Uma em cada dez espécies de árvores do Parque Estadual Nascentes do Paranapanema está em risco de extinção

arvore mata atlantica

Foto: Rafaela Valeck/Arquivo Pesquisador

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Apesar da vegetação de Mata Atlântica do Parque Estadual Nascentes do Paranapanema estar em excelente estado de conservação, 10% de suas espécies de árvores estão ameaçadas de extinção. Cientistas do Instituto de Pesquisas Ambientais do Estado de São Paulo (antigo Instituto Florestal) chegaram a esse diagnóstico ao catalogar 204 espécies vegetais predominantemente arbóreo-arbustivas Serra de Paranapiacaba, em Capão Bonito, na região do Alto Vale, no interior de São Paulo. Os resultados dessa catalogação estão descritos em artigo publicado na sexta (30) na “Revista do Instituto Florestal”.

O estudo foi realizado de janeiro a abril de 2012 — ano em que o parque, que tem mais de 22 mil hectares, foi criado para garantir a preservação da região. As análises das espécies de árvores coletadas foram feitas no Herbário Dom Bento José Pickel. Das 21 espécies ameaçadas de extinção, em nível estadual, nacional ou global, destaca-se o carvalho brasileiro Euplassa cantareirae, espécie classificada como extinta para São Paulo e em perigo para o Brasil. “A quantidade de espécies ameaçadas de extinção para o estado de São Paulo, Brasil ou mundialmente mostra a qualidade do ambiente e da floresta presente no parque”, aponta Frederico Arzolla, um dos autores do artigo. A Mata Atlântica é um dos biomas mais ameaçados do planeta, restando apenas 12,4% da cobertura vegetal original no país, aponta a pesquisa.

Na área do Parque Estadual Nascentes do Paranapanema, quase 80% do território é formado por Floresta Ombrófila Densa, que ocorre principalmente na região litorânea paulista. “Nessa formação as espécies são perenifólias, pois há água em abundância para as plantas”., afirma Arzolla. Para os pesquisadores, à medida que forem realizados estudos futuros na região, envolvendo outros hábitos de plantas, a flora do parque pode alcançar mais de 600 espécies.

A área também apresenta mais de 1 mil nascentes de rios bem preservadas. Manter a conservação do local ajuda a reduzir o efeito de borda, ou seja, diminui as mudanças que acontecem em áreas de floresta próximas de regiões desmatadas. Além das espécies vegetais, o Parque Estadual Nascentes do Paranapanema é casa de espécies de animais ameaçadas de extinção, como as onças-pintadas.

De acordo com os cientistas, a área do parque se mantém bem conservada porque é de difícil acesso. “Existem várias atividades econômicas nessa região, como pecuária, agricultura e mineração, então foi uma descoberta positiva”, avalia Claudio Moura, também autor do artigo.

O Parque Estadual Nascentes do Paranapanema é aberto à visitação do público, mas é considerado de suma importância para cientistas que pesquisam diversos aspectos da Mata Atlântica e para mitigar efeitos das mudanças climáticas. “Criar unidades de conservação deveria ser uma atividade mais frequente”, opina Moura.


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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Bori [Aqui!].

No XV Confict, estudantes da Uenf apresentam estudos que colocam em xeque a eficácia e a benignidade de agrotóxicos em relação à polinizadores

Estive hoje acompanhando um dos meus orientandos na apresentação do seu trabalho de Iniciação Científica no âmbito XV Congresso Fluminense de Iniciação Científica e Tecnológica (CONFICT). E como é comum nessas ocasiões, aproveitei para ver o que outros estudantes da Uenf estão fazendo em suas pesquisas.  A minha caminhada pelas centenas de posters foi interrompida quando me defrontei com três trabalhos orientados pelo professor Gerson Adriano Silva, do Laboratório de Entomologia e Fitopatologia (LEF) do Centro de Ciências e Tecnologias Agropecuária.

O que me despertou o interesse, já que acompanho a matéria há mais de 20 anos, foi a avaliação realizada pelos orientador do professor Gerson Adriano Silva de 7 agrotóxicos quanto à sua eficiência para remover infestações, a dose letal necessária para uma dada praga, e ainda os impactos sobre a abelha cachorro, um importante polinizador para várias culturas. 

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No caso dos efeitos dos inseticidas Clorfenapir (proibido na União Europeia, Lambda Cialotrina e Metomil (proibido na União Europeia), a principal descoberta se refere ao fato de que a exposição das abelhas cachorro  (T. spinipes) a  esses agrotóxicos impacta a capacidade de voo delas.  O resultado é que as abelhas tendem a demorar mais tempo para retornar para as colmeias, com impactos diretos na sustentação das mesmas. Na conversa com o estudante que realizou a pesquisa, ele me informou que a abelha cachorro é um importante polinizador justamente para as culturas nas quais os inseticidas são aplicados.

O segundo experimento fez uma avaliação de efetividade do inseticida organofosforado Malationa contra a lagarta do inseto Plutella xylostella (ou a traça das crucíferas), um inseto da microlepidópteros, que causa prejuízos consideráveis nas culturas da couve, couve-flor e repolho, penetram na epiderme da folha e causam a destruição da mesma.  O Plutella xylostella ocorre nas culturas da alface, beterraba, brócolis, chicória, entre outras. Neste caso, o problema é que a dose letal (DL) determinada foi 74 vezes maior do que a dose recomendada, tornando o uso desse agrotóxico de nenhuma utilidade para a erradição de infestações de Plutella xylostella. Em outras palavras, qualquer uso da malationa para a traça das crucíferas é basicamente um desperdício de dinheiro.

O terceiro experimento se referiu à avaliação dz eficácia de 3 agrotóxicos (2 de controle biológico e outro o Lambda Cialotrina) contra a Spodotera frugiperda (conhecida como lagarta do cartucho) que é especialmente prejudicial em plantios de milho. Aqui a “surpresa” é que o Lambda Cialotrina apresentou uma eficácia quase 5 vezes menor do que a bioinseticida Tracer, enquanto o bioinseticida Dipel teve uma eficácia ainda menor do que a do Lambda Cialotrina. O problema aqui é a diferença de custo entre o Tracer e o Lambda Cialotrina é de 7 por 1.  Com isso, os agricultores podem estar comprando e aplicando mais doses de Lambda Cialotrina para aumentar a taxa de letalidade do inseto alvo, levando junto outros insetos, inclusive insetos não alvo, incluindo polinizadores.

