas inabitáveis; não haverá concertação pela desconcentração urbana ou pela desglobalização da produção e do consumo.

Enfim, conforme venho afirmando em outros espaços, à medida que as condições climáticas desmoronam — e, com elas, condições básicas de suporte à vida e à vida em sociedade —, cada vez mais nações, classes, comunidades, organizações, pessoas serão levadas a situações de tudo ou nada. Num mundo em colapso, o que tende a acontecer é a multiplicação dos conflitos; é o aumento da frequência, abrangência e intensidade dos choques, não o apogeu da harmonia de interesses e de uma articulação eficaz, planejada, voluntária e pacífica de esforços.

Nesse quadro, a COP tende a cada vez mais aparecer como aquilo que ela realmente é: um teatro anacrônico. Como um espaço onde impera o cinismo, é verdade. Mas, além disso, como um espaço onde justas, legítimas e sinceras intenções frequentemente vão para morrer.

Disputar os rumos da COP? Não. Os rumos da COP são crônica e estruturalmente indisputáveis para a direção realmente necessária. Abandonar a COP? Não necessariamente. Não deixa de ser possível disputar na COP essas consciências sinceras, porque ali abundam evidências para que elas compreendam na prática que aquilo que almejam se encontra do lado de lá de um processo de ruptura revolucionária com a sociedade atual. O esverdeamento dos radicais é um processo já em curso. É imperioso radicalizar os verdes. Para tomarmos o que precisa ser salvo e para tomarmos o que pode nos salvar.

Notas

  1. IPCC. AR6 synthesis report: climate change 2023. Genebra: IPCC, 2023 ↩︎

***
Eduardo Sá Barreto é professor associado da Faculdade de Economia (UFF) e membro do NIEP-Marx. É autor do capítulo “Terra de ninguém: entre o urgente e o prefigurado”, publicado em Tempo fechado: capitalismo e colapso ecológico (Boitempo, 2025).


Fonte: Blog da Boitempo

A Springer Nature amplia seu portfólio de ferramentas de integridade em pesquisa

Shutterstock.com/Andrii Zastrozhnov

Por Research Information 

A Springer Nature lançou uma nova ferramenta para ser usada em submissões a seus periódicos e livros, com o objetivo de detectar frases não padronizadas em manuscritos submetidos.

A ferramenta funciona detectando frases incomuns, construídas de forma confusa ou excessivamente complexas, como por exemplo, “consciência falsificada” em vez de “inteligência artificial”. Essas frases indicam que os autores utilizaram ferramentas de paráfrase para burlar a detecção de plágio. Caso a ferramenta identifique diversas frases atípicas, o trabalho será retirado.

A ferramenta foi desenvolvida utilizando o catálogo público de frases problemáticas do  Problematic Paper Screener  (PPS), criado por Guillaume Cabanac, Cyril Labbé e Alexander Magazinov, e passou por múltiplas rodadas de testes e validação para fornecer uma avaliação confiável de trabalhos submetidos em diversas disciplinas acadêmicas.  

Tamara Welschot, Chefe de Integridade em Pesquisa e Prevenção da Springer Nature, comentou: “Pesquisas fraudulentas são um desafio que afeta a todos nós na indústria editorial e precisamos trabalhar juntos para combatê-las. O desenvolvimento desta ferramenta foi um projeto de longa duração que envolveu estreita colaboração entre o grupo de integridade em pesquisa e diversas equipes de tecnologia da Springer Nature, com base em importantes trabalhos de investigadores de integridade da comunidade acadêmica.

“Agradecemos a Cabanac, Labbé e Magazinov por seus esforços no desenvolvimento do Problematic Paper Screener e por destacarem artigos com frases confusas para a comunidade editorial em geral. Nossa ferramenta identifica esses artigos problemáticos no momento da submissão, impedindo sua publicação e economizando o valioso tempo de editores e revisores  .”

A ferramenta de detecção de frases não padronizadas é a mais recente adição ao conjunto de soluções de integridade científica da Springer Nature e complementa as ferramentas já existentes: um detector de textos sem sentido,   o Snappshot  (que identifica imagens duplicadas ou manipuladas) e uma  ferramenta de verificação de referências irrelevantes.   Essas ferramentas foram desenvolvidas internamente como parte do compromisso contínuo da Springer Nature em garantir a integridade do trabalho que publica. Esse compromisso inclui investimentos em uma equipe de especialistas em rápido crescimento e no desenvolvimento contínuo de tecnologia.

