Em tragédia anunciada pelo EIA/RIMA do Porto do Açu, erosão costeira se agrava e ameaça localidade no V Distrito de São João da Barra

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Erosão continua avançando e ameaça varrer do mapa a localidade de Barra do Açu no V Distrito de São João da Barra.

Venho acompanhando ao longo dos anos o processo de erosão costeira que afeta a localidade de Barra do Açú após a construção de um quebra-mar que protege um dos terminais do Porto do Açu.  Essa é uma tragédia anunciada nos estudos técnicos realizados pelo Grupo EBX do ex-bilionário para obter as licenças ambientais para a implantação do empreendimento que hoje está nas mãos do fundo de “private equity” EIG Global Partners.

Visitei a outrora aprazível e pacata localidade de Barra do Açu ao longo dos anos e a perda da faixa de areia é visível, com uma diminuição acentuada da faixa de praia. Entretanto, o processo que parecia ter estabilizado, agora voltou com força, deixando os habitantes da localidade cada vez mais apreensivos com o destino do local (ver vídeo abaixo mostrando a ação do mar neste sábado (30/09).

O mais lamentável é que após momentos em que se pretendeu alguma preocupação, seja por parte do governo municipal, da Câmara de Vereadores, ou da Prumo Logística Global, a situação agora está no melhor estilo do “À mercê da própria sorte”.

Esta situação demonstra que o discurso de desenvolvimento não apenas não se concretizou, como agora temos uma série de heranças malditas afetando todo o V Distrito de São João da Barra. É que além da erosão costeira, temos ainda a salinização de águas superficiais, o aumento das ações do narcotráfico em uma região que antes não vivenciava nenhum desses problemas.

Sementes geneticamente modificadas ainda não dominaram as vastas plantações da Índia

sojaSementes de soja – um item popular na agricultura OGM. O mais alto tribunal da Índia bloqueou a plantação de culturas geneticamente modificadas.

A engenharia genética de culturas – onde são inseridos genes do mesmo ou de outro organismo – pode aumentar a resistência de uma planta às pragas, ajudá-la a crescer em condições difíceis, como a seca, e aumentar os seus níveis de nutrientes.

Então, como é que as empresas multinacionais não conseguiram prejudicar nenhum dos principais produtores e consumidores de alimentos agrícolas na Índia?

A multinacional norte-americana Monsanto, através de uma subsidiária indiana, a Mahyco, conseguiu promover o algodão Bt, um produto não alimentar. Geneticamente modificado para produzir proteínas emprestadas da bactéria do solo Bacillus thuringiensis, tem como objetivo matar a praga mortal da lagarta rosa.

Mas isso foi há 20 anos e nenhuma outra cultura geneticamente modificada, alimentar ou não alimentar, conseguiu desde então entrar nas explorações agrícolas indianas.

As culturas alimentares estão a revelar-se particularmente difíceis de quebrar para as empresas geneticamente modificadas. Para começar, a grande população de vegetarianos da Índia, estimada em 40 por cento dos seus 1,4 mil milhões de habitantes, não aceita bem a ideia de haver alimentos modificados sob qualquer forma na mesa.

Em segundo lugar, embora as culturas geneticamente modificadas sejam promovidas como forma de poupar pesticidas tóxicos, a maioria exige a utilização de herbicidas com glifosato e glufosinato, que não são menos tóxicos.

Em 2015, a Organização Mundial da Saúde identificou o glifosato como um provável carcinógeno humano, acrescentando combustível ao debate sobre a segurança das culturas geneticamente modificadas.

Além disso, genes adicionais de espécies estranhas são colocados em camadas para proteger as plantas de herbicidas, o que torna sua produção mais cara.

A forma como o algodão Bt surgiu na Índia, apanhando os reguladores do país desprevenidos e forçando-os a aprovar um facto consumado, também não inspirou confiança pública.

O algodão Bt domina agora os 12.000 hectares que a Índia possui sob explorações de algodão. No entanto, a praga da lagarta rosada está a começar a mostrar sinais de resistência às proteínas Bt, levando alguns agricultores a regressar aos pesticidas.

A entrada furtiva do algodão Bt na Índia galvanizou ambientalistas e activistas a recorrerem ao Supremo Tribunal em 2004 para garantir uma regulamentação mais rigorosa de todas as culturas geneticamente modificadas.

Até agora, o tribunal, que criou o seu próprio comité de peritos, não tem sido favorável aos apelos do conselho governamental de que as culturas alimentares geneticamente modificadas são essenciais para alimentar a grande população da Índia.

Na última audiência, a 29 de Agosto, o Supremo Tribunal indicou que não se apressaria a permitir a plantação de mostarda geneticamente modificada na época de sementeira de Setembro.

“Um ano aqui ou ali não importa”, disse o juiz BV Nagarathna, membro da bancada.

“Esta é apenas uma temporada. No próximo ano haverá outra temporada. No entanto, os danos ambientais não podem ser revertidos.”

O tribunal estava ouvindo depoimentos apresentados por litigantes contra a aprovação do governo, em fevereiro, da “liberação ambiental” da mostarda geneticamente modificada. A liberação ambiental está a um passo do cultivo comercial completo.

O governo, no entanto, alertou que o assunto estava sob julgamento no Supremo Tribunal.

Inversão de marcha no GM

A mostarda geneticamente modificada não foi a primeira cultura alimentar geneticamente modificada desenvolvida na Índia e depois proibida.

Mahyco usou genes do mesmo B.thuringiensis para produzir berinjela Bt (também conhecida como berinjela ou berinjela) apenas para ver o governo ordenar uma moratória na semeadura, com base no feedback das consultas com as partes interessadas.

Mahyco, embora frustrado com a moratória, negociou com sucesso com o vizinho Bangladesh a aceitação da berinjela Bt. Em 2018, o conglomerado alemão Bayer comprou a Monsanto, ganhando o controlo da Mahyco e em 2022 os novos proprietários tinham assegurado um acordo semelhante com as Filipinas.

A FAO reconhece as preocupações sobre os riscos potenciais das culturas geneticamente modificadas levantadas pelos cientistas, pelo público e pelos reguladores, incluindo as pragas que se tornam resistentes aos pesticidas e aos alimentos geneticamente modificados que colocam problemas de segurança para os seres humanos e os animais. No entanto, insiste que os benefícios superam esses riscos.

A FAO afirma que mais de 17 milhões de agricultores estão plantando culturas geneticamente modificadas em 29 países e a “colher rendimentos mais elevados com uma utilização reduzida de pesticidas e uma melhor gestão de ervas daninhas, entre outros benefícios”. Mas isso não parece convincente na Índia, que sozinha tem 120 milhões de agricultores.

Os sentimentos pró-vegetarianos, os receios dos agricultores de que os herbicidas que os acompanham pudessem destruir outras culturas plantadas numa base rotativa, e as exigências de uma regulamentação mais rigorosa e transparente por parte dos litigantes detiveram a mão do governo.