Pessoalmente considero essas pesquisas de muita importância e fico feliz que estudantes de Agronomia as estejam realizando este tipo de pesquisa, na medida em que seus resultados poderão impactar diretamente as práticas agrícolas para as quais eles estão sendo treinados para organizar e avaliar. 

Gigante chinesa recebe bilhões para garantir soja sustentável no Brasil, mas compra de desmatadores

Cofco assinou maior empréstimo do planeta vinculado a metas sustentáveis, mas investigação mostra caminho de grãos de áreas desmatadas até seus armazéns, em Mato Grosso

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Por Poliana Dallabrida e Sasha Chavkin para a Repórter Brasil

Em julho de 2019, a multinacional chinesa Cofco, uma das principais compradoras da soja brasileira, anunciou a assinatura do maior contrato de empréstimo vinculado a critérios de sustentabilidade do mundo recebido por uma empresa de commodities: 2,3 bilhões de dólares. Desde então, a linha de crédito já foi renovada em duas oportunidades – a última delas em julho do ano passado.

O Brasil tem um papel central nessa conquista: os 19 bancos responsáveis pelo financiamento bilionário, entre eles o espanhol Banco Bilbao Vizcaya Argentaria (BBVA), que coordena o negócio, só aceitaram oferecer capital a juros baixos porque a Cofco se comprometeu a garantir a rastreabilidade da soja adquirida por fornecedores diretos no país, além de atingir outras metas de sustentabilidade em suas operações.

Mas uma investigação da Repórter Brasil, em parceria com a Rainforest Investigations Network, do Pulitzer Center, mostra que no mesmo período em que desfrutava do crédito verde a juros reduzidos, a trading estava recebendo em seus armazéns soja produzida em um complexo agrícola com áreas de desmate recente.

As compras foram realizadas com intermediação da Nutrade Comercial Exportadora, subsidiária da multinacional suíça Syngenta. Ou seja, a aquisição dos grãos pela companhia chinesa se deu de forma indireta – e por isso não descumpre a meta do empréstimo bilionário, de rastreamento de fornecedores diretos. Mas mostra que a Cofco ainda tem um longo caminho para alcançar a aquisição de soja livre de desmatamento.

Armazéns da Cofco em Mato Grosso receberam soja plantada em áreas desmatadas no estado através de contratos com intermediários (Foto: Sasha Chavkin)

“Talvez não seja diretamente uma violação aos termos do contrato, mas é preocupante porque os bancos emprestaram a uma empresa que promete melhorar o rastreamento e, no entanto, não o faz ou não faz eficientemente bem. Se eu fosse um banco, estaria preocupado”, avalia Merel Van der Mark, coordenadora da Coalizão Florestas & Finanças, plataforma que analisa os financiamentos recebidos por empresas do agronegócio que potencialmente podem causar danos socioambientais.

A reportagem utilizou bases de dados públicas, imagens de satélite e documentos obtidos com exclusividade e descobriu que parte dos grãos adquiridos pela Cofco no Mato Grosso em 2021, maior produtor nacional, foi cultivada em áreas desmatadas do Cerrado e da Amazônia.

Inicialmente, a Cofco negou qualquer relação comercial com as fazendas de soja mapeadas por esta investigação. Depois de ter acesso às notas fiscais e contratos obtidos pela reportagem, a trading mudou o discurso: “Atualmente, estamos trabalhando para aumentar a rastreabilidade das compras indiretas, o que nos levará a reforçar nossos controles e monitoramento de risco para esta parte da cadeia de fornecimento” e destacou que os compromissos assumidos nos empréstimos vinculados à critérios de sustentabilidade dizem respeito apenas aos seus fornecedores diretos.

Já a Nutrade afirmou que, no momento da compra, todos os fornecedores cumpriam as regulamentações ambientais e não se encontravam na lista de embargos do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis). Leia as respostas na íntegra aqui.

Violação da Moratória da Soja

Um desses casos é o do produtor João Luiz Lazarotto, dono das fazendas União e União II, em Tapurah, município localizado na Amazônia. As propriedades, coladas uma na outra, totalizam 9,5 mil hectares, e são destinadas aos cultivos de soja, algodão e milho.

Notas fiscais emitidas pela Nutrade e obtidas pela Repórter Brasil mostram diversos envios de soja da Fazenda União, em fevereiro de 2021, para o armazém da Cofco International em Lucas do Rio Verde, também em Mato Grosso. Outro documento acessado pela investigação reforça a parceria comercial entre a trading e o produtor: um contrato de compra e venda assinado em janeiro de 2021 entre a Nutrade e a Cofco prevê a retirada de 1,8 milhão de toneladas de soja do armazém de João Lazarotto pela multinacional chinesa.

Imagens de satélite acessadas pela Repórter Brasilrevelam que 650 hectares de vegetação nativa foram desmatados dentro da Fazenda União II em 2017. O desmatamento não ocorreu ilegalmente. No mesmo ano, Lazarotto recebeu autorização da Secretaria do Meio Ambiente do Estado do Mato Grosso (Sema-MT) para desmatar 689 hectares na propriedade.

Imagens de satélite revelam desmate de centenas de hectares em propriedade de Lazarotto no ano de 2017, área depois cultivada com lavouras (Foto: Reprodução Google Earth)

Segundo análise feita com imagens da plataforma MapBiomas, corroborada por outros sistemas de satélite, a área desmatada na Fazenda União II foi destinada ao cultivo de soja já em 2018 – o que estaria em desacordo com  a Moratória da Soja, acordo que prevê o boicote à aquisição do grão plantado em áreas desmatadas da Amazônia após julho de 2008. A Cofco é uma das signatárias.

