Usina usada pela repressão na ditadura vai virar assentamento do MST em Campos dos Goytacazes

Fornos da Usina Cambahyba, que agora vai virar Assentamento Cícero Guedes, foram utilizados para incinerar corpos de 12 opositores da ditadura na década de 1970

Divulgação

Área da Usina Cambahyba vai abrigar 185 famílias assentadas

Por Rede Brasil Atual

São Paulo – O Governo Federal anunciou nesta terça-feira (22) que vai destinar para a reforma agrária a área onde funcionou a Usina Cambahyba, em Campos dos Goytacazes. O terreno será formalizado como assentamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e abrigará lotes para 185 famílias. A área, que inclui sete fazendas em 3.500 hectares, está em disputa há quase três décadas. Em 2012, foi considerada improdutiva pela Justiça. Em 2021, foi desapropriada e destinada ao Incra pela 1ª Vara Federal de Campos.

Em junho daquele ano, a área foi ocupada por cerca de 300 famílias do MST. O local ficou conhecido como um dos territórios de violência política da ditadura no Rio de Janeiro. Os fornos da usina teriam sido utilizados na década de 1970 para incinerar os corpos de 12 vítimas do regime.

A secretária de Diálogos Sociais da Secretaria Geral da Presidência do Conselho Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável, Kelli Mafort, anunciou a inclusão de Cambahyba na reforma agrária à deputada estadual Marina do MST (PT-RJ) na quinta-feira, 17 de agosto, durante a cerimônia de posse dos integrantes do órgão.

De acordo com a jornalista Flávia Oliveira, do jornal O Globo, o assentamento levará o nome de Cícero Guedes, ativista que se libertou do trabalho análogo à escravidão em lavouras de cana-de-açúcar na infância, em Alagoas, e migrou para Campos. Ele aprendeu a ler aos 40 anos, integrou o MST, na virada do século foi oficializado no assentamento Zumbi dos Palmares, na área da extinta Usina São João, também no município. Cícero foi assassinado a tiros em 2013.

Violência e resistência

A Usina Cambahyba foi uma das grandes propriedades agroindustriais do município e está desativada por completo desde a safra de 1995/1996, quando mantinha área total de 6.763 hectares, dos quais 85% foram dedicados à produção de cana.

Em junho, durante visita ao local, a deputada estadual Marina do MST (PT-RJ) destacou, por meio de rede social, que “a ocupação destas terras significa a denúncia do projeto de exploração dos trabalhadores e da natureza. Essa terra tem a essência da história de exploração política e econômica que o latifúndio e o agronegócio faz em nosso pais”, afirmou.

Ainda em 2021, quando a Justiça determinou a desapropriação, o MST ressaltou que a história da Usina Cambahyba “expressa a formação da grande propriedade no Brasil”. “É uma história de violência, mas de resistência dos trabalhadores e trabalhadoras. Por isso, nós, trabalhadores e trabalhadoras do MST/RJ, não abandonamos nunca a luta pela Cambahyba, porque é nossa história, é nossa resistência, é a nossa capacidade de irresignação diante da injustiça do latifúndio, é pela memória dos lutadores e lutadoras, como Cícero, Neli, Seu Antonio que nos legaram sementes que reafirmamos: a Cambahyba é nossa”.

Ocultação de cadáver

A Comissão Nacional da Verdade (CNV) confirmou que no local foram incinerados 12 corpos de presos políticos recolhidos da Casa da Morte, o centro clandestino de tortura em Petrópolis (RJ), e do DOI-Codi, na capital. O ex-delegado Cláudio Antônio Guerra, do Dops, afirmou em depoimento que “atendia a chamados do capitão de cavalaria do Exército Freddie Perdigão Pereira e recebia os corpos diretamente da equipe do militar”, informa o relatório da CNV.

A Justiça Federal de Campos condenou Guerra a sete anos de prisão em regime semiaberto por ocultação de cadáveres durante a ditadura e o Ministério Público Federal (MPF) denunciou o ex-delegado com base em relatos no livro “Memórias de uma guerra suja”.


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Este texto foi originalmente publicado pela Rede Brasil Atual [Aqui!].

Emissões de carbono na Amazônia cresceram 122% em 2020 em relação à média de 2010 a 2018

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As emissões de gás carbônico (CO2) pela Amazônia aumentou em 122% e 89% nos anos de 2020 e 2019, respectivamente, em comparação com o período de 2010 a 2018. O crescimento representa a soma dos números do desmatamento e das queimadas na região, e está relacionado principalmente ao declínio na aplicação de leis ambientais. É o que aponta artigo de pesquisadores do Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e de outras instituições nacionais e estrangeiras publicado na quarta (23) na revista “Nature”.

