Professor da UERJ analisa criticamente o voto de Alexandre de Moraes na ação do marco temporal no STF

Protocolado no recurso extraordinário pela Conectas Direitos Humanos, documento cita soluções propostas pelo ministro como “inadequadas e incompatíveis com a Constituição” e se manifesta contrário à indenização prévia

marco temporal

São Paulo, 29 de agosto de 2023 – Em parecer elaborado a pedido da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos D. Paulo Evaristo Arns – Comissão Arns e protocolado no recurso extraordinário (RE 1017365) pela Conectas Direitos Humanos no início do mês, o professor Daniel Sarmento, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, criticou o voto do ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), no âmbito da ação sobre o marco temporal das terras indígenas. No documento, Sarmento avaliou as soluções propostas pelo ministro como “inadequadas e incompatíveis com a Constituição”, pois geram “graves danos” aos direitos dos povos indígenas, à segurança jurídica e à proteção do meio ambiente. O Supremo retomará o julgamento na próxima quarta-feira (30/08). 

Em seu parecer, o constitucionalista se manifesta contrário à proposta de indenização prévia formulada no voto. Conforme disposto pelo ministro Alexandre de Moraes, diante de controvérsias judiciais, a União deve pagar indenização prévia aos ocupantes não indígenas das terras a fim de garantir a segurança jurídica. Os pagamentos seriam “em dinheiro ou em títulos da dívida agrária, tanto em relação a terra nua quanto as benfeitorias necessárias e úteis realizadas”. 

O professor Daniel Sarmento argumenta que, embora considere legítima a preocupação com a segurança jurídica dos ocupantes não indígenas que tenham agido de boa-fé, a indenização da terra nua na demarcação foi “expressamente vedada” pela Constituição. Para ele, essa proposta resultaria em gastos vultosos para os direitos territoriais dos povos indígenas e causaria uma série de atrasos nas demarcações, que poderiam se tornar inviáveis.  

Além disso, o caráter prévio das indenizações demonstraria uma “inversão de valores constitucionais”, priorizando os interesses patrimoniais dos não indígenas em detrimento dos direitos territoriais dos povos indígenas. “Tal sistema, além de afetar severamente os povos indígenas, prejudicaria também o meio ambiente, em cenário de emergência climática, já que os povos originários são os verdadeiros guardiões das florestas”, diz o parecer. 

“Caso o marco temporal seja aprovado, caberia a hipótese da indenização se o aspecto prévio fosse eliminado, e apenas após minuciosa análise de caso a caso, para garantir que o ocupante não indígena da terra esteja agindo de boa-fé há muitas décadas, mas que tenha sido atraído por ato ilegal do Poder Público com aparência de regularidade”, diz o advogado Oscar Vilhena Vieira, membro da Comissão Arns e diretor da Escola de Direito da FGV (Fundação Getúlio Vargas), em São Paulo.  

Outra proposta do voto do ministro Alexandre de Moraes, a concessão de terras equivalentes aos povos indígenas afetados também não encontra lastro constitucional, de acordo com o professor Sarmento. Além disso, “não se sustenta, diante da natureza espiritual da relação dos indígenas com o seu território tradicional, o que torna a respectiva área absolutamente infungível”. Os requisitos de “interesse público” e “paz social”, defendidos no voto para essa proposta, são considerados vagos e insuficientes para garantir a proteção dos direitos dos povos indígenas, conforme o documento. 

Confira o parecer na íntegra neste link. 

Sobre a Comissão Arns  

Criada em fevereiro de 2019, a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos Dom Paulo Evaristo Arns – Comissão Arns busca dar visibilidade e acolhimento institucional a graves violações da integridade física, da liberdade e da dignidade humana, especialmente as cometidas por agentes do Estado contra pessoas e populações discriminadas – como negros, indígenas, quilombolas, pessoas LGBTQIA+, mulheres, jovens, comunidades urbanas ou rurais em situação de extrema pobreza. A Comissão Arns trabalha em rede com outras organizações sociais para detectar casos, dar suporte a suas denúncias públicas, encaminhar questões aos órgãos do Judiciário e organismos internacionais, promover ações específicas junto a lideranças políticas e mobilizar a sociedade. Seu trabalho é apartidário e congrega figuras públicas de formações distintas, mas complementares, todas elas comprometidas com a defesa da dignidade da pessoa humana.  

Em seu nome, a Comissão destaca a figura do Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns (1921-2016), Arcebispo Emérito de São Paulo. Em 1972, Dom Paulo criou a Comissão Justiça e Paz de São Paulo, porta aberta no acolhimento das vítimas da repressão política e policial no país. Ao homenageá-lo, a Comissão reconhece esse exemplo de resistência, resiliência e, sobretudo, de esperança para os brasileiros em tempos difíceis.  

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Luciana Gatti: ‘A Amazônia não está mais compensando o estrago humano’

A cientista, que apontou a perda da capacidade da floresta de absorver o gás carbônico emitido por ação humana, mostra em novo estudo que os efeitos do desmatamento sob Bolsonaro foram equivalentes, para o clima, aos do pior El Niño já registrado

gatti

Por Cláudia Antunes, do Rio de Janeiro para o “Sumaúma”

Luciana Vanni Gatti é uma cientista indignada com a destruição da Amazônia e com os que se negam a enxergar as consequências da derrubada da floresta para o Brasil e o mundo. “Meu motor número 1 é tentar abrir a cabeça das pessoas para isso”, diz a coordenadora do Laboratório de Gases de Efeito Estufa do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Gatti lidera um grupo de pesquisadores que foram os primeiros a demonstrar que a maior floresta tropical do planeta já não consegue mais remover da atmosfera todo o gás carbônico – o principal causador do efeito estufa – lançado no ar da Amazônia por atividades humanas como o desmatamento e as queimadas. Agora, ela acaba de publicar na revista Nature o resultado do estudo mais recente que dirigiu e que mapeia o “efeito Bolsonaro” sobre a destruição da mata na região. Apesar dos dados desanimadores que encontrou, a cientista afirma que ainda há tempo de reverter esse processo. “Se hoje fizermos queimada zero, desmatamento zero, a Amazônia passará a ser um sumidouro de carbono”, afirma, em referência à capacidade da floresta de voltar a absorver mais gás do efeito estufa do que é emitido.

Uma primeira versão do artigo já havia sido divulgada em setembro do ano passado em preprint – um texto que ainda não passou pela avaliação de outros cientistas. Agora, ganha o endosso de uma das publicações científicas de maior prestígio no mundo. O estudo analisa as emissões de gases causadores do efeito estufa na Amazônia em 2019 e 2020, os dois primeiros anos do governo do extremista de direita Jair Bolsonaro. Nesse período, as emissões chegaram muito perto das registradas durante o pior El Niño de que se tem notícia, entre 2015 e 2016. Esse fenômeno de aquecimento das águas do oceano Pacífico causa seca e redução das chuvas no norte do Brasil, favorecendo a propagação dos incêndios na mata. E a queima das árvores libera carbono na atmosfera. “Bolsonaro e Ricardo Salles merecem o apelido de ‘El Niño brasileiro’”, diz Gatti, referindo-se também ao ministro do Meio Ambiente de janeiro de 2019 a junho de 2021.

Os dados colhidos pelo Laboratório de Gases de Efeito Estufa mostraram que as emissões de gás carbônico (CO2) e de monóxido de carbono (CO) – gases causadores do efeito estufa que possuem o carbono em sua composição – aumentaram 89% em 2019, em relação à média registrada entre 2010 e 2018, e 122% em 2020, na comparação com os mesmos nove anos. De maneira geral, isso significa que durante os dois primeiros anos do governo Bolsonaro a floresta teve mais dificuldade de absorver o carbono lançado no ar pelas ações dos humanos, como o desmatamento e a degradação da mata – quando apenas parte das árvores é cortada para a venda ou quando o fogo atinge a floresta em pé, queimando apenas parte dela.