Mas segundo a Abiove (Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais) – que representa as indústrias signatárias da moratória e integra o Grupo de Trabalho da Soja (GTS), responsável pelo monitoramento do pacto – a área desmatada se destinava ao plantio de arroz. Por isso, o produtor João Luiz Lazarotto não integra a lista atual de propriedades bloqueadas, segundo a associação. “Entretanto, há indícios que o produtor produziu soja não conforme na safra 2022 e 2023. Caso confirmado, ele passará a constar na Moratória da Soja a partir deste ano”, complementou a entidade. Leia as respostas na íntegra aqui.

Já a Cofco afirmou que conseguiu detectar, por meio de imagens de satélite, que a soja adquirida de Lazarotto foi cultivada na Fazenda União, área sem registro de desmatamento, “já que a outra área (Fazenda União II) só começou a colheita em 21 de abril e nosso contrato com a Lazarotto via Nutrade foi 100% recebido em 21 de fevereiro”.

No entanto, durante a entrevista concedida para esta reportagem, realizada 8 meses depois do fim do contrato com a Nutrade, Lazarotto afirmou que é também era fornecedor direto da Cofco, seu segundo maior cliente, segundo o próprio produtor. Confrontada com este fato, a Cofco não se manifestou.

João Luiz Lazarotto confirma que é fornecedor da Cofco e vende, também, sem intermediários para a companhia (Foto: Giovanny Vera)

Mesmo com o possível impacto comercial, o produtor, que também forneceu para a brasileira Amaggi, afirma que seguirá com o desmatamento na Fazenda União II. “Eu tenho direito de abrir mais 350 hectares. Está na lei, e eu vou abrir esses 350 hectares”, garante, referindo-se ao percentual de 20% da propriedade que pode ser desmatado legalmente na Amazônia, sempre que autorizado pelo órgão ambiental. “Essa Moratória da Soja tem que ser revista”, defende Lazarotto.

Dois cadastros, mesma propriedade

Em seus esclarecimentos, a Cofco também informa que adquire soja originada apenas no Cadastro Ambiental Rural (CAR) da fazenda União. Apesar da divisão da propriedade em duas áreas – União e União II –, Lazarotto possui inscrição estadual apenas na primeira. Este documento é obrigatório para a emissão de notas fiscais. Ou seja, qualquer produção agrícola da União II necessariamente será repassada ao mercado com outro documento fiscal – talvez o da União, evidenciando o risco de “contaminação” dos grãos cultivados na fazenda União com a soja plantada na área desmatada.

A Repórter Brasil visitou a propriedade de Lazarotto em setembro de 2022 e constatou que as duas áreas de lavoura das propriedades contíguas ficam distantes pouco mais de um quilômetro uma da outra e são unidas por uma estreita faixa de terra cultivada – este corredor permite o manejo integrado das duas fazendas, bem como o transporte dos grãos da União II até os silos de armazenamento, que estão localizados na União.

Fazendas União e União II produzem grãos, mas apenas uma possui inscrição estadual e silos de armazenamento (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

“O fato de a declaração comercial ser proveniente de um CAR não significa que a produção não seja proveniente de outro. É uma interpretação errada das empresas considerar o CAR como uma declaração de propriedade”, explica Joana Faggin, consultora da organização holandesa Aidenvironment. Ela ressalta que não é incomum que proprietários dividam uma mesma área em vários CARs com outro propósito, como excluir áreas irregulares da propriedade nomeada no registro comercial da fazenda. “O comprador da commodity precisa considerar o que está acontecendo em toda a área e verificar se existe algum desmatamento ou outra irregularidade”.

Desmatamento para plantio ameaça Cerrado

Outro caso mapeado pela reportagem é de um fornecedor da Cofco International no Cerrado, segundo bioma mais desmatado do país, atrás da Amazônia. A região é central para o setor da soja: 52% do grão cultivado no país está concentrado em municípios do bioma.

Em março de 2021, a Uggeri Agropecuária, localizada em Nova Mutum, fez diversas entregas de soja ao armazém da trading chinesa em Lucas do Rio Verde, também em Mato Grosso. Assim como no primeiro caso, um contrato de compra e venda de novembro de 2020 firmado entre a Cofco e a Nutrade mostra a promessa de entrega de 1,3 toneladas de soja com origem na Uggeri Agropecuária.

A empresa é dona da Fazenda Ranchão, onde cultiva grãos e cereais. Na propriedade contígua Fazenda Ranchão II, três áreas foram embargadas pela Sema-MT em agosto de 2015. Imagens de satélite mostram que a Uggeri Agropecuaria continuou a plantar na área embargada, inclusive durante o período de suas vendas para a Cofco, o que constitui uma violação aos compromissos que assumiu publicamente, segundo especialistas que analisaram o caso a pedido da reportagem.

Em 2015 a Fazenda Ranchão, da Uggeri, foi multada por desmates além do limite autorizado e por isso sua área foi embargada (Foto: Sasha Chavkin)

Segundo o Código Florestal, é proibido realizar qualquer atividade econômica em áreas embargadas, que devem ser preservadas para a recuperação da vegetação nativa. Por sua vez, a Política de Fornecimento Sustentável de Soja da Cofco, diz que a empresa adquire soja apenas de produtores que estejam de acordo com legislações ambientais federais, estaduais e municipais, e que respeitem áreas embargadas e acordos setoriais. Tais políticas são aplicáveis “a todos os fornecedores, diretos e indiretos”.

Mas isso nem sempre é aplicado. No caso da Uggeri, a empresa tinha autorização do órgão estadual para desmatar 992 hectares na propriedade em junho de 2012. A área desmatada, no entanto, ultrapassou o limite permitido, e em agosto de 2015 a Uggeri Agropecuária recebeu três multas: uma por destruir 3,15 hectares de vegetação nativa em Área de Preservação Permanente, outra por desmatar 22,2 ha em área de reserva legal e a terceira por não atender solicitação do órgão ambiental. Pelas três infrações, a empresa foi multada em R$ 157 mil, além de ter as áreas embargadas.