A equipe comparou dados sobre o cumprimento das regulamentações ambientais aos eventos ocorridos na Amazônia durante o período de 2010 a 2018, já analisados em produções anteriores, e nos anos subsequentes, 2019 e 2020. Os pesquisadores coletaram amostras de CO2 em 742 voos realizados com uma pequena aeronave em quatro localidades da Amazônia e analisaram as amostras em laboratório do INPE.

O resultado das pesquisas foi compartilhado com técnicos do PRODES/DETER (INPE), que produziram mapas comparando a diferença do desmatamento em 2019 e 2020 com a média 2010-2018. Verificou-se que o aumento de desmatamento em 2019 foi de 82% e de 77% em 2020. Também houve aumento na área queimada de 14% em 2019 e de 42% em 2020. Já as multas reduziram 30% e 54%, e os pagamentos das multas reduziram em 74% e 89% em 2019 e 2020, respectivamente.  “O modelo econômico na Amazônia está por trás disso”, comenta Luciana Gatti, pesquisadora do INPE e principal autora do artigo.

Os dados apontam ainda que o nível das emissões registradas entre 2019 e 2020 são comparáveis ao observado em 2015 e 2016, quando um evento climático extremo de grande escala atingiu a região – o El Niño. “Quando o El Niño aconteceu, as emissões de CO2 cresceram porque foi um período de extrema seca, com muitas queimadas e perda de parte da floresta”, explica a pesquisadora. Gatti reforça que 2019 e 2020 não contaram com razões climáticas que justifiquem o crescimento das emissões, o que aponta para a ação humana como explicação.

A pesquisa salienta que as ações de monitoramento e controle podem ser ainda mais importantes nos próximos anos, quando a previsão é de que a região amazônica enfrente desafios maiores, pois as previsões indicam que o próximo evento climático promete ser mais intenso que o último El Niño. “Os dados mostram claramente a importância de políticas de controle e combate ao desmatamento eficazes”, frisa Gatti.

O financiamento do governo é essencial para que as análises possam continuar sendo feitas. “O recurso financeiro usado para as pesquisas é cedido por agências de financiamento de ciência, mas, para que os dados possam estar disponíveis independentemente de publicações científicas, precisamos de financiamento por parte do Governo Federal”, explica a pesquisadora.

A pesquisa observa que a exportação de madeira na Amazônia aumentou quase 700% no período, assim como também cresceram a área plantada de soja (68%) e de milho (58%), além do rebanho bovino (14%) dentro da Amazônia. Daí a importância de políticas públicas apontando um modelo de economia com a floresta em pé, e mais eficazes para a preservação da floresta e a conservação da diversidade amazônica. “Estamos na batalha para o governo assumir a tarefa de zerar o desmatamento antes de 2030 e reflorestar uma parte nas regiões críticas para salvar a Amazônia do ponto de não retorno”, conclui Gatti.

Pesquisadores do Inpe apresentam nesta quarta (23) estudo sobre emissões de carbono na Amazônia

Artigo científico na Nature detalha como o declínio na aplicação das leis ambientais influenciou as emissões na maior floresta tropical do mundo

Brazil's greenhouse gas emissions rose 9.5 per cent in 2020 with Amazon  deforestation: study | Technology News - The Indian Express

Cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), apresentam nesta quarta-feira (23), às 11h, em Brasília, estudo que aponta aumento significativo nas emissões de carbono na Amazônia entre 2019 e 2020. A ministra Luciana Santos participa da apresentação.

A pesquisa, que será publicada pela revista Nature, é assinada por 30 cientistas brasileiros e foi liderada pela equipe do Laboratório de Gases de Efeito Estufa do Inpe.

A apresentação dos resultados será feita pela autora líder da pesquisa, Luciana Gatti, e pelo coordenador de Ciências da Terra do Inpe, Gilvan Sampaio. Os pesquisadores concederão entrevista coletiva após a apresentação.

Serviço

Evento: Apresentação dos resultados da pesquisa sobre emissões de carbono na Amazônia

Data: 23/08/2023, às 11h

Local: Auditório do MCTI – Esplanada dos Ministérios, Bloco E, Brasília

Transmissão pelo canal do MCTI (Link).

A ascensão dos BRICS

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Por  Félix Richter para o Statista

Nas últimas duas décadas, o mundo testemunhou uma mudança profunda no cenário econômico e geopolítico global, à medida que a ascensão dos países do BRICS introduziu um crescente contrapeso ao domínio tradicional do G7. A partir de terça-feira, os líderes do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul se reunirão em Joanesburgo, África do Sul, para a 15ª cúpula anual do BRICS, com a possível expansão dos blocos como um dos pontos de discussão no topo da agenda.