Os litigantes citam o caso da variedade de algodão Bt tolerante a herbicidas (HT), ou algodão HTBt, obrigando os produtores de algodão indianos a adicionar herbicidas à sua lista crescente de insumos agrícolas dispendiosos.

Esperava-se que a Índia, um grande importador de óleo comestível, comprasse até 14 milhões de toneladas de óleo comestível durante a temporada de setembro de 2022 a outubro de 2023. Paradoxalmente, a Índia é também o principal exportador mundial de óleos comestíveis – especialmente óleo de mostarda.

Preocupações com o glifosato

Mas um exame mais atento mostra que o óleo de mostarda “branca” que os comerciantes indianos importam é na verdade canola, extraída da colza, uma variedade de mostarda geneticamente modificada para ser tolerante a herbicidas.

No Canadá, onde a canola é uma das principais culturas do país, os herbicidas, especialmente o glifosato, poupam aos produtores o custo de arrancar ervas daninhas. Citando a aparente negligência relativamente à utilização do glifosato, um estudo publicado em Janeiro acusa os reguladores do Canadá de “abraçarem as narrativas da indústria” e de recorrerem a “tomadas de decisões opacas e falta de transparência” para promover interesses comerciais em detrimento dos imperativos da saúde pública e da protecção ambiental.

Estas são também as acusações que os litigantes estão a levantar contra os reguladores da Índia – concedendo autorizações para a mostarda geneticamente modificada e o herbicida glufosinato que a acompanha. Banido na UE desde 2020, o glufosinato apresenta perigos adicionais para os indianos que utilizam não só o óleo, mas também as sementes e folhas na cozinha tradicional.

A mudança para culturas geneticamente modificadas para poupar em pesticidas fez com que os produtores tivessem de usar herbicidas – de modo que existe uma confusão entre um tipo de agroquímico tóxico e outro. Os OGM também normalmente abordam apenas uma única praga quando há várias que exigem o uso de pesticidas.

Com a lagarta rosada a tornar-se resistente às proteínas Bt, a realidade é que os agricultores estão longe de estarem livres de pesticidas – um insumo agrícola já dispendioso, ao qual será necessário adicionar herbicidas.

Por enquanto, o principal obstáculo para os proponentes das culturas alimentares geneticamente modificadas é o facto de o próprio comité técnico de peritos do Supremo Tribunal ter recomendado fortemente a proibição total das culturas tolerantes a herbicidas no país.

Dado que o governo preferiu deixar a questão para o tribunal, é seguro dizer que poderá levar anos até que as culturas alimentares geneticamente modificadas cheguem aos portões das explorações agrícolas da Índia.


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Este artigo foi escrito originalmente em inglês pela área Ásia e Pacífico do SciDev.Net e publicada [Aqui!].

Organizações do Pará e do Amapá entregam carta à Petrobrás contra a exploração de petróleo na Foz do Amazonas

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Representantes do Observatório do Marajó, SOS Costa Amazônica e Greenpeace entregam carta aberta à Petrobras. Crédito: Divulgação

As organizações Observatório do Marajó, SOS Costa Amazônica e Greenpeace entregaram ontem, em Belém do Pará, uma carta aberta contra a extração de petróleo na Foz do rio Amazonas a duas executivas da Petrobrás: Mayara Martins Aquino, Coordenadora Técnica de Projetos de Exploração, e Priscila Moczydlower, Coordenadora de Responsabilidade Social. A ação ocorreu após evento realizado pela Associação do Ministério Público do estado para discutir aspectos positivos e negativos da exploração de petróleo na região.

O documento apoia a negativa dada pelo IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) à perfuração no bloco FAZ-M-59. Ao longo do manifesto, descrevem-se alguns cenários para possíveis derramamentos de óleo, que poderiam atingir áreas de manguezais, úmidas e de restinga, além de parques de proteção como o Parque Nacional do Cabo Orange, reduto de onças pintadas da Amazônia. A carta indica que existe também o risco de destruição de uma biodiversidade marinha ainda pouco conhecida e de espécies sob risco de extinção, como peixe-boi-marinho, tartaruga-de-pente, tartaruga verde e tartaruga-de-couro.

Outro risco apontado pelo documento é o de incidente diplomático em caso de vazamento de petróleo na região, já que em poucas horas o material derramado poderia alcançar a Guiana Francesa. Ainda mais grave é o fato de que o plano de contingenciamento da Petrobrás não contempla ou considera esses riscos, além de deixar de lado o impacto às comunidades tradicionais.

Os impactos foram destacados por Valma Teles, diretora institucional do Observatório do Marajó e liderança ribeirinha de Portel, na ilha paraense. “As comunidades tradicionais do Pará e do Amapá vivem sem justiça social, racial, de gênero, climática e energética. Não temos direito à informação, participação cidadã, vida digna, meio ambiente, água, alimento, entre tantos outros direitos básicos. Queremos soluções para essas questões e a garantia de autonomia e integridade no processo de transição energética. Parem essa tentativa de exploração de petróleo na foz do Amazonas e na Margem Equatorial”, clama.

Por fim, a carta indica que a Amazônia já vem sendo alvo de saques pela mineração e pela exploração hidrelétrica. Nenhuma das promessas de desenvolvimento atreladas a essas políticas de exploração se confirmou até hoje, por exemplo com políticas públicas que garantam a qualidade de vida da população local. Muito pelo contrário, elas têm deixado apenas um rastro de destruição ambiental e social na região.

Esta mesma carta foi entregue aos Ministérios dos Direitos Humanos e da Cidadania, do Meio Ambiente e das Mulheres.
Assinam 72 instituições: ADINCOCMA, Angelita- Projeto Encontrar Contar e Encantar, Articulação do povo Galibi marworno, Associação Cultural Cururu, Associação Cultural, Esportiva e Assistencial Cururu, Associação dos Assentados do Assentamento Agroestrativista Tartarugal Grande, Associação dos trabalhadores agroextrativista da estrada do Arapijó (ASTAE), Associação dos Usuários da Reserva Extrativista Marinha Piria_ Gurupi_ ASSREMAV, Associação Gira Mundo, Caritas, Cáritas Paroquial Cristo Bom Pastor, Centro Palmares de Estudos e Assessoria por Direitos, Centro Vida Orgânica, CMB confederação das mulheres do Brasil, Coesus- Coalizão Não Fracking Brasil, Coletivo Campesino Amazônico – COCA, Coletivo castanhal lixo zero, Coletivo Jovens Cuíras – Juventude Amazônida dos Manguezais, Coletivo Miri, Coletivo Pará Ciclo, Coletivo Utopia Negra Amapaense, Comissão Diocesana de Justiça e Paz de Castanhal, Comissão Justiça e Paz de Breves, Comissão Pastoral da Terra AnapuJane, Comitê de Energia Renovável do Semiárido-CERSA, Confrem, Cooperação da Juventude Amazônida para o Desenvolvimento Sustentável, COJOVEM, CPT (comissão pastoral da terra AP), Ehnapam, Ecologia Humana Natureza e Povos amazônicos, Estuário Serviços, Estuário Serviços consultorias socioambientais, FAOR Fórum da Amazônia Oriental, Fórum Paraense de Educação do Campo, Fórum Permanente pela Democracia, Grupo de Pesquisa(-ação) em Gestão Costeira Decolonial na Amazônia, Grupo de Trabalho Amazônico – GTA, Grupo Mãe Terra – Lago Grande, Grupo Natureza é vida, Iepé – Instituto de Pesquisa e Formação Indígena, IFPA, IFPA Campus Bragança, Instituto de Proteção a Defensores é Defensoras e da Amazônia (Pororoca), Instituto Dom Azcona de Direitos Humanos (IDA), Instituto EcoVida, Instituto Internacional Arayara, Instituto Mapinguari, Instituto Quelônios Mário, International Rivers Brasil, Levante Popular da Juventude, Liga das mulheres pelo Oceano, Mab/Ap, Mandí, Mar Sem Petróleo, Movimento dos Ribeirinhos (as) das Ilhas e Várzeas de Abaetetuba – MORIVA, Movimento Lixo Zero Amapá, Movimento Marajó Vivo, Movimento Pela Soberania Popular na Mineração – MAM, Observatório do Clima, Observatório do Marajó, OPG Observatório do Petróleo E Gás, Pastoral da terra anapá, PIME, Rádio São Francisco FM, Rede Ecoprofética em Defesa da Amazônia (REDA), Refe de Notícias da Amazônia RNA, Resex mocapajuba, Sala Verde Tucujú: Espaço Socioambiental Freiriano, Sindicato dos trabalhadores rurais de TARAUACÁ, SINDTIFES/PA, SINPAF-PA, Sintepp, UFPA/CUNTINS.