Em janeiro deste ano, as áreas bloqueadas na Fazenda Ranchão II foram desembargadas pela Sema-MT – portanto, durante a vigência do contrato com a Nutrade, a soja produzida nessa área era irregular. A Repórter Brasil entrou em contato com a empresa e com a secretaria estadual para esclarecer o motivo do desembargo e para ouvir a versão dos fatos da produtora de soja.

À reportagem, a Sema-MT afirmou apenas que o desembargo à Fazenda Ranchão II, ocorrido no dia 16 de janeiro de 2023, “está embasado no artigo 15B do Decreto Federal nª 6514/2008. O artigo em questão afirma que uma área poderá ser desembargada caso a empresa ou indivíduo autuado apresente documentação que regularize a obra ou atividade na área. Leia a resposta completa aqui. A Uggeri Agropecuária não respondeu às tentativas de contato. O espaço segue aberto para manifestações futuras.

Assim como no caso do produtor Lazarotto, a Cofco afirmou que a Fazenda Ranchão está dividida em três CARs e que adquiriu soja apenas do cadastro sem irregularidades ambientais. Leia as respostas na íntegra aqui.

Metas repetidas e falta de transparência

A obtenção das vantagens financeiras de empréstimos ligados a critérios de sustentabilidade – mais conhecidos pelo seu termo em inglês Sustainability-Linked Loans –, como juros baixos ou flexibilidade no prazo de pagamento da dívida, tem como contrapartida o cumprimento de metas pré-acordadas junto aos financiadores, avaliadas por meio de indicadores-chave de desempenho (KPI ou Key Performance Indicator, no termo em inglês).

Nessa modalidade de empréstimo, cada meta de sustentabilidade é auditada anualmente por uma terceira-parte independente. As metas e os prazos para o cumprimento de cada promessa, no entanto, não são públicos em contratos desse tipo.

Por outro lado, não há legislações nacionais que determinem o que é e o que não é uma operação financeira ligada a critérios de sustentabilidade. Sequer as regras do mercado financeiro possuem força para obrigar o cumprimento dos objetivos propostos em contratos deste tipo.

Empresas de grãos prometem metas de sustentabilidade, mas não conseguem garantir rastreabilidade completa de suas cadeias produtivas (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

“O que existem são princípios que norteiam esse tipo de investimento. Todas as operações que querem ter credibilidade vão ser baseadas nesses princípios. Mas como o próprio nome já diz, são princípios, não são diretrizes”, ressalta Cristóvão Alves, diretor de pesquisa e avaliação ESG [Ambiental, Social e Governança, na sigla em português] da consultoria NINT, comprada em fevereiro pela ERM, maior consultoria global de sustentabilidade.

No primeiro contrato “verde” assinado pela Cofco International, em julho de 2019, a multinacional divulgou que, entre as metas acordadas, estavam a de “melhoria anual da performance ESG” e de “aumentar a rastreabilidade de commodities agrícolas, com foco para a aquisição direta de soja no Brasil”. A renovação dos acordos, nos anos seguintes, porém, não ensejou mudanças nas promessas, que seguiram sendo exatamente as mesmas inclusive em julho de 2022, na mais recente renovação.

“Como não tem transparência e não há regras definidas, é um mercado de faroeste. Qualquer um pode chamar um empréstimo de Sustentability-Linked”, avalia Merel Van der Mark, da Florestas & Finanças. “O que vemos é que fazem muita publicidade sobre isso: ‘é o maior Sustainability Linked Loan’, mas não fazemos ideia de qual foi acordo e nem se o acordo está sendo cumprido”.

Lavouras de grãos são um importante vetor de desmatamento na Amazônia e no Cerrado brasileiros (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

Alves pondera que o mercado de dívida sustentável ainda é recente e tem espaço para desenvolvimento e adequações. Como resposta, defende mais transparência. “Seria bem importante, até para operações bilaterais, entre um banco e uma empresa, ter algum nível de transparência. Quais são os indicadores? Quais são as metas? Não são aspectos tão confidenciais e estratégicos assim. Passa um pouco a impressão de que as empresas só divulgam quando há obrigação”.

À reportagem, a Cofco International afirmou que os contratos, os indicadores de desempenho e as vantagens obtidas na aquisição dos empréstimos vinculados a critérios de sustentabilidade são confidenciais. A reportagem também questionou o BBVA, coordenador do consórcio que forneceu e renovou os financiamentos bilionários à Cofco, se os casos de desmatamento ligados a fornecedores de soja da trading não violariam as regras estabelecidas em contrato. O banco declarou apenas não poder fornecer nenhuma informação sobre a relação com seus clientes. Leia as respostas na íntegra aqui.

Regras para diretos e indiretos

Em 2020, a Cofco anunciou a meta de rastrear toda a soja adquirida de forma direta no Brasil até este ano. Não há nenhuma menção ou meta específica relacionada ao monitoramento de fornecedores indiretos nos anúncios dos empréstimos obtidos desde 2019.

Em resposta à reportagem, a Cofco afirmou “embora este tópico seja uma prioridade, os fornecedores indiretos de soja não estão incluídos em nossos últimos KPIs [indicadores-chave de desempenho] de empréstimos”. Leia as respostas na íntegra aqui.

O rastreamento dos indiretos é um dos principais gargalos do setor, já que o maior número de irregularidades ambientais acontecem nessa etapa “oculta” do fornecimento do grão. Ainda que a passos lentos, esse monitoramento já é realidade no setor: a brasileira Amaggi afirma ter 26% de rastreabilidade das aquisições indiretas de soja na Amazônia e no Cerrado e a americana Bunge divulgou ano passado ter atingido 64% do monitoramento de indiretos no Cerrado. A Cofco não divulga a porcentagem de fornecedores indiretos rastreados.


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Este texto foi inicialmente publicado pela ONG Repórter Brasil [Aqui!].