Por muito tempo, o G7 , formado por Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, Alemanha, França, Itália e Japão, dominou a governança econômica global e a tomada de decisões. No entanto, à medida que as nações do BRICS experimentaram rápido crescimento e desenvolvimento econômico, sua influência e ambição coletiva começaram a crescer.

A espetacular ascensão econômica da China, em particular, reformulou o comércio global, o investimento e as cadeias de suprimentos. As proezas manufatureiras do país, o enorme mercado consumidor e o crescimento impulsionado pela inovação o colocaram na vanguarda da economia global. Embora a Índia ainda esteja alguns passos atrás, a sua enorme população e a sua movimentada indústria tecnológica posicionam-na bem para se tornar a segunda superpotência económica do bloco. Entretanto, a Rússia, o Brasil e a África do Sul ficaram aquém das expectativas, com a sua participação no PIB global (em paridade de poder de compra) a diminuir ao longo das últimas duas décadas.

Apesar dos três acima mencionados não terem obtido o peso esperado, os cinco países do BRICS superaram o G7 em termos de PIB combinado em 2020. Isso é medido em paridade de poder de compra , ou seja, ajustado para diferenças no poder de compra. Segundo o FMI , o bloco representará coletivamente 32,1% do PIB global neste ano. Isso representa apenas 16,9% em 1995 e mais do que a participação do G7 de 29,9%.

A ascensão das nações do BRICS, embora não sem desafios e disparidades dentro do grupo, levou a um aumento dos apelos por uma governança global mais inclusiva e representativa, acrescentando mais peso às vozes que se desviam das políticas moldadas pelo G7 liderado pelo Ocidente. Em nenhum lugar esse desvio foi mais aparente do que na resposta à invasão da Ucrânia pela Rússia. Enquanto o G7 condenou o ataque e impôs sanções rígidas à Rússia, nenhum dos membros do BRICS denunciou as ações da Rússia ou aderiu às sanções.

Infográfico: A ascensão dos BRICS |  estatista

Participação dos países do G7 e BRICS no PIB global em paridade de poder de compra em 1995, 2010 e 2023.


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Este escrito originalmente em inglês foi publicado pelo Statista [Aqui!].

A armadilha fóssil: países ricos forçam nações pobres a investir em projetos de combustíveis fósseis

Ativistas criticam ‘nova forma de colonialismo’, onde os países do sul global são forçados a investir em projetos de combustíveis fósseis para pagar dívidas

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As consequências do ciclone Freddy na cidade de Quelimane, Moçambique, em março deste ano. O país mergulhou em uma crise de dívida quando os preços do gás caíram em 2014-16. Fotografia: Alfredo Zuniga/UNICEF/AFP/Getty Images

Por Kaamil Ahmed para o “The Guardian”

Os países mais ricos e os credores privados estão aprisionando os países altamente endividados na dependência de combustíveis fósseis, de acordo com um novo relatório.

A pressão para pagar dívidas está forçando os países pobres a continuar investindo em projetos de combustíveis fósseis para pagar seus empréstimos do que geralmente são empréstimos de nações e instituições financeiras mais ricas, de acordo com uma nova análise dos ativistas antidívida Debt Justice e parceiros nos países afetados.

O grupo pede que os credores cancelem todas as dívidas dos países em crise – especialmente aquelas ligadas a projetos de combustíveis fósseis.

“Os altos níveis de dívida são uma grande barreira para a eliminação gradual dos combustíveis fósseis para muitos países do sul global”, disse Tess Woolfenden, oficial sênior de políticas da Debt Justice. “Muitos países estão presos à exploração de combustíveis fósseis para gerar receita para pagar dívidas, enquanto, ao mesmo tempo, os projetos de combustíveis fósseis muitas vezes não geram as receitas esperadas e podem deixar os países ainda mais endividados do que quando começaram. Essa armadilha tóxica deve acabar.”

Daniel Ribeiro, coordenador do programa da campanha ambiental moçambicana Justiça Ambiental, disse que o peso da dívida do país foi duplicado por empréstimos contraídos sem a permissão do parlamento de bancos londrinos em 2013, com base em projeções de ganhos de suas descobertas de campos de gás.

Moçambique mergulhou em uma crise de dívida quando os preços do petróleo e do gás caíram em 2014-16 , disse Ribeiro, mas as soluções dos credores internacionais para resgatar o país dependeram do reembolso de empréstimos por meio de receitas futuras do gás.

