Repasses do Programa Nacional de Alimentação Escolar caíram nos últimos anos na maioria dos estados

Escola Municipal

Alunos do ensino fundamental da escola Municipal Jardim da Conquista do bairro de Perus, São Paulo/SP

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Pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC) constataram que os repasses financeiros do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) diminuíram nos últimos seis anos na maioria dos estados brasileiros. A análise dos dados de 2014 a 2020 está descrita em artigo publicado na sexta (20) na revista científica Ensaio: Avaliação e Políticas Públicas em Educação.

Apenas o Amapá e o Distrito Federal receberam maiores repasses financeiros do programa em 2020 quando comparados a 2014. A queda atinge até mesmo o estado de São Paulo, que foi um dos estados que mais recebeu recursos do Pnae ao longo dos anos, junto com Bahia e Minas Gerais. De 2014 a 2020, o estado teve uma redução de 15% de repasses, recebendo aproximadamente 870 milhões de reais do programa no ano da pandemia.

Os pesquisadores analisaram dados de repasses financeiros do Pnae de 2014 a 2020, fornecidos pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento para a Educação (FNDE). Eles identificaram as oscilações durante o período do programa por município e modalidade de ensino. Uma correção monetária foi aplicada, de acordo com a inflação, para que os dados pudessem estar o mais próximo possível da realidade, visto que os preços dos alimentos apresentam variação durante o ano.

De acordo com o trabalho, a redução de repasses do Pnae pode estar relacionada à evasão escolar de estudantes. O valor a ser repassado pelo governo federal para as secretarias estaduais de educação e prefeituras municipais em dez parcelas anuais é calculado de acordo com o número de alunos matriculados nas escolas federais, estaduais, municipais e distritais registradas no Censo Escolar e a quantidade de dias letivos.

“A decisão de delimitar a análise entre 2014 e 2020 foi estratégica para capturar os impactos reais de duas ações importantes para o quadro alimentar dos estudantes brasileiros: a saída do Brasil do mapa da fome estabelecido pelas Organizações das Nações Unidas (ONU), em 2014, e o impacto da extinção do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), em 2019”, explica Nataniele dos Santos Alencar, co-autora do estudo e pesquisadora da UFC.

O trabalho mostra, também, o impacto da pandemia na educação: 2020 é o ano com menor número de municípios atendidos pelo Pnae, por causa do fechamento das escolas. Foram 3.611 municípios a menos do que em 2014, que contabilizou 29.370 municípios, maior quantidade do período. O número de secretarias estaduais de educação atendidas pelo programa teve uma redução de 18% em relação a 2016, ano com maior número de secretarias.

“Ao identificar dados discrepantes e cenários tão heterogêneos, o estudo disponibiliza ferramentas para a intervenção política”, avalia o pesquisador Jair Araújo, coautor do estudo. Os autores Nataniele Alencar, Filipe Lima e Jair Araújo reforçam a importância de investimentos no Pnae para garantir uma alimentação de qualidade para as escolas brasileiras, o que pode influenciar no desempenho acadêmico dos estudantes.

Cultura Kayapó chega ao Mac Niterói em forma de exposição no dia 28 de outubro

Mostra ‘Mekukradjá Obikàrà: com os pés em dois mundos’ vai contar a ‘cultura da mistura’ na perspectiva dos jovens Kayapó

Metoro (festa) das mulheres na aldeia Mydjam_Tomoti Kayapo

A constante transformação da cultura do povo Mebêngôkre-Kayapó – habitante de seis terras indígenas no sul do Pará e no norte do Mato Grosso – é tema da exposição Mekukradjá Obikàrà: com os pés em dois mundos, que ocupa o mezanino do Museu de Arte Contemporânea – MAC Niterói em outubro e novembro. Com experiências imersivas, depoimentos inéditos e um acervo composto por obras produzidas pela nova geração do povo Mebêngôkre-Kayapó, a mostra abre dia 28 de outubro e segue até 26 de novembro.

“Mekukradjá Obikàrà”, o conceito que inspirou e nomeia a mostra, pode ser traduzido para o português como “cultura impura”, resultado da mistura entre a modernidade e tradições Kayapó. Para retratar essa história, membros do Coletivo Audiovisual Beture, responsável pela curadoria da exposição, percorreram aldeias Kayapó para produzir materiais que desconstroem estereótipos sobre a população indígena e fortalecem a cultura da comunidade através de um olhar voltado para o futuro mas que respeite e honre o passado.

Um grupo de cineastas Kayapó viajou por algumas aldeias para produzir materiais que vão se unir com retratos e vídeos do acervo do Coletivo. Eles se juntam com uma grande tela pintada por 15 mulheres Kayapó durante o Acampamento Terra Livre (ATL) de 2023, fotografias e arquivos históricos.

A arquitetura circular do MAC de Niterói remete às aldeias Kayapó construídas em círculo com a ngá (casa dos homens) no centro e permitirá que o público se transporte ao local de origem dos indígenas e se sinta parte da comunidade. Os espaços contendo fotos, vídeos, obras de artesanato e peças históricas representam diferentes aspectos da cultura e das tradições Kayapó. Por meio das instalações, os visitantes poderão conhecer lideranças Kayapó, adornos usados nas festas e rituais até chegarem ao último espaço, dedicado à modernização das tradições.

Uma programação especial com a presença do cacique Raoni, liderança Kayapó mundialmente reconhecida, está prevista para o dia de abertura. Danças e cantos tradicionais serão apresentados por indígenas Kayapó que viajarão para acompanhar esse momento. Além disso, haverá feira de artesanato, oficina de pintura corporal, mostra de filmes do Coletivo Beture e roda de conversa com Alberto Guarani também estão na agenda do dia (programação completa abaixo).

A Exposição Mekukradjá Obikàrà: com os pés em dois mundos é realizada pelo Tradição e Futuro na Amazônia (TFA), projeto patrocinado pelo Programa Petrobras Socioambiental e gerido pelo Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO). A Conservação Internacional Brasil e as organizações representativas parceiras do projeto, os institutos Kabu e Raoni e a Associação Floresta Protegida apoiam a iniciativa.

O Coletivo Beture

O Coletivo Beture é um movimento dos Mekarõ opodjwyj – cineastas e comunicadores indígenas Mẽbêngôkre-Kayapó. A denominação vem de uma formiga, encontrada no território Kayapó, que tem como característica uma mordida bastante potente, a cabeça vermelha e a bunda preta, mesmas cores usadas pelos indígenas desta etnia quando se pintam para a guerra.

Surgido em 2015, o Beture tem contribuído para organizar e estruturar um movimento da juventude que vem surgindo em muitas comunidades. A juventude Mẽbêngôkre-Kayapó deseja registrar a vida e a cultura de seu povo por meio de tecnologias audiovisuais e diversas mídias. Hoje o coletivo desempenha um papel fundamental na conquista de reconhecimento cultural assim como na visibilidade das estruturas políticas. Desde então, formações audiovisuais têm sido realizadas com o objetivo de potencializar as produções do coletivo e ofertar aos cineastas mais conhecimento sobre as técnicas de captação de imagens, de roteirização e edição.

O trabalho dos Mekarõ opodjwyj também tem o objetivo duplo de construir um caminho profissionalizante para garantir uma fonte alternativa de renda para o povo Mẽbêngôkre-Kayapó, assim como gerar a possibilidade de jovens lideranças de participar em mobilizações políticas e trocas de conhecimento com outros povos. O audiovisual passou então a ser um instrumento dos mais potentes para o fortalecimento cultural: os Mẽbêngôkre-Kayapó deixam de ser apenas objeto de estudo para fazer seus próprios

registros sobre a vida, atividades cerimoniais e cotidianas.

O Beture tem uma produção de cerca de 30 filmes por ano, que geralmente tratam sobre: metoro – festas de nominação, eventos políticos, e alguns filmes de ficção que representam narrativas oriundas da mitologia Mẽbêngôkre-Kayapó, geralmente transmitida oralmente pelos velhos. Os filmes circulam bastante nas comunidades e são muito bem recebidos nas aldeias Mẽbêngôkre-Kayapó. Esses filmes também circulam amplamente atingindo outros públicos a nível regional, nacional e internacional.

Programação completa do evento de abertura – ENTRADA FRANCA

10h – Abertura do Museu e entrada simbólica dos indígenas na exposição

10h30 – Início da feira de artesanato (haverá pintura corporal na parte da manhã – serviço pago)

10H30 – Plenária dos povos tradicionais em defesa de seus territórios e maretórios com representantes dos povos indígenas, quilombolas e caiçaras do Pará, Mato Grosso e Rio de Janeiro

17h – Apresentação de canto e dança – Metoro (festa)

17h30 – Apresentação Cacique Raoni e lideranças Kayapó sobre a história do povo

18h a 20h – Mapping (projeção) da arte Kayapó na fachada do prédio

19h – Apresentação musical – Rapper Matsi

Em tempos de Greenwashing: títulos ‘verdes’ do UBS e do Santander são ligados a fazendeiros acusados ​​de trabalho escravo no Brasil

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 O Santander cocoordenou um CRA “verde” de £76 milhões para a SLC Agrícola em dezembro de 2020. Acima, 5.200 ha desmatados na Fazenda Parceiro da SLC de 2019-2020. Imagem: AidEnvironment, com imagens do Planet Satellite © 2020 Planet Labs PBC 

Por Fernanda Wenzel e Olivier Christe para a Unearthed

Os bancos europeus UBS e Santander levantaram centenas de milhões de libras em títulos “verdes” que se destinavam em parte a agricultores e pecuaristas acusados ​​de abusos ambientais e de direitos humanos no Brasil, concluiu uma investigação do Unearthed e O Joio e O Trigo .

Entre os vinculados aos títulos estão um agricultor que supostamente mantinha cinco trabalhadores em condições “semelhantes à escravidão”, uma empresa de soja identificada como a maior desmatadora do cerrado brasileiro, um pecuarista multado por impedir a regeneração de 17 quilômetros quadrados de floresta amazônica e um produtor de etanol que envenenou um rio de que dependia uma comunidade indígena.