O desmatamento avança. Perda florestal aumenta apesar dos votos na Cúpula do Clima

yangambi_Congo_forestUm terreno aberto para agricultura na floresta de Tshopo, República Democrática do Congo. Recentemente, a perda de floresta primária tropical em todo o mundo aumentou dez por cento. Direitos autorais: Axel Fassio/CIFOR , (CC BY-NC-ND 2.0)

As maiores perdas ocorrem no Brasil, na República Democrática do Congo (RDC) e na Bolívia – lar das maiores e mais significativas florestas tropicais do mundo, de acordo com os dados de perda de cobertura de árvores da Universidade de Maryland em 2022, apresentados pelo Instituto de Recursos Mundiais (WRI) Observação Florestal Global.

Os novos dados mostram que em 2022 os trópicos perderam 4,1 milhões de hectares (10,1 milhões de acres) de floresta tropical primária – uma área aproximadamente do tamanho da Suíça – a uma taxa equivalente a 11 campos de futebol por minuto.

“Globalmente, estamos muito longe do caminho certo e indo na direção errada quando se trata de reduzir o desmatamento.”

Rod Taylor, diretor global de florestas, World Resources Institute

Isso representa um aumento de dez por cento em relação a 2021 e resultou em 2,7 gigatoneladas de emissões de dióxido de carbono – equivalente às emissões anuais de combustíveis fósseis da Índia, de acordo com a análise.

As florestas abrigam mais de 80% das espécies terrestres de animais, plantas e insetos e fornecem abrigo, empregos e segurança para as comunidades que as habitam, diz  a ONU . E estima-se que a perda e os danos florestais causem cerca de  10% do aquecimento global.

Na conferência do clima COP26 da ONU em Glasgow em 2021, 145 países se comprometeram a  interromper e  reverter  o desmatamento até 2030, enquanto na COP27 de novembro passado no Egito,  27 países se uniram para acelerar as ações em relação a essas promessas.

No entanto, o WRI diz que as metas não serão alcançadas na trajetória atual, com declínios na perda de florestas não se concretizando.

“Globalmente, estamos muito longe do caminho e seguindo na direção errada quando se trata de reduzir o desmatamento”, disse Rod Taylor, diretor global de florestas do WRI, em uma coletiva de imprensa em 21 de junho.

“Nossa análise mostra que o desmatamento global em 2022 foi mais de 1 milhão de hectares acima do nível necessário para atingir o desmatamento zero até 2030”, acrescentou.

A perda de florestas é vista como uma questão fundamental no combate às mudanças climáticas , pois o carbono é removido do ar pelas florestas vivas e emitido quando as árvores são derrubadas ou degradadas.

No Brasil, a taxa de perda de florestas primárias aumentou 15% de 2021 a 2022, principalmente na Amazônia. A perda geral do país representou mais de 40% do total global.

Incêndios e exploração madeireira

Marcos Pedlowski, professor associado da Universidade Estadual do Norte do Rio de Janeiro, no Brasil, disse ao Scidev.Net que o desmatamento – a remoção total de árvores – é apenas parte do problema.

“Embora os números possam ser vistos como dramáticos, eles não contam toda a história porque há outro elemento concomitante de mudança na cobertura da terra, que é a degradação florestal”, explicou.

As áreas degradadas, por exemplo, por incêndios e extração seletiva de madeira, são ainda mais comuns do que aquelas que estão sendo desmatadas, disse Pedlowski.

“Como resultado, há muito mais motivos de preocupação em relação ao empobrecimento das áreas florestais”, acrescentou.

Em relação ao Brasil, que abriga a maior área de floresta tropical do planeta, Pedlowski apontou uma combinação de fatores que impulsionam o desmatamento e a degradação.

“Alguns impulsionadores estão diretamente ligados ao que podemos chamar de desmatamento legal… ligados a políticas e projetos governamentais que apoiaram o crescimento da agricultura, extração seletiva de madeira e mineração”, disse ele.

Pedlowski acredita que essas tendências expõem as fraquezas das instituições e conferências multilaterais quando se trata de controlar a mudança florestal.

“Apesar das inúmeras reuniões e conferências, a tendência geral é de mais perdas e não o contrário”, acrescentou.

“Esta situação é ainda mais complicada pela complexa situação econômica global que foi agravada pela pandemia do COVID e pela guerra na Ucrânia e seu efeito na produção de alimentos.

“A menos que os comerciantes globais de grãos, madeira e carne levem a sério suas responsabilidades em relação à rastreabilidade de seus produtos e evitem comprar commodities produzidas em áreas desmatadas ilegalmente, não vejo como conseguir nenhuma mudança positiva”, acrescentou.

Preservação da floresta

Do lado positivo, a Indonésia reduziu sua perda de floresta primária mais do que qualquer outro país nos últimos anos, seguida pela Malásia, de acordo com o Global Forest Watch.

Intervenções do governo e programas corporativos e comunitários permitiram que os dois países mantivessem suas taxas de perda de florestas primárias tropicais perto de níveis recordes.

Os analistas atribuem o sucesso da Indonésia a políticas como a moratória da extração de madeira, monitoramento de incêndios e restauração de turfa, bem como ações corporativas eficazes.

M. Faiz Syuaib, engenheiro agrônomo e diretor de pesquisa, tecnologia e serviços comunitários do Ministério da Educação, Cultura, Pesquisa e Tecnologia da Indonésia, disse que o governo indonésio vem tentando ativamente preservar as florestas do país há mais de uma década.

A extração de madeira é limitada a empresas estatais e novas árvores devem ser plantadas para substituir as derrubadas, disse ele ao SciDev.Net .

Em áreas vulneráveis ​​a incêndios florestais, disse Syuaib, fossos cheios de água estão sendo construídos para impedir que os incêndios se espalhem.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela SciDev.Net [Aqui!].