“As dívidas causadas pelos combustíveis fósseis estão sendo estruturadas para serem pagas pelos combustíveis fósseis, solidificando um ciclo vicioso de ter que seguir em frente e ter consequências muito graves de não querer continuar com os combustíveis fósseis”, disse Ribeiro.

O Suriname enfrentou situação semelhante após o calote de sua dívida, quando em 2020 fechou um acordo que daria aos credores o direito a quase 30% da receita do petróleo do Suriname até 2050.

Sharda Ganga, diretor do grupo da sociedade civil surinamesa Projekta, disse que esperava que o acordo permanecesse dentro dos compromissos climáticos do país.

Ganga disse: “Como nossa dívida se tornou insustentável, ela domina todas as decisões políticas e afeta a vida de nossos cidadãos de todas as maneiras possíveis. Ganhar dinheiro o mais rápido possível para pagar os credores é, portanto, a prioridade número um. Isso significa que não há mais espaço para paciência e coisas chatas como sustentabilidade ou justiça climática.

“A realidade é que esta é a nova forma de colonialismo – trocamos um governante pelo governo de nossos credores que basicamente já possuem o que é nosso. A diferença é que desta vez nós mesmos assinamos o acordo.”

Leandro Gómez, ativista de investimentos e direitos da Fundação do Meio Ambiente e Recursos Naturais (Farn) na Argentina, disse que o país foi despojado de soberania para fazer a transição dos combustíveis fósseis e teve que subsidiar empresas de combustíveis fósseis, incentivar projetos de fracking e cancelar projetos de energia renovável.

O relatório também disse que muitos países afetados pelo clima precisam de mais acesso a subsídios para pagar pelos efeitos da mudança climática, já que muitos são forçados a se endividar ainda mais para pagar reparos após ciclones e inundações.

Ativistas climáticos seguram uma faixa exigindo o cancelamento das dívidas dos países em desenvolvimento durante a conferência do clima Cop27 em Sharm el-Sheikh, no Egito, em novembro passado.
Ativistas climáticos seguram uma faixa exigindo o cancelamento das dívidas dos países em desenvolvimento durante a conferência do clima Cop27 em Sharm el-Sheikh, no Egito, em novembro passado. Fotografia: Ahmad Gharabli/AFP/Getty Images

A maior parte dos US$ 10 bilhões (£ 7 bilhões) em assistência financeira fornecida ao Paquistão após as enchentes do ano passado foi na forma de empréstimos, enquanto a parcela da dívida de Dominica em seu produto interno bruto (PIB) aumentou de 68% para 78% após o furacão Maria em 2017.

Mae Buenaventura, do Movimento do Povo Asiático sobre Dívida e Desenvolvimento, disse: “As crises climáticas e da dívida surgiram do mesmo sistema baseado na extração implacável de recursos humanos, econômicos e ambientais do norte global para alimentar a busca por lucro e ganância .”

Ela disse que o cancelamento da dívida é o mínimo que os países ricos e os credores podem fazer.


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Este escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Mudanças no clima associadas ao El Niño aumentam incidências de doenças na América Latina

salud-el-nino-2-996x567Chuvas intensas e enchentes aumentam a ocorrência de doenças relacionadas ao consumo de água e transmitidas por mosquitos. Crédito da imagem: Lynn Greyling/Public Domain Pictures , imagem em domínio público

Por Rodrigo de Oliveira Andrade para a SciDev

[SÃO PAULO] As mudanças no regime climático e pluviométrico desencadeadas pelo fenômeno El Niño impactam inclusive os regimes de caça de certos animais que favorecem a transmissão e propagação de doenças infecciosas na América Latina e no Caribe. Na região amazônica, esse é o caso da equinococose policística, que pode ser mortal, descobriu um novo estudo.

O El Niño e suas mudanças no clima , dizem os especialistas, já estão afetando a incidência e distribuição, especialmente daqueles transmitidos por vetores, como roedores, mosquitos e carrapatos.

El Niño e suas birras

O El Niño é caracterizado pelo aquecimento das águas no Pacífico equatorial central e leste, que faz com que os ventos enfraqueçam, a massa de água quente não circule, libere mais calor na atmosfera e favoreça o aparecimento de chuvas na região. Em outras áreas, ao mesmo tempo, pode gerar secas.

“Na América Latina, o El Niño produz aumento de temperatura e chuvas na costa do Pacífico, sul e sudeste do Brasil e norte da Argentina, enquanto causa secas na América Central, parte do Caribe e norte da América do Sul.”