Esse fluxo de caixa foi possível graças a ferramentas financeiras chamadas CRAs. Sendo títulos especificamente ligados ao agronegócio brasileiro, os CRAs são pouco conhecidos fora do país – nem a Bloomberg nem a Refinitiv, a plataforma de dados financeiros da Bolsa de Valores de Londres, os acompanham detalhadamente. As CRAs representam uma proporção relativamente pequena do financiamento total do agronegócio do Brasil, mas estão crescendo rapidamente: a quantidade de capital que levantaram aumentou mais de 500% nos últimos cinco anos, de R$ 7 bilhões (£ 1,15 bilhões) em 2018 para quase R$ 43 bilhões (£ 7,1 bilhões) em 2022, de acordo com a Uqbar , uma empresa brasileira de inteligência de mercado. 

Um CRA é um tipo especial de título lastreado em ativos que pode ser emitido por uma empresa ou indivíduo que se compromete a investir o dinheiro no agronegócio. O papel dos bancos coordenadores é definir o preço dos títulos e vendê-los aos investidores. Para isso, os bancos coordenadores recebem uma taxa, geralmente de 3% a 5% do total da oferta, que dividem entre si. 

“O CRA está ganhando força e se tornando um importante instrumento [de financiamento do agronegócio]”, disse Juliano Assunção, diretor executivo da Climate Policy Initiative , um think tank de políticas públicas.

As reformas legais que permitiram a proliferação das CRAs foram inicialmente elogiadas como apoiando agricultores sustentáveis ​​de pequena escala, e foram bem recebidas por grupos como a WWF e a Climate Bonds Initiative . Na prática, porém, este mercado tem sido liderado pelos gigantes da indústria pecuária brasileira JBS, Marfrig e Minerva, que têm sido repetidamente associados ao desmatamento da Amazônia . Mais recentemente, em agosto, o Santander ajudou a coordenar um dos maiores CRAs do ano, um título de R$ 1,5 bilhão (240 milhões de libras) para a JBS 

Como uma investigação desenterrada pode revelar pela primeira vez, mesmo CRAs distribuídos a investidores pelo UBS e Santander e comercializados como “verdes” foram destinados a agricultores e empresas que estão sendo investigados por seu papel em desastres socioambientais, desmatamento em grande escala , apropriação de terras e trabalho escravo. 

“Acho que o termo lavagem verde é muito fraco… Estas são alegadas violações dos direitos humanos”, disse Alex Wijeratna, diretor sênior da Mighty Earth , ao Unearthed .

Trabalhadores limpam o prédio do Supremo Tribunal Federal em janeiro, após um ataque de milhares de apoiadores de Bolsonaro. Antônio Galvan, listado pela Caramuru como fornecedor, é investigado por suposta participação no planejamento do levante. Foto: DOUGLAS MAGNO/AFP via Getty Images

Um destinatário pretendido do dinheiro verde do CRA era Antônio Galvan, um grande agricultor e presidente do grupo comercial de produtores de soja do Brasil (Aprosoja). Em agosto de 2021, dois meses antes da emissão da CRA, Galvan seria investigado por suposta conspiração contra instituições brasileiras e por incentivar a população a praticar atos criminosos e violentos. O Supremo Tribunal Federal do Brasil também está investigando Galvan por planejar o ataque ao Congresso, ao Supremo Tribunal e ao Palácio Presidencial do Brasil em 8 de janeiro por partidários de Bolsonaro, amplamente interpretado pelos serviços de segurança como uma tentativa de derrubar a eleição do presidente Lula.

Embora essas investigações ainda não tenham sido concluídas, e Galvan tenha dito ao Unearthed que as alegações “não têm uma única prova”, ele também foi multado por 5 km2 de desmatamento ilegal e por venda ilegal de soja. Galvan também foi acusado de roubar 76 ha – mais de 100 campos de futebol – das terras do seu vizinho, deslocando marcos de fronteira e registando as terras como suas. Galvan acrescentou que as questões legais sobre as fronteiras de propriedade são normais.

Galvan foi listado como destinatário pretendido do dinheiro arrecadado de um CRA verde de R$ 354 milhões (£ 56,4 milhões) vendido pelo UBS ao banco brasileiro BTG Pactual em outubro de 2021 para Caramuru , um grande comerciante brasileiro de grãos. 

O mercado de CRA é actualmente dominado por bancos brasileiros, mas dois bancos europeus estão a ganhar força discretamente. O Santander da Espanha tem sido coordenador ou coordenador principal em CRAs totalizando pelo menos R$ 23,4 bilhões (£ 3,7 bilhões) por meio de CRAs para o agronegócio brasileiro desde 2018, dos quais R$ 8,6 bilhões (£ 1,3 bilhões) foram apenas em 2022. 

Em 2020, o UBS da Suíça fez parceria com o Banco do Brasil , maior financiador do agronegócio do mundo , para criar a joint venture UBS BB Investment Bank . Desde então, tem sido coordenador ou coordenador principal de CRAs, totalizando R$ 12 bilhões (£ 1,9 bilhões), dos quais mais da metade foi arrecadado em 2022. 

O UBS-BB recebeu honorários estimados em cerca de R$ 5 milhões (£ 800.000) pela coordenação do CRA 2021 da Caramuru. Em 2022, coordenou um segundo CRA verde maior para Caramuru , elevando seus honorários totais para cerca de R$ 13 milhões (£ 2,1 milhões). 

A primeira emissão da Caramuru levantou dinheiro para comprar soja de 310 fornecedores, listados nos documentos do CRA – entre eles Galvan e seu filho, Albino Galvan Neto. O escritório de finanças sustentáveis ​​Resultante aprovou o CRA 2021 da Caramuru como “verde”, baseado na produção de biodiesel e no compromisso da Caramuru com a “produção agrícola sustentável”. 

A Galvan está longe de ser o único fornecedor potencial controverso na lista da Caramuru. Também inclui Werno Elger, produtor de soja processado por supostamente manter cinco homens em condições análogas à escravidão no município de Aporé, no estado de Goiás. Os trabalhadores foram resgatados em abril de 2021, cinco meses antes da emissão do CRA da Caramuru, por uma força-tarefa do governo federal. A investigação está em andamento.

Werno Elger, um produtor de soja processado por supostamente manter trabalhadores em condições análogas à escravidão, foi listado pela Caramuru como destinatário pretendido do dinheiro verde do CRA. Acima, alojamento dos trabalhadores. Foto: Ministério do Trabalho e Emprego do Brasil

Entre os trabalhadores estavam meninos de 14 e 17 anos que, segundo os inspetores, passavam os dias arrancando raízes e pedras do solo e pesando sacos de 30 kg. Viviam no local, em alojamento descrito pelos fiscais como “um barraco antigo, anteriormente utilizado como armazém de selaria, totalmente vazio e em péssimo estado de conservação e higiene […] em completo desrespeito às regras de segurança, saúde e higiene na zona rural”. trabalhar.” 

O advogado de Elger rejeitou veementemente as acusações, dizendo por e-mail que “o processo ainda está sendo investigado, não sendo possível falar em condenação ou responsabilidade do Sr. Werno Elger”. 

Também está na lista de fornecedores pretendidos da Caramuru Ana Cláudia Borges de Almeida Coelho, dona das empresas do agronegócio mato-grossenses Uberê Agropecuária e Agropecuária Atlas. Em 2021, a Secretaria do Meio Ambiente de Mato Grosso (Sema) multou Coelho em R$ 11,2 milhões (£ 1,7 milhões) por, entre outras coisas, cultivar grãos e criar milhares de gado em 17 quilômetros quadrados de floresta amazônica que foram desmatados ilegalmente por seu proprietário anterior. Marcelo Vercesi Coelho, marido e sócio de Ana Cláudia, disse ao Unearthed Sema que o autorizou a usar a área para agricultura. 

Karine Becker Wessner, outra agricultora mato-grossense listada pela Caramuru, também foi processada por cultivar soja em área desmatada ilegalmente . Wessner resolveu o caso assinando acordo com o Ministério Público Federal. 

Outro destinatário pretendido do dinheiro “verde” da Caramuru é acusado de grilagem de terras e intimidação de pequenos agricultores na Amazônia. A Polícia Federal apontou José Romanzzini como um dos líderes de um programa sistemático de “apropriação indébita de terras públicas, violência contra assentados, ameaças, expulsão e reconcentração de lotes” no assentamento Itanhangá/Tapurah, no Mato Grosso. Itanhangá/Tapurah é um dos maiores assentamentos de reforma agrária do Brasil, que visa aliviar a pobreza rural e, ao mesmo tempo, ajudar a proteger a Amazônia do avanço do agronegócio, concedendo lotes a pequenos agricultores e pessoas que vivem da coleta de frutas e nozes da floresta .

Relatórios policiais alegam que Romanzzini e outros tentaram expulsar as famílias assentadas, destruindo as suas colheitas e ameaçando-as com violência e até morte. Os relatórios acrescentam que depois que Romanzzini e seus comparsas tomaram as terras, eles desmataram pelo menos 80% da floresta. Uma decisão liminar em uma ação judicial decorrente das reportagens proibiu Romanzzini de entrar na área do assentamento, mas ainda aguarda decisão final.

Nem Romanzzini nem Wessner responderam a um pedido de comentário.

Em seu Relatório de Sustentabilidade 2022 , a Caramuru afirma que monitora a conformidade ambiental de todos os seus fornecedores e não negocia com pessoas da “lista suja” do trabalho escravo do Ministério do Trabalho do Brasil. Werno Elger não está na lista, mas seu filho e sócio, Vanderlei Elger, está 

Alojamento dos trabalhadores na fazenda de Elger. O advogado de Elger disse ao Unearthed que eles rejeitaram quaisquer alegações de irregularidades. Foto: Ministério do Trabalho e Emprego do Brasil

Em comunicado enviado por e-mail, a Caramuru disse que, em última análise, não comprou soja de todos os fornecedores listados com o dinheiro do CRA e que seus procedimentos internos de due diligence teriam impedido o comércio com produtores com quaisquer violações socioambientais. Contudo, não negou ter comprado soja dos fornecedores listados acima.