As plantas da floresta estocam carbono na fotossíntese, processo pelo qual se alimentam. Elas absorvem o gás carbônico e o armazenam em suas folhas, troncos e raízes. Quando elas são arrancadas, queimadas ou morrem, esse carbono volta para a atmosfera. “A floresta não está compensando o estrago humano”, afirma a cientista.

Infográfico: Rodolfo Almeida/Sumaúma

Na ausência de uma seca extrema que pudesse explicar o aumento das queimadas e, em consequência, das emissões em 2019 e 2020, Gatti buscou no estudo relacionar esse incremento às políticas bolsonaristas. Para isso, contou com a colaboração de colegas do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes) e do Programa Queimadas (BDQueimadas), ambos do Inpe; do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden); e da equipe da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) que acompanha políticas públicas de controle do desmatamento. No total, 30 pesquisadores assinam o estudo, intitulado Aumento das Emissões de Carbono na Amazônia Devido Principalmente ao Declínio da Aplicação da Lei.

A pesquisa destaca a queda na aplicação e cobrança de multas aos desmatadores pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Sob Bolsonaro, um decreto presidencial – o 9.760, de abril de 2019 – e vários despachos do Ibama dificultaram a autuação por crimes ambientais e facilitaram a prescrição de penalidades. O resultado é que as multas aplicadas na Amazônia diminuíram 30% em 2019 e 54% em 2020, na comparação com a média dos anos de 2010 a 2018. A redução das multas pagas foi de 74% em 2019 e 89% em 2020. Em contrapartida, nos mesmos dois anos o desmatamento aumentou 82% e 77%, respectivamente, e as áreas queimadas cresceram 14% e 42%.

Um marco simbólico da destruição foi o chamado “Dia do Fogo”, em 2019. Entre 10 e 11 de agosto daquele ano, o Inpe constatou 1.457 focos de calor no Pará, com epicentro na cidade de Novo Progresso, no sudoeste do estado. Isso representou um aumento de 1.923% em comparação com os mesmos dias do ano anterior, segundo levantamento do Greenpeace. Somente no dia 10, houve 715 focos de incêndio, 707% mais do que no dia anterior, 9 de agosto, quando ocorreram 101 focos. Investigações da polícia mostraram que fazendeiros de Novo Progresso tinham feito uma vaquinha para comprar combustível e incendiar a mata. O levantamento do Greenpeace, porém, revela que só 5% das 207 propriedades em que houve queimadas foram multadas.

 Imagem aérea de queimadas na região de altamira, município no estado do pará, em 2019, durante o mandato de jair bolsonaro. Foto: victor moriyama/greenpeace imagem aérea de queimadas na região de Altamira, município no estado do Pará, em 2019, durante o mandato de Jair Bolsonaro. Foto: Victor Moriyama/Greenpeace

Quando ocorreu o Dia do Fogo, Bolsonaro enfrentava críticas internacionais por causa do aumento do desmatamento. Ele havia travado uma discussão pública com o presidente da França, Emmanuel Macron, e a Alemanha suspendera doações para o setor ambiental brasileiro. As queimadas seriam uma manifestação dos ruralistas de apoio ao presidente. Em janeiro de 2022, num evento de lançamento de crédito agrícola do Banco do Brasil, Bolsonaro comemorou a queda na autuação durante seu governo. “Paramos de ter grandes problemas com a questão ambiental, especialmente no tocante à multa. Tem que existir? Tem. Mas conversamos e nós reduzimos em mais de 80% as multagens [sic] no campo”, disse. Sete meses depois do discurso de Bolsonaro, em 22 de agosto, os focos de queimadas superaram os do Dia do Fogo: foram 3.358 em toda a Amazônia, dos quais 1.126 no Pará.

Infográfico: Rodolfo Almeida/Sumaúma

O estudo publicado na Nature constatou que, em 2019 e 2020, a maior parte do aumento das emissões se deveu à queima de florestas ainda em pé, que tem um efeito prolongado de degradação da vegetação – o mais comum é que as árvores primeiro sejam derrubadas e em seguida incendiadas. “A degradação em 2019 e 2020 foi gigantesca”, comenta Gatti. “[Os criminosos] entraram em terras protegidas, em terras indígenas, para pegar terra pública e queimaram floresta viva”, diz. “Como o fogo entra por baixo da mata, o satélite não pega bem. Quando o fogo apaga, continua havendo emissão de carbono porque a árvore está morrendo, está se decompondo. As emissões de decomposição superaram as emissões de queimadas”, explica ela. A dificuldade de captar em tempo real esse tipo de destruição ajuda a entender por que o crescimento dos focos de incêndio detectados nos dois primeiros anos de Bolsonaro foi menor que o das áreas queimadas: 3% em 2019 e 22% em 2020.

Infográfico: Rodolfo Almeida/Sumaúma

O artigo traz ainda dados que indicam para que foram usadas as áreas de floresta destruídas naqueles dois anos. O número de cabeças de boi na Amazônia aumentou 13% no biênio, enquanto diminuiu 4% no resto do país. A área plantada de soja cresceu 68%, e a de milho, 58%. A exportação de madeira bruta explodiu, aumentando 683%. Em fevereiro de 2020, um despacho do então presidente do Ibama, Eduardo Bim, acabou com a exigência de que essa exportação fosse autorizada pelo órgão, com exceção de espécies de árvore sob risco de extinção. Para as demais, bastava uma autodeclaração de que a madeira tinha origem legal.

Em 2021, Bim e Ricardo Salles passaram a ser investigados pela Polícia Federal por suposto envolvimento na exportação ilegal de madeira para os Estados Unidos e a Europa. Por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), o presidente do Ibama foi afastado do cargo por 90 dias. Salles acabou caindo do ministério, mas no ano passado foi eleito deputado federal por São Paulo, pelo PL, com 640 mil votos, a quarta maior votação para a Câmara no estado. O inquérito ainda não foi concluído.

O dominó da destruição

É a terceira vez que Luciana Gatti aparece como primeira autora em um artigo na Nature – os outros foram publicados em 2014 e 2021. Todos estão relacionados a suas pesquisas sobre os impactos da floresta amazônica no clima regional e global e vice-versa, porque, assim como a destruição da Amazônia influencia o clima do planeta, as mudanças climáticatambém prejudicam a floresta brasileira. Essa investigação começou nos anos 1990, quando o cientista Carlos Nobre buscou recursos e parcerias no exterior para criar, no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), o Programa de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia, conhecido pela sigla em inglês LBA. O LBA ajudou a formar uma geração de cientistas brasileiros especializados em mudanças climáticas e ambientais, entre os quais Luciana Gatti. Química de formação, especialista na medição de gases do efeito estufa, ela foi estudar outras áreas, como meteorologia, para entender os resultados que obtinha.

Luciana Gatti confere equipamento usado para coletar amostras de ar na amazônia. as análises são feitas no laboratório do INPE, em São José dos Campos, estado de São Paulo. Foto: Maíra Erlich/Sumaúma

Na época, as primeiras medições do balanço de carbono na Amazônia – isto é, se a região mais emite ou absorve – foram feitas com o uso de torres de 80 metros para a coleta de amostras de ar. Logo se descobriu, porém, que os dados obtidos dessa forma eram insuficientes para representar toda a região, pois só mediam a quantidade de carbono naquele local específico.

Foi então que veio o projeto de usar aviões para recolher amostras de ar da Amazônia a diferentes distâncias do solo, em altitudes que vão de 300 metros a 4,4 quilômetros, inspirado no que já era feito em outros lugares pela Agência Nacional de Oceanos e Atmosfera dos EUA (NOAA, na sigla em inglês). Isso permite a representação de áreas mais amplas. O projeto foi concretizado com a criação do Laboratório de Gases de Efeito Estufa, que fez suas primeiras medições em 2010 e hoje recolhe amostras em quatro áreas, que representam as regiões nordeste, sudeste, sudoeste e noroeste da Amazônia. “Se você vai descendo e a concentração de CO2 vai diminuindo, significa que a superfície está removendo CO2 da atmosfera. Se ela vai aumentando, significa que a superfície é uma fonte, está emitindo CO2”, explica Gatti. “Isso consegue te contar se a Amazônia é uma fonte ou um sumidouro de carbono [absorve mais gás do que é emitido].”