Christovam Barcellos, Departamento de Informação e Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Brasil

Apesar de se formar no Pacífico, influencia o clima em várias partes do mundo. “Na América Latina, o El Niño produz aumento de temperatura e chuvas na costa do Pacífico, sul e sudeste do Brasil e norte da Argentina, enquanto provoca secas na América Central, parte do Caribe e norte da América do Sul.”, aponta Christovam Barcellos, do Departamento de Informação e Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Brasil.

Paulo Artaxo, do Instituto de Física da Universidade de São Paulo, no Brasil, acrescenta que essas mudanças afetam a incidência de doenças infecciosas. No entanto, ele observa que é difícil dizer quais se destacarão porque o clima não é o único fator envolvido. ” Os riscos à saúde associados ao El Niño variam de acordo com a região, país e época do ano”, disse ele ao SciDev.Net.

Além do impacto direto do clima na saúde, a pesquisa também encontrou fatores indiretos. Um trabalho recente publicado no PNAS constatou que em parte da região Pan-Amazônica o El Niño pode interferir no padrão de caça de certos animais consumidos por populações indígenas e rurais, favorecendo a transmissão e disseminação da equinococose policística.

Essa doença negligenciada é causada pelo verme Echinococcus vogeli , que costuma infectar pacas ( Cuniculus paca ) e cutias ( Dasyprocta leporina ), comumente caçadas na região.

Cuniculus paca , uma das espécies comumente infectadas pelo verme Echinococcus vogeli e cuja caça pode espalhar a doença para as pessoas. Crédito da imagem: Marcos Antonio Vieira de Freitas/Wikimedia Commons , sob licença Creative Commons (CC BY-SA 4.0) .

Os caçadores costumam descartar as vísceras cruas no ambiente ou utilizá-las como alimento para cães domésticos, “que se infectam e eliminam os ovos de vermes em suas fezes, contaminando o solo, os alimentos e a água consumidos pelos humanos”, explica o biólogo Leandro Siqueira de Souza , da Fundação Fiocruz, que estuda a doença no Norte do Brasil.

O estudo internacional analisou mais de 400 casos de equinococose policística na região e dados sobre práticas de caça registradas em 55 áreas nos últimos 55 anos.

“Em algumas áreas, a seca causada pelo fenômeno pode afetar a pesca , obrigando os moradores a recorrer à caça de pacas e cutias, aumentando o risco de contaminação por E. vogeli “, disse Adrià San José, do Instituto de Saúde Global de Barcelona (ISGlobal ), na Espanha, um dos autores do artigo.

“O estado do Acre, no Brasil, e o Peru abrigam as áreas com maior potencial de circulação do parasita”, disse à SciDev.Net Xavier Rodó, também do ISGlobal e outro dos autores do estudo .

Mais parasitas, vírus, bactérias e mosquitos

O El Niño também pode produzir fortes chuvas e inundações, além de aumentar a ocorrência de doenças relacionadas ao consumo de água , como esquistossomose, hepatite A e doenças diarreicas.

“Nas favelas urbanas, devido à má coleta de lixo e má drenagem, esses eventos podem desencadear surtos de leptospirose”, disse Creuza Rachel Vicente, do Departamento de Medicina Social da Universidade Federal do Espírito Santo, ao SciDev.Net no

Essas chuvas contribuem para a formação de poças de água estagnada onde crescem os mosquitos Aedes aegypti , causadores da dengue, zika e chikungunya. “Na dengue, as temperaturas mais quentes aumentam a velocidade de replicação do vírus [que causa a doença], bem como a sobrevivência, reprodução e picada do vetor”, Rachel Lowe, pesquisadora da Escola de Higiene e Medicina Tropical

A incidência de dengue tem crescido significativamente nas últimas duas décadas. Enquanto em 2000 foram registrados 505 mil casos em diferentes partes do mundo , no primeiro semestre de 2023 apenas as Américas registraram mais de três milhões , o que superou os 2,8 milhões de casos em 2022.

O Brasil tem mais de 2,3 milhões de casos, seguido pelo Peru (mais de 215 mil) e Bolívia (mais de 133 mil). Na Argentina, que vive a pior epidemia de dengue, o boletim epidemiológico mais recente indica que já causou 66 mortes e mais de 129.000 casos .


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Este artigo escrito originalmente em Espanhol foi produzido pela edição América Latina e Caribe de  SciDev.Net e publicado [Aqui!].

Mercados de carbono são uma ameaça para a Amazônia

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Por Davi Martins* para o “Greenpeace”

A floresta amazônica precisa de proteção real contra as enormes ameaças que enfrenta. A floresta em pé, os povos indígenas e as comunidades tradicionais da região enfrentam desafios como o avanço do agronegócio, da mineração e da exploração de petróleo. Soluções falsas como compensações de carbono e mercados de carbono se disfarçam de benéficas para a Amazônia e os defensores da floresta, mas são apenas ferramentas de “greenwashing” que, em última análise, permitem mais destruição. 