“Embora o prospecto inclua uma extensa lista de fornecedores, não é fato que a Caramuru tenha comprado soja de todos eles. A cada compra, a Caramuru verifica a procedência dos locais de origem. Portanto, é possível afirmar que a soja não foi adquirida em locais com problemas de desmatamento ilegal ou grilagem de terras, nem em fazendas com trabalho análogo ao escravo.” A resposta completa de Caramuru pode ser vista aqui 

Incêndios na Amazônia, tragédia indígena por trás dos títulos verdes

Em maio, a Uisa, um dos maiores produtores de etanol e açúcar do mundo, emitiu um CRA verde de R$ 150 milhões (£ 24 milhões) coordenado pelo Santander . A empresa – que mudou seu nome de Usina Itamarati em 2019 após ser comprada por um fundo de private equity  supostamente fornece açúcar à Coca Cola. 

O Santander recebeu cerca de R$ 3,8 milhões (£ 604.000) em taxas pela venda de títulos CRA da Uisa a investidores. 

Segundo os documentos do CRA, o dinheiro será utilizado na compra de cana-de-açúcar a cinco agricultores, para produção de energia e biocombustível. Isso foi suficiente para que o título ganhasse um rótulo verde – apesar das dezenas de multas ambientais impostas à Uisa ou à Usina Itamarati, mais recentemente por atearem fogo a 17 quilômetros quadrados de floresta amazônica no ano passado. 

Um fornecedor da Uisa é Altair Nodari, produtor processado pelo Ministério Público de Mato Grosso por desmatar nove quilômetros quadrados em Porto Estrela, Mato Grosso, de 2018 a 2020. Por e-mail, o advogado de Nodari disse que contestava as acusações e que a liberação estava em andamento. atendimento ao Código Florestal Brasileiro. Ela acrescentou que a investigação estava em andamento.

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A Uisa – ou Usina Itamarati, como era chamada na época – também foi responsável pelo vazamento de vinhaça, subproduto tóxico da produção de etanol, em um rio que margeia a Terra Indígena Umatina, no Mato Grosso 

O líder indígena Cacildo Amajunepa disse ao Unearthed que seu povo sempre viveu do rio Bugres, mas em julho de 2007 o rio escureceu e começou a cheirar mal. Milhares de peixes mortos flutuaram para a superfície.

“Nunca pensamos que experimentaríamos algo assim”, disse Amajunepa. “Você ganha a vida lá e de repente não tem mais nada.”

Segundo o Ministério Público de Mato Grosso , seis dias se passaram até que a empresa notificasse as autoridades locais sobre o acidente. Entretanto, “nenhuma acção foi tomada em benefício do ambiente”.

Está em andamento uma ação judicial visando indenização aos povos indígenas e outras pessoas afetadas pelo derramamento . Em abril de 2023, a empresa ofereceu uma indenização de R$ 2 milhões (£ 322 mil), que o Ministério Público Federal de Mato Grosso (MPF-MT) considerou inadequada. 

Segundo Paulo Augusto Mario Isaac, antropólogo aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso que escreveu um relatório de 2017 sobre o acidente anexado à ação contra o Itamarati , a comunidade não conseguiu beber a água do rio durante um ano inteiro e não pôde pescar por dois anos. Ainda hoje o seu rendimento é menor do que antes do acidente. Muitos indígenas, que dependiam da pesca para obter renda, tiveram que abandonar suas aldeias para trabalhar na cidade ou nas fazendas próximas. 

Uisa não quis comentar a investigação.

Wijeratna, da Mighty Earth, argumenta que o papel dos bancos como intermediários nestas transações não os isenta da responsabilização pelos seus impactos. 

“Se eles estão trazendo esses títulos para o mercado e os vendendo, eles deveriam ter alguma responsabilidade legal pelos abusos dos direitos humanos e pelo desmatamento que acontecem no terreno”, disse ele ao Unearthed . 

O CRA verde da Uisa será usado para comprar cana-de-açúcar de cinco agricultores para produzir energia e biocombustível, segundo documentos do CRA. Foto: Rafael Henrique/SOPA Images/LightRocket via Getty Images

Tanto o UBS BB Investment Bank quanto o Banco Santander (Brasil) SA estão sujeitos às políticas de risco ambiental e social de suas controladoras na Suíça e na Espanha, respectivamente. O Santander lista uma série de situações que precisam de “atenção especial”, incluindo “atividades com impacto em florestas tropicais, savanas tropicais e biomas de savana ou localizadas em geografias de alto risco” e “risco de desmatamento com clientes do agronegócio no bioma Amazônia”. Não especifica o que significa “atenção especial”, exceto para dizer que “é realizada uma análise detalhada”. 

Um porta-voz do Santander disse ao Unearthed que os CRAs são regulamentados pela CVM e que o banco pode atuar como estruturador e distribuidor desses títulos e também como investidor. 

“Para que um CRA seja classificado como verde ou sustentável quando emitido para o mercado, ele deve cumprir os Princípios de Títulos Verdes da ICMA e exigir uma validação independente de segunda parte. O Santander possui fortes processos de governança para garantir que os padrões de mercado exigidos sejam cumpridos”, afirmou o banco.

O UBS compromete-se a “não fornecer conscientemente serviços financeiros ou de consultoria aos clientes” associados a danos a florestas de alto valor de conservação, trabalho infantil e trabalho forçado, entre outras coisas. O banco suíço também tem uma política para o setor da soja: “as empresas que produzem soja em mercados com alto risco de desmatamento tropical” devem ser membros ou comprometer-se publicamente com a Mesa Redonda sobre Soja Responsável (RTRS) ou normas semelhantes. 

Um porta-voz do UBS disse que eles “aplicam as diretrizes de todo o Grupo sobre sustentabilidade e riscos climáticos. Essas diretrizes nos ajudam a identificar e abordar possíveis efeitos adversos sobre o clima, o meio ambiente e os direitos humanos, bem como os riscos associados a eles para nossos clientes e para o UBS.”

 “Apoiamos nossos clientes em sua transição para a meta líquida zero e não fornecemos serviços financeiros ou de consultoria a empresas cuja atividade comercial principal esteja associada à extração ilegal de madeira ou florestas de alto valor de conservação”, disse o comunicado, acrescentando que eles não comentam no relacionamento com clientes.

Investidores miram no Cerrado

No total, a Uisa arrecadou quase R$ 595 milhões (£ 95 milhões) por meio de quatro emissões CRA em 2021 e 2023, das quais apenas uma era verde. Todas utilizaram terras rurais como garantia, totalizando pelo menos 192 quilômetros quadrados em 35 propriedades localizadas em Mato Grosso, ou seja, em caso de falência da empresa, as terras seriam vendidas e os recursos repassados ​​aos investidores, após os custos. 

O uso de terras como garantia e a criação de Fiagros, fundos de investimento no agronegócio, estiveram entre as medidas legislativas empreendidas no governo do presidente Bolsonaro. Eles ajudaram as CRAs, originalmente criadas em 2004 , a finalmente decolarem — com taxas de crescimento de 60% em 2021 e 70% em 2022, segundo Uqbar.

Matopiba é a nova fronteira do agronegócio brasileiro, aumentando rapidamente o desmatamento no crucial e ameaçado bioma Cerrado. A SLC Agrícola possui 10 fazendas de grande porte na região. Foto: Marizilda Cruppe/Greenpeace

As leis “aproximaram ativos reais, como terra, água e serviços ambientais, dos ativos financeiros”, disse Larissa Parker, advogada socioambiental da Grain, organização sem fins lucrativos que apoia pequenos agricultores e movimentos sociais.

Fábio Pitta, pesquisador de Harvard e da Universidade de São Paulo (USP), disse ao Unearthed que a entrada do agronegócio brasileiro no mercado financeiro fez com que os preços das commodities subissem no mercado futuro, com consequências diretas para o desmatamento e a apropriação de terras no terreno. 

“A empresa quer ampliar a produção para aproveitar esses preços. Então eles contraem grandes dívidas e prometem expandir, mas para isso precisam abrir novas áreas”, disse Pitta, que passou anos pesquisando o papel dos investidores estrangeiros na destruição do Cerrado, o bioma de savana ecologicamente único do Brasil, e o impactos em suas comunidades tradicionais.

Essa expansão está acontecendo principalmente em uma área do Cerrado conhecida como Matopiba, nos quatro estados por onde se estende: Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Historicamente uma região empobrecida e relativamente subdesenvolvida, Matopiba está sendo rapidamente transformada na mais nova fronteira do agronegócio do país por fazendas que cultivam soja, algodão e milho em uma escala quase inimaginável.

“A lei permite desmatar muito mais no Cerrado do que na Floresta Amazônica, [e] você tem áreas planas, propícias à mecanização e com acesso à água”, disse Pitta, que também coordena um grupo de organizações que trabalham em direitos à terra. problemas.

Localizado no Norte e Nordeste do Brasil, o Matopiba foi responsável por 61% (5.227 km2) de todo o desmatamento do Cerrado de agosto de 2020 a julho de 2021, segundo o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, Ipam . O bioma é um sumidouro de carbono crucial, fundamental para o abastecimento de água do continente e para a estabilização climática. É a savana mais rica do mundo, concentrando 5% da biodiversidade vegetal e animal do mundo. Mas está pouco protegida – os agricultores podem desmatar até 80% das suas propriedades em algumas partes – e quase metade da sua área já foi perdida para o agronegócio. 

Nesse processo, as comunidades tradicionais do Cerrado são expulsas de suas casas. Matopiba tem um dos maiores índices de conflitos por terra e água do Brasil, segundo a CPT, que monitora essas questões. 

“A entrada de capital estrangeiro trouxe dinheiro para financiar o desmatamento e tornou mais intensa a grilagem de terras”, disse Altamiran Ribeiro, agente da CPT no Piauí.