Enquanto Brasil lidera desmatamento no mundo, governo Lula libera R$ 400 bilhões para o “ogronegócio” continuar sua marcha na Amazônia

Uma área de floresta tropical primária do tamanho da Suíça foi derrubada no ano passado, sugerindo que o compromisso dos líderes mundiais de interromper e reverter o desmatamento até 2030 está falhando

desmatamento fogo

De acordo com dados liberados pelo World Resources Institute no dia de ontem, o Brasil foi o campeão de desmatamento no mundo, com as perdas de florestas nativas representando 43% de tudo o que desmatado no planeta em 2022, com o impressionante desaparecimento de 1,4 milhões de hectares.  Com isso, as emissões de carbono do Brasil em função da mudança da cobertura vegetal  foram de 1,2 Gt C02 sendo emitidas, ou 2,5 vezes as emissões anuais de combustíveis fósseis do nosso país.

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Brasil, República Democrática do Congo e Bolívia ficaram entre os três primeiros em perda de floresta tropical primária em 2022

Some-se a esses dados, o fato de que em 2022 (último ano de Jair Bolsonaro no poder), a variação em relação a 2021 aumentou em 20%, o que implica a maior perda de floresta primária sem fogo aumentou  desde 2005  (ver figura abaixo).

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E sabemos que no Brasil os responsáveis por essas taxas astronômicas são os membros do chamado “ogronegócio” que avançam a franja de desmatamento na mesma velocidade em que deixam terras abandonadas para trás, visto que não há qualquer compromisso com a adoção de formas minimamente sustentáveis de uso da terra.

Entretanto, nem esse cenário de terra arrasada detém a influência do “ogronegócio” em abocanhar pesadas fatias de dinheiro público para subsidiar suas atividades destruidoras.  Uma prova disso é o fato de que nesta terça-feira, dia 27, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro da Agricultura e Pecuária (Mapa), Carlos Fávaro, lançam o Plano Safra 2023/2024.  Segundo fontes ligadas  ao “ogronegócio”, informações de bastidores indicam que será um plano histórico, que deve ultrapassar os R$ 400 bilhões.

O ato de lançamento de mais essa rodada de entrega de dinheiro para destruir os principais biomas florestais deverá ocorrer às 10 horas, em Brasília. E que soem as motosserras em festiva celebração, e junto com elas as bombas costais para despejar agrotóxico!

Clorotalonil: um agrotóxico altamente perigoso continua sendo exportado da Europa para o resto do mundo

A União Européia e a Suíça ainda exportam o clorotalonil, um fungicida comercializado pela Syngenta e outras empresas, apesar de terem proibido o uso desse produto químico em suas próprias fazendas devido ao seu potencial de contaminar os lençóis freáticos e causar câncer. Os principais destinos são países de baixa e média renda, onde os governos não têm capacidade de administrar os riscos desse perigoso agrotóxico

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Por Laurent Gaberell para a Public Eye

“É um desastre como os produtores de água potável provavelmente nunca enfrentaram”, escreveu o Le Monde em 5 de abril, após a divulgação de um relatório da Agência Nacional Francesa de Saúde e Segurança Alimentar, Ambiental e Ocupacional (Anses), alertando que a água potável na França é amplamente poluída por metabólitos de clorotalonil. Cerca de um terço da água distribuída no país não cumpre as normas de qualidade. Consertar o problema pode custar bilhões.

Também na Suíça, o clorotalonil chegou recentemente às manchetes . De acordo com dados coletados pelas autoridades cantonais, 700.000 pessoas estão expostas a metabólitos de clorotalonil em sua água potável em níveis que excedem o valor limite. O Planalto Suíço, intensamente utilizado para a agricultura, é a principal região afetada. O Escritório Federal para o Meio Ambiente (FOEN) alertou que o clorotalonil pode “prejudicar significativamente as águas subterrâneas por muitos anos”. O custo da limpeza pode levar a um aumento de 75% no preço da água.

Exportações tóxicas

Comercializado pela primeira vez na década de 1970, o clorotalonil foi por muito tempo um dos fungicidas mais vendidos na Suíça e na União Europeia (UE). Em 2019, no entanto, foi banido da UE, depois que a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) recomendou que a substância fosse classificada como um provável carcinógeno humano e identificou uma “preocupação crítica” em relação à contaminação de águas subterrâneas por metabólitos de clorotalonil. – as substâncias criadas quando o produto químico começa a se decompor no meio ambiente, que também são prejudiciais à saúde. O clorotalonil também foi proibido na Suíça imediatamente depois disso.

Inauguração de um centro de produção na fábrica da Syngenta em Monthey, a maior fábrica da empresa no mundo

No entanto, três anos depois de bani-lo de seus próprios campos, a UE e a Suíça ainda permitem que fabricantes como a Syngenta exportem clorotalonil para países de baixa e média renda (LMICs), onde as regulamentações são mais permissivas. Esta é a principal conclusão de uma nova investigação da Public Eye e Unearthed , com base em documentos obtidos de autoridades europeias sob as regras de liberdade de informação. Isso mostra que, em 2022, quase 900 toneladas de clorotalonil foram “notificadas” para exportação da UE.

Mais da metade dos embarques teve como destino países da África, em especial Egito, Argélia e Camarões, onde os governos não dispõem de recursos adequados para evitar a contaminação ambiental pelo uso de agrotóxicos. Colômbia, Filipinas e Guatemala também estiveram entre os principais destinos. As agências da ONU alertam que nesses países o risco de exposição humana e ambiental é, “quase sem exceção”, muito maior do que na Suíça e na UE, onde o uso do clorotalonil foi proibido.

Veneno na agua

A UE enviou pelo menos 130 toneladas de clorotalonil para a Costa Rica desde que aprovou uma proibição doméstica de seu uso em 2019. Neste país da América Central, o governo tem que fornecer água a algumas comunidades por caminhão, depois que a água da torneira foi descoberta fortemente contaminados pelo pesticida, mostra nossa investigação . Os ministérios do meio ambiente e da saúde temem que essa contaminação se espalhe por toda a região agrícola do norte da província de Cartago, onde vivem dezenas de milhares de pessoas.