Infográfico: Rodolfo Almeida/Sumaúma

No artigo publicado na Nature em 2021, com base nos dados de 2010 a 2018, a cientista já afirmava que a capacidade da floresta amazônica de absorver todo o carbono lançado na atmosfera da região estava em declínio. Naquele texto, ela mostrava que as emissões eram maiores do que a absorção no entorno de Santarém, no Pará, e de Alta Floresta, em Mato Grosso, que ficam no lado leste da Amazônia, historicamente mais desmatado. Na época, as regiões no entorno de Tefé, no Amazonas, e Rio Branco, no Acre, ambas no oeste amazônico, ainda absorviam mais carbono do que emitiam. Em 2019, porém, a área nas proximidades de Tefé já virou emissora. Em 2020, isso ficou patente também nas medições feitas próximo a Rio Branco. “O desmatamento aumentou absurdamente em Mato Grosso, Rondônia, Roraima, sul do Amazonas e Acre”, diz Gatti.

De acordo com as informações do Laboratório de Gases de Efeito Estufa, em apenas três dos 11 anos entre 2010 e 2020 – 2011, 2017 e 2018 – o balanço das emissões de carbono na região amazônica como um todo foi neutro ou negativo, isto é, houve, em média, mais absorção do que emissões. Em 2010, as emissões aumentaram, apesar de o desmatamento ter caído em relação ao ano anterior, mas houve outro El Niño. Em 2011 e 2018, ocorreu o fenômeno La Niña, que tem efeito oposto – as águas do Pacífico ficam mais frias, e isso provoca mais chuvas na Amazônia.

Luciana Gatti, porém, não estava plenamente satisfeita com as explicações de que dispunha para o balanço das emissões na Amazônia. Embora o desmatamento seja uma causa direta do aumento das emissões de carbono, ela ficou intrigada com o fato de não haver uma relação proporcional entre o desmate acumulado e essas emissões. Por exemplo, uma região que já tinha perdido 27% da mata nativa emitia oito vezes mais do que outra que estava 11% desmatada – e não quase três vezes mais, como uma conta matemática simples permitiria deduzir. Aí veio a pesquisa que lhe proporcionou seu “maior aprendizado”, no sentido de entender que a floresta que resta está sendo modificada pelo desmatamento.

Analisando os dados mensais de chuvas e temperaturas durante 40 anos para cada uma das quatro regiões cobertas pelas coletas do laboratório, ela verificou que nas áreas mais desmatadas tinha havido maior redução de chuvas e aumento da temperatura, especialmente na estação seca. Na Amazônia, essa estação ocorre quando a floresta recebe menos vapor de água do oceano e a formação de chuva depende mais do processo de transpiração das árvores ou da evaporação dos rios. Nas áreas mais desmatadas, existem menos árvores para compensar essa perda de chuva.

Uma estação seca mais quente e com menos precipitação “estressa” a floresta, define Gatti. Numa floresta estressada, mais árvores morrem e as que continuam de pé são mais inflamáveis. “A floresta amazônica é como um jogo de dominó, em que tudo está correlacionado”, afirma a cientista. “Quando você desmata, você não emite só carbono, você reduz a chuva e aumenta a temperatura, o que vai fazer a floresta ficar mais seca. Quando o ser humano desmatar e tacar fogo [em uma área que será usada para pasto ou plantação], a floresta que não foi desmatada vai estar seca, e o fogo vai entrar muito mais”, exemplifica ela. “É esse conjunto de cenários que explica as emissões na Amazônia.”

O estudo recém-publicado na Nature mediu o impacto do desmatamento nos dois primeiros anos do governo Bolsonaro na temperatura e nas chuvas. Em 2019, não houve alteração significativa em relação à média registrada nos anos entre 2010 e 2018. Em 2020, porém, foi constatada queda de 12% na precipitação anual. Diferentemente do verificado nas medições anteriores, essa queda se concentrou na estação chuvosa – janeiro, fevereiro e março tiveram 26% menos chuva. Nos mesmos três meses, a temperatura subiu 0,6 ºC. Uma menor precipitação na estação chuvosa, por sua vez, tem impacto na estação seca, porque se traduz em menos umidade disponível e a floresta pega fogo mais facilmente. “Na pandemia, eu fiquei sozinha, estudando sem parar, e foi isso que foi vindo à tona, essa visão integrada da destruição de uma floresta pelos brasileiros estúpidos, involuídos, que só conhecem o modelo econômico de 50 anos atrás”, desabafa Gatti.

Os jalecos e os livros usados em estudos sobre mudanças climáticas, no escritório de luciana gatti, no inpe. Foto: Maíra Erlich/Sumaúma

A floresta e o mundo

A cientista ressalta que os dados desanimadores constatados em suas pesquisas precisam ser vistos num quadro mais amplo. Embora esteja sob uma pressão cada vez maior, a vegetação amazônica, que representa cerca de 50% das florestas tropicais do mundo, ainda atua como reguladora do clima. Ela faz isso tanto por absorver carbono, na fotossíntese, quanto pela chamada “evapotranspiração”, que lança água no ar em forma de vapor. Esse vapor é responsável por 50% da recirculação de água na própria Amazônia e ainda produz chuvas no Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil, para onde é levado pelos ventos, fenômeno que ficou conhecido como “rios voadores”.

Se a atmosfera do planeta não tivesse sido alterada pelas atividades humanas, o balanço de carbono da floresta amazônica seria neutro, explica Luciana Gatti. “Ela é uma floresta madura, e numa floresta madura há um equilíbrio entre emissões e absorções”, diz, lembrando que a vegetação também emite CO2 por meio da respiração e quando está em decomposição. “Mas, como a atmosfera está superenriquecida de gás carbônico, a natureza está sendo estimulada a fazer mais fotossíntese. Essa absorção de carbono não é natural, ela é um desequilíbrio provocado por nós mesmos.”

Gatti cita os números do Projeto Global de Carbono, uma iniciativa científica internacional que calcula o Orçamento Global de Carbono. Segundo esse cálculo, a concentração de gás carbônico na atmosfera passou de 277 partes por milhão em meados do século 18, na era pré-industrial, para 417 partes por milhão em 2022. É isso que está provocando o aumento da temperatura média do planeta e os eventos climáticos extremos que esse aumento acarreta, como secas prolongadas e tempestades atípicas. Nessas circunstâncias, a floresta amazônica e outros ecossistemas brasileiros, como o Pantanal, atuam como um “tampão climático” para o país, diz Gatti. Quando evaporam água, resfriam a atmosfera.

Na última década, foram emitidos no mundo por ano, em média, 35 bilhões de toneladas de carbono pelo uso de combustíveis fósseis (petróleo, carvão e gás natural) e 5 bilhões de toneladas por causa de mudanças no uso da terra, como o desmatamento. Do total de 40 bilhões, segundo o Orçamento Global de Carbono, 19 bilhões ficaram na atmosfera, outros 11 bilhões foram absorvidos pelas florestas e 10 bilhões pelos oceanos, por meio do fitoplâncton, formado por organismos como as algas, por exemplo, que também fazem fotossíntese. “Se a própria natureza não estivesse se alterando para compensar o estrago que a gente está fazendo, a nossa situação seria muito pior”, afirma a cientista. “Mas até quando a natureza vai conseguir fazer esse trabalho de limpar nossa sujeira?”

O estudo publicado na Nature busca uma conclusão que não seja pessimista sobre o futuro da floresta amazônica. Enumera políticas que levaram à redução contínua do desmate entre 2004 e 2012, como o primeiro Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDam), lançado em 2004, e a implementação no mesmo ano do Deter, sistema de monitoramento por satélite que permite detectar o desmatamento quase em tempo real. Lista também as iniciativas que foram minando a vigilância, como o Código Florestal de 2012, que anistiou 58% do desmatamento ilegal ocorrido até 2008 e deu 20 anos de prazo aos proprietários de terras para regularizarem sua situação. Ainda em 2018, no governo de Michel Temer, o Ibama retirou a autonomia dos agentes em campo para destruírem equipamentos usados para destruir a floresta.