Uma empresa com uma estratégia de expansão particularmente agressiva na região é a SLC Agrícola, fornecedora da Cargill, que possui 23 fazendas em 7 estados, incluindo 10 operações de grande escala no Matopiba. A Chain Reaction concluiu que a SLC Agrícola foi a maior desmatadora do Cerrado em 2020, desmatando 101,5 quilômetros quadrados (39 milhas quadradas) de vegetação nativa. Uma investigação de 2020 da Unearthed e da TBIJ encontrou mais de 210 quilômetros quadrados de desmatamento registrados nas fazendas da SLC Agrícola de 2015 a 2020. Desde 2012, também conta com uma subsidiária, a SLC Land.Co, especializada na compra , desmatamento e venda de terras em Matopiba. 

Em dezembro de 2020, mesmo ano em que a SLC supostamente desmatou mais terras do Cerrado do que qualquer outra entidade, a empresa conseguiu arrecadar R$ 480 milhões (£ 76 milhões) por meio de um CRA “verde , graças ao Santander. O dinheiro será investido  “projetos diretamente ligados à redução das emissões de gases de efeito estufa”, como a “expansão de práticas agrícolas digitais e de baixo carbono”. O CRA é apoiado por 55 mil toneladas de algodão, a serem produzidas em 48 fazendas em seis estados brasileiros, incluindo Maranhão, Bahia e Piauí, no Matopiba.

A SLC Agrícola disse em 2020 que iria parar de desmatar no Cerrado, mas que ainda planejava desmatar terras ainda naquele ano . Incêndios foram detectados em uma de suas fazendas em 2021. Por email, a SLC Agrícola informou que deixou de abrir novas áreas antes do final de 2020 e que os incêndios detectados desde então tiveram causas naturais ou podem ter origem em propriedades vizinhas. Leia a resposta completa aqui .

Para obter o rótulo verde, o CRA deve ser verificado externamente. Apesar do histórico da SLC Agrícola, a consultoria Resultante concluiu que a empresa possui“práticas de gestão consolidadas e integração de questões ambientais, sociais e de governança corporativa”. 

“Tenho visto opiniões de segundas partes que passam por títulos verdes com muito pouco escrutínio, pelo que podem ser muito perigosos”, disse Wijeratna. “Assim que você obtiver a opinião da segunda parte, isso é tudo de que você precisa para obter o financiamento.”

A KPMG, que comprou a Resultante em 2022, disse que estas verificações aconteceram antes da aquisição, pelo que não pôde comentar.

Os três CRAs verdes da SLC Agrícola, Caramuru e Uisa também afirmam atender às diretrizes da Climate Bonds Initiative (CBI) ou aos Green Bond Principles (GBP), das Associações do Mercado de Capitais (ICMA). Mas nenhum destes órgãos tem autoridade para monitorizar se as reivindicações das empresas em torno da sustentabilidade estão realmente a ser cumpridas. 

“Não há responsabilidade atribuída. Não há ninguém que faça cumprir e verifique as reivindicações feitas nos CRAs, e essa é a grande falha”, disse Wijeratna. “Se estes tipos de mecanismos financeiros estão a facilitar violações dos direitos humanos e a desflorestação, então precisam de ter uma regulamentação muito mais forte.” 


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela Unearthed [Aqui!].

Tsulama da Mineradora Samarco: DPU e instituições pedem condenação no valor de R$ 100 bilhões por dano moral coletivo

Desastre ambiental e social na Barragem do Fundão completa 8 anos em 5 de novembro

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A Defensoria Pública da União (DPU), a Defensoria Pública do Estado de Minas Gerais (DPE/MG) e do Espírito Santo (DPE/ES), o Ministério Público do Estado de Minas Gerais (MPMG) e do Espírito Santo (MPES) e o Ministério Público Federal (MPF) protocolaram uma petição solicitando o julgamento antecipado parcial de mérito e a condenação das empresas Vale, BHP e Samarco em dano moral coletivo no valor de R$ 100 bilhões.

Essa quantia equivale a 20% do lucro líquido obtido pela Vale e da BHP nos últimos três anos. Além do dano coletivo, também foi solicitado o reconhecimento dos danos individuais homogêneos, de modo a estabelecer o direito das vítimas atingidas pelo desastre.

Na petição, apresentada na 4ª Vara Federal Cível e Agrária de Belo Horizonte na última segunda-feira (16), as instituições argumentam que, passados quase oito anos desde o desastre ambiental, foram produzidas diversas provas no curso do processo e há elementos suficientes para o reconhecimento dos pedidos, que são incontroversos. Além disso, ressaltam que o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), resultou em uma grave contaminação devido à liberação de uma grande quantidade de resíduos de mineração.

“Esse incidente causou danos significativos aos ambientes natural, urbano, cultural e paisagístico. Como resultado, também provocou diversos prejuízos socioeconômicos à coletividade e a milhares de pessoas naturais, físicas e jurídicas em várias áreas afetadas, incluindo comunidades e povos tradicionais”, afirmam na petição.

O documento enfatiza ainda que as empresas têm capacidade econômica para arcar com as indenizações. Apenas nos últimos três anos, a BHP e a Vale obtiveram, conjuntamente, um lucro líquido declarado de aproximadamente R$ 500 bilhões, sendo que cerca de R$ 355 bilhões foram distribuídos como dividendos aos acionistas.

Pela Defensoria Pública da União (DPU), assinam o documento o defensor regional de Direitos Humanos da DPU do Espírito Santo (DRDH/ES), Frederico Aluísio Carvalho Soares, e o defensor regional de Direitos Humanos da DPU de Minas Gerais (DRDH/MG), João Márcio Simões.

Leia a petição na íntegra.

Sobre o incidente em Mariana

O rompimento da Barragem do Fundão, ocorrido em 2015, em Mariana (MG), completará oito anos em 5 de novembro. Esse incidente, considerado o maior desastre ambiental da história do Brasil, resultou em 19 mortes e causou o despejo de 44 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração. A lama contaminou toda a extensão da bacia hidrográfica do Rio Doce e parte do litoral capixaba, afetando municípios nos estados de Minas Gerais e Espírito Santo, onde se encontra a foz do rio.

Ao todo, foram atingidos, de forma direta ou indireta, 49 municípios, com um contingente populacional de 2.449.419 pessoas.

Hospital bombardeado em Gaza e a pergunta que não quer calar: quem tem a capacidade militar para tal destruição?

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As cenas de horror vindas do Hospital al-Ahli al-Arabi  na cidade de Gaza impressionam pela letalidade da explosão que ceifou a vida de pelo menos 500 pessoas, incluindo uma grande quantidade de mulheres e crianças.  O governo  israelense que inicialmente reclamou para si o bombardeamento, agora tenta jogar a culpa nas costas do grupo Jihad Islâmica que teria cometido um erro e lançado para a área do hospital  um foguete que era destinado para Israel.

O presidente dos EUA, Joe Biden, comprou a versão do governo israelense e teria afirmado que a explosão seria responsabilidade do “outro time”, em uma espécie de metáfora esportiva macabra destinada a culpar os palestinos pelo incidente mortal.

O problema para o governo de Israel e seus aliados estadunidenses tem a ver com a escala de destruição que foi imposta ao edifício que abrigava o hospital al-Ahli al-Arabi, pois os grupos palestinos não são possuidores de armamentos capazes de tamanha destruição. Se esse fosse o caso, a escala de destruição dentro de Israel já seria muito maior do que é.

Mas como em guerras a primeira vítima é a verdade, certamente teremos nos próximos dias uma onda de matérias jornalísticas confirmando a tese israelense. Mas aí que aparece a questão: qual lado deste conflito que tem a capacidade militar para tamanha destruição?

Fogo descontrolado na Amazônia ameaça ganhos ambientais e proteção do bioma

Incêndios se tornam principal fator de degradação da floresta e ação coordenada é urgente para eliminar riscos, avaliam pesquisadores
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Em artigo publicado na revista científica Nature Ecology & Evolution nesta terça-feira (16), pesquisadores do Brasil e do exterior alertam que os incêndios se tornaram o principal fator de degradação da Amazônia brasileira, passando a ameaçar ganhos ambientais na proteção do bioma, como a efetividade do PPCDAm (Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal).

O grupo de cientistas recomenda esforços “urgentes e coordenados” para eliminar os riscos do fogo descontrolado, incluindo a cooperação e apoio internacional em pesquisa e governança.

“Primeiro, é preciso entender o que levou ao aumento do fogo. Com mais dados em mãos, as políticas podem ter maior efetividade. Uma das hipóteses que consideramos para explicar a alta nos incêndios é a ocorrência de uma queima antecipada, aproveitando o início da estação seca amazônica, para evitar sanções mais severas no final do ano, quando teremos que lidar com os efeitos fortes e esperados do El Niño”, explica Paulo Moutinho, cientista sênior no IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e um dos autores do artigo.

Apesar da queda de 42% registrada no desmatamento da Amazônia brasileira no primeiro semestre de 2023, na comparação com o mesmo período do ano passado, o fogo continuou subindo. De janeiro a julho deste ano, os focos de incêndio no bioma tiveram alta de 10,76% em relação a 2022.

Pela primeira vez, indicam os pesquisadores, o fogo parece se desassociar do desmatamento na região. Atividades que costumavam aparecer uma depois da outra nos indicadores, agora seguem rumo inverso.

“O fogo na Amazônia geralmente ocorre em áreas que foram desmatadas, ou seja, uma ilegalidade conectada à outra. Por isso, chamamos fogo de desmatamento. Além desse, há outros tipos de fogo característicos do bioma, como o fogo de manejo em pastagens. Mas o fogo de desmatamento era o mais comum, muitas vezes causando incêndios de grande proporção”, comenta Ane Alencar, diretora de Ciência no IPAM, também autora do texto.

Só 19% dos focos detectados pelo INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), nos primeiros seis meses de 2023, estavam relacionados a desmatamentos recentes – uma queda, cita a publicação, comparada aos 39% registrados em 2022.