Os mercados de carbono nada mais são do que um truque de contabilidade destinado a obscurecer as emissões destruidoras do clima. É uma decoração de janela de plantio de árvores com o objetivo de distrair a destruição do ecossistema. Em recente publicação do Penn Center for Science, Sustainability and the Media , o cientista Joseph Romm é categórico: os mercados de carbono ameaçam os objetivos do Acordo de Paris. Isso ocorre porque esses “créditos” não são auditáveis, não reduzem significativamente as emissões de CO2 ou são simplesmente irrealistas. Além disso, outra pesquisa mostra que mais de 90% dos créditos vendidos pela maior certificadora de créditos de carbono, a Verra, são “fantasmas” e não representam reduções genuínas nas emissões de carbono.

Marcha dos Povos Cúpula da Amazônia em Belém, Brasil.  © João Paulo Guimarães / Greenpeace
Marcha da Sociedade Civil em Belém, Brasil, exigindo a proteção da Amazônia durante a Cúpula da Amazônia em agosto de 2023. © João Paulo Guimarães / Greenpeace

Os mercados de carbono foram o foco da Cúpula da Amazônia em Belém, mas os países que compõem a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA) não chegaram a um acordo sobre metas claras de desmatamento zero. Em vez de cair na farsa do mercado de carbono, as nações da OTCA devem buscar ferramentas não mercantis dentro do Acordo de Paris que possibilitem a troca de experiências, ferramentas e tecnologia, além de financiamento. O Artigo 6.8 do Acordo de Paris, que já está em vigor, promove a interação entre governos para realizar ações de mitigação e adaptação de forma integrada, holística e equilibrada. 

Se os países da OTCA — que se uniram após 14 anos — estão seriamente preocupados com a preservação da Amazônia, então devem pensar em um plano conjunto e integrado, com metas claras para atingir o desmatamento zero, eliminar a exploração e mineração de petróleo na região , e afaste-se de ferramentas de lavagem verde, como o mercado de carbono. Além disso, a devida consulta e participação dos Povos Indígenas é fundamental para garantir e promover ações de preservação das culturas indígenas, dos povos indígenas e da biodiversidade.

*Davi Martins é Estrategista Sênior de Campanha do Greenpeace Internacional


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela “Greenpeace” [Aqui!].

Uenf abre Concurso Público na área de Matemática

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Na região do Rio de Janeiro, a Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF – RJ) informa sobre a abertura das inscrições para um novo Concurso Público, com o intuito de contratar professores associados em Campos dos Goytacazes.

De acordo com o edital em questão, estão disponíveis duas vagas para docentes nas seguintes áreas: Matemática Pura, Matemática Aplicada, Estatística ou Educação Matemática (1 vaga); Educação Matemática (1 vaga).

Para ser um candidato, é necessário possuir formação completa em nível superior, além de mestrado ou doutorado nas áreas específicas mencionadas.

Os profissionais selecionados receberão uma remuneração inicial de R$ 10.253,69, correspondente a uma jornada de trabalho semanal de 40 horas para a realização das atividades designadas.

O período de inscrições teve início em 12 de julho e permanecerá aberto até 9 de setembro de 2023. As inscrições podem ser realizadas pessoalmente, por procuração ou via postal no Protocolo da Reitoria da UENF, localizada na Av. Alberto Lamego nº 2.000, Prédio E-1, Térreo, Parque Califórnia, Campos dos Goytacazes, no horário das 13h às 15h. A participação requer o pagamento de uma taxa no valor de R$ 120,00, que deve ser efetuado no Banco do Bradesco.

A avaliação dos candidatos ocorrerá em três fases distintas: prova escrita, prova didática e análise de títulos. Essas etapas estão programadas para serem conduzidas na Sala 107 do prédio CCT, localizado na Av. Alberto Lamego nº 2.000, Parque Califórnia, Campos dos Goytacazes.

Este Concurso Público terá uma vigência de dois anos, com a possibilidade de prorrogação por um único período de igual duração, a partir da data de homologação.


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Este texto foi originalmente publicado pela Concursos SC [Aqui!].

Artigo na “Chemosphere” mostra que o glifosato exibe 5 das 10 das principais características de substâncias químicas causadoras de câncer

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Por Sustainable Pulse

Reforçando descobertas anteriores, uma nova revisão sistemática publicada na Chemosphere  descobriu que o popular herbicida glifosato e suas formulações (formulações à base de glifosato-GBF) exibem cinco das dez características principais (KC) de carcinógenos (produtos químicos causadores de câncer), relatou a Beyond Pesticides semana passada.