Comparando os períodos de 2010 a 2014 e de 2016 a 2020, o estudo mostra que, no último deles, quando o ritmo do desmatamento voltou a aumentar, as emissões na Amazônia cresceram 50% e as emissões especificamente por queimadas subiram 16%. Já a absorção de carbono diminuiu 31%. Isso indica, afirma o artigo, que políticas públicas são importantes para prevenir o desmate, a degradação florestal e o fogo. Pelas contas de Luciana Gatti, o fim das queimadas e do desmatamento deixaria a floresta em condições de compensar, de novo, o gás carbônico jogado na atmosfera pelas atividades dos humanos.

A cientista já se dedica a uma nova pesquisa, que tem entre os parceiros o Carnegie Science, dos Estados Unidos. Joseph Berry, cientista veterano do instituto americano, descobriu que o composto conhecido como COS, o sulfeto de carbonila, formado por 1 átomo de carbono, 1 de oxigênio e 1 de enxofre, funciona como um “traçador de fotossíntese”. A planta não vê diferença entre o COS, que ocorre naturalmente na atmosfera, e o dióxido de carbono (CO2). Assim absorve os dois quando se alimenta. Quando ela respira, porém, produz apenas CO2 e, portanto, não devolve o COS à atmosfera. “A redução do COS nas amostras de ar é proporcional à fotossíntese”, explica Gatti. Dito de outra forma, a redução da presença de COS no ar pode dar uma medida mais exata da quantidade de CO2 que a vegetação absorveu ao se alimentar. “A gente vai finalmente poder dizer se a floresta estressada pelo desmatamento, pelo aumento da temperatura, está absorvendo menos carbono do que a floresta mais preservada”, antecipa-se, animada.


Checagem: Plínio Lopes
Revisão ortográfica (português): Elvira Gago
Tradução para o espanhol: Julieta Sueldo Boedo
Tradução para o inglês: Diane Whitty
Edição de fotografia: Lela Beltrão
Montagem da página: Érica Saboya

A cientista em seu local de trabalho: ‘a gente vai finalmente poder dizer se a floresta está estressada pelo desmatamento’. Foto: Maíra Erlich/Sumaúma


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Este texto foi originalmente publicado pelo jornal Sumaúma [Aqui!].

Novo estudo mostra que o Glifosato provoca dano celular em organismos bioindicadores

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Em nossa rotina diária, eles passam despercebidos, mas os líquens – organismos formados por associação entre algas e fungos, por meio de uma relação harmônica entre as duas espécies diferentes – indicam a boa qualidade do ar. Ou seja, são bioindicadores. Estudos apontam que liquens em áreas de Preservação Permanente (APP) do Cerrado brasileiro são afetados pelo glifosato, um herbicida utilizado na agricultura para controlar ervas daninhas. Pesquisadores do Instituto Federal Goiano (IFGoiano) concluíram que a estrutura dos talos, a capacidade de realizar fotossíntese e metabolizar substâncias são danificadas pelo produto, segundo estudo publicado nesta segunda (28) na revista “Brazilian Journal of Biology”.

Os dados mostram que os líquens expostos a maiores quantidades do herbicida têm mais células mortas. Em algumas espécies, a concentração de clorofila e a absorção da luz usada na fotossíntese também diminui. O estudo foi realizado a partir da coleta de duas espécies de liquens presentes em uma APP no município de Caiapônia, em Goiás, após serem retirados de troncos de árvores. A amostra foi analisada em laboratório do IFGoiano para investigar seu comportamento em diferentes concentrações e tempos de exposição ao glifosato.

Ao ser pulverizado sobre a plantação, o glifosato é carregado por correntes aéreas. E como os liquens são sensíveis à presença do herbicida, quando pulverizados, podem bioindicar a presença do poluente no ar, mesmo não estando expostos diretamente ao produto aplicado sobre áreas de produção agrícola. Segundo Luciana Vitorino, autora do estudo, a propagação não intencional do produto é o foco da investigação. “Nós queríamos avaliar o potencial destes líquens como bioindicadores da dispersão desse herbicida a partir de áreas agrícolas, impactando todas as comunidades residentes em áreas de vegetação nativa inseridas nas regiões agrícolas”, afirma a pesquisadora.

Outros estudos na área apontam que o consumo de glifosato causa vários problemas de saúde, incluindo câncer em seres humanos, que podem consumir o herbicida indiretamente por meio de alimentos contaminados. “O glifosato passou a ser tão comum nas práticas agrícolas que vários países europeus estão estudando banir sua utilização nos próximos anos dada a sua toxicidade”, explica Vitorino.

Os autores esperam que outros estudos consigam identificar a presença do herbicida em áreas urbanas e comunidades próximas de APP, locais em que a aplicação do produto não é esperada. Isso é importante considerando os danos que o herbicida causa em seres humanos e organismos vivos. Mais análises sobre os efeitos do produto também podem identificar como outras espécies de líquens respondem ao glifosato e de que forma podem ser ameaçadas conforme a agricultura avança sobre áreas naturais.

“doravante” trama coletividades por uma arqueologia do futuro

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O livro doravante, de Monique Lima, nasceu pela Editora Arpillera, que produz livros artesanais. O lançamento foi realizado no dia 5 de julho, e cada exemplar é produzido, costurado e numerado manualmente.

A obra doravante coloca as pessoas leitoras dentro de uma cidade ocupada por coletivos de mulheres. Porém, assim como as sensações, pensamentos e sentimentos prismáticos próprios do feminino, outras paisagens podem ser tateadas por meio das palavras tecidas com pelos e carnes, entre gerações. O livro versa sobre a liberdade e o seu cerceamento, trama segredos e revelações com o desejo de uma prosa-poética que seja capaz, pela observação crítica, de engravidar leitoras e leitores de vida.

O posfácio é assinado pelo coletivo político-cultural anticapitalista Trunca. O texto revela: “Mais e além do que uma arqueologia do passado, a autora faz uma arqueologia do futuro, construindo pontes com blocos de cartas, bilhetes, fragmentos de sonhos e palavras entre o que há e o que queremos, o que temos e o que almejamos. Esse parece ser o grande gesto organizador da obra: a construção de pontes, como mãos estendidas que buscam reunir os cacos da vida despedaçada e convocam o fortalecimento dos laços de afeto, envolvimento e troca”.

Monique é letrista de música, artista de rua e de rádio. Nascida na Baixada Fluminense (RJ), descende da comunidade nordestina que habita a Zona Norte do subúrbio carioca. Educadora e pesquisadora, atua com cultura e política. Fez doutorado em Cultura, no Programa de Sociologia da Unicamp.

A Editora Arpillera cria projetos sensoriais únicos para cada original, selecionando técnicas, materiais e formatos que dialoguem com os textos. Nessa obra, a editora criou uma costura do tipo correntinha e trouxe um projeto gráfico que traz a sensação de abrir um caderno clandestino de guardados, uma “arqueologia do futuro” composta por textos em letra cursiva e até uma carta anexada.

O livro doravante já está à venda no site da editora.

Link para adquirir:

https://editoraarpillera.minhalojanouol.com.br/doravante—monique-lima/p

Site da editora: www.editoraarpillera.com.br

Links Monique: https://linktr.ee/outrotempomonique

Instagram: @editoraarpillera e @outrotempo_moniquelima

Temperaturas nas copas das árvores nas florestas tropicais estão em um ponto crítico

amazonia meandroUma vista como um dossel sem fim, a floresta amazônica cobrindo cerca de 60% do Peru. Um estudo alertou que, à medida que as mudanças climáticas continuam, “copas inteiras poderão morrer”. Direitos autorais: Diego Perez / Serviço Florestal do USDA (Marca de Domínio Público 1.0)

A copa – muitas vezes a mais de 30 metros acima do solo – consiste em galhos e folhas sobrepostos de árvores florestais. Os cientistas estimam que entre 60 e 90% da vida florestal se encontra ali.