Além da ação humana, o contexto climático oferece condições para o aumento do fogo: um El Niño ativo, com efeitos de mais calor e mais seca, em retroalimentação com as mudanças climáticas, que têm como consequência a alteração de padrões e ciclos naturais, como o da chuva.

“O futuro da Amazônia sob as mudanças climáticas – mesmo se o desmatamento ilegal for zero – permanece pouco claro com as ameaças da emergência no clima, da seca e do fogo”, dizem os pesquisadores em um trecho. “As consequências da inação sobre o fogo na Amazônia e a desatenção aos tipos e causas do fogo são severas e devem ser evitadas”, ressaltam em outro.

Junto à articulação internacional, os autores indicam o comprometimento de países amazônicos para os avanços considerados necessários na gestão “equitativa e segura” contra os incêndios. Também sinalizam que a perda de vegetação nativa deve ser reduzida de maneira concomitante, bem como a transição de uma economia baseada em commodities agrícolas para uma bioeconomia sustentável.

Seca transforma Manaus em uma distopia climática

Os incêndios florestais deixam Manaus com a segunda pior qualidade do ar do mundo, enquanto os baixos níveis dos rios isolam as comunidades

Os rios são o único meio de acesso em muitas partes da Amazônia. Fotografia: Michael Dantas/AFP/Getty Images

Por Jonathan Watts, em Manaus, para o “The Guardian”

Uma seca devastadora transformou a capital amazónica de Manaus numa distopia climática, com a segunda pior qualidade do ar do mundo e rios nos níveis mais baixos dos últimos 121 anos.

A cidade de 1 milhão de habitantes, cercada por uma floresta, normalmente se aquece sob o céu azul. Os turistas viajam em barcos de recreio para o encontro próximo dos rios Negro e Amazonas (conhecido localmente como Solimões), onde golfinhos podem ser vistos frequentemente desfrutando daqueles que são geralmente os recursos de água doce mais abundantes do mundo.

Mas uma estação seca incomum, agravada pelo El Niño e pelo aquecimento global provocado pelo homem, ameaça a imagem da cidade, o bem-estar dos seus residentes e as perspectivas de sobrevivência de toda a bacia amazônica.

A capital das florestas foi envolta numa névoa castanha escura que lembra a China durante a sua fase mais poluída. O porto geralmente vibrante foi empurrado para longe, através das planícies lamacentas secas e cobertas de lixo. 

Um homem observa barcos ancorados no porto de Rio Negro enquanto a fumaça dos incêndios na floresta amazônica cobre a área de Manaus

Na semana passada, monitores da qualidade do ar registaram 387 microgramas de poluição por metro cúbico, como resultado da névoa de fumo dos incêndios na floresta amazónica. 
Fotografia: Michael Dantas/AFP/Getty Images

Há tantos incêndios na floresta seca que circunda Manaus que os monitores da qualidade do ar registaram na semana passada 387 microgramas de poluição por metro cúbico, em comparação com 122 na capital económica do Brasil, São Paulo. A única cidade no mundo com pior desempenho foi um centro industrial da Tailândia.

Uma recente primeira página do jornal A Crítica mostrou uma fotografia do porto  de  Manaus atingido pela seca sob o título “Saúde em perigo” e uma reportagem sobre os desafios de garantir medicamentos e recursos essenciais numa altura em que os navios de mercadorias não podiam navegar pelo rio. “A Amazônia ferve” dizia a reportagem principal da revista Cenarium, que destacou o calor incomumente alto e a baixa umidade que criaram condições perigosamente secas na floresta.

A seca afetou áreas do Brasil. O estado do Amazonas registrou 2.770 incêndios durante a atual estação seca, que a mídia local disse ter sido o maior já registrado.

Embora fossem esperadas mais secas e incêndios do que o habitual em anos de El Niño como este, os serviços locais de combate a incêndios estavam mal preparados e mal equipados.

O secretário da cidade de Borba disse: “Se os municípios tivessem pelo menos a estrutura mínima instalada, poderíamos ter evitado muitos problemas”.

Jane Crespo, secretária de Meio Ambiente de Maués, uma comunidade a 250 quilômetros de Manaus, disse: “Alguns municípios não têm água suficiente para apagar os incêndios”. 



Casas flutuantes e barcos encalhados na Marina do Davi, ancoradouro do rio Negro, em Manaus.
Casas flutuantes e barcos encalhados na Marina do Davi, ancoradouro do rio Negro, em Manaus. Fotografia: Michael Dantas/AFP/Getty Images

Os rios são o único meio de acesso em muitas partes da Amazônia. À medida que os seus níveis diminuíram, algumas comunidades foram isoladas, levantando preocupações de um desastre humanitário. Em outros lugares, a navegação só é possível por meio de pequenas embarcações, o que encarece o transporte. Em Tabatinga, Benjamin Constant e Atalaia do Norte, as pessoas reclamam que os produtos estão ficando mais caros.

A produção industrial também foi afetada pela falta de abastecimento, ameaçando a economia de Manaus e a sua reputação como zona de livre comércio. As autoridades do estado do Amazonas convocaram uma reunião de emergência para discutir a crise climática regional e apelaram ao governo federal por assistência.

Os lobistas da indústria rodoviária estão a utilizar a crise para pressionar por uma nova estrada pavimentada – a controversa BR 319 – que ligaria Manaus a Porto Velho. Os conservacionistas da Amazónia alertam que isto seria um desastre para uma das últimas áreas remanescentes de floresta intacta e de importância global.

O impacto sobre outras espécies será provavelmente devastador. Além das mortes em massa de golfinhos de rio ameaçados de extinção , inúmeras outras espécies provavelmente sofrerão mortalidade. A micologista Noemia Ishikawa, radicada em Manaus, disse ter notado uma ausência quase total de cogumelos nos campos.

Homens carregam produtos no porto de Rio Negro enquanto a fumaça dos incêndios na floresta amazônica cobre a área de Manaus
O porto de Rio Negro está coberto pela fumaça dos incêndios na floresta amazônica. Fotografia: Michael Dantas/AFP/Getty Images

Philip Fearnside, pesquisador sênior do Instituto Nacional de Pesquisa Amazônica, alertou que a floresta tropical está se aproximando de um ponto de declínio irreversível à medida que as estações secas se prolongam, juntamente com mais dias de calor extremo e sem chuva.

A somar aos riscos está uma crescente população humana que está a converter mais florestas em pastagens, que são regularmente queimadas. Fearnside disse que: “Todas as mortes de árvores causadas por esses processos podem contribuir para iniciar um ciclo vicioso, onde a madeira morta deixada na floresta serve como combustível para incêndios florestais, que têm maior probabilidade de começar e se espalhar e são mais intensos e prejudiciais se ocorrerem.

“Incêndios repetidos podem destruir totalmente a floresta. Além dos pontos críticos em termos de temperatura e duração da estação seca, há também um ponto crítico devido à perda de floresta além de um certo limite, que também se acredita estar próximo.”

Breves períodos de chuva rio acima nos últimos dias aumentaram as esperanças de que a estação seca possa estar chegando ao fim, mas os meteorologistas dizem que é muito cedo para prever isso com alguma confiança. No entanto, as tendências climáticas tornam quase certo que esta seca não será um recorde durante muito tempo.


Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

O perigo que chega nas torneiras: brasileiros bebem “coquetel de agrotóxicos” enquanto país vive apagão de dados

Dados do Ministério da Saúde revelam que 210 cidades encontraram todos os agrotóxicos testados na rede de abastecimento de água em 2022. Chamado de “efeito coquetel”, a mistura entre substâncias preocupa especialistas

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Por Hélen Freitas | Análise de dados: Marina Gama Cubas | Foto em destaque: Engin Akyurt/Unsplash |

As detecções ocorreram em amostras de água de diferentes redes de abastecimento dentro dos municípios. Por exemplo, na cidade de São Paulo, cinco agrotóxicos foram encontrados na água da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), responsável por prover a maior parte do município.

Já o total de 27 foi verificado em condomínios e empresas da capital paulista com sistemas particulares de tratamento da água. Não houve casos de concentração acima do limite permitido para cada agrotóxico analisado, em São Paulo.

Ministério da Saúde não regula “efeito coquetel”

Enquanto a União Europeia impõe um limite para a presença de diferentes substâncias na água, o risco da mistura é ignorado pela normativa do Ministério da Saúde. A pasta teve a chance de regular essa questão em 2021, quando a nova Portaria de Potabilidade da Água foi aprovada, mas tratou apenas dos limites individuais.

O principal argumento é a dificuldade em calcular os efeitos causados pelas diferentes combinações de substâncias químicas na água.

“O ideal seria não detectar, ou seja, não encontrar nada”, afirma Cassiana Montagner, pesquisadora da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). “Mas quando há a detecção, ainda que em concentrações menores que o valor máximo permitido, os governos deveriam tomar ações para evitar que esses agrotóxicos apareçam por longos períodos de tempo”, complementa.

Ela destaca que o risco é maior quando o consumo é contínuo, ou seja, quando a presença das substâncias na água persiste ao longo dos meses e anos. Nesses casos, 15 dos pesticidas encontrados estão associados ao desenvolvimento de doenças crônicas como câncer, disfunções hormonais e reprodutivas.

Segundo a pesquisadora, as estações de tratamento não conseguem retirar os agrotóxicos da água na concentração encontrada no Brasil. Assim, a melhor solução é evitar a contaminação.

A origem do problema é o uso excessivo e indevido dessas substâncias, que ocorre em maiores quantidades em regiões rurais, mas também no paisagismo nas cidades.

“Tudo aquilo que vem sendo colocado no ecossistema, solos e plantações, permanece nos recursos naturais e continua presente em diferentes lugares”, alerta Rafael Rioja, coordenador de consumo sustentável do Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor), que faz alertas constantes sobre a presença de agrotóxicos nos alimentos.