Acusação de ” greenwashing” contra o programa de reflorestamento de fazendas de café da Nestlé

Ceticismo em relação à plantação de árvores: “Precisaríamos de três Terras se todas as empresas do mundo tentassem compensar as suas emissões desta forma.”

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Por Markus Plate (NPLA)

As emissões globais de gases com efeito de estufa ainda são demasiado elevadas para cumprir a meta de 1,5 graus do Acordo Climático de Paris. Muitas empresas transnacionais elaboraram planos para se tornarem neutras em termos climáticos até 2050 – e estão a publicitá-lo intensamente. Um mecanismo que é popular há anos é a inserção e compensação de emissões. A Nestlé, por exemplo, anuncia que está a plantar milhões de árvores em unidades produtores de café em todo o mundo, a fim de retirar milhões de toneladas de CO² da atmosfera. O plano Nescafé também está presente em Belén de Umbría, uma das regiões cafeeiras mais importantes da Colômbia. Os cafeicultores recebem árvores como presente e um pouco de dinheiro para seu cuidado e manutenção. Mas as ONG especializadas em questões climáticas, como o órgão de vigilância New Climate Institute, em Berlim, criticam esta prática e acusam a Nestlé e outras de lavagem verde (ou seja, greenwashing).

Nestlé tem grandes planos

Na entrada da cidade há uma enorme placa vermelha: “Belén de Umbría, berço do plano Nescafé”. Belén de Umbría é um dos centros de cultivo do café colombiano e parece estar firmemente nas mãos da empresa suíça Nestlé. A Nestlé tem grandes planos, inclusive em Belén de Umbría. A gigante suíça quer plantar 200 milhões de árvores em todo o mundo até 2030, no âmbito da estratégia Nestlé Net Zero, com a qual a empresa pretende reduzir para metade as suas emissões até 2030 e reduzi-las (ou: calculá-las) a zero até 2050. Desde 2014, a Nestlé afirma ter plantado quase dois milhões de árvores em campos de café só na Colômbia, sugando assim meio milhão de toneladas de CO² da atmosfera. Isto é extremamente necessário. A pegada climática da Nestlé é elevada, De acordo com informações próprias, a empresa lançou quase 113 milhões de equivalentes de CO² na atmosfera em todo o seu portfólio de produtos em 2018, o que é três vezes mais que a Suíça, país de origem da Nestlé. 

A Nestlé fala em inserção, na redução de emissões ao longo da sua própria cadeia de valor. A Nestlé trabalha na Colômbia, inclusive em Belén de Umbría, com a federação colombiana de produtores de café, Fedecafé. Os técnicos da Fedecafé visitam as fazendas todos os dias, ensinam estratégias para aumentar a produtividade, combater pragas e promovem ativamente o programa Nestlé. Um dos técnicos da Fedecafé, que promove o programa Nestlé, mas não quer ser identificado, acha o projeto bom, porque você fornece aos agricultores material vegetal de alta qualidade, e até paga para cuidar das árvores. Ela oferece árvores Guamo, que fornecem nutrientes importantes ao solo e o mantêm sombreado e úmido. Há também uma espécie de cedro, nogueiras, vainillos e arbolocos, as magníficas guayacanes de flor amarela.

Paga melhor que a Nestlé: a Fundação Holandesa Solidaridad

Parece maravilhoso: finalmente estão sendo plantadas árvores e os cafeicultores até recebem dinheiro: 2.800 pesos por árvore, por uma fazenda média de 2,5 hectares que chega a 160 euros em parcelas diferentes. Não é muito dinheiro, mas mais sombra nas plantações de café tem outras vantagens, como explica Ximena Pulgarin. O jovem de 19 anos é cafeicultor de quarta geração e a família cultiva cerca de 10 hectares: “As árvores nos ajudam porque os pés de café não são queimados pelos raios solares. Com sombra, o processo de maturação é mais lento, resultando num café melhor. “Além disso, há muito mais microorganismos se formando no solo, então não precisamos gastar tanto dinheiro em fertilizantes ou agroquímicos.”

Também há árvores para doar na pequena praça de Belén de Umbría, entre a igreja, a prefeitura e os bombeiros. Uma carga de mudas, ou melhor. A Fundação Holandesa Solidaridad, que também tem uma filial na Alemanha, atua aqui. Mauricio Barra, porta-voz do Solidaridad para a região, elogia a campanha: “É um modelo muito interessante e adaptado às necessidades do cafeicultor. Qual é a força do Solidariedade? Pagamos dinheiro por cada tonelada de CO² absorvida.” A Solidaridad paga o equivalente a 15 euros por tonelada de CO² absorvida. Uma quinta de dimensão média com 250 árvores plantadas receberia cerca de 320 euros por ano – significativamente mais do que a Fedecafé e a Nestlé pagam. A Solidaridad comercializa certificados CO² diretamente através do Rabobank holandês, Isto parece ser muito mais lucrativo para os agricultores. Uma vez que outros pecadores climáticos podem aliviar a sua pegada climática desta forma, isto é referido como compensação. Mesmo assim, algumas pessoas criticam as árvores presentes: o artista e curador Nelson López, por exemplo. Ele já está com quase 70 anos e lembra de outra forma de cultivar café: “Quando eu era jovem, havia campanhas no rádio que incentivavam as pessoas a plantar o café Cotorra porque não precisava de sombra. Então os agricultores começaram a cortar todas as árvores Guamo.” É por isso que quase não há água, há muito menos insectos e as temperaturas subiram acentuadamente. A mesma federação dos cafeicultores que hoje recomenda o plantio de árvores em grande escala ajudou a garantir que há quatro décadas