Esta densa camada florestal também captura dióxido de carbono da atmosfera, actuando como um chamado “sumidouro de carbono”, ajudando a conter o aquecimento global e os seus efeitos nas comunidades vulneráveis , particularmente no Sul global.

O estudo internacional, publicado hoje (23 de agosto) na Nature, analisou dados de todas as florestas tropicais do mundo.

“Nosso modelo não é o destino. Sugere que, com alguma mitigação climática básica, podemos resolver esta questão.”

Christopher Doughty, professor associado de ecoinformática, Northern Arizona University

Pesquisadores liderados por Christopher Doughty, professor associado de ecoinformática na Northern Arizona University, EUA, analisaram a variação das temperaturas das folhas nas copas das florestas e como elas poderiam ser afetadas pelas mudanças climáticas .

Eles calcularam que as florestas tropicais poderiam atingir um “ponto de inflexão” crítico se a temperatura do ar subisse 4 graus Celsius.

As florestas tropicais, que abrigam dois terços da biodiversidade mundial, estão a aquecer, diz Doughty.

“Em nossa pesquisa, detalhamos quanto aquecimento eles podem suportar”, disse ele ao SciDev.Net .

“Isto é importante porque quantifica quanto menos carbono a sociedade deveria colocar na atmosfera para evitar este potencial colapso das florestas tropicais.”

Os pesquisadores descobriram que algumas folhas individuais de uma copa podem ser muito mais quentes do que a temperatura média da copa.

“Uma pequena percentagem de folhas tropicais já está a atingir, e ocasionalmente a ultrapassar, as temperaturas às quais já não conseguem funcionar – sugerindo que, à medida que as alterações climáticas continuam, copas inteiras podem morrer”, alerta o estudo.

No passado, medir com precisão as temperaturas das folhas e das copas das florestas tropicais era difícil e demorado.

Estação Espacial Internacional

Mas, ao combinar medições terrestres de temperaturas individuais de folhas tropicais, experimentos de aquecimento de folhas de três continentes e dados de alta resolução de um novo instrumento de imagem térmica da NASA a bordo da Estação Espacial Internacional (ISS), os pesquisadores construíram uma compreensão abrangente de temperaturas atuais das folhas das florestas tropicais.

Esta visualização mostra uma visão global dos dados de altura da floresta coletados pelo instrumento GEDI a bordo da Estação Espacial Internacional. Marrom e verde escuro representam vegetação mais curta. Verde brilhante e branco representam vegetação mais alta. Esta visualização utiliza dados coletados entre abril de 2019 e abril de 2020. A altura é exagerada para representar a variação nesta escala.
Adaptado do Estúdio de Visualização Científica da NASA

A equipe foi então capaz de modelar como se pode esperar que essas temperaturas mudem diante do contínuo aquecimento global induzido pelo homem.

“Pela primeira vez, este trabalho combina todos os conjuntos de dados de experimentos de temperatura e aquecimento foliar de florestas tropicais de todo o planeta, usa um novo satélite térmico da NASA e combina esses dados em um modelo para simular possíveis situações climáticas futuras”, diz Doughty.

“Em essência, medimos exclusivamente as temperaturas de folhas individuais em todas as florestas tropicais e usamos isso para prever o destino das florestas tropicais.”

Os investigadores usaram os dados para estimar a proporção de folhas que podem aproximar-se de temperaturas críticas sob futuros aumentos nas temperaturas do ar de 2 graus Celsius, 3 graus Celsius e 4 graus Celsius, que são vários cenários de aquecimento sob as alterações climáticas.

Para fazer isso, eles agregaram dados de experimentos de aquecimento das folhas superiores do dossel do Brasil, Porto Rico e Austrália.

“Ficámos realmente surpreendidos porque, quando aquecemos as folhas apenas alguns graus, as temperaturas mais elevadas das folhas aumentaram 8 graus Celsius”, diz Doughty.

Uma copa de floresta enevoada em Uganda.  Foto de Douglas Sheil/CIFOR

Uma floresta enevoada e ondulada em Uganda. Pesquisas anteriores mostraram que as árvores estão morrendo em ritmo acelerado. Foto de Douglas Sheil/CIFOR

O estudo mostrou que mais de um por cento das folhas nos experimentos de aquecimento da copa excederam os limites críticos de temperatura, estimados em 46,7 graus Celsius, pelo menos uma vez por ano, aumentando a porcentagem de folhas que atualmente ultrapassam esse limite em duas ordens de grandeza. Doughty explica.

Os autores também mediram as temperaturas máximas do dossel em todas as florestas tropicais da América do Sul, África e Sudeste Asiático usando o ECOSTRESS da NASA, um instrumento térmico na ISS que mede a temperatura das plantas. Eles descobriram que durante os períodos secos e quentes, as copas inteiras podem exceder 40 graus Celsius.

Amazônia corre o maior risco

“Nosso modelo não é o destino”, enfatiza Doughty, no entanto.

“Isso sugere que, com alguma mitigação climática básica, podemos resolver esta questão.

“Além disso, ajuda a identificar algumas áreas-chave que necessitam de mais investigação, como se as árvores tropicais podem alterar os seus limites de temperatura superior.”

A investigação concluiu que, como a Amazónia já regista temperaturas ligeiramente mais elevadas do que a Bacia do Congo, corre maior risco.

Pesquisas anteriores demonstraram que as árvores estão a morrer a um ritmo acelerado na Amazónia, em comparação com a África Central, sugerindo que as altas temperaturas podem ser parcialmente responsáveis ​​por este aumento da mortalidade.

“Ao evitar caminhos de altas emissões e desmatamento, podemos proteger o destino desses domínios críticos de carbono, água e biodiversidade”, diz Doughty, acrescentando: “Este estudo deve funcionar como [um] alerta de que se as pessoas não abordarem alterações climáticas, as florestas tropicais podem estar em risco.”

David Schimel, cientista pesquisador sênior do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA em Caltech, na Califórnia, EUA, disse ao SciDev.Net que a pesquisa identifica uma relação entre macroclima e microclima.

“Muitas vezes, os ecologistas fazem inferências sobre as prováveis ​​consequências das mudanças climáticas usando tendências regionais de temperatura e referenciando a biologia aos dados meteorológicos mais prontamente disponíveis”, diz ele.

“[Eles] usam dados ‘reduzidos’ considerando a topografia e a elevação, encostas mais ensolaradas e mais sombreadas, mas raramente consideram o detalhe das variações na vertical dentro de uma copa, em parte porque, como este artigo mostra, este é um esforço de pesquisa significativo. ”

Em contraste, diz Schimel, os pesquisadores deste estudo aproveitaram um instrumento de sensoriamento remoto de última geração que possui “resolução e precisão espacial sem precedentes” para estudar o balanço de energia dentro de uma copa alta.

Ele diz que a pesquisa fornece “alguma precisão à nossa compreensão de como as copas respondem às ondas de calor e demonstra o valor das observações térmicas de alta resolução”.

Schimel duvida que a investigação aumente a motivação do mundo para evitar os cenários de elevadas emissões que já está empenhado em evitar.

“Na minha opinião, o principal valor deste estudo é destacar o quão complicado será capturar os extremos, em oposição às tendências globais lentas, e os seus impactos”, acrescenta.

“Esta é, sem dúvida, apenas uma das muitas maneiras pelas quais as respostas diferem entre extremos e mudanças graduais.”


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Este texto escrito originalmente em inglês foi produzida pela mesa global do SciDev.Net e publicada [Aqui!].