Esta não é a primeira vez que dados públicos levantam alerta sobre a presença de diversos agrotóxicos na água. Em 2019, especial feito pela Repórter Brasil, Public Eye e Agência Pública revelou que 1 em cada 4 cidades brasileiras tinham detectado todos os agrotóxicos na rede de abastecimento – a quantidade de municípios era substancialmente maior porque o levantamento analisou dados de 4 anos, 2014 a 2017.

Fonte: Dados de 2022 do painel Vigiagua do Ministério da Saúde

Baixe aqui a tabela completa com os nomes dos municípios que detectaram os 27 agrotóxicos na água em 2022.

O que dizem o poder público e as empresas

Questionado pela Repórter Brasil, o Ministério da Saúde reconheceu que analisar os agrotóxicos na água de forma individualizada é insuficiente para determinar os riscos à saúde da população. Ressaltou, porém, que há poucos estudos que analisam os efeitos da mistura, justificando assim a ausência de valor máximo para o coquetel de substâncias na Portaria atual.

“A temática relativa à mistura de substâncias químicas integra a agenda de trabalho do Ministério da Saúde, inclusive no que se refere à definição do padrão de potabilidade”, afirmou em nota (leia a íntegra).

O órgão também garantiu que orienta as equipes de vigilância em saúde a adotarem ações preventivas mesmo nos casos em que os testes apontaram a presença de agrotóxicos dentro do limite individual para cada substância. Essa orientação, porém, não parece resultar em medidas objetivas adotadas pelos municípios ouvidos pela reportagem.

As secretarias de saúde de Campinas, São Paulo e Fortaleza, cidades onde os 27 agrotóxicos foram encontrados na água, afirmaram que apenas seguem os parâmetros fixados individualmente para cada substância, de acordo com a norma do Ministério.

A coordenadora da Vigilância em Saúde de Campinas, Cristiane Sartori, afirma que a secretaria só consegue realizar ações quando os testes apontam que o agrotóxico está acima do limite individual para aquela substância específica.

Os agrotóxicos detectados em Campinas apareceram em diferentes redes de distribuição da cidade, como condomínios, shopping e empresas. Na Sanasa, companhia que realiza a maior parte do abastecimento da cidade, não houve detecção. Já no campus da Unicamp, testes encontraram as 27 substâncias na água. Em 2022, cerca de 60 mil pessoas frequentaram o local.

A Unicamp afirmou que a mistura de substâncias é uma preocupação para a Universidade, mas também se amparou na regulamentação do Ministério da Saúde para justificar a tolerância aos 27 agrotóxicos na água. “É importante salientar que não há ações de controle previstas na legislação quando os valores dos resultados se encontram dentro dos padrões permitidos”. Veja a resposta.

Água com 27 agrotóxicos é encontrada em redes de abastecimento estaduais, além de em água de empresas, condomínios e universidade (Foto: Pixabay)

A secretaria de saúde do município de São Paulo afirmou em nota que monitora a água fornecida à população e que “não foram detectados parâmetros acima do permitido pela legislação vigente”.

Sobre as detecções de cinco agrotóxicos na rede da Sabesp em 2022, a empresa se limitou a afirmar que “todos os ensaios realizados para agrotóxicos estão dentro do padrão estabelecido na Portaria de Potabilidade para água distribuída”. A Sabesp não respondeu às perguntas sobre a mistura de substâncias.

Em Fortaleza, todos os 27 agrotóxicos foram encontrados na rede de abastecimento da Cagece (Companhia de Água e Esgoto do Estado do Ceará), responsável pelo abastecimento de água de 152 municípios do Ceará. Em nota, a Cagece informou que os seus equipamentos de análise possuem alta capacidade de detecção, mas que a concentração de agrotóxicos na água é bem menor do que os limites previstos na legislação, o que faz com que considerem que não há risco à população. Leia na íntegra.

A secretaria de saúde de Fortaleza, responsável pelo monitoramento, não respondeu aos questionamentos enviados pela  Repórter Brasil.

Apagão de dados

Os dados do Ministério da Saúde também mostram que 1.609 municípios brasileiros — 6 em cada 10 que fizeram testes (confira a tabela completa de cidades) — encontraram ao menos um agrotóxico em sua água. O número pode ser ainda maior, já que mais da metade (56%) dos municípios não enviaram dados ou publicaram informações consideradas inconsistentes pelo Ministério da Saúde.

Amapá, Amazonas, Paraíba, Rio Grande do Norte, Rondônia e Roraima estão em um apagão completo de informações, ou seja, não enviaram dados considerados válidos pelo Ministério da Saúde.

“A quantidade agrotóxicos que está sendo jogada no nosso ambiente é muito maior do que a nossa capacidade de absorção e da natureza de transformar essas moléculas, e isso está na água que a gente consome, na água da chuva, dos rios”, afirma Marcia Montanari, pesquisadora do Núcleo de Estudos Ambientais e Saúde do Trabalhador da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

Confira quantos agrotóxicos foram detectados nas redes de abastecimento em cada município em 2022.

Entre os estados que forneceram pouca ou nenhuma informação, o, Mato Grosso se destaca. Ano após ano, ele se estabelece como o maior comprador de agrotóxicos do País. Em 2021, mais de 150 mil toneladas de pesticidas foram vendidas no estado, uma uma diferença de mais de 60 mil toneladas para o segundo colocado, São Paulo.

Contudo, a liderança não se mantém quando o assunto é testes de agrotóxicos na água. Dos 141 municípios do estado, 73% não entregaram dados ao Sisagua. O apagão preocupa: a exposição ao veneno no Mato Grosso é quase dez vezes maior do que a média nacional, de 7,3 litros por pessoa.

Lucas do Rio Verde é uma das cidades que não enviou dados consistentes. Com 83 mil habitantes, é uma das maiores produtoras de grãos do país, tendo sua economia baseada na agropecuária.

O uso de pesticidas é intenso na região, tanto que a cidade foi parar nas manchetes de todo o Brasil, em 2011, após uma pesquisa da Universidade Federal do Mato Grosso detectar agrotóxicos no leite de mulheres que amamentam. Mesmo com esse histórico, a cidade não enviou dados consistentes ao Ministério da Saúde sobre a presença de agrotóxicos em sua água.

Marcos Woicichoski, assessor jurídico do SAAE (Serviço Autônomo de Água e Esgoto) de Lucas de Rio Verde afirmou que a vigilância municipal de saúde ainda está realizando o lançamento dos dados de 2022 no Sisagua, contudo é possível consultar os resultados por meio do site do serviço. Os dados disponibilizados, no entanto, não permitem que a população saiba de forma simples se a água que chega em sua torneira tem substâncias perigosas.

“O SAAE informa que os níveis de agrotóxicos na água fornecida para a população sempre se mostraram abaixo do limite de segurança definido pela norma ministerial”. Já a Secretaria de Saúde de Lucas de Rio Verde não respondeu às questões enviadas.

Para a pesquisadora da UFMT, há uma pressão para que esses dados não sejam publicados. “Muitos desses municípios têm uma interveniência política do agronegócio muito forte, eles não fazem questão que essas informações apareçam”.

O responsável direto por esse monitoramento é a Secretaria Estadual de Saúde do Mato Grosso. Questionados pela reportagem, o órgão afirmou que cobrou o envio das informações. “A pasta realiza de forma ininterrupta o monitoramento junto aos prestadores de serviços de abastecimento de água. Entretanto, essa pergunta deve ser feita não apenas ao setor da Saúde, mas às várias áreas, visto que o agrotóxico é um tema de competência nacional, que envolve o Meio Ambiente, a Agricultura e os Recursos Hídricos”. Confira as respostas na íntegra.

“Enquanto não existir uma uma cobrança efetiva para que se cumpra a resolução, a frequência de análise e para que se olhe para esses dados, os responsáveis pelo abastecimento não vão se mexer”, avalia Fábio Kummrow, professor de toxicologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Está confortável pra eles assim”.


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Este texto foi originalmente publicado pela Repórter Brasil [Aqui!].

Uso de agrotóxicos cresce 30% no mundo e 78% no Brasil, afirma pesquisadora ao lançar livro

Segundo procuradora, prosperidade não pode ser obtida à custa da saúde dos trabalhadores

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Por Rede Brasil Atual

São Paulo – Durante lançamento de livro sobre o uso crescente de agrotóxicos, na semana que passou, especialistas chamaram a atenção para a contaminação dos trabalhadores que atuam na produção de alimentos e também da água. “Temos vastos recursos naturais e uma agricultura pujante, que desempenha um papel vital na nossa economia. No entanto, essa prosperidade não deve e não pode ser obtida às custas da saúde de nossos trabalhadores e trabalhadoras rurais, que são a força vital para esses resultados abundantes”, afirmou a vice-procuradora-geral do Trabalho, Maria Aparecida Gurgel. O Ministério Público do Trabalho (MPT) promoveu debate com a presença da professora Larissa Mies Bombardi, autora de Agrotóxicos e Colonialismo Químico.

A professora e pesquisadora lembrou que a União Europeia já baniu 269 agrotóxicos, enquanto o mundo não chegou a banir 100. No Brasil, a situação é pior, acrescentou Larissa.

Dados alarmantes

“Os dados do Brasil são mais alarmantes porque, enquanto o mundo registrou um crescimento de 30% na venda de agrotóxicos nos últimos 10 anos, no Brasil a expansão foi de 78% no mesmo período”, afirmou a professora, autoexilada na Bélgica desde 2021, devido a ameaças que passou a receber. Segundo ela, “a agricultura não é mais sinônimo de produção de alimentos”.

Já o subprocurador-geral do Trabalho Pedro Luiz Serafim da Silva, coordenador do Fórum Nacional de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos e Transgênicos, observou que o trabalhador participa de todos os processos envolvidos na cadeia produtiva. Isso inclui fabricação, transporte, aplicação e consumo. “É uma questão muito séria e que está provocando uma enorme contaminação, inclusive da água. E todos nós bebemos água, água contaminada com agrotóxico.”