“Precisaríamos de três terras para compensar o CO² através de plantas arbóreas”

Entrevistei Sybrig Smit no Berlin New Climate Institute, um think tank no início da Schönhauser Allee que lida com políticas climáticas. Estão a ser desenvolvidas estratégias aqui para ainda cumprir a meta de 1,5 graus do Acordo Climático de Paris. Mas planos climáticos como o da Nestlé também estão a ser examinados. Sybrig Smit trata do greenwashing, ou seja, a prática de empresas que utilizam publicidade verde para promover as suas atividades prejudiciais ao ambiente e ao clima. Para ela, o programa de árvores da Nestlé também faz parte: “Deixe-me ser claro desde o início: precisamos de mais árvores e precisamos de mais biodiversidade. E é muito bom que a Nescafé queira plantar mais árvores e também espécies nativas. O problema é que a Nescafé agora afirma ter compensado ou neutralizado as suas emissões com estas árvores.” Em vez de plantar árvores, as emissões globais teriam primeiro de ser reduzidas. Mas muitas empresas ainda tentaram evitar esta tarefa. Mas por que é ruim investir em plantações de árvores ou na proteção de florestas? “Porque só faz diferença se essa fixação de carbono for permanente, ou seja, por pelo menos 100 anos. Mas todos os dias há incêndios florestais e todos os dias há exploração madeireira legal ou ilegal.” Portanto, a durabilidade não pode ser garantida de forma alguma. E se tal árvore for derrubada após apenas 10 anos, todo o alegado efeito climático terá evaporado. Em qualquer caso, mesmo a reflorestação mais massiva não reteria carbono suficiente, salienta Smit: “Precisaríamos de cerca de três Terras,

The Guardian: “39 em cada 50 projetos de compensação são provavelmente lixo”

Mais recentemente, no seu Monitor de Responsabilidade Climática Corporativa 2023, o New Climate Institute certificou que 15 das 24 empresas examinadas tinham “baixa integridade nos seus projetos de proteção climática”. Além da Nestlé, Mercedes-Benz, VW, Amazon e Samsung também receberam classificações consistentemente baixas. O New Climate Institute acusa a Chevron, a Unilever e a Nestlé de lavagem verde. O esforço com que a Nestlé promove o seu plano Nescafé e a sua estratégia Net Zero é enorme. Os clientes de café da Nestlé em todo o mundo podem facilmente ter a impressão de que o seu café é produzido de forma verde e neutra para o clima. Não é esse o caso, confirma o New Climate Institute. Principalmente quando os cafeicultores de hoje só replantam as árvores que derrubaram há 30 ou 40 anos por recomendação da Fedecafé. Outros também concordam com as críticas: O relatório da entidade de vigilância climática Corporate Accountability, em colaboração com o jornal Guardian, acaba de questionar a eficácia da compensação e descreveu 39 dos 50 projectos de compensação como “provavelmente lixo”. Uma consulta ao site alemão da Fundação Solidaridad, que atualmente doa árvores em Belén de Umbría, lista alguns parceiros industriais questionáveis ​​que levantam dúvidas se estão realmente preocupados com o clima ou antes com a imagem e os lucros: a bebida multinacional Coca Cola, que garante recursos hídricos em todo o mundo. A multinacional agroquímica suíça Syngenta. O Grupo Bayer, o gigante do glifosato desde a aquisição da Monsanto. A empresa canadense de mineração de ouro Newmont. E novamente: Nestlé.

“Não compre café de empresas transnacionais!”

A grande colheita de café na Colômbia é em outubro. Os preços estão no porão há anos e os custos de fertilizantes e pesticidas têm sido elevados desde Corona. Um pouco de dinheiro para árvores plantadas? Isto parece interessante para muitos agricultores. Primeiro também para Ximena Pulgarín. Mas os Pulgaríns sempre tiveram árvores nas plantações. Solidaridad e Nescafé pagam apenas pelas árvores novas, não pelas existentes. Ximena considera isto injusto. Além disso: “Num evento informativo, o Solidaridad disse-nos que os pagamentos só seriam feitos quando as árvores tivessem cinco metros de altura porque o satélite, cujas imagens são utilizadas para calcular os pagamentos climáticos, não conseguia registar árvores mais pequenas. .” Portanto, os pagamentos no local não estão funcionando como esperado. Ximena tem uma abordagem diferente para um ambiente sustentável, Economia cafeeira consciente do clima, que não está mais sujeita aos ditames de preços das grandes empresas transnacionais: o conselho de Ximena aos amantes do café na Alemanha: Compre café de comércio justo diretamente dos cafeicultores, se possível, e não o café produzido em massa de grandes fabricantes como Nestlé. Porque as empresas não fazem tanto pelas famílias do clima e do café como prometem na sua publicidade.

Você pode encontrar um artigo da Onda sobre este tópico aqui .


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pela NPLA [Aqui!].

Brasil sedia encontro anual de projeto internacional voltado a pesquisas no Oceano Atlântico

Evento será sediado pela Universidade Federal de Santa Catarina, com apoio da UFSCar

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Veleiro Tara durante pesquisa do AtlantECO na Amazônia (Julia Nedelec -Tara Foundation)

Entre os dias 3 e 10 de outubro, o Brasil será sede do Encontro Anual do AtlantECO – projeto de pesquisa científica financiado pelo Programa Horizon 2020 (H2020) da União Europeia. O evento é organizado pela instituição anfitriã, Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), e conta com o apoio de pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). A atividade vai reunir pesquisadores que integram o AtlantECO em todo o mundo, incluindo a União Europeia, África e Brasil. 

A programação do evento consta de reuniões, sessão de pôsteres, atualizações sobre temáticas transversais do projeto, sessões plenárias sobre o progresso do AtlantECO e ações ainda a serem realizadas. Também haverá atividade conjunta com o projeto Mission Atlantic, incluindo discussões científicas sobre o que já foi efetuado. Além disso, serão realizadas visitas locais a aquicultores e pescadores e momentos para vivência social entre os participantes. A atividade é voltada aos pesquisadores do projeto e a convidados para programação específica, não sendo aberta ao público geral.

A última edição do Encontro Anual foi realizada em 2022, na Cidade do Cabo, na África do Sul, e foi importante para a equipe de pesquisadores do projeto discutir avanços do AtlantECO. “Como são três continentes diretamente envolvidos no projeto – Europa, América e África -, essa rotatividade na realização do encontro anual é importante para assegurar que todos os participantes se sintam abraçados pelo projeto, atuando de forma igualitária em seu desenvolvimento e execução”, aponta Andrea Green Koettker, pós-doutoranda da UFSC e integrante do AtlantECO.

Ela acrescenta que, por se tratar de um projeto interdisciplinar e colaborativo, os encontros presenciais são fundamentais para que a equipe do AtlantECO tenha um maior entrosamento e possa discutir de forma mais eficaz os principais resultados obtidos e os próximos passos a serem desenvolvidos no projeto como um todo.