As autoridades da Costa Rica devem entregar água potável por caminhão à população de Cipreses e Santa Rosa, devido à poluição por clorotalonil.  ©José Díaz / Public Eye

A Syngenta, gigante agroquímica com sede na Suíça, foi a maior exportadora de clorotalonil, respondendo sozinha por mais de 40% (quase 380 toneladas) dos volumes de produtos de clorotalonil notificados para exportação da UE em 2022. Arysta Lifescience, que agora faz parte da Índia A empresa multinacional de pesticidas UPL, sediada na Itália, a Sipcam Oxon, com sede na Itália, e a Cheminova, uma subsidiária da gigante americana de pesticidas FMC, também notificaram o clorotalonil para exportação em 2022 da Bélgica, Itália, Holanda e Espanha.

A Suíça também exporta clorotalonil, apesar de ter proibido seu uso em seu próprio território. Impossível, porém, saber a verdadeira dimensão dessas exportações e os principais destinos. O clorotalonil ainda não está listado na legislação suíça que regula a exportação de produtos químicos perigosos e, portanto, as empresas não têm obrigação de notificar suas exportações às autoridades. No entanto, dados obtidos junto das autoridades europeias mostram que em 2022 foram notificadas pela Syngenta quase 30 toneladas para exportação da UE para a Suíça, para reexportação para países terceiros.

Fechando a torneira

Mas o laço está apertando os gigantes agroquímicos. Tanto a Bélgica quanto a Alemanha, que são os principais exportadores de clorotalonil da UE, estão seguindo oexemplo da Françae avançando com planos de proibição nacional da exportação de pesticidas proibidos, embora os regulamentos propostos enfrentem forte resistência da indústria. Uma proibição de exportação de pesticidas proibidos também poderia ser adotada a nível da UE. A Comissão Europeia comprometeu-sea apresentar propostas concretas este ano para “garantir que os produtos químicos perigosos proibidos na União Europeia não sejam produzidos para exportação”. Isso ocorreu logo após a publicação de umainvestigação anterior da Unearthed and Public Eye sobre as exportações proibidas de pesticidas.

A estratégia enfrentaforte oposiçãodo lobby químico. Mas acaba de ser lançada uma consulta públicae a Comissão confirmou que ainda tenciona apresentar uma proposta antes do final do ano. Ao lançar a consulta, o comissário do Meio Ambiente, Virginijus Sinkevičius,disse quea UE “não seria consistente em sua ambição de um ambiente livre de tóxicos se produtos químicos perigosos que não são permitidos para uso na UE ainda pudessem ser produzidos aqui e depois exportados”.

Os lobbies, portanto, ainda não ganharam o dia. E o Parlamento Europeu e os Estados-Membros têm em mãos outraproposta da Comissão , que visa consagrar na lei a obrigação de as empresas respeitarem os direitos humanos e o ambiente quando operam no estrangeiro. Essas novas regras – desde que se apliquem a toda a cadeia de valor, incluindo o uso de produtos – podem obrigar as empresas de pesticidas a levar a sério os riscos associados ao uso de seus produtos em países mais pobres. Mais uma pedra no sapato dos gigantes agroquímicos.


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Este texto inicialmente escrito em inglês foi publicado pela ONG Public Eye [Aqui!].

Lei vira fumaça e queimadas da cana continuam poluindo a atmosfera em Campos dos Goytacazes

Em 20 de junho de 2011, o então governador Sérgio Cabral assinou a Lei No. 5.990 que dispunha sobre a eliminação gradativa da queima da palha da cana-de-açúcar e dava outras providências no sentido de finalmente acabar com a prática centenária de poluir anualmente a atmosfera do município de Campos dos Goytacazes com material particulado e produtos químicos nocivos (incluindo resíduos de múltiplos agrotóxicos) ao meio ambiente e à saúde humana. Entre outras coisas, a Lei No. 5.990/2011 estabelecia prazos para a erradicação da queimada no território fluminense (i.e., 2020 para lavouras implantadas em áreas passíveis de mecanização da colheita e 2024 para áreas não passíveis de mecanização).

No entanto, passados 12 anos da promulgação daquela importante lei, contudo, a prática continua de forma célere e faceira, como bem demonstram as imagens abaixo.

Com isso, em um período particularmente que favorece a manutenção dos agentes poluentes no ar, enquanto o material particulado mais grosseira cai sobre nossa cidade, o que deveremos ter é aquele aumento sazonal de pessoas com doenças respiratórias, sendo que muitas delas terão de recorrer a recursos particulares escassos para arcar com o custo das inevitáveis inalações, especialmente em idosos e crianças.

Enquanto isso, há um completo silêncio das autoridades responsáveis por acompanhar a aplicação da lei de erradicação das queimadas de cana, a começar pelo Instituto Estadual do Ambiente (Inea), mas também do Ministério Público (tanto federal como estadual) que em diferentes momentos realizaram movimentos para fazer valer a Lei No. 5.990 .

O que não é possível será a continuidade de uma prática que se sabe causa graves consequências ambientais e sobre a saúde da população. Enquanto isso, a promessa de se modernizar o setor com colheitadeiras, essa foi para a fumaça junto com a Lei No. 5.990.

Desmatando para o ecoturismo. Estrada ameaça onça pintada no Parque Nacional do Iguaçu

fozIdílio enganoso na plataforma de visitantes das Cataratas do Iguaçu (Foz do Iguaçu, 21.6.2014)

Por Norbert Suchanek para o “Neues Deutschland”

A Mata Atlântica do Brasil é um dos ecossistemas mais biodiversos da Terra. No entanto, cerca de 90 por cento deles já foram destruídos. Desde 1993, os remanescentes da Mata Atlântica, que antes se estendia continuamente do norte da Argentina ao nordeste brasileiro por cerca de 1,3 milhão de quilômetros quadrados, estão sob proteção rigorosa da lei. No entanto, o desmatamento desse ecossistema, único no mundo, continua.

Parque Nacional Privatizado

De acordo com um relatório recente da organização ambiental SOS Mata Atlântica, mais de 20.000 hectares de floresta tropical foram queimados ou desmatados no ano passado. O maior desmatamento foi em Minas Gerais com 7.456 hectares de perda florestal, seguido da Bahia com 5.719 hectares e do Paraná com 2.883 hectares. Os dados divulgados em junho pela rede “Map Biomas” estimam que a destruição da floresta no Paraná foi ainda maior em mais de 4.000 hectares no ano passado. Enquanto grande parte do roubo da floresta ocorreu ilegalmente, a Mata Atlântica também está sendo devastada legalmente no sul do estado – e em nome do turismo ecológico.