O lado negro da digitalização: a Internet destruidora do clima

A indústria, a investigação e o entretenimento exigem cada vez mais recursos na sociedade digitalizada. Isto também leva a um rápido aumento nas emissões de gases de efeito estufa

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Dado que as capacidades de computação e armazenamento ainda são extremamente baratas, existem poucos incentivos para utilizar estes recursos com moderação. Foto: Adobe Stock / »nd« [M]

Por Joel Schmidt para o “Neues Deutschland”

Quer estejamos ocupados no escritório, stressados ​​na estrada ou em casa, no sofá – quase nenhuma conquista técnica das últimas décadas mudou tanto a nossa vida quotidiana como a Internet. Na viragem do milénio, apenas 360 milhões de pessoas estavam online em todo o mundo. No ano passado, o número subiu para mais de cinco mil milhões. Da comunicação e navegação à transferência de conhecimento, a Internet permite que inúmeras pessoas participem de formas até então desconhecidas. Mas por mais vantagens que a interconectividade do mundo traga consigo, ela também tem as suas desvantagens. Porque a digitalização de quase todas as áreas da vida e com ela a disponibilidade constante de todos os serviços não pode ser separada do consumo de recursos necessários à mera disponibilização da infraestrutura correspondente. O que isso significa? Se a Internet fosse um país, em 2020 teria 2,8% do CO2 do mundo2 ocupa o sexto lugar entre os dez maiores emissores de gases de efeito estufa do planeta. Para efeito de comparação: a Alemanha ficou em oitavo lugar no mesmo ano, com um consumo de cerca de 730 milhões de toneladas de CO2 .

Este aumento no consumo de energia também se reflete no aumento da quantidade de dados em todo o mundo. De acordo com estimativas do Escritório Federal de Assuntos Econômicos e Proteção Climática (BMWK), isso totalizou mais de 50 zetabytes em 2020. São 50 trilhões de gigabytes, um número com 21 zeros. O BMWK coloca isso de forma um pouco menos abstrata: “Se você salvasse essa quantidade de dados em DVDs, a pilha teria 2,6 milhões de quilômetros de altura – o que corresponde a 63 vezes a circunferência da nossa Terra”. a pesquisa é para o ano de 2025 e a empresa de consultoria International Data Corporation (IDC) previu um aumento de 25,5x no volume global de dados, para 175 zetabytes. Estima-se que a quantidade de dados produzidos pela humanidade dobra a cada três anos.

Estes não só devem ser armazenados em algum lugar, mas também processados ​​​​e encaminhados, caso contrário, permanecerão inúteis. Grosso modo, a infraestrutura digital necessária para isso pode ser dividida em duas áreas. Os dados são disponibilizados e armazenados em data centers e depois encaminhados aos respectivos clientes por meio de redes de dados. Embora no caso de dispositivos finais móveis, como laptops ou smartphones, cerca de 80% do consumo de energia na forma de emissões de gases de efeito estufa sejam atribuíveis à produção e o restante à operação contínua, na área de infraestrutura digital. Isso se deve principalmente ao fato de que os servidores e storages (soluções de armazenamento no ambiente de TI) nos data centers estão em constante operação – e, portanto, consomem energia constantemente. Já que cada consulta, por menor que seja, com um mecanismo de pesquisa,

As empresas não têm uma visão geral de seus dados

Os data centers vêm em todos os formatos e tamanhos. O espectro varia de pequenas empresas que o utilizam para processar suas comunicações por e-mail, a centros de informática universitários que o utilizam para realizar suas pesquisas, até grupos automotivos que o utilizam para operar suas linhas de produção. E há também os chamados data centers em hiperescala, que ocupam salas de logística inteiras e são usados ​​para oferecer serviços de computação em nuvem, hospedagem ou streaming. Simon Hinterholzer é pesquisador do Instituto Borderstep para Inovação e Sustentabilidade, que estuda o consumo de energia de data centers na Alemanha há 15 anos. “Em termos de escalas de impacto ambiental, estas são comparáveis ​​desde uma residência privada até uma cidade pequena ou média”, afirma ao “nd”. Até agora, os data centers não são legalmente obrigados a declarar o seu consumo. Hinterholzer e sua equipe examinaram exatamente isso em um estudo para a associação da indústria alemã de informação e telecomunicações Bitkom, entre outros. O resultado: para o período de 2012 a 2022, a indústria pode apresentar um aumento de 90% na capacidade de conexão de TI. No entanto, isto é acompanhado por um aumento nas necessidades de electricidade dos cerca de 50.000 centros de dados em todo o país durante o período mencionado. De onze mil milhões de quilowatts-hora em 2011 para 18 mil milhões de quilowatts-hora no ano passado. Hinterholzer e sua equipe examinaram exatamente isso em um estudo para a associação da indústria alemã de informação e telecomunicações Bitkom, entre outros. O resultado: para o período de 2012 a 2022, a indústria pode apresentar um aumento de 90% na capacidade de conexão de TI. No entanto, isto é acompanhado por um aumento nas necessidades de electricidade dos cerca de 50.000 centros de dados em todo o país durante o período mencionado. De onze mil milhões de quilowatts-hora em 2011 para 18 mil milhões de quilowatts-hora no ano passado. Hinterholzer e sua equipe examinaram exatamente isso em um estudo para a associação da indústria alemã de informação e telecomunicações Bitkom, entre outros. O resultado: para o período de 2012 a 2022, a indústria pode apresentar um aumento de 90% na capacidade de conexão de TI. No entanto, isto é acompanhado por um aumento nas necessidades de electricidade dos cerca de 50.000 centros de dados em todo o país durante o período mencionado. De onze mil milhões de quilowatts-hora em 2011 para 18 mil milhões de quilowatts-hora no ano passado.

Hinterholzer refere-se aos relatórios de sustentabilidade das grandes empresas tecnológicas Amazon, Alphabet e Meta, que mostram que os seus data centers já funcionam em grande parte com energias renováveis. No entanto, uma vez que a energia eólica e os sistemas fotovoltaicos não produzem electricidade a todo o momento ou esta não pode ser armazenada, e a infra-estrutura ainda tem de ser fornecida 24 horas por dia, “nenhum dos centros de dados neste país é capaz de provar que a sua electricidade é disponível a qualquer hora a partir de fontes verdes vem«. É uma questão completamente diferente que os grandes data centers de hiperescala, em particular , consumam enormes quantidades de água para resfriar seus servidores, além de eletricidade para operá-los.

É difícil responder quanto espaço de armazenamento e capacidade do data center é usado por cada empresa. No entanto, é generalizada a ideia de que os recursos correspondentes estão disponíveis quase infinitamente. Isto se aplica especialmente à área de computação em nuvem. O resultado: “Se a capacidade computacional estiver disponível de forma extremamente barata, há poucos incentivos para usar esses recursos com moderação”, diz Hinterholzer. De acordo com a empresa tecnológica californiana Veritas, as empresas alemãs, em particular, destacam-se no que diz respeito ao tratamento inflacionário de dados. Segundo estimativas, 66 por cento de todos os dados armazenados por empresas sediadas neste país são casos de “dados obscuros”. O que se entende por isto são conjuntos de dados que a empresa desconhece, porque ou são inutilizáveis,

Enorme consumo de energia devido a rastreamento e cookies

Anne Mollen, da organização sem fins lucrativos Algorithm Watch, conhece esses exemplos no campo da IA. Nas universidades, nas médias empresas, mas também nas grandes empresas, ainda não foi estabelecido manter os sistemas de IA enxutos. “Simplesmente compram-se novos servidores em vez de sensibilizar para a programação para poupar recursos”, diz ela ao “nd”. Em particular, modelos de linguagem como o ChatGPT requerem uma enorme quantidade de energia, “especialmente tendo em conta que as grandes empresas tecnológicas utilizam centros de dados com emissões muito baixas”. Até agora, a fase de desenvolvimento e formação dos modelos correspondentes tem sido considerada muito intensiva em recursos. Por outro lado, os fabricantes descrevem o consumo na chamada fase de inferência, ou seja, a aplicação concreta, como extremamente baixo. Pode ser verdade, diz Mollen, que o consumo de energia da inferência individual é extremamente pequeno. Este baixo consumo por processo só é relativizado se “isto for feito milhares de milhões de vezes por dia”. Suas declarações são apoiadas pela própria indústria. Já em 2019, Jen-Hsun Huang, CEO do fabricante de processadores Nvidia, e Jeff Barr, do provedor de computação em nuvem Amazon Web Services (AWS), disseram que o aprendizado de máquina na verdade é responsável por cerca de 90 por cento. do consumo de energia cai apenas para essa fase de inferência.