Por sua vez, a procuradora do Trabalho Cirlene Zimmermann, à frente da Coordenadoria de Defesa do Meio Ambiente do Trabalho e da Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora (Codemat) do MPT, lembrou que o tema está ligado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que integram a Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU). Ela citou os ODSs 3, sobre “Saúde e bem-estar”, e 8, “Trabalho Decente e Crescimento Econômico”.

Com informações do MPT


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Este texto foi originalmente publicado pela Rede Brasil Atual [Aqui! ].

A floresta pode ser manejada de forma sustentável na Amazônia? Especialistas discordam e propõe alternativas

A ideia do uso sustentável da madeira é bem intencionada. Na realidade, dizem os especialistas, isso está aproximando ainda mais a Amazônia do abismo, mas que existem alternativas

selective loggingRemover árvores valiosas individuais e depois permitir a regeneração da floresta: No papel, o conceito de gestão sustentável da madeira parece bom, mas na prática a coisa é bem diferente

Por Norman Suchanek para a Spektrum

Segundo o renomado climatologista e especialista amazônico Carlos Nobre, a Amazônia está à beira do abismo. Algumas regiões já estão próximas de um ponto sem retorno ou já o ultrapassaram: o sul do estado do Pará, o norte do Mato Grosso, o estado do Acre no sudoeste, lista o colega de pesquisa de Nobre, Philip M. Fearnside. Em todos os lugares, a floresta tropical rica em espécies poderia ter sido excessivamente derrubada, e onde ainda há floresta, o processo de “savanização” pode já estar em pleno andamento.

Fearnside trabalha no Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia, INPA, em Manaus, Nobre realiza pesquisas na Universidade de São Paulo. Somente se forem tomadas medidas imediatas as piores consequências poderão ser evitadas, diz Nobre. Para descobrir como isso poderia ser alcançado, ele e outros 75 especialistas e o World Resources Institute (WRI) desenvolveram uma proposta para um novo modelo econômico ecológico para a região amazônica .

Uma conclusão central aqui é que o “manejo sustentável”, que tem sido considerado a solução mágica para o futuro da bacia amazónica durante boas três décadas, não consegue cumprir as suas promessas mais importantes.

O uso supostamente sustentável, ou seja, ambiental e socialmente compatível, da floresta tropical tem sido propagado desde o início da década de 1990, especialmente desde a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, UNCED, no Rio de Janeiro em 1992 – por empresas madeireiras, bem como por instituições de desenvolvimento organizações de proteção ambiental financeiramente fortes, como o Fundo Mundial para a Natureza (WWF) e o Greenpeace.

Muitos especialistas em florestas tropicais e ecologistas estavam céticos em relação ao conceito desde o início. No entanto, um ano após a conferência, os grupos ambientalistas, juntamente com os sindicatos e a indústria madeireira, fundaram o Forest Stewardship Council (FSC) em Bona. O Conselho Florestal Pan-Europeu (PERFC) na Suíça surgiu em 1999. O objetivo comum de ambas as organizações não governamentais é desenvolver critérios de sustentabilidade e garantir o seu cumprimento.

Cúpula da Amazônia em agosto de 2023
Cúpula da Amazônia em agosto de 2023 | Sob a liderança do presidente brasileiro Lula, oito estados que fazem fronteira com a bacia amazônica concordaram em formar uma “Aliança Amazônica” para proteger o ecossistema. No entanto, as associações ambientais e de conservação da natureza queixaram-se de que a conferência de abertura apenas produziu vagas declarações de intenções .

O geógrafo Klemens Laschefski, hoje na Universidade de Minas Gerais, elaborou a ideia básica em seu artigo de pesquisa de 2002 “Desenvolvimento sustentável através da silvicultura na Amazônia?” : Se uma floresta gera renda de longo prazo através da venda de madeira, então a área florestal durará muito tempo Considerado como tendo valor econômico, ao mesmo tempo não há incentivo para convertê-lo em outras formas de uso, por exemplo, em pasto de gado ou em campo de soja. Isto tornaria a floresta mais atraente e “quebraria o círculo vicioso da destruição florestal”.

O banco de desenvolvimento brasileiro BNDES, que apoia financeiramente este uso certificado de madeira, também desenvolveu uma definição de floresta sustentável. Esta caracteriza-se, portanto, por técnicas de utilização que reproduzem o ciclo natural da floresta, preservam-na e contribuem para a preservação da sua biodiversidade, produtividade, capacidade regenerativa e outras funções ecológicas, económicas e sociais. Na prática, isto significa que apenas quatro a seis árvores são derrubadas por hectare a cada 25 a 30 anos. Nas fases intermediárias, a área tem tempo suficiente para se regenerar e regenerar as árvores que são valiosas para fins madeireiros.

O governo brasileiro continua focado no uso “sustentável” da madeira

A primeira empresa florestal a receber o selo FSC na Amazônia brasileira foi a Precious Woods. Fundada em 1990 e sediada em Zurique, a sociedade anônima suíça com sede em Zurique começou a comprar 80 mil hectares de floresta em Itacoatiara, na Amazônia central, em 1994. Desde então, a Precious Woods Amazon expandiu continuamente as suas explorações florestais para exploração madeireira tropical para quase 500.000 hectares na região através da compra de terras.

Manifestação contra o consumo de terras
Manifestação contra o consumo de terras | Ativistas indígenas manifestam-se à margem da cimeira da Amazónia contra a apropriação de terras, muitas vezes violenta, pelas indústrias madeireira, mineira e agrícola. Ao contrário do seu antecessor Jair Bolsonaro, Lula da Silva promete proteger os direitos dos povos indígenas, e a desflorestação também caiu acentuadamente nos primeiros meses do seu mandato.

“A Precious Woods está comprometida com o manejo sustentável das florestas tropicais porque é a única forma de utilizar a madeira valiosa e ao mesmo tempo proteger a floresta tropical com toda a sua biodiversidade e também gerar renda direta e indireta para a população local”, informa a empresa seu local na rede Internet. Desde 1997, a Precious Woods Amazon também é certificada segundo os critérios FSC, que garantem o manejo sustentável, a preservação das florestas e da biodiversidade.

»O uso sustentável da madeira na Amazônia é uma ficção. Philip M. Fearnside

Especialistas como Laschefski vêm apontando há décadas que a produção de madeira certificada também tem sérios efeitos colaterais . No entanto, o governo brasileiro não mudou sua avaliação da silvicultura sustentável até o momento. O Programa de Proteção da Amazônia (PPCDAm), apresentado pelo recém-eleito presidente Luiz Inácio Lula da Silva em junho de 2023, prevê um aumento de cinco vezes na silvicultura sustentável nas florestas estaduais, passando dos atuais pouco mais de um milhão de hectares para cinco milhões de hectares até 2027. O governo federal alemão também vem promovendo esta forma de uso de madeira tropical na região amazônica como medida de proteção florestal e climática há anos através do Ministério Federal de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (BMZ), da Sociedade Alemã para Cooperação Internacional (GIZ) e o Banco Alemão de Desenvolvimento (KfW).

“O uso sustentável da madeira na Amazônia é uma ficção”, diz o pesquisador amazônico Fearnside, um dos cientistas mais influentes do mundo sobre as mudanças climáticas no Brasil. Em teoria, pequenas quantidades de madeira poderiam ser removidas e a floresta tropical poderia se recuperar. Mas na prática isso não acontece.

Na verdade, investigadores, estudos científicos e jornalistas de investigação já confirmaram há muito o contrário. A exploração madeireira sustentável ou selectiva é em parte responsável pelo facto de grandes partes da maior área de floresta tropical do mundo estarem degradadas e prestes a tombar.

Na prática, o impacto seletivo aumenta o risco de incêndio

O desmatamento de espécies individuais de árvores que são procuradas no mercado internacional de madeira tropical é apenas um fator na cadeia de danos. Tal como acontece com a extração clássica de madeira, são necessários corredores, caminhos florestais e estradas para o transporte de e para o local, madeireiras, instalações portuárias e acampamentos madeireiros. A copa da floresta tropical, assim fragmentada e perfurada, é mais permeável à luz solar e mais suscetível a secas e incêndios florestais. O uso de máquinas pesadas compacta o solo, o que promove o escoamento superficial das águas pluviais, ao mesmo tempo que a rede de estradas e caminhos obstrui o fluxo natural de córregos e rios.

Fearnside:  O uso seletivo da madeira aumenta significativamente a probabilidade de incêndios florestais e também torna os incêndios ainda mais destrutivos quando ocorrem. A exploração madeireira é a primeira intervenção que desencadeia um ciclo vicioso de destruição, com repetidos incêndios que levam à destruição total da floresta.”

A ideia de um ciclo interminável de exploração madeireira e regeneração na Amazônia também é contrariada pela experiência de que espécies de árvores comercialmente valiosas não se recuperam com rapidez suficiente e outras espécies tomam então o seu lugar. Portanto, é mais lucrativo para as empresas aproveitarem as lacunas na legislação, diz Fearnside. Por exemplo, a legislação brasileira permite que todas as árvores de espécies arbóreas economicamente interessantes em toda a área de manejo sejam derrubadas nos primeiros anos da concessão. A empresa madeireira teria de sobreviver sem rendimentos durante os próximos 20 a 30 anos – até ao próximo ciclo de corte. Improvável e contrário a toda lógica económica, diz Fearnside. Em vez disso, uma nova concessão é simplesmente adquirida numa área diferente.

A Faculdade Técnica de Engenharia Florestal da Universidade de Brasília chegou a uma conclusão semelhante em uma análise de 2020 sobre a economia da exploração madeireira sustentável na Amazônia . A gestão florestal já é “financeiramente não lucrativa e associada a um alto risco” no segundo ciclo devido à baixa produtividade da área.

Talvez seja por isso que até mesmo algumas empresas certificadas pelo FSC na Amazônia recorrem a meios ilegais. De acordo com uma investigação recente conduzida pela mídia brasileira e pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ), uma rede global de 280 jornalistas, pelo menos 60 empresas madeireiras sustentáveis ​​já foram citadas pela Agência Brasileira de Proteção Ambiental (IBAMA) por violações ambientais como como abate ilegal, transporte de madeira sem documentação, usurpação de terras e construção ilegal de estradas receberam multas que rondam os 20 milhões de euros. A Precious Woods Amazon é uma das empresas acusadas, mas considera as penalidades do IBAMA injustificadas e se recusa a pagá-las.