Pesquisadores da UFSCar participam na organização do evento, diretamente na coordenação das atividades dos jovens pesquisadores. Integrantes do Laboratório de Biodiversidade e Processos Microbianos (LMPB) da UFSCar vão apresentar os seus trabalhos e participar das discussões científicas. Ainda dentro da programação, também será apresentado o primeiro episódio da série de animação “Max e sua turma em: Descobrindo o mar”, produzida pela parceria entre a equipe do AtlantECO vinculada à UFSCar e o Instituto da Cultura Científica (ICC) da Universidade. A série é direcionada ao público infantil e apresentará informações sobre os serviços ecossistêmicos que o mar oferece, o excesso de resíduos plásticos no oceano e a importância desse bioma para a temperatura do Planeta. O primeiro episódio, “O mar que a gente respira”, vai apresentar alguns microrganismos que vivem no oceano – fitoplâncton e zooplâncton – e ações como fotossíntese e captura de carbono que eles realizam, contribuindo muito para o meio ambiente. Além dos personagens do fundo do mar, a série traz sempre um bate-papo com pesquisadores que abordam conceitos e explicações de forma acessível para as crianças espectadoras. Serão três episódios que ficarão disponíveis na Internet, para acesso gratuito, e poderão servir como material de apoio para professores e escolas trabalharem as temáticas com crianças do Ensino Fundamental.

AtlantECO

Financiado pela União Europeia, este projeto de pesquisa internacional tem como objetivo analisar as regiões marinhas e a conexão entre seus ecossistemas ao longo do Oceano Atlântico – na extensão Norte-Sul e nos limites continentais, entre as costas brasileira e africana. A partir disso, a expectativa é gerar dados para desenvolver modelos que levem em consideração os processos dinâmicos do ambiente marinho. Além de cenários climáticos futuros, esses modelos ajudarão a prever a migração de espécies, a capacidade do oceano de capturar e armazenar o gás carbônico atmosférico, o transporte e riscos de poluentes, como plásticos e nutrientes, e o equilíbrio entre a saúde do ecossistema e as atividades humanas.

O Projeto é desenvolvido em parceria com 13 países, sendo 11 da União Europeia, Brasil e África do Sul. Dentre as instituições brasileiras que atuam no projeto estão a UFSC, UFSCar, Universidade de São Paulo (USP), diferentes instituições de Pernambuco e as universidades federais da Bahia (UFBA) e do Rio Grande (FURG).

Os grandes pilares de pesquisa e divulgação científica do AtlantECO são microbioma, microplásticos e plastisfera, circulação oceânica e suas interações. Há uma lacuna de conhecimento sobre como essas questões afetam a biodiversidade, os ecossistemas, a sensibilidade às mudanças climáticas e o potencial de uma exploração social e econômica sustentável dos recursos naturais do Atlântico. Por meio das pesquisas realizadas nas águas em diferentes partes do mundo, o projeto vai levantar dados que poderão auxiliar novos estudos e estratégias de conservação e preservação do microbioma marinho.

De maneira global, os trabalhos de campo para a coleta de amostras estão sendo realizados a bordo de seis embarcações nacionais e internacionais projetadas para expedições científicas oceanográficas. No Atlântico Sul, o Veleiro ECO, da UFSC, e o Veleiro Tara, da Fundação Tara Ocean, já fizeram coletas ao longo das costas brasileira e africana. Neste ano, novas expedições serão feitas pelos rios São Francisco e Buranhém. Além da pesquisa, o projeto prevê vários eventos voltados para a conscientização ambiental, ciência cidadã, promoção da Cultura Oceânica e, no caso do Brasil, a importância da Amazônia Azul. Mais informações podem ser acessadas no Instagram do projeto (@eu.atlanteco).

Novos tipos de bioplásticos podem sofrer decomposição total no solo em 4 meses

pexels-karolina-grabowska-4397816-scaled-2048x1152Em 135 dias, duas amostras de bioplásticos de diferentes espessuras foram 100% biodegradadas

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Pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR) testaram novos tipos de compostos bioplásticos que se biodegradam rapidamente nas diferentes condições ambientais do solo brasileiro e, assim, agridem menos o meio ambiente. Em um relatório-síntese lançado na sexta (29), eles descrevem um filme compostável que pode ser completamente degradado em até quatro meses, gerando nutrientes para o solo.

Os resultados foram obtidos analisando os processos de biodegradação de cinco amostras de matérias-primas de plástico certificadas como seguras cedidas por empresa do ramo. As amostras tinham diferentes  espessuras e formulações e foram observadas durante seis meses. Além disso, eram formadas por materiais de fontes renováveis e biodegradáveis. Em quatro meses, duas amostras foram 100% degradadas por micro-organismos do solo, enquanto as outras três apresentaram percentual de biodegradação de 30%, 60% e 50% em seis meses. Em termos de comparação, bioplásticos feitos com poliácido lático (PLA), mais usuais no mercado, demoram de 20 a 30 anos para biodegradarem.

A degradação nas amostras acontece porque esse tipo de plástico, que contém poliéster alifático, tem uma estrutura molecular fraca o suficiente para ser quebrada em estruturas menores quando exposto à umidade e ao calor. Como resultado são produzidos dióxido de carbono (CO2), água, biomassa e minerais, que podem ser consumidos com mais facilidade por micro-organismos encontrados em ecossistemas aquáticos e terrestres, além de servirem de nutrientes para o solo.

Segundo Fábio Fajardo, idealizador dos compostos, e Michele Spier, cientista da UFPR e autora do estudo, a intenção é encontrar alternativas ao plástico convencional. “Nossas pesquisas são realizadas com base em estudos de países como Alemanha, EUA e França, que já adotam bioplásticos seguros e que garantem que eles não gerem ao meio ambiente os microplásticos e nanoplásticos”, explica Spier.

Apesar de mais caros em comparação aos plásticos convencionais, os bioplásticos podem ser utilizados em sacolas de compras, embalagens de entregas, talheres e sacos para dejetos de animais. Os materiais são úteis para descarte de resíduos orgânicos domésticos porque evitam que recicladores entrem em contato direto com substâncias em decomposição ao separar a sacola plástica dos dejetos para a reciclagem. “É importante que o consumidor possa entender quais são os tipos de plásticos que estão à sua disposição. Os convencionais podem ficar destinados a embalagens de xampu e garrafas de água, por exemplo, pois são mais simples de serem reciclados”, esclarece a pesquisadora.

A partir de agora, os pesquisadores continuam com os estudos e novos testes no laboratório na UFPR, aproveitando que a biodiversidade do Brasil pode servir de fonte de matérias-primas para produzir bioplásticos biodegradáveis e compostáveis. Utilizar esses materiais leva a uma redução do preço do produto final para o consumidor. “Sabemos que é apenas um pontapé inicial, mas já começamos a nossa corrida contra os materiais que causam mais danos ao meio ambiente. É preciso seguir buscando alternativas e apresentando ao consumidor produtos acessíveis e amigáveis ambientalmente”, comemora Spier.