A situação é semelhante com outras aplicações digitais que se tornaram indispensáveis ​​no dia a dia. De acordo com o think tank francês The Shift Project, uma única pesquisa no Google emite uma quantidade insignificante de 0,2 gramas de CO 2 . Só que existem mais de 3,5 mil milhões de pesquisas deste tipo em todo o mundo – por dia. O streaming requer ainda mais energia. Apenas meia hora de transmissão de vídeo na Netflix causa 1,6 quilograma de emissões. Isso é aproximadamente comparável a dirigir um carro de seis quilômetros. Com 1,5 gramas de CO 2por hora, o streaming via conexão por cabo de fibra ótica é o mais econômico, pela rede móvel sem fio 5G já são cinco gramas. A qualidade também faz diferença: se um vídeo HD de uma hora requer 700 megabytes de espaço de armazenamento, os dados o volume aumenta dez vezes com a resolução em ultra HD para sete gigabytes.

Permanece a questão de saber quem será responsável pelos crescentes custos ambientais da digitalização no futuro. Poderíamos ter calma e apelar ao moral do consumidor para usar menos Netflix, ChatGPT e motores de busca em geral; contente-se com o streaming em uma resolução mais baixa e aproveite o thriller de domingo à noite em qualidade Ultra HD. Mas também se poderia procurar soluções políticas e, por exemplo, pedir às grandes empresas tecnológicas que fizessem a sua parte. Por exemplo, adaptando os seus modelos de negócio e abstendo-se de armazenar cookies que são utilizados para monitorizar o comportamento do utilizador para fins publicitários. De acordo com estimativas do instituto de investigação holandês CE Delft, só as atividades de monitorização e publicidade de aplicações móveis geram entre 29,6 e 50,4 mil milhões de gigabytes de dados anualmente na União Europeia. Isso corresponde a CO2 emissões de cinco a 14 milhões de toneladas: cerca de 950.000 pessoas produzem num ano.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

Desmatamento cresceu 37% no Matopiba em 2022, mostra MapBiomas Alerta

Rede registrou o desmatamento de mais de 625 mil hectares nos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia; região concentra 78% do desmatamento do Cerrado

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A região do Matopiba – fronteira agrícola formada pelos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia – desmatou 625 mil hectares em 2022. A área representa um aumento de 37% em relação a 2021 e equivale a quatro vezes a cidade de São Paulo, segundo dados divulgados pela rede MapBiomas Alerta nesta quinta-feira.

“Essa região abriga grandes produtores de soja, milho e algodão. O cenário, em conjunto com a expansão de novas áreas para agricultura e pastagem, e a deficiência de ações de fiscalização por parte dos órgãos ambientais, contribui para a concentração do desmatamento”, destaca Roberta Rocha, pesquisadora do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia).

Segundo o levantamento, a área desmatada cresceu em todos os estados da região. Na Bahia, estado que lidera o ranking, foram detectados 225 mil hectares desmatados, 48% a mais do que no ano passado. Maranhão e Tocantins registraram 168 mil e 83 mil hectares desmatados, respectivamente. O maior aumento na área devastada, no entanto, foi observado no Piauí, que saltou 115% em relação ao ano anterior, chegando a cerca de 152 mil hectares em 2022. 

Os dados foram produzidos por pesquisadores do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) no âmbito do MapBiomas Alerta e anunciados em um webinário .

“Analisar os dados de desmatamento no Matopiba é fundamental para o nosso objetivo de desmatamento zero até 2030. O desmatamento na Amazônia continua em uma trajetória de queda expressiva, mas no Cerrado ainda não conseguimos estabilizar essa curva. Nosso maior desafio hoje é onde a frente da agropecuária no Cerrado é mais agressiva”, reforçou André Lima, secretário extraordinário de Controle de Desmatamento e Ordenamento Ambiental Territorial no Ministério de Meio Ambiente e Mudanças do Clima.

Também participaram do evento os promotores Luciano Loubet e Francisco Brandes, dos Ministérios Públicos do Mato Grosso e do Tocantins, respectivamente, e representantes das pastas ambientais dos estados da região do Matopiba.

A área total desmatada na fronteira agrícola representa 78% de todo o desmatamento no Cerrado e 30% de toda vegetação nativa derrubada no Brasil em 2022. O principal vetor do desmatamento, em todos os estados, foi a agricultura.
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Juntos, os estados do Matopiba englobam áreas dos biomas Amazônia, Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica. Segundo o relatório, 84% do desmatamento ocorreu em áreas de Cerrado, enquanto 12% afetou áreas de Caatinga, 3% da Amazônia e 0,9% da Mata Atlântica. A maior parte da área desmatada nos estados do Matopiba, cerca de 14%, ocorreu em março de 2022.

O MapBiomas Alerta é um sistema de validação e refinamento de alertas de desmatamento coletados por imagens de satélite de alta resolução da rede MapBiomas. No Cerrado, os alertas de desmatamento são sistematizados por pesquisadores do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) em colaboração com o LAPIG da Universidade de Goiás (Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento) e Universidade de Brasília.

Ritmo acelerado

Em 2022, 81% dos 997 municípios dos estados do Matopiba tiveram desmatamento detectado. Além disso, 36% de todo o desmatamento na região ocorreu em apenas 10 municípios concentrados no oeste da Bahia, sul do Maranhão e sudoeste do Piauí.

No Piauí, estado onde o desmatamento mais cresceu, também estão localizados os municípios com maior aumento da área desmatada em relação a 2021. Em Santa Filomena, município com 6 mil habitantes, a área desmatada em 2022 saltou 513% em relação a 2021, atingindo cerca de 16 mil hectares. Em Sebastião Leal, município vizinho de Santa Filomena, o aumento foi de 259%

São Desidério (BA) 36.595 113%
Formosa do Rio Preto (BA) 33.421 122%
Balsas (MA) 28.157 73%
Uruçuí (PI) 23.792 148%
Jaborandi (BA) 20.928 56%
Sebastião Leal (PI) 20.089 259%
Correntina (BA) 19.087 120%
Santa Filomena (PI) 16.434 513%
Barreiras (BA) 13.623 157%
10º Baixa Grande do Ribeiro (PI) 11.774 181%

Na Fazenda Estrondo, condomínio de propriedades rurais localizado no município baiano de Formosa do Rio Preto, o MapBiomas Alerta identificou a maior área desmatada do país em 2022, composta por três polígonos com cerca de 23 mil hectares. A vegetação nativa perdida estava inserida na APA (Área de Proteção Ambiental) do Rio Preto e sua supressão contou com a autorização do Inema (Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos) da Bahia.

“A gente entende a dimensão do Cerrado, do Matopiba e das dificuldades que vamos enfrentar no combate ao desmatamento. Entendemos que, de fato, não podemos fechar os olhos para a expansão do agronegócio em toda a região do Matopiba. Estamos levando em frente ações estaduais junto ao Inema, à sociedade civil, aos empresários e ao Governo Federal para ter o controle, em um primeiro momento e de maneira mais urgente, do desmatamento ilegal”, destaca Eduardo Sodré, secretário do Meio Ambiente da Bahia.

Os três polígonos de desmatamento detectados em Formosa do rio Preto, resultando numa área de 23.450 hectares (Fonte: MapBiomas Alerta)

Sobre o RAD e MapBiomas Alerta

O RAD (Relatório Anual de Desmatamento) do MapBiomas reúne dados consolidados de desmatamento de todo o Brasil. Analisa os alertas de desmatamento detectados entre 2019 e 2022, e que foram validados e refinados sobre imagens de satélite de alta resolução pelo MapBiomas Alerta.