A frente agrícola (ver caixa “Consumo desenfreado de terra”) não foi travada pela utilização sustentável da madeira tropical, nem pôs fim ao corte raso ilegal. O arco de desmatamento no sul da Amazônia, do Pará ao Mato Grosso e ao Acre, continuou a se expandir catastroficamente desde a conferência da UNCED de 1992 até o presente. Isto acontece simplesmente porque as empresas madeireiras certificadas também seguem interesses económicos e preferem áreas de floresta tropical intactas, subdesenvolvidas e, portanto, baratas, longe da frente agrícola que faz subir os preços da terra. A silvicultura sustentável estabeleceu-se assim como um factor adicional e perigoso para o ecossistema amazónico, que actualmente está a degradar áreas na Amazónia central e ocidental que são particularmente dignas de protecção.

Erosão superficial desenfreada

No Brasil, “frente agrícola” é o nome dado à fronteira até onde a produção de carne bovina e soja já consumiu a floresta. Ela muda de acordo com o mesmo princípio: os produtores de soja assumem as terras já utilizadas pelos criadores de gado, que depois avançam para a Amazônia. Começando com a exploração madeireira seletiva para utilizar as árvores economicamente valiosas, ganham novas pastagens através da desflorestação total e do corte e queima, financiados pelos rendimentos da exploração madeireira ilegal, como assumem os investigadores da Amazónia. Pouco mais de um milhão dos cerca de seis milhões e meio de quilómetros quadrados da bacia amazónica já foram desmatados desta forma. Os criadores de gado, os madeireiros e as operações mineiras degradaram-se quase tanto, por vezes em maior ou menor grau.

Estudos mostram que mesmo a abordagem social de integração equitativa das populações locais não funciona na realidade. A Amazônia ainda abriga vários grupos populacionais tradicionais, como povos indígenas, ribeirinhos, os chamados Ribeirinhos, e os Quilombolas, descendentes de ex-escravos negros. Todos beneficiam da biodiversidade da floresta tropical: da pesca, da caça e da utilização de inúmeras espécies vegetais para alimentação, medicina tradicional, construção de casas e barcos, artesanato e fins culturais. Mas os conflitos de terra nas áreas de exploração madeireira privatizada e nas áreas de concessão de madeira são comuns. As empresas madeireiras restringem o acesso aos recursos naturais, prejudicam ou impedem a caça e a pesca, a coleta de frutas silvestres, nozes, ervas, cascas, óleos vegetais e resinas.

“A exploração madeireira seletiva também leva a uma enorme degradação das florestas tropicais”, diz Carlos Nobre, que há três décadas pesquisa a Amazônia e seus efeitos no sistema terrestre. “Este não é um caminho para a Amazônia.” Mas a região tem um enorme potencial. para a utilização de produtos não madeireiros provenientes da floresta em pé. “É aqui que reside o grande potencial econômico da Amazônia.”

Uma nova bioeconomia para os habitantes da floresta tropical

Nobre elaborou como implementá-lo com outros 75 pesquisadores e com o World Resources Institute (WRI). Em junho de 2023, o grupo publicou um estudo para um novo modelo econômico ecológico baseado na “Floresta em Pé”. A promoção de uma economia livre de desmatamento e de baixo carbono poderia levar a um crescimento mais elevado, mais qualificado e mais inclusivo até 2050 e ajudar a reverter a degradação da região de floresta tropical, de acordo com o estudo de 246 páginas “Nova Economia da Amazônia” (Nova Economia para Amazônia) para evitar que o “ponto sem retorno” seja ultrapassado.

Produtos da “Floresta em Pé”
Produtos da »Floresta em Pé« | Os frutos do açaí são comercializados em cestas em um mercado em Belém. “O grande potencial econômico da Amazônia está nesses produtos naturais”, afirma Carlos Nobre.

O grupo de Nobre vê grandes oportunidades econômicas naquilo que a floresta tem a oferecer além da madeira. Os povos indígenas da região utilizam até 270 alimentos da floresta tropical em seu cardápio diário. Cerca de 85 espécies de árvores, mais de duzentas ervas e cerca de 30 espécies de insetos serviram-lhes para nutrição ou como remédio.

Treze dos produtos florestais já utilizados comercialmente na Amazônia brasileira, como açaí, cacau, castanha-do-pará, borracha, sementes de urucum, copaíba e óleo de andiroba, já empregam 334 mil pessoas. São 200 mil a mais que a mineração. Segundo o estudo, juntos geram atualmente um Produto Nacional Bruto (PNB) anual de cerca de 2,3 mil milhões de euros.

Se o governo seguisse as sugestões dos investigadores, o PIB gerado pelos 13 produtos não-madeireiros examinados poderia triplicar para cerca de sete mil milhões de euros até 2050. O número de pessoas empregadas no sector dos produtos não madeireiros aumentaria para um total de 947.000. Segundo os pesquisadores, os números econômicos reais poderiam ser muito maiores se se levassem em conta os numerosos outros produtos da biodiversidade amazônica que já são utilizados pela população local e para os quais não há dados disponíveis atualmente.

O grande potencial econômico da Amazônia está na floresta em pé. Carlos Nobre

Bilhões para a reavaliação do país

Para financiar a transição para a “Nova Economia Amazônica”, são necessários investimentos anuais equivalentes a cerca de 1,8% do produto nacional bruto do Brasil. Isso não representa o dobro do 1% que atualmente flui para a região amazônica. Nas três décadas até 2050, as despesas adicionais ascenderão a 480 mil milhões de euros. Isso pode parecer alto, mas seria inteiramente viável para o Brasil. Os subsídios existentes para a exploração de petróleo e gás, para as indústrias agrícolas prejudiciais ao ambiente e para os grandes proprietários de terras necessitam simplesmente de ser realocados.

Na “Nova Economia Amazônica”, a agricultura e a mineração também serão responsáveis ​​pela maior parte da criação de valor na região Amazónica. Tornar estes sectores sujos amigos do ambiente também consome, de longe, a maior parte do financiamento no planeamento financeiro. Para inverter a tendência de desflorestação, os agricultores terão de utilizar as terras disponíveis de forma mais eficiente no futuro. Para tal, os autores do estudo sugerem a valorização de pastagens ecologicamente degradadas e, por exemplo, a criação de sistemas agroflorestais em que as culturas e os produtos madeireiros sejam produzidos na mesma área. A pecuária e a agricultura também poderiam ser combinadas. O objectivo é garantir que a área utilizada para agricultura diminua dos actuais 87 milhões de hectares para 63 milhões, a favor da floresta tropical, que assim ganharia quase seis por cento mais área.

Extração de borracha
Extração de borracha | Um equívoco é que a abundância de árvores no Brasil só produz retorno comercial se forem transformadas em madeira. Os seringueiros já fizeram da cidade amazônica de Manaus uma das cidades mais ricas do mundo.
Tudo isso é extremamente complexo e caro. Mas os custos estimados de um “cenário de negócios como de costume” seriam significativamente maiores, em parte porque a região amazônica gera um sistema climático que abastece grandes partes do Brasil, particularmente no oeste, sudeste e sul, até o Paraguai e norte da Argentina. , com água através do ar. Quanto maior for a desflorestação, maior será o risco de estes “rios voadores” secarem. Além disso, o Brasil também deve alcançar a descarbonização extensiva da sua economia, que os autores do estudo calculam que não seria possível sem parar o desmatamento e mudar para uma agricultura de baixas emissões. Segundo o estudo, a região amazônica pode se tornar um importante catalisador na transformação favorável ao clima do Brasil. Especialmente porque há muito mais potencial na bioeconomia do que os autores consideraram anteriormente. Por exemplo, a utilização promissora da biodiversidade da floresta em pé, incluindo as suas cobras venenosas e artrópodes, para o desenvolvimento e comercialização de novos medicamentos. O exemplo do quinino, também conhecido como casca jesuíta, mostra como isso pode ser lucrativo.Os mais vendidos roubados do Brasil

No início do século XVII, os jesuítas foram os primeiros a utilizar este princípio ativo da casca da árvore cinchona, nativa da floresta tropical montanhosa peruana, para combater a malária que assolava a Europa. O comércio florescente de casca de cinchona, sobre o qual os jesuítas reivindicavam o monopólio, lançou as bases para a enorme riqueza da sua ordem. Embora logo tenha perdido na luta por poder e influência – foi expulso da América do Sul no século XVIII e abolido pelo Papa  – o quinino ainda hoje é um dos ingredientes ativos mais importantes contra a malária. Mas agora são principalmente os proprietários de plantações na Indonésia e na Malásia que tiram o máximo partido do seu dinheiro, e não o Estado amazónico. O naturalista alemão Justus Karl Hasskarl contrabandeou ilegalmente várias plantas jovens do Peru no século XIX.

Algo semelhante aconteceu com a seringueira, Hevea brasiliensis , que fez temporariamente da capital amazônica, Manaus, uma das cidades mais ricas do mundo. Mas já em 1876, o inglês Henry Alexander Wickham contrabandeou cerca de 70 mil sementes para Londres. As potências coloniais estabeleceram enormes plantações de seringueiras na Ásia e em África, que custaram milhares de hectares de floresta tropical, mas que até hoje dominam o mercado global de borracha natural, enquanto o Brasil, o país de origem da árvore, tem de importar 200.000 toneladas todos os anos.

Um renascimento do uso sustentável da seringueira e a promoção de famílias seringueiras na Amazônia, proposto por Carlos Nobre e seus colegas de pesquisa, ajudaria a reduzir essas importações. Isso seria uma tradição no país: por último, mas não menos importante, Chico Mendes, a figura simbólica mais conhecida do Brasil pela defesa da região amazônica, assassinado em 1988, era seringueiro.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pela Spektrum [Aqui!].