Demonstração de película plástica com material utilizado nas amostras

Justiça condena Cargill por trabalho escravo e infantil de fornecedores de cacau

MPT defendeu responsabilidade de multinacional por “fingir que não está vendo” o uso de mão de obra infantil e análoga à de escravo em fornecedores de cacau; empresa pode recorrer

cacauO MPT cobra a responsabilização de toda a cadeia produtiva do cacau, incluindo as indústrias que compram insumos de produtores rurais autuados por irregularidades (Foto: Sidney Oliveira/Agência Pará)

Por Daniel Haidar para a Repórter Brasil

A multinacional Cargill foi condenada pela Justiça do Trabalho, em primeira instância, por práticas de trabalho escravo e infantil em plantações de cacau de seus fornecedores no Brasil. A empresa ainda pode recorrer da decisão.

A condenação é resultado de uma Ação Civil Pública (ACP) movida pelo Ministério Público do Trabalho (MPT). O órgão cobra a responsabilização de toda a cadeia produtiva do cacau, incluindo as indústrias que compram insumos de produtores rurais autuados por irregularidades.

Em sentença proferida no dia 18 de setembro, a 39ª Vara do Trabalho de Salvador determinou que a empresa pague uma indenização de R$ 600 mil por danos morais coletivos, a serem aplicados em projetos de proteção a crianças. Inicialmente, o MPT havia solicitado uma indenização de R$ 119 milhões.

Fundada nos Estados Unidos, a Cargill é responsável pelo processamento de grande parte do cacau produzido no país. Em nota enviada à Repórter Brasil, a empresa afirma que “não tolera tráfico humano, trabalho forçado ou infantil em suas operações ou cadeia de suprimentos”. A multinacional alega ainda que aplica “medidas imediatas” para suspender fornecedores flagrados em violações. Leia aqui a íntegra da nota enviada pela Cargill.

Ação do MPT se baseou em tratados internacionais

De acordo com os procuradores, a Cargill se omitiu “do dever legal de coibir e prevenir” que seus fornecedores utilizem mão de obra infantil ou que submetam trabalhadores a condições típicas da escravidão. O MPT ingressou com a ação após compilar diversos flagrantes dessas violações em fornecedores da multinacional.

Para os procuradores que assinam a ação, mesmo depois dessas infrações, a Cargill não adotou mecanismos para evitar a repetição dos problemas.

“Empresas que lucram e se beneficiam do trabalho escravo e infantil dizem que não têm relação direta ou de emprego [com os fornecedores]. Agora tivemos essa virada de chave, exigindo também a responsabilidade [de monitorar o cumprimento da lei] trabalhista”, afirma a procuradora Margaret Matos de Carvalho, uma das responsáveis pela ação contra a Cargill. Ela diz ainda que a ACP exige que a empresa acompanhe de perto as condições de trabalho nas propriedades dos fornecedores.

A responsabilização das gigantes do setor faz parte de uma estratégia do MPT, inspirada em obrigações assumidas pelo Brasil em tratados internacionais. Os procuradores também tomam como base o decreto federal com as Diretrizes Nacionais sobre Empresas e Direitos Humanos. O objetivo é combater violações aos direitos humanos e estimular relações éticas em toda a cadeia produtiva beneficiada por trabalho escravo ou infantil.

Histórico de violações em fornecedores

Ao menos 148 trabalhadores foram resgatados em fazendas de cacau durante fiscalizações realizadas entre 2005 e 2019 pelo governo federal. Flagrantes de violações se concentram na Bahia e no Pará, líderes na produção de cacau no Brasil (Foto: Sidney Oliveira/Agência Pará)

A ação contra a multinacional foi proposta em 2021 por um grupo de procuradores dedicados ao combate ao trabalho infantil e à escravidão. Na ACP, eles listaram algumas fiscalizações que comprovaram casos de trabalho escravo ou trabalho infantil entre fornecedores da Cargill.

Em 2010, foram resgatados 42 trabalhadores em uma fazenda dede cacau que fornecia para a empresa em Medicilândia, no Pará – no local, havia três menores de idade que ajudavam os pais na colheita. Em 2013, nessa mesma cidade, outro fornecedor da Cargill foi autuado por trabalho infantil. Em 2019, autoridades constataram que essa fazenda ainda explorava crianças.

Na sentença, a juíza Naiara Lage Pereira Bohnke argumentou que “não se busca a atribuição de responsabilidade da Demandada [a Cargill] diretamente pelas violações a direitos trabalhistas observadas ao longo da cadeia produtiva do cacau”.

Ainda segundo a sentença, o pedido do MPT pede a condenação da Cargill “a partir da perspectiva de que a empresa, dado o seu poder de controle e influência, não deve se omitir diante da realidade que se impõe (condições de trabalho análogo ao de escravo e trabalho infantil) e que tende a ser perpetuar se ações efetivas não forem devidamente tomadas”.

“A Cargill foi condenada por permitir trabalho escravo e trabalho infantil. A empresa finge que não está vendo. Por isso, está sendo condenada. É a responsabilidade da devida diligência”, argumentou a procuradora Carvalho em entrevista à Repórter Brasil.

Formalização de contratos com fornecedores

No processo, advogados da Cargill alegaram que a empresa não podia ser responsabilizada pelas práticas de seus fornecedores, porque não possui qualquer relação de trabalho com produtores de cacau e também porque não tem “poder de polícia” para inspecionar fazendas.

A multinacional alegou ainda que já exige em contratos que seus fornecedores declarem não utilizar mão de obra infantil ou análoga ao trabalho escravo.

Além da indenização, a Justiça também determinou que a Cargill formalize, em até 30 dias, contratos com produtores e fornecedores de cacau, com a inclusão de cláusulas sociais contra a utilização de trabalho infantil. A multinacional tem 60 dias para criar um mecanismo de controle “no âmbito dos departamentos de compras”.

A sentença determina ainda que a empresa crie, em até três anos, campanha publicitária permanente contra trabalho infantil e escravo.

Produção concentrada no Pará e na Bahia

Um relatório da Repórter Brasil mostrou que pelo menos 148 trabalhadores foram resgatados em fazendas de cacau durante fiscalizações realizadas entre 2005 e 2019 pelo governo federal. Flagrantes de violações se concentram na Bahia e no Pará, líderes na produção de cacau no Brasil.


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Este texto foi originalmente publicado pela Repórter Brasil [Aqui!].

Desmatamento no Matopiba já derrubou 494 mil hectares de Cerrado desde janeiro/2023

Dados do SAD Cerrado mostram que 75% da vegetação perdida no bioma em 2023 estava na região; em agosto, foram 58 mil hectares suprimidos.

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O Matopiba – fronteira agrícola composta por partes do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia – desmatou 494 mil hectares em 2023, que representa cerca de 75% da área desmatada de todo o bioma Cerrado no ano. Em agosto, foram 58 mil hectares perdidos na fronteira agrícola, 76,8% do desmatamento do bioma no último mês. A área total convertida na região foi 32,6% maior do que o registrado nos primeiros oito meses de 2022, segundo dados detectados pelo SAD Cerrado (Sistema de Alerta de Desmatamento do Cerrado) divulgados nesta terça-feira.