Especificamente, o glifosato apresenta fortes evidências de genotoxicidade, alterações epigenéticas (alterações hereditárias na expressão gênica), estresse oxidativo, inflamação crônica, desregulação endócrina e perturba a microbiota intestinal implicada na linfomagênese (crescimento e desenvolvimento do linfoma). Embora organizações como a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC) designem o glifosato como um provável carcinógeno humano, e a literatura científica apoie as descobertas sobre esses efeitos adversos alegados pelo glifosato, o produto químico permanece no mercado dos EUA em várias formulações.

O glifosato é o ingrediente ativo mais comumente usado em todo o mundo, aparecendo em muitas fórmulas de herbicidas, não apenas no Roundup® da Bayer (anteriormente Monsanto). O uso desse produto químico tem aumentado desde o início das culturas geneticamente modificadas para tolerar o glifosato há mais de duas décadas.

O herbicida tóxico contamina prontamente o ecossistema com resíduos difundidos em alimentos e água. Além deste estudo, a literatura prova repetidas vezes que o glifosato está associado ao desenvolvimento de câncer, bem como a danos humanos, bióticos e ecossistêmicos. Portanto, os defensores apontam para a necessidade de políticas nacionais para reavaliar os riscos associados ao desenvolvimento e diagnóstico de doenças resultantes ou exacerbados pela exposição a poluentes químicos. O estudo destaca: “Nossas descobertas fortalecem a evidência mecanicista de que o glifosato é um  provável  carcinógeno humano e fornecem plausibilidade biológica para associações de câncer relatadas anteriormente em humanos, como o Linfoma Não-Hodgkin”.

Usando estudos mecanísticos in vivo, ex vivo e in vitro em humanos e mamíferos, os pesquisadores comparam a exposição ao glifosato/GBF com pouca ou nenhuma contraparte de exposição para evidências dos dez KCs de carcinógenos. Todos os carcinógenos humanos conhecidos têm um ou mais dos dez KCs, e esses mecanismos causam câncer através de:

  1. Ativação eletrofílica (uma afinidade por elétrons) ou metabólica (KC1),
  2. Genotoxicidade (KC2),
  3. Alterações no reparo do DNA, causando instabilidade do genoma (KC3),
  4. Indução de alterações epigenéticas (KC4),
  5. Indução do estresse oxidativo (KC5),
  6. Indução de inflamação crônica (KC6),
  7. Imunossupressão (KC7),
  8. Redução dos efeitos mediados por receptores/ruptura endócrina (KC8),
  9. Células cancerígenas imortalizantes (KC9),
  10. Alterações na proliferação celular, morte ou suprimento de nutrientes (KC10).

Os pesquisadores examinaram todos os estudos  in vivo, ex vivo  e  in vitro  de exposição ao glifosato/GBF em humanos/mamíferos, relatando qualquer resultado relacionado ao KC disponível no PubMed antes de agosto de 2021. Os pesquisadores usaram os estudos selecionados para construir uma matriz, analisando a matriz no programa R para determinar a força da evidência e as avaliações de qualidade. Embora apenas 175 dos 2.537 artigos atendessem aos critérios de inclusão, os pesquisadores extraíram mais de 50.000 pontos de dados relacionados aos resultados KC mencionados acima.

Os resultados da análise encontram fortes evidências para KC2, KC4, KC5, KC6 e KC8, evidências limitadas para KC1 e KC3 e evidências inadequadas para KC7, KC9 e KC10. Especificamente, a genotoxicidade (KC2) e a desregulação endócrina (KC8) do GBF têm a associação mais forte com a carcinogenicidade. Os estudos revisados ​​demonstram que a evidência de genotoxicidade é mais forte entre humanos do que em estudos com animais, com o GBF tendo um impacto maior em ambos os grupos de estudo do que apenas o glifosato sozinho. Além disso, a revisão indica que o glifosato pode alterar os níveis hormonais (endócrinos) e a atividade dos receptores, sendo os receptores de estrogênio os mais sensíveis ao glifosato e aos GBFs.