A área ao redor dos 185.262 hectares do Parque Nacional do Iguaçu, famoso pelas maiores cachoeiras do mundo de mesmo nome, é afetada. Todos os anos, cerca de dois milhões de turistas visitam o parque nacional e as cachoeiras na fronteira com a Argentina. Para que ainda mais “turistas ecológicos” possam visitar a área protegida de carro, o governo está atualmente duplicando a única via de acesso – a chamada rodovia das cachoeiras – de Foz do Iguaçu em uma distância de 8,7 quilômetros. Centenas de árvores da Mata Atlântica já foram vítimas das obras.

Não houve críticas ou resistências significativas ao projeto de construção da estrada, que custou cerca de 30 milhões de euros, seja em Brasília ou no estado do Paraná, cujas principais fontes de renda são o cultivo da soja, a hidrelétrica de Itaipu e o ecoturismo de massa das Cataratas do Iguaçu.

O parque nacional, privatizado desde 1998, não tem importância mundial apenas por causa de suas cachoeiras. Também é considerado um dos últimos refúgios das onças-pintadas na região da Mata Atlântica. Em 1995, os biólogos do projeto “Carnívoros do Iguaçu” estimaram o número desse maior predador da América do Sul em 164 na área protegida e em 400 a 800 animais fora – incluindo a região fronteiriça na Argentina. A caça ilegal e os tiros dos fazendeiros de soja e gado do entorno e a diminuição dos queixadas, principal fonte de alimentação dos grandes felinos, reduziram drasticamente a população dentro do parque para nove a onze animais contados em 2009. De acordo com o último levantamento, cerca de 24 onças estão novamente circulando pelo santuário hoje.

Apenas restos da floresta

Segundo Atilio Guzmán, biólogo do Parque Nacional do Iguaçu, no lado argentino, a pressão da caça sobre os grandes felinos e suas presas não é a única razão para sua crescente ameaça. O desmatamento e a fragmentação da Mata Atlântica e os acidentes de trânsito nas estradas que cortam os remanescentes da mata também dificultaram a sobrevivência das onças. Em entrevista ao jornal espanhol El País em 2 de junho, Guzmán disse: “Não basta multar os caçadores ilegais se o problema subjacente não for resolvido – ou seja, o desmatamento do ecossistema em que vivem os gatos malhados.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

O governo Lula em vez de apoiar, se preocupa. E lá vai motosserra nas florestas brasileiras

A imagem abaixo traz uma reportagem assinada pelos jornalistas Nathalia Garcia e Thiago Rezende sobre o temor do governo Lula de que a nova regra ambiental da União Europeia que proibe a importação de bens ligados a desmatamento. 

Eu diria que preocupação em vez de apoio é um elemento definidor da via que o governo Lula decidiu adotar, muito em conformidade com o que foi praticado pelo governo anterior, de priorizar os ganhos mirrados do “ogronegócio” em detrimento dos interesses de longo prazo do Brasil, os quais passam pela proteção das nossas florestas.

É importante notar que a partir da entrada em vigor desta norma, o Brasil vai ter que parar de fazer teatro e efetivamente controlar o desmatamento na Amazônia e no Cerrado sob pena de ver fechado o mercado europeu para produtos como carne, cacau, café, óleo de palma, soja, borracha, madeira e itens derivados.

Ainda que alguns gritem “soberania nacional”, a verdade é que a União Europeia está nos prestando uma valiosa ajuda contra a destruição dos nossos biomas florestais.

 

exportação desmatamento

O estranho motim de Yevgeny Prigozhin e as possíveis consequências para a guerra na Ucrânia

Prigozhin

Passei parte de ontem acompanhando os bizarros acontecimentos na Rússia com o estranho motim (no melhor estilo “The Flash) de Yevgeny Prigozhin e seu pequeno exército de mercenários.  A coisa que parecia iria implodir o governo de Vladimir Putin, abrir um flanco estratégico contra a China, e interromper a guerra na Ucrânia acabou terminando tão rápido quando começou.

Ao longo das horas em que o motim de Prigozhin também foram marcadas por uma cobertura midiática que mais parecia coisa de torcida de futebol, pois a sucessão das mesmas imagens serviu para que todas as previsões mais otimistas dos serviços de inteligência ocidentais contra o governo Putin ganhassem ar de informação jornalística.

O fim do motim foi como uma espécie de água fria na mídia global que torcia pela derrocada de Putin, mas teve uma continuação na forma de comentaristas que apostam no enfraquecimento inevitável do presidente russo. 

Como alguém que lê também sites jornalísticos da Rússia todos os dias, acabei ficando sem uma opinião formada sobre o que realmente aconteceu, e das razões pelas quais começou e terminou o seu levante de vida curta.  A única que notei foi a disposição do governo Putin de “passar o rodo” em Prigozhin e seus mercenários.  Porque o rodo acabou não sendo passado, não se saberá imediatamente. Por outro lado, a ideia de que os mercenários de Prigozhin poderiam entrar e tomar Moscou só sobrevive no campo dos sonhos ocidentais.

A única certeza é que o governo de Vladimir Putin sobreviveu e Prigozhin vai ter que exilar na Bielo Rússia, onde terá que, à primeira vista, continuar vigiar as suas costas, laterais e dianteiras. É que se o levante foi real (algo que pode ser que não tenha sido), Putin não é conhecido por perdoar aqueles que se colocam no seu caminho ou afrontam o seu poder.

Em relação à guerra na Ucrânia, tendo lido o que Prigozhin e Putin declararam após o encerramento do motim, minha previsão é que a postura russa tenderá a se tornar mais dura e sangrenta.  É que vencido o motim, agora restará ao alto comando russo mostrar que Prigozhin está errado em suas considerações sobre a efetividade das forças armadas russas.