Nesta quarta edição, no Cerrado, os alertas gerados pelo DETER (Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real do INPE), SAD Caatinga (Sistema de Alerta de Desmatamento da Caatinga, da UEFS e Geodatin) e SIRAD-X (Sistema de Indicação por Radar de Desmatamento na Bacia do Xingu, do Instituto Socioambiental), foram utilizados para localizar os alertas de desmatamento nas imagens de satélite diárias de alta resolução espacial. O SAD Cerrado, desenvolvido pelo IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), está em fase de inclusão no sistema do MapBiomas Alerta, com os dados para o ano de 2023.

Todos os dados são divulgados de forma pública e gratuita em plataforma web para que órgãos de fiscalização, agentes financeiros, empresas e sociedade civil possam agir para reduzir o desmatamento ilegal. O relatório completo com todos os dados está disponível no site do MapBiomas Alerta.

Em declaração conjunta, líderes do BRICS anunciam a entrada de seis novos países

Arábia Saudita, Argentina, Egito, Etiópia, Irã e Emirados Árabes Unidos passarão a fazer parte do grupo a partir de 2024

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Presidente Lula dá às boas vindas às novas nações e exalta amadurecimento do BRICS. Foto: Ricardo Stuckert / PR

Em uma declaração conjunta na manhã desta quinta-feira, 24/8, os líderes do BRICS – o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, o presidente da China, Xi Jinping, o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi e o presidente da Rússia, Vladimir Putin (de forma virtual) – anunciaram a entrada de seis novos países ao grupo.

A partir de janeiro de 2024, Arábia Saudita, Argentina, Egito, Etiópia, Irã e Emirados Árabes Unidos passarão a fazer parte do bloco de nações emergentes. É a primeira expansão desde 2011, quando ocorreu a entrada da África do Sul. Com isso, o BRICS terá cerca de 46% da população mundial e quase 36% do PIB global em paridade de compra. A adesão foi oficializada na Declaração de Joanesburgo, documento acordado entre todos os atuais integrantes do BRICS.
 

Íntegra do pronunciamento do presidente Lula

Íntegra da Declaração de Joanesburgo (em inglês)

“Neste mundo em transição, o BRICS nos oferece uma fonte de soluções criativas para os desafios que enfrentamos. A relevância do BRICS é confirmada pelo interesse crescente que outros países demonstram de adesão ao agrupamento. Entre os vários resultados da cúpula de hoje, ressalto a ampliação do BRICS, com a inclusão de novos membros”, disse o presidente Lula em seu discurso.
 

Moeda de Referência

Os atuais países-membro também anunciaram a definição de critérios para a futura entrada de novas nações no bloco. Foi anunciado que os bancos centrais e ministérios da Fazenda e Economia de cada país ficarão responsáveis por realizar estudos em busca da adoção de uma moeda de referência do BRICS para o comércio internacional. “Essa medida poderá aumentar nossas opções de pagamento e reduzir nossas vulnerabilidades”, afirmou o presidente Lula. Outro acordo foi para que o grupo siga em busca de uma reforma da governança global, especialmente em relação ao Conselho de Segurança da ONU.

“Seguiremos defendendo temas com impacto direto na qualidade de vida de nossas populações, como o combate à fome, à pobreza e a promoção do desenvolvimento sustentável. Que o BRICS continue sendo força motriz de uma ordem mundial mais justa e ator indispensável na promoção da paz, do multilateralismo e na defesa do direito internacional”, ressaltou o presidente brasileiro.

A 15ª Cúpula de chefes de Estado do BRICS se encerra nesta quinta-feira, após duas sessões ampliadas com participação dos países-membro e mais nações convidadas. Após o fim da conferência, o presidente Lula viaja para Angola, onde fará uma visita de Estado, e depois para São Tomé e Príncipe, para participar da conferência de chefes de Estado da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).


Fonte: Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República

A partir das redes sociais, onda de fake news assombra as eleições para a reitoria da Uenf

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Abre o pano… Para quem acha que o uso das redes sociais para espalhar mentiras e falsidades sobre candidatos é coisa de eleições paritidárias, pense de novo. É que a tática das “fake news” está sendo usada a todo vapor para tentar colocar a chapa de oposição à atual reitoria da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) como uma espécie de bicho papão cuja eleição resultaria em uma série de retrocessos em uma série de melhorias que foram obtidas a partir de um longo processo de lutas.

Entre as coisas que seriam afetadas estão as bolsas acadêmicas e o restaurante universitário, as quais, segundo as “fake news”, seriam encerradas pelo professor Carlos Eduardo de Rezende, candidato a reitor pela chapa de oposição, caso ele seja eleito.

O interessante é que, ao longo dos seus 30 anos de trabalho dentro da Uenf, Carlos Rezende se notabilizou por participar de esforços na obtenção e garantia desses benefícios. Bastaria olhar para documentos e imagens de mobilizações passadas para verificar que o professor Rezende sempre esteve ao lado de quem lutava pelas melhorias que os propagadores de fake news dizem que ele irá acabar, caso seja eleito. Para fazer esses boatos caírem por terra, bastaria verificar documentos e discursos públicos para verificar que os mesmos não passam de mentiras cabeludas.

A situação chegou a tal ponto que o professor Rezende teve que produzir uma série de vídeos para explicar que não pretende fazer o que as “fake news” dizem que ele está pretendendo fazer, caso seja eleito. Mas a força das “fake news” é justamente essa. Fala-se coisas na surdina dentro das redes sociais e elas ganham aspecto de legitimidade, e passam a ser consideradas como verdade por quem é contaminado pelas mentiras espalhadas. E o pior é que “fake news” são como papel picado jogado do teto de um arranha-céu em dia de ventania. Pode-se até pegar parte dele de volta, mas sempre sobrará algum circulando.

Alguém poderia dizer que é surpreendente que em uma universidade pública, isto possa ocorrer. Eu diria que, como as eleições dentro da Uenf não ocorrem fora das disputas políticas existentes fora de suas cercas, não há absolutamente nada de surpreendente nisso.  Aliás, o contrário é que seria surpreendente, já que faz tempo que a reitoria da instituição age como se fosse uma espécie de partido político, agindo por fora dos colegiados superiores da instituição como isso fosse a coisa mais natural do mundo (o caso da reforma do prédio que abriga Arquivo Público Municipal é um belo exemplo disso).. 

Agora, como já foi demonstrado em eleições partidárias, não é difícil se chegar à fonte (ou fontes) de “fake news”. Assim, uma contribuição que a chapa de oposição encabeçada por Carlos Rezende e Daniela Barros seria identificar essa fonte (ou fontes) para que a comunidade universitária da Uenf possa ser informado sobre quem está produzindo essas mentiras. Do contrário, teremos não apenas uma inevitável mácula no processo eleitoral, mas como também estará se legitimando ainda mais o uso de “fake news” como instrumento de disputa eleitoral. É que se na universidade criada por Darcy Ribeiro esse método pode ser usado de forma impune, o que dizer das eleições para cargos públicos?

Uma curiosidade final: não há notícia de ações semelhantes de difusão de “fake news” em relação à chapa que tem o apoio público da reitoria da Uenf. Fecha o pano…

Para ABC e SBPC, Câmara vai “na contramão do desenvolvimento” ao não deixar despesas com CT&I de fora dos limites do novo marco fiscal

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A Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) lamentam, profundamente, a falta de compreensão da importância da Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I) para o desenvolvimento econômico, social e sustentável da nação brasileira por parte da Câmara dos Deputados. Lembramos que as nações que estão entre as maiores economias do mundo só chegaram a esse patamar com investimentos robustos em educação e CT&I.

Assim, ao rejeitar emendas que estabeleciam que as despesas com ciência, tecnologia e inovação não seriam incluídas na base de cálculo e nos limites estabelecidos pelo novo marco fiscal, a Câmara dos Deputados fez uma escolha na contramão do desenvolvimento em um mundo globalizado da sociedade do conhecimento.

Atenciosamente,

Helena Bonciani Nader
Presidente da ABC

Renato Janine Ribeiro
Presidente da SBPC