Dos quatro estados da fronteira agrícola, três registraram uma aceleração no ritmo de desmatamento em seu território em agosto. Na Bahia foram desmatados 8,7 mil hectares, 5,3% a mais do que em 2022. No Tocantins, o aumento foi de 36%, com 15,3 mil hectares abertos, enquanto o Piauí teve um aumento de 11% em sua área desmatada, que chegou a 7 mil hectares.

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Mesmo mantendo sua área desmatada semelhante a agosto do ano passado, o Maranhão ainda é líder de desmatamento na região, com 30,6 mil hectares perdidos, o dobro do registrado no Tocantins, segundo colocado. O desmatamento maranhense se concentrou, principalmente, nos municípios de Balsas, Caxias e Mirador, que juntos derrubaram 7,3 mil hectares.

Em agosto, foram desmatados 76 mil hectares em todo o Cerrado. Apesar de extensa, a abertura de novas áreas foi menor quando comparada aos 91 mil hectares perdidos em julho deste ano e semelhantes aos 75 mil hectares de agosto do ano passado. Os dados para o ano de 2023, no entanto, ainda são alarmantes: foram 658 mil hectares de vegetação nativa derrubados nos primeiros 8 meses do ano, 16,9% a mais do que em 2022 e 28,6% maior do que em 2021.

“Precisamos aumentar a fiscalização tanto do governo federal, como dos governos estaduais e municipais, para proteger o Cerrado e cumprir com o compromisso de zerar a perda de vegetação nativa no país até 2030. O Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento e das Queimadas no Bioma Cerrado (PPCerrado) precisa ser implementado rapidamente, pois a conservação do bioma é urgente”, alerta Julia Shimbo, pesquisadora do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia).

O SAD Cerrado é um sistema de monitoramento desenvolvido por pesquisadores do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) que fornece alertas de desmatamento de vegetação nativa em todo o bioma. O projeto faz uso de imagens do satélite Sentinel-2, da Agência Espacial Europeia, e técnicas avançadas de processamento de imagem.

Municípios

A lista de municípios que mais desmataram o Cerrado também é liderada por municípios do Matopiba. Em agosto, todas as dez cidades que mais perderam vegetação nativa estavam na região. O município de Balsas, no Maranhão, foi o maior desmatador do mês, com 4,6 mil hectares derrubados.

Desde o começo do ano, os municípios de São Desidério (BA), Balsas (MA) e Rio Sono (TO) foram os principais desmatadores do bioma Cerrado, respondendo por 62,6 mil hectares no total. No Piauí, a maioria da vegetação nativa foi perdida em Baixa Grande do Ribeiro, sexto colocado no ranking, que converteu 12,3 mil hectares.

Desde o começo do ano, municípios do sul do Maranhão e oeste baiano não saíram da liderança no ranking de desmatamento. São Desidério, centro do desmatamento na Bahia, apareceu seis vezes desde janeiro, três delas como líder. Correntina, vizinha de São Desidério, figurou 5 vezes entre os que mais derrubaram o Cerrado. No Maranhão, o maior representante foi Balsas, seis vezes no ranking e líder em duas ocasiões.

Em Balsas, um único alerta de desmatamento foi responsável por desmatar 1.300 hectares. Esse alerta, sozinho, responde por 28% de todo o desmatamento do município registrado em agosto.

“O desmatamento da vegetação nativa no Cerrado segue acelerado, sendo convertido em extensas áreas de pastagens e agricultura de commodities, como a soja e o algodão. A conversão dessas áreas provoca grandes alterações ecológicas e climáticas, o que consequentemente afeta a disponibilidade hídrica, podendo trazer impactos irreversíveis para as regiões que apresentam poucos remanescentes de Cerrado”, destaca Fernanda Ribeiro, pesquisadora do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia).

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Área que sofreu processo de desmatamento no município de Balsas. Abertura da área foi detectada pela SAD em agosto de 2023.

Bioma desprotegido

Em agosto, 49,1% dos alertas captados foram de áreas com mais de 50 hectares, considerados grandes aberturas. As novas áreas desmatadas avançaram, principalmente, sobre áreas savânicas do Cerrado, tipo de vegetação caracterizado por árvores de médio porte e gramíneas endêmicas da região. Repetindo o padrão dos últimos meses, 86,5% do desmatamento do Cerrado de agosto esteve concentrado em propriedades privadas.

Apesar de ocupar cerca de 23,9% do território nacional, menos de 8% da área total do território é legalmente protegida com unidades de conservação e territórios indígenas. O bioma também é a nascente de oito das 12 bacias hidrográficas do país e, embora algumas nascentes importantes estejam protegidas por unidades de conservação, o volume de água do Cerrado tem sido impactado pelo desmatamento e pelo consumo de água para irrigação de lavouras.

“Mais da metade, 62%, da vegetação nativa remanescente do Cerrado está em áreas privadas e apenas 12% está em Unidades de Conservação e Terras Indígenas. Assim, a conservação do bioma depende também da participação do setor privado”, aponta Tarsila Andrade, analista de pesquisa do IPAM.

Sobre o SAD Cerrado

O Sistema de Alerta de Desmatamento do Cerrado é um projeto de monitoramento mensal e automático que utiliza imagens de satélites ópticos do sensor Sentinel-2, da Agência Espacial Europeia. O SAD Cerrado é uma ferramenta analítica que fornece alertas de supressão de vegetação nativa para todo o bioma, trazendo informações sobre desmatamento no bioma desde agosto de 2020.

A confirmação de um alerta de desmatamento é realizada a partir da identificação de ao menos dois registros da mesma área em datas diferentes, com intervalo mínimo de dois meses entre as imagens de satélite. O método está disponível no site do SAD Cerrado.

Relatórios de alertas para o mês de agosto e períodos anteriores estão disponíveis neste link. No painel interativo, é possível selecionar estados, municípios, categorias fundiárias e o intervalo temporal para análise.

O objetivo do sistema é fornecer alertas de desmatamentos maiores de 1 hectare, atualizados mês a mês. Pesquisadores entendem que o SAD Cerrado pode se constituir como uma ferramenta complementar a outros sistemas de alerta de desmatamento no bioma, como o DETER Cerrado, do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), otimizando o processo de detecção em contextos visualmente complexos.

Acesse os dados georreferenciados clicando aqui.

Pesquisadores da USP criam sensor de papel que detecta forma de caseira contaminantes na água, incluindo agrotóxicos

sensores-papel-996x567Usar os copos de água como vertedouros de todo tipo de lixo afeta a qualidade da água usada nas residências. Crédito da imagem: Alexander Schimmeck/Unsplash . Foto no domínio público

Projetado por pesquisadores brasileiros, o dispositivo consiste em um pedaço de caixa, sobre qualquer um que dispare um raio de laser. Este processo converte a celulose em carbono, um material com propriedades elétricas. A seguir, é adicionada uma solução com nanopartículas de ouro, que gera a reação eletroquímica que identifica as substâncias na água.