Os resultados da revisão sistêmica destacam uma questão muito familiar. Apesar desses dados preocupantes, a evidência de exposição generalizada a um carcinógeno não conseguiu influenciar os reguladores da EPA, exigindo mudanças significativas por parte dos funcionários eleitos para reformar a lei de pesticidas. Os cientistas destacam evidências epidemiológicas associando o glifosato a cânceres no sangue, como linfoma não-Hodgkin, e fortes evidências de carcinogenicidade em pesquisas com animais de laboratório provocadas por genotoxicidade (dano ao DNA) e estresse oxidativo. Em 2015, o Grupo de Trabalho da IARC demonstrou que o glifosato tem fortes evidências de genotoxicidade (KC2) e estresse oxidativo (KC5). No entanto, estudos recentes que fornecem dados adicionais suportam evidências de KC2 e KC5, bem como alterações epigenéticas (KC4), inflamação crônica (KC6) e desregulação endócrina (KC8) em relação ao glifosato e GBF. Por isso, o glifosato apresenta evidências de todos os cinco KCs de carcinógenos. Embora haja evidências limitadas ou inadequadas para os KCs remanescentes, a revisão encoraja um exame mais aprofundado dos efeitos do glifosato e de outros produtos químicos em todos os dez KCs e sua relação com os cânceres linfoides.

O estudo conclui: “No geral, as evidências mecanísticas de glifosato e GBFs possuindo várias características principais de carcinógenos se tornaram mais fortes desde a avaliação da IARC em 2015 e implicam vários caminhos pelos quais essas substâncias podem induzir câncer, como linfoma, em humanos. […][O] nosso entendimento dos efeitos do glifosato usando os KCs abre caminho para explorar os intrincados mecanismos subjacentes ao seu potencial caminho para o linfoma.”

O câncer é uma das principais causas de morte em todo o mundo, com mais de oito milhões de pessoas sucumbindo à doença todos os anos. Notavelmente, a IARC prevê um aumento de novos casos de câncer de 19,3 milhões para 30,2 milhões por ano até 2040. Portanto, estudos relacionados a pesticidas e câncer ajudarão na compreensão dos mecanismos subjacentes que causam a doença.


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Este artigo escrito originalmente em inglês foi publicado pela Sustainable Pulse [Aqui!].

Observatório dos Agrotóxicos divulga lista completa de liberações feitas no governo Lula

Como feito ao longo dos quatro anos do governo Bolsonaro, o “Observatório dos Agrotóxicos” do Blog do Pedlowski divulga nesta 6a. feira a lista completa dos 261 agrotóxicos iberados pelo governo Lula a partir de janeiro de 2023. Além de divulgar a base completa, divulgo ainda os 29 agrotóxicos  do tipo produto técnico que foram liberados pelo Ato No. 34 de 01 de agosto de 2023.

No caso específico dos 29 agrotóxicos liberados pelo Ato No 34, repete-se  a hegemonia de fabricantes chineses, fato que ocorreu de forma semelhante durante o governo Bolsonaro. Com isso, fica mantida a dependência brasileira dos produtos-base para a produção de agrotóxicos formulados que são aqueles que serão efetivamente utilizados pelos produtores rurais.

Além disso, ao contrário do que foi declarado ainda no governo Bolsonaro, a maioria dos agrotóxicos liberados em 2023 já estão sendo comercializados no Brasil, fazendo com que essa nova onda de liberações seja uma espécie de grande museu de velhas novidades. Este aspecto é reforçado pelo fato de que boa parte desses produtos é do tipo “pós-patente”, o que faz com que parte deles já tenha sido banida em países com legislação mais restritiva para agrotóxicos cujos impactos negativos sobre a saúde e o meio ambiente já estão fartamente documentados cientificamente.

O governo Lula segue a senda do envenenamento

Um aspecto que chama a atenção não é exatamente a quantidade de agrotóxicos que foram liberados nos oito primeiros meses de governo que seguem em um ritmo próximo ao que ocorreu durante o governo Bolsonaro. 

O que chama a atenção é que não apenas o processo de liberação adotado pelo governo Bolsonaro está mantido, mas também insiste em adotar uma forma errada de classificação de risco sobre a saúde humana e o ambiente. Ao manter os padrões adotados sob Jair Bolsonaro, Lula incorre em um descumprimento de suas promessas eleitorais que envolveram não apenas a diminuição da dependência em relação aos agrotóxicos, mas principalmente a atuação para a adoção de uma novo padrão de produção mais orientado pelos princípios da agroecologia.

Até aqui o que temos é a manutenção do padrão de agricultura viciada em agrotóxicos que vem contribuindo para a contaminação ambiental e o adoecimento dos brasileiros.

E lembremos que atualmente o Senado Federal tenta aprovar o famigerado “Pacote do Veneno” que deverá enfraquecer ainda mais a legislação que regula a liberação e venda de agrotóxicos no Brasil. Desde já, indico que se o Pacote do Veneno for aprovado pelo Congresso Nacional, não vislumbro nenhuma possibilidade do mesmo ser vetado pelo presidente Lula.