A Springer Nature também se comprometeu a colaborar com a comunidade editorial em geral, como uma organização contribuinte do STM Integrity Hub , que facilita a troca de conhecimento e dados e desenvolve ferramentas tecnológicas compartilhadas, e para o qual a Springer Nature  doou seu detector de textos sem sentido para uso em todo o setor.


Fonte: Research Information

A COP dos lobbies, o relatório

O observatório De Olho nos Ruralistas e a FASE – Solidariedade e Educação lançam o relatório “A COP dos Lobbies”, ontem, primeiro dia de COP30. O estudo mapeia a influência crescente de grandes corporações brasileiras e de multinacionais nas negociações e nos espaços de deliberação da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), que começa hoje em Belém (PA).

A lista de empresas analisadas inclui as mineradoras Vale e Hydro, o frigorífico MBRF (Marfrig e BRF), a sucroalcooleira Cosan, a gigante do papel e celulose Suzano, a fabricante de agrotóxicos e sementes transgênicas Bayer e os bancos Itaú e BTG Pactual.

Quem desejar baixar o relatório “A COP dos lobbies”, basta clicar [Aqui!]. 

Audiência em praça pública debate avanço descomunal da erosão na Praia do Açu

Audiência em praça pública coloca em debate a erosão que consome a  Praia do Açu

Desde o início de 2014, venho usando espaço para abordar o avanço do processo erosivo que está consumindo a passos acelerados a outrora aprazível Praia do Açu, levando mar adentro dezenas de moradias e arrastando histórias e as casas dos moradores da pacata localidade da Barra do Açu. 

Curiosamente, e em acordo com a memória dos moradores mais antigos da Barra do Açu, um documento produzido por uma empresa do Grupo MMX, a Mineração, Pesquisa e Comércio Ltda   , publicou um relatório atestando que aquela parte da costa era bastante estável e não estaria, por isso, sujeita a processos erosivos como o que se assiste nos dias atuais (ver imagem abaixo).

Uma alma mais ingênua poderia então se perguntar sobre como uma área que era relativamente estável e não candidata a sofrer processos erosivos graves chegou ao estado atual.  Como já registrei neste blog em diversas ocasiões, o início do processo erosivo está diretamente ligado à construção do “molhe” que protege a entrada do Canal de Navegação do Porto do Açu e cuja existência alterou a dinâmica de movimentação de sedimentos naquela área (ver imagem abaixo).

É importante ainda lembrar que  no dia 2 de outubro de 2014 participei de uma audiência pública onde apresentei um relatório técnico onde mediu-se a quantidade de área erodida pelo avanço do mar na Praia do Açu (ver imagem abaixo).

Em que pese a presença de um especialista contratado pelo Porto do Açu que eximia a empresa de responsabilidades pelo processo erosivo ocorrendo na Praia do Açu, o então o Gerente Geral de Sustentabilidade na Prumo Logística S/A, Vicente Habib, garantiu que a empresa iria ser solidária e pariticiparia dos esforços em prol da cessação do processo.

Agora, mais de 11 depois daquela animada audiência, vê-se que o Porto do Açu não só não foi solidário, mas como está ganhando dinheiro com os sedimentos que são dragados e não retornados para a dinâmica costeira, contribuindo diretamente para a aceleração do processo erosivo (ver imagem abaixo).

É a famosa situação de ganha-perde (onde o Porto do Açu e a população perde), o que torna a situação ainda mais esdrúxula, demandando medidas urgentes para mitigar (a palavra sempre presente nos Estudos de Impactos Ambientais) os efeitos da alteração de dinâmica de sedimentos na Praia do Açu.

Assim, vejo como positiva a reunião pública que ocorreu ontem na Praça da Barra do Açu (a qual já dá sinais que não durar muito se nada for feito) e que reuniu moradores da Barra do Açu e um grupo composto por 4 vereadores sanjoanenses (Analiel, Junior Monteiro, Julinho Peixoto e Elísio Motos). Como fui informado que em São João da Barra não existe oposição à prefeita na Cãmara de Vereadores, é bom saber que 4 vereadores governistas foram até a Barra do Açu e se reuniram com a população aflita por respostas (ver vídeo abaixo).