Ao receber o raio de laser, o cartão converte a celulose em carbono. Adicionar uma solução com nanopartículas de ouro gera a reação eletroquímica que identifica as substâncias na água. Crédito da imagem: Cortesia de Thiago Paixão para SciDev.Net

“Quanto maior for a corrente elétrica, maior a presença do composto químico ou dos contaminantes que você deseja identificar”, assinalou ao SciDev.Net o químico Thiago Paixão, do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP), um dos os autores do artigo publicado na revista Sensors & Diagnostics fornecendo a contagem dos resultados.

No laboratório, o sensor obtuvo desempenhos equivalentes aos dispositivos mais caros usados ​​para detectar rastros de hipoclorito de sódio, matéria prima para a produção de lejía. Esta substância é comumente usada para regular a qualidade da água da casa e das piscinas, mas em quantidades elevadas pode prejudicar a saúde humana.

“Estamos falando de um dispositivo descartável de uso seguro, que poderia ser distribuído à população para monitorar a qualidade da água em sua própria casa”, acrescenta Paixão.

Se estima-se que até 5.500 milhões de pessoas, especialmente nos países em desenvolvimento, tenderão a ter contato regular com água contaminada em 2100, o que provavelmente terá efeitos na saúde pública, segundo um estudo na revista Nature Water .

O sensor pode ser facilmente adaptado ao monitoramento de outros compostos químicos de interesse para a saúde . “Um exemplo de uso seria a medição dos níveis de mercúrio na água dos rios consumidos por comunidades indígenas e ribeirinhas que habitam em áreas próximas às centrais hidrelétricas da Amazônia”, acrescenta o químico.

O sensor mede apenas 3 centímetros e seu custo de fabricação é de R$ 0,50 (alrededor de US$ 0,10). Mas seu valor final arrecadou R$ 10 (aproximadamente US$ 2), considerando os outros componentes do dispositivo, como a caixa que o enjoa e a tela que mostra o resultado da meditação.

“Estamos falando de um dispositivo descartável de uso seguro, que poderia ser distribuído à população para monitorar a qualidade da água em sua própria casa”.

Thiago Paixão, Instituto de Química da Universidade de São Paulo, Brasil

Se uma empresa fosse fabricada em grande escala, o dispositivo seria convertido em um aparelho portátil e barato e poderia ser produzido em qualquer parte do mundo depois de Paixão.

Um dos principais desafios de garrafa enfrentados por pesquisadores é que muitas empresas não têm interesse em produzir novas tecnologias para considerar incipientes. “Seria necessário realizar inversões para promover a transferência de tecnologia para a indústria, através de acordos de licença e desenvolvimento de colaborações, o que nem sempre é fácil ou rápido”, disse o químico José Luiz Bott Neto, do Instituto de Física de São Paulo. Carlos (IFSC) da USP, que não participou do estudo em Sensors & Diagnostics .

No entanto, além do uso de nanopartículas de ouro ser prometido, isso aumenta a condutividade do papel e intensifica a sensibilidade do sensor. “O dispositivo também é sustentável, já que é fabricado com material biodegradável, para reduzir o impacto ambiental de sua eliminação”, comentou.

O pesquisador está em contato com algumas empresas interessadas, como a Empresa de Saneamento Básico do Estado de São Paulo, uma das maiores do mundo em termos de ingressos e população atendida pelos serviços prestados (28,4 milhões de pessoas).

A equipe espera patentear a tecnologia no escritório brasileiro de patentes antes do final do ano.

Sensores de papel, usos múltiplos

O potencial dos sensores de papel para diversas aplicações é enorme, especialmente em ambientes com recursos limitados. São simples de fabricar, econômicos, fáceis de operar, portáteis e desmontáveis, e atraem cada vez mais a atenção de vários grupos de investigação no Brasil.

Científicos do Instituto de Química da Universidade Federal de Goiás, por exemplo, criaram um sensor de papel capaz de medir os níveis de glicose na lágrima de indivíduos com diabetes

O dispositivo funciona como sensores de embarque portáteis, podendo dar uma resposta positiva ou negativa, mas também quantitativa. É composto por papel de filtro impregnado com reativos químicos que mudam de cor ao entrar em contato com a glicose na lágrima. Quanto mais azul se volta o papel, mais alterado é o nível de açúcar em sangue.

Assim, o paciente só precisa tirar um olhar para obter o resultado em minutos, sem ter que apertar o dedo. “Cada sensor cuesta alrededor de R$ 0,10 (aproximadamente US$ 0,02), por lo que cremos que resultaria em um horror para o sistema público de saúde, responsável por comprar e distribuir o aparelho para medir a glicose, as tiras reativas e lancetas”, assinalou a química Ellen Flávia Moreira Gabriel, uma das inventoras do dispositivo.

No IFSC-USP, um pesquisador desenvolveu um sensor eletroquímico de papel kraft capaz de detectar a presença de pesticidas em frutas e verduras em tempo real.

Ao entrar em contato com maçãs ou repolhos, por exemplo, o sensor, conectado a um dispositivo eletrônico, identifica a presença e mede a quantidade do fungicida carbendazim , amplamente utilizado no Brasil, apesar de ser proibido.

“É muito mais fácil e barato, além de muito mais confiável para que supermercados, restaurantes ou importadores realizem a verificação”, disse o físico Osvaldo Novais de Oliveira Junior, professor do IFSC-USP, um dos autores do dispositivo.

Acesse o artigo completo sobre Sensor e Diagnóstico


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Este artigo foi produzido pela edição da América Latina e Caribe do  SciDev.Net e publicado aqui [Aqui!]

Parlamento canadense recebe e aplaude de pé membro de unidade nazista na Segunda Guerra

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Yaroslav Hunka, membro de unidade ucraniana da SS alemã, recebeu “standing ovation” do parlamento canadense

O parlamento do Canadá e o governo de Justin Trudeau estão passando por uma tremenda saia justa após ter recebido e oferecido duas rodadas de aplausos em pé ao veterano nazista Yaroslav Hunka, membro de uma temida unidade ucraniana que fez parte da Schutzstaffel  (SS) criada por Heinrich Himmler. É importante lembrar que depois de conquistar um novo canto da Europa durante a 2a. Guerra Mundial, os comandantes nazistas convocavam voluntários para se inscreverem na (SS), um corpo de elite leal ao Partido Nazista, distinto do exército alemão.

Um dos problemas com essa recepção a um membro de uma temida unidade nazista que cometeu graves atrocidades durante a 2a. Guerra Mundial é a de reforçar a narrativa russa de que os países ocidentais estão apoiando um regime que é sustentado por forças políticas às ideias e práticas do regime imposto por Adolf Hitler na Alemanha.

Com uma guerra custosa e que se arrasta nos campos de batalha sem soluçõa militar à vista, esta recepção a Jaroslav Hunka pode aumentar ainda mais a oposição ao envio de armas e dinheiro para a Ucrânia.