O único problema é que as soluções urgentes não podem esperar muito mais tempo, já que as imagens mostram que a erosão está avançando de forma avassaladora e não há como esperar pela contratação de uma empresa que faça um projeto de engenharia para salvar a Barra do Açu. A ação teria que ser agora e precisaria envolver os responsáveis pela erosão, qual seja, o Porto do Açu.  Capacidade técnica e equipamentos o Porto do Açu tem. e basta querer usar que os efeitos serão imediatos. Resta saber quem vai apresentar essa fatura aos gestores do Porto do Açu.

Uma boa data para essa entrega será durante a audiência pública do hub ferro metálico que ocorrerá na próxima 4a. feira no Grussai Praia Clube.

Pesquisadores encontram elevada concentração de metais em alimentos cultivados no estuário do Rio Doce

Foto aérea da foz do Rio Doce

Sueli de Freitas   Edição: Thereza Marinho 

O estudo Dos rejeitos às mesas: avaliação de risco de elementos potencialmente tóxicos em culturas comestíveis cultivadas em solos impactados por rejeitos de mineração mostra a concentração elevada de elementos potencialmente tóxicos (PTEs) em solos agrícolas do estuário do Rio Doce, incluindo cádmio, cromo, cobre, níquel e chumbo. Esses PTEs foram encontrados em partes comestíveis de culturas locais como cacau, mandioca e banana. 

A pesquisa, publicada em outubro na revista Environmental Geochemistry and Health (Geoquímica Ambiental e Saúde), foi realizada no ano de 2021 por um grupo interdisciplinar composto por pesquisadores da Ufes, da Escola Superior de Agricultura da Universidade de São Paulo (Esalq/USP) e da Universidade de Santiago de Compostela (Espanha), e recebeu financiamento das fundações de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e do Espírito Santo (Fapes) por meio do projeto Rede Solos e Bentos Rio Doce.

O grupo investigou os efeitos da crônica contaminação por rejeitos de mineração ricos em ferro no estuário – zona de transição entre o rio e o mar. Desde 2015, o Rio Doce sofre os impactos do rompimento da barragem de Fundão no município de Mariana (MG). O rompimento da barragem, sob a gestão da Samarco Mineração S/A, ocorreu em 5 de novembro daquele ano, ou seja, há exatos dez anos.

Segundo os pesquisadores, a quantidade de cádmio, cromo, cobre, níquel e chumbo encontrados em solos agrícolas do estuário do Rio Doce excede os valores de referência adotados pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). “Isso levanta a preocupação quanto à segurança alimentar a partir do consumo de produtos cultivados na região mais próxima à foz do Rio Doce”, afirma o professor Angelo Bernardino, do Departamento de Oceanografia e do Programa de Pós-Graduação em Oceanografia Ambiental da Ufes, que participou da pesquisa. 

Avaliações de risco

O estudo utilizou avaliações que sugerem um possível risco não cancerígeno para crianças ao consumirem bananas. Para adultos, os índices calculados permaneceram abaixo de limiares de risco. O chumbo foi o principal responsável pelo risco alto observado para crianças.

Segundo a pesquisadora da USP Tamires Patrícia de Souza, doutora e enfermeira coautora do estudo, os resultados são um alerta claro para a necessidade de proteção à exposição infantil a esses elementos: “A exposição crônica ao chumbo está associada a danos ao desenvolvimento neurológico irreversíveis, como redução de QI (coeficiente de inteligência), déficits de atenção e alterações comportamentais. Crianças de zero a 6 anos de idade absorvem e retêm mais chumbo que adultos, tornando-as especialmente vulneráveis mesmo a baixas concentrações. Por isso, o estudo aponta a necessidade de medidas urgentes de monitoramento, estudos de bioacessibilidade e intervenções de saúde pública para reduzir a exposição contínua e proteger as populações mais sensíveis”.

O estudo também reconhece que seria necessário ampliar a amostragem de áreas ao longo do Rio Doce para melhor compreender o potencial risco para a população atingida pelo desastre. Porém, os resultados oferecem um sinal de alerta, pois dependendo da quantidade de alimentos ricos em metais consumidos, assim como de fontes adicionais de contaminação (solo, ar e água), existe a possibilidade de risco para crianças. “Esse estudo reforça dados anteriores publicados que sugerem a biodisponibilidade de muitos elementos potencialmente tóxicos na região estuarina e a natureza crônica dos impactos do desastre de Mariana sobre as comunidades afetadas”, afirma a pesquisadora Amanda Ferreira, da Esalq/USP, que liderou o estudo.

Ferreira ganhou o Prêmio USP de Tese 2025 na área de sustentabilidade ambiental e o Prêmio Capes de Tese 2025 na área de Ciências Agrárias com a pesquisa intitulada Iron biochemistry in mine tailing impacted soils: from risk assessment to enhanced bioremediation strategies (Bioquímica do ferro em solos impactados por rejeitos de mineração: da avaliação de riscos a estratégias aprimoradas de biorremediação), desenvolvida na Esalq/USP, sob orientação do professor Tiago Ferreira, em parceria com o professor Bernardino.

Foto: Angelo Bernardino/Ufes


Fonte: UFES

Professores paralisados para exigir o novo PCV da Uenf

Nesta segunda-feira (10/11) ocorre mais uma paralisação das atividades dos professores da Universidade Estadual do Norte Fluminense. A mobilização de hoje é mais um passo no processo de luta contra o descaso do governo de Cláudio Castro que há mais de quatro anos se nega a enviar o novo Plano de Cargos e Vencimentos da Uenf para ser analisado pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).

Esse claro descaso do governo Castro compromete não apenas a vida dos servidores que levam o projeto criado por Darcy Ribeiro adiante, beneficiando milhares de famílias que enviam seus filhos para Uenf para serem preparados para alçar voos profissionais.  O descaso de Cláudio Castro repercute na capacidade de ampliação das atividades da Uenf, criando dificuldades para que mais estudantes possam seguir a trilha exitosa que tantos outros já adentraram.

O fato é que a Uenf hoje paga salários corroídos em mais de 50% pela inflação, e seus novos servidores não possuem mais benefícios como o dos triênios e da licença especial. Com isso não se tornou apenas difícil manter um quadro mais jovem de servidores, mas de atrair profissionais qualificados por meio de concursos públicos.  Há que se lembrar que em sua implantação a Uenf pagava um adicional de interiorização e salários muito vantajosos com o intuito de contratar os melhores profissionais disponíveis no mercado. Foi essa política salarial que possibilitou que a Uenf se tornasse rapidamente uma referência nacional.

Para marcar essa paralisação, uma delegação de professores está se dirigindo ao Rio de Janeiro para participar de uma audiência pública promovida pela Alerj sobre a reforma administrativa que ameaça dar um golpe duríssimo nas condições de trabalhadores em todas as esferas de governo. Se consumada, a reforma administrativa será uma verdadeira pá de cal na Uenf.  Mas os professores também estarão na Alerj para dialogar com os deputados que estão apoiando a luta em prol do novo PCV.  É que, objetivamente, a luta contra a reforma administrativa e a aprovação do PCV são duas faces da mesma moeda. 

E nunca é demais lembrar que sem organização e mobilização, nenhum governo se sente obrigado a conceder direitos a seus servidores. E no caso do governo Castro isso é particularmente verdadeiro.

Em pleno colapso climático: Brasil, Argentina e México estão expandindo suas reservas de petróleo e gás

Em preparação para a COP30, a Urgewald apresenta novos dados sobre seus projetos. 41% do financiamento planejado para o mundo todo está destinado à América Latina

Protesto contra leilão de petróleo em frente a uma plataforma petrolífera no Rio de Janeiro
Por Nina Glatzer para “Amerika21”

Berlim/Belém. Pouco antes da COP30, a Conferência Mundial do Clima, a organização ambiental alemã Urgewald apresentou, na semana passada, suas bases de dados globais atualizadas sobre a indústria de combustíveis fósseis. Trata-se da Lista Global de Desativação do Carvão (GCEL 2025) e da Lista Global de Desativação do Petróleo e Gás (GOGEL 2025). A COP30 começa hoje em Belém, Brasil.

Embora a China, a Índia e os EUA liderem a expansão global dos combustíveis fósseis, os bancos de dados mostram que a América Latina também desempenha um papel central na expansão da produção de carvão, petróleo e gás – desde o gás de xisto na Argentina até a perfuração em alto-mar na costa brasileira.

Segundo o relatório GOGEL 2025, 30 empresas de energia estão a desenvolver projetos de expansão da produção a curto prazo na América Latina, cuja concretização é previsível, uma vez que já foram aprovados ou estão em construção. Em conjunto, estes projetos têm um volume de produção planeado de aproximadamente 30 554.8 milhões de barris de óleo equivalente (mmboe)*. Isto significa que quase 11.3 % da produção mundial total planeada de petróleo e gás, estimada em 270 708.8 mmboe, é atribuível à América Latina. A região não só está, portanto, envolvida, como é um dos principais polos de expansão global dos combustíveis fósseis.”

Os maiores volumes adicionais de produção provêm do Brasil, Argentina e México, seguidos pela Venezuela e Colômbia. No Brasil, diversos novos projetos em águas profundas estão atualmente em desenvolvimento na chamada região do pré-sal, incluindo campos como Búzios e Mero, operados pela Petrobras. Na Argentina, a expansão concentra-se na produção de gás de xisto em Vaca Muerta, um dos maiores depósitos de fraturamento hidráulico do mundo. O México contribui tanto com projetos offshore no Golfo do México quanto com perfuração em terra.

A expansão da produção de combustíveis fósseis é frequentemente acompanhada por novos oleodutos, terminais de GNL e usinas termelétricas a gás. De acordo com o relatório “The Money Trail: Behind Fossil Fuel Expansion in Latin America and the Caribbean” (O Rastro do Dinheiro: Por Trás da Expansão dos Combustíveis Fósseis na América Latina e no Caribe), da Urgewald e organizações parceiras como FARN, Arayara e Amazon Watch, uma onda de novas infraestruturas de petróleo e gás está sendo construída na região, abrangendo mais de 8.800 quilômetros de novos oleodutos e gasodutos, 19 terminais de exportação de GNL planejados e mais de 54.000 megawatts de capacidade adicional de usinas termelétricas a gás. Esses projetos são concebidos para uma vida útil de 30 a 50 anos e criam efeitos de dependência de combustíveis fósseis a longo prazo.

O banco de dados de carvão da Urgewald, GCEL 2025, também aponta para a continuidade da atividade de combustíveis fósseis na região. O banco de dados lista 27 empresas com sede na América Latina. Destas, 20 são empresas matrizes independentes e sete são subsidiárias de corporações internacionais. Juntas, elas operam aproximadamente 12,5 gigawatts de usinas termelétricas a carvão e extraem cerca de 87 milhões de toneladas de carvão anualmente, principalmente da Colômbia e do Brasil. Isso representa apenas 1% da produção global. Mesmo assim, a região tem uma importância acima da média nas exportações. A Colômbia, em particular, está entre os cinco maiores exportadores de carvão do mundo, exportando mais de 90% de sua produção. Isso significa que a Colômbia fornece 5,4% do volume de carvão comercializado globalmente. Embora o uso de carvão esteja estagnado em muitos países, a Colômbia permanece uma exceção como nação exportadora – novas áreas de mineração continuam sendo desenvolvidas no país, às vezes com investimento estrangeiro, como o Grupo Yildirim da Turquia ou a Ronin Resources da Austrália.

Com esses novos bancos de dados, as organizações ambientais pretendem deixar claro: a América Latina não é uma região periférica da indústria de combustíveis fósseis, mas sim uma área central de sua expansão global. Em vez de se afastar dos combustíveis fósseis, a região está passando por um processo de “diversificação fóssil”.

* Nota metodológica: O cálculo do volume de produção planejado baseia-se em uma estimativa: como as empresas individuais no banco de dados GOGEL gerenciam projetos em vários países, o volume relatado foi distribuído uniformemente entre todos os países listados na coluna “Países de expansão”. 


Fonte: